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A casa às costas

Kenedy e a casa às costas: “Ligava à minha avó e dizia-lhe: vou ter jogo agora, reza por mim”

Daniel Kenedy jogou em Espanha, França, Chipre e Grécia o país onde esteve mais tempo e onde chegou a abrir uma escola de futebol para miúdos numa ilha. Enquanto treinador já percorreu o país de sul a norte. Atualmente é o tecnico do Leixões, equipa que esta época assegurou a manutenção na II Liga

Alexandra Simões de Abreu

Jose Manuel Ribeiro

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A primeira vez que saiu do país para um clube diferente, foi Benfica para o PSG. Que idade tinha?
Tinha 22 anos. Estava habituado a estar em casa, com a família e de repente ir sozinho para Paris, para uma realidade completamente nova, fez-me um bocado de confusão.

O que foi mais difícil?
Nos primeiros dias com a ânsia de jogar e de treinar não notamos muito, mas depois vem a falta de casa, da família. Depois habituamo-nos. Sabia que fazia parte da minha profissão.

Na altura, em 1996, não havia as tecnologias que há hoje. Como matava as saudades?
Por telefone. No princípio falava todos os dias para casa. Depois passou a ser dia sim e dia não. Mas lembro-me que antes de cada jogo, mesmo do balneário, ligava à minha avó a dizer-lhe "vou ter jogo agora, reza por mim para que tudo corra bem". Tinha esse hábito.

Ficou a viver sozinho ou dividiu apartamento com alguém?
Fiquei sozinho.

O que achou dos franceses e de Paris?
É uma cidade maravilhosa, mas eles são mais frios do que nós. Só que como sempre tive um espírito aberto e brincalhão não tive muitas dificuldades em fazer um bom ambiente, um bom balneário. Sinceramente não senti dificuldades de integração.

Nessa altura o PSG tinha vários brasileiros...
Sim, o Ricardo Gomes que na altura jogava comigo e foi para treinador, o Raí, o Leonardo. Entendiamo-nos muito bem e ajudávamo-nos uns aos outros.

Deu-se bem com o francês?
O meu francês era de escola, mas aprendi rápido.

Kenedy quando joagav no PSG

Kenedy quando joagav no PSG

Jacky Naegelen

Depois regressa ao FC Porto. Era uma realidade muito diferente da do Benfica?
Não. Era uma realidade diferente de Paris, isso sim.

Diferente em que aspeto?
Em Paris as pessoas eram mais liberais, podia sair à rua à vontade, podia estar até mais tarde à vontade, porque as pessoas não se interessavam nem falavam muito desses aspetos. só importava o que se fazia dentro de campo e no treino, na vida particular, não ligavam muito. No Porto já não. Temos de ter mais cuidado quando saimos à rua, à noite, as pesosas conhecem-nos mais...

E a experiência no Maritimo?
Sou um fã da ilha da Madeira. Passei lá dois anos e meio fantásticos. Trataram-me muito bem. Tenho bastante saudades desses tempos.

Do que sente mais saudades da Madeira?
Do clima, sempre bom. Treinavamos de manhã e parecia que tinhamos sempre a sensação de que estávamos de férias, a qualdiade de vida é boa, as pessoas são simples e simpáticas.

O Kenedy e o Ricardo Fernandes são os dois primeiros jogadores portugueses a ir para o Chipre. Como foi?
Como ilha é fantástica, mas o futebol não estava muito desenvolvido. Os cipriotas são acolhedores, mas sempre desconfiados.

Kenedy jogou duas épocas no Marítimo

Kenedy jogou duas épocas no Marítimo

Segue-se a Grécia onde esteve muitos anos.
Fantástica. Nunca pensei que fosse falar grego na minha vida. Primeiro desenrasquei-me com o inglês mas depois eles próprios diziam que nunca tinham visto um estrangeiro falar tão rápido grego.

Como aprendeu, teve aulas?
Não, nunca tive aulas. Nem em França. Arranjaram-ma lá uns professores, mas fui lá uma vez e nunca mais voltei. Aprendi porque senti necessidade disso. Ouvindo, falando. Errava, eles riam-se, diziam para repetir, eu dizia outra vez e fui aprendendo. Também ouvia muita música.

É verdade, tem fama de que gosta de cantar. Alguma vez mostrou os seus dotes de cantor aos gregos?
Mostrei várias vezes, mesmo com a música deles. Havia uma ou duas músicas que eu gostava e quando havia jantares, no final do campeonato, eu cantava, eles começavam-se a rir. Gosto muito de música, ajuda-me bastante quer esteja bem quer esteja mal.

Entretanto, na Grecia criou uma escola de futebol para miúdos.
Sim. numa ilha pequenina, Patmos, que nunca tinha tido uma escola de futebol. Tinha ido lá passar uns dias de férias, gostei do sítio e fiz a escola. Foi fantástico, treinava sozinho quase a ilha toda, eram uns 70/80 miudos. Os miúdos adoravam-me, foi uma experiência fantástica durante quase um ano, mas depois decidi voltar para Portugal.

Nunca mais lá voltou?
Não.

Sabe se a escola ainda existe?
Não sei.

Atualmente Kenedy é treinador do Leixões

Atualmente Kenedy é treinador do Leixões

Rui Duarte Silva

Tem dois filhos, certo?
Sim, cheguei a casar, agora estou divorciado. Tenho o Alexandre de 17 anos e a Eva, de 11.

Alguma vez o acompanharam quando esteve fora?
Só quando fui para o Albacete, em Espanha, é que a minha mulher na altura foi comigo. Mas o Alexandre não tinha nascido ainda. De resto, estive sempre sozinho.

Eles não reclamavam a sua falta?
Às vezes. Mas foram crescendo e foram-se habituando.

Alguma vez o futebol prejudicou a sua vida pessoal?
Não.

Os seus filhos nunca quiseram viver consigo?
Isso nunca foi falado sequer porque sempre achei que deviam ficar com as mães. O Alexandre foi ter comigo mais vezes, nas férias sobretudo, acompanhou-me mais.

Quando estava fora comia em restaurantes ou cozinhava?
Não sou nada de cozinhar. Zero mesmo. Ia a restaurantes. Acabei por criar laços de amizade com alguns donos de restaurantes onde ia quase sempre.

É mais fácil andar de um lado para o outro como treinador?
Acaba por ser a mesma coisa. Tem que se estar preparado para isso. A vida de treinador é mais difícil porque vivemos de resultados e temos de estar preparados para mudar de casa mais vezes.

Já percorreu Portugal como teinador, desde o Algarve até agora a Leixões. Há muitas diferenças?
Não, nem por isso. É mais ou menos tudo igual. Também depende como tratamos as pessoas. Se somos simpáticos e tratamos bem as pessoas elas fazem o mesmo connosco. E não tenho razões de queixa de nenhum lado.

Daniel Kenedy jogou na seleção ao lado de João Pinto e Luís Figo

Daniel Kenedy jogou na seleção ao lado de João Pinto e Luís Figo

Jose Manuel Ribeiro

E histórias caricatas, tem alguma para contar?
Quando cheguei a França tive de ficar num hotel e o meu francês era fraco. Todos os dias eu tinha de tentar explicar a uma senhora o que queria comer, que roupa era para lavar, etc. Uma noite estava na recepção do hotel com dois miúdos da equipa B do PSG, que eram brasileiros, a contarmos historias uns aos outros e a senhora que estava por ali, estava sempre a rir-se. Às tantas achamos aquilo estranho, e eu como era o mais velho aproximei-me e perguntei-lhe se ela estava a perceber o que estavamos a dizer, e ela: "Sim, sim, eu sou portuguesa!". Eu já estava no hotel há 10 dias e ela deixou-me dez dias aflito a tentar falar francês. Ela ficou toda vermelha e riu-se.

Perguntaram-lhe muitas vezes a origem do seu nome?
Em todo o lado. E eu tinha de explicar que foi o meu avô que gostava muito do presidente norte-americano John Kennedy e que teve um filho a quem deu esse nome, mas que acabou por morrer bebe e como eu fui o primeiro neto, eles deram o mesmo nome.

O que é o melhor e o pior de sair do país?
Já estive em muitos lados e quando saimos aprendemos a dar valor a Portugal, às coisas boas que tem e à vida que se leva cá. O pior é sempre a lingua. E as saudades. Sobretudo quando as coisas não estão a correr tão bem. O bom é poder conhecer mundo e fazer novas amizades.Tenho amigos no Chipre, na Grécia, em França e até em Espanha onde só estive quatro meses.

Chora-se muitas vezes sozinho?
Sim, às vezes. Quando se está mais cansado.