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A casa às costas

Hélder Cristóvão: “O meu pai era da Unita. Tínhamos uma boa vida em Angola e vim viver para um bairro de lata”

Chegou a torcer pelo Sporting, perdeu um irmão há seis anos, tem dois filhos a jogar futebol e um casamento de 22 anos, mais quatro de namoro. Helder Cristóvão, de 46 anos, fala sobre a passagem pelo Corunha, Newcastle e PSG e, claro, do Benfica, o clube pelo qual diz ter sentido “um chamamento” e onde é treinador da equipa B

Alexandra Simões de Abreu

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Nasceu em Angola. Pode apresentar a sua família?
O meu pai era funcionário ferroviário, também foi guarda-redes durante um período, e a minha mãe doméstica. Éramos três irmãos, com diferenças de três anos entre cada um, eu sou o mais novo. Um dos meus irmãos já faleceu.

Como?
Teve uma leucemia. Ainda conseguiu recuperar mas depois… tinha 46 anos... foi há seis anos. Mas não vamos começar por aí.

Quando é que veio para Portugal?
Em 1974, com a mala de porão. Na altura o meu pai tinha um cargo importante na Unita. E quando rebentou a revolução lembro-me de ele ter chegado a casa, à noite, e de pegar em nós para irmos dormir ao mato, em casa de uma pessoa conhecida. Fizemos alguns quilómetros pelo mato. No dia seguinte ele e a minha mãe foram a casa buscar algumas coisas e fomos diretos para o aeroporto. Lembro-me de haver muitos mosquitos, um calor imenso. Depois passamos dois ou três dias no aeroporto a tentar conseguir uma vaga para embarcarmos. Como devem calcular, não deu para trazer muita coisa. Nós tínhamos uma vida confortável lá. O meu pai tinha algum estatuto. E viemos começar uma vida nova em Portugal, eu com quatro anos, um irmão com sete e outro com dez.

Foram viver para onde?
Na altura, o Estado é que colocava os refugiados e calhou-nos ir para a estalagem Morais, na Ericeira. Ficamos lá dois anos, acho eu; lembro-me que depois fomos para outra casa e fiz a primeira classe na Praia das Maçãs. Como é natural, queremos tornar-nos independentes e o meu pai tentou arranjar casa. Conseguimos uma casa na Abóboda no concelho de Cascais.

O que passaram a fazer os seus pais em Portugal?
O meu pai foi funcionário das bombas de gasolina na Galp junto ao Estádio Nacional, na Cruz Quebrada, durante 14/15 anos. A minha mãe continuou a ser doméstica e fazia limpeza em algumas casas.

Helder com a mãe e os dois irmãos mais velhos

Helder com a mãe e os dois irmãos mais velhos

Era um miúdo calmo ou nem por isso?
Era muito reguila. Tudo o que havia no bairro era o Hélder. Era terrível, quem me vê agora não consegue imaginar o miúdo que eu era.

Terrível como?
Malandro, brincalhão, traquina. Parti vários vidros, vários telhados, entrei por várias casas, tudo o que havia de esquisito ou de inovador no bairro, era eu.

Alguma vez teve um problema maior, com a polícia, por exemplo?
Não. Mas houve uma vez que atirei um pneu por uma ribanceira e foi acertar no telhado de uma casa e foi complicado (risos). Eram tempos diferentes, andávamos muito na rua, jogávamos muito à bola. Mas, curiosamente, os nossos pais sabiam sempre onde nós estávamos.

A bola surgiu aí, na rua?
Sim, no bairro, na Abóboda. Era um bairro de lata, que depois passou a ser um bairro social. Conseguimos fazer a nossa casita, de madeira, com muito custo, junto com alguns familiares, e fizemos ali o nosso bairro. Fomos bastante felizes. Estivemos cerca de 18 anos lá, até eu conseguir ter dinheiro para ajudar. Quando chego ao Benfica as coisas mudam, é um salário alto que dá para ajudar, compro a minha casa, etc.

E a escola?
Era um aluno regular. Gostava muito de português e de história, era bom aluno a essas disciplinas. Escrevia muito bem, gostava muito de escrever, tinha uma letra bonita.

Como é que sai do futebol de rua e passa para um clube?
Tínhamos o campo da Abóboda mesmo paralelo ao bairro e havia lá equipas de futebol de juvenis e iniciados onde já estavam os meus irmãos. Muitas vezes ia para os treinos deles fazer de apanha bolas. Quando tive idade para começar a jogar, com 13 anos, comecei a jogar lá, no Desportivo Monte Real Tires. Devo muito a esse clube e às pessoas que o lideraram durante muitos anos, principalmente ao senhor Vitor Silva. Eles faziam aquilo por gosto. Certificavam-se se comíamos, se tínhamos feito os trabalhos da escola, se tínhamos boas notas, se chegávamos a casa. Nenhum dos miúdos que moravam mais longe ficava pelo caminho, eles faziam voltas e voltas em um, dois carros até os miúdos estarem acomodados em casa. Era um trabalho social muito bem feito e que hoje em dia poucas equipas fazem. Ajudou-me a mim e a outros miúdos do bairro a terem possibilidade de jogar num clube federado. Alguns deles, não o meu caso, a ter uma refeição, a terem cuidado com a escola porque senão no domingo não jogavam. Criou-se uma base de regras que foram importantes.

Esteve lá até quando?
Até aos 16 anos. Depois vou para o Tires, porque o clube não tinha mais categorias. Fiz uma época de júnior muito boa no Tires e surgiu o convite do Estoril Praia. Jogava a extremo direito, marcava muitos golos, era um jogador rápido, diferente, que entrava muito bem em diagonais. Disse ao Estoril que não ia à experiência, que se fosse, era para ficar.

E ficou.
Fiquei. Fiz uma época regular, não fiz uma grande época de júnior porque saltei de uma distrital para o campeonato nacional e tive algumas dificuldades. Era muito franzino. Joguei sempre mas nunca consegui ser tão importante como fui no Tires no ano anterior. Mas tinha qualidade e fiquei.

Foi um ano de mudança.
Foi. Tinha que ir de transportes, comia à noite sozinho. A mãe deixava-me comida preparada, os meus pais acordavam muito cedo, eu chegava, aquecia o que tinha de aquecer, comia e ia para a cama. No dia seguinte, escola. Era a rotina. Ajudou-me a crescer. Quando cheguei ao Estoril senti que era aquilo que queria fazer: ser jogador de futebol. O Estoril na altura tinha muitos jogadores emprestados pelo Benfica, mas entretanto o acordo de empréstimo de jogadores baixou e eles tiveram de recorrer aos jogadores da casa, e eu era da casa. Não comecei logo a jogar, mas é aí que há a mudança da minha posição em campo.

Como é que isso acontece?
Havia dois centrais lesionados, o terceiro castigado e era preciso adaptar alguém atrás. Na altura havia as reservas e nos juniores fazíamos os jogos das reservas. Então num desses jogos, frente ao Atlético, joguei atrás como central. Era rápido, lia bem o jogo. As coisas correram bem, no domingo seguinte jogo para a Taça de Portugal pela equipa principal como central e fui ficando.

Helder no Estoril Praia. É o terceiro em pé, da esquerda para a direita

Helder no Estoril Praia. É o terceiro em pé, da esquerda para a direita

Nessa altura ainda estudava?
Não, já tinha parado. Parei no 11º ano. A vontade já era pouca, começamos a criar expectativas diferentes.

Já ganhava dinheiro com o futebol?
Ganhava pouco. O meu primeiro contrato profissional com o Estoril, tinha 18 anos, foi de 15 contos, em júnior; só me pagavam o passe. Depois, no ano seguinte, houve a renovação do contrato e eu peço uma exorbitância de dinheiro (risos).

Conte-nos essa história.
Fui sozinho. O meu pai sempre me deu liberdade para decidir as coisas que eu queria. Tive uma reunião, eu tinha dois ou três clubes interessados, tinha feito uma época boa.

Que clubes eram esses?
Eram clubes que estão neste momento na II Divisão, o Louletano e o Freamunde. Clubes que tinham alguma história e que eu ainda acompanho com alguma atenção. E eu aproveitei isso para fazer algum charme com o Estoril.

Lembra-se de quanto dinheiro pediu?
Acho que foram 200 contos. Passei de 80 para 200. Na altura os jogadores eram mais abertos, falavam mais das coisas (hoje há algum egoísmo ninguém partilha nada, partilha-se mais facilmente nas redes sociais do que com os colegas), e um ou outro abriu-se sobre quanto podia ganhar e tentei jogar. Claro que não foi aceite.

O que lhe disseram?
Que era muito dinheiro, que era já para um jogador com estatuto de I Divisão e nós, na altura, nem estávamos na I Divisão. Subimos três anos seguidos com o Fernando Santos. Da IIB para Divisão de Honra e daqui para a I Divisão.

Hélder com a namorada, sua atual mulher

Hélder com a namorada, sua atual mulher

1991/92 é o ano da I Divisão e da sua afirmação.
Sim, consigo ir à seleção nacional ainda a jogar pelo Estoril.

Quem era o selecionador na altura?
O Prof. Carlos Queiroz. Eu fiz alguns jogos com os sub-21...porque eu era diferente. Eu era um médio ofensivo que jogava a central. Todas as minhas ações tinham um cariz ofensivo. Sempre que ganhava a bola, o meu primeiro pensamento era como ligar o jogo com o meio ou como saltar do meio para a frente. Isso fez alguma diferença na altura. E poucos centrais fazem isso agora, eu acho. Um transporte seguro de bola, o entrar em entrelinhas no meio campo, um passe a procurar já os jogadores mais avançados. Então, eu estava num estágio de sub-21 no Algarve, a seleção principal também jogava lá contra a Holanda, mais uma vez lesiona-se um central e o professor chamou-me.

Foi titular?
Sim e ganhámos 2-0 à Holanda. Mas quando parecia que eu me ia afirmar na seleção, a seleção decidiu, e bem a meu ver, que seria mais benéfico para mim jogar nos sub-21 e fazer um torneio completo do que ir aos EUA fazer um jogo. Fui ao Torneio de Toulon e correu bem.

Depois do Estoril assina pelo Benfica. Quem o convida?
A minha ida para o Benfica passa primeiro pelo Sporting. Fui com o Mário Jorge e o nosso diretor de então, João Lachever, um sportinguista tremendo. e ele acertou tudo com o Sporting. O sonho dele era ter alguém do Estoril no Sporting e ele via-nos um pouco como filhos. Aconteceu uma reunião com o Sporting que corre muito bem, os valores eram muito bons, muito apelativos, saimos de lá satisfeitos. Entretanto, o João Lachever recebe uma chamada do Gaspar Ramos que lhe diz que também gostava de falar connosco. O Lachever diz que já estava tudo fechado, que já tínhamos aceitado. Mas eu disse que gostava de ir ao Benfica para ouvir o que tinham a dizer.

O seu coração sempre foi benfiquista?
A partir desse momento sim, não posso esconder. Porque essa reunião não teve nada de especial, os valores que nos apresentaram até foram mais baixos do que os do Sporting, mas algo me disse que era no Benfica que devia estar. Foi uma coisa muito forte, foi realmente algo de estranho.. Eu quis ir à reunião, o Mário não porque estava tudo acertado com o Sporting e ele é sportinguista de gema. Senti-me tão bem na reunião, não se explicar.

Mas na altura torcia por quem?
Na altura torcia pelo Sporting. A família era toda Sporting. Não sei se torcia realmente ou se era mais para acompanhar o pai que era sportinguista. Raramente víamos os jogos na televisão. Ao vivo então, nunca fui ver nenhum jogo ao vivo do Sporting quando era miúdo.

E decide ficar no Benfica.
Sim. Não sei explicar porquê, era um chamamento, alguma coisa mais forte e a verdade é que tenho esta ligação até hoje. Se calhar era o meu benfiquismo a falar e eu nem sabia. E disse ao Mário que ia ficar.

O Benfica oferece menos que o Sporting?
Sim. Depois a médio longo/prazo era melhor, mas o contrato inicial era menos. A minha vontade prevaleceu acima das outras. Para não fragmentar e ser uma operação conjunta, o Mário aceitou vir para o Benfica, as condições melhoraram ligeiramente e o Estoril conseguiu um acordo superior não só a nível monetário mas de empréstimo de jogadores.

Tinha 20 anos. Já era casado?
Não, mas já namorava a minha atual mulher, a Margarida, companheira de uma vida.

Começou a ganhar mais dinheiro nessa altura. Qual foi a primeira compra mais avultada?
Comprei um apartamento no Cacém. Antes já tinha comprado um carro, com o dinheiro do Estoril, um Opel Corsa GT 1400, em segunda mão.

Foram quatro épocas e meia no Benfica.
A minha entrada no Benfica trouxe qualquer coisa de diferente. Na altura regressam ao Benfica o Mozer e o Samuel; havia também o Paulo Madeira, o William e eu. O Rui Bento tinha trocado com o Samuel, o Samuel veio e o Rui foi para o Boavista. Portanto, eram cinco centrais, a contar comigo. Quatro já tinham jogado no Benfica. Lembro-me na conferência de apresentação de ter dito que ia lutar pelo lugar até porque já era internacional A. Depois, há um estágio na Suécia, com duas equipas que treinavam e jogavam a horas diferentes. Era a altura dos miúdos Rui Costa, João Pinto, Mário Jorge, muita gente nova, e fui chamado para jogar, à tarde, pela equipa principal. O treinador era o Tomislav Ivic. Eu era um dos centrais da equipa B da pré-época. Fui jogar, ao lado do Mozer, as coisas correram lindamente e nessa época só perdi um jogo, em 34 fiz 33, fui o jogador mais utilizado no campeonato e foi sempre a subir.

Desses tempos do Benfica que treinadores apanhou?
Tomislav ivic, Toni no segundo ano em que somos campeões, e, por fim, o Paulo Autuori.

Qual foi a sensação de ganhar o primeiro campeonato?
São sensações irrepetíveis. Cada título tem uma história. Senti que foi uma subida a pulso, ponderada, sem euforias, sempre muito equilibrado. O meu percurso no Benfica juntamente com a seleção nacional ia moldando uma personalidade que ainda mantenho: um jogador de grupo, simpático, pessoa afável. Por onde passei acho que foi essa marca que deixei.

Nunca esteve envolvido numa confusão? Nunca perdeu a cabeça?
Já perdi a cabeça. Eu sou um falso calmo. Quando estou do outro lado sou de exageros. Por detrás desta calma toda há outra personalidade...até chego a assustar quem está próximo.

Como assim?
Quando me enervo ou quando passo para o outro lado, é um lado muito chato, muito agressivo. Tenho que estar controlado.

Como controla isso?
É não entrar nesse lado (risos). É não me fazerem chegar a esse lado.

O que é que o faz chegar a esse outro lado?
Muitas coisas. Injustiças... Muitas coisas que hoje em dia consigo controlar muito melhor. Mas é um lado chato e agressivo.

E alguma vez a coisa deu mesmo para o torto?
Não. Uma vez ou outra estive quase, mas não.

No futebol ou fora?
Fora do futebol. No futebol não. No futebol... aprende-se a estar, a lidar, e os anos de balneário vão-nos moldando. Todos os dias chega gente nova, com personalidades diferentes, há que saber aceitar e lidar. E eu tenho uma coisa boa, consigo facilmente detetar personalidades. Tem sido uma das mais valias como treinador, detetar a personalidade das pessoas muito rapidamente, e saber como se consegue entrar, ou não entrar, porque às vezes é melhor não entrar nelas.

E entrar no seu íntimo, é difícil?
É um bocado. A minha mulher conhece-me muito bem.

Estão casados há muitos anos.
22. Mais quatro de namoro, são praticamente 26 anos juntos. Tivemos obviamente as nossas crises, mas nunca nenhuma muito profunda.

Tem dois filhos.
Sim, dois rapazes, o Flávio de 20 anos e o Gabriel, de 14. Qualquer dia sou avô (risos).

Desses tempos do Benfica houve alguma amizade que tenha ficado para a vida?
Várias. Dava-me muito com o João Pinto. Noutros anos, com o Dimas, que é um amigo que ficou, o João menos. Mantenho uma amizade forte com o Dimas, com o Paulo Madeira também, o Kenedy. Depois no Corunha e no PSG com o Pauleta. Também tenho uma empatia boa com o Nuno Gomes. No Corunha privei muito com o Nuno Espírito Santo. Tornámo-nos família, ele é padrinho do meu filho, eu sou padrinho da filha dele.

Helder no Benfica. É o quarto jogador em pé, da esquerda para a direita

Helder no Benfica. É o quarto jogador em pé, da esquerda para a direita

A passagem pela seleção resume-se ao Euro 96, Mundiais nada.
Eu tive uma lesão gravíssima em que estive um ano e meio sem jogar.

Quando estava no Corunha.
Sim, em 1997.

Quem é que o leva para o Corunha?
O José Veiga. Meu empresário de longa data. Temos uma caminhada juntos. Curiosamente, um dia depois de ter assinado pelo Corunha, liga-me um empresário a oferecer-me o Real Madrid.

Não foi porquê?
Porque fui muito bem recebido no Corunha, apesar de ter sido um choque. Saí do Benfica com umas condições que na altura já eram de excelência, e o Corunha apesar de ser um clube com muito dinheiro, só tinha o campo. Não tinha um centro de estágio, não tinha nada. Era um clube de II Divisão que ficou na I Divisão e não foi campeão por um ponto ou um golo. E eu chego e... estão lá Mauro Silva, Martín Vazquez, Songo’o, Begiristain, Mickael Madar, Flávio Conceição, Naybet, uma equipa que hoje em dia valia muito dinheiro... E chega-se ali e não tinha nada, era um prego a fazer de cabide, a roupa vinha enrolada. Foi um choque. A geração de 1996/97 e1997/98 do Corunha foi muito importante não só para os títulos que ganhou, mas também para as condições que o clube tem hoje.

Fizeram exigências?
A diversidade de culturas e de países naquele balneário fizeram com que houvesse reclamações todos os dias. Eles tiveram que andar depressa. E o Corunha cresceu muito rápido devido a todos estes jogadores que tinham contratado e que estavam habituados a um certo conforto que lá não havia. Não havia trabalho suplementar, não havia roupa para trocar, vínhamos no autocarro todos ensopados, fazíamos 2 km para ir treinar e para regressar ao balneário. Quando saí do Corunha o clube já tinha condições boas para um clube da I Divisão.

Quando aparece a proposta do Real Madrid não se sentiu tentado?
Claro que sim. Falei com a minha mulher na altura, mas era trocar o certo pelo incerto. Era um telefonema, não havia um contrato. Era abandonar algo que já estava assinado.

Não se arrepende?
Não, não se pode arrepender daquilo que não se fez. Foi uma decisão ponderada.

Helder com a Taça de Portugal, em 2004

Helder com a Taça de Portugal, em 2004

Essa lesão que o afastou tanto tempo, aconteceu quando?
Na minha primeira época no Corunha. Foi no tendão rotuliano, um choque com o nosso guarda-redes, num jogo para a Taça da Liga Europa, na altura Taça UEFA. O piton bateu-me no joelho e a partir daí estive muito tempo parado. Jogava, parava, jogava parava, doía, criou um desconforto no tendão que acabou por enfraquecer, fui operado três vezes.

Porquê?
Enquanto o tendão estava sólido fomos operando à volta e na minha última recuperação tive uma ruptura parcial do tendão rotuliano, partiu. Fui operado em Barcelona e quando o médico me disse que eram oito meses… Foi muito duro.

Onde e como recuperou?
Depois das primeiras operações vim recuperar a Portugal. Na última já não me deixaram vir. Estive dois meses sozinho em Barcelona. Internaram-me um mês no hospital com uma equipa que recuperava o Barcelona, no mês seguinte já estive num hotel. Era recuperação todos os dias. Depois ganhei medo e não conseguia desbloquear o joelho, tive que levar epidural para adormecer o lado esquerdo e assim poderem manobrar a perna à vontade e trabalhar sem dor. Fiquei com o cateter nas costas durante quatro ou cinco dias e só assim é que consegui passar dos 120 graus. Sem isso não conseguimos correr, coxeamos.

A sua mulher esteve sempre consigo?
Em Barcelona não, o nosso filho era pequeno, mas acompanhou-me sempre para todo o lado.

Como foi a adaptação a Corunha, à língua, costumes?
Corunha é uma cidade fácil.

A sua mulher deixou de trabalhar para o acompanhar?
Sim, ela era vitrinista. Acho que foi uma opção boa.

Quando recupera é emprestado ao Newcastle, porquê?
Como só ia recuperar no final de setembro, se fosse inscrito ia ocupar uma vaga no plantel e eles propuseram não me inscrever. Aceitei e como a janela de Inglaterra estava aberta...Foi com alguma surpresa que recebi uma chamada do Sr. Bobby Robson a convidar-me para ir para o Newcastle. Fiquei espantado, vinha de uma lesão e vou para o campeonato mais competitivo do mundo, era um desafio terrível.

Mas aceitou.
Aceitei porque era a chamada de quem era, uma referência. Cheguei lá, faço um período de adaptação sozinho. Outro choque, clube bom, grande, mas a cidade muito fria muito escura. Na altura já éramos obrigados a tomar o pequeno almoço no clube às 8h30, treinávamos às 10h, tínhamos que almoçar todos juntos e só por volta das 15h é que tinhamos ordem para sair. E quando saiamos já era escuro, noite cerrada. Mas foi um período bom, porque quando chego o clube estava em último lugar, também tinha quatro centrais que tinham sido contratados a peso de ouro, e apesar de chegar de uma lesão, estar oito meses sem jogar, sou chamado.

Para substituir algum deles?
O central Franck Dumas estava castigado, o Marcelino lesionado, tinha que ir para a guerra sem estar adaptado ainda. Jogámos com o Tottenham em casa, não tínhamos conseguido nenhuma vitória; curiosamente, nesse jogo, ganhámos 2-0 e fiz um excelente jogo. Lembro-me que o homem do jogo foi o Alan Shearer porque marcou e o Bobby Robson na conferência de imprensa, insurgiu-se dizendo que o prémio de “man of the match” teria de ser entregue a mim, porque vinha de um período tão grande sem jogar e quando apareci fiz um jogo muito bom. No dia seguinte, no treino, ele vem ter comigo e diz-me: “Filho, criaste-me aqui um problema. Mas eu resolvo, não te preocupes que eu resolvo".

E resolveu?
Resolveu. A forma dele resolver foi começarmos a jogar com três defesas centrais. E fomos a Aston Villa ganhar, e tivemos um período de vitórias boas que ajudou a criar um bom ambiente. E eu, curiosamente, fui o elo de ligação, porque quando cheguei aquilo estava um bocado partido.

Como assim?
Eram os ingleses e escoceses de um lado, contra espanhóis e franceses do outro. Eu não excluo ninguém, tento criar formas de comunicar com as pessoas e o meu inglês de base era bom, por isso tornei-me um elo de ligação entre estrangeiros e ingleses. Lembro-me que eles faziam almoços e jantares regulares, e na segunda semana eu fui convidado pelo Alan Shearer, na altura uma referência do clube e da seleção. Os espanhóis nunca tinham sido convidados e ficaram chocados, perguntaram como tinha conseguido. Respondi que se calhar eles nunca falaram com os ingleses (risos). Fiz essa ponte. Primeiro fui eu jantar e no segundo já consegui que fossem os franceses e os espanhóis e começámos a ir todos.

Helder no Newcastle

Helder no Newcastle

Que mais histórias tem de Newcastle?
Em Newcastle quando ia aos supermercados via sempre muita carne e pouco peixe. Aquilo fazia-me confusão, porque se havia mar, tinha que haver peixe. Fui fazendo perguntas e lá me aconselharam a ir a Whitley Bay, que ficava a 50 km. Fui com a minha mulher e para espanto meu encontrámos uma praia lindíssima, que passámos a frequentar, e uma zona com vários mercados de peixe. Comprei o peixe, tinham douradas, robalos, e lembro-me de ter levado para os franceses e espanhóis, um peixe para cada um, porque eles falavam muito no peixe. Mais uma vez ficaram espantadíssimos. Como é que eu tinha comprado o peixe? Tive que lhes dizer: “Então vocês estão aqui há um ano e eu há apenas um mês e não sabem onde ir comprar peixe?”.

É uma pessoa curiosa e comunicativa.
Sim, gosto que as pessoas se sintam à vontade comigo.

E com Bobby Robson tem alguma história?
Muitas. Ele era uma pessoa muito boa, um gentleman mesmo. Como fui emprestado, eles queriam ficar comigo mas também não queriam pagar o valor que na altura o presidente do Corunha queria. Agarraram-se à minha lesão e criámos ali uma história, tudo combinado comigo como é óbvio. Ofereceram-me um contrato de três anos, aceitei logo, era muito bom, fabuloso. Então criámos um relatório médico, eu não fiz os últimos três jogos pelo Newcastle, premeditado, para quando o relatório médico chegasse ao Corunha fosse no sentido de “ele tem um problema de lesões, não sabemos como será isto para a frente, mas mesmo assim queremos ficar com ele”. Só que eu tinha jogado sempre, menos aqueles últimos três jogos e o presidente do Corunha não foi na conversa. Disse: “Ele que venha, que faça a pré-época e depois logo vemos”. Eu cheguei em condições, fiz uma pré época muito boa...

Na seleção, Helder é o terceiro em pé, da esquerda para a direita

Na seleção, Helder é o terceiro em pé, da esquerda para a direita

Teve pena de não ter ficado em Inglaterra?
Tive muita pena. Fui escolher casa, carro, colégio para o miúdo... o contrato era muito bom, ainda hoje era um bom contrato. E foi o único clube nestes anos todos que me mandou um convite formal assinado pelo Bobby Robson e pelo presidente. Um convite à séria que dizia: “Venho por este meio convidar Hélder Cristóvão para se apresentar junto do Newcastle no dia tal, tal, a fim de fazer parte do plantel…”. Ainda o tenho guardado. Nestes anos todos nem do Benfica recebi um convite desses, nem no Corunha, que era por telefone: “Eh pá, tens de lá estar no dia tal”. Ali não. Gostava muito de ter ficado até pelo campeonato em si, era muito duro mas dá um prazer enorme jogar.

É o melhor?
É diferente. Nem melhor nem pior. O campeonato espanhol é muito belo, exprimes-te em termos futebolísticos de forma diferente, mas o respeito que há em Inglaterra, o carinho que as pessoas te demonstram na rua, o respeito que eles têm pelo profissional de futebol...

Entretanto regressa ao Corunha.
Faço mais dois anos e no último ano tenho hipótese de renovar, mas não quero, porque tenho assinado contrato com o Atlético de Madrid. Na altura era o Paulo Futre o diretor desportivo, assinei um contrato bom, mas só eu é que assinei (risos).

Como assim?
Porque na altura eles mandaram o Gil y Gil, o filho, e o Futre mandou-me o contrato para eu e o Miki Fehér assinarmos. Mas na altura o Futre tinha 18 jogadores para dispensar. Entretanto, não conseguiu colocá-los todos e disse-me que não podia tornar efetivo o contrato. Não ficámos. Havia a hipótese do Benfica, mas até ao Benfica ficaram muitos clubes ficaram para trás (Ajax, Shakhtar, Olympiakos), que foram tentando nessa janela de verão que eu fosse.

E não foi porque?
A janela já estava a ficar muito apertada, o Benfica na altura já tinha começado a treinar, eu como era jogador livre podia esperar mais um bocado, mas queria começar a treinar e jogar, e na altura o Veiga disse-me que não me preocupasse que tinha sempre a hipótese do Benfica. E assim foi. Trazia um plano, mas não foi respeitado.

Que plano?
Eu queria jogar fora, mas se voltasse para o Benfica queria ficar no Benfica. Ponto. Não queria sair mais do Benfica. Vinha com 31 anos e queria ficar. E o ficar é: jogar, ter um cargo, fazer por merecer um cargo. O Benfica fez dois anos de contrato mais um de opção. Não me senti muito valorizado, sinceramente, mas queria vir. Lembro-me de que quando voltei, disse que queria ser uma referência do Benfica.

E acha que conseguiu ser?
Sim. Tenho dois anos muito bons no Benfica. Tanto com o Jesualdo Ferreira como com o Camacho. Ajudei muito o Benfica nessa altura, ao nível do balneário, porque o clube estava sem referências lá dentro. Lembro-me que o capitão na altura era o Drulovic [que fora jogador do FC Porto].

E no ano seguinte há a célebre conversa com o Simão Sabrosa por causa da braçadeira de capitão, que foi filmada...
... Faz parte do passado. O Simão pode ter a sua parte de razão porque acho que alguém no clube lhe prometeu que ia ser capitão. Do outro lado havia os jogadores que queriam que eu fosse capitão. Entre a vontade de alguém do clube, que não sei quem foi, e a vontade dos jogadores, o Camacho decidiu fazer uma votação. e nessa votação foi decidido que seria eu, até porque eu já tinha estado no Benfica, já tinha sido capitão antes de sair do Benfica, e tinha uma história no clube. Mas por outro lado, ele era o melhor jogador do clube na altura, e eu disse-lhe isso.

Mas o Simão não gostou da decisão da votação.
Custou-lhe a entender, mas depois respeitou. Temos uma relação tranquila, de respeito, sem ressentimentos de parte a parte. Ambos queríamos ser o mesmo, ninguém pode esconder. A história foi empolgada por causa das imagens de televisão. Só isso.

No Deportivo da Corunha. Helder é o primeiro em pé, à esquerda.

No Deportivo da Corunha. Helder é o primeiro em pé, à esquerda.

Dizia há pouco que queria acabar a carreira de jogador do Benfica, mas isso não acontece. Porquê?
Porque quando ia para o 3º ano de contrato o clube muda de diretor desportivo e abdica de mim para ficar com Argel, Alcides, Ricardo Rocha e Luisão. Eu era o 7º jogador mais utilizado pelo Benfica na altura, tudo o que era convocatórias para jogo o meu nome estava lá. Estive em todos os jogos, sempre disponível, por isso estranhei. Custou-me abandonar o Benfica e surge a hipótese do PSG. Entretanto já tinha começado a tirar o curso de treinador.

O Pauleta teve papel importante na sua ida para o PSG?
Sim, teve. Deu boas referências.

Foi com a família?
Não, para Paris fui sozinho.

Sabia francês?
Tinha um professor, que tinha uma forma peculiar de ensinar. Era com as coisas do dia a dia. Ia para minha casa e enquanto eu cozinhava ou preparava qualquer coisa. ele queria que eu falasse em francês, que dissesse o que estava a fazer em francês. Um dia perdemos a noção das horas e quando dei por mim faltava meia hora para o treino começar. Fui a correr para o carro, ele disse que ia comigo, às tantas apanhámos trânsito no centro de Paris. Comecei a dizer asneiras, em português. Ele vira-se para mim: “diz asneiras mas em francês, em francês” (risos)

É mais difícil estar sozinho, sem a família?
É. Mas na altura em que fui, tinha 33/34 anos, já fui muito focado, a prioridade era o futebol, tinha uma vida tranquila e consigo atingir um nível físico fantástico. Muito também por força do hábito alimentar dos franceses, muita água, cortam muito no açúcar, consomem muitos produtos naturais, muitas saladas. Acho que foi o ano que mais trabalhei na minha vida (risos). Faço um ano engraçado, não foi um ano bom na minha perspectiva, choquei com o treinador.

Quem era?
Vahid Halilhodzic. Logo na primeira reunião que teve comigo disse que me tinha contratado para ser o terceiro central. Uma pessoa muito dura, muito frontal, e eu com 34 anos com um percurso no futebol gigante... Chocamos pela minha frontalidade também e por estar num patamar futebolístico diferente. Acho que o ajudei também na sua carreira.

Como?
Ele ajudou o clube num ano de transição e dão-lhe mais um ano de contrato. Mas ele era uma pessoa boa no imediato, a longo prazo ninguém consegue trabalhar com ele. Ele agora está num formato de seleção que é o ideal para ele, porque é de mês a mês. Porque todos os dias, ninguém consegue.

Mas porquê?
É demasiado rigoroso, demasiado ele, as ideias dele são as ideias dele. As coisas começaram a correr mal e muita gente queria que ele se fosse embora. A uma certa altura, até me deu pena dele. Lembro-me de o encontrar no centro de Paris e ele convidar-me para tomarmos um café. A atitude dele foi muito diferente da de treinador. Apercebi-me que ele tinha uma vida social fantástica, era carinhoso, mas criou uma capa como treinador de duro. E acabei por sentir necessidade de o ajudar. É quando tenho uma intervenção junto dele perante o grupo.

Conte.
Tivémos um ciclo de cinco ou seis derrotas seguidas em que tinha de haver mudanças e ele não mudou. Jogássemos bem ou mal, ele não mudava o plano dele. O barco afundou-se. Nos primeiros dois meses, a casa estava a arder, com acusações de todos os lados. E um dia, numa palestra, pedi ao Pauleta para traduzir porque o meu francês era pouco, expliquei-lhe o porquê daquilo não estar a funcionar na visão dos jogadores. Ele fixou com um olhos enormes, virou-se para o Pauleta e perguntou: "Tu és capitão porque nunca me disseste isto?". E a partir daí ele muda ligeiramente, mas não o suficiente. Ele era demasiado rígido. Não sabia lidar com as diferentes personalidades. E depois ele saiu e eu tive a hipótese de ir para a Grécia - e fui.

Para o Larissa.
Sim. Vou por intermédio de um colega do Newcastle, Nikos Dabizas. Ele sugere o meu nome porque tínhamos feito dupla no Newcastle.

Como é que foi impacto com a Grécia e os gregos?
Uma cultura diferente em que eles querem viver a um nível superior do que aquilo que se calhar conseguem. Muitas horas no café, muitos acessórios. Eu dava por mim no café, coisa que nunca gostei, mas ali não se fazia outra coisa. Têm cafés de luxo, esplanadas lindíssimas para onde iam todos, o presidente, o diretor desportivo, jogadores, treinador, as equipas de basquetebol...não queriam treinar de manhã porque queriam estar no café, chegavam a meio da manhã, almoçavam qualquer coisa lá, depois iam treinar e... depois do treino voltavam ao café...

E a língua?
Muito complicada. Lembro-me uma vez de ter entrado num táxi, dizer ao homem para onde quero ir e ele só olhava para mim e levantava as sobrancelhas. E eu sem perceber nada. Dizia-lhe para ele andar e ele só fazia aquilo. Tive que sair do táxi e perguntar a outra pessoa o que se passava. Explicaram-me aquele gesto, quer dizer "não". Ele tinha outra chamada e queria ir para outro sítio, mas em vez de falar só fazia aquilo.

Só fica uma época na Grécia.
Eu tinha mais dois anos de contrato, mas eles pediram-me para ter uma reunião comigo e disseram-me que não conseguiam pagar os valores dos anos seguintes, porque o clube estava em crise. E eu, burro, em vez de dizer desenrasquem-se, como o apelo a Portugal por causa da família era cada vez maior, abdiquei dos dois anos de contrato em vez de baixar valores e ficar por tuta e meia.

No PSG, Helder está em pé, no meio

No PSG, Helder está em pé, no meio

E decidiu pôr fim a carreira ou ainda tentou ir para algum clube?
Aí pus fim à carreira.

Foi uma decisão difícil?
Foi. Mas eu falava muito com o Fernando Santos que na altura também estava na Grécia e sabia que havia a possibilidade de ele ir para o Benfica. Ficou combinado que se ele viesse para o Benfica trazia-me como adjunto, porque eu conhecia a casa, e isso acelerou um bocado o meu processo de deixar a carreira.

Mas isso não se concretizou.
Ele realmente veio para o Benfica, sei que tentou que eu fosse adjunto mas as coisas não aconteceram.

Porquê, da parte do Benfica não o queriam?
Não sei. Só sei que não entrei como adjunto nessa altura.

Ficou magoado?
Não. Ajudou-me a preparar melhor. Fiz o terceiro nível do curso de treinador.

Entretanto criou uma escola de futebol: Central 32.
Central era a minha posição no campo e 32 o meu último número. Criei essa escola no campo da Abóbada onde eu me formei. Uma escola que tem diariamente mais de 100 miúdos.

Era também um sonho, criar uma escola de futebol?
Era um pouco. Mas também para poder devolver à sociedade aquilo que o futebol me deu. A escola começou com um cariz social, ainda faz muito isso, vai no 10º ano.

Estreia-se como treinador principal no Estoril Praia. Como foi?
Fui eu e o Dimas. Ele foi desafiado para criar condições para o Estoril Praia voltar a competir na I Divisão, com um projeto paralelo com a Traffic, em que o Dimas dava a cara como gestor do clube, da parte desportiva. Ele elegeu-me como treinador e entrámos os dois nessa aventura. Partimos os dois para o Brasil para escolher jogadores, um está no Benfica, o Jardel. Criámos uma equipa nova, condições novas, era um projeto que exigia alguma paciência, mas entretanto a direção decidiu não continuar connosco. Há razões que conhecemos e outras que não conhecemos.

Teve a ver com resultados?
Não. Temos duas derrotas, três empates em cinco jornadas, para um clube que está em espera... não é por aí. Havia outras coisas. Deixou alguma mágoa, porque tínhamos condições para fazer um bom trabalho. Não é fácil trazer 16 jogadores brasileiros e pô-los a jogar juntos, dar-lhes um modelo de treino e de jogo. E pronto, é a primeira experiência como treinador. Fico sem treinar um ano, recebo a chamada do Carlos Azenha que não me conhecia mas tinha ouvido falar bem de mim. Ele ia abraçar o projeto Portimonense na segunda metade do campeonato, substituindo o Litos. Foi uma experiência que me serviu muito: ver o lado da I Divisão como treinador-adjunto. Não conseguimos salvar o clube na altura mas deixamos trabalho feito. No final da época disse ao Carlos que queria ser treinador principal, nem que começasse mais abaixo e que por isso não continuava a trabalhar com ele.

Helder é treinador da equipa B do Benfica

Helder é treinador da equipa B do Benfica

Tiago Miranda

Como é que surge a ligação ao Benfica?
Não sei se foi num almoço do Benfica...eu falo com o presidente e perguntou se havia possibilidade de voltar e ele diz-me que poderia haver hipótese ou na equipa B para ser adjunto do Norton de Matos ou treinar os juniores e juvenis. Fiquei com alguma expectativa que essa chamada pudesse acontecer. Aconteceu, mas para dizer que não, não seria possível na altura. Compreendi. Entretanto, a pedido do presidente, tive uma reunião com o Domingos Soares de Oliveira, na SAD, para explicar o que queria; uma reunião de trabalho. Lembro-me de ter sido convidado para o gabinete de scouting. Recusei. Acho que essa recusa mostrou alguma personalidade, não aceitei entrar no Benfica a todo o custo. Esperei o meu momento.

Que acontece quando sai o Norton de Matos.
Sim. E já vou na 5ª época.

Está a gostar da experiência?
Muito.

Ambiciona mais?
Todos nós ambicionamos mais.

Mas qual é o seu sonho?
Não tenho sonhos, tenho objetivos. Nesta altura, sonhar já não é muito producente.

Então, qual é o objetivo?
É num curto prazo treinar um clube de I divisão que dê garantias. Mas terá que ser sempre em consonância com o Benfica. Porque temos de ter os pés bem assentes na terra e saber quem nos ajudou e quem nos está a ajudar.

Quando diz curto prazo, significa o quanto tempo?
Não sei. Às vezes, no futebol ,o curto prazo é já ou é daqui a cinco anos. Não tenho pressa. Estou tão bem, faço aquilo que gosto.

Do que gosta mas enquanto treinador, é do campo, de treinar a tatica e tecnica ou é o gerir o balneário?
Gosto do processo de treino. Criar o treino, reproduzi-lo em campo, e depois, no jogo, perceber que está a sair.

Como se prepara para criar esses treinos? Saem da sua cabeça ou vai "beber" a algum lado?
Houve alguém que disse, e bem, que os treinadores são uns ladrões. Julgo que foi o Guardiola. Eu tenho uma grande base de treinos, a ver jogos. A ver jogos de futebol consigo criar treinos. Depois temos a base do curso de treinadores e temos uma equipa técnica, em que cada um tem a liberdade de trazer exercícios para dentro do grupo. Agora, há um modelo de jogo criado por mim. O que é que imagino no meu Benfica? Imagino um lateral a fazer isto, um médio a fazer aquilo...e depois tu vais beber do que se passa na equipa principal. Temos que agarrar no histórico da equipa principal, ver alguns comportamentos de sucesso e tentar integrá-los dentro do modelo da equipa B.

Tiago Miranda

Já lhe passaram muitos jogadores pelas mãos, qual o marcou mais?
Mesmo jogadores que neste momento não são falados marcam-nos. Tenho uma relação boa com muitos jogadores. Agora se formos falar em termos futebolísticos, se calhar o jogador com mais qualidade, foi o João Cancelo. Quando cheguei ,fui avisado e tive sempre algum cuidado com ele.

Foi avisado de quê?
Quando cheguei disseram-me logo: "Cuidado com o Cancelo que tem um feitio, uma personalidade, é daqueles gajos que hoje está bem e amanhã vira-se". E tu quando olhas para o João, ele realmente trazia tudo e mais alguma coisa do que me tinham dito. Foi um jogador que deu muito trabalho no dia a dia, no comportamento. É um miúdo fantástico, mas que viveu experiências pessoais traumáticas e dramáticas, como a morte da mãe... e ele ia no carro. Viveu momentos muito difíceis e eu pensei: eu vou entrar neste tipo, vou conseguir que ele se integre no grupo e seja mais um.

Conseguiu?
Nem sempre. Mas, no fundo, quando ele sai da equipa B, quando o vejo no Inter, acho que tenho esse trabalho conseguido. Falamos algumas vezes. O João foi um desses casos. Agora, modificar jogadores, a posição, tenho vários. Já chorei no balneário com jogadores, com um em particular com quem ainda falo regularmente ainda hoje. Ele passou por um depressão, coisas com grande impacto na vida social dele e que podia ter acabado mal. Neste cinco anos passaram tantos jogadores, tantas personalidades.

Tem algum treinador que seja uma referência?
Fernando Santos. Não pelo que me ensinou taticamente, não porque tenha uma beleza estética do jogo, mas porque foi o primeiro treinador profissional que tive. Foi ele que meu deu a cartilha de comportamentos, como é que nós devemos comportar-nos no profissionalismo. E ele era uma pessoa muito dura também. O meu comportamento no treino vai muito ao encontro daquilo que procuro dentro de um rigor e exigência profissional. E cada vez mais.

Está cada vez mais exigente e duro?
Essa exigência tem a ver com a segurança. Acho que estou cada vez mais seguro naquilo que faço e quando assim é tornamo-nos mais exigentes, mais atentos aos pormenores, não dás tanta importância o feedback. Quando começamos uma carreira queremos sempre feedbacks positivos, é tão bom! Hoje não me interessa para nada que um jogador me diga que o treino foi bom. Eu sei que foi bom.

Como é que ao longo da carreira foi reagindo às críticas?
Não sou muito saudosista. Se tenho meia dúzia de recortes de jornais é muito. Não guardo nada.

Mas como reagia à critica negativa, ficava chateado?
Logo. Mas também sabia fazer autocrítica. Só que, é claro, sabia bem olhar para o jornal e ter nota 7 ou 8.

Ou seja, quando alguns jogadores ou treinadores dizem que não lêem os jornais e não vêem programas de televisão sobre futebol...
...Toda a gente lê jornais, acompanha classificações, toda a gente dá um olhinho. Uns mais que outros, vamos selecionando o que vemos e o tempo que devemos ver.

Nunca teve um período de euforias, de saídas à noite...
...de borgas? Não, nunca fui de grandes borgas, nem nunca fumei. Tranquilo.

Nunca pregou partidas?
(risos). O Caniggia uma vez levou com um balde de água na cabeça, no antigo estádio da Luz.

Porquê?
Porque ele, coitado, tinha o cabelo super fraco e evitava lavar a cabeça. Acho que só lavava uma ou duas vezes por semana porque estava a fazer um tratamento. Um dia quando ele foi a casa de banho, como não tinha teto, atiramos dois baldes de água para cima dele. O homem parecia um gato escaldado, ficou danado.

O seu filho mais velho joga futebol, certo?
Sim, está no Mirandela. E o outro está a estudar e a jogar no Casa Pia.

Revê-se no seu filho mais velho?
É diferente. Mas ele está a mostrar personalidade e carácter. Decidiu ir para Mirandela e está lá sozinho, a fazer a vida dele. Deixou de estudar, optou pelo futebol. Decidiu dar o passo em frente e sair da zona de conforto, da casa dos pais, acho que mostra já alguma maturidade e nós estamos a apoiá-lo.