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A casa às costas

Hugo Leal: “Sou de lágrima fácil. Choro com publicidade”

Aos 37 anos e depois de ter andado com a casa às costas por clubes como Benfica, PSG, Atlético de Madrid, FC Porto e Salamanca, Hugo Leal terminou a carreira no Estoril Praia, clube onde assume agora o papel de diretor. O menino bonito que partiu corações no início do milénio está casado com uma espanhola de quem tem dois filhos e afirma ser um homem feliz, sem frustrações no futebol e na vida

Alexandra Simões de Abreu

Hugo Leal, ex-jogador, agora treinador e diretor no Estoril Praia

Marcos Borga

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Começou a jogar futebol aos sete anos no Albarraque. Pediu para ir ou foi por influência de alguém?
Fui por influência de um tio que jogava lá. Depois gostei, claro.

Como é que vai parar aos iniciados do Benfica?
Eu representava o Estoril Praia quando participei no Torneio Ponte de Frielas, onde estavam o Sporting, o Boavista, FC Porto e outras equipas de Lisboa, e fui eleito o melhor jogador. Nesse torneio fui convidado para ir jogar para o Benfica.

Aceitou logo.
Mais ou menos. Ainda demorou um bocadinho, porque eu tinha admiração pelo Benfica, mas ir com 12 anos, sozinho, para o estádio da Luz...não tinha forma de ir com os meus pais, trabalhavam ambos. Era complicado, tinha de apanhar vários transportes públicos. Acabei por ir, mas não foi uma decisão imediata.

Depois é emprestado ao Alverca. E com 19 anos parte para o Atlético de Madrid.
Eu estreei-me no Benfica, com 16 anos. Fiz nesse ano dois jogos pelo Benfica, e no ano seguinte, como o Benfica tinha uma parceria com o Alverca, com idade de júnior fui jogar com os seniores do Alverca para a segunda divisão. Permitia-me jogar ao fim de semana também pelo Benfica. Joguei num e noutro e no ano seguinte joguei só pelo Benfica.

Como surge o Atlético de Madrid?
Surge numa altura em que entro em conflito com o Benfica e rescindo o contrato.

Pode resumir o que aconteceu?
Havia uma proposta de renovação que não era interessante para mim e no momento de negociar o presidente da altura, Vale e Azevedo, achou por bem relatar essa negociação nos media e acabou por insultar-me na imprensa e o ambiente ficou hostil. Aleguei não ter condições para representar o clube e rescindo. Entretanto o Paulo Futre, ex-atleta do Atlético de Madrid e o empresário Jorge Mendes, tratam da minha ida para Madrid.

Foi sozinho, com 19 anos, para Madrid?
Não, a minha família foi comigo. Pai, mãe, irmão três anos mais novo e irmão com um mês de idade.

Os seus pais largaram o emprego para acompanhá-lo?
Sim. O meu pai tinha nesse momento tinha uma empresa por conta própria e no espaço que tinha para trabalhar para outra empresa foi-lhe permitido um ano de ausência com garantia de que poderia recuperar o seu trabalho. A minha mãe tinha um infantário e acabou por ceder à sócia a parte que lhe tocava. Os meus pais acharam por bem que eu tivesse estabilidade familiar.

Gostaram da experiência?
Sim. O meu irmão do meio, o André, mudou-se para lá com 16 anos e foi inscrito no colégio espanhol. Era uma experiência nova para todos e a proximidade com Portugal era um elemento que ajudava.

O Hugo nessa altura ainda estudava?
Não. Estava a tentar completar o 12º ano, mas entre seleções e treinos bi-diários não conseguia.

Gostou do clube e de Madrid?
Gostei muito da experiência. Ao fim de um ano já estava acomodado à cidade, habituado à cultura e horários espanhóis. E no final desse ano os meus pais regressaram a Portugal e eu fiquei lá com o meu irmão André. A certa altura conheço a minha mulher Elizabeth e passamos a viver os três.

A sua mulher é espanhola?
É e pode dizer que é das duras e difíceis (risos).

Hugo Leal no Paris Saint German

Hugo Leal no Paris Saint German

A seguir vai para o PSG.
Sim, vamos os três. O meu irmão era o pendura (risos). Ele veio para Portugal dois anos depois. A última época em Paris já estive só com a minha mulher.

Disse numa entrevista que foi muito importante viver em Paris. Porquê?
Foi fundamental. Se os primeiros meses em Madrid foram duros por causa da ausência dos amigos, apesar da proximidade com Portugal, e por não ter jogado até novembro porque não era opção frequente do treinador, em Paris fui muito bem tratado quando cheguei. Tanto por parte do clube como pela comunidade portuguesa. Paris é uma cidade especial.

Porquê?
Porque tem uma oferta cultural fantástica, mas depois tem um povo de certa maneira xenófobo. Onde o português é visto como o que foi para lá fazer trabalhos que eles não se sujeitam fazer e isso custou-me. Apesar de eu ser um emigrante de luxo, ainda assim foi complicado.

Onde é que sentiu mais essa xenofobia?
Em Paris mesmo. Depois de conhecermos os parisienses e depois de eles se darem e permitirem quebrar a primeira barreira de distância, são pessoas fantásticas, mas a atitude é constantemente de xenofobia. O facto de haver três milhões de argelinos, dois milhões de marroquinos e dois milhões de portugueses de 1ª, 2ª e 3ª gerações levou a que se fechassem um pouco. Não são um povo como o português e o espanhol. Eu vinha de uma realidade completamente diferente onde havia a 'fiesta'. E de repente, em Paris, aparece-me uma situação diferente e difícil, porque gosto muito do contacto e de brincar.

Tem alguma história dessa altura que possa partilhar?
Tenho muitas, mas, como envolvem outras pessoas, não posso revelar. Posso contar uma que tem a ver com a minha família. Nós éramos, e sempre fomos, principalmente eu, muito infantil no estilo de vida. Desde muito cedo sempre tive bastantes responsabilidades, mas nunca perdi aquela veia infantil das brincadeiras. A ponto de no mês de dezembro, desde o dia 1 até à altura em que vínhamos a Portugal passar o Natal, tínhamos de oferecer qualquer coisa diariamente uns aos outros. Eu, a minha mulher e o meu irmão. Mas não podiam ser coisas compradas, tinha de ser algo original, alguma coisa feita por nós ou que encontrássemos na rua. À noite escrevíamos um textinho com o porquê daquela oferta e entregávamos a prenda. Um dia, encontrei umas cuecas rasgadas do meu irmão no lixo lá de casa. Tirei-as, colei-as com fita cola e voltei a entregá-las, com um texto cujo título era “a vida não está nada fácil”. Era este género de coisas que fazíamos para nos divertir.

A nível de clube, gostou do PSG?
Gostei principalmente da minha experiência no primeiro ano, depois as coisas começaram a complicar para mim com uma lesão no joelho e com a constante referência ao meu salário. A comparação entre aquilo que eu jogava e o que ganhava fez com que a opinião das pessoas fosse jogando contra mim. Cheguei a ter muitos jogos em casa em que quando tocava na bola era assobiado. Inclusive quando diziam o meu nome na constituição da equipa eu era assobiado. Eu convivia bem com isso apesar de não ser agradável.

Nessa altura era o jogador que ganhava mais no PSG?
Se não era o que ganhava mais, era dos que mais ganhava.

O médio ofensivo diz ter gostado da organização do FCP

O médio ofensivo diz ter gostado da organização do FCP

Nacho Doce

Quem era o treinador?
No primeiro ano foi o Luiz Fernández e no terceiro já foi o sérvio Vahid Halilhodžić, com quem não tive muito boa relação.

Porquê?
Ele era um tipo com bastante caráter. E há gente que reage melhor do que outras quando é confrontada com o que quer que seja. Fui muitas vezes castigado por opinar a favor dos jogadores. Sempre fui das vozes ativas no balneário e quando discutíamos as ideias normalmente calhava-me a mim o castigo.

É o chamado refilão?
Eu? Não. Eu tolero muita coisa, mas sempre gostei de defender quem está a ser injustiçado. E não tenho problemas em dar a cara por isso. Mas essa maneira de ser também já me ajudou.

Como?
Quando estava no Benfica, com o Graeme Souness como treinador, no meu último ano, tínhamos ganho ao Beitar 6-0 em casa na pré-eliminatória da Liga dos Campeões, fomos jogar lá e perdemos 4-2 e nesse jogo o Souness desbaratou com toda a gente. Apontou uma quantidade de coisas aos jogadores, eu não tinha sido sequer utilizado e ele apontou-me o dedo para me dizer uma quantidade de coisas. E eu, à frente de todos os jogadores, inclusive estava o presidente, confrontei-o com a situação de eu nem sequer ter jogado e por isso ele que não justificasse o insucesso com coisas minhas. Não me tinha sequer dado oportunidade e portanto não podia dizer aquilo. Felizmente a maneira como ele acolheu a minha reação foi boa. Achou que por ter sido capaz de enfrentá-lo, à frente de toda a gente, eu tinha valor, atitude, e fez-me jogar na semana seguinte. Aliás ele disse-me que pôs-me a jogar porque eu tinha muito carácter. Aquilo que serviu como trampolim numa perspectiva desportiva, porque a partir daí fiz os jogos todos do Benfica, serviu ao contrário com o outro tipo.

E surge o FC Porto.
No terceiro ano o PSG quer descartar-se da minha figura e surgem propostas, principalmente do estrangeiro, e eu estava numa fase em que, com algum desgosto, já via o futebol de outra forma. Tinha passado por um período muito difícil, de não jogar, estar afastado do plantel, as lesões, etc e do ponto de vista financeiro também já estava de alguma forma acomodado o que me permitiu tomar decisões não com a perspectiva financeira. O FCP surge e pareceu-me interessante porque naquela altura o FCP em três jogos podia ganhar três títulos: a supertaça nacional a supertaça europeia e jogava a intercontinental. Títulos era o que me faltava, tinha ganho uma taça em França. Como a abordagem do FCP foi muito correta, o interesse demonstrado também agradou e era uma forma de voltar a casa, vim.

De quem foram os outros convites que teve?
O Besiktas e o Zenit de S. Petersburgo, por exemplo, foram os mais insistentes. As propostas eram bem superiores à do FCP. Mas como no FCP havia a hipótese de títulos, parecia bem organizado e como na realidade como a formação que tive foi no Benfica, sempre vi o FCP como rival, foi uma surpresa também a abordagem que me foi feita.

Gostou do clube?
Gostei muito do clube, gostei da organização, do seu presidente e de toda a estrutura. O trato foi muito bom. E foi a constatação de porquê o FCP vencedor, que tinha a ver com a organização da altura. Acho é que não estava preparado para jogar no FCP.

Porquê?
Porque vinha de um ano em que tinha feito poucos jogos, vinha com poucas rotinas de jogar e de treinar. Encontrava sempre alguma fonte de motivação mas os rivais estavam com um ritmo de cruzeiro muito elevado. Tinham ganho a Liga dos Campeões no ano anterior, tinham atletas com muita qualidade também e tive alguma dificuldade para impôr-me.

É por isso que vai para a Académica?
É por isso que vou para a Académica. Em dezembro vamos jogar a Intercontinental, já na altura havia alguns episódios com os quais não concordava, nomeadamente opções que foram feitas... mas não quero entrar em muitos detalhes... Tenho uma conversa com o presidente e peço-lhe para ir embora. Eu era uma aposta dele do FCP, ele não queria que eu fosse embora. Mas os dois jogos seguintes mostraram... eu entrei nos dois mas não joguei como titular, ainda que na ausência de muita gente… Ele percebeu que eu não estava satisfeito.

Quem era o treinador na altura?
O Victor Fernández.

Ao serviço da seleção nacional

Ao serviço da seleção nacional

A experiência na Academia foi pacífica?
A experiência foi muito boa. Saí de uma desilusão de Paris, de uma dificuldade de afirmação no FCP e encontro a Académica no último lugar, a nove pontos do penúltimo, com 14 jornadas para se desenrolar. O cenário era muito negro e senti-me importante. Eu sou muito de grupo e o contributo não foi só no campo mas também fora dele, motivando os colegas, e isso fez com que conseguíssemos 11 jogos sem perder e nos mantivéssemos na I Liga, fazendo qualquer coisa de extraordinário, que ninguém esperava.

Segue-se uma época e meia no Sp. Braga. A sua mulher acompanhou-o sempre?
Sim, infelizmente tive que a levar para todo o lado (risos), estou a brincar, estou a brincar.

Nessa altura já tinham filhos?
Em Braga nasce o meu filho mais velho, o Pelayo (sim, é um nome espanhol). Eu entrei num ano em que o Sp. Braga jogava muito. Eu adorava jogar lá, gostava, tinha mesmo prazer, mas fui castigado por lesões e mais lesões. Lembro-me que estive dois meses para recuperar de uma lesão e no primeiro jogo que faço fiquei parado o resto do ano. Já na segunda temporada no Sp. Braga, quando tive a primeira lesão, em outubro, desanimei por completo. Eram muitas. E rescindi em janeiro porque não me sentia em condições de competir, estava mesmo desanimado.

Mas ainda vai para o Belenenses, Trofense, Salamanca...
O Belenenses surge numa altura em que eu já estava a fazer trabalho de recuperação com o fisioterapeuta Gaspar, para recuperar todas as mazelas. E o Mário Monteiro, preparador físico da equipa técnica do Jorge Jesus, faz-me um plano de recuperação. Na realidade não sabia se regressaria para jogar ou não. Estava a treinar só mesmo para estar bem e recuperar das dores que tinha. O Jorge Jesus foi ver-me treinar uma vez. Nesse dia acompanhou-me o Oceano que pontualmente o fazia para eu não estar sozinho. E no final o Jorge Jesus disse-me que gostava que eu fosse jogar para o Belenenses. Era cómodo, perto de casa, a situação familiar não mudava muito, aceitei.

No Belenenses faz nove jogos...
Mais uma vez fui castigado por lesões. No dia 7 de janeiro que era o meu primeiro jogo do ano, parti o joelho, tive de ser operado e já não fiz mais jogos esse ano. Estive quase para ir jogar para o EUA, tinha uma proposta do Salt Lake City e estive muito tentado a ir para lá. Estava a treinar no Estoril Praia, porque o treinador, o Tulipa, era meu amigo, e quem estava na direção era meu conhecido. Treinava com o plantel. Estive dois meses a treinar lá, até que o Tulipa vai para o Trofense e pede-me para ir para lá.

Não foi para os EUA porquê?
Porque iria iniciar em janeiro ou fevereiro e nós estávamos em setembro quando o Trofense mostra interesse. Nesse momento as conversas em casa foram do género, "vamos para o Trofense porque o Tulipa está a pedir, é uma ajuda para ele"… é que ir para o Trofense significava voltar a viver no Porto e a minha mulher não tinha gostado de viver no Porto. As dúvidas punham-se, mas acabamos por decidir ir. Essa segunda experiência curiosamente correu muito bem, a minha mulher gostou muito mais de estar por lá e foram sete meses que estive a representar o Trofense.

Enquanto jogador no V. Setúbal, aqui numa disputa de bola com Fábio Coentrão

Enquanto jogador no V. Setúbal, aqui numa disputa de bola com Fábio Coentrão

Rafael Marchante

Até que vai para Espanha novamente, para Salamanca.
Estamos numa fase decisiva da nossa vida, porque o final da carreira aproxima-se e têm que se tomar decisões. Tínhamos casa em Madrid, em Cascais e teríamos que decidir onde é que iria ser a nossa residência. Salamanca surge porque tínhamos adorado viver em Madrid, mas ainda solteiros, sem filhos, e era importante experimentar também a vivência de um país com as crianças e os seus hábitos. Fomos para Salamanca. Em termos desportivos foi muito bom, fui muito bem tratado. E nessa fase acabamos por perceber que não conseguimos viver longe de Cascais/Estoril e decidimos regressar a casa.

Nessa altura já tinha mais um filho?
Sim, em Salamanca nasce a Aitana.

Os nomes espanhóis foram uma exigência da sua mulher?
Não, eu gostei do nome Pelayo, quando estava a passar a lista de nomes e curiosamente é um nome asturiano e a minha mulher é das Astúrias. Esse foi fácil. A segunda ela deixou-me decidir. Mas aí acho que deve ter sido das poucas coisas na vida que ela me deixou decidir (risos)... mas também posso dizer que tenho a vida facilitada, não tenho que tomar decisões, é só cumprir coisas, portanto é fácil (risos).

Entretanto vai para o V. Setúbal. Vai viver para lá?
Não, ficamos na mesma no Estoril e eu vou e venho todos os dias. Desportivamente eu notava que já estava com muito desgaste físico, o meu corpo já estava a ceder um bocadinho e sempre fui uma pessoa de mostrar-me disponível para tudo, mesmo quando não estava a 100%. Fui sempre pouco cuidadoso com a minha imagem enquanto jogador, porque punha-me sempre ao serviço da equipa ainda que com ombros deslocados, com fraturas, mil e uma coisas que muitos não fariam. As pessoas que estão por fora não sabem e às vezes criticam sem saber o porquê das coisas. Sofri um bocadinho. Gostei do trato das pessoas mais próximas de Setúbal, mas foram dois anos muito complicados, que me desgastaram muito.

Quem era o treinador?
Apanhei uns quantos. Tive Manuel Fernandes no primeiro ano. Houve faltas de pagamento. Houve situações constrangedoras de gente que não tinha como sobreviver e isso fez com que me desgastasse muito. Sofri um bocadinho também com o mal dos outros. Custou-me. Depois surge a oportunidade do Estoril e foi o regresso a casa. A ideia era vir ajudar. No campo, desportivamente, ajudei pouco, fiz muito poucos jogos, mas considero ter sido importante no balneário.

Como assim?
Acho que consegui motivar e ajudar para que o balneário se mantivesse unido o ano todo. Depois fui convidado para colaborar com a SAD na intervenção que a SAD tinha na formação. A SAD contribuiu para o crescimento da equipa de sub-19 do clube, era minha responsabilidade colaborar com a formação. Passados oito meses a direção candidata à presidência convida-me para pertencer à lista, por intermédio do Alexandre Faria, atual presidente e aceitei. Juntei-me à direção do futebol, ao Vitor Neves, e desde então levamos quatro anos nestas funções.

Como é que ficam os estudos no meio disso tudo?
Acabei o 12º ano através das Novas Oportunidades, em Cascais. E fiz formação como treinador. Mas neste momento para as funções que desempenho não é de todo obrigatório. Em todo o caso já me permitiu noutras situações, já fui adjunto da equipa sénior.

Em todo o percurso quais foram os treinadores que lhe deixaram mais marcas?
Tive confrontos com alguns treinadores, dei-me bem com uns, mal com outros, não significava que fossem melhor ou piores pessoas. Com o Halilhodžić tive muitos problemas. Aprendi muito com o Jorge Jesus. Muitas coisas que ele faz eu não faria, nomeadamente algumas intervenções, mas tem muitas coisas boas e foi com quem mais aprendi.

Houve algum jogador com quem fez uma amizade para a vida?
Tenho como referência, desde Paris, o Gabriel Heinze, argentino. Foi para mim dos melhores atletas que conheci e é das melhores pessoas que conheço. Considero um irmão para a vida, é padrinho do meu filho e faria tudo por ele.

Dos clubes por onde passou qual foi aquele que lhe pareceu mais bem organizado?
Eu apanho o Benfica numa fase super desorganizada. Se calhar atualmente é outra realidade. O FCP foi aquele onde tudo batia certinho. Desde o apoio ao jogador, a envolvência na cidade também ajuda. As pessoa sentem muito o FCP.

Diz-se que há uma marcação cerrada aos jogadores.
Não digo que não. Eu não sofri com isso. Sei que é difícil quando as coisas não correm bem. Há muita pressão, as exigências são grandes, mas também porque se dá muito em troca, não falta nada ao jogador na cidade do Porto.

Não era homem de noitadas?
Nunca fui. Mesmo na altura do Benfica, na minha fase de adolescência, habituei-me a sair só quando ganhava. E felizmente ganhava bastantes vezes. Mas discotecas nunca foram muito o meu forte.

É mais de família.
Muito mais. Agora ainda mais, obviamente. Eu saía, atenção, mas sempre fui uma pessoa muito discreta e tranquila.

Os seus filhos jogam futebol?
O Pelayo joga, a Aitana diz que quer inscrever-se no próximo ano no futebol. Ela diz que é maria rapaz, mas não me parece, vejo-a muito mais feminina do que maria rapaz. Eu digo que ela é a minha princesa e ela diz que “não, eu sou o Batman". Ela é o Batman!

Que idade têm?
O Pelayo tem 12 e a Aitana sete.

Hugo Leal treina as mães e avós do Estoril

Hugo Leal treina as mães e avós do Estoril

Marcos Borga

Onde foi buscar esta ideia do Projeto Internacional do Estoril?
Sou um homem de muitas ideias. A federação neste momento está a lançar um projeto que supostamente é pioneiro e nós já o temos há dois anos e meio. Que é para trazer gente com mais idade e peso a praticar desporto. E nós temos o Fut4all que em novembro fará três anos e temos o Fut4Women que fez um ano em abril. O projeto internacional já existe em muitos clubes, mas a necessidade de divulgação do nome Estoril por aí fora levou-nos a agarrar a ideia. Era uma área que ainda não estava explorada. A zona geográfica onde estamos é muito atrativa para os estrangeiros e o projeto internacional do Estoril destaca-se porque é muito familiar, é muito à minha imagem. Somos muito próximos dos atletas, somos praticamente família, não são números.

O Fut4Women tem tido muito sucesso. É muito diferente treinar homens e mulheres?
É. Cheguei a treinar o futebol feminino sénior do Estoril há duas épocas, durante um mês, e as diferenças eram grandes. Mas são cada vez menos. Tive que aprender a bater à porta do balneário antes de entrar (risos). O trato que é preciso ter, a forma de abordagem também é diferente.

Porquê?
As mulheres gostam de saber o porquê de tudo. As intensidades de treino são diferentes. Qualquer indicação, instrução que o treinador dá, existe a necessidade de um porquê, enquanto o homem cumpre independentemente de estar de acordo ou não, de perceber ou não, executa.

É mais cansativo treiná-las.
Não tenho dúvidas. Tenho que arranjar processos que não promovam a dúvida, por isso os treinos têm que ser mais estudados e elaborados.

No futuro vê-se mais como dirigente do que como treinador?
Nos próximos três anos tenho uma missão no Estoril Praia, e o que perspectivo é o crescimento internacional do clube, é a minha função agora. Tenho o terceiro nível do curso de treinador, mas neste momento não me vejo como treinador porque não me sinto preparado para isso. Não que não tenha capacidade para, mas porque não me sinto preparado para sair daqui da minha zona de conforto do Estoril.

Qual a sua maior frustração no futebol?
Não tenho. Aliás eu não tenho frustrações na vida. Posso não ter alcançado alguns objetivos que tinha o que é natural porque também sou muito exigente. Sonhava ser internacional A e consegui, sonhava jogar no Benfica e consegui. Tento criar objetivos de curto prazo.

Qual foi a maior alegria enquanto jogador?
O ter-me tornado profissional. O dia em que me estreio no Benfica foi sem dúvida especial. É o concretizar de muitos sonhos, tudo no mesmo momento. Esse é, sem dúvida, o melhor momento da minha carreira desportiva. A verdade é que sou um felizardo na vida. Também sou muito otimista e divirto-me com tudo. Sou capaz de fazer um trabalho de secretariado de 12 horas e sou feliz. Se estou ao ar livre, estou feliz. Sou feliz com pouco.

O momento mais emocionante, em que não tenha contido as lágrimas?
Chorei quando não subimos de divisão no Atlético de Madrid. Eu era muito feliz no clube e sabia que só ficaria de subíssemos, porque caso contrário o clube precisava de ganhar dinheiro e eu era dos jogadores mais apetecíveis na altura, que tinha mais mercado. Nesse momento caiu-me a lágrima. Mas eu também sou de lágrima fácil. Eu choro com publicidade.

Com publicidade?
Sim, se aquilo corre mal, se a rapariga está a lavar a roupa a promover o detergente e a roupa não fica bem lavada, eu choro.

(Risos)

Está a rir mas é verdade. Ainda ontem, a minha mulher puxou um vídeo e eu comecei logo com um nó na garganta, não tenho muito estofo, sobretudo para coisas que metem crianças e injustiças.