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A casa às costas

Hugo Almeida: “O Daguestão é o faroeste. Um dia, saí de casa e vi uma pessoa ser abalroada por um carro que seguiu como se nada fosse”

Aos 33 anos Hugo Almeida confessa que passou por um período difícil em que fizeram-lhe a vida negra e assistiu de perto ao poder de um balneário sobre a direção de um clube. Triste por não ter tido a oportunidade de ser campeão europeu, diz-se feliz e conta como foi mudar-se aos 14 anos para o FC Porto

Alexandra Simões de Abreu

Foto DR

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A ida para o FC Porto com 14 anos, foi o início de todo um mundo novo?
Sim, claro. Nunca tinha saído de casa, nem estado longe dos meus pais e amigos. Foi a grande diferença, assim como o ir viver para um lar com mais 20 ou 30 jogadores.

O que foi mais difícil nessa adaptação?
O difícil para mim foram as noites. Foi conseguir dormir.

Porquê?
Porque durante o dia estávamos sempre ocupados, ou na escola ou a treinar, tinhamos a companhia de todos. Quando chegava à noite e estava sozinho pensava na minha casa, na família e amigos. Era mais difícil.

Sentiu vontade de voltar a casa muitas vezes?
Algumas. Cheguei ao Porto a uma terça-feira, treinei na quarta e aquilo era tudo novo: treinadores, colegas, balneários de topo, massagistas e roupeiros. Parecia que íamos jogar a Liga dos Campeões, mas era somente um treino. Com tanta novidade junta, a minha cabeça quase andou à roda e o treino não me correu particularmente bem. A bola batia na canela, no bico da chuteira, eu tropeçava. Estava deslumbrado mas na minha cabeça, treinar do lado dos suplentes era sinal que o treinador achava que não tinha qualidade suficiente e que dificilmente iria jogar. Estava tão convicto disso que na quinta-feira (dois dias depois de ter chegado) liguei aos meus pais a dizer que não ia ser convocado para o jogo de sábado e que o melhor era irem buscar-me. Os meus pais perceberam o meu desespero e arrancaram da Figueira num dia de temporal dos grandes em direção ao Porto para falarem com os dirigentes do clube e trazerem-me de volta a casa. Lembro-me que chovia tanto que demoraram quase três horas num trajeto que normalmente demora pouco mais de uma. Com esse atraso não chegaram a tempo de ver o treino e eu já estava na rua à espera deles, encharcado e cheio de frio. O que não esperavam era ver-me com um misto de sorriso e de lágrimas.

Foi convocado.
Tinha acabado de sair a convocatória e o meu nome... estava lá. Foi uma boa caldeirada que preparei naquele dia. Estavam frustrados com a viagem difícil que tinham acabado de fazer. E, no fundo, tinha servido para nada porque, como afinal estava convocado, e como era óbvio já não queria ir embora.

Como é que os seus pais reagiram?
A muito custo e depois de muitos abraços e pedidos de desculpa, lá voltaram para a Figueira sem mim. O pior foi no dia a seguir: acordei cheio de febre, mal conseguia comer. A chuva de quinta-feira deixou marcas. Mas depois do que se tinha passado, não podia dar parte de fraco e não disse nada a ninguém. Aguentei e não refilei. Fui para o jogo e ganhámos 3-1. Marquei dois golos e assisti o outro. No final os meus pais acharam-me um bocadinho pálido e estranho. Estava cheio de febre e só pensava em ir descansar. Mas nunca lhes disse nada sobre isso, apenas agradeci e dediquei-lhes os golos e a vitória. Vão ficar a saber de toda a história hoje, quando lerem isto.

Hugo Almeida tatuou os rostos dos pais nas pernas

Hugo Almeida tatuou os rostos dos pais nas pernas

Entretanto foi emprestado à U. Leiria.
Sim, foi uma aposta do mister Cajuda, tinha eu uns 17/18 anos. É um treinador por quem tenho muito carinho e apreço. Sempre foi uma pessoa muito importante para mim e sempre me deu bastante confiança.

Regressa ao FC Porto por uma época e meia e volta a ser emprestado à U. Leiria. Porquê?
Porque o Mourinho precisava do Maciel, o Derlei tinha-se aleijado. Em Leiria pediram que fosse eu para lá, pela troca do Maciel ir para o FC Porto.

Também foi emprestado ao Boavista. Como é viver a rivalidade clubística por dentro?
Para ser sincero, por dentro não havia grande rivalidade. São mais as pessoas de fora que fazem a rivalidade, o clubismo. Foi também uma experiência boa, onde apanhei um treinador [Jaime Pacheco], que foi excelente para mim. Muita gente não gosta dele, mas eu adorei trabalhar com ele.

O que gostava mais nele?
Gostava e não gostava porque ele tinha métodos de trabalho em que nos dava muita coça em termos de corrida e trabalho físico, o que custava, mas eram eficazes. E ele treinava connosco e jogava connosco. É daqueles treinadores que sabe o que é estar de um lado e do outro.

Segue-se a aventura na Alemanha, no Werder Bremen. Foi sozinho ou a sua mulher acompanhou-o?
Fui sozinho porque a minha ex-mulher, estava grávida da nossa primeira filha. Foi o meu ex-cunhado comigo.

Ficou contente com a transferência?
Não, eu não queria sair do FC Porto. Tinha feito uma boa época, tinha feito os golos que deram o campeonato ao FCP e sentia-me bem. No FCP trataram de tudo sem eu saber e avisaram-me uma dia antes de me apresentar que tinha que ter uma reunião com as pessoas da Alemanha e pronto.

Foi contrariado.
Sim.

Quais foram as diferenças entre os dois países que o incomodaram mais?
É um povo muito fechado, que quando não nos conhece nem sequer nos passa cartão. Não tem nada a ver com o nosso povo que é alegre e gosta de receber. Aquilo não, são pessoas frias, que parece que não têm sentimentos, muito fechadas. Custou-me bastante até porque a minha filha mais velha estava para nascer.

Conseguiu assistir ao nascimento dela?
Sim, vim a correr assim que soube. Cheguei, vi a minha filha nascer e tive de ir embora no dia seguinte. Foi duro.

Mesmo contrariado aguentou quatro anos e meio na Alemanha. Como?
Tinha a ajuda do meu ex-cunhado, que dizia as palavras certas no momento certo, o que ajudava a equilibrar a parte mais emocional. E depois quando os golos começam a surgir e as pessoas começam a olhar para ti de outra maneira, percebemos que as coisas estão a correr bem e vamo-nos adaptando.

Aprendeu alemão?
Consigo perceber muita coisa, falar é mais complicado. Quando fui para lá nem inglês sabia e preferi aprender inglês em vez de alemão. Tinha um professor que supostamente devia ensinar-me alemão, mas convenci-o a ensinar-me inglês, sem o clube saber.

Nunca foi apanhado?
Íamos esquivando, com tradutores [risos].

Gostou do Thomas Schaaf como treinador?
Sim, gostava bastante dele. Aliás hoje somos grandes amigos. Chamou-me há um ano e meio para ir para o Hannover 96 e fui. Gosto bastante dele.

Deve ter muitas histórias para contar dessa altura. Pode partilhar alguma?
No Bremen fazíamos um jantar de equipa antes do campeonato começar. Os jogadores novos tinham de beber um shot por cada jogador antigo. Na minha altura, tive de beber mais ou menos 20 shots! Era a praxe deles. Eu disse que no ano a seguir ia vingar-me. Passa o ano e quando chega a altura desse jantar não consegui vingar-me porque fiquei bêbado na mesma com o resto do pessoal!

Na Rússia, onde jogou pelo Kuban Krasnodar e pelo FK Anzhi

Na Rússia, onde jogou pelo Kuban Krasnodar e pelo FK Anzhi

Quando foi para a Turquia o choque foi grande?
Não. É mais a parte da religião, de conviver com muçulmanos, de saber o que eles têm de fazer, as regras, as rezas, os chamamentos. Nada de especial.

Mas também deve ter boas histórias desse tempo.
Há um jogo na Turquia que não me vou esquecer. Naquele país, mais importante do que ter saúde ou comida na mesa, é ter a certeza de que o clube ganha. Nunca vi tanto fanatismo o que, quando doseado, até permite ajudar ao espectáculo com cânticos e coreografias espetaculares. Mas este episódio foi demais. Foi um jogo fora de Istambul e não havia adeptos do Besiktas, estavam proibidos de entrar. O ambiente estava muito quente, a arbitragem confusa e o público ansioso, a pressionar a nossa equipa e o árbitro. Estava todo um inferno contra nós. Perto do final do jogo, numa jogada de ataque pela direita, eu estou a desmarcar-me à espera do cruzamento e vejo o Manuel Fernandes, grande amigo e colega, a entrar na área e corro para o lado contrário para abrir espaço para ele. Quando volto a cabeça, de repente, vejo um adepto a correr pelo campo atrás dele rasteirando-o à entrada da área. Caldo entornado. Obviamente, saímos todos em defesa do Manel e não se passou mais nada de grave. O adepto acabou por levar uma coça e o jogo lá continuou. Giro foi quando no fim do jogo, já mais calmos, o Manel nos confidenciou que não entendeu o que se tinha passado quando foi agredido. Mais, ainda atordoado pela agressão do adepto, quando se estava para levantar já ia direito ao árbitro a pedir penalti! Foi a risada geral.

Nessa altura a sua ex-mulher estava consigo?
Sim, já na Alemanha esteve comigo. Depois de ter a nossa primeira filha, assim que pode viajar foi ter comigo e depois voltou a Portugal para ter a segunda filha. Na Turquia também esteve comigo até ao segundo ano do Besiktas. Depois divorciei-me.

Seguem-se três meses em Itália e seis na Russia. Gostou da Russia?
Quando estive no primeiro clube, o Kuban Krasnodar, gostei muito. Pensava que podia ser idêntico à Alemanha mas as pessoas surpreenderam-me pela positiva, muitos simpáticas e acolhedoras. Depois fui para o FK Anzhi e disseram-me que quando assinasse íamos viver em Moscovo, e quando estou em pré-época disseram-me que afinal tinhamos de ir viver para o Daguestão. Aí, sim matou-me por completo.

Porquê?
Porque era uma zona de guerra e guerrilha. Chegar a um país completamente destruído e feio, em que se ouvia e via tiroteios todos os dias na rua como se fosse o faroeste... Lembro-me de um dia sair e ver uma pessoa a ser abalroada por um carro que seguiu como se nada fosse. Coisas muito feias. Vivia dentro do estádio. O hotel do clube era dentro do estádio. Um homem de 30 anos estar a viver outra vez dentro do estádio como se tivesse alguns 14, não foi uma experiência muito agradável. Tinha contrato de dois anos mas só estive seis meses, não aguentei.

Hugo Almeida ao serviço da seleção nacional coloca a braçadeira de capitão a Cristiano Ronaldo

Hugo Almeida ao serviço da seleção nacional coloca a braçadeira de capitão a Cristiano Ronaldo

Martin Rose/Getty

Foi quando surgiu a oportunidade de ir para o Hannover com o Thomas Shaaf.
Exato. Não pensei duas vezes.

Mas a vida no Hannover não correu bem.
Inicialmente pensava que se tudo corresse bem daria para eu ir ao Europeu. As coisas correram bem ao início, fiz golos, mas passado um mês o treinador foi despedido e meteram-me completamente fora. Passei um mau bocado. Não me respeitaram, fizeram tudo para eu me passar, para rescindir contrato e não me pagarem mais.

Que tipo de coisas é que fizeram?
Estava em casa e chamavam-me para ir fazer teste antidoping. Eu ia treinar, estava equipado e diziam-me para não treinar porque não queriam que eu visse a tática da equipa, como se eu fosse entregar a tática ou alguma coisa a alguém! Coisas desse género para ver se eu perdia a cabeça. Vi o que é jogadores a terem grande poder sobre a direção de um clube.

Como assim?
Foram os jogadores que fizeram a cama ao treinador e que o mandaram embora. Uma coisa que nunca tinha visto em lado nenhum. Passámos um mês, mês e meio quase sem ganhar a ninguém, com jogos totalmente passivos. Depois quando veio o novo treinador, apesar de já basicamente termos descido, já só perdemos um jogo. Não corriam, mas quando mudou o treinador já toda a gente passou a correr e a trabalhar. Nunca pensei assistir a uma coisa dessas num país de primeiro mundo, tão rígido e disciplinado.

Mas aguentou-se até ao fim.
Sim, porque no meu contrato tinha uma cláusula que dizia que se o clube descesse eu era automaticamente um jogador livre. Assim foi. Esperei pelo fim, embora com vontade de partir tudo, de destruir tudo, mas fui aguentando.

Foi muito penalizador para a sua carreira?
Não quer dizer que tenha sido péssimo para a carreira, mas trataram-me de uma maneira que nunca imaginei ser tratado. Também não sei se ia ser opção ou não para o Euro, mas perdi uma boa oportunidade de ser campeão da Europa.

Custou-lhe muito ficar de fora?
Claro que custa. Tenho 33 anos, são 17 anos ao serviço da seleção. Custa sempre.

O selecionador alguma vez falou consigo?
Não.

Como surge o AEK?
Surgiu numa altura em que eu já estava cansado do futebol.

Pensou em desistir?
Não desistir, mas pensei em ficar por aqui. Em não dar grande importância ao dinheiro e ficar aqui, por Portugal.

Tinha contactos nessa altura?
Não, ainda não. Até mesmo algumas portas que eu nunca imaginei que se fechassem, fecharam. E ouvir certas coisas, de certos presidentes, também magoa.

Está a falar de quem?
Não quero falar de nomes nem de clubes. Depois apareceu esta proposta do AEK, que foi uma bomba de oxigénio, porque é voltar a bons palcos e com o intuito de ganhar algo. Este ano fomos à final da Taça, vamos entrar para a eliminatória da Liga dos Campeões, lutamos para ser campeões. Isso sim, é isso que quero. Tenho mais um ano de contrato. Agora estou muito feliz.