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A casa às costas

Jorge Andrade: “Sou o melhor cantor de karaoke do mundo”

O central que passou pelo FC Porto, Deportivo da Corunha e Juventus confessa que adora cantar "How deep is your love" dos Bee Gees e que não larga o crucifixo que a mãe lhe ofereceu. Dedicado aos filhos e aos negócios, Jorge Andrade, de 39 anos, sonha um dia qualificar a seleção de Cabo Verde para um Mundial

Alexandra Simões de Abreu

Jorge Andrade e Luís Boa Morte a cantar com os Anjos

Natacha Brigham

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Começou a jogar futebol no Estrela da Amadora. Com que idade?
Morei junto ao estádio do Estrela até aos 10 anos. Aos oito, um amigo da minha rua, que já jogava no Estrela, levou uns quantos de nós - fomos todos para o Estrela.

E começou logo na posição de defesa central?
Sim, curiosamente sim.

Ficou no Estrela muitos anos, de 1987 até 2000, certo?
Sim. Mas nos juvenis, quando tinha 15 anos, fui dispensado. Fui jogar para o Real Massamá.

Foi dispensado porquê?
Fomos 12 dispensados, porque éramos pequeninos.

Era pequenino?
Sim, hoje tenho 1,84m, mas demorei a dar o salto.

Lembra-se do primeiro jogo como profissional?
Sim. Foi em 1997, o treinador era o Fernando Santos, foi contra o Vitória de Setúbal.

E a primeira chamada à seleção?
Comecei muito tarde nas seleções. Comecei na selecção de sub-20, com 19 anos, mas já era profissional, já era 'sénior'. Enquanto joguei nas camadas jovens nunca fui convocado à selecção porque tive dificuldades no crescimento, era muito baixinho.

Entretanto sai do Estrela da Amadora para o FC Porto, em 2000. Como é que se dá essa mudança, tinha empresário?
No início os meus empresários eram o Alexandre Pinto da Costa e o José Veiga. Eles tinham contacto com o Benfica e nessa altura era para ir eu e o Miguel. O Miguel foi para o Benfica e eu acabei por ir para o FCP. Ainda assinei um contrato com o Benfica, só que eles não chegaram a acordo com o Estrela da Amadora por causa das verbas. O Benfica não tinha capacidade financeira na altura.

Teria preferido o Benfica?
Na altura o FCP estava melhor. Tinha ganho o pentacampeonato, as coisas estavam a correr muito bem e passavam muitos jogadores pelo Benfica. Por isso acho que foi bom para mim naquela altura ter ido para o Porto, porque estavam a apostar forte nos jogadores que contratavam.

Sérgio Granadeiro

Tinha 22 anos quando foi para o Porto. Foi sozinho?
Casei-me no verão desse ano com a minha namorada, a Sara, e fomos os dois. Foi bom, ajudamo-nos mutuamente. Morava com os meus pais por isso foi tudo novo. Tive sorte porque o meu irmão também foi para o Porto, jogar no Salgueiros.

Ele foi viver com vocês?
Não, tinha a casa dele, mas almoçava e jantava connosco.

Gostaram do Porto?
Adorámos. Tivemos um acompanhamento fora de série. Havia uma pessoa no Porto, o Domingos Pereira, que resolvia todas as situações que precisássemos, mesmo as mais banais como a conta da luz, a conta da água. Se precisássemos de alguma coisa ele ia connosco, era impecável.

Nessa altura também deu um salto em termos de salário?
Sim. No Estrela da Amadora o primeiro ordenado era 120/130 contos (600 euros), que era o estabelecido para um contrato profissional, e no último ano já recebia 300 ou 400 contos (1500 euros). No FCP passei para um valor que era o dobro ou o triplo, era uma grande diferença.

Não se deslumbrou?
Não, cumpri objetivos. Ao assinar pelo FCP consegui pagar a casa dos meus pais e ainda tive direito ao meu primeiro apartamento, como prémio de assinatura, o que foi muito bom.

Esteve no Porto duas épocas, 2000/01 e 2001/02, que coincidiram com a chamada à seleção principal.
Sim, sou chamado em 2001, para um jogo em Paris. Jogámos contra a França, perdemos 4-0 e eu joguei o tempo todo. Que estreia!

O ambiente da seleção era muito diferente do que imaginava?
Muito melhor. Conviver com jogadores da geração de ouro, João Pinto, Rui Costa, Figo, Fernando Couto, Jorge Costa (que jogava comigo), era especial. Foi muito bom. Quem ia à selecção nessa altura sentia-se especial, sentia-se uma pessoa abençoada. Significava que as coisas estavam a correr bem porque entrar num grupo forte era muito difícil.

Vai ao Mundial da Coreia, em 2002.
Sim. Não tivemos sorte porque não conseguimos no último jogo sequer pontuar com a Coreia. Perdemos 1-0, quando um empate já dava para passar a fase de grupos. Tivemos uma boa vitória contra a Polónia, 4-0, mas o primeiro jogo marcou-nos muito porque ainda não tinha acabado a primeira parte e já estávamos a perder 3-0 com os EUA que, para nós, aqui na Europa, é sempre uma seleção secundária.

O que é que aconteceu?
Teve a ver com o ritmo. Os americanos impuseram um ritmo muito alto ao jogo e quando conseguimos meter o nosso jogo em prática já estavamos a perder 3-0. Foi basicamente isso.

Foi um Mundial polémico, com muitas histórias. Falava-se em alhos nos bolsos e enterrados...
Sobretudo acho que houve grande expectativa porque no Euro-2000 Portugal só foi eliminado pela França, nas meias-finais. Havia uma grande expectativa e ao não conseguir no Mundial o apuramento na fase de grupos, todos os problemas vieram ao de cima. A expulsão do João Pinto contra a Coreia, como também situações de balneário que acontecem em todos os balneários. Só que, como correu mal, toda a gente falava disso. Fez-se caso de muitas situações, mas em muitas foi mais “mandar para fora” para desestabilizar. Tínhamos, isso sim, um problema do treinador [António Oliveira] com o [António] Boronha, um dos vice-presidentes [da Federação Portuguesa de Futebol]. Era público que não se davam, então correu mal essa situação.

Mas a história dos alhos era verdadeira ou não?
Toda a gente tem as suas superstições. Na Corunha, onde joguei, mandam alhos para o campo antes dos jogos, para dar sorte aos jogadores. Não vejo nenhum problema dos jogadores e dos treinadores terem superstições. E se era o caso do mister usar alhos, não vejo qualquer problema, porque tudo o que for usado para vencer é bem-vindo.

Tem alguma superstição?
A minha mãe deu-me um crucifixo e durante algum tempo tive-o perdido, esquecido num fato de treino do FCP. Sempre que tive o crucifixo nunca me lesionei e quando estive uns anos sem o ter, lesionei-me. Hoje em dia ando sempre com ele e parece que as coisas ficam mais leves.

Quando se lesionou no joelho, foi nessa altura que não tinha o crucifixo?
Tinha-o perdido, sim.

Como é que foi essa lesão?
Para termos mais ou menos uma noção, o Cristiano Ronaldo teve uma tendinite rotuliana no Mundial do Brasil e comigo foi a mesma situação, só que a minha não foi bem curada e tive uma rutura total do tendão rotuliano, que depois me precipitou para várias lesões seguintes.

Como é que vai parar ao Deportivo da Corunha?
Foi curioso. Na altura o FCP precisava de vender jogadores, tal como todos os clubes portugueses precisam, para reforçar o plantel. O Mourinho tinha contratado vários jogadores, entre eles o Pedro Emanuel que jogava na minha posição. Havia excedente de centrais e como o jogador mais valioso do plantel era o Deco e o presidente não queria prescindir do Deco porque precisava dele para as conquistas que depois se vieram a confirmar, eu era o jogador com mais mercado naquela altura e proporcionou-se. Não havia clubes como os grandes de Itália, a Juventus ou o Inter, que estivessem interessados e apareceu o Deportivo. O Jorge Mendes ainda me avisou: “Cuidado porque se fores para lá, para o Deportivo da Corunha, depois nunca mais sais”, porque era difícil negociar com o presidente. Mas eu disse que não havia problema. Foi feita a transferência e correu tudo bem.

Os seus filhos gémeos, Tiago e Lucas, nascem na Corunha.
Sim, em 2003. O hospital era mesmo ao lado de casa, a 100 metros. Foi tudo muito familiar, muito tranquilo. Uma vida muito estável. A Corunha proporciona isso.

Foi uma adaptação fácil então.
Muito fácil. Embora ao nível da língua... estive um ano sem falar em castelhano. Disse ao chefe de imprensa que ia falar em português durante e que quando estivesse confortável começaria a falar em castelhano. Ninguém ficou chateado porque eles falam galego, que é parecido com português.

Lesionou-se a seguir à qualificação para o Mundial-2006. Mas é nessa altura que vai para a Juventus, não é?
Primeiro recupero, faço o resto da época no Deportivo e só em 2007 é que vou para a Juventus.

E volta a ter problemas no joelho.
Sim. Foi consequência da primeira operação. Tinha uns problemas na rótula e depois parti a rótula duas vezes, fiz várias recuperações. Foi complicado.

Mas isso já na Juventus?
Sim, já na Juventus.

É aí que surgem os beijinhos do Buffon?
[risos]. Eu sofri muito com as várias operações. Quando parti a rótula fiquei imobilizado muito tempo e não conseguia dobrar o joelho. Para voltar a dobrar o joelho o fisioterapeuta tinha que me mobilizar todos os dias e para ganhar amplitude, para ganhar ângulo, para correr, andar, depois de estar muito tempo parado, as dores são horríveis. Então carinhosamente todos os dias era confortado pelos colegas, tanto pelo Del Piero como pelo Buffon. Eu chegava ao estádio às sete da manhã e eles, que chegavam por volta das nove, antes de irem para o treino, sabiam que eu estava na piscina e iam dar-me um beijinho e dizer “força, não desanimes”. Era espectacular. E o Tiago também.

Gostou desses tempos na Juventus?
Adorei, embora sem jogar muito por causa da lesão, mas adorei porque encontrei um grupo de jogadores que venceram tudo em Itália e alguns ainda continuam a jogar. Mas analisando friamente, para a minha carreira, se calhar teria sido melhor continuar na Corunha porque não havia mudança de país e na Juventus foi tudo muito precipitado. Na altura as leis em Itália defendiam o clube e não há seguro que proteja o jogador, o que precipitou a rescisão. Foi amigável, mas foi uma rescisão que fez com que a minha carreira também parasse um pouco em termos de contrato e depois com muitas recuperações perdi o timing para poder voltar.

Fica essa mágoa, de ter acabado a carreira dessa forma?
Sim, sem jogar. É normal.

Em relação à família e às adaptações às formas de estar e de viver entre Espanha e Itália, do que gostaram mais?
Em Itália, no primeiro mês, fui sozinho e só depois de ter encontrado um apartamento é que a família foi. A princípio foi difícil porque eles mudaram de escola, a língua era diferente. Foi um pouco complicado, a distância de Lisboa para Itália é maior, não dava para vir a Portugal com tanta frequência como na Corunha. E aí mudou um pouco, fica-se mais isolado. Mas no mundo do futebol essa adaptação é tranquila porque os colegas acabam por ajudar a ambientar.

LLUIS GENE

Desses tempos de jogador tem alguma história nova para contar?
Tenho várias, mas já contei algumas. Por exemplo, quando fui contratado pelo Deportivo da Corunha, eles compraram-me por €16 milhões e quando chego ao clube, sento-me com o treinador e o treinador começa: “Hola chico, como te chamas?” e eu “Jorge”. E ele: “Qual é a tua posição?” E eu: “Jogo a defesa central”. Resposta dele: “Poça, o presidente é sempre a mesma coisa, eu pedi um avançado e vem um defesa”. Ou seja, eu pensava que era das grandes contratações, estava todo inchado e chego lá e o treinador desvalorizou tudo. Deixou-me meio de rastos.

Quem era o treinador?
Javier Irureta. Ganhou o campeonato com o Deportivo da Corunha em 2000.

Não deve ter sido fácil ouvir.
Sim, chegar a um clube a pensar que ia ser uma estrela e o treinador nem sabe a tua posição e queria era um avançado...

E dos clubes portugueses, não tem nenhuma história que possa partilhar?
Do FCP tenho. De Coimbra ao Porto demora-se uma hora e um dia falei com o Mário Monteiro, que é preparador físico hoje em dia do Sporting, e ele disse-me: “Anda aqui jantar que isto aqui é tranquilo”. E eu: “Mas em Coimbra?” E ele: “Sim, é uma hora de caminho e antes da meia-noite estás em casa”. Assim fiz. Fui para Coimbra por um caminho que era só montes e montes, e fui ter a uma casa isolada. Comemos bastante bem e eu pensei: “Bem, aqui neste sítio não há problema, não sou reconhecido”. No dia a seguir, chego ao treino logo de manhã e o Acácio, que era um dos relações públicas do FCP, diz-me assim: “Então, o jantar em Coimbra foi bom?”. Fiquei de boca aberta. O controlo dos jogadores era tanto... Hoje aqui em Lisboa já se faz, o Benfica e o Sporting já estão mais atentos a esses pormenores. Foi uma das coisas que fez com que o FCP crescesse mais rápido do que os outros naqueles anos, os jogadores eram super acarinhados ao ponto de toda a gente querer saber o que é que o jogador estava a fazer. Uma simples ida ao Continente, no outro dia já sabiam que tinhamos ido ao Continente.

Chama a isso de carinho? Não é controlo?
Sim, mas para o futebolista é bom saber que as pessoas controlam, porque faz com que tenha consciência de que não pode abusar. Somos novos, com dinheiro no bolso, a ideia é não fazermos asneiras.

E nunca fez umas escapadelas, umas asneiras das boas?
Não. Eu gostava era de fazer karaoke em casa e muitas vezes os meus vizinhos queixavam-se por estarem sempre a ouvir-me a cantar.

Acha que canta bem?
Sou o melhor cantor de karaoke do mundo. E nós para evitar esse tipo de problemas, quando fazíamos uma festa de aniversário, tentávamos fazer à tarde para podermos estar à vontade. Assim não havia problema.

Quem é que alinhava consigo no karaoke?
No karaoke era o Chaínho e o Rubens Júnior, que era um jogador brasileiro e que vinha com as novidades todas. Cantávamos todos. Foi o Chaínho que me pôs o vício do karaoke.

Qual é a canção que mais gosta de cantar?
Tenho várias. Gosto do “How deep is your love” dos Bee Gees, é a minha música favorita. Com o Chaínho uma das primeiras que cantei foi o “One” dos U2. Temos várias, com o karaoke dá para tudo.

Lu\355s Coelho

Entretanto acaba a carreira como jogador em 2009.
Sim. Depois da Juventus eu tinha um acordo com o Málaga e, consoante o meu estado físico, eles assinavam ou não. Fiz a pré-época com o Málaga mas o treinador preferiu ter um miúdo da equipa B do que a mim, que vinha de lesão. Treinei o resto do ano no Estoril Praia. Ainda fui a Inglaterra treinar no Notts County, a equipa do Eriksson. Estive lá um mês e foi aí que decidi que não valia a pena estar a esforçar-me mais porque as condições já não eram as mesmas.

Qual é o título que nunca ganhou e que ainda hoje lhe está atravessado na garganta?
Ganhei a Supertaça, mas gostava de ter conquistado a Taça de Espanha, só por curiosidade de estar com o rei. Conheci o rei pelo centenário do Deportivo da Corunha, mas gostava de ter conhecido num festejo de uma taça. Seria engraçado. Mas o título que mais gostava de ter conseguido é o do Euro-2004, em Portugal. Fizemos um trajeto difícil, complicado, e no dia em que pensámos que podíamos festejar, não conseguimos nada. O mais difícil foi esse.

De todos os jogadores com quem trabalhou houve algum que o tivesse marcado mais?
A nível de seleção, o Figo. Na altura, dentro de campo, o Figo era sempre a solução para todas as coisas. Tinhamos alguma dificuldade, vinha o Figo e todos os problemas desapareciam. A nível de clubes, gostei muito da forma como me ajudaram todos os colegas mais velhos que foram centrais, porque é uma posição onde os mais novos têm dificuldade de se adaptar, é de muita responsabilidade. Se um central falhar, normalmente é golo. Gostei muito de trabalhar com o Rebelo no Estrela da Amadora, com o Aloísio e o Jorge Costa no FCP, com o Naybet que jogou no Sporting e na Corunha, e na seleção com o Fernando Couto também. Esses jogadores ajudam o outro central mais novo a brilhar e a ter condições para ser vendido. Tive sempre essas “muletas” que me ajudaram a ser melhor, a ser vendido várias vezes e a progredir na carreira.

No meio disto tudo, qual é o seu clube de coração?
Acho que sou a pessoa mais baralhada do mundo. A equipa que mais gosto hoje em dia é o Deportivo da Corunha. Amor puro é ao Deportivo. Agora clubes internos, defendo o FCP, onde joguei, mas em miúdo era do Sporting. Ou seja, é muito baralhado, uma confusão, nem eu próprio às vezes sei qual é o clube.

Num Sporting-FC Porto, torce por quem?
Torço sempre pelo FCP. É normal, joguei lá, por isso é mais fácil torcer pelo FCP. Mas o Sporting tem um peso grande, porque o meu pai é sportinguista e não é fácil estar a ver os jogos com ele e ir contra ele. Não vou contra o meu pai [risos]. Mas do que gosto mais é de apoiar a seleção nacional.

Os seus filhos torcem por quem?
Estão divididos. Há dois portistas e um benfiquista. Um dos rapazes torce pelo Benfica, o outro e a menina pelo FCP também. Não fui eu que influenciei.

A sua filha já é de um outro relacionamento.
Sim. No ano em que deixei de jogar futebol, separei-me. Enquanto estive a jogar tive mulher, deixei de jogar, deixei de ter mulher. E agora deste relacionamento tenho uma filha, a Ágata, de quatro anos.

Carlos Ferreira Marques

Como é que se torna treinador?
Comecei a tirar os cursos e tive o convite do Pedro Hipólito para entrar na equipa técnica dele.

No Belenenses?
Não, estou a dizer a nível profissional. Agora em termos de miúdos, eu tirei o 2º nível em Lisboa e fui para a Corunha, porque eu tenho lá um estabelecimento, uma cervejaria. Fui para lá e para não estar parado comecei a treinar num clube que se chama Vitória, que é de miúdos, e depois desse clube vim para aqui e estive no Belenenses, e depois é que fui para o Atlético Clube de Portugal, como adjunto do Pedro Hipólito.

Resuma essa história da cervejaria.
Enquanto jogava futebol nunca quis ter negócios, porque é preciso estar presente. Tive um convite para abrir uma cervejaria e fui para a Corunha dois anos, na altura em que estive parado, porque não tinha nada a prender-me. Foi de 2010 a 2012. Depois nasce a minha filha e venho para Portugal.

Não chegou a ter uma escola de futebol Jorge Andrade?
Não. Tive uma parceira com uma escola de futebol da Federação de Cabo Verde, era o padrinho da escola. Mas depois o presidente da federação mudou e o projeto já não existe.

Tem outros negócios?
Tenho uns apartamentos que compro e vendo. A cervejaria está alugada.

A experiência como treinador é como estava à espera?
Não é tão gratificante porque quem gosta de futebol, gosta é de estar no campo a jogar. E há logo uma grande diferença, tem que se ter cuidado com o que se diz, como se fala, a postura com que se está. Isso faz toda a diferença porque sou uma pessoa extrovertida, gosto de brincar e como treinador não posso brincar com todos os jogadores. Muitos vão estar zangados comigo porque não jogam.

A relação no balneário é bem diferente da de jogador.
É um trabalho duro. A relação no balneário é o mais difícil.

Agora está em casa, certo?
Sim. A equipa desceu de divisão, já estava meia condenada a descer. Queria continuar, mas a opção do presidente, como tivemos o problema das apostas, em que houve alguns jogadores que se viram envolvidos no escândalo... O presidente achou bem não continuar a ligação.

Como é que viveu essa situação das apostas?
Pensar que um profissional se sujeita a esse tipo de pressão... Mas hoje em dia as coisas são tão diferentes que não vou criticar ninguém, simplesmente fazia o meu trabalho.

Nunca deu por nada?
Não. Se eu desse por isso era o primeiro a abandonar de imediato o clube.

Prejudicou a sua carreira de alguma forma?
A imagem não, mas a carreira prejudica, porque se era para continuar no clube... já há uma interrupção.

Não voltou a receber propostas?
Tive algumas mas eram de divisões inferiores e eu não queria trabalhar em divisões inferiores, nem quero sair da zona de Lisboa.

Porquê?
Tomo conta dos meus filhos e tento acompanhá-los. Já estive muitos anos fora, aproveito agora para estar mais por aqui. A minha mulher é hospedeira da TAP, também não tem horários certos.

Gosta de ser comentador na televisão?
Adoro. Dá-me muito gozo confrontar ideias com pessoas que nunca jogaram futebol. Gosto que eles digam: “Afinal tens razão, não tinha visto por esse lado”. É bom a minha experiência poder contar para alguma coisa.

Qual é o seu maior sonho atualmente?
Tenho vários. Em termos desportivos, gostava de treinar algum clube no estrangeiro, mas o meu sonho desde sempre, desde que deixei de jogar, é preparar-me para um dia ser selecionador de Cabo Verde.

Cabo Verde porquê?
Nasci em Portugal, mas um dia gostava de retribuir à terra dos meus pais todo o carinho que me dão, sendo treinador, e gostava de levar Cabo Verde pela primeira vez a um Mundial.

De todos os treinadores que o treinaram qual/quais os que o marcaram mais?
O que mais me influenciou foi o Miguel Quaresma, que é um dos adjuntos do Jorge Jesus no Sporting. Porquê? Porque nessas idades de transição, tive dificuldade por causa do corpo que não crescia e ele deu-nos uma visão do que iria ser o futebol profissional. Preparou todos os jogadores para o que era o profissionalismo e ajudou muitos de nós a termos carreiras. Muitos ficaram no plantel do Estrela da Amadora e muitos, como eu e o Miguel, tivemos carreiras internacionais.

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