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A casa às costas

José Couceiro: “O Bettencourt demitiu-se, o Costinha demitiu-se, fui encostado numa sala e disseram: ‘Tens de agarrar a equipa’. E fiquei”

Aos 54 anos, o atual treinador do Vitória de Setúbal tem um percurso sui generis. Começou como jogador de futebol, tornou-se no primeiro presidente eleito do Sindicato de Jogadores, foi diretor desportivo da SAD do Sporting, liderou seleções nacionais, cá e lá fora, e pelo meio foi treinando clubes pequenos e grandes. Pai de três filhas, tem um labrador, adora música e cinema e não exclui acabar a sua carreira novamente como dirigente

Alexandra Simões de Abreu

José Couceiro já foi selecionador da Lituânia e treinou os russos do Lokomotiv de Moscovo e os turcos do Gaziantepspor

Foto José Carlos Carvalho

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É verdade que começou a jogar futebol no Sporting de Luanda?
Não é bem assim. Os meus pais e avós maternos nasceram em Angola, eu nasci em Lisboa mas fui logo de seguida para Luanda; portanto, cresci em Angola. Comecei a fazer desporto no Sporting de Luanda, mas noutras modalidades que não o futebol. A jogar futebol, sem ser na rua, foi no campo de S. Paulo nas escolas do meu tio Fernando Peyroteo. Mas nunca fui federado em Angola, no futebol, só no atletismo, no basquetebol e na natação.

Desses desportos todos, qual gostava mais?
Por tradição, em casa éramos todos obrigados a saber nadar. Depois podíamos escolher as modalidades que quiséssemos, mas natação era obrigatória. Aprendi a nadar no Nuno Álvares, numa piscina de 33m (que eram as medidas inglesas) de água salgada. Mas sempre gostei de futebol.

Quando veio para Portugal?
Vim cá fazer os 12 anos, em 1975. Vim com uma carta de recomendação para o atletismo, nas disciplinas técnicas. Mas nunca entreguei essa carta porque não era o que eu queria. Além disso, a vida cá era muito diferente daquela a que estava habituado. Lembro-me que o meu primeiro inverno aqui foi muito doloroso.

Então quando é que começa a jogar futebol mais a sério?
Comecei a jogar futebol federado no Belenenses, já com 14 anos. Depois o senhor Aurélio Pereira levou-me para o Sporting, como júnior. Nesse ano entrei na faculdade e durante uns anos fui optando por ficar sempre em clubes à volta de Lisboa.

Entrou em que curso?
Entrei em Economia no antigo ISE (hoje ISEG).

Acabou o curso?
Não. Eu tentei ir para Educação Física várias vezes mas não me deram a transferência.

Porque é que foi para Economia?
Eu gostava e gosto de Economia. E gosto de Política. Curiosamente uma das minhas filhas é licenciou-se em Londres, em Politics. Gosto das ciências sociais e das ciências económicas. Não acabei o curso por vários motivos, fui para a tropa, entretanto comecei a jogar futebol mais a sério e fiz a minha opção.

Andou a saltitar de clube em clube, mas pelo meio liga-se ao Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF). Como é que isso surge?
Tinha uns 20/21 anos, estava no Barreirense, os meus colegas elegeram-me capitão de equipa e nós tínhamos vários meses de salários em atraso e alguma coisa teria de ser feita. Fui eu que comecei a liderar o processo, contactei o SJPF, na altura eram o Dr. Paulo Relógio e o José Eduardo quem estavam à frente do Sindicato.

Quando se liga em definitivo ao SJPF?
No início da década de 90, o sindicato fica sem direção, cai num vazio e é quando se cria uma comissão administrativa, formada pelo José Manuel Delgado, o Shéu e eu. Deixo de jogar em 1991 e dedico-me a sério ao sindicato e depois sou eleito presidente da direção.

Em 1991/92 Couceiro foi jogador do Estrela da Amadora

Em 1991/92 Couceiro foi jogador do Estrela da Amadora

Segundo Carlos Queiroz o José Couceiro teve um papel muito importante naquele que se podia transformar no caso Saltillo 2, na altura do apuramento para o Mundial de 1994. É verdade?
Não fui o único. Isso aconteceu em 1993. Já estou totalmente dedicado ao Sindicato e nós estávamos num processo muito complicado. Na altura, estava a tentar que a questão de direitos de imagens fosse centralizada no próprio Sindicato. E nada melhor do que começar pelos jogadores internacionais, os que estavam na seleção.

Mas o que é que aconteceu?
O que aconteceu é que havia contratos de imagem e os jogadores nunca tinham sido avisados, nem nunca lhes tinha sido pedida autorização para nada. Mesmo ao nível utilização de imagem, por exemplo, para os cromos. Ou seja, quando os jogadores começam a sentir que há contratos publicitários e eles nem sequer são ouvidos em nada, há uma revolta interna. É quando vestem a camisola ao contrário e ameaçam não jogar.

O que lhes disse?
Sou o mediador de todo esse conflito com a direção da FPF e os jogadores foram fundamentais para que o SJPF ganhasse dimensão a partir daquele momento. Há muitos momentos históricos no SJPF, esse é um deles.

Porquê?
Porque a partir daquele momento houve muitos jogadores que ganharem consciência da sua importância enquanto classe. Essa união faz com que o sindicato português estivesse na primeira linha no Processo Bosman.

Mas ainda não disse como os convenceu a jogar.
Na altura limitei-me a dar-lhes a visão do que eu achava que era importante, que era estarmos unidos e percebermos que aquele era o momento em que, por um lado, eles tinham que defender a sua própria imagem, porque estava em causa a seleção nacional e não podíamos sair mal do retrato, porque a opinião pública nunca perceberia que a razão estava com eles. Eles tinham razão, mas tínhamos de ser inteligentes na forma como iamos gerir todo o processo. Jogadores como o Rui Águas, o Oceano, o Vítor Baía, na altura até o Vítor Paneira, e depois os mais novos, o Figo, Paulo Sousa, Rui Costa, foram decisivos em perceber isto. Tínhamos muito mais a perder com atitudes excessivamente radicais e muito mais a ganhar em conseguirmos negociar. Em relação à regulamentação de transferências não se conseguiu negociar e acabamos por ganhar no tribunal europeu.

Ficou no sindicato até 1997.
Saí quando fui para diretor desportivo da SAD do Sporting.

Com Tomas Danilevičius, capitão da seleção da Lituânia em 2010

Com Tomas Danilevičius, capitão da seleção da Lituânia em 2010

Esse é outro capítulo interessante do seu percurso. O que aprendeu com essa experiência de dirigente?
Percebi que era muito difícil conseguirmos impor as ideias que tínhamos sobre a gestão de uma equipa e de um clube a pessoas que não entendem o jogo. As pessoas pensam que por se ter 11 bons jogadores se tem uma boa equipa e que obrigatoriamente se ganham jogos. E não é verdade. É preciso muito mais que isso. No futebol só conseguimos ganhar como equipa, mas é preciso entender o jogo. Quando estamos a gerir pessoas, os princípio não são os mesmo da gestão de capital, por exemplo. Não podemos ter o mesmo tipo de comportamentos. Há uma componente humana, pessoal, que tem de ser levada em conta. É evidente que a componente económica é decisiva em última instância, mas não deixamos de estar com pessoas. Não podemos ver isto exclusivamente pelos indicadores económicos. Gerir capital intensivo não é o mesmo que gerir mão de obra intensiva e especializada, que é o caso de um futebolista. Aprendi isto.

Mas gostou da experiência ou não?
Tanto gostei que, quando saí, fui para o Alverca e estive muito tempo no Alverca como administrador. Gostei muito, percebi é que...vou fazer um paralelismo: era exatamente a mesma coisa de ter alguém a gerir o seu Grupo (Impresa) e esse alguém não perceber nada de jornalismo, e de imprensa e só ver números. Nós temos essa sensibilidade porque vimos do jogo, do campo. Depois podemos ter outro tipo de preparação que, atenção, é necessária. E quem não a tem, tem de se rodear de pessoas que os ajudem a perceber isso. O futebol com o mediatismo que tem atrai inúmeras pessoas e nem todas têm esse tipo de qualidades.

Foi no Alverca que passou a treinador, em 2002. Como é que aconteceu?
A equipa desceu de divisão, eu era administrador e coloquei o meu lugar à disposição, como é evidente. E os restantes administradores entenderam que eu devia ter um papel ainda mais preponderante. Disse-lhes que era impossível porque isso implicava entrar em áreas onde não devia entrar, nomeadamente na área técnica. Então propuseram-me ser eu a liderar a equipa técnica.

Ainda se cruzou com o Luís Filipe Vieira.
Sim, ainda nos cruzámos uns aninhos, quando ele era presidente do conselho de administração e eu era administrador. Aliás a SAD é constituída nessa altura. Foi ele que me contratou para o Alverca.

Gostou de trabalhar com ele?
Gostei. Deu-me sempre liberdade para trabalhar, portanto nesse aspeto gostei.

Voltando ao início da carreira como treinador.
Nessa altura colocaram-me então a questão de ter esse papel quase de manager. Eu hesitei, porque é uma vida diferente, mesmo a nível familiar. Recebi um grande incentivo da minha mulher, a Clara, e na altura já tínhamos as três filhas. Ela disse-me que se eu gostava e se era uma coisa que me motivava, apoiava. E foi assim que comecei. Agarrei na equipa, tivemos que renegociar contratos, reduzir contratos, com um grupo de jogadores fantástico, cuja maioria ficou no Alverca, na II Liga, e nesse ano subimos de divisão. Hoje cada um está no seu canto. Um deles, o Veríssimo é treinador adjunto da equipa B do Benfica, por exemplo.

Esteve muito pouco tempo no FC Porto. Porquê?
Entrei no FCP em Fevereiro e saí no final da época. Era o terceiro treinador da época, uma situação completamente anormal.

E como é que foi essa estreia como treinador num dos três grandes?
O FCP estava em 4º lugar e acabámos em 2º a podermos ser campeões no último jogo. Foi o Benfica.

Então porque não ficou?
Por variadíssimos motivos que não vou revelar. Mas posso dizer que gostei muito de estar no FCP, fui muito bem tratado.

É diferente trabalhar num balneário como o do Alverca e V. Setúbal ou num balneário como o do FCP, onde há muito mais "estrelas". Teve que mudar alguma coisa na sua atitude e forma de falar?
Temos sempre que nos adaptar a uma nova realidade. Não sou eu que chego a um local e consigo de um momento para o outro alterar a cultura de um clube, de uma organização ou de um país. Tenho que perceber qual é a cultura desse clube, em que espaço está inserido, a cultura do clube e da cidade têm que ser respeitados. E não é em quatro meses que se consegue fazer alguma alteração. Na altura, o FCP fez-me a proposta de continuar como treinador assistente do Co Adriaanse e eu recusei.

Porquê?
Entendi que não havia condições, depois de ter sido treinador principal. Se eu fosse um treinador temporário teria aceite. Naquele momento não havia condições para que isso acontecesse. Mas foi uma experiência fantástica.

Nessa altura a sua família viveu consigo no Porto?
Não, elas iam ao Porto com frequência. Depois no final, como a probabilidade de eu continuar no FCP eram muito grandes, já tínhamos casa, as minhas filhas já tinham colégios. Mas acabei por sair e continuamos em Lisboa.

As suas filhas não reclamaram, nem ficaram desiludidas?
Essa é uma questão muito importante que coloca. Muitas vezes não nos apercebemos das marcas que ficam nas crianças por causa da atividade dos pais. É evidente que elas preferiam estar no meio delas. A mais nova ainda estava na primária e mudar o seu espaço, os seus amigos...os miúdos adaptam-se com facilidade, é verdade, mas na altura sentem, evidente que sim. Elas estavam preparadas para ir para o Porto e iam, mas claro que preferiam não deixar a sua cidade. Embora estar num clube como o FCP também é algo de bom, é estar no top e elas percebiam isso.

Depois de uma passagem pelo Belenenses, vai liderar as seleções de Sub-20 e Sub-21. É muito diferente treinar uma seleção?
É. Num clube são sempre os mesmo jogadores, temos sempre o mesmo grupo e numa seleção temos uma base do grupo que é a mesma, mas temos um trabalho diferente do que temos no clube. Temos mais limitações para trabalhar com os jogadores do que temos no clube. Temos um campo de recrutamento muito superior.

Gostou mais dessa experiência ou continua a preferir treinar clubes?
Depende do enquadramento. Se tivermos um projeto de futuro, se estivermos a falar em criar condições de futuro, é evidente que é um trabalho interessante. Agora quando o selecionador está dependente da bola que bate ou não na barra, que foi o que me aconteceu...a ideia era formar jovens e criar equipas de futuro, mas depois se você está dependente de um jogador, que comete um erro disciplinar ou técnico, isso então deixa de ter piada e passa a ser igual a um clube.

Foi isso que sentiu?
Foi. Mas isso tem muito a ver com os dirigentes e com a sua capacidade de entenderem o jogo, o crescimento dos jogadores, etc.

José Couceiro no Lokomotiv de Moscovo

José Couceiro no Lokomotiv de Moscovo

JUAN FLOR

Segue-se a experiência na Lituânia, em 2008. Como é que surge?
Na altura já estava parado há muito tempo e queria voltar a treinar. A ideia é ir para a seleção ajudar a reformular o próprio quadro competitivo da Lituânia. Entretanto pediram-me também para agarrar no Kaunas durante o período das competições europeias porque não era muito coincidente com a seleção, que começava em agosto. Houve uma altura, entre junho e início de outubro, em que tive os dois, clube e seleção. Mas a ideia era a de um projeto mais amplo, porque a Lituânia tem condições climáticas muito diferentes das nossas.

Mas gostou?
Gostei. O nível de futebol é muito fraco e o nível da seleção é mais aceitável porque há muitos jogadores a jogar fora. Tentei passar a ideia que o futebol lituano a nível de seleções podia evoluir se tivessem estratégia de colocar jogadores em campeonatos mais competitivos. A nível interno ia ser muito difícil, porque os miúdos têm muito menos horas de competição, porque só havia dois campos cobertos em todo o país, e com aquele inverno era muito difícil terem prática e competição. Por outro lado, a primeira modalidade na Lituânia é o basquetebol. Em parte isso foi feito. A seleção começou muito bem, fez a melhor fase de qualificação que alguma vez tinha feito. Ganhamos 3-0 à Roménia que tinha vindo do Euro'2008. Ganhamos à Áustria 2-0 em casa. Fomos parados pela França, perdemos 1-0.

A sua mulher e filhas estiveram a viver consigo na Lituânia?
Não, ficaram em Portugal. Fiquei num hotel, sempre tinha mais apoios.

É homem para saber cozinhar ou não?
O básico. Sou homem para fazer tudo o que tiver que fazer dentro de casa. Tratar da roupa, etc. Viver sozinho consigo, agora se sou um cozinheiro? Não. Gosto mais de comer do que cozinhar. Mas consigo desenrascar-me.

Não o chateava a vida de hotel?
Se me perguntar se gosto mais da vida de casa, gosto, gosto mais. Agora, estando fora sozinho...felizmente como emigrante sempre fui um emigrante privilegiado, portanto estando num hotel estou a viver em excelentes condições.

Não levou ninguém consigo para a Lituânia? Nenhum adjunto?
Fui sozinho.

Não sentiu dificuldades, até por causa da língua?
Sim, tive dificuldades. E até a outro nível, mesmo a nível do entendimento do jogo. Apanhei uma geração mais velha que eu, com muitas influências ainda do modelo soviético e portanto tive muitos choques. Aliás, acabou por ser um choque tão grande que rapidamente saí e fui para a Turquia.

Mas continuou a ser selecionador da Lituânia quando foi para a Turquia.
É verdade. Fui ajudar o Gaziantepspor para não descer de divisão e durante esse período a seleção da Lituânia não me libertou de eu fazer os jogos. Para a Turquia, levei uma equipa técnica: o Quinito, o Miguel Leal, o Jorge Silva e esta equipa ficava na Turquia enquanto eu voava para a Lituânia. Mas acabei por sair porque houve um choque ao nível do entendimento.

Explique isso melhor.
Posso contar duas histórias. uma foi com os miúdos de 13 anos na Academia da Federação, onde havia treinadores que estavam mais interessados em fazer controle de treino do que propriamente interessados em que os miúdos tivessem relação com a bola. Eu discordava disso e tinha choques grandes com eles. Por outro lado, o dono da equipa aparecia-me constantemente com novidades, com os biorritmos dos jogadores, com observações que alguém fazia e que eu não sabia quem era, e dizia-me que a um determinado minuto no jogo tal aquele jogador ia levar um cartão amarelo e eu tinha que o substituir. E uma das vezes isso aconteceu para um jogo com o Glasgow Rangers. Ele queria que eu alterasse a equipa e fizesse determinadas substituições. Eu disse-lhe que não fazia, que não mudava. E ele disse-me, “Nós depois conversamos”.

O que aconteceu?
O jogo correu bem, não houve expulsões, não houve cartões amarelos, empatamos 0-0, e ele no dia seguinte, perguntou-me como é que eu tinha feito aquilo. Eu não sabia responder. Feito aquilo como? Ele perguntava-me “como é que ele não tinha levado cartão amarelo?”. Isto é um choque cultural muito grande. São coisas a que não estamos habituados, nem imaginamos que possam acontecer.

Esteve época e meia na Turquia, numa zona muçulmana a pouco mais de 100 km Síria. Não houve choque cultural?
Posso contar uma coisa que aconteceu a nível do jogo. “Abi” significa, o mais velho. Se eu disser Muhammad Abi, é o mais velho Muhammad. E eu comecei a perceber que eles passavam a bola ao Abi, não à melhor linha de passe, mas ao mais velho, porque o mais velho culturalmente tem importância. Então falei com eles e disse-lhes que temos de ter respeito pelo mais velho, o mais velho é fundamental, mas em alguns momentos a decisão não pode ser essa porque não é tão boa para a equipa e isto não é nada contra o mais velho, é a nosso favor, etc, etc. E, devagar, os mais novos passaram a ter essa liberdade de não jogar sempre no Abi, mas na melhor linha de passe.

Entretanto, quando é que deixa a Lituânia?
Fizemos o último jogo em que ganhamos à Sérvia... Ganhamos a boas equipas. perdemos 1-0 no Parque dos Príncipes, depois ganhamos 2-1, em casa, já a Sérvia estava apurada para o campeonato do mundo de 2010. Acabou por se apurar a Sérvia e a França. O nosso grupo era muito forte. Aí acabou a ligação à Lituânia.

José Couceiro com a mulher, Clara, em Moscovo

José Couceiro com a mulher, Clara, em Moscovo

E volta ao Sporting, agora como treinador.
Mas saí bem do Gaziantepspor, aliás já me convidaram mais três ou quatro vezes para regressar à Turquia. Eles são muito emocionais, tal como os russos, e acho que chega a um momento em que é preferível haver um corte para mantermos boas relações futuras, do que levarmos a relação até ao esgotamento. Só tenho a dizer bem deles. Fui muito bem tratado. E depois vim para Portugal.

Só fez 10 jogos no Sporting.
Não, fiz mais. Lá está, eu não fui para o Sporting como treinador. Eu sou contratado pelo Sporting no final de 2010 para assumir, no início de janeiro, o cargo de administrador ou de diretor geral da SAD. Mais uma vez ia agarrar num projeto. Acontece que 15 dias depois de entrar o presidente José Eduardo Bettencourt demitiu-se. E a seguir ao presidente é a história que se conhece.

Recorde.
Demitiu-se o diretor desportivo, o Costinha, demite-se o treinador e eu sou digamos quase encostado, numa sala, onde me disseram: “a crise é profunda e tu tens que agarrar na equipa”. Coisa que eu não queria fazer.

Porque não?
Naquele momento, a 10 jornadas do final, com eleições marcadas... Mas acabei por aceitar que a solução temporária para o clube seria melhor.

Sacrificou-se, é isso?
Não gosto muito de pôr esses títulos, que fiz um grande sacrifício. Faço o que gosto e porque quero fazer. A situação era difícil e tínhamos de manter o 3º lugar, no mínimo, para irmos a uma pré-qualificação da Liga dos Campeões. Era muito importante criar alguma estabilidade. Na altura falei com o Paulo Sérgio, o treinador que saiu. A situação era delicada, o Sporting não ganhava há alguns jogos e fui receptivo ao apelo dos meus colegas. Eu só dependia do presidente da SAD, não dependia de mais ninguém, e ele tinha-se demitido. Isso estava claro.

Mas quem fez o pedido para que ficasse?
A restante administração. Todos eles. Senti que era um pouco meu dever. Agora sei que as coisas podiam ter corrido muito pior do que correram. Felizmente acabamos por ficar em 3º lugar, mas podia ter sido pior.

Não continuou por quê?
Estava tudo preparado para ficar. Mas os novos dirigentes que foram eleitos, que era a direção do Godinho Lopes, entenderam que era melhor rescindimos. Curiosamente no dia em que eu ia a Alvalade para assinar o meu novo contrato, foi o dia em que me comunicaram que afinal era para rescindir. Obviamente, rescindi porque se a pessoa não é bem aceite, não vale a pena. Mesmo havendo um passado recente de grande risco, que não foi tido em consideração para nada. Lá está, voltamos ao princípio, uma série de pessoas que entendem mal o jogo.

O técnico do Vitória de Setúbal foi convidado para ser embaixador da cidade sadina

O técnico do Vitória de Setúbal foi convidado para ser embaixador da cidade sadina

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Passado uma semana ou duas vai para o Lokomotiv de Moscovo.
Outra aventura. Mas aí a família foi comigo.

Porquê?
Na altura eu tinha duas filhas a estudar em Londres e havia a possibilidade da mais nova estudar na escola anglo-americana de Moscovo, que era muito boa. Fomos os três para Moscovo e a ponte aérea era mais para Londres do que para Lisboa.

Elas gostaram da experiência?
Sim. Foi um ano giro. As coisas correram muito bem do ponto de vista desportivo.

Tem alguma história para contar?
Tenho. Com regularidade fazíamos reuniões com a presidente, era uma senhora. É economista e via os jogos por números. Numa das reuniões ela disse-me, "José, a equipa está a jogar muito para trás". Perguntei-lhe porquê. E ela diz, porque o Pavlyuchenko fez muitos mais passes para trás do que para a frente. Tentei explicar-lhe que o Pavlyuchenko era o nosso pivot ofensivo, que quando jogamos com um pivot daquele género a tabelar, é evidente que ele tem uma percentagem de passos para trás ou para os laterais grande. Quando ele passa a bola para a frente é porque normalmente vai chutar à baliza. Eu não conseguia convencê-la porque ela agarrava-se aos números. Eu insistia, quando ele joga para a frente é para chutar à baliza, e isso tem a ver com o número de remates dele. Ela nada. Até que me lembrei. "Oh presidente veja lá se o Guilherme não joga sempre para a frente?". Ela foi ver. O Guilherme é guarda-redes, portanto, obviamente que ele joga sempre para a frente, se jogar para trás faz pontapé de canto ou autogolo. Ela viu os números do Guilherme e eu rematei: “Está a ver como jogamos sempre para a frente?” A reunião acabou ali e nunca mais me chatearam com a história da equipa jogar para trás. Como disse, o entendimento do jogo é fundamental, não é só agarrar numa série de números e despejar para cima de nós.

Entretanto vem para o Vitória de Setúbal, passa pelo Estoril e volta ao Vitória, onde ainda está. Há uma ligação forte com este clube?
Há uma identificação com o Vitória claramente e com a cidade de Setúbal. E tenho a vantagem de poder continuar a viver em Lisboa. Estou muito satisfeito.

Recentemente foi convidado pela presidente da Câmara Municipal para ser um dos embaixadores da cidade.
E aceitei com muito gosto. Há uma empatia muito grande. É uma relação forte.

Durante a época em que treinou o Lokomotiv, Couceiro teve a mulher e filha mais nova a viver consigo em Moscovo

Durante a época em que treinou o Lokomotiv, Couceiro teve a mulher e filha mais nova a viver consigo em Moscovo

Ïîãðåáíÿê Àëåêñàíäð

Porque integrou o Meyong na equipa técnica?
Porque o Meyong acaba a carreira e, como disse, nós estamos no campo das relações humanas, os clubes fazem-se de pessoas, elas são fundamentais para cimentarmos valores dentro dos clubes. O Meyong foi, como jogador, das maiores referências do Vitória de Setúbal, como foi o Sandro que hoje é treinador dos sub-19. É bom que estas pessoas estejam dentro do clube porque estes valores, estas experiências têm que passar. Agora, é claro que o Meyong tem de aprender e crescer como treinador. É um novo elemento para uma estrutura técnica, ainda não é um treinador.

Qual foi o jogador que mais o marcou?
Como não ligo só ao que se passa dentro de campo, tenho muito respeito pelo Rui Águas, na nossa altura do sindicato. A coragem e a postura que sempre esteve em relação ao sindicato... foram decisivas

E o jogador com quem mais gostou de trabalhar?
Tenho muitos, seria injusto nomear este ou aquele.

Segue algum campeonato com especial atenção?
Por norma gosto de ver desporto. Não sigo só futebol. Neste momento estou a seguir Wimbledon, em ténis.

Algum tenista favorito?
Federer. Gosto do Nadal também.

Mas ao nível do futebol, há algum campeonato de que goste mais?
Gosto muito do ambiente da liga inglesa. Daquilo que se vive à volta do jogo.

Gostava de treinar uma equipa inglesa?
Claramente. Já esteve muito próximo mas não se concretizou. Pode ser que um dia...

Em que clube?
Não vou dizer. Foi uma coisa recente, tem meses. Acho que não fica bem divulgar, neste momento está lá outro colega meu.

É dos que vive 24 horas ligado ao futebol?
Não. Vivo muitas horas de futebol porque sou obrigado a viver, mas sempre que posso, desligo. Não sou obcecado.

Da parte da família houve sempre mais apoio do que reclamações das suas opções?
Felizmente tive a sorte de ter apoio, sabendo que nem sempre as coisas são fáceis. Lá em casa toda a gente trabalha. A minha mulher é arquitecta, tem um atelier. As minhas filhas estão todas licenciadas. A mais nova, a Beatriz acabou agora de licenciar-se em Teatro, a do meio, a Sofia formou-se em Política e a mais velha, a Catarina, fez Escultura, mas neste momento está a tirar Medicina Tradicional Chinesa.

Pensa manter-se como treinador ou espera um dia volta a ser dirigente?
Penso que o normal vai ser um dia voltar a ser dirigente.

De um clube ou novamente de uma estrutura como o sindicato?
O sindicato está fora de questão. As coisas não são para repetir. Não me esqueço do meu passado, tenho muito orgulho nisso, mas não faz sentido regressar ao sindicato. Não sei onde. Mas penso que é normal a pessoa chegar a uma determinada altura e a sua experiência ser aproveitada noutro sítio. Gosto de ser treinador, gosto de estar no campo, mas também gosto de outras coisas. Felizmente tenho feito várias coisas e tenho optado não pela questão financeira mas pelo gozo que tenho de fazer as coisas ou não. E se puder continuar a ter essa possibilidade de optar, é fantástico.

Qual foi a maior desilusão e frustração que teve no futebol?
Já tive várias. Mas a minha saída do Sporting foi muito dura. Porque fui contratado numa altura difícil, o presidente demite-se, eu fico numa situação debilitada e depois no final da época sair daquela forma foi algo que foi uma grande desilusão. Custou.