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A casa às costas

Norton de Matos: “Estive seis dias a filmar as aventuras do Marco Polo para a Peugeot. E entrei num filme, "Voltar", do Joaquim Leitão”

O episódio de hoje é com Norton de Matos, o jogador/treinador/diretor desportivo que esteve um bocadinho por todo o lado - e continua a estar. Este é mais um A Casa Às Costas, na Tribuna Expresso

Alexandra Simões de Abreu

Natacha Brigham

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Começou a jogar futebol como e quando?
Oficialmente, comecei a jogar aos 16 anos. A grande influência foi do Padre Alberto, do colégio S. João de Brito, que me "forçou" a seguir esse caminho do futebol. Primeiro nos campeonatos da Mocidade Portuguesa e depois porque me disse: “Luís, segue os teus sonhos. Não te importes com o facto de não parecer bem”. É que o futebol na altura não tinha a mesma reputação de hoje. Naquela altura no colégio os meus colegas ou eram jogadores de râguebi ou tocavam fado ou pegavam touros. Eu era um bocadinho atípico.

Como foi parar ao Estoril Praia?
O treinador que eu tinha no colégio era o Mário Lino, do Sporting. Ele levou-me ao Sporting e eu ia assinar o meu primeiro contrato com o Sporting, apesar do meu pai se opor por achar que era importante acabar a escola, ainda por cima numa altura em que havia a guerra colonial – se chumbasse acabavam-se os adiamentos. O meu pai ainda me disse que se era para jogar futebol só jogava na Académica, porque a minha família é toda da Académica. Mas depois de muita insistência fui treinar ao Sporting e prometi-lhe que se tivesse negativas podia tirar-me do futebol. Só que, depois de tudo isto, quando consigo as fichas assinadas pelo meu (eu era menor) para assinar contrato pelo Sporting, um diretor na altura, Borges Leal, disse-me: “Oh meu amigo, para jogar no Sporting você tem de cortar o cabelo”. E isso para mim representava um atentado à minha liberdade e não aceitei. Vim para trás. Quando já estou no colégio Manuel Bernardes, o Manuel Arouca, escritor e grande amigo desde essa altura, jogava no Estoril Praia e disse que eu tinha lá lugar.

E foi.
De início ainda lhe disse que ele era maluco porque eu vivia na Alameda das Linhas de Torres e ir para o Estoril obrigava-me a vir tardíssimo para casa. Ele disse-me que ficava a dormir em casa dele. Então passei a treinar duas vezes por semana, ficava em casa dele nesses dias, depois apanhavamos o comboio das seis da manhã, e às sete a camioneta do colégio. E pronto, a minha aparição no futebol nasce assim.

Como vai jogar para o Benfica?
No Estoril marquei dois golos aos juvenis do Benfica, eu era muito alto para aquela geração, tinha umas condições físicas diferentes dos jogadores em Portugal, e o Benfica convidou-me para fazer um torneio em França. Para mim foi uma alegria. Embora eu nunca tenha sido fanático pelo Benfica. Fui jogando em vários clubes e não tenho a noção enraizada de clubismo. Gosto imenso do Benfica, como todos os portugueses tinha aquela admiração enorme pelo Eusébio, e portanto foi excecional ir para o clube do Eusébio. Estava a treinar e via o Eusébio e às vezes treinava com ele, como aconteceu quando subi de júnior a sénior. Fiz um ano de júnior, fui campeão nacional e depois assinei um contrato de três anos e fui emprestado à Académica, que também era um desejo meu para continuar a estudar.

Continuo a estudar o quê?
Fiz exame de aptidão a Direito mas chumbei, entretanto deu-se o 25 de Abril. Depois fiz a aptidão ao INEF e vim estudar para Lisboa. Estive um ano no Benfica e depois fui para o Estoril. Depois para o Atlético e do Atlético para o Belenenses. Andei a saltar de clube em clube.

Até que surge a aventura do Standard de Liège, na Belgica.
Sim, já com 24 anos, o curso tirado e casado.

Já era casado?
Casei-me com 20 anos, quando fui para a Académica. E sou pai em 1974, do Luís. Depois vem a Bárbara em 1979, depois a Carolina mais tarde e finalmente a Maria.

Vamos por partes. A sua primeira mulher foi consigo para Coimbra?
Foi. Passamos a lua de mel em Coimbra (risos).

Como surge o Standard de Liège?
Já se tinha dado a Revolução em Portugal, era uma altura difícil ao nível de empregos, havia uma crise económica, o país estava realmente muito atrasado em relação à Europa. Eu sempre quis descobrir coisas novas, por isso quando surge o convite, em 1978, aceitei. Fui com a família. A Bárbara nasce quando estou no Standard de Liege, em 1979.

Como foi a adaptação da família à Bélgica?
O meu filho começou logo a estudar francês, o que foi ótimo porque ficou com uma enxada para a vida. Quando depois viemos para Portugal ele foi para o Liceu Francês. A adaptação foi para mim foi mais fácil porque jogava, estava ocupado; a família estranhou um bocadinho, sobretudo porque o clima era completamente diferente de Portugal. Mas o facto de falarmos francês ajudou porque percebíamos os programas de televisão. E aqui há um detalhe importante: Portugal na altura só tinha um canal a preto e branco de TV e quando chegamos à Bélgica tínhamos 16 canais todos a cores com filmes e música. Era um bocado revolucionário.

Disse uma vez que foi na Bélgica que se tornou homem e que amadureceu. O que quer dizer com isso?
A primeira vez que saí de casa fui para Coimbra. Estive seis meses sozinho lá e depois é que me casei. Com 20 anos não se tem muita experiência. Quatro anos mais tarde, a Bélgica pelo avanço que tinha em relação a Portugal, em que tudo era diferente, ajudou-me a crescer. O próprio futebol, o envolvimento da modalidade, a parte social, era tudo diferente de Portugal. Por outro lado, tivemos de viver sozinhos, sem apoio direto dos familiares. Tive acesso a muitas coisas que não eram normais em Portugal. Liege fica a 90 km de Colónia, a outros tantos de Bruxelas, está relativamente perto de Amesterdão, de Paris. Eu aproveitava todos o fins de semana que podia para dar um salto de carro ali à volta, passei a ter acesso a uma série de sítios novos, com culturas diferentes, foi um banho de cultura. A Bélgica deu-me essa abertura. Viajar é das coisas que mais nos faz crescer. Mesmo agora estou a aprender muito na Índia.

Desportivamente o que lhe vem à memória quando se fala do Standard de Liege?
Tinha acabado o curso de Educação Física, tinha o diploma de treinador e confesso que havia um grande abismo entre a metodologia do treino em Portugal e aquilo que passei a fazer na Bélgica. A mentalidade era completamente diferente. Tornei-me profissional a sério com tudo o que isso envolve. Comecei a fazer fotografias de publicidade para determinadas marcas e sessões de autógrafos pagas em grandes superfícies comerciais, o que nessa altura era impensável em Portugal. Tudo isso foi abrindo a minha visão do desporto e do marketing que existe à volta de uma equipa. O Standard já era um clube muito bem organizado. Os estádios estavam cheios e vibrantes. Estamos a falar de 1978. Foi a descoberta de um mundo novo com a satisfação de ter jogado 13 jogos na Taça UEFA, fiquei duas vezes em 2º no campeonato. Não havia ainda a Lei Bosman e portanto éramos meio escravos dos clubes, que punham e dispunham dos jogadores. Tive um convite do Mónaco e do Strasburg que era uma grande equipa em França na altura e não me deixaram sair.

O treinador foi sempre o mesmo?
Não. Tive a sorte de ter o melhor treinador do mundo do século passado, o Ernst Happel, austríaco. Que tal como o José Mourinho ganhou duas Ligas de Campeões em dois clubes diferentes. Foi treinador da Holanda, de Cruijff, no campeonato do mundo da Argentina em 1978, ficou em 2º lugar. E foi campeão em quatro países, na Alemanha, na Holanda, na Bélgica e na Áustria. Ainda hoje é uma referência para os treinadores. E depois tive o privilégio de jogar com jogadores que são referências como o ponta de lança da Suécia, Ralf Edstrom, o Eric Gerets, da Bélgica, o Michel Preud'homme. Tive companheiros de luxo e vivi um futebol de alta competição excepcional, com tudo o que vinha agregado, mesmo o próprio jornalismo, as revistas que existiam, foi um mundo rico e novo.

E depois, vem para o Portimonense.
Tinha uma vontade grande de vir para Portugal e forcei a vinda. O Portimonense apostou forte na altura com o desenvolvimento do turismo no Algarve. Eu tinha hipótese de ir para o FC Bruges, mas era mudar de país dentro do país.

Porque queria voltar?
Porque me tinha separado e os meus filhos estavam em Portugal. Um dos meus pilares foi sempre os meus filhos. E vim para o Portimonense. Aparentemente foi uma decisão acertada. Era um risco grande, porque era uma aposta num clube que estava a dar os primeiros passos na sua profissionalização, mas acabei por chegar à seleção nacional e foi a minha grande época de futebol em Portugal. 1981/82. Ganhei o prémio de três jornais diferentes, A Bola, o Record e da extinta Gazeta dos Desportos, como jogador mais regular. O meu ano de ouro em Portugal foi esse. Marquei 13 golos na I Liga, fiz cinco jogos na seleção. E depois cometi o maior erro da minha vida.

Que foi?
Não ter assinado pelo Benfica.

Conte lá essa historia.
Fiz aquilo que me tem penalizado ao longo da vida, que é ter espinha dorsal e ter palavra. Na altura, o Benfica fez uma proposta, eu não aceitei e fiz uma contraproposta com uma data limite para me responderem, porque a época ia começar. O treinador do Portimonense era o Artur Jorge. Não me recordo o dia ao certo, mas imaginemos que disse que até dia 15 a proposta estava aberta e que dia 16 me apresentava no Portimonense. Tinha dado a minha palavra ao então presidente Manuel João e quando começo a treinar no dia 16 ou 17 o Benfica quis-me contratar com os números que eu tinha pedido.

E não foi.
Não. Respeitei a palavra. Não respeitei um documento, respeitei uma palavra e foi realmente o meu grande erro não ter conseguido forçar, porque tinha 27 anos na altura . O Eriksson era o treinador o Benfica, foi à final da Taça UEFA com o Anderlecht. Ainda fui à seleção e depois tive uma lesão e as coisas complicaram-se para mim. Em termos emocionais, ao longo da época, fui enraizando um lado emocional negativo relativamente a não ter ido para o Benfica.

Arrependeu-se?
Sim. O meu rendimento baixou. Depois tive a lesão, fui operado. Apesar de tudo o Eriksson quis contratar-me na época seguinte para o Benfica, mas o Fernando Martins como eu não tinha querido ir, não autorizou. E fiquei. Mas deixei de viver um ponto alto do futebol português que foi a final do Benfica na Taça UEFA, porque naquela altura tinha grandes hipóteses de jogar. Tinha sido titular na seleção, nos últimos jogos. E depois perdi aquilo que foi uma façanha extraordinária do futebol português que foi o célebre Euro em França, que Portugal perde drasticamente com a França, depois de estar a ganhar, no tempo do Jordão, Manuel Fernandes, etc. Fui perdendo. E isto porque pura e simplesmente respeitei uma palavra.

Isso fê-lo alterar a sua forma de estar no futebol?
Aquilo que é acertado é a minha educação. Se é amanhã às 10h, é amanhã às 10h. Se não puder ir é porque há um motivo de força maior. Quando se trata de clubes e de compromissos acho que não me lembro de ter falhado. Isso tem a ver com berço, com educação, com valores. Hoje até com contratos assinados passam por cima, não me identifico com isso.

Natacha Brigham

No meio disso tudo como ficou a vida amorosa e familiar?
Depois casei com a minha segunda mulher, quando estava no Portimonense e depois nasceu a Carolina, em 1989.

Como surge o Belenenses em 1984/85?
Queria vir para Lisboa, os dirigentes que na altura entraram no Belenenses quiseram-me também, juntaram-se duas vontades. Tive muito orgulho, gostei imenso, o Belenenses foi uma equipa que me marcou positivamente. Fiquei dois anos.

E termina a carreira de jogador no Estrela da Amadora.
Estava numa fase em que sentia que tinha de ter desafios. Quando joguei pelo Belenenses a final da Taça de Portugal, que acho que é o sonho de qualquer jogador português, poder viver esse momento de jogar uma final da taça no Jamor, estava já pré-convocado para o Mundial do México, em 1986. Só que nesse jogo, contra o Benfica, parti a cana do nariz num lance com o Veloso. E fiquei de parte, já não fui ao Mundial. Andava frustrado e por isso tomei a liberdade de querer um desafio. Nunca tinha jogado na II Divisão e pensei que uma subida de divisão deve ser uma coisa para se viver. A equipa era de luxo no que diz respeito aos nomes que iam. Um deles era o Jorge Jesus. Na altura pensei, se subir continuo, se não subir acabo a minha carreira. E como não subimos...

Decidiu de um dia para o outro arrumar as botas. Não lhe custou?
Ao princípio não. Depois sim, há um vazio enorme. Aliás, estive um ano sem praticamente ir ao futebol, quase num processo de negação do futebol, porque me custava imenso. Havia muita nostalgia.

O que é que fez nesse ano?
Tive duas ou três situações que me levaram para outros mundos que experimentei. Fiz um anúncio de publicidade em Espanha, que me deu muito gozo. Estive seis dias a filmar as aventuras do Marco Polo para a Peugeot. Depois entrei num filme, "Voltar", do Joaquim Leitão. Era uma produção para a RTP. Viajei um bocado. Acho que é importante às vezes uma pessoa parar e perceber o que quer fazer. Um ano depois, quando fui treinar o Atlético, os dirigentes pediram-me para jogar também. Mas eu não cometi esse saudosismo. E acho que fiz bem.

Porquê?
A minha cabeça ainda pensava bem, mas o corpo depois de um ano parado já não responde da mesma maneira. Sempre me fez confusão arrastar-me no campo. Ainda por cima Portugal não é um país que respeite o passado dos jogadores dentro do campo.

O que quer dizer?
Na Bélgica vi jogadores com 35 anos, já com dificuldades, mas que eram aplaudidos em cada ação que faziam. Em Inglaterra e na Alemanha também há esse culto do jogador que deu muito ao futebol e que quando é visto com algumas limitações é aplaudido na mesma.

Em Portugal não é assim?
Não. Aliás vê-se as festas de homenagem, a maior parte delas é quase uma festa de esmola. Quando se vê festas destas lá fora os estádios estão cheios porque se quer realmente homenagear a pessoa que deu alegrias aos adeptos. O mundo é muito cruel e em Portugal nesse aspecto promovo-se muito rapidamente um jogador mas depois também se despacha rapidamente esse mesmo jogador se não render. Sempre me fez confusão, ver jogadores assobiados e às vezes insultados.

Gostou logo de ser treinador?
No fundo é a minha grande paixão. Depois de estar um ano a questionar-me, preparei-me mais a sério para ser treinador. Aos 24 anos já estava preparado, portanto foi quase normal essa paixão.

Como é que é estar do outro lado. Tem sido muito diferente?
Os meus melhores anos foram a jogar futebol. Mas quando jogamos não nos apercebemos. O jogador não sabe a sorte que tem. Tem tudo. Na altura engraxavam-nos as botas, só temos de jogar e não nos preocupamos com mais nada. Não havia centros de estágio, não havia nada, portanto ia treinar duas horas, vinha embora, tinha o dia livre. Era uma vida muito diferente no sentido de ser melhor do que a da maioria das pessoas. Mais bem paga também do que a maior parte dos empregos. Mas não nos dávamos conta de como éramos felizes naquela altura.

Há a derrota.
A derrota afeta-nos no momento, mas uma hora depois o jogador já está noutra. O treinador não.

A responsabilidade é maior.
Muito maior. Sofre muito mais o treinador em termos do que é pensar futebol, pensar o jogo, pensar o treino. Mesmo a parte emocional, quando se perde é das coisas piores.

Nenhum jogador sente a derrota como um treinador?
Não. Até pode chorar no momento e sair do campo, às vezes isso acontece. Mas não tem nada a ver o sofrimento de uma derrota para um treinador. Tem a ver com a responsabilidade. O treinador cria o seu trabalho, o seu método, os seus exercícios, pensa, faz as palestras, enfim tem que tomar as decisões todas. É como o chefe de uma orquestra. O treinador é a pessoa que tem de pensar nisso tudo. Se a alimentação é boa, se o jogador está lesionado se vai ficar bom ou se tem de tomar outra opção. O jogador entra, joga, sai. Tem de fazer um trabalho específico faz. É comandado, o treinador tem que comandar. E aqui há uma grande diferença. O treinador tem que tentar ser o mais possível um líder, no sentido de guiar o jogador, não ser um chefe que dá ordens. Ainda hoje, apesar da experiência que tenho, uma derrota é muito difícil de digerir. Às vezes nem se consegue comer o apetite desaparece.

Como se dá a volta?
Há várias formas. Eu, por exemplo, gosto de ter logo treino para preparar outro jogo. Mas a pessoa pode isolar-se, poder ver o jogo dez vezes, repetir os erros na cabeça dez vezes, o importante é não haver reações espontâneas de culpabilidade. No dia seguinte já é outro dia, mas a noite foi seguramente mal dormida para quem gosta de futebol ou para quem gosta daquilo que faz, mesmo que tenha a consciência tranquila.

Luís Barra

Segue-se Barreirense duas épocas e o Sporting de Espinho, três épocas. Foi com a família para Espinho?
Eu estava solteiro quando fui lá para cima. Mas já tinha um namoro com a minha atual mulher, que depois foi ter comigo. No início era um bocadinho de vai e vem de comboio. Depois ela foi ter comigo.

Teve mais uma filha.
Sim, a Maria que tem agora 19 anos.

A sua mulher acompanha-o sempre daí para a frente?
Nós estivemos quatro anos em África, ela veio comigo e a minha filha também. E agora acompanha-me sempre. Não me acompanhou em Chaves e no União da Madeira porque a minha filha estava a estudar num estabelecimento que não existia nesses locais e foram dois anos complicados. Mas coordenamo-nos bem, e ela tem sido uma mulher e uma companheira excepcional.

Voltando à vida profissional. Ainda tem uma passagem como Diretor Desportivo no Sporting, em 1995. Como foi essa experiência?
Aí teve influencia o Carlos Queiroz que me conhecia. Ele foi bastante revolucionário no futebol português em algumas coisas, como alguma organização que trouxe. O cargo de director desportivo havia já em todo o lado mas em Portugal não. Mas confesso que no Sporting não fui um diretor desportivo como é um diretor desportivo atualmente. Fui muito mais um homem de scouting internacional. Embora tenha tido parte ativa nos treinadores e tive parte ativa nos primeiros estudos que se começaram a fazer para a Academia. Andei a ver academias no estrangeiro. Foi um papel interessante. Deu-me muito mundo. Estive em muitos países, conheci muitas equipas de futebol, muitos clubes por dentro, muitos directores desportivos e aprende-se bastante. Gostei muito. Foram três ou quatro anos que vivi intensamente, como o meu clube profissional e que o servi o melhor possível e não me arrependo nada. Foi um marco, fui considerado o primeiro diretor desportivo em Portugal nos tempos mais modernos.

Era um papel que gostava de voltar a desempenhar?
Nos mesmo moldes não. Se voltasse atrás tê-lo-ia feito de outra forma.

Porquê?
Um diretor desportivo responde normalmente a um presidente. É um homem de confiança do presidente e tem a cargo tudo o que é o futebol profissional, com poder de decisão. O diretor desportivo escolhe o treinador. E naquela altura o processo foi ao contrário. Mais de metade do meu trabalho foi para preparar a equipa B do Sporting, na altura clube satélite, o Lourinhanense. Mas foi importante para o Sporting.

E volta ao Sp. de Espinho porquê?
Convidaram-me de novo. Foi o relançar de carreira como treinador.

Vai para o Salgueiros duas épocas. Gostou dessa experiência também?
Muito. Sabe que eu sou um treinador que a maior parte das vezes estive em clubes com dificuldades. O Salgueiros estava a viver um período muito conturbado e acabou por desaparecer. Na altura, fui para um clube que já não tinha estádio, mas o público era fantástico, jogámos no estádio do Leixões, treinámos no parque da cidade quase todo os dias. Foi um ano muito complicado e a equipa era das que jogava melhor na II Liga. Dá um certo gozo construir nas dificuldades, porque há uma solidariedade enorme, mesmo entre jogadores. Tive um presidente, Linhares, que já faleceu, que me apoiou imenso, mas o que fica é o desaparecimento da equipa. Custou-me imenso.

Entretanto vai para V. Setúbal, depois V. Guimarães, até que parte para o Senegal, onde criou o Étoile Lusitana. Como surge esta aventura?
Eu estava um bocadinho desencantado com a forma como o futebol estava a evoluir em Portugal, cada vez mais chicotadas, cada vez mais interesses de terceiros, de fora dos clubes, mas que têm grande influência nos clubes. E meti na cabeça, durante uma viagem que fiz ao Senegal, ter um clube meu, uma escola de futebol em que conseguisse transferir jogadores e provar que o futebol pode ser um negócio bom e rentável sem ser preciso recorrer a gastos extraordinários. Aqui havia um factor crítico de sucesso que era a alimentação e a metodologia de treino. Levei essas duas coisas para Dakar e foram quatro anos e meio de grande aprendizagem, mas de grande sucesso para aquilo que era o projeto.

Alberto Frias

Porquê o Senegal?
Porque fui lá e gostei. A rede de transportes era importante e a TAP voa todos os dias para Dakar, são três horas e meia de voo. E depois era um clube estável. Em termos de política o Senegal ainda hoje não tem grandes tumultos. E depois havia a qualidade e talento dos jogadores.

Montou o clube por sua conta e risco?
Foi um projeto com capital de risco privado. O clube foi formado, as coisas foram todas feitas por mim, eu era o único branco no projeto. Enquanto estive à frente do projeto houve sucesso, ganhámos torneios. Houve cinco ou seis jogadores que foram transferidos. O capital que entrou dessas transferências foi superior àquilo que era o investimento. Só que, o projeto inicia-se em 2008 e dois meses depois acontece a grande crise mundial dos bancos e mudou completamente o conceito do negócio. O negócio teria tido muito mais impacto se tivesse sido feito cinco anos antes. Numa altura mais dourada do futebol e da própria sociedade. Acabou-se o pequeno negócio, o futebol continua a viver do grande negócio.

Porquê?
Porque as pessoas não têm dinheiro, não têm acesso à banca. As receitas são reduzidas na maior parte dos clubes, por isso é que aparecem tantos investidores de fora, chineses e nigerianos e sociedades para tomar conta dos clubes. Os clubes por si só têm grandes dificuldade de sobrevivência. Quando falamos do futebol português não podemos falar só dos três grandes, do Sp. Braga e do V. Guimarães. E quando pegamos no futebol profissional português, não há muito jogos da I Liga, mesmo com as portas abertas e gratuitas, que tenham mais de mil espectadores. Está tudo dito em relação aquilo que é a sustentabilidade de um clube. Tirando os clubes mais importantes, o merchandising não existe, e há que pagar viagens, hotéis, salários, etc.

Essa equipa africana era formada por juniores?
Eu trabalhava com jogadores dos 13/14 aos 17 anos. Todos os anos tinha uma fornada diferente. Passaram pela equipa cerca de 200 jogadores, a quem demos alimentação. Trabalhei-os, moldei-os, com condições precárias, porque o Senegal não tem muitos campos relvados e por vezes tinha de treinar em pelado, e tinha de ganhar torneios na Europa e conseguir colocar jogadores na Europa.

O clube ainda existe?
Não sei.

Pelo meio, e antes de vir embora, ainda treinou a Guiné-Bissau.
Foi ao mesmo tempo. Foi outra experiência excecional com um povo que não conhecia diretamente e fiquei fã da Guiné. É um país, apesar de todos os altos e baixos políticos, que conseguiu guardar uma relação muito próxima connosco, portugueses. Senti-me sempre muito em família. E é um país com uma beleza natural muito bonita, com umas ilhas fantásticas, as Bijagós. Construí aí com o Hélder Fontes, que já tinha trabalhado comigo em Guimarães e em Setúbal, uma equipa com muitos jogadores jovens, alguns deles estavam na Etoile Lusitana, e que foram a base para o que eu previa e que veio a confirmar-se. Que a Guiné na CAN seguinte podia dar cartas. E conseguiu qualificar-se. E este ano jogou a CAN, ainda com uma grande parte de jogadores que começaram comigo na seleção e com um treinador que trabalhou comigo na seleção, o Romão. Portanto, nunca me esquecerei da Guiné.

Veio embora do Senegal para a equipa B do Benfica, a convite do Luís Filipe Vieira. Mas só lá está uma época, porquê?
Só lá estou uma época porque na altura tive que pedir autorização ao fundo que estava ligado a um banco para ausentar-me do projeto e só autorizaram um ano. Para continuar no Benfica era preciso eu estar liberto e eu não estava desligado do Étoile Lusitana. O Benfica queria-me livre. Havia um acordo e uma série de compromissos da Étoile Lusitana que tinham de ser resolvidos, e que não consegui resolver a tempo de poder iniciar uma segunda época. Tive muita pena porque foi a equipa que me marcou mais nos últimos anos em termos de condições de trabalho, de tratamento, de tudo. Tive o privilégio de treinar jogadores que hoje estão em equipas top do mundo.

Pode dar exemplo?
O André Gomes, do Barcelona, o João Cancelo, está no Valência, o Hélder Costa que está em Inglaterra, depois de ter passado pelo Mónaco, tal como o Ivan Cavaleiro; o Bruno Varela, o Fábio Gomes que foi para o Glasgow Rangers, Lindelof que foi para o Manchester United, etc. Há uma série de muito bons jogadores que trabalham comigo.

Esteve um ano parado...
A resolver os problemas que eram preciso resolver da Étoile Lusitana e depois vou para Chaves.

Esses problemas eram de ordem financeira?
Não. Quando se está num processo de capital de risco é preciso que as coisas fiquem todas direitinhas, era preciso negociar-se também com o Senegal, como é que se saía, como é que não se saía e como banco está cotado em bolsa isso não é feito de um dia para o outro. Na minha cabeça, era para sair do Senegal ao fim de cinco anos. Um projeto de capital de risco são cinco anos. Houve ali um timing que não me foi favorável, mas continuo a ter excelentes relações com o Benfica.

Victor Freitas

E Chaves?
Foi bom. As pessoas às vezes pensam que só porque uma pessoa sai a experiência é negativa. Pode ser negativa no ponto da saída ou de não se atingir o objetivo. Tenho uma um mágoa grande porque tinha uma convicção forte, quase uma certeza, de que o Chaves ia subir de divisão comigo. E tanto foi assim que a equipa não subiu no último segundo do campeonato. Estava em 3º lugar quando eu saí. Há uma frustração desportiva, agora o Chaves enquanto clube, cidade, adeptos, foi uma experiência extraordinária, um tratamento muito bom e eu não consigo ficar mal onde sou bem tratado. E ser bem tratado, pode ser pelo homem que cuida da relva, a pessoa que trata dos equipamentos, o massagista, o homem do restaurante. Tudo isso é um contexto onde posso ser feliz e eu fui mais feliz do que infeliz em Chaves. A minha relação com a família Carvalho que salvou o Chaves e pôs o Chaves onde está, foi sempre muito boa.

Depois vem aquela que parece ter sido a pior experiência até ao momento, o União da Madeira.
Mas não por causa da ilha ou dos profissionais do União, atenção. Agora é verdade que quando entrei cortaram-me logo as pernas porque não tinha decisão nenhuma nas contratações. Não deram nenhum crédito a uma pessoa que tem o triplo da experiência, tanto do presidente como do diretor desportivo. Mas como não quiseram ouvir-me, preferiram ir para uma política completamente aventureira e depois o treinador tem que justificar e trabalhar em cima dessas escolhas. Portanto, foi um ano difícil. Gostaria que fossem mais averiguadas as condições em que descemos. Em Portugal averigua-se pouco. Foi uma descida muito estranha. O contexto todo é muito estranho, mas não tem a ver com jogadores, mas com a própria filosofia que presidiu a muitos comportamentos de pessoas dentro do clube.

Foi o ano mais difícil da sua vida enquanto treinador?
Não, como treinador não. Os grupos formam-se em função daquilo que vamos conseguindo dar e eu consegui ter uma relação boa de grupo de trabalho, de profissionalismo, não tenho nada a dizer dos jogadores, eu ia feliz para treinar. Foi uma espécie de bullying que existiu o ano todo à minha pessoa.

Mas porque é isso aconteceu se o foram buscar para treinar? À partida era desejado, ou não?
Acho que sim. Havia um sinal que me devia ter feito pôr o pé um bocado mais atrás e não pôs porque eu gosto de trabalhar, gosto do futebol, não vou com segundas intenções.

Refere-se em concreto a quê?
O Vitor Oliveira deu uma entrevista arrasadora, em direto, em relação a essas mesmas duas pessoas que continuam lá. Ele tem a coragem de falar, eu também não tenho problemas em dizer as coisas. Mas como não há provas, o problema do futebol está aí. "Ah, está a mentir". Não está a mentir nada, é um facto, e o facto é que os treinadores duram pouco lá. Foi um ano que me custou muito a viver. Quando cheguei à Madeira, ao fim de 15 dias pensei que tinha sido contratado só para ganhar o campeonato da Madeira, porque só ouvia falar do Marítimo. Havia ali uma guerra incrível. E, no fundo, ganhamos dois jogos ao Marítimo e perdemos um com o Nacional; no fundo ganhamos o campeonato da Madeira e parecia a coisa mais importante. Mas não quero falar mais disso.

Depois das entrevistas que já deu, já foi abordado pelo Ministério Público?
Eu adorava poder contribuir para qualquer coisa. Portanto, se for chamado tenho todo o gosto. Às vezes há pessoas que acenam com o MP como se fosse um papão. Quem não deve não teme. Não tenho medo nenhum. Mas muitas das que chamam o MP quando lá vão acabam por ser vítimas do seu próprio processo e a mim dá-me vontade de rir porque...eu nunca irei ao MP e as pessoas sabem porquê.

JOSE MANUEL RIBEIRO

A sua mulher e filha Maria estiveram em África consigo. Gostaram?
Sim. A Maria foi numa idade em que ainda não tem definida a personalidade. Custou-lhe um bocado ao princípio porque foi para um contexto completamente diferente daquele a que estava habituada, mas também foi uma lição de vida que a vai ajudar para sempre. Aprendeu muito o que é a vida, pode fazer a comparação com a vida que ela tem e muitas coisas que viu.

Vamos à Índia. Está a viver em Deli e a preparar a seleção de sub-17 para o Mundial que se disputa em Outubro. Do que é que está a gostar mais?
Do desafio. A equipa da Índia entra neste Mundial porque o organiza, senão não tinha hipóteses de entrar. É a equipa, juntamente com a Caledónia, com que toda a gente queria jogar, porque consideram que não tem hipótese nenhuma. E realmente é difícil. O sorteio que temos é extremamente difícil para a realidade competitiva que a Índia tem. Mas como costumo dizer, os desafios difíceis é que nos tornam mais fortes, obrigam-nos a pensar mais, a estar mais concentrados.

O que é que o atraiu?
Essencialmente o grande desejo da federação da Índia, de haver uma continuidade possível deste trabalho. Mostrar que os jogadores da Índia podem ter uma realidade competitiva diferente se tiverem organização ao longo de uns tempos. Eles querem também o meu know-how organizativo para poder construir o futuro. Neste momento, o Mundial é o grande objetivo, mas depois do Mundial começa o verdadeiro trabalho de desenvolvimento do futebol na Índia.

Há hipótese de prolongar depois do Mundial?
Ainda não foi falado mas está em cima da mesa.

Gostava?
Gostava, se houver a premissa do desenvolvimento do jogador de futebol e do quadro competitivo. Aqui não há competições como há em Portugal e em toda a Europa. De iniciados, infantis, juvenis, etc., aqui não há. Esse é o grande problema, só jogam particulares. Estão há um ano, ano e meio ao serviço da federação, fazem torneios, vão a digressões, mas não fazem um único jogo oficial. Esta questão de jogar um jogo oficial em que há responsabilidades, há pontos, é muito diferente de um jogo que não conta para nada. São realidades completamente diferentes para os jogadores.

Mas sente que já progrediram alguma coisa?
Em três meses fizeram progressos incríveis. Não tem nada a ver esta equipa quando eu cheguei e agora. Mas esse progresso por enquanto só nos torna fortíssimos na realidade indiana, aqui nenhuma equipa nos ganha.

Qual foi a primeira coisa que percebeu que tinha de mudar?
Era uma equipa que tinha jogadores com um perfil de posições que não se enquadram minimamente na alta competição. E mesmo assim ainda não consegui corrigir tudo, porque é preciso encontrar os jogadores e eu não tenho tempo para o recrutamento. Já vi mais de 50 jogadores que passaram aqui em treinos, mas não é fácil encontrar, obriga a outro trabalho, que é um trabalho complementar que só pode ser feito depois do campeonato do mundo. A minha preocupação foi pô-los a jogar futebol e acabar com o individualismo. Esta equipa hoje está mais organizada, sabe o que é que faz dentro do campo, já acreditam que podem ter a bola mais tempo na sua posse. Em termos mentais é preciso fazê-los acreditar mais neles. Eles tinham um tratamento mais de chefe, de eu posso, quero e mando, e nestas idades tem que haver um bocado de relação quase de pai/filho, de exigência de responsabilidade mas também de alguma liberdade de ação. Eles estão em estágio já há muito tempo, passam a vida fora das famílias, tem que se compreender o contexto.

Até onde acha que conseguirão ir no Mundial?
Houve alguém que escreveu num jornal português uma calamidade, que eu ia tentar ganhar o mundial ou chegar aos lugares de honra. Os sonhos são possíveis, mas para um país que se estreia, que nunca jogou um mundial e cuja tradição não é o futebol, é críquete, o mais importante é conseguir que os adeptos fiquem orgulhosos no final, mesmo se as coisas não correrem bem, pela atitude da equipa pela forma como a equipa tenta jogar. E pensar que se em quatro ou cinco meses houve alguma mudança o que será em quatro ou cinco anos.

Prefere treinar jovens a equipas sénior?
É igual. Sou treinador de futebol. Tenho a paixão do futebol. Quando vou para dentro de um campo abstraio-me completamente. Sempre treinei jogadores com alguma juventude, sempre lancei jogadores. Se puder pegar numa equipa de Sub-17, passa-lá para sub-19 e depois sub-23, isso se calhar é o que sempre pensei e gostei de fazer. Trabalho de continuidade. Só que o trabalho de continuidade é muito difícil, porque a pessoa não ganha dois jogos e a continuidade acabou e têm de vir logo outros artistas.

E histórias? Deve ter muitas para contar.
Mas não lhe vou contar nenhuma porque vou lançar o meu site oficial que tem muitas histórias, por isso…(risos) As boas histórias que tenho vão para lá.

Qual foi o treinador que mais o marcou?
Digo um português e um estrangeiro. O Ernst, de que falei, foi o melhor treinador que tive. E o Artur Jorge, quando estive no Portimonense.

Porquê?
O Ernst porque era um treinador à parte que estava muito à frente de tudo o resto. O treino que ele fazia, a ligação para o futebol, esta unidade de que se fala hoje do treino integrado, isso existia tudo com ele. O Artur Jorge, porque foi um treinador que revolucionou o treino em Portugal. Tirou um curso na Alemanha, vinha com ideias completamente diferentes, mas sobretudo pela sua comunicação, a sua forma de estar, de proteger os jogadores. Mas tive um treinador que tenho de colocar num nível também muito grande que foi o António Medeiros, porque do ponto de vista humano foi aquele com quem mais aprendi na vida. Foi ele que me permitiu tirar o curso a jogar futebol, que me deu liberdade para falhar treinos e não me pôs fora da equipa por causa disso.

Era homem de noitadas?
Não. Tinha fama. Quando se é muito alto e se tem uma forma de viver um pouco diferente... Tudo o que fiz na vida houve sempre qualquer coisa mais tarde...eu não lhe chamaria inveja, mas um sentimento de olhar de lado. Se saísse até às duas da manhã, era até às sete, se bebia uma água das pedras com gelo e limão, estava a beber gin tónico...as pessoas que me conhecem sabem o que bebo e faço. Nao tenho problemas nenhuns em dizer que fiz a vida que faziam a maior parte dos jogadores, se calhar também tive excessos, mas não há nenhum jogador que não tenha tido. Mas nunca prejudiquei a minha vida, soube disciplinar-me muito bem, sabia quando podia sair. Sempre conheci o meu corpo e a reação dele.

Enquanto jogador qual foi o colega com quem fez maior amizade?
Aquele com quem eu falava mais era o Carlos Alhinho, que já faleceu.

E qual foi o que mais o marcou?
É facil. O Eusébio. Treinei muitas vezes com ele e estive muitas horas em contacto com ele o que é um privilégio.

Era o Cristiano Ronaldo da altura.
Mas sem a evolução toda que entretanto houve. Até na própria alimentação. O joelho dele, as operações que teve de fazer, a forma como as operações naquele tempo eram feitas, hoje são muito mais rápidas, mais bem feitas. O Eusébio ficou com um joelho todo deformado e jogou assim muito tempo. Era ímpar. Do tempo dele o jogador estrangeiro que mais me impressionou foi o Crujff, mais do que o Pelé, porque não tive o contacto com o Pelé que tive com o Crujff, via-o jogar mais do que ao Pelé.

E há algum jogador que lhe tenha dado muito gozo treinar?
Há um jogador que adoro como jogador, acompanhei-o, mas na altura não tinha saída e fui buscá-lo para o Salgueiros numas condições muito difíceis. O clube acabou e eu consegui que ele fosse para o Felgueiras acho que era o Diamantino que estava treinar e eu disse-lhe que tinha um jogador fantástico. Depois fui buscá-lo para o V. Setúbal e tornou-se num dos melhores jogador do campeonato. Estou a falar do Zé Fonte, que está agora em Inglaterra. A progressão dele, a força de vontade e humildade, tenho um grande respeito profissional por ele e acho que é mútuo. Subiu a pulso e sempre confiei que era um jogador fora do normal. E quando chega à seleção para mim foi uma alegria enorme. Depois tive o Paulo Monteiro, que é um jogador mal amado. Quando fui buscá-lo para o Chaves, houve algum espanto, e acabou por ser eleito o melhor central da Liga portuguesa. Isto para mim são pequenas medalhas interiores. Mas teria de falar de muitos mais.

Qual a sua maior alegria no futebol?
Quando fui internacional português pela primeira vez contra a Grécia e a época que fiz no Portimonense. A maior frustração é não ter ido para o Benfica.