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A casa às costas

Domingos e a casa às costas: “Quando cheguei a Setúbal disseram-me: 'Aqui assa-se o melhor peixe'. E eu: 'Será? É que sou de Leça'”

A Tribuna Expresso inaugura aqui uma secção a que chamará “A Casa às Costas”. São histórias de treinadores e jogadores que passam a vida com a mala feita de um lado para o outro. A primeira é de Domingos Paciência que, nos últimos cinco anos, trocou de clube em todas as épocas. Depois do Braga, Paciência foi para Espanha, e depois Turquia (Kayserispor), voltou para o V. Setúbal, saiu para o APOEL (Chipre) e regressou a Lisboa onde treina atualmente o Belenenses. Casado e com três filhos, hoje já adultos, confessa que não gostou da sensação de desamparo que sentiu quando ficou sozinho, fora do país

Alexandra Simões de Abreu

Domingos Paciência nos tempos do Braga, quando levou os minhotos à final da Liga Europa contra o FC Porto, em 2011.

GLYN KIRK

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É muito diferente a experiência de ir para fora do país como jogador e depois como treinador?
É. Quando se é jogador vai-se já com um contrato estabelecido que à partida é para se cumprir. Ou seja, no minimo, um ano está garantido. O clube terá que o cumprir o contrato e provavemente será da vontade do jogador ficar ou sair. Já enquanto treinador temos consciência de que estamos dependentes dos resultados. E esses resultados são imediatos. Pode durar um mês, dois, três... Por isso é que se diz que o treinador tem que ter a mala sempre pronta. O jogador pode desfazer a mala pelo menos durante seis meses, um ano.

Isso influencia na decisão de levar ou não a família?
Sim. Como jogador levei a minha familia, como treinador não levo.

Porquê?
Como jogador, se os meus filhos estudarem terei sempre a possibilidade de assinar por dois ou quatro anos e assim tenho minimamente garantido que eles podem cumprir esses dois ou quatro anos escolares no sítio para onde vou. Como treinador pode acontecer ser despedido ao fim de dois ou três meses, e ter que ficar lá uma época toda em função dos filhos já estarem na escola e terminarem o ano. Por outro lado, quando saí como treinador, os meus filhos já estavam numa fase em que ficavam bem em casa, já não eram pequenos.

Que idade tinham os seus filhos quando foi para fora a primeira vez?
Quando fui para o Tenerife o meu filho João tinha 5 anos e o Gonçalo 3. O Vasco não era nascido. Como treinador, quando fui para o Deportivo eles já tinham 19, 17 e 12 anos, e a minha mulher já não me acompanhou.

De que forma é que o facto de não ter a familia consigo afeta o seu dia a dia?
Altera muito. Deixamos de ter as refeições com a família, de estar algum tempo com a mulher para passear e para desligar um bocadinho das 24h que vivemos o futebol.

Passa a estar mais tempo focado no trabalho?
Sem duvida. Quando estive na Turquia passava muito mais tempo na academia, fazia as refeições na academia.

O Domingos é homem para saber e gostar de cozinhar, ou não?
Eu não cozinho, mas quando estou sozinho gosto de fazer umas boas saladas, de vez em quando um bife ou salmão, coisas muito simples. Mas é claro que muitas das refeições faço-as fora.

Prefere ficar em hotel ou apartamento?
Na Corunha e Turquia vivi em hotel. Não gosto. Não temos a nossa intimidade. Entramos e saimos e os empregados dos hoteis já nos conhecem. Não gostei da experiência de viver em hotel. Prefiro apartamento-casa.

Sozinho ou com os adjuntos?
Sozinho. Prefiro.

O que fazia nos tempos livres?
Aproveitava para conhecer as cidades e os seus restaurantes. Estou-me a lembrar da Turquia e de Kayser, que, sendo uma cidade do interior tinha bons restaurantes de peixe, com peixe muito fresquinho. No final da tarde gostava de observar as pessoas e as suas culturas. Às vezes ia sozinho, outras, com os adjuntos.

Não o chateia estar a comer sozinho num restaurante?
Habituei-me. Durante muitos anos, nos primeiros tempos como jogador, em que fui viver para o Porto, comi muitas vezes sozinho. Dos meus 17 anos até aos 22 anos foi sempre a comer sozinho em restaurantes. Hoje até me custa mais.

Sente falta da familia?
Sim. Quando estamos sozinhos parece que estamos um pouco abandonados e eu não gosto de sentir isso.

Domingos e a mulher, Isabel, numa praia no Chipre

Domingos e a mulher, Isabel, numa praia no Chipre

Dos países por onde passou qual foi o que o surpreendeu mais pela positiva?
Como jogador adorei estar em Tenerife, acho que é uma ilha fantástica. E Tenerife tem uma cidade ótima que é Santa Cruz, onde adorei viver. Como treinador, para mim foi uma surpresa a qualidade de vida e a ilha que é Chipre. Foi fabuloso ter estado num clube com a dimensão do APOEL. Não digo a nivel internacional, mas no Chipre é um clube muito querido e a maior parte das pessoas são adeptas do clube. Não fazia ideia que Chipre pudesse ter praias tão espetaculares e uma qualidade de vida tão boa. Eu nasci à beira de água e gosto de água, mas lá passei a ter mais gosto pela água.

Chegou a revelar que não achava muita graça ao seu filho praticar bodyboard e não era capaz de o acompanhar...
É verdade. Eu explico. Para a maior parte das pessoas, incluindo eu, a água trasmite relaxamento e eu gosto. Mas também tenho experiências de pessoas que viviam no meu bairro e que perderam familiares no mar, e isso marcou-me. Tenho um respeito enorme pelo mar e de certa forma não me convida nada a arriscar, apesar de eu gostar muito de barcos. mas tudo com segurança (risos).

Então no Chipre ficou a gostar mais de mar.
Não é gostar mais de mar. Gosto de praias paradisiacas, a temperatura da água era fabulosa, e daquela cor do sul, verda/azul transparente. Podia desfrutar de uma ilha fabulosa com praias lindissimas e também podia trabalhar.

O que o chocou mais na Turquia?
Assinei o contrato em Antalya, que é muito bonita, uma zona muito turistica, também com boas praias e muitos hoteis. Depois fui para Kayser, que era a cidade do clube que fui treinar. E vi uma cidade completamente distinta. Desde a cultura, que é muçulmana e onde a religião tem um peso grande. Foi uma experiencia muito diferente em que o prazer de sair à rua (não é que houvesse risco), já não era muito convidativo como noutros lados.

Porquê?
Primeiro porque, para falar inglês, são poucas as pessoas que o falam, praticamente só as pessoas do hotel. Depois os próprios restaurantes não permitem que se beba álcool. Um vinho para acompanhar um peixe era impossivel e faz parte da nossa cultura, dos portugueses. Lá não é permitido. As próprias mulheres vestem de uma forma...É uma cultura totalmente diferente.

A adaptação então não foi a mais fácil...
Não diria adaptação porque quando se vai para treinar, para trabalhar, não é essa a nossa preocupação porque envolvemo-nos no trabalho e pouco nos interessa o que está fora.

A cultura deles e a religião não interferiu no seu trabalho?
Interferiu, é verdade. Ao ponto de, por exemplo, à sexta-feira eu tinha de orientar o treino no sentido de saber que havia sete ou oito jogadores que tinham de sair mais cedo, às 11h, porque tinham que ir à mesquita, a sexta-feira é sagrada para eles. E isso condicionava de certa forma o treino, mas era um dia por semana. Mas chega uma altura em que se torna normal até para nós. Mesmo o acordar às cinco da manha com o som do chamamento, por exemplo.

E a nível de funciomento do clube é muito diferente também?
É. Por exemplo a situação que me levou a sair.

Conte.
Nós, os treinadores portugueses, gostamos de ser lideres, a nossa cabeça funciona com as opções e decisões que tomamos e não gostamos muito que as pessoas interfiram e nos imponha determinadas coisas. E a mim, a partir do momento em que me impuseram determinada situação, senti que o fim da linha estava ali.

O que lhe impuseram?
Foi a questão de jogadores, de quererem forçar a inclusão de determinado jogador. Isso aconteceu comigo e com outros treinadores também.

Essa tentativa de imposiçao vinha da parte do clube ou de empresários?
Isso acontece normalmente da parte do clube, do diretor desportivo ou do presidente. O jogador foi um investimento do clube, era um ativo, e eles achavam que tinha de jogar e eu achava que ele não tinha qualidade suficiente. E é o que basta para entrar em choque. A cultura para aqueles lados (eu estava na parte asiatica da Turiquia), a forma como vivem o futebol e como vêem o treinador de futebol é muito diferente. Estou-me a lembrar que eu tinha uma reunião com o diretor desportivo em que ele dizia “com este não conte, com este não conte, este pode contar, com este não”; resumindo, ele fazia o dez com que eu tinha de contar, portanto, estava a fazer-me a equipa (risos). Eu dizia, temos mais uma semana de treinos e vou ver em que condições estão esses jogadores e qual o feedback que me dão e em função disso vou tomar a decisão. Nunca poderia de maneira nenhuma dizer: “Sim senhor, são esses dez? São esses dez que vão jogar”. Isso era fazer mais de marioneta do que de treinador. E a minha função é de treinador.

Foi isso que levou à ruptura com o Kayserispor?
Foram essas situações e também o investimento que era para ser feito. Normalmente nos projetos para os quais nos convidam liderar, há condicionantes. Não são projetos muito apelativos em termos de ambição, nenhum deles, a não ser o APOEL, era para ser campeão. Os outros eram projetos de manutenção e de algum risco. Normalmente quando se entra nesses clubes há duas condicionantes. Primeiro é a qualidade dos jogadores e depois é o aspecto financeiro e a promessa de que irão ser comprados jogadores no sentido de melhorar a qualidade e isso às vezes não é o que acontece. Foi isso que aconteceu comigo, não fizeram nada do que estava previsto.

Nessas experiências fora do país, como se faz para matar as saudades da família?
Com as novas tecnologias é mais fácil. Desde o Skype, Facetime, WhatsApp, cria-se um grupo e está-se a ver o que se está a fazer e dizer entre nós. Hoje está-se mais próximo. À hora da refeição, por exemplo, jantávamos com o FaceTime ligado. Eu a jantar e eles também e a conversarmos. Era uma forma de sentirmo-nos próximos.

A sua mulher e filhos nunca reclamaram a sua ausência ou lhe impuseram alguma coisa?
Não. Só quando aparecem propostas para sítios muito longe, eles torcem o nariz e dão-me logo a entender que é melhor não ir. É natural, porque, se estiver na Europa, em duas horas estou cá, se estiver numa Arábia Saudita ou China, já não.

Eles não foram ter consigo?
A minha mulher foi ter comigo à Turquia duas vezes. Os fihos não chegaram a ir por causa da escola e trabalho.

Ela sentiu esse choque cultural de que falou?
Sentiu. Na Turquia saiu uma vez fora do hotel e não saiu mais. Sentia algum receio, não é que as pessoas lhe fossem fazer mal, mas olha-se para as pessoas e são muito diferentes, para mulher então...Mas quando íamos a Istambul já é diferente, é uma grande cidade, com muitos turistas e mais europeia e já nos sentimos mais à vontade.

É costume dizer-se que quando vamos para fora passamos a dar mais valor ao nosso país. Passou por isso?
Acho que quando voltamos a casa é que se dá valor à nossa cidade e ao nosso país. Eu gosto muito do Porto, onde vivo há muitos anos, e não há dúvida, para mim, que o nosso país é muito melhor.

E cá dentro, há muitas diferenças também?
Há. Eu gosto de envolver-me com as pessoas e gosto de conhecer a cidade e quando cheguei a Setúbal disseram-me “aqui assa-se o melhor peixe do país”. Será? Eu sou de Leça/Matosinhos e estou habituado a comer bom peixe. Mas realmente em Setúbal assa-se muito bem o peixe. Portanto há logo aí uma diferença. Se compararmos Lisboa com Setubal, Lisboa é muito mais cidade. E o Porto comparado com Setubal, também é muito mais cidade, gosto mais do Porto. Sentimos algumas diferenças nas pessoas também. A pessoa do Norte, se calhar é por estar mais habituado, é mais aberta do que a do Sul, é muito simpática, gosta de receber bem. E tem mais convivio. Aqui, no Porto, os amigos juntam-se, jantam, saiem juntos e em Lisboa também acontece mas não com tanta frequência. Até posso estar errado, mas sinto que as pessoas aqui no Porto adoram o convivio e juntar familias e é algo que eu admiro.

Não trocava o Porto por Lisboa.
Gosto muito de Lisboa. É uma cidade com muita luz. Mesmo durante o periodo em que estive no V. Setúbal vivi em Lisboa, ia e vinha todos os dias. Mas agora é evidente que gostamos mais de onde nascemos e onde estamos habituados.

E a sua mulher cá, esteve sempre consigo?
Sim, mais agora no Belenenses, porque o Vasco já tem 17 anos. Acho que no futuro vai estar mais tempo comigo, porque eles vão estando cada vez mais independentes e estão para sair de casa.

Com os anos a tendência é para a bagagem das malas ir diminuindo ou aumentando?
É para ir diminuindo. Cada vez gostamos mais daquilo que fazemos e estamos mais envolvidos no trabalho e preocupamo-nos menos em sair. Percebemos que não há necessidade de levar tanta roupa, porque temos poucos eventos e poucas situações de convivios. Porque a profissão cada vez nos obriga a estar mais envolvidos e concentrados no sentido de querer o sucesso e poder prolongar a carreira no tempo.

Aquela ideia de que fazem muitas noitadas, não é assim?
Enquanto jogador, é uma responsabilidade individual, é natural que eles procurem divertir-se. Como treinador, aquilo que dizem de nós, de estarmos 24h a pensar em futebol, a trabalhar...é um pouco verdade. Como agora, perguntam-me: “Estás de férias?” Eu não estou de férias, estou a trabalhar, estou a formar o plantel, só não vou é para o campo dar o treino. E também acontece estarmos em convívio e em familia e o nosso pensamento está nos jogadores, na equipa, no adversario. Por isso é que às vezes os meus filhos perguntam-me se estou a ouvir, porque eles sabem que muitas vezes estou no outro lado, a fazer equipas ou treinos.