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A casa às costas

“Quando cheguei a Inglaterra, um jornal escreveu logo: 'Fechem as vossas filhas em casa. Chegou o Dani'”

É filho de um professor de filosofia e de uma médica, cresceu em Carnaxide, onde vive ainda hoje, e cedo ganhou fama de playboy. Passou por Inglaterra, Holanda e Espanha, e em Portugal jogou apenas no Sporting e no Benfica. Aos 40 anos, casado e pai de duas filhas, Dani conta-nos como viver a vida “intensamente” sempre foi mais importante para ele do que jogar futebol

Alexandra Simões de Abreu

Luis Barra

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Sabemos que era um miúdo traquina. O que é que costumava aprontar?
O meu pai era professor de filosofia e levava-me à escola, mas eu muitas vezes faltava na mesma porque entrava por um portão e saía pelo outro.

Para ir fazer o quê?
Jogar à bola - e depois quando comecei a crescer para ir namorar. Ou ficava dentro da escola, mas preferia estar a jogar do que estar nas aulas.

Quando e como vai para o Sporting?
Tinha oito anos, estava de férias em Tróia, e o Aurélio Pereira, olheiro do Sporting, viu-me a jogar num jardim e pediu para chamar o meu pai. Eu já tinha ido ao Sporting e ao Benfica para tentar jogar mas como nem oito anos tinha, disseram que era muito novo e para voltar quando tivesse 10/11 anos. Ele viu-me em agosto e em setembro fui às captações. Comecei logo a jogar.

Com essa idade torcia por que clube?
Não tinha grande preferência. Lembro-me de ir ver uma final de uma Taça de Portugal do Benfica ao Estádio Nacional e a maior parte dos meus amigos serem do Benfica e se calhar por aí... mas não tinha nenhuma paixão clubista formada. Depois, quando fui para o Sporting, passei a ser do Sporting pelos valores, pelas pessoas. O meu pai era do FC Porto.

Quem foi o seu primeiro treinador no Sporting?
Osvaldo Silva e César Nascimento. Foi o Osvaldo que me pôs a alcunha de Dani porque eu era muito pequenino e magrinho, tinha oito anos e os outros tinham 10/12 anos. Ele era brasileiro e chamava-me Danizinho. Trabalhei com pessoas maravilhosas no Sporting. Eram autênticos pais, irmãos mais velhos.

Treinava quatro dias por semana e tinha jogo ao fim de semana. Era cansativo?
Muito. Eu estudava em Queluz, saía das aulas, ia para casa da minha avó fazer os trabalhos de casa e depois ia para o treino. Depois do treino tinha que ir para Carnaxide. Muitas vezes custou-me ir treinar, fui assaltado nos transportes públicos, tinha que andar a fugir desse tipo de confrontos. E fartei-me também da falta de tempo para me divertir. Um dia, tinha uns 13/14 anos, disse ao meu pai que não queria ir mais aos treinos. O meu pai: "Então está bem, eu levo-te e dizes ao treinador que não queres treinar". Claro que isso não aconteceu [risos]. Depois de lá estar já não fui capaz. Até porque o que eu queria era ficar a jogar com os meus amigos, a partir do momento em que eu lá estava o chip mudava.

Lembra-se da estreia pela equipa principal?
Contra o Farense. Um jogo da Taça de Portugal. O treinador era o Carlos Queiroz.

Porque é que ele o chamou?
Porque vim do Qatar, onde fui o segundo melhor jogador e segundo melhor marcador da competição, e a partir daí quando cheguei já nem fui para os juniores, fui diretamente para os seniores.

Jogar na seleção era um sonho?
Adorava. Acho que só não conheço a Austrália, viajei pelo mundo inteiro, com 18 anos já conhecia metade do mundo. Entre estágios e competições conheci tudo: Japão, China, a Europa toda... Era extraordinário, éramos 20 miúdos pelo mundo fora e ainda jogávamos à bola [risos].

Tem alguma história do Qatar que possa contar?
Primeiro jogo com as Honduras chegamos ao intervalo a perder por 2-1 e um colega meu, o Carlos Filipe, tinha sido expulso com vermelho direto, aos 30 segundos de jogo. Ele vira-se para mim ao intervalo e diz-me: “Dani por favor, tens que fazer alguma coisa se não a minha carreira acabou, se não eu vou levar três/quatro jogos, fui expulso”. Ele era do FC Porto, provavelmente o que iria acontecer era ser emprestado e acabar a carreira cedo. Na 2ª parte agarro na bola desde o meio-campo e foi até entrar na baliza.

Sentia muitas vezes essa responsabilidade de ter de marcar?
Sentia. Se perguntarem ao Nuno Gomes, ao Beto, aos mais variados colegas que tive, eles sabem disso. Senti muito isso até chegar ao futebol sénior. Ao chegar ao futebol sénior, as coisas já eram diferentes. No West Ham também senti. Aliás eu cheguei com outro jogador, para salvar a equipa da descida de divisão.

Dani começou a jogar futebol no Sporting, com oito anos e só saiu aos 18 anos.

Dani começou a jogar futebol no Sporting, com oito anos e só saiu aos 18 anos.

Quando é que começou a ganhar dinheiro com o futebol?
Aos 15 anos recebia umas ajudas de custo e a partir dos 16/17 anos começámos com os contratos semi-profissionais e depois aos 17 já se ganhava.

Qual o valor do primeiro ordenado à séria?
Nao me lembro bem dos valores mas eram mais de mil contos.

Foi sempre o mais novo das seleções. Quem eram as suas referências?
Na altura do Qatar fiquei no quarto com o Beto. Dava-me muito bem com o Nuno Gomes, com o Diogo Matos, que está agora na Federação, Bruno Caires, Alfredo Bóia... Era uma seleção em que nos conhecíamos já há muitos anos. Eles começaram nos sub-16 e eu nos sub-15, mas passei logo para os sub-16. Dos sub-16 até irmos ao campeonato do mundo do Qatar, foi sempre aquele seleção, a mesma base.

Faziam muitas asneiras?
Claro que queríamos diversão. Nessa altura o nosso frenesim, o nosso desafio era conseguir sair do hotel sem ninguém nos ver ou ir para os quartos uns dos outros jogar às cartas. O treinador às onze horas dizia: “Malta tudo para os quartos, tudo para a cama”. Passados 15 minutos já estávamos naquela excitação de "será que conseguimos sair?". Era aquela coisa "será que vou conseguir fugir, vou conseguir enganá-lo? Sou um grande maluco, vou conseguir". Era próprio da idade.

Como é que faziam para escapar?
Sei lá, de tantas maneiras. Eu punha um papel no trinco nas portas de saída de emergência do hotel. Essas portas abrem por dentro mas se sairmos, não abrem por fora, com o papel estávamos safos. Achávamos um piadão àquilo, eu e os outros. Não podíamos entrar pela receção, não é?

Alguma vez foram apanhados?
Várias vezes. Os treinadores até eram compreensivos. Mas obviamente castigavam e chamavam a atenção.

Como eram os castigos?
Se a gravidade fosse grande podíamos não ser convocados, se fosse mesmo antes dos jogos podíamos não jogar. Mas tinhamos mais ou menos a noção da importância das coisas. Mais ou menos. Era natural com 16 anos não termos ainda essa maturidade.

Era um líder?
Eu? Era, mas do outro lado [risos]. Estava sempre pronto para a brincadeira. A tal noção de estar próximo do abismo e sentir essa sensação era uma coisa...estava sempre pronto para armar qualquer coisa.

Fazia-o para se testar ou para testar os outros?
Não. Fazia porque me dava gozo, pura e simplesmente para me divertir. O futebol não era tudo, era importante, mas não era suposto com 15/16 anos darmos mais importância ao futebol do que irmos conhecer a cidade, de sermos capazes de fugir do hotel e podermos passear. Era natural. Se calhar é bem pior ter esse tipo de comportamento noutras idades.

Aos 15 anos, com a irmã, de férias em Biarritz

Aos 15 anos, com a irmã, de férias em Biarritz

Entretanto é chamado à equipa principal do Sporting.
Chego do Qatar e termino a época na equipa principal. Depois, o professor Carlos Queiroz teve a extraordinária ideia de eu ir passar 15 dias das minhas férias - já só ia ter 15 dias do meu mês de férias que era em junho, quando nenhum dos meus amigos estava de férias porque estudavam -, com o professor Mariano Barreto, no Algarve, a treinar, para crescer em termos físicos, ganhar maior intensidade de jogo e chegar mais forte no início da época. Era treino de manhã, às 8h30, duas horas no ginásio, e à tarde mais uma hora e meia no campo. Claro que não correu bem.

Então?
Eu treinar treinava, mas também ia sair, também ia divertir-me.

A fama de bon vivant não parou de crescer. A determinada altura ganhou dois parceiros, José Dominguez e Sá Pinto.
Nós dávamo-nos muito bem fora do campo. Nessa altura era muito complicado encontrar pessoas com quem tu te pudesses dar bem, fora do campo. Dávamo-nos todos bem no balneário, mas cá fora eu tinha alguma dificuldade em conseguir encontrar pessoas com quem me identificasse e com quem me divertisse.

Essa dificuldade acontecia porquê?
Porque o estilo de vida da maior parte deles era diferente do meu. Os brasileiros gostavam de fazer outro tipo de coisas, havia outros que adoravam Cristo e juntavam-se numa igreja, havia os jugoslavos que tinham também outro estilo de vida, outros que vinham de comunidades pequenas e preferiam ir para casa porque não se sentiam confortáveis numa grande cidade, outros eram caseiros ou já tinham família. Com eles os dois havia maior identificação.

A determinada altura ficaram conhecidos pelos “Três Mosqueteiros”, com grande alusões a noitadas.
Isso aconteceu porque fomos convidados pela Margarida Martins, da Abraço, para fazer um evento. Conseguimos umas bolas assinadas pelos jogadores do Sporting e aceitámos por ela e pela Abraço. Agora tenho pena é que 20 anos depois as pessoas só se lembrem que fomos passar modelos, quando a ideia era entregar a bola para leilão e darmos uma imagem que nessa altura não havia, a favor da Abraço. Mas claro, no que é que se pegou? "Ah, os três são modelos..." É pena.

Mas também faziam noitadas juntos.
Sim, mas não fazíamos quando tínhamos treino, pelo menos eles os dois não faziam, eu uma ou outra vez sim, pisei o risco e tenho a perfeita noção disso, mas eles não. Só se tivéssemos folga no dia seguinte é que eventualmente poderiam ir. O Dominguez já tinha uma relação que ainda dura, o Ricardo também. Só que cada vez que nos viam aos três aquilo era um frenesim louco à nossa volta e parecia que era diário. Ainda por cima éramos divertidos, não fugíamos de ninguém. Muitas vezes vimos outros jogadores escondidos atrás das colunas nas discotecas, a pedir ao amigo para ir ao bar buscar um copo. Eu dizia-lhes: "Mas para que é que vens, para isso, fica em casa!". Não faz sentido. Nós divertíamo-nos, conversávamos com as pessoas, vinham pedir-nos para tirar fotografias e tirávamos, as miúdas metiam-se connosco, tudo próprio da idade. Os outros não faziam? Faziam. Se calhar até faziam pior, pediam a terceiros para ir falar com as miúdas e dizer que eles isto e aquilo. Nós nunca achámos piada nenhuma a isso, não estávamos a fazer nada de mal.

Dani com o equipamento da seleção nacional

Dani com o equipamento da seleção nacional

Nessa altura quando via as notícias sobre si e as suas noitadas, o que sentia?
Uma grande revolta. Sentia muito porque os meus pais, a minha irmã, a minha avó, sofriam com aquilo, doía-lhes muito. Eu vivia com os meus pais na altura, portanto nem sequer poderia andar todos os dias na coboiada como muitas vezes se dizia ou que tinha uma vida assim tão boémia porque os meus pais não deixavam. Eu estudava. Mas magoava-os mais a eles do que a mim. A partir de certa altura desliguei e infelizmente habituei-me a viver com aquilo.

Infelizmente porquê?
Porque acho que não é suposto uma pessoa ter que viver assim. Sim, houve noticias que foram verdade, houve situações que aconteceram realmente, em que pisei o risco, assumo-as todas e não tenho vergonha, agora extrapolar as coisas como muitas vezes extrapolaram era ridículo.

O que é que mais o irritou?
Sei lá, tanta coisa. Uma vez escreveram nos jornais: "Ainda não tinha feito a digestão dos três golos que marcou à Albânia e já os estava a vomitar à porta da Kapital". Não. Eu passei e estava um gajo qualquer a vomitar-se no meio dos carros, nem o conhecia, mas alguém viu-me ali a passar e depois já se sabe, começam os boatos. Na Holanda também disseram que tinha uma discoteca em casa...

... mas aí foi chamada a polícia e tudo.
Eu morava num 9º andar e se andasse mais rápido em casa ou tivesse alguém de saltos a andar em casa, às nove da noite, ouvia-se tudo. Não podíamos ir a casa de banho a meio da noite porque o autoclismo acordava metade do prédio. Tem a ver com a construção deles. A construção baixa e que está no centro de Amesterdão é forte e tem que o ser por causa dos canais. Mas à volta, os prédios altos, aquilo é “papel”. Eu tinha uma mesa de snooker em casa e punha meias nos buracos para a bola quando caísse não fizesse "poc!". Eu jantava às nove da noite e eles as seis da tarde. Os meus horários eram portugueses. Se estivesse a ver um filme então... E o meu primo vivia lá comigo, obviamente que com 18/19 anos a viver em Amesterdão não ia ter amigos e namoradas? Eu saía dos treinos e tinha 300 ou 400 miúdas a pedir-me autógrafos e eram mais giras do que qualquer miúda que eu já tinha visto até aí. Agora imaginem quando ia a um jantar e conhecia outras mulheres, quer dizer, é natural, não houve nada de anormal nestas situações todas. Mas claro que por ser um profissional de futebol e com a imagem que já levava daqui...

Desde muito jovem que Dani ganhou uma legião de fãs

Desde muito jovem que Dani ganhou uma legião de fãs

Antes da Holanda ainda foi emprestado ao West Ham. Porquê, recorda-se?
Perfeitamente. Disseram-me que a minha vida social era muito ativa cá em Portugal. Então fui para Londres [risos]. Virei-me para o meu pai, que era professor de filosofia, e só lhe disse: "Ó pai, nem vou dizer nada, querem que vá para Londres, eu não me vou chatear nada. Mas se calhar em termos pedagógicos... eu aqui vivo com vocês".

E ele?
Não havia outra hipótese, eu já era profissional de futebol, tinha de ir. Mas custou-lhes muito eu ir viver sozinho para lá. E a mim também.

A si?
Sim, nas primeiras duas, três semanas chorava todos os dias, passava horas ao telefone com os meus pais. Eu tinha 18 anos, fui sozinho para Londres, viver num apartamento com dois andares, sem carta de condução - eu vivia afastado do centro de Londres. Senti um grande isolamento e a falta do dia a dia. Eu todos os dias jantava com os meus pais e com a minha irmã. Todos contávamos as coisas que tínhamos vivido durante o dia, tínhamos essa preocupação de mantermos o convívio e trocarmos impressões, darmos a nossa opinião... e de repente estou sozinho em Londres. As duas primeiras semanas ou três custou-me, tinha uma conta de telefone estúpida. E chorava ao telefone até adormecer. Tinha três quartos cá em baixo e não ia para os quartos, ficava na sala com a televisão ligada e a falar com a minha irmã e com os meus pais. Custava-me imenso e ainda me custa agora falar disso.

Mas depois começou a ambientar-se.
Em Inglaterra não era normal teres jornalistas nos treinos e, de repente, aparece um batalhão de jornalistas nos treinos e a maior parte eram mulheres. Os meus colegas comentaram logo no primeiro treino: "Nunca há jornalistas e hoje temos jornalistas e a maior parte mulheres!". Um dos jornais escreveu logo: "Lock up your daughters! Dani has arrived" (“Fechem as vossas filhas em casa. Chegou o Dani”). Depois fui contactado por uma agência de modelos que fazia a gestão de imagem, porque em Inglaterra na altura a imagem dos jogadores já vendia, não era como em Portugal. Lá tinhamos um book feito por eles. Faziam-nos uma entrevista mas pagavam as fotografias para a capa e para dentro com valores diferentes. Construíam e fortaleciam a nossa imagem. Eu como tinha esta imagem de “menino bonito” começaram logo a levar-me às estreias dos filmes, apresentaram-me às marcas, a produtores, a isto e aquilo, e depois, aí sim, é que comecei a viver Londres à séria.

A introdução na vida social londrina, aos 18 anos, foi um convite à “má vida”.
Nas estreias dos filmes eu de repente estava com o Brad Pitt, o Bruce Willis e a Kate Moss ao meu lado. O "Twelve Monkeys" com o Brad Pitt e o Bruce Willis foi a primeira a que fui. Claro que eu tinha de ligar para amigos a contar-lhes. "Eh pá, isto só tem piada se estiver aqui alguém comigo, estou aqui sozinho, por favor alguém que venha ter comigo que ninguém vai acreditar nisto". [risos]. Nem eu às vezes acreditava no que estava a acontecer! Achava um piadão aquilo, só podia achar, tinha 18 anos. E a seguir havia aquelas festas com os códigos e aí via essas estrelas a divertirem-se e éramos todos iguais.

Deslumbrou-se?
Sim, um bocadinho. Achei piada estar naqueles sítios, viver aquilo e não ia abdicar obviamente. Por isso tentava fazer as duas coisas, jogar e manter essa vida social.

Daí a fama de chegar tarde aos treinos.
Nessa altura não, porque em Londres acaba tudo muito cedo. Eles jantam cedo, os pubs fecham cedo, não é como aqui em Lisboa que as seis ou sete da manhã ainda há coisas abertas. Além de que eu não ia a todas as estreias nem a todas as festas para que era convidado. Mas havia conhecimentos que vinham dessas festas e que tinham continuidade. Conheci muita gente interessante. Interessante para aquele momento da vida.

Dani, em primeiro plano, num jogo com o V. Setúbal

Dani, em primeiro plano, num jogo com o V. Setúbal

Não fica no West Ham mais do que uma época.
Entretanto estreei-me na seleção A, numa dupla jornada no Parque dos Príncipes e em Wembley, com a França e Inglaterra, e o treinador disse-me que contava comigo para ir ao Euro-96 que era em Inglaterra, porque eu estava a jogar muito bem no West Ham. Se eu desse continuidade ele levava-me ao Europeu. Fiquei entusiasmado. Só que o West Ham tinha uma opção de compra, mas o preço era variável. Em Inglaterra na altura funcionava como a bolsa, consoante o teu aproveitamento o teu preço sobe ou baixa. Fazia-me uma confusão, parecia um pedaço de carne. Enfim. Quando cheguei eles estavam em 16º em 18 equipas, e depois de eu chegar passámos logo para 7º ou 8º, mas já não havia hipótese nem de ir às competições europeias, nem de descer, faltava um mês e meio para acabar a temporada. Nessa altura lembro-me que fomos uma semana para o sul de Espanha, num estágio, em que eles passavam o dia a jogar golfe e a beber cerveja. Fizemos uma corrida ou duas numa semana. E o treinador, Harry Redknapp, teve a lata de me dizer: “Agora vou tirar-te da equipa até ao final da temporada para o teu preço baixar e eu compro-te”. Eu pedi-lhe para não me fazer isso porque tinha a hipótese de ir ao Europeu e se não jogasse ficava difícil isso acontecer. A resposta dele foi: "Não me interessa, quero lá saber do Europeu e de Portugal, quero é comprar-te e ter-te aqui para a próxima temporada e por isso não jogas mais".

O que fez a seguir?
Aí estalou o verniz. Pirei-me para Portugal, vim embora. Depois o meu empresário, o José Veiga, e o meu pai lá me convenceram a voltar. O Redknapp não se deu bem comigo, nem com o Futre, nem com o Porfírio, nem com metade dos jogadores que treinou. Tem uma imagem péssima. Tem um filho extraordinário, Jamie Redknapp, que foi capitão do Liverpool, mas ele não.

Voltou a Londres e depois?
Voltei, mas já nem olhava para ele, já não tínhamos relação nenhuma. Ele começou a dizer que eu era mau profissional, que fumava, que fazia e acontecia. E aí, eu próprio nem me comportei de acordo com a minha educação e com os meus valores, fiquei realmente chateado com ele porque estava a ver a hipótese de ir ao Europeu, com 18 anos, a escapar.

Mas que é que fez em concreto?
Ia aos treinos porque tinha que ir mas fazia figura de corpo presente. E se ele falasse comigo e pedisse para fazer alguma coisa no jogo das reservas eu não fazia. E se tivesse de faltar ao treino ou chegar atrasado fazia-o. Perdi completamente o respeito por ele.

Dani no meio de colegas da seleção

Dani no meio de colegas da seleção

E vai parar ao Ajax.
Venho para Portugal de férias. Vou imediatamente para os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Mal chego dos JO já nem chego a ir treinar pelo Sporting. Desde o Mundial do Qatar que o olheiro do Ajax andava a seguir-me, só que o Sporting nunca tinha posto a hipótese de vender-me. Até essa altura. Como a minha imagem estava estragada no Sporting e em Inglaterra as coisas acabaram por não correr bem também, deixaram-me sair para o Ajax.

Onde esteve quatro épocas. Gostou?
Foi espetacular viver em Amesterdão, foi espetacular jogar no Ajax, foi espetacular jogar na Liga dos Campeões, com jogadores e homens fantásticos, treinadores também extraordinários. Pessoas com quem ainda hoje mantenho contacto. Vou muitas vezes a Amesterdão a aniversários de amigos, casamentos, às vezes de férias, ver jogos.

O que mais o marcou?
Havia uma compreensão mútua. Havia esta minha contínua procura pelo abismo, pela tentativa de conseguir viver a vida muito intensamente e ao mesmo tempo também ser jogador profissional, que eram coisas difíceis de conciliar mas que eu tentei sempre à minha maneira. Ali consegui. Tive treinadores, como o Van Gaal, que foram fantásticos.

O que sentiu quando Cruijff o comparou a ele próprio?
Claro que era um orgulho enorme, mas eu vivia muito pouco essas coisas e se calhar nem tive a noção da grandeza daquele momento. Eu vivia muito, estava habituado a ter grandes emoções e sinceramente só tive a noção da grandeza dessa comparação mais tarde. Pela reação das pessoas.

Com Emílio Peixe, ao centro, e o professor Mariano Barreto

Com Emílio Peixe, ao centro, e o professor Mariano Barreto

Sente que foi imaturo e irresponsável até tarde?
Sim, claro. É normal, estava a viver a vida a mil à hora. Não tive tempo para compreender aquilo que estava a viver. A minha vida não parava, era sempre a andar, de um estágio para o outro, de um jogo para o outro, estudar, treinar, viver, estar com amigos.

Deixou de estudar?
Sim, quando fui para Londres. Fiz só o 12º ano.

Aprendeu holandês?
Sim. Foi um grande entusiasmo do Van Gaal [risos], que me compreendeu bem e pôs-me a aprender holandês com uma professora lindíssima. É verdade. A equipa tinha vários jogadores estrangeiros, georgianos, nigerianos, dinamarqueses, argentinos, brasileiros - parecia a ONU. Muitos desses jogadores não falavam sequer inglês. Eu falava inglês perfeitamente e compreendia as indicações que o Van Gaal dava no treino e por isso tive alguma dificuldade em querer aprender o holandês. Os estrangeiros tinham uma aula em conjunto com um professor holandês. Só que eu, assim que acabava o treino, almoçava no clube e em vez de seguir para essa aula, pirava-me. O Van Gaal resolveu então contratar uma loiraça para me dar aulas, para eu me entusiasmar com o holandês [risos]. Só que, um dia, ele entra na sala e apanha-nos a combinar um jantar. Saiu a barafustar: “Desisto, eu desisto” [risos]. Acabei por aprender holandês por mim próprio, com as amizades que fui fazendo.

Quem são os amigos dessa altura?
Não são do futebol. Do futebol tenho o Ronald de Boer e o Pierre van Hooijdonk, que depois jogou no Benfica. Com o Ronald tenho uma amizade e há um sentimento forte com o Van Hooijdonk também, mas depois tenho mais três amigos fora do futebol, com quem já passei férias em família e sempre que possível estamos juntos.

Como é que vai parar ao Benfica?
Entretanto entrei numa espiral de lesões. Tive uma lesão no joelho, depois uma hérnia inguinal, só que na altura ainda não era comum operar e a solução era repouso absoluto. Mas eu não repousava, claro. Não ficava em casa fechado e depois tive dificuldade para recuperar. Estive seis ou sete meses parado. Nessa altura saía muito, já conhecia muita gente em Amesterdão. Conhecia toda a gente do mundo da moda, que não tinha nada a ver com o futebol. Da moda e atores, atrizes, músicos, pessoas boémias... Quando eu estava em Amesterdão, entrava já naquela altura um milhão de visitantes por dia na cidade. Era uma cidade multicultural e fascinante e eu vivi muito Amesterdão. Depois chegou uma altura em que eu disse: “Não, não pode ser. Estar aqui a viver e não estar a jogar, não pode ser”.

O que é que lhe fez dar o clique?
O surgimento de lesões que nunca tinha tido. Comecei a não me sentir satisfeito.

Dani com um poster seu dos tempos em que jogava no Ajax

Dani com um poster seu dos tempos em que jogava no Ajax

Nessa altura houve muitos boatos relativamente a drogas.
Isso é Amesterdão. Mas eu era um jogador de futebol, não podia fazer isso. Se eu fizesse isso era apanhado. Como é que é possível um jogador de futebol que faz testes de doping quase todas as semanas consumir drogas? Impossível. Aliás, temos exemplos de quem consumiu e foi apanhado. Não há hipótese, não há como fugir. Agora, vives numa cidade como aquela, dás-te com pessoas que sim, consomem. Dás-te com pessoas com ramos que não têm nada a ver com o futebol, tens uma imagem forte, tens uma imagem boémia, é óbvio que depois fazem esse tipo de ligações.

Não o afetava a imagem que se criava de si?
Claro que afetava, eu sou humano, tenho coração e, volto a frisar, muito pela minha família. O meu pai era professor e aquilo que ao princípio era uma coisa fantástica, todos os colegas “Eh pá, o teu filho marcou golo, é um jogador do caraças”, os próprios alunos sentiam quase uma espécie de orgulho por ter aulas com o pai de um jogador, e, de repente, começa a entrar na escola e começa a ouvir outras coisas. Naturalmente que isso custa e magoava-os a eles mais do que a mim. Eu já estava habituado e sabia aquilo que fazia, portanto... Eu sei que pisei o risco, sei que algumas vezes fui irresponsável, fui imaturo, pouco profissional. Sim, isso aconteceu. Mas também não era como pintavam. E muitas coisas tiveram a ver com a idade e com a velocidade com que a minha vida sempre aconteceu.

Voltando ao Benfica.
Depois decidi voltar para Portugal. O Sporting não me quis, o Benfica apareceu com uma proposta e eu fui naturalmente.

Gostou dessa época no Benfica?
Não. O Benfica estava numa fase muito atribulada, numa fase de transição, depois chegou um presidente novo, o Manuel Vilarinho, que queria construir uma equipa diferente, quis trazer jogadores dele. Também não queria o Mourinho, queria o Toni. Foi uma situação em que entrámos em litígio, mas resolveu-se.

Deu-se bem com o treinador José Mourinho?
Sim, sim, lindamente. Ele vinha do Van Gaal, portanto havia ali um entendimento em termos de ideias e a mensagem que tinha que se passar, que eu compreendia perfeitamente. Foi pena não ter resultado e não termos tido mais tempo para trabalhar juntos. As coisas poderiam ter sido diferentes.

No Sporting, é o terceiro em pé, da esquerda para a direita

No Sporting, é o terceiro em pé, da esquerda para a direita

Foi o Futre que o levou para o Atlético de Madrid?
O Atlético de Madrid era uma paixão antiga do Futre e ele estava como diretor desportivo. Tinham muitos problemas financeiros, havia uma grande dificuldade para o Futre construir uma equipa, desceram de divisão, estavam a jogar pessimamente. O clube estava virado de pantanas, havia uma junta diretiva a tomar conta do clube, não havia dinheiro para pagar aos jogadores. Aquilo estava muito complicado e saíram muitos jogadores bons. Mesmo assim nesse ano, cheguei lá em janeiro e quase subimos. Não subimos por goal average. Eles só tinham feito 11 pontos na primeira volta. Quando cheguei e assinei, fui ver o jogo, eles perderam e os adeptos resolveram destruíram os carros todos. E o meu também! Furaram os pneus, deram cabo da fechadura do carro, rasgaram a capota. Eu cá para mim: “Ainda agora cheguei. Não tenho nada a ver com isso e já me estão a destruir o carro!”

Na segunda época o Futre bate com a porta, não é?
No ano seguinte construímos uma equipa à imagem do Futre, já com outra capacidade financeira, com grandes jogadores, o Demetrio Albertini, o Sergi do Barcelona, eu, Correa.... Tínhamos uma equipa boa, fizemos uma época espetacular, houve ali uns seis/sete meses em que as coisas estavam a correr muito bem. Entretanto o Futre tinha dito ao Gil y Gil que ele não podia de maneira nenhuma intrometer-se no trabalho diário do clube. Mas o homem dizia aquilo que lhe apetecia. Uma vez dá uma entrevista a dizer que “os árbitros são corruptos, nós pagamos aos árbitros, se querem um relógio, eu dou-lhes um Rolex. Se quiserem uma vaca [prostituta], eu dou-lhes uma vaca”. Falava assim para as rádios, para os jornais, para as televisões. Ele e o Futre chateam-se numa entrevista os dois numa rádio, aos berros um com o outro.

E o Futre sai…
E começam outra vez os disparates. O presidente queria baixar os ordenados dos jogadores, queria despedir o treinador e queria ir ele para o banco como já tinha ido há uns anos, em que despediu um treinador ao intervalo e na 2ª parte foi ele para o banco. Eu não aceitei baixar o ordenado e fiquei lá mais um ano, um ano difícil. Ele obrigou o treinador a pôr-me no banco, mandava-me aquecer mas depois não entrava. Quando chegou o final da época decidi deixar de jogar.

Essa decisão foi difícil de tomar?
Não, não foi difícil porque eu estava farto do futebol. Cansado do futebol, cansado destas situações. Ainda para mais foi quando a minha mãe começou a ficar doente, com cancro, e a partir daí eu disse: “Não, não quero mais saber disto. Não é tão importante como isso”.

O que vai fazer a seguir?
Passei o maior tempo possível com a minha mãe. Ia com ela aos tratamentos, estavamos sempre juntos. Foram quase oito anos a lutar contra vários cancros. Ficava bem e depois voltava outra vez. Foi uma luta muito difícil.

A morte da sua mãe foi o golpe mais duro da sua vida?
É um golpe de que nunca vou recuperar. Isso sim, é uma revolta diária.

Dani enquanto jogador o Atletico de Madrid, a disputar a bola com Zidane

Dani enquanto jogador o Atletico de Madrid, a disputar a bola com Zidane

Como vai para comentador da TVI?
Durante esse tempo eu e a minha mãe falámos muitas vezes sobre aquilo que eu poderia fazer e é ela que me incentiva a trabalhar em televisão. Como eu felizmente já conhecia o Joaquim Sousa Martins, falei com ele e aconteceu. Sou comentador da TVI já há sete ou oito anos.

E gosta?
Amo trabalhar em televisão. Adoro, adoro.

Entretanto casa-se.
Eu sempre tive uma ideia muito certa em relação ao meu futuro: casar e ter filhos. Isso teria de acontecer. Precisava era de encontrar uma pessoa que me compreendesse e que conseguisse não se sentir ameaçada pela minha imagem, pelo meu passado, pelas namoradas que tive, pela fama que tive e que ao mesmo tempo que tivesse os valores que eu sempre achei que eram importantes para ser a minha mulher e para ser a mãe dos meus filhos. E felizmente a Patrícia foi a escolha mais acertada que fiz.

Estão juntos há quantos anos?
Desde 2007 e casámos em 2009. Temos duas filhas, a Benedita, que tem 2 anos e meio, e a Maria, que tem 6 e meio, e estamos super felizes.

Gostava de voltar a ser pai?
Gostava. Mas a Patrícia... ainda estou no processo de convencê-la [risos]. Gostava de ter um rapaz.

Teve muitas namoradas famosas?
Várias. A Rita Ferro Rodrigues foi a primeira namorada que tive e foi espectacular. Foi muito gira a forma como nos conhecemos. Já nos tinhamos cruzado várias vezes e um dia encontramo-nos numa bomba de gasolina de uma autoestrada, ela ia para uma festa de aniversário de uma amiga, eu ia para a quinta de uns amigos junto de uma barragem, andar de moto de água. Meti conversa, eu e os meus amigos, e elas iam todas aperaltadas para a tal festa e uma amiga dela passou-nos o convite da festa. À noite nós aparecemos lá, com uma ideia original. Oferecemos à aniversariante um sinal de trânsito, daqueles que têm o telefone, assinado e com os nossos números de telefone. Dizia: “Se alguma vez precisares de alguma coisa, liga-nos”. Depois o meu primo começou a cantar, nós éramos todos vivos, divertidos.

Mas também se falou da Catarina Furtado.
Não. A Catarina fez-me uma entrevista em Londres e não sei porquê surgiu isso.

Recorda-se da sua namorada mais famosa?
Acabou de se casar, mas não posso dizer [risos]. Mas posso falar de outra que é de conhecimento público, a filha do vice-presidente do Real Madrid, Alexandra Silva, que agora namora com o Richard Gere. Foi difícil para os adeptos do Atlético de Madrid aceitarem. Já era complicado aceitarem-me e depois havia mais isto. [risos]

Foi muito assediado por homens?
Fui convidado várias vezes. Então em Amesterdão, imaginam. Amesterdão tem uma comunidade gay enorme e a Gay Parade é das festas mais conhecidas no mundo, a de São Francisco e a de Amesterdão. Queriam que eu estivesse no carrinho à frente. Ainda fui à parada mas não tive no carro alegórico porque respeito. Tenho imensos amigos homossexuais, mas nunca ninguém passou da marca. [risos]

Em casa, durante a entrevista

Em casa, durante a entrevista

Luis Barra

Disse numa entrevista que tem outros projetos na cabeça. Quais são?
Era para abrir uma academia do Ajax cá em Portugal. Também estive tentado a dar desenvolvimento a outro tipo de atividade, de treinador ou diretor desportivo ou lançar-me como empresário. Coisas que fazem sentido para o jogador de futebol e que toda a gente me incentiva a fazer porque conheço meio mundo. Mas isso ia roubar-me muito tempo, ia começar outra vez a ter que viajar imenso e neste momento estou dedicado à família. Adoro levar as minhas filhas ao colégio, à natação, ao surf ao fim de semana, à ginástica, acho que agora é a hora delas. Vou ter tempo, ainda tenho 40 anos, portanto daqui a 10 anos posso perfeitamente pensar nisso.

Do que é que mais se arrepende?
Sinceramente, podia ter feito as coisas de outra maneira, não teria necessidade de viver a vida tão intensamente. Eu pensava que tinha que viver tudo naquele momento e com muita intensidade. Tenho colegas que têm as filhas já na universidade. Eu não, optei por viver de acordo com a minha idade.

Muita gente diz que o Dani passou ao lado de uma grande carreira...
Com a vida que tive acho que não passei ao lado. Tenho a noção perfeita de que se tivesse olhasse de outra forma para o ser profissional de futebol e se tivesse abdicado de viver metade das histórias que contei aqui, poderia ter sido muito mais estável, muito mais equilibrado, as minhas atuações em campo teriam tido outro tipo de produtividade. Tenho a perfeita noção, mas não se pode ter tudo. Não era possível com a minha personalidade, o meu carácter, o meu sentido de amizade, de vida, não ter vivido daquela maneira. Era impossível. Porque o que a vida me deu, os sítios onde estive, as pessoas que conheci, tudo isso, se eu renegasse a isso não estava a ser compreensível com a minha forma de ser.

Qual o treinador que mais marcas lhe deixou?
Os das camadas jovens sem dúvida. O Nelo Vingada, o professor Cristiano Oliveira, Rui Caçador, Carlos Queiroz, César Nascimento, Osvaldo Silva, Rui Palhais, Carlos Dinis, Mariano Barreto, todos eles. Mourinho, por pouco tempo mas com uma marca também grande, e Van Gaal.

O ano passado, com a mulher e as filhas

O ano passado, com a mulher e as filhas

Qual foi o puxão de orelhas que custou mais?
De um treinador? Quando adormeci e perdi o vôo para o jogo. Quando falei com o professor Carlos Queiroz ao telefone, foi como se tivesse desiludido o meu pai. Fiquei de rastos. Só que o meu melhor amigo tinha feito 18 anos no dia anterior e eu não sabia que ia para estágio, pensava que tinha treino. Não sabia que ia ser convocado. Ele tinha dado a convocatória, já eu estava a jantar. E pronto, aquilo desmoronou-se e passaram as horas... Quando acordei, já eles estavam no aeroporto. E eu não sabia que tinha sido convocado.

O que é que ele disse?
Lembro-me de uma frase. “Agora vais treinar, e depois quando eu voltar falamos. Para já voltas para os juniores, que são os da tua idade”. Acho que não disse mais nada, e o não ter dito mais nada, aquele silêncio foi mais forte de que muitas palavras.

Onde é que investiu o dinheiro que ganhou?
Em imóveis.

Na selecção A só jogou para apuramentos, nunca esteve numa grande competição.
Quando chegávamos às fases finais aquilo era muito complicado. Havia decisões que tinham de se tomar, e havia os empresários, e havia a força de muitas coisas às vezes extra futebol. Eu não tinha a noção da importância que tinham as pessoas de fora, nas decisões dos treinadores.

Mas tinham?
Tinham. E eu era um alvo fácil. Para além de haver grandes jogadores na seleção naquela altura, o Rui Costa, João Pinto, Figo, Sá Pinto, Nuno Gomes, Sérgio Conceição, Domingos, havia muitos jogadores com nomes fortes para aquela posição. Depois também houve culpa minha, desmotivaram-me, e eu não sentia grande vontade de ir mês e meio para não sei onde para não jogar.

Qual é a sua maior ambição a nível profissional?
Gostava de ser apresentador um dia. Gostava de apresentar um programa de desporto porque é a minha área e acho que seria uma luta gira. Não faz parte dos planos da TVI, não faz parte ainda dos meus planos neste momento. Teria que ser um crescimento, teria que ser uma evolução.

Dani confessa que gostava de apresentar um programa desportivo na televisão

Dani confessa que gostava de apresentar um programa desportivo na televisão

Luis Barra

Para finalizar, conte-nos uma história que ainda não tenha contado.
Nos sub-15, eu era o capitão da seleção. Estávamos nas Açoteias e no dia seguinte íamos para um torneio lá fora, vinhamos de autocarro até Lisboa e depois apanhávamos o avião. E na última noite, depois de 15 ou 10 dias em estágio a treinar de manhã e à tarde, o treinador disse que podíamos ficar até às onze horas. Ia haver uma competição de atletismo feminina e as atletas estavam também nas Açoteias. Às onze ninguém queria ir para os quartos e como no dia seguinte iamos ter a viagem, fui ter com o treinador: “Mister, estamos ali ao pé da piscina a ver as miúdas, podemos ficar mais meia horinha?” . [risos]. Aquilo descambou e à meia noite e tal estávamos todos dentro da piscina. O treinador chegou: “Tu amanhã vais carregar as minhas malas durante a viagem toda e vais deixar de ser capitão”. Andei três ou quatro dias a carregar as malas da equipa toda. Há outras mais picantes, mas essas são para o livro.

Já o está a escrever?
Não. Enquanto as minhas filhas não forem maiores de idade e não me derem autorização, não escrevo. [risos]