Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

Henrique Calisto: “No Vietname tive de beber um shot de sangue de cobra e bílis de urso, e comi ossos de tigre e tatu”

É um homem do futebol, mas não só. A política passou a marcar presença na vida de Henrique Calisto, desde que viu o pai ser preso pela PIDE. Aos 63 anos, o treinador conhecido por ter passado dez anos no Vietname foi expulso do PS e voltou a filiar-se, tem obra feita como presidente da junta de freguesia de Matosinhos e afirma que se o convidassem para ser dirigente da FPF, aceitaria

Alexandra Simões de Abreu

HOANG DINH NAM

Partilhar

Quais as suas origens?
O meu pai era pescador e a minha mãe estava a em casa com os filhos. E tinha muito que trabalhar, éramos quatro, tenho dois irmãos e uma irmã, só um é mais novo que eu. Foi uma infância e adolescência feliz, com muito carinho.

Antes de começar a jogar futebol, no Leixões, ainda jogou basquetebol.
Sim. Só era possível jogar futebol a partir dos 15 anos, porque havia apenas dois escalões de formação. Então, comecei a jogar basquetebol, aos 13 anos, no Leixões. O basquetebol era uma forma de termos a atividade desportiva federada. Aos 15, fui aos testes de captação com um dos grandes mestres do futebol de formação, Óscar Marques. Neste percurso tive sempre comigo o Vitor Oliveira [treinador do Portimonense].

Conheciam-se de onde?
Nascemos no mesmo ano, temos um mês de diferença, fomos vizinhos, fomos companheiros de liceu, jogámos basquetebol juntos.

E ficaram no Leixões.
Sim. Fiz dois anos nos juvenis, dois anos nos juniores e continuei a estudar.

Quando faz a estreia como sénior?
Em 1971 ou 1972 (sou péssimo para datas). Não me lembro do jogo da estreia. O Leixões era um clube que preferencialmente tinha jogadores da terra, conhecíamo-nos todos e nesse ano subimos três ou quatro ao plantel. Foi uma alegria, naturalmente.

Em 1974 termina o curso de Educação Física. E depois?
Fui para a tropa em Outubro de 1974. Fui para a Polícia Militar, era oficial da PM numa altura em que havia o 25 de abril...mas eu já antes estava ligado a movimentos políticos de esquerda.

Jogo no estádio da Luz frente ao Benfica. Henrique Calisto está de cabelo comprido, é o segundo em pé, da direita para a esquerda

Jogo no estádio da Luz frente ao Benfica. Henrique Calisto está de cabelo comprido, é o segundo em pé, da direita para a esquerda

user

O que o levou a ligar-se à política?
A minha primeira grande sensibilização para estar ligado a movimentos político em jovem foi o meu pai ser preso pela PIDE.

Foi preso porquê?
Os pescadores fizeram uma greve para aumentar o preço do peixe, um tostão por cabaz. O meu pai era mestre. Como eles não podiam prendê-los a todos, prenderam os mestres que estavam solidários com essa greve.

Tinha que idade?
Eu tinha 14 anos. Ele esteve quase um mês na PIDE e isso marcou-me muito. Porque é que o meu pai vai preso? Não era um homem de política, era um homem de trabalho, um homem bom. Comecei a pensar em tudo isto e, quando fui estudar para o Porto, comecei a militar em movimentos de esquerda, o PCP ML. Depois fui para a tropa já com 22 anos, e assim que acabei a especialidade segui para Lisboa. A capital era o centro de tudo, dos grandes movimentos, havia ocupações de casas e nós éramos chamados para tudo.

Deixou de jogar nessa altura?
Sim, por opção. No 25 de novembro eu era comando de esquadrão. O sentimento de revolta nesse momento fez com que eu me dedicasse um pouco mais à política. No entanto, o 25 de novembro acabou, vim-me embora e em 1976 comecei a trabalhar como professor de educação física no liceu de Santo Tirso. E continuei ligado à UDP, fui agente distrital da UDP.

Como volta ao futebol?
Havia um senhor de Matosinhos que era dirigente no Alvarenga, um clube de Aveiro, e pediu-me para eu ser treinador/jogador. Era uma coisa mais de fim de semana. Estive lá três anos. Nesse tempo, tive um treinador enquanto jogador que era o António Teixeira, que foi treinar o Boavista, e como começavam a aparecer nas equipas os preparadores físicos, professores como João Mota, o Bitaites (Hernâni Gonçalves), começou a haver essa necessidade do preparador físico, fui como adjunto. Entretanto eu tinha tirado o curso de treinadores em 1978.

Mas entretanto passa a treinador principal do Boavista.
Sim. Entretanto o Teixeira saiu. Um grande senhor do futebol, um grande senhor. E depois dele sair, fico eu. Todos no clube pediram para eu ficar. Fiquei. As coisas correram bem, ficámos em 4º lugar, fomos às competições europeias. Isto, aos 26 anos. Penso que continuo a ser o treinador mais jovem a treinar um clube da I Divisão.

Segue-se o Salgueiros.
Exato, subo de divisão nesse ano e começo a ter grandes contactos com o Pedroto, num altura em que havia uma grande luta entre sindicatos, o STF e o Simbol. Simbol que foi criado como opção politica clara contra o STF, que era ao tempo dominado por uma ala mais comunista. Em 1981 o senhor Pedroto convidou-me para ser o vice-presidente da AG. Ele era o presidente, mas também lá estavam o Quinito, João Mota e António Morais. Depois de muitas controvérsias fizemos uma comissão instaladora a que eu pertenci, para criar a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), da qual fui o primeiro presidente, em 1986.

O que mais destaca da sua passagem pela ANTF?
Uma das coisas importantes que fizemos, e para mim isso foi a primeira grande reforma estrutural do futebol português, foi abdicarmos, em 1986/87, de ter formação profissional só com um curso para termos quatro cursos, quatro níveis. O futebol português só podia avançar se houvesse formação. Na génese desses cursos está esta geração, ou várias gerações de treinadores, que passaram por lá e passaram a ter uma formação mais adequada às exigências que o futebol começou a ter.

Com Mário Soares, na Junta de Freguesia de Matosinhos

Com Mário Soares, na Junta de Freguesia de Matosinhos

Depois de duas épocas no Salgueiros, volta ao Boavista, regressa ao Salgueiros, depois Braga e Varzim. Andava sempre pelo norte, porquê?
Nunca quis ir para sul. Foi opção, por causa da família, da política, do sindicato, a ANTF.

Como conheceu a sua mulher e quando casaram?
Conhecia-a na Escola de Educação Física quando estava a tirar o curso. Era minha colega. Casámos em 1976.

Quando foi pai pela primeira vez?
Em 1980. Primeiro nasceu o Tiago e quatro anos depois a Ana.

Depois de três épocas no Varzim, surge a Académica...
Entusiasmou-me porque a Académica era e é um histórico do futebol português, com uma mística que se perdeu e que faz falta. A Académica devia ressurgir com esses moldes, até porque hoje há muitos mais jogadores/estudantes. Há jogadores licenciados.

Tem ideia de quanto foi o seu primeiro ordenado?
Foram três contos, no Leixões. Como treinador foi à volta de 80 contos, no Boavista.

Nessa altura já era uma boa quantia de dinheiro. O que fez com esses primeiros ordenados?
Juntei para comprar uma casa, para pagar a primeira prestação da casa. Ainda tenho essa casa, em Matosinhos.

Ainda vive na mesma casa?
Não, depois de ir para o Vietname, mudei. Comecei a ganhar bastante mais.

Neste percurso pelos clubes do norte houve algum jogador que o tenha marcado ou que se lembre de ter lançado?
No segundo ano do Boavista tinha uma excelente equipa, o Palhares, João Alves, Frederico, Eliseu, Artur. No Varzim tínhamos também uma equipa extraordinária com Pemba, Vata, Soares, Litos, Zé Maria e o Belmiro, os dois últimos ambos pescadores, começaram a jogar futebol tarde. O Belmiro já faleceu, num acidente. Era pescador, depois foi jogador de futebol e quando deixou de o ser, voltou à pesca e acabou por morrer no mar. Mas o Rui Barros foi o mais marcante. Era um miúdo pequenino, ninguém apostava nele, mas era um excelente profissional e pela carreira que fizémos ele foi chamado à seleção, ainda pelo Varzim. É um homem extraordinário.

Esteve uma época e meia na Académica. Veio embora porquê?
Não foi aquilo que esperávamos. Nessa altura também tínhamos uma grande equipa, o jogador mais de topo, era o Fernando Couto, também miúdo, porque nessa altura os jogadores do Porto rodavam muito por estes clubes e formavam-se nestes clubes.

Volta ao Varzim...
Sim, o Varzim foram bons tempos.

E segue-se novamente o Leixões. Era como voltar a casa.
Os clubes naquele tempo eram as nossas segundas casas. O Leixões é o meu clube do coração. Fui jogador de basquetebol, de futebol, fui treinador, diretor, presidente da AG. Entretanto sou também presidente da Junta de Matosinhos.

Henrique Calisto recebe das mãos do ministro Luís Amado a Comenda da Ordem de Mérito pela projeção da imagem de Portugal no mercado asiático

Henrique Calisto recebe das mãos do ministro Luís Amado a Comenda da Ordem de Mérito pela projeção da imagem de Portugal no mercado asiático

Nunca largou a politica. Quando é que adere ao PS?
Em 1985. Fui convidado pelo engenheiro Mesquita Machado. Naquele tempo nós vivíamos as coisas com muito sentimento, depois quando temos mais reflexão sobre a vida, não que o ideário em si...o ideário é bom, os partidos políticos têm ideários bons, depois a prática e a forma de se cumprir esses objetivos é que pode ser divergente. A práxis é cada vez mais importante que a teoria. E é aí que a política falha.

Explique melhor.
Toda a gente tem ideários bons, uns por um caminho outros por outro, claro que estou a falar mais na esquerda, mas as práxis são diferenciadas. Os anos 70, na Europa, são anos de grandes tumultos, acaba a ditadura portuguesa, acabam as ditaduras espanhola e a grega. E os anos 80 são anos mais de usar outros métodos para se chegar àquilo que se quer. Os problemas das revoluções para se chegar ao poder deixaram de ter cabimento. Passámos a ter uma Europa mais parlamentar, de diálogo, de diplomacia, de abertura, e por isso acho que o PS nesse tempo era o partido que me preenchia mais.

Quando é que se torna presidente da Junta de Freguesia de Matosinhos?
Militava no PS em Matosinhos e fui convidado para ser candidato em 1991. Fui eleito três vezes presidente de junta.

Desses três mandatos o que ficou para si e para Matosinhos?
Como presidente da Junta fiz muitas coisas. Primeiro tive um conhecimento mais direto não do social, mas daquilo que está muito escondido, as pessoas, as suas dificuldades. Nós tínhamos a tutela das escolas primárias e criei um apoio psicológico para os miúdos. Sentíamos que havia muitos problemas comportamentos, dislexias, e não havia ninguém. Fiz um protocolo com um psicólogo de Matosinhos. Depois, fizemos outras coisas, um centro de dia, uma ludoteca, um rinque, centros de formação. O apoio social às pessoas. Orgulho-me de ter feito um trabalho importante de apoio à terceira ideia e nas escolas.

Sente que há esse reconhecimento?
Sinto, claro. Mesmo depois de ter vindo do Vietname, as pessoas ainda se lembram desses tempos.

Nessa altura, nos anos 90, em que acumulou as funções de treinador e de presidente de junta, o que era mais importante para si?
As pessoas. Sempre as pessoas. Tentar ajudar a resolver os problemas das pessoas.

Tinha tempo para as duas coisas?
Claro que tinha. No futebol tem-se muito tempo. E tinha uma excelente equipa. Os políticos não fazem nada sozinhos. Soube escolher sempre excelentes equipas que me ajudaram muito. Alguns trabalhavam muito mais do que eu até.

Foi presidente de Junta até ir para o Vietname?
Sim, até 2000. Abdiquei quando fui para o Vietname.

Com a equipa com que conquistou a Taça do Sudoeste Asiático

Com a equipa com que conquistou a Taça do Sudoeste Asiático

Como é que foi parar ao Vietname?
Nós vamos fazendo amigos quando passamos pelos clubes. E um senhor, o engenheiro Fausto, que trabalhava numa empresa de cerâmica perto de Coimbra, trabalhava com pessoas do Vietname que vinham comprar aqui materiais. Uma dessas pessoas tinha comprado um clube no Vietname e gostava de ter um treinador português. Já o futebol português começava a ser prestigiado no mundo. E esse engenheiro Fausto perguntou-me se estava interessado. Eu disse que gostava.

Porquê?
O Vietname nos anos 60/70 foi uma das bandeiras de esquerda, da luta contra o imperialismo. E era aliciante ver como era o Vietname. E fui mais para conhecer o país.

Mas nessa altura até estava afastado do futebol, tinha saído do Paços de Ferreira em 2000. Porque é que se afastou?
A política nesse tempo era aliciante. Vivia-se muito a polícia no sentido da dádiva, de arranjar soluções de casas para as pessoas, estamos a falar no PER. E nesse tempo resolvi fazer uma pausa sabática do futebol.

Estava zangado com o futebol?
Eu nunca me zanguei com o futebol, às vezes zango-me é comigo próprio.

Veio embora de Paços de Ferreira porque os resultados não eram os melhores.
Sim, não estava a correr bem em termos de resultados. Jogamos bem e não ganhamos e essa frustração de jogar bem e perder levou-me a isso, a deixar de treinar. Estava zangado comigo mesmo.

E chegou a alguma conclusão?
Cheguei. Para se ser bom treinador tem que ser exclusivamente treinador. É fundamental. Acho que geri mal essa situação, por muito que diga que naquele tempo era possível fazer as duas coisas... Temos que estar 200% no futebol.

Ou seja, a vida política acabou por prejudicar a carreira no futebol?
Indiscutivelmente.

Se voltasse a atrás...
Teria que optar claramente por uma coisa ou outra.

E por qual teria optado?
Pelo futebol. Não que deixasse de ter uma intervenção cívica, acho que isso jamais faria. Mas não teria tantas responsabilidades políticas. Porque depois fui coordenador do PS de Matosinhos, da Concelhia, da Comissão Nacional onde estive 12 anos.

E foi expulso do PS...
Isso foi depois de vir do Vietname, por ter apoiado o Guilherme Pinto como independente.

Já lá vamos. Voltando ao futebol. Foi para o Vietname sozinho ou com a família?
Fui sozinho. A minha mulher era professora de educação física, gostava de o ser e não quis abdicar nunca da sua carreira. O meu filho já tinha 20 anos, a filha era mais nova mas compreenderam perfeitamente.

Não levou equipa técnica?
Levei o Folha comigo. Nesse primeiro ano fomos logo campeões da II divisão.

Ao nível do futebol, o que o surpreendeu pela positiva?
A organização e as condições. Havia centros de formação, centros de estágio. Vivíamos no centro de estágio, havia condições para isso, e no fim de semana é que íamos para a cidade. Nos primeiros tempos ficava num hotel e, passado uns tempos, pedi uma casa para ter mais privacidade.

O seu filho chegou a viver lá consigo.
Sim, foi ter comigo um ano ou dois depois e esteve lá ano e meio. Quando cheguei apercebi-me que o Vietname era dos países que mais era chamado pelas grandes empresas europeias para as confecções. Criei com o meu filho negócios de importação e exportação na área das confecções. Depois ele acabou por sediar-se em Portugal porque era mais fácil estar em Portugal e arranjar clientes.

Henrique Calisto numa visita a um hospital pediátrico ,em Saigão

Henrique Calisto numa visita a um hospital pediátrico ,em Saigão

Também foi seleccionador do Vietname.
Logo em 2002 houve uma crise do futebol vietnamita, o fim de uma boa geração. Eu tinha sido campeão da II divisão e depois ficámos logo em 2º ou 3º lugar na época seguinte na I Divisão e fui chamado para a seleção. Nesta parte da Ásia, a Taça mais importante é a Taça do Sudoeste Asiático, onde entram 11 países e ficamos em 3º lugar o que foi também um sucesso. E voltei ao clube, fiquei no clube e fomos ganhando umas coisas.

Quais foram as principais lacunas que detetou?
Os clubes na Ásia são clubes-empresa. Nesse tempo, começou a haver mais profissionalização. Nos primeiros anos, desapareceram os velhos clubes que eram símbolo da União Soviética, do Exército, da Polícia. Privatizaram-se todos. Havia condições. Havia capacidade técnica. o jogador asiático caracteriza-se por ser muito rápido; mas não havia formação tática. A táctica era pouco flexível. A interpretação tática era muito pouco criativa. E os treinadores portugueses, se há uma coisa em que se afirmam, é pela sua capacidade de interpretar o jogo, de ler o jogo, de criar modelos e sistemas de jogo que se adaptem aos jogadores e não ficarem pelos estereótipos.

É a principal característica do treinador português?
Ainda hoje. Continuo a dizer que uma das grandes capacidades dos treinadores portugueses é o humanismo. Naquele tempo os treinadores portugueses eram treinadores, pais, mães, médicos, diretores, e esse aporte para a Ásia foi muito importante. Ainda hoje continua a ser muito importante, porque as escolas do centro da Europa são de treino e acabou; não têm relações humanas com os jogadores, não se preocupam se têm problemas familiares, quanto ganham ou não ganham, o treino é comandado pelo apito e não pelo diálogo. Nós temos essa capacidade. Esse aporte de criar estes modelos de jogo mais latinizados. Sempre fui um apologista do jogo latino, o toque, o passe curto, a criatividade. Isso fez escola no Vietname.

Disse há pouco que conhecer o Vietname fazia parte do seu imaginário por razões históricas. Qual foi o primeiro impacto, era o que estava à espera?
Foi uma grande surpresa. O Vietname esteve no século XX sucessivamente em guerra. Primeiro contra os franceses, depois contra os americanos. A guerra acabou em 1975. E que é que pensamos? Que é um povo aguerrido, violento...nada disso. É um povo muito amável, amigável, sempre dispostos a aprender. E essa foi a grande surpresa.

O país era aquilo que imaginava?
Não tanto, porque vou encontrar Saigão já como uma grande metrópole, com 12 milhões de habitantes.

Ao nível da cultura e costumes custou-lhe a adaptar-se?
Não, porque nas grandes cidades há sempre oferta gastronómicas de todo o mundo.

O que é que mais o chocou?
Algumas situações de poluição e de pobreza. A agitação, a desordem do trânsito. Matosinhos é uma cidade calma, pacata, com 160 mil habitantes no concelho e passar para uma cidade de 12 milhões onde o trânsito é caótico, onde as situações de insuficiência para os padrões ocidentais são.. as pessoas trabalhavam muito e lutavam por ordenados muito baixos e uma das coisas que me perguntava é como é que se pode viver com tão pouco? Mas as pessoas têm expectativas de melhorar e às vezes essas expectativas dão uma força e uma vitalidade enorme. Isto como primeira impressão, choca, mas depois começamos a ser assimilados e a compreender o porquê dessas situações. Havia falta de liberdade, em termos das questões políticas, que se foi ultrapassando. Quando cheguei em 2000 não se podia contestar até a federação publicamente, porque era um organismo de Estado. Quando eu saí, vi manifestações contra os governos regionais. Neste período a evolução foi enorme. Pode demorar mais tempo, mas o método de transformação das sociedades é pela informação e pela formação. A não ser que se faça como a Coreia do norte, em que não há net, não têm acesso a outros canais. O contacto com o mundo exterior faz com que os ideários também se mudem.

O que mais admirou?
A devoção pelos mais velhos, pelas pessoas que foram exemplos na vida e que desapareceram. O culto pelos homens que fizeram a guerra. Os homens e as mulheres, muito mais até as mulheres do que os homens. As mulheres tiveram um papel fundamental na guerra do Vietname. O respeito pelos mais velhos é determinante, independentemente da classe social. Em conversa com alguns amigos que fui fazendo lá, expliquei que nós aqui nas grandes cidades, quando os pais começam a ter algumas dificuldades, pômo-los numas casas, com médicos e enfermeiros e que estão bem cuidados. E eles perguntavam: “Mas vocês não têm vergonha? Então os vossos pais, que vos sustentam durante 20 anos ou mais, a pagar estudos, alimentação, roupa, tudo e depois vocês nos últimos 10 anos deles não conseguem ter lá um cantinho na vossa casa onde possam estar com os pais?”. No Vietname o sentido de família é muito forte. Enquanto no Ocidente este sentido de família se vai esbatendo, ali é profundamente sentido. E quem não seguir esta tradição é ostracizado pela sociedade. Mau filho, mau homem. Eles fazem logo esse paralelo.

Durante um jantar tradicional nas montanhas Sapa, no Vietname

Durante um jantar tradicional nas montanhas Sapa, no Vietname

Deve ter provado muitas iguarias no mínimo estranhas.
Uma das coisas que me chocou logo nos primeiros jantares, foi o ritual de comer a cobra. E é uma falta de educação não comer ou não beber aquilo que nos dão. Pelo menos provar. Apareceram com uma cobra viva, depois mataram a cobra, cortaram a cabeça tiraram-lhe o sangue...

... à sua frente?
É o ritual de amizade e de respeito. E depois põem o coração num pires, ainda a bater, e temos que comer, o VIP mais VIP tem que comer.

E comeu?
Engoli. Em Roma sê romano. Isso também é uma das razões do sucesso dos treinadores portugueses, têm essa capacidade de adaptabilidade fácil às novas situações. Depois, tive de beber o shot do sangue da cobra que é misturado com uma aguardente de arroz. Isto é o tradicional do ser bem recebido, do pertencer à família.

Gostou da cobra?
Não sabe a nada. Não fiquei fã.

Que mais coisas esquisitas andou a comer?
Insetos, escorpiões. É crocante (risos). Mas vamos escolhê-los vivos, depois é que fritam.

De tudo o que provou do que é que mais gostou?
Da tartaruga. E de coisas que não se podem dizer.

Não se podem dizer?
Fica mal... Somos obrigados a beber a bílis dos ursos, de beber aguardente de arroz com ossos de tigre, que é caríssimo.

Isso tem a ver com crenças, certo?
Sim, muitas crenças. Comi tatu para dar sorte.

Resultou?
Eles dizem que sim (risos).

Também comeu cão?
Não, eles comem cão mais no norte, mas isso nunca comi.

E hábitos?
Um dia ,a mãe do nosso presidente faleceu e o funeral demorou cinco dias. Os dos mais mais ricos duram cinco dias e dos outros três dias. ...o corpo fica ali e durante esse tempo é festa. Os familiares vestem-se de branco, os amigos chegam e têm que beber e comer, e há música. É o celebrar a morte. Foi uma das coisas que me impressionou.

No templo budista branco, na Tailândia

No templo budista branco, na Tailândia

Esteve na Tailândia em 2011, quando saiu do Vietname.
Sim estive lá seis meses. É muito diferente do Vietname. Gostei mais do Vietname para viver, não era tão virado para o turismo, não é tão artificial. Banguecoque é uma cidade louca. Perfeitamente louca. Bom para quem quer visitar, mas para viver é terrível.

A sua mulher foi ter consigo?
Nas férias ia sempre ter comigo. Adorava. Tem praias lindíssimas. E tem o sitio mais bonito do mundo, Halong Bay. É o paraíso na terra. Águas limpas, quentes, hotéis bons, pequenas praias, viagens de barco, as aldeias flutuantes; é deslumbrante. A própria filosofia asiática influenciada pelo budismo, faz do povo um povo de calma, de serenidade. E só um povo muito calmo pode aguentar o stress, que para eles não é stress, do trânsito. Em Saigão, quando eu saí em 2011, havia seis milhões de motos legalizadas!

Porque é que se manteve tanto tempo no Vietname?
Sentia-me muito bem, sentia-me respeitado, financeiramente era bom. E tive a ajuda das redes sociais. Havia contato visual com a família diariamente. Se não houvesse isso era muito difícil. Ver e falar diretamente com a família apagava muito a nostalgia da noite. Porque enquanto se trabalha está tudo bem, mas quando se chega a casa...

Como era o seu dia a dia?
A maior parte das vezes ficava no próprio centro de estágio. O pequeno-almoço era às sete da manhã. Depois começava logo a trabalhar, treino, almoco as 11h, sesta (toda a gente faz sesta), trabalhar, treino e pronto.

Nessa altura não lhe surgiram outros convites?
Sugiram, mas eu não sou muito ambicioso pelo dinheiro. Sentia-me bem, sabia que era respeitado e sabia que estava a fazer um trabalho ótimo... eu sou um homem de hábitos.

A língua nunca foi uma barreira?
Não. Falo bem inglês e francês. Apesar de ter sido uma colônia francesa, neste momento o inglês é dominante, é universal.

Foi para a Tailândia porque financeiramente era mais apelativo ou porque estava cansado do Vietname?
Foi uma aposta. Não fiquei mais do que seis meses porque na Ásia eles gostam muito de ter as vedetas e contrataram à minha revelia um senhor chamado Robbie Fowler, um jogador extremamente reconhecido, mas com 37 anos, e quase que exigiam que ele jogasse. Como comigo não tinha lugar, vim embora.

Henrique Calisto com a mulher, em Sapa, zona de montanha no Vietname

Henrique Calisto com a mulher, em Sapa, zona de montanha no Vietname

Quando veio para Portugal já vinha com contacto para ir para o Paços de Ferreira?
Não. Aconteceu porque estava cá há um mês. Entrei a meio, o Paços estava em último lugar e acabamos em 10º. Fizemos uma excelente segunda volta.

Sente que evoluiu como treinador no Vietname?
Evolui como homem e como treinador porque exigia muito mais de mim.

Nao fica no Paços de Ferreira porquê?
Porque tinha recebido uma proposta para ir para o Dubai.

Mas não foi. Porquê?
É a vida. A nossa vida é assim. Está quase tudo pronto e de um momento para o outro, o que hoje é verdade amanhã é mentira como dizia o Pimenta Machado.

Mas o que é que aconteceu em concreto?
Não posso contar. Tem nomes de pessoas conhecidas, empresários conhecidos, e não gosto de falar nisso. Estava tudo feito para assinar contrato e falhou.

Tem empresário?
Não, não tenho. Mas foi uma proposta de um empresário conhecido, com ótimas condições financeiras, tudo feito, e depois de um momento para o outro, acabou.

E vai para Angola, para o Libolo. Gostou?
Não.

Porquê?
(Pausa) Angola é um país difícil. Muito difícil.

O clube tinha boas condições?
O presidente, dr. Rui Campos, extraordinário. O staff técnico, extraordinario. Condições que não se comparam em Angola, uma dedicação e profissionalismo extremos, só que... é muito difícil. Para viver é muito difícil. Eu vivia no Kwanza Sul, longe de tudo. Mas tenho grandes recordações das pessoas com quem trabalhei e só tenho a dizer bem de quem trabalhou comigo e da organização. Agora do resto... O futebol angolano é muito difícil. Estive lá seis meses.

Alguma vez sentiu medo?
Senti medo num jogo da Champions de África em que fomos jogar ao Sudão. Ganhámos e saímos com a polícia. Terrível. Havia tiros, pedras, uma confusão.

Enquanto selecionador do Vietname

Enquanto selecionador do Vietname

Vamos falar do futebol português...
...Está bem e recomenda-se!

Acha?
O futebol jogado é dos sectores que Portugal se deve orgulhar. Estive no Vietname dez anos e conheci a Ásia toda. E se perguntar por Portugal, ninguém sabe quem é o primeiro ministro, onde é que fica, mas depois dizemos Cristiano Ronaldo e toda a gente "ah, Cristiano Ronaldo, Mourinho, Figo". Toda a gente conhece. Portugal devia aproveitar o futebol como bandeira de sucesso deste país.

Depois de Angola regressa ao Paços de Ferreira.
Sim.

E depois termina a carreira.
Sim. Saí do Paços de uma forma perfeitamente anacrónica. Tive problemas com alguns jogadores.

Que tipo de problemas?
No gosto de falar, de pessoalizar. Tive problemas de relacionamento com alguns jogadores e a direção optou pelos jogadores.

Problemas a nivel disciplinar?
Sim. Mas pronto, saí, acabou.

Significa que não volta a treinar?
Nao é isso. Acho que quem vive tantos anos no futebol jamais poderá virar as costas ao futebol.

Que projeto é que gostava que lhe aparecesse agora?
A determinada altura, os treinadores com mais idade e com mais experiência poderão ter outras funções. Diretores desportivos, por exemplo, acho que são uma lacuna do futebol português. Ter pessoas do futebol na direção desportiva dos clubes. É uma das grandes lacunas e que na Europa toda existe. O PSG foi buscar o Antero Henriques que é uma pessoa que estava ligada ao futebol há muito anos...todos os clubes em Inglaterra, França, Itália têm diretores desportivos, é uma figura sempre ligada ao futebol. Aqui não existe, há um regime muito presidencialista.

Nunca pensou fazer isso no Leixões, por exemplo?
Eu estou ligado ao Leixões, apoio esta direção.

Mas nunca pensou tomar as rédeas do clube?
Não, para já não. Para se ser presidente de um clube profissional tem que se viver o cargo a 100%, cada vez mais.

Neste momento o que faz?
Faço comentário na BolaTV, no Porto Canal, sou formador da FPF.

Henrique Calisto num resort em Danang, no Vietname

Henrique Calisto num resort em Danang, no Vietname

E a vida política? Disse há pouco que foi expulso quando apoiou a candidatura independente do Guilherme Pinto.
Isso foi em 2013. Ele era o presidente, tinha feito já dois mandatos e em 2013 a comissão optou pelo António Parada como candidato do PS. E o Guilherme achou-se injustiçado e apresentou uma candidatura independente, que eu apoiei. E todos aqueles que foram da lista dos independentes foram expulsos.

Isso magoou-o?
Profundamente. Nao estava à espera. Os partidos devem ser solidários. É como eu dizia: o ideário é uma coisa e depois a práxis é outra.

Mas entretanto já se filiou novamente.
Sim, porque sou militante do PS desde 1985, estive ligado à política tantos e tantos anos, acho que esquecer o trabalho que um homem fez...Guilherme Pinto esteve mais de 20 anos como vereador e como presidente de Câmara e, depois, quando era já o terceiro mandato, o partido coloca-o de parte. Acho que foi de grande injustiça e por isso a minha solidariedade com ele. E isso é estatutário. Mas como não estava em cargo elegível pensava que as pessoas tivessem mais...que os princípios prevalecem e não fossem prejudicados por interesses pessoais....pronto. E agora estou no PS e estou a apoiar a Luísa Salgueiro.

Mas porque resolveu voltar ao PS e apoiar uma candidata que inicialmente não apoiou?
Nao apoiei enquanto independente. Houve a perspectiva de unificar os dissidentes. Depois, de politicamente, o PS ter reconhecido que foi um erro não ter apoiado o Guilherme Pinto, há a tentativa de reintegrar os independentes no PS e fazer uma lista conjunta. Os independentes juntamente com o PS votaram e acharam que ela seria a solução ideal (nesse tempo não achei que ela seria a solução ideal, é verdade) e como homem que tem de respeitar as maiorias...a partir daí se volto para o PS tenho de apoiar o partido.

Tem ambições políticas?
Não. Não tenho ambições de carreira política. E por isso sou o segundo da lista à assembleia municipal, que não é remunerada. É uma forma de fazer cidadania. Não se faz reformas por fora. E hoje penso que de facto a Luisa Salgueiros é a melhor resposta.

O que o fez mudar de ideia?
O contacto mais direto com ela. A forma como apresenta seu programa, a forma como se relaciona. Aquilo que quer fazer, a unidade que quer trazer ao partido.

Henrique Calisto no Paços de Ferreira

Henrique Calisto no Paços de Ferreira

MIGUEL RIOPA

Continua a receber propostas para treinador?
Ainda a semana passada recebi uma para ir para o estrangeiro. Mas nem as condições financeiras eram boas, nem a segurança do país era boa, e não aceitei. Com a idade vamos tendo capacidade de escolher aquilo que queremos.

O seu filho Tiago entretanto tornou-se empresário de futebol.
Sim, há sete, oito anos. Ele tem uma empresa, a TGC, e trabalha sobretudo a Ásia, África e mercado turco.

Onde é que investiu o dinheiro que ganhou no Vietname?
Não tenho negócio nenhum neste momento. Tem sido gerido. O normal. Vai-se tendo aquilo que se pode.

Olhando para o futebol português, que retrato faz?
Quem viveu tantos anos lá fora tem noção do que é o futebol português em termos de reputação mundial. Depois chegamos aqui e vemos a forma como o futebol português é tratado. Perfeitamente absurdo. Temos os melhores jogadores, os melhores treinadores, os melhores jogadores de praia e de futsal. Repare, um país tão pequeno tem o melhor jogador do mundo de 11, o melhor jogador de futsal, o melhor jogador de praia, seleção campeã europeia.

Quem é que trata mal o futebol português? Os próprios agentes do futebol?
Primeiro, as pessoas que não tem nada a ver com futebol e fazem da sua carreira de comentadores, muitos deles, autênticos coveiros do futebol português. Muito mais o jogo falado do que o escrito. Hoje sabemos que a imagem que se cria na televisão é horrorosa, é ridícula, absurda.

Não corresponde em nada à verdade?
Hipervalorizamos aquilo que de menos bom há e nunca valorizamos o que de muito bom temos no futebol português e essa é uma das grandes questões. Se me perguntar, o jogo em si é bom? Eu diria que é ótimo mediante os orçamentos que temos e o produto que produzimos. O futebol que temos na I divisão, tirando os três grandes e o SC Braga, é de uma extrema qualidade em relação aos orçamentos que se tem. São orçamentos de regional na Inglaterra, em França... E fazemos um futebol de alto nível. Agora se me disser em termos organizativos, em termos de transparência, há muito a melhorar, há sem dúvida.

Somos culturalmente anti made in Portugal?
Nem mais. A marca Portugal ainda não se afirmou, em tudo. Temos confecções do melhor, sapatos do melhor, gente do melhor, mas não valorizamos o que é português, é inacreditável. Na Ásia, que conheço melhor, o futebol português é o paradigma perfeito para esses países. Com 120 mil praticantes fazemos coisas que países com milhões não conseguem fazer. Devíamos ter orgulho no país que temos. Quando ganhei o torneio no Vietname fiz questão em ter a bandeira portuguesa ao meu lado. Quem vive lá fora é que dá valor de facto ao país que temos. Há coisas más? Claro que há. Pode melhorar-se? Claro que sim. Mas aquilo que fizemos merecia mais respeito e muito mais um sentido crítico positivo, que não existe.

Nunca se sentiu tentado ou nunca foi aliciado para ser dirigente na FPF?
Nunca fui convidado.

Aceitava?
Aceitava. Os treinadores portugueses deveriam ter um papel mais importante em termos das decisões do futebol. As decisões são tomadas muitas vezes ou quase exclusivamente por gente que não é do futebol. Na Alemanha, o futebol, em termos de clubes e de federação, é coordenado, dirigido, por ex-jogadores. E é um exemplo.