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A casa às costas

Marco Caneira e os leitões: “As pessoas vão ao restaurante 'O Caneira' a pensar que é meu, mas não é. O meu é outro”

Aos 38 anos, Marco Caneira ainda joga futebol no clube da sua terra, Negrais. O antigo defesa do Sporting, que passou por Itália, França e Hungria, não esconde que foi vítima da guerra entre agentes e explica que na sua vida há um antes e um depois da morte súbita da filha Maria, de oito meses. Pai de quatro filhos e investidor nos combustíveis fósseis, anda agora também ocupado com a academia que tem o seu nome, e que além de formar futuros futebolistas, tem também uma missão social

Alexandra Simões de Abreu

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O campo relvado que o seu pai construiu ao lado de casa para o Marco jogar à bola, ainda existe?
Sim. É um campo pequeno com 12m por 5m que os meus filhos também utilizaram. Agora como o Manuel e o Francisco já têm 17 e 16 anos, é utilizado pelo meu sobrinho de cinco anos.

Lembra-se do primeiro jogo a que assistiu em Alvalade?
Com três, quatro anos já ia ao futebol. Lembro-me de um episódio, um Sporting-FC Porto em que houve muita confusão com as claques e tive de andar a correr por causa da polícia. Eu tinha uns seis anos e é do que mais me lembro...

Como é que começa a treinar no Sporting?
Um dia soubemos que ia haver captações e fomos. O treinador era o Osvaldo Silva. Fui treinar uma segunda-feira e uma terça-feira e entretanto havia um jogo-treino no sábado que acabei por jogar. Fiquei logo. Nessa altura, com 10 anos, fisicamente, não sei se era por vir da aldeia, mas tinha um poder físico superior aos outros.

Jogou logo como defesa?
Sim, até porque fisicamente era maior do que os outros. O meu pai era defesa e eu desde que me conheço que sempre fui defesa também.

Fez os escalões todos no Sporting...
...e fui campeão nacional em todos eles, infantis, iniciados, juvenis e juniores.

Marco é o segundo da direita, em pé

Marco é o segundo da direita, em pé

Mas inesperadamente sai do Sporting.
Estava com 17/18 anos tinha mais um ano de contrato, mas acabei por rescindir e foi na altura em que assinei com o Inter de Milão, por quatro anos.

Isso foi em que época, recorda-se?
Pois, não me lembro. Com 17 anos joguei a primeira vez nos seniores, entretanto, fiquei nos juniores e seniores, fui emprestado três meses ao Salgueiros, depois voltei.

Antes disso não é emprestado ao Lourinhanense?
Não. A primeira vez que fui emprestado foi ao Salgueiros, três meses, tinha acabado de cumprir 18 anos e estava nos seniores. Entretanto na época seguinte, vim para o Sporting novamente e treinava com os seniores mas jogava ou nos juniores ou no Lourinhanense. Fiz só três jogos pelo Lourinhanense.

Então como se dá a ida para Milão ?
Nesse ano, acabei por ir seis meses para o Beira-Mar, que foi o ano em que fizemos o Mundial de Sub-20, na Nigéria. Entretanto voltei e havia ali qualquer questão numa cláusula do contrato em que não chegámos a acordo e acabei por rescindir. Como tinha alguns clubes interessados, porque foi uma época interessante com o Torneio de Toulon e o Mundial, acabei por assinar com o Inter, que na altura ia buscar muitos jovens.

Mas nunca jogou no Inter.
Não. Esses primeiros meses, depois de ter rescindido com o Sporting e de ter assinado pelo Inter, fui emprestado ao Alverca. Foi um acordo que se fez com o Inter, porque a situação da rescisão ainda estava em tribunal e nos primeiros seis meses não joguei, só treinava no Alverca para manter a forma. Entretanto, assim que pude ser inscrito, acabei por jogar seis meses dessa época no Alverca. Só depois é que fui para Itália.

E foi logo emprestado ao Reggina.
Exato. E depois emprestado ao Benfica.

No Reggina, em Itália

No Reggina, em Itália

Pensou alguma vez que ia conseguir jogar no Inter de Milão?
Não. Tinha a certeza que era muito difícil jogar pelo Inter naquela altura com o plantel que tinha. O Laurent Blanc era o central, era uma grande equipa, com Roberto Baggio, Panucci, grandes nomes.

Vai para Itália já casado e com um filho.
Sim, casei quando estava em Alverca e o Manuel nasce em 2000, pouco antes de ir para Itália. Fomos os três.

Adaptaram-se bem a Itália?
Sim, se bem que era uma região um bocado complicada, onde havia a máfia calabresa, mas foi uma experiência muito positiva para nós. Sair do país, da aldeia e com aquela idade foi um choque grande, mas de aprendizagem para o resto da vida.

Sentiram-se desamparados?
Sentimos. Mas a nossa mentalidade era forte e acabámos por viver muitos anos fora do país e Itália foi o início de algo que para nós foi muito gratificante, que é conhecer outras culturas, outros países, sendo nós emigrantes privilegiados.

Como veio parar depois ao Benfica?
O clube manifestou interesse e chegámos a acordo. Dado que não ia ficar novamente no plantel do Inter, havia várias hipóteses em cima da mesa, e o Benfica era o clube que se destacava dos outros todos. Tinha uma equipa fantástica, com Zahovic, Simão, João Manuel Pinto, etc. E tendo o Mundial de 2002 à porta, era um ano que podia ser de afirmação para mim, como aconteceu.

Não lhe custou ir para o rival do seu clube do coração?
Não. Eu estava numa fase de afirmação e, com todo o respeito, quando alguém em Portugal é desejado seja pelo Sporting seja pelo Benfica, só tem de estar satisfeito, porque é um orgulho muito grande poder representá-los. E com aquela idade, ter saído, ter jogado um ano em Itália e depois haver aquela manifestação de interesse...

Na seleção, com Cristiano Ronaldo e Petit

Na seleção, com Cristiano Ronaldo e Petit

Jamie McDonald

Entretanto dá-se a sua estreia na seleção A.
Sim, foi um ano que correu muito bem e que culmina com a ida ao Mundial de 2002. Fui o único atleta do Benfica a ser chamado. Entretanto houve negociações para ficar na Luz, mas as coisas acabaram por não avançar.

Porquê?
Estive numa reunião num hotel, com o presidente do Benfica e um funcionário de um agente [refere-se a José Veiga], que na altura trabalhava numa rádio e que hoje é comentador desportivo num canal português, não vou dizer o nome - ele recorda-se muito bem disso - e que me disse que se eu não assinasse contrato com aquele agente para quem ele trabalhava, eu não ficaria no Benfica. Não fiquei porque trabalhei muitos anos com o Paulo Barbosa e a minha seriedade não me levaria a mudar por questões de pressão.

Vai então para Bordéus. Gostou da experiência?
Foi uma experiência a todos os níveis excelente. Mesmo o primeiro ano que foi de integração.

Gostou mais de França do que de Itália?
Sim. Até porque havia outra qualidade de vida. Na segunda época fui designado logo capitão de equipa, o que era algo importante sendo estrangeiro. Essa segunda época correu tão bem que houve muitos interessados e acabei por ser vendido ao Valência, em 2004.

Que interessados eram esses?
Clubes franceses e ingleses. Acabei por escolher o Valência que tinha sido campeão de Espanha e era um clube em ascensão.

O campeonato inglês não o seduziu?
Para mim não é o melhor campeonato da Europa, nem o campeonato com mais qualidade. Para mim é a liga espanhola.

No Valência, onde jogou em 2004/05 e 2007/08

No Valência, onde jogou em 2004/05 e 2007/08

JOSE JORDAN

Esses anos em Valência ficaram marcados de forma trágica com o falecimento da sua filha Maria, de morte súbita.
Foi logo na primeira época. Foi um episódio muito marcante tanto pessoal como desportivamente. Há um antes e um depois dessa tragédia. Animicamente foi muito complicado, demorou alguns anos até conseguir recompor-me. Mas a vida acaba por dar uma volta e as coisas não param e o reflexo disso é que acabámos por ter, felizmente, mais duas meninas, uma que agora tem 10 e a outra 11, e olhámos em frente.

Soube da notícia antes de um jogo.
Sim, estava a caminho do estádio. Foi algo inesperado. Estava no autocarro e nem sequer entrei no estádio, viajei diretamente de avião para Valência, porque acho que íamos jogar no norte de Espanha.

Não havia sintomas nenhuns, nenhuma doença?
Nada. Foi morte súbita. Tudo aconteceu em 30 minutos.

É brutal...
Não há um parâmetro para poder designar, para poder perceber aquele momento. Agora, à distância, depois de aprender a gerir tudo, não há nada que descreva o momento, o segundo ou os minutos, a situação. Ficamos desfeitos. Há um corte muito grande. Uma ferida que nunca passará obviamente, vai melhorando, mas que teve em nós um efeito muito forte. Não foram tempos nada fáceis. O que realçamos foi todo o apoio e a ajuda na altura. A própria equipa que viajou toda para Lisboa.

É emprestado depois ao Sporting. Foi a seu pedido, queria voltar?
Na altura abriu-se essa hipótese e depois daquela saída, poder voltar bem ao Sporting era bom e obviamente forcei tudo em Espanha para que isso acontecesse. Faço uma época e meia emprestado, volto novamente a Espanha, um ano, e depois regresso novamente ao Sporting, com quem assino por quatro anos.

Nestas mudanças todas, a mulher e filhos estiveram sempre consigo? Não foi complicado em relação à escola, por exemplo?
Sim, em relação à escola foi. Quando viemos de França colocamos os miúdos no liceu francês, em Valência, a determinada altura eram muitos idiomas. Então decidimos colocá-los só no castelhano e numa escola básica, porque já os sentíamos cansados, sem conseguir absorver tudo. Mas foi uma aprendizagem boa para eles e hoje falam três, quatro línguas.

Os quatro filhos do jogador de Negrais

Os quatro filhos do jogador de Negrais

As coisas não correm bem no Sporting em 2010/2011. O que aconteceu?
Essa foi uma altura em que entrou para a estrutura do clube uma pessoa que me disse cara a cara que não contava comigo. Essa pessoa teve um agente desportivo, enfim... são as guerras de agentes que acabam por prejudicar alguns atletas. Não sei se são questões pessoais, se são profissionais. Resumindo esse diretor disse-me que não contava comigo porque a pessoa que estava a colocar jogadores e a investir naquele ano no Sporting não me queria no projeto.

Está a falar do Costinha, que era o diretor desportivo na altura e trabalhava com o Jorge Mendes, certo?
Sim.

No meio disto tudo entra numa lista da coligação PSD/CDS/PP, liderada por Fernando Seara, que concorre às eleições autárquicas.
É verdade, sou convidado pelo professor Fernando Seara, conhecido da minha família há muitos anos. Eu era candidato à Junta de Freguesia de Almargem do Bispo.

A sua ideia era ser presidente da Junta de Freguesia?
A minha ideia era poder ajudar ao desenvolvimento desta região. Ter algum peso naquilo que é o poder local e poder na região que é conhecida pelo leitão assado de Negrais e de outra indústria, a dos mármores, e dinamizar esta região. Nunca pensei em fazer carreira política.

Por falar em leitão, há um restaurante "O Caneira", que é seu, certo?
Não. Esse restaurante é de um primo do meu pai. Não estou ligado a ele. As pessoas associam como sendo meu, mas não é meu. Eu estou ligado, sim, ao restaurante e aos leitões do "Tia Alice", que é da minha esposa e das irmãs.

Como surge a ida para a Hungria?
Depois de ter estado em Alvalade a treinar um ano sozinho, porque nem sequer me incorporaram no plantel, surge pela mão do Paulo Sousa.

Treinou sozinho onde, em Alvalade?
Sim. Todos dos dias, sozinho. Acabámos por chegar a um acordo mútuo, porque não fazia sentido aquela situação. Depois de estar livre, surgiu o Paulo Sousa que foi para o Videoton da Hungria e que me convidou. Acabei por aceitar.

Quais foram as primeira impressões de Budapeste?
Muito boas. Uma cidade lindíssima. Acabei por aceitar por ser um projeto interessante, eu conhecia o Paulo já desde a seleção, desde 2002, e ainda tive ocasião de jogar com ele. Era alguém que primava por projetos interessantes e foi uma escolha muito boa também para mim.

No Videoton da Hungria, onde foi campeão

No Videoton da Hungria, onde foi campeão

Bernadett Szabo

Nessa altura já tinha mais duas filhas. A família foi consigo?
Não, porque havia a transição da escola dos miúdos, que tinham 10 e 11 anos e acabámos por decidir que ficariam nos colégios onde já estavam integrados.

Foi dificil estar sem eles?
Não muito, porque havia ligações diretas e diárias para Budapeste. Semana sim vinha eu, semana não, iam eles visitar-me.

Os seus filhos nunca pediram para ir viver consigo?
Não, até porque na Hungria o campeonato pára em novembro e só se inicia em meados de janeiro. Por isso, estava um mês e meio cá nessa altura e nas férias de verão eles iam para lá os três meses, o que amenizava as saudades.

Aprendeu húngaro?
Mais para o fim já percebia o que diziam e conseguia dizer algumas frases. Não é uma língua muito fácil.

Ficou a viver num hotel ou numa casa?
Fiquei numa casa sozinho, mas tinha como vizinho um outro português, Filipe Oliveira, que tinha a família lá, e era com quem me relacionava diariamente.

Marco Caneira com a família

Marco Caneira com a família

Qual foi o jogador mais divertido que conheceu?
Lembro-me do Porfírio, que apanhei no Benfica, e que era alguém que fazia o grupo rir, com as histórias que contava. Uma vez fizeram-lhe uma entrevista e perguntaram-lhe como é que o futebol tinha aparecido na vida dele. E ele respondeu que estava sentado no sofá, bateram à porta, ele foi abrir e era o futebol (risos). Ele tinha muitas histórias desse tipo.

Não tem nenhuma história sua que possa partilhar?
Tenho uma história que me aconteceu em Valência. Tínhamos lá um carro nosso, de matrícula portuguesa. Um dia estava a chegar da seleção e no caminho do aeroporto para casa, no carro do clube, olho pela janela e vejo um carro de um modelo semelhante ao meu e com matrícula portuguesa... passado uns dez segundos apercebemo-nos que era mesmo o nosso carro! Quando chegamos a casa, confirmámos. Tínhamos sido assaltados.

Só levaram o carro?
Sim. Ainda entraram dentro de casa, mas não estava muito mexida, também não havia muito para levar. O carro depois apareceu, tinha sido abandonado durante a noite num sitio fora de Valência.

De todos os jogadores com quem privou, qual foi aquele que o marcou mais?
Talvez o Luís Figo.

Porquê?
Pelo carisma e liderança. Ele era um líder não só pela figura que era na altura e pela qualidade que tinha, mas fora das quatro linhas sempre foi alguém que sentia a responsabilidade de liderar um grupo. Havia muito respeito, não só em campo. Ele impunha-se. E atravessava-se pelo grupo. Defendia-nos. Era o grande líder em todos os aspectos.

Houve algum jogador com quem tenha criado uma amizade para a vida, que se tenha tornado visita de casa, com quem já tenha passado férias?
Tenho alguns. Muito poucos mas tenho. Mas não vou dizer quem são.

É apoiante de Bruno de Carvalho. Como se dá a aproximação a esta direção?
Eu surjo a apoiá-lo como surgiu praticamente toda a gente. O Sporting precisava e precisa de alguém que pudesse, como ele fez e bem, controlar todo o clube e o seu trabalho tem evoluído. Mas tem que evoluir muito mais.

O que quer dizer?
As coisas estão limpas, mas agora precisamos de dar o passo à frente que é de começar a conquistar coisas. Eu sou o primeiro a acreditar no Sporting e no que são os seus ativos, mas o Sporting tem que se otimizar cada vez mais. Tem que ter cada vez mais profissionais à frente daquilo que é a alta competição. Tem que ter pessoas com sensibilidade daquilo que é o futebol profissional. É preciso cada vez mais pessoas com esse perfil.

Na última época no Videoton, 2014/2015, foi campeão e depois acaba por sair. Porquê?
A minha saída já estava planeada. A nível de família já tínhamos preparado o meu regresso. Já sabia que era o último ano e que voltaria para casa.

Marco Caneira com os amigos Jorge Martins (à esquerda na foto), o cavaleiro Paulo Ferreira e o guarda-redes Ricardo, na Califórnia, onde tem um torneio com o seu nome

Marco Caneira com os amigos Jorge Martins (à esquerda na foto), o cavaleiro Paulo Ferreira e o guarda-redes Ricardo, na Califórnia, onde tem um torneio com o seu nome

Foi a última época como profissional mas ainda faz uma perninha em Negrais.
Sim, como toda a gente sabe, depois de um ano parado ainda me pediram para ajudar aqui a Sociedade Recreativa e Desportiva de Negrais. Não só em campo. Estou empenhado a desenvolver um projeto de uma escola de nome "Marco Caneira", uma academia com um cariz social muito diferente daquelas que estão espalhadas pelo país. Estamos a fazer acordos com associações para crianças que têm dificuldades em praticar desporto a 100%, de forma a trazê-las para estas novas instalações e poder transmitir o que é o desporto dentro das capacidades limitadas que muitas delas têm. Ou seja, não é uma academia tradicional de futebol.

Esaas instalçaões já existem?
Umas sim e estão a ser melhoradas e estamos a criar também novas instalações, para poder absorver todos os miúdos que já vieram as captações e que não param de chegar. A afluência tem sido muita.

A Academia Marco Caneira já está a funcionar?
Vamos começar o final de agosto. Já tivemos muitos treinos de captação, mas as inscrições continuam abertas e até estamos com dificuldades boas, devido a tanta procura. Vamos ter que aumentar as equipas. Estavamos a pensar ter só uma equipa por escalão e em princípio vamos ter de fazer algumas alterações. Vamos ter benjamins, iniciados, juniores, se calhar vamos ter juvenis.

Qual será o seu papel na Academia?
Vou estar muitas vezes presente. Para o ano vou jogar novamente pelo SRD Negrais e vou estar muito próximo dos miúdos, mas mais que treiná-los, quero poder ajudá-los naquilo que é o seu crescimento, que foi o que aprendi durante a minha formação no Sporting. No Sporting, a formação não foi só técnico-tática, foi uma formação a nível pessoal também.

O corpo ainda lhe responde da mesma maneira?
O corpo corresponde sempre da mesma maneira. Digo muitas vezes nas palestras que dou aos miúdos que o que conta a 80% é a parte mental.

Os seus filhos jogam futebol?
O mais velho sim, está nos juniores do sintrense, no CNS. Joga a avançado. Tem mais qualidade que o pai, mas tem que ganhar aquela parte mental. O pai nesta altura ainda lhe ganha nesse aspecto.

E a vida académica? Estudou até que ano?
Fiz o 10º ano e não deu para mais na altura porque fiz dois campeonatos da europa de sub-16, dois campeonatos da europa de sub-18, um campeonato do mundo de sub-17, um de sub-20 e é muito difícil ter tempo para poder estudar. A partir dos 18 anos já era profissional e os estudos ficaram para trás. Há cinco, seis anos fiz um MBA de Marketing e Liderança de Desporto, numa universidade em Lisboa. É algo que me interessa muito, eu não nasci para treinador. A parte da gestão dos ativos de um plantel interessa-me mais. Não como agente, mais como dirigente. Mas não é algo em que esteja muito focado.

Afirmou recentemente que não se importava de ser o Rui Costa do Sporting. Se o convidassem, aceitava?
Obviamente. É necessário que uma administração ou um presidente de um clube tenha alguém que faça a ligação entre o plantel e essa mesma administração ou presidente, porque é preciso haver um filtro, alguém com sensibilidade que saiba a forma como vai passar o problema de um atleta ao presidente ou vice-versa.

E sente que tem essa capacidade e que podia desempenhar esse papel?
Sinto, não por alguma formação académica que tenha tido, mas pela formação da prática destes anos todos. Tenho experiência. Além de que falo seis idiomas, sem formação academica. Português, inglês, francês, espanhol, italiano e um bocadinho de húngaro.

Marco Caneira marcou o golo da vitória do Sporting, frente ao Inter de Milão, na Liga dos Campeões de 2006

Marco Caneira marcou o golo da vitória do Sporting, frente ao Inter de Milão, na Liga dos Campeões de 2006

NICOLAS ASFOURI

Mas entretanto meteu-se noutros negócios, noutras áreas que não têm nada a ver com o futebol.
Estou ligado às energias fósseis, aos combustíveis. Tenho várias empresas, uma da parte imobiliária dos postos, de compra e da gestão de venda de postos de combustível; e tenho outra que está ligada à distribuição e retalho de combustíveis a granel.

É o Marco que faz a gestão destas empresas ou entrou apenas com o capital?
Eu é que faço a gestão diária destas empresas. Além dos comerciais, claro. Esta é a minha parte profissional.

Porquê as energias?
Da passagem por Valença fiz algumas amizades, fora do futebol, que me levaram a este negócio.

Ainda a propósito de amizades soube que criou uma amizade forte com portugueses nos EUA e que até tem um torneio com o seu nome lá na Califórnia. Pode explicar?
Há uns anos, num aniversário do Sporting, fui convidado para ir à Califórnia, a uma comunidade portuguesa no Vale de San Joaquin. Acabei por fazer amizade com os irmãos Martins, os maiores produtores de leite do estado da Califórnia, e passei a lá ir todos os anos. Conheci também o senhor comendador Manuel Eduardo Vieira, o maior produtor de batata doce do mundo, que nos abre as portas da sua casa sempre que lá vamos. Entretanto, a Casa dos Açores de Hilmar, passou a organizar, em agosto, um torneio com o meu nome, com outras equipas da comunidade portuguesa na Califórnia. Passei a ir sempre em agosto, e este ano vou levar o Ricardo [antigo guarda redes] e o Simão Sabrosa.

Houve algum treinador que o tenha marcado mais?
O Osvaldo Silva, no Sporting.

Costumava ler a imprensa diária desportiva, ou não ligava?
Ligava sim. Alguns jogadores ou treinadores dizem que não ligam ou não vêem, mas isso é falsa modéstia. Acho que toda a gente deve ler a imprensa e daí tirar as suas ilações.

Os media foram mais vezes justos ou injustos consigo?
Acho que sempre foram justos, à medida daquilo que fui. Eu também tinha a noção de que havia jogos que eram menos bem conseguidos. Mas a crítica ajuda-nos a crescer e isso é importante.

O jogo para a vida?
Será sempre Sporting-Inter de Milão onde ganhamos 1-0 e foi Marco Caneira que fez o golo. É um grande golo.