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A casa às costas

Chainho: “Sempre me safei. Em miúdo, ia à Feira da Ladra regatear e vender coisas das minhas vizinhas que precisavam de dinheiro”

Carlos Narciso Chainho, mais conhecido por Pelé entre amigos e familiares, vai para o terceiro nível do curso de treinador e não tem dúvidas de que um dia cumprirá o sonho de ser técnico principal. Amante de música e de karaoke, conta como aprendeu a treinar duro no FCP e explica porque o maior de sempre é Maradona. Mas ídolo, só tem um, o pai, que continua a ser o seu maior amigo

Alexandra Simões de Abreu

Jos\303\251 Carlos Carvalho

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Nasceu em Angola. Onde?
Na Lunda que era o antigo Zaire. O meu pai é português, foi para lá por causa da tropa, acabou por ficar e depois conheceu a minha mãe. Quando eu tinha seis anos resolveu trazer-nos para Portugal.

Porquê?
Devido às condições. Havia perigo em Angola e o meu pai queria dar-nos um pouco de bases e um nível de vida diferente. Ele tinha essa possibilidade, porque trabalhou muitos anos da Diamang, uma empresa de diamantes.

Vieram viver para onde?
Para Oeiras. A minha mãe era muito nova, teve-me com 15/16 anos. Viemos com ela e o meu pai enviava dinheiro. Ficava seis meses em Angola e um mês cá.

Tem quantos irmãos?
Dois irmãos e duas irmãs. Eu sou o mais velho do meu pai com a minha mãe. O meu pai teve duas meninas com outra senhora, as minhas irmãs mais velhas.

Ele já tinha essas filhas quando foi para Angola?
Não, foi lá, antes de conhecer a minha mãe. Segundo os meus tios, quando ele conheceu a minha mãe, foi amor à primeira vista. O meu pai é o meu melhor amigo, é o meu ídolo, é a pessoa que mais admiro, é um exemplo. Ajudou a família. Foi também um pai para os irmãos da minha mãe.

Como foi a sua infância?
Para ser sincero, não tive uma infânica difícil. Vim para um colégio, o Zambeze, nunca nos faltou nada. O meu pai ganhava um bom dinheiro, em dólares. Posso dizer que tive uma infância de ouro.

E como é que surge o futebol?
Acho que nasci para o futebol. Desde miúdo senti isso. Em Angola já tinha esse desejo de ser profissional de futebol e fui sempre atrás do objetivo. Obviamente que tive também a sorte de ter pessoas boas ao meu lado que me ajudaram, os meus primeiros treinadores, que chamo de “anjos”.

Quem foram?
No Carcavelos, o Vítor Damas. Foi ele o meu primeiro treinador. Depois fui para o Casa Pia, que tinha pessoas incríveis. Não vivi a infância com os meus colegas, os meus amigos. Com 14/15 anos eu tinha de apanhar comboio e autocarro para ir treinar. Abdiquei das férias, de namorar, de discotecas, por um sonho. Mas houve uma altura em que naturalmente quis seguir os amigos de infância, e os meus treinadores não deixaram. O Quim Zé, o Alfredo Ribeiro, que era o presidente do Casa Pia na altura. O Vitor Móia, que me fez subir aos séniores ainda miúdo, foi importantíssimo. Houve uma altura em que quis deixar de jogar futebol e eles disseram: “Estás tão próximo do objetivo. Tens condições, és dos melhores jogadores que está aqui.” Na altura era eu, o Calado e o Rui Borges. Éramos os três. E eu sentia que tinha condições, que era diferente dos outros miúdos em termos físicos e em termos até do querer, mas naquela altura fraquejei um bocadinho e eles vinham buscar-me a casa para não faltar aos treinos.

Onde ficaram os estudos no meio disto tudo?
Sempre estudei e era bom aluno. Conseguia ter boas notas sem estudar. Considero-me um autodidata, como o meu pai. Sou um indivíduo que compreende fácil, decoro fácil, tenho boa memória. Mas deixei os estudos no 11º ano, devido à tropa, e só mais tarde acabei o 12º ano.

Chainho em pé à esquerda com os amigos do bairro

Chainho em pé à esquerda com os amigos do bairro

D.R.

Vamos por partes. Começou a jogar futebol no Carcavelinhos?
Comecei no Sassoeiros Futebol Salão. Depois fui para o Carcavelos através de um amigo, o Pedro Rego, que também foi jogador de futebol de salão e hoje em dia é gerente de um dos melhores restaurantes em Lisboa.

Isso com que idade?
Com 12 anos, acho. Na altura o treinador era ao Vitor Damas e o António Matos, que era recordista de Portugal nos 400 metros. Bastaram dois ou três treinos e fiquei.

Como é que vai depois para o Casa Pia?
Foi engraçado. Fiz três ou quatro épocas no Carcavelos e na altura já tinha investido na musculação. Ainda em miúdo, com 14 anos, pedi dinheiro ao meu pai para fazer musculação. Até que um dia, senti que o Carcavelos já não era para mim, que o meu nível tinha que ser outro. E, por iniciativa própria, quando vi no jornal a “Gazeta dos Desportos” que havia treinos de captação, pedi dinheiro à minha mãe e fui. Já tinha ido ao Belenenses, mas o Belenenses metia-me sempre na baliza. E por isso nesse dia resolvi ir ao Casa Pia fazer testes, sem dizer nada à minha mãe. Felizmente as coisas correram bem e assinei logo.

Nessa altura já ganhava dinheiro?
Não. Comecei a ganhar dinheiro salvo erro nos juniores. O Alfredo Ribeiro dava-me dinheiro para o passe. Depois comecei a ganhar dinheiro quando subo aos séniores do Casa Pia. Eu e o Calado.

Esteve no Casa Pia quanto tempo?
Dos 14,15 aos 18 anos. Com 19 anos fui para o Estrela da Amadora.

Torna-se sénior no Casa Pia?
Sim. Ainda era júnior e já era chamado para os seniores. Eu e o Calado. Subo a sénior com 17 anos. Fico nos seniores dois anos e subimos de divisão.

É nessa altura que assina o primeiro contrato profissional?
Sim. Ganhava 500 euros.

Um bom dinheiro, estamos a falar de 1992/93.
Sim. Em termos financeiros não era rico mas tinha estabilidade em casa. Com esse dinheiro ia para Lisboa comprar roupa. Já conhecia a minha namorada, que é a minha atual mulher, oferecia-lhe presentes também.

Conheceram-se onde?
Na escola. Eu era para ser da turma dela, mas como era uma turma só de miúdas, pedi a transferência porque na turma ao lado estavam lá os meus amigos de infância quase todos. Mas conheci a minha mulher assim.

Começaram a namorar com que idade?
Ela tinha 16 anos, e eu tinha mais um ou dois anos. Acho que já estamos juntos há 25 anos.

Então gastou o primeiro dinheiro em roupa…
E em cafés. Oferecia coisas aos meus amigos. Chegava a um café onde estavam os meus amigos e dizia: “Quem quer comer? Hoje dá direito a cinco ou seis”. Não podia pagar a todos, mas no dia seguinte voltava a fazer o mesmo para os outros. Como nunca fui muito de vícios… Adorava música. Sou doido por música e comprava muitos cd’s. Tenho uma coleção enorme de cd’s .

Com a sua equipa do Carcavelos. Chainho é o segundo em pé da esquerda para a direita

Com a sua equipa do Carcavelos. Chainho é o segundo em pé da esquerda para a direita

D.R.

Quais são as suas preferências musicais?
Sou muito hard rock. Era o que se ouvia nas discotecas da zona na altura.

Ia a que discotecas?
Ao Bahaus, ao Coconuts, ao News. Sempre adorei música e sou dos indivíduos que mais investe em música. Nos clubes por onde passei, fazia sempre questão de dar a conhecer grupos aos meus colegas. Gosto de pop-rock, gosto de rock, gosto de house music também, gosto de musica clássica, adoro música grega.

Grega?!
Adoro música grega, gosto muito daquela sonoridade, aqueles sons de guitarra. Também adoro, por exemplo, música espanhola, latina. Mas só adormeço com música clássica. Quando estou em casa ouço muito música clássica.

Tem algum compositor preferido?
Gosto muito de Beethoven e de Vivaldi.

Tem quantos cd’s?
Mais de mil. Mas hoje em dia os cd’s já não se usam e estou a pensar ficar só com aqueles que são históricos, que foram difíceis de arranjar e despachar os outros.

Dê-me exemplo de um difícil de arranjar?
Tenho um cd de Def Leppard, que se o vender, dão-me 200 euros por ele. Também tenho alguns vinil. Há edições que são limitadas. Gosto muito de Mr. Big, de U2 e de Kiss também.

Aprendeu a tocar algum instrumento?
Não. Tenho três ou quatro guitarras e até tive uma bateria que ofereci ao Peixe.

Ao Peixe?
Sim ao Emílio Peixe, que toca bem bateria. A bateria era muito boa, mas a minha mulher já estava farta do barulho e disse-me que tinha que desfazer-me dela. E ofereci ao Peixe.

Se tem três ou quatro guitarras há-de tocar alguma coisa.
Arranho algumas coisas. Mas eu sou mais vocals. O meu potencial está no cantar. Dizem que canto bem.

O Jorge Andrade já confessou que foi o Chainho quem lhe meteu o bichinho do karaoke.
Sim. Uma vez, em 1999/2000, fomos a Angola fazer dois jogos e sem querer meteram-me a cantar. Na altura, o Domingos Paciência tinha um bar em Leça da Palmeira e a partir dali, sempre que íamos lá, eu é que abria a pista. O meu irmão também fazia música, o meu filho também tem jeito para a música, apesar de ele achar que tem mais jeito para o futebol.

Chainho com o pai

Chainho com o pai

D.R.

Vamos voltar um bocadinho atrás. Do Casa Pia como é que vai para o Estrela da Amadora?
Foi num treino. Eu estava na tropa, uma das experiências mais importantes da minha vida.

Porquê?
Porque aprendi a valorizar certas situações. A minha mãe criou-nos sempre com mão de ferro, se há orgulho na família, é o orgulho que tenho na minha mãe, porque nenhum dos meus irmãos se meteu em porcaria. São mais novos, eu também ajudei a criá-los, considero-me um pai para eles. O exército tornou-me mais rigoroso. Comecei a valorizar a vida que eu tinha, porque apanhei muitos indivíduos, de vários pontos do país, que sofriam muito. Que não tinham condições, nem regras. Aprendi tanto nesses seis meses.

Voltando ao Estrela…
Eu estava de serviço, na tropa, telefonaram-me do Casa Pia: “Chainho tens que vir treinar, porque o Estrela da Amadora vem cá treinar”. Perguntei ao meu forriel se podia dispensar-me, expliquei-lhe que seria bom para mim, porque o João Alves do Estrela já andava de olho em mim. O Calado tinha ido para o Estrela e tinha falado com o João Alves sobre mim. Fui, correu-me tão bem o treino que no próprio dia o João Alves chamou-me: “Tu tens que ir para a I divisão, que o teu nível é outro”. E foi assim.

Esteve quatro épocas no E. Amadora, mas sem o João Alves.
Sim. Eu não comecei com o João Alves. Contratou-me mas eu nem chego a fazer a pré-época com ele porque ele vai para o Belenenses e vem o Acácio Casemiro. Dois meses depois veio o Fernando Santos. O Acácio Casemiro não me conhecia de lado nenhum e antes de ver-me a jogar, queria emprestar-me. Tinha 20 jogadores sonantes e eu era um miúdo novinho, do Casa Pia. Ele teve uma conversa comigo no hall de entrada e disse-me que em princípio eu ia ser emprestado porque tinha um plantel com experiência. E eu disse-lhe: “Oh mister mas você tem que ver-me a jogar, não me conhece. Pelo menos deixe-me treinar”. E o Marques Pedrosa que era o diretor desportivo também disse ao Acácio Casemiro: “Tens que por este miúdo a jogar. Não podes dispensar este miúdo sem saber, sem o ver jogar”. Bastou meia hora de treino para ele dizer: "tu ficas aqui".

Com a equipa do Casa Pia, Chainho é o primeiro em pé, à esquerda.

Com a equipa do Casa Pia, Chainho é o primeiro em pé, à esquerda.

Veio o Fernando Santos. Deu-se bem com ele logo de início?
Não. Eu conquistei o Fernando Santos através do meu trabalho. Ele é uma pessoa muito rigorosa, de manhã vinha sempre mal disposto, só cumprimentava no final do treino. Aquilo fazia-me impressão. No primeiro jogo quis meter-me no banco, mas depois, não sei porquê, pôs-me a jogar. Só que o Acácio Casemiro metia-me no lado direito. Eu também jogava no meio campo, e no corredor direito nunca fui jogador rápido. Naquele dia o Fernando Santos colocou-me no meio campo, as coisas correram bem e ganhámos. A partir daí joguei quase sempre. Depois ele começou a ganhar um carinho por mim que toda a gente sabe. Mas eu também trabalhava. Ele não me deu nada e o lugar que eu conquistei foi à conta do meu trabalho.

Há uma história relacionada com flores…
(Risos). Foi numa altura em que as coisas estavam a correr mal. O Fernando Santos tem por hábito falar com os jogadores após o jogo ou dois dias depois. Ele resolveu falar com o grupo e perguntar um a um o que achavamos. Disse-me: “tu ficas para o fim”. Eu nunca fui muito dramático, acho que as coisas têm uma razão para acontecer, nunca critiquei por criticar e tento sempre levar as coisas pelo lado positivo. Quando chegou a minha vez, eu disse que o nosso problema era simplesmente de ambiente e que fazia lembrar um jardim e as flores. E ele: “Lá estás tu com essas conversas”. Eu insisti. Disse que a nossa alegria tinha desaparecido por causa das derrotas, que aquilo não parecia do nosso ADN, porque éramos uma equipa muito alegre, que se dava muito bem, que almoçava e jantava após os treinos, mas que tinhamos deixado de o fazer, era treino/casa/treino/casa e que o futebol não é isso. É um jogo de equipa. Concluindo: “Temos de regar a flor, a flor não está a ser regada. O futebol é como uma flor, temos que cuidar dela, temos que cheirá-la, tocá-la…”. E ele com vontade de rir. “Tu e a flor, vai pró caraças com a flor”. No dia seguinte quando chego ao balneário, tinha o meu cacifo cheio de flores e acho que ele estava metido nisso. Depois começaram a chamar-me flor. Mas, coincidência ou não, começamos a ganhar. No segundo ano o mister Fernando Santos começa a mudar.

Em que sentido?
Torna-se mais flexivel.

No trato?
Sim. Atenção, eu sei que não é fácil. O grande desgosto da vida do Fernando Santos é ter saído do Estoril, porque fez lá a formação quase toda. Jogou no Benfica, mas o Estoril é a casa dele. Subiu como jogador, tornou-se treinador, subiu a equipa à I divisão, formou jogadores e depois chegas a um ponto em que estás tantos anos numa instituição, dás tanto de ti e de repente por um motivo ou outro, ou por maus resultados, tiram-te. Aquilo foi um desgosto para ele. Lembro-me bem porque tivemos uma conversa sobre isso. E quando vais para um novo projeto, não queres cometer os mesmos erros. Eu sei que ele era uma pessoa muito dada no Estoril.

Tornou-se mais duro então quando saiu do Estoril.
O Fernando Santos antes dos treino era horrível, ele próprio diz. Mas depois de dois ou três meses com aquele grupo do Estrela, mudou completamente.

Chainho durante a entrevista

Chainho durante a entrevista

Jos\303\251 Carlos Carvalho

Dessas quatro épocas no Estrela ficaram amizades fortes?
Várias. O Jordão, o Jorge Andrade, eu vi o Jorge a crescer, o Paulo Santos, o Sérgio Marquês, o Gonçalves. O Jordão continua um amigo próximo, o Pedro Simão, o Lázaro que é meu vizinho também, não posso esquecer o Mário Jorge que estimo muito. Ficaram tantos, também ficou o meu compadre o espanhol Alberto Bodelon, que vive na Corunha e é o padrinho do meu filho. Conheci-o no Estrela.

Quando é que casa?
Em 2000. Estava no FC Porto.

A sua mulher faz o quê?
A Monica é professora de inglês e é sócia de um instituto de línguas em Oeiras.

Como é que vai para o FC Porto?
Fiz quatro anos fantásticos no Estrela, jogava sempre, as lesões eram raras, só tinha lesões nas férias, lesionava-me no último jogo do campeonato e depois dava para recuperar nas férias. Fui sempre um jogador importante no Estrela. Tive hipóteses de ir para o Benfica, para o Sporting.

E não foi porquê?
Não aconteceu.

Torcia por que clube?
Quando era miúdo ia a Alvalade e tinha um carinho pelo Sporting. Mas sempre gostei do FC Porto. Em 1987, o FCP tinha uma equipa fantastica. Quando comecei a ser profissional, comecei a perder um pouco o encanto pelas equipas grandes.

Chainho, no FCP, a disputar uma bola com Kwame Ayew, jogador do Sporting

Chainho, no FCP, a disputar uma bola com Kwame Ayew, jogador do Sporting

Getty Images

Estava a contar que foi para o FCP, mas que teve vários clubes interessados. Estrangeiros também?
Sim, logo no final do primeiro ano no Estrela, mas eu não estava preparado, porque é preciso uma aprendizagem para ir para um clube grande ou para fora. Além disso, eu era muito de casa, porque o meu pai esteve muitos anos em Angola e eu sei o que é estar longe das pessoas que tu gostas.

O seu pai volta definitivamente quando?
Em 1991/92. Ainda veio ver-me ao Estrela.

Voltando ao FCP…
Assino em janeiro, com o António Oliveira. As pessoas têm a ideia de que vou com o Fernando Santos, mas vou com o Oliveira. O José Veiga veio falar comigo, disse-me que havia uma equipa interessada, eu pensei que fosse uma equipa estrangeira, mas depois fui para um escritório que não conhecia e estava lá o presidente Pinto da Costa. Perguntou-me se eu queria ir para o FCP e eu “claro que sim”. O FCP tinha ganho tudo na altura, tinha grandes jogadores e não era qualquer um que ia para lá. Eles antes de tudo fazem uma triagem, sabem tudo da vida da pessoa, investigam a personalidade da pessoa. Foi isso que aconteceu. Acho que era um jogador “à Porto”, que tinha as características que eles queriam e assinei.

Era um jogador livre nessa altura?
Não, tinha contrato, mas era o último ano de contrato, já podia assinar. Falei com as pessoas do Estrela e chegamos a um acordo fácil. Mesmo sabendo logo em janeiro que ia para o FCP faço uma época fantástica até ao fim. Podia salvaguardar-me, mas não o fiz.

Portanto foi contratado pelo Oliveira, mas quando chega ao FCP já lá está o Fernando Santos.
Sim. Aliás, houve uma altura em que me telefonaram para saber como era o Fernando Santos, como homem e treinador. Acho que soube primeiro que o mister que ele ia para o FCP (risos).

Conversaram sobre a ida de ambos para o FCP, antes de irem?
Sim. Ele foi honesto comigo e adorei. Avisou-me que não ia ter vida fácil, para me preparar, porque se não estivesse preparado para aquela exigência podia ser emprestado a outro clube. Agradeci-lhe e disse-lhe que estava preparado.

Quando lá chegou quem eram os jogadores de peso do FCP?
Paulinho Santos, Jorge Costa, Secretário, o Vitor Baía e o Domingos; vêm depois, Drulovic, Eloísio, Jardel, Capucho, Doriva, Emílio Peixe. Era uma equipa fabulosa, foi a equipa do Penta.

Chainho a festejar um triunfo ao serviço do FCP

Chainho a festejar um triunfo ao serviço do FCP

D.R.

Foi sozinho para o Porto?
Fui, a minha mulher na altura ainda estudava, mas estava constantemente lá. Ia na quinta-feira, passava ao fim de semana e voltava.

Custou-lhe sair da família para ir viver sozinho?
Não, porque as pessoas no Porto ajudam-te muito e as coisas tornam-se fáceis. O Jorge Costa foi incrível, o Zahovic também, o próprio Rui Barros. O falecido Domingos Pereira era uma pessoa fantástica. Não me deixavam sozinho. Ainda estive no hotel com o Fehér e fui uma ajuda para ele, porque andava sempre com ele. Depois também tive a sorte de ter um cão, um dálmata que me acompanhou sempre nesses anos. Era um companheiro.

Sagra-se campeão logo na primeira época. Como foi a emoção de ser campeão pela primeira vez?
Foi impecável. Era um sonho que o FCP perseguia. Éramos uma equipa fantástica. Mas não começo a jogar de início.

Então?
Quando faço o primeiro jogo, as coisas não correram bem porque empatámos com o Beira Mar. O jogo não me correu muito bem. Na pré-época fui dos melhores jogadores, mas naquele jogo não sei o que aconteceu.

Estava nervoso?
Não, as coisas não correram bem. O campo era mais pequeno. Tinha que me habituar à ideia. Estive quatro ou cinco jogos sempre fora da convocatória.

Quem era o seu adversário direto?
O Doriva e o Paulinho Santos.

O Paulinho Santos, tinha má fama, era conhecido por ser muito duro com os adversários. Como é que ele era dentro da equipa?
É uma pessoa incrível. As pessoas não têm noção da qualidade do Paulinho Santos. Era 100% profissional. Aprendi muito em termos de passe, era muito concentrado. Era agressivo no bom sentido, obviamente que de vez enquanto exagerava, ele próprio o diz, mas era um jogador que dava tudo.

Também era assim nos treinos?
Aprendi com eles que o treino é igual ao jogo. Quando cheguei obviamente tentava entrar com mais calma para não aleijar e eles eram duros. Aprendi que se tu entras duro é melhor para o teu colega. E cheguei a um ponto que até em Espanha e na Grécia eles ficavam parvos comigo. Eu dizia “aprendi assim, é aquilo que eu sou neste momento”. Era duro. Eles em Espanha treinavam de meias e eu de caneleiras. No FCP houve alturas em que nos treinos até nos comíamos (risos), mas depois do treino estava tudo bem. Tive várias com o Secretário, ele a dar e eu a dar, puxávamos, empurrávamos…

Chainho, ao centro em baixo, no Estrela da Amadora

Chainho, ao centro em baixo, no Estrela da Amadora

D.R.

Tem de certeza muitas histórias para contar do FCP. Lembra-se de alguma assim de repente?
Há muitas que já estão contadas. Mas posso dizer, por exemplo, que fui eu quem introduziu a internet lá e o Karaoke. Sempre me interessei por novas tecnologias. Pegava nos computadores, levava e ensinava-os. Tinha paciência e tenho paciência. Sou um indivíduo que não descanso enquanto não resolver um problema que tenha num computador, numa televisão ou box, por exemplo. Sou capaz de ficar três ou quatro horas de volta da coisa até arranjar solução. Também gravava cd’s para eles.

Há pouco disse que ofereceu a sua bateria ao Emílio Peixe. Nunca tentaram formar um grupo para tocarem juntos?
Ainda tentámos, eu, ele e o Roger Spry, que está agora na Áustria e era o preparador físico que trabalhou com o Bobby Robson. Ele tocava guitarra. Houve uma vez que fomos tocar com os GNR. Eu toquei baixo. Tive baixos também. Eu investi na música mas a música não queria nada comigo (risos).

Não há mais histórias do FCP?
Posso contar uma que aconteceu comigo. Sempre que um jogador chega ao FCP tem que ser baptizado. No hall de entrada o pessoal reúne-se todo com o pretexto de que há um assunto do grupo para resolver. Resolvem sentar-nos ali todos e deixam um lugar vazio para o jogador que chega de novo. Retêm esse jogador no balneário o mais que podem para quando chegar ao hall ter de sentar-se naquele único lugar vazio. Sentamos, começa a conversa e depois reparamos que falta um ou dois jogadores. Quem é que falta? Começámos a olhar. Quando damos por nós, temos um saco de porcaria em cima da nossa cabeça e eles a bater palmas. Normalmente era o Paulinho Santos que atirava a porcaria para a cabeça.

Que género de porcaria?
Podia ser terra, papel higiéncio, lixo, era tudo.... Também tinhamos a da chamuça.

Chamuça?!
Sim, chamuça, comida. Quando ganhávamos, o jogador que tinha feito um bom jogo ou que tinha feito anos, tinha que pagar qualquer coisa para comer e houve uma altura que era chamuças. Ficavamos horas e horas no balneário a comer chamuças e a beber uma cervejinha ou outra.

Tinham algum outro ritual?
Jogar futevólei antes dos jogos, sobretudo dos mais importantes. O Paulinho Santos e o mister André são filhos de pescadores e arranjavam uma rede (agora já há redes ai à venda, mas na altura não) e, antes dos jogos montávamos as redes e jogávamos futevolei.

Onde?
No balneário e não imaginam a rivalidade que havia. Se tinhamos um jogo importante, um jogo que tinhamos de ganhar, nós já estavámos a ganhar no balneário. Discutiamos imenso. Eu ficava parvo no princípio, depois habituei-me. Já entrávamos no jogo de uma maneira…fervorosa.

Com a família. A mulher, os filhos, o pai, irmão, cunhada e sobrinhas

Com a família. A mulher, os filhos, o pai, irmão, cunhada e sobrinhas

O Pinto da Costa ia muitas vezes ao balneário puxar a orelhas aos jogadores?
Não. Eu só vi o presidente duas ou três vezes no balneário. Lembro-me de uma vez em que as coisas estavam a correr mal num jogo com o Marítimo. Estávamos a perder, e no intervalo, ele entrou no balneário, dirigiu-se a nós e ficou ali um ou dois minutos a olhar para nós. Aquele olhar intimidava, não precisava de falar. Depois foi calmamente à casa de banho, que ficava no fim do balneário. Nós vimos que ele não estava contente. Na segunda parte demos a volta ao resultado.

Mas ele não disse nada?
Ele não precisava falar.

Jogou também com o Jardel. Ele nessa altura já consomia droga?
Não, nada. Isso posso garantir. E obviamente fiquei surpreso quando soube desse problema, porque o Mário era um profissional. Treinava bem. Às vezes quando as coisas não correm bem, ter bastante dinheiro pode trazer esses problemas. Mas fiquei surpreso, não estava à espera. Não sei realmente como é que aconteceu. Eu dava-me muito bem com o Mário, e dou-me bem com o Mário, mas fiquei surpreso. É um vício que desconhecia que no futebol existia. Era um vício que não fazia parte de nós, não fazia. Obviamente que agora há casos, ok um jogador pode beber uma cerveja ou duas, mas o vício da droga para mim não faz parte do profissional e eu fiquei surpreso. E o Mário… foi o melhor ponta de lança que apanhei. Sem dúvida. Como pessoa, é fantástico, as pessoas não têm noção de como é uma pessoa muito boa. O Mário é um coração grande. Eu chamo-o sempre de menino num corpo grande. O Mário era fantástico, fantástico.

Entretanto, casa no Porto.
Sim, em dezembro. O casamento era para ser uma coisa simples e torna-se uma coisa enorme, devido aos meus colegas e às mulheres dos meus colegas. Foi ao pé da praia, com os meus colegas, com os jogadores do Boavista, que muitos são grandes amigos meus, a família…Até nos esquecemos de cortar o bolo e tudo (risos).

Também houve karaoke?
Houve tudo, aquilo foi um espetáculo.

Na equipa do Nacional da Madeira, Chainho é o primeiro em pé, à direita

Na equipa do Nacional da Madeira, Chainho é o primeiro em pé, à direita

Na equipa do Nacional da Madeira. Chainho é o primeiro em pé, à direita

Como é que vai parar ao Zaragoza, em Espanha?
Em relação a Espanha foi o ano que veio o mister Octávio Machado. Eu tive várias propostas, podia ir para a Grécia, Inglaterra, Itália… Havia um jogador novo no plantel, que era o Quintana, e o mister Octávio até foi impecável e disse-me: “Oh Chainho há mais um jogador e este ano pode ser complicado para ti, mas se quiseres podes cá ficar”. Claro que senti aquilo…Entretanto, apareceu Espanha e decidi ir, mudar de sítio.

Foi para Espanha por ser mais próximo de Portugal?
Também. Tinham ido vários portugueses para lá. O Jorge Mendes falou comigo e foi tranquilo.

Gostou dessa experiência?
Adorei. O meu filho Diego nasceu lá, conheci pessoas fantásticas, a própria cultura é ótima.

Quem era o seu treinador em Espanha?
Txetxu Rojo. Lembro-me de um jogo com o Maiorca, em que jogava o Eto’o e eu praticamente “sequei” o Eto’o. Depois num jogo da 1ª mão da Taça partiram-me o braço. Meti a mão, deram-me um pontapé e partiram-me o braço. Tive um mês para recuperar mas foi difícil voltar a estar em forma outra vez.

Mas vai para a Grécia.
Fui para a Grécia por causa do Fernando Santos. Totalmente diferente daquilo que estava habituado. Só se treinava de tarde. Foi o Fernando Santos que começou a meter treino de manhã. Ele é que muda completamente a equipa e foi um ano fantástico. Começo a jogar, e entretanto o Fernando Santos sai porque havia a hipótese de vir para a seleção. Foram buscar um treinador que adorei, o Markarían, um treinador uruguaio, e eu deixo de jogar porque o Fernando Santos sai. E foi aí que faleceu a minha mãe.

Chainho com a mãe

Chainho com a mãe

D.R.

Foi uma morte repentina, inesperada?
Sim, faleceu muito nova, de forma repentina. As pessoas no Panathinaikos foram impecáveis, resolveram dar-me uns dias para eu vir enterrar a minha mãe e até o Markarian disse que podia ficar em Portugal mais do que uma semana, tranquilo. Eu vim, enterrei a minha mãe, mas pensei qual a necessidade de ficar aqui a chorar e a sofrer? Vou trabalhar. Enterrei a minha mãe numa segunda ou terça-feira e resolvi voltar. Cheguei na quarta, treinei na quinta-feira e o treinador resolveu convocar-me para estar com o grupo. No dia do jogo, há um colega meu que se lesiona no aquecimento e eu tive que ir para o banco. Estavamos a perder 1-0, faltavam 30 minutos para acabar o jogo e ele pergunta-me: “Carlos estamos a perder, tu não tens nada a perder, queres jogar?”. Disse que sim, olhei para um colega meu e disse “pior não me pode acontecer, pior aconteceu na semana passada, foi a minha mãe ter falecido”.

E jogou.
Fui lá para dentro, pego na bola, faço um cruzamento e golo, empatámos. Nos últimos minutos consigo tirar a bola na linha do golo e fazemos o 2-1. A vida é assim, é acreditarmos. Às vezes as pessoas dizem “é coincidência”, não há coincidência nenhuma. Desde aí passei a ser titular indiscutível e era para lá ficar. Mas resolvi não ficar.

Porquê?
Por causa da minha mãe. Queria ficar mais próximo daqui.

Num jogo do Zaragoza, em Espanha

Num jogo do Zaragoza, em Espanha

E foi para o Marítimo.
Sim, voltei a entrar no nosso futebol. Foi importante, cresci como pessoa. Em termos monetários na altura no Marítimo ganhava-se bem, mas não era o mais importante. Ganhei em termos culturais, ganhei outro sentido das coisas, maturidade. Porque dizem que um jogador de futebol é obtuso. Isso é mentira. Os jogadores de futebol começam a crescer muito depressa, ou dedicam-se a outras situações. Eu, por exemplo, com 20,22 anos tinha muito mais experiência do que muitas pessoas que agora têm 40. Aprendi a viver mais cedo, a ter as coisas mais cedo. Aprendi que consigo viver com o errado, com a crítica. Uma coisa é ser criticado por amigos, outra é ser críticado pela sociedade, estar constamente na televisão a levar com as coisas, é mais difícil estar exposto.

Qual foi a crítica que mais custou ouvir ou ler?
“Não joga nada” ou “este não é jogador para o FC Porto” essas coisas.

E a experiência com o Cajuda no Marítimo?
Gostei muito. Um treinador diferente mas gostei.

Diferente como?
Chamo-lhe o poeta. É um treinador que gosta e sabe trabalhar a parte psicológica. Às vezes quando jogávamos ele punha uma cadeira no meio do campo e chamava o indivíduo que não corria e dizia: “não queres correr então senta-te aí”. Gostei muito e ele foi importante também. Eu ajudei-o e ele também me ajudou muito. Fomos à Europa estavamos com uma grande época e uma grande equipa. Eu sempre ajudei os treinadores que tive.

Esteve duas épocas no Marítimo.
Primeiro com o Cajuda, depois com o Mariano Barreto, depois ainda estive com o Juca. O Mariano tinha sido meu professor no Casa Pia e é uma pessoa que adoro, continuamos a falar muito. Ele e o Fernando Santos são os treinadores com quem eu ainda falo. O Mariano está na Lituânia e telefona-me. Já me convidou para muitos projetos dele, convidou-me para trabalhar com ele.

Poster da equipa do Panathinaikos. Chainho está sentado, é o segundo da direita

Poster da equipa do Panathinaikos. Chainho está sentado, é o segundo da direita

D.R.

Segue-se o Nacional da Madeira. Como?
Surge porque eu ia assinar dois anos de contrato e na altura falei com o Carlos Pereira por causa do contrato, ele queria que eu ficasse, dava-me um ano de contrato. Ai também foi um processo que deveria ter sido diferente. Foi mais um mal entendido. Não me arrependo. Adorei estar no Nacional também.

Mas vai para o Nacional porque não se entende com o Marítimo?
Não. Eu estive quase no Hannover, da Alemanha, tive convite, estava tudo certo, eles vieram ver um jogador do Marítimo mas o treinador gostou também muito de mim. Mas disseram-me: “tu vais para ali mas abdicas do empresário, vens diretamente comigo”. Disse que não, que as coisas não eram assim e se queriam que fosse tinham de fazer a parceira com o Jorge Mendes. Falei com o Jorge e ele disse: “A pessoa que fale comigo, faz-se o negócio e tu vais à tua vida. Não vou cortar-te as pernas”. Mas essa pessoa não quis, quis tudo para ela.

Essa pessoa era quem?
Um empresário português. Mas ele também foi honesto porque disse que não queria fazer o negocio com o Jorge, queria o negocio só para ele. E perdemos os dois porque o contrato era fabuloso. Houve situações em que fui um bocado ingénuo, o Jorge dizia “isto é bom, aceita” e eu… Mas depois, dois ou três dias antes das inscrições terminarem apareceu o Nacional. Telefonei ao Carlos Pereira e disse-lhe: “Antes que você saiba por alguém, tenho aqui a proposta do Nacional, e vou aceitar”. O presidente gostou da minha atitude e tive dois anos também fantásticos nos Nacional.

Nessa altura ainda só tinha um filho?
Não, tinha já a minha filha Daniela que nasce precisamente na Madeira, quando estou no Marítimo.

Entretanto...
Faço dois anos bons no Nacional, estive quase na Académica. O Manuel Machado falou comigo, tive várias propostas daqui de Portugal, mas obviamente cheguei a um ponto em que, eu já tinha estado fora… disse porque não? Apareceu uma proposta. O Clayton telefona-me, andou uma semana a chatear-me todos os dias: “Tens que vir para o Chipre, estão a fazer uma equipa nova, tens que vir, tem portugueses, precisamos de alguém com as tuas características”. E pronto fui para o Chipre.

Foi pelo dinnheiro?
Não foi pelo dinheiro, eu ia ganhar o mesmo. Não era por aí. Eu sabia que a vida do Chipre era mais cara. Foi pela experiência.

A sua mulher foi consigo?
Foi. Sempre comigo. Ela nunca me largou. Foi lá que surge também o negócio da minha mulher, começou a dar aulas no Chipre. Adorei o Chipre. Só para dar um exemplo, eu não ligo muito a bens materiais, não sou um homem de carros. Obviamente que a casa é fundamental, graças a Deus tenho uma boa casa, mas nunca ligo a carros. E no Chipre aconteceu-me uma experiência fantástica. Chego ao Chipre e dão-me um carro todo partido. Parecia um carro de 1940 (risos). Eles riam-se. Até que um dia o treinador do Anorthosis, o Ketsbaia, viu-me a meter gasolina, veio ter comigo e disse: “Tu não podes andar com esta carro pá. Isto não é carro”. E eu: “Está tranquilo, isto é só para andar daqui para ali, não há problema nenhum”. O carro era mesmo podre, já não tenho foto do carro. E foi ele que telefonou para o presidente do Alki, que era o clube rival dele, a dizer: “Tens que dar um carro a este jogador, tem que ter o mínimo senão telefonam para Portugal a dizer que são mal tratados no Chipre”. O presidente do Alki telefonou-me a dizer para ir buscar outro carro. E no dia seguinte tinha um carro de 0 kms. Agradeço ao treinador da equipa rival (risos).

Chainho com a camisola 22 cumprimenta colegas de equipa, on Chipre

Chainho com a camisola 22 cumprimenta colegas de equipa, on Chipre

D.R.

E o Irão?
Foi pouco tempo. Foi nessa fase que senti as coisas diferentes. Tinha já 34 anos, tive convites do Atlético Clube de Portugal e de outros clubes, mas não fui porque continuava a achar que tinha capacidades para jogar na I divisão. Fui proposto para várias equipas mas houve treinadores que tiveram medo que eu fosse para lá e que começasse a trepar como treinador. Depois fui treinar pelo Sindicato dos Jogadores, porque na altura pouca gente ia treinar ao Sindicato, e o Envangelista falou comigo e fui dar a cara, era um jogador conhecido, estava bem fisicamente.

Isso foi antes do Irão.
Sim, porque comecei a pensar que em Portugal não tinha hipótese. Agora um jogador com 34 anos é mais fácil, mas antigamente havia esse estigma. Mas aceitei a situação. Estou sempre a dizer, malandro que é malandro não estrilha, muda de esquina. Eu sabia que ia ter clube, e também já tinha ideia de deixar de jogar. Fui para o Irão através do Armando Sá. Mas estive lá pouco tempo. Foi uma experiência cultural

A sua mulher adaptou-se bem?
Ela não foi, porque eu só estive lá quatro meses. Mas adorei, o campeonato é diferente, a relva era tipo pelado, não havia condições, mas em termos monetários era bom. Fui em fevereiro, depois o campeonato terminou e eu resolvi acabar esse processo.

Foi difícil terminar a carreira de futebolísta?
Não, eu já estava mentalizado. O único problema era saber o que ia fazer. Esse foi o problema, não tive essa capacidade na altura, foi de repente. Mas eu já fiz tudo, já fui empresário, não gostei, foi uma má experiência, não quero.

Empresário de quê?
De jogadores. Tive uma firma “Castro Brothers” com o Dionísio Castro. Ainda fizemos negócios e ganhava-se dinheiro na altura, mas não era aquilo que eu queria. Estive neste processo com o Jordão, que já tinha sido meu colega de equipa, e conheci pessoas muito boas, vi como se trabalha muito nesta área, aprendi a estar nesta área, e achei que não era boa para mim.

Meteu-se noutros negócios?
Meti. Vendi material desportivo da Nike que agora é de um ex-sócio. Aprendi a organizar-me, aprendi a conhecer um pouco esta área. Depois fui para a televisão, que é o que agora estou a fazer neste momento, na SportTV. Fui chamado para fazer jogos. Estive na Bola Tv.

Chainho com os colegas do programa da Sport Tv, onde é comentador

Chainho com os colegas do programa da Sport Tv, onde é comentador

D.R.

Gosta de ser comentador?
Adoro. A Bola Tv foi importante para mim. Estive na coordenação do projeto da Dragon Force Lisboa, uma escola. Correu bem. Depois fui treinador também.

Quando é que tirou o curso de treinador?
Tirei o primeiro curso na Madeira. Depois os cursos estiveram muito tempo fechados. No ano passado resolvi candidatar-me e fazer o 2º, agora vou para o 3º.

E quando é que terminou o 12ª ano?
Há dois anos. Estudava à noite no ensino normal. Tinha uma disciplina em falta, Psicologia, e resolvi terminar. Para não ficar à espera das Novas Oportunidades, resolvi candidatar-me ao ensino normal e terminei.

As suas experiências como treinador foram onde?
No Tondela, com o Álvaro Magalhães, primeiro ainda no Naval também com ele e depois fui com o Domingos para o Vitória de Setúbal. Já tive propostas, graças a Deus tenho muitas propostas para projetos de tudo o que é área, mas o meu objetivo é apanhar um clube da CNS (campeonato de Portugal) de Lisboa e continuar com a SportTV. Quero ir com calma.

Qual é o seu maior sonho? É treinar um clube da I divisão?
Vou ser sincero. Eu sei que sou um indivíduo que tem muita capacidades, tenho confiança também. Sei as minhas limitações, sei aquilo que posso fazer. Não sou nenhum obtuso, sou um indivíduo inteligente, sei estar no campo, sei trabalhar no campo, sei estar fora do campo, sei ser justo. Não sou vaidoso e o objetivo é ir devagarinho. Sei que vou lá chegar.

Lá chegar onde, a técnico principal?
Sim. Eu só não sou técnico principal porque fui adjunto de pessoas que são credíveis, são pessoas com quem aprendi. Mas agora, neste momento, sou comentador da SportTV, as coisas estão a correr bem, ganhámos um prémio no ano passado do melhor programa, é uma experiência fantástica.

Uma selfie com a mulher

Uma selfie com a mulher

D.R.

Que idade têm agora os seus filhos?
15 e 13 anos, estão a estudar, os estudos estão a correr bem e o Diego joga futebol, acho que tem jeito.

Como é o seu dia a dia?
Neste momento o meu dia a dia é levar os miúdos à escola, treinar, tentar perder peso, e tentar ficar fit. Preparo o programa e faço formação. Ajudo a minha mulher na escola, estou sempre disponível. Tenho tempo para mim, tenho tempo para me organizar.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Foi em Espanha no Zaragoza e no Panathinaikos.

Onde é que investiu esse dinheiro?
Investi em imóveis, na formação, na escola da minha mulher. Nunca fui muito de esbanjar. Investi na casa que tenho. Obviamente que preciso de trabalhar como toda a gente.

Qual é o seu maior sonho?
O meu maior sonho é ver os meus filhos bem, e a minha mulher bem, e eu bem. Eu deixei de pensar muito no futuro. É dar a estabilidade e a formação aos meus filhos, e acho que estamos a dar. É o meu pai ainda estar vivo comigo e os meus sogros.

Se não fosse jogador de futebol seria o quê?
Safava-me. Sei lá. Com as capacidades que eu tinha. Tinha ai um negócio. Quando era miúdo eu fui vendedor, ia para a Feira da Ladra vender coisas e fazia dinheiro, comprava cd’s, regateava. Tinha vizinhas que às vezes precisavam de dinnheiro e tinham coisas antigas, elas passavam-me as coisas, eu vendia e depois dava-lhes uma percentagem.

Tem pena de não ter estudado mais?
É o que estou a fazer agora. Estamos agora na parte da fisiologia mecânica, na parte da psicologia, no curso de treinador. Trabalhamos muito, um jogador de futebol não é só tático.

Chainho em baixo, à direita, na seleção de Sub-21

Chainho em baixo, à direita, na seleção de Sub-21

D.R.

Qual foi o treinador que mais o marcou?
O Fernando Santos, sem dúvida. O Cajuda, o Quim Zé e o Móia do Casa Pia também me marcaram bastante.

Fala-se muito da influência dos empresários nas equipas…
Há empresários e empresáriso. Há empresários, como o Jorge Mendes, que beneficiou muitas equipas, que põe muita gente a ganhar dinheiro. O Jorge Mendes e outros. Há empresários fantásticos. Temos o Carlos Gonçalves, temos o Ulisses, o Pedro Cordeiro, temos muitos aí.

Mas eles têm influência direta nas equipas?
Não, não é assim. Há empresários que são bons e empresários que são maus. Eu vou ser sincero, não conheci empresários maus, não tenho razão de queixa dos empresários. Agora temos equipas que dependem dos empresários, mas se eu aceito… Acho que o importante é pôr tudo no papel. Obviamente que se sou um empresário investidor, vou falar com um clube profissional e digo eu meto cá dinheiro mas 80% dos jogadores são meus. Se o clube aceita…tem de cumprir, mais nada.

E seleção? Quando foi chamado pela primeira vez?
Tinha 20 anos, foi para a seleção Sub-21.

Quem era o treinador?
O Nelo Vingada.

Nunca jogou na seleção A.
Não. Fui convocado mas não joguei. Sempre me considerei um jogador de seleção. Há jogadores que jogaram muito tempo na seleção e que não tinham a minha qualidade.

Porque é que não conseguiu?
Porque na altura era a geração do Figo, Paulo Sousa e do Rui Costa, era diferente. Era um panorama diferente. Há uma altura que fui chamado à seleção B, estávamos no FCP e a seleção B ia ter com a seleção A. Mas o FCP precisava de mim naquela altura e abdiquei. Até a minha mulher disse que devia ter aceite. Mas na altura fiz o melhor. Achei que o clube precisava e, sinceramente, também pensei que depois acabava por ser chamado à seleção A. É a única coisa de que me arrependo na altura. Obviamente que tenho pena de não ter jogado pela seleção principal, mas não é isso que tira o encanto na minha carreira. Sou dos jogadores que mais jogos têm e eu considerei-me sempre um jogador de seleção.

Com a mulher e os dois filhos

Com a mulher e os dois filhos

D.R.

Agora torce por quem?
Sou portista agora. O Porto marcou-me muito. Sou Dragão de Ouro. Tornei-me portista, o meu filho, a minha filha e mulher também. Mas quando as equipas portuguesas jogam fora, sou das equipas portuguesas.

Que hipóteses temos no Mundial?
Vai ser mais difícil, mas somos considerados uma das equipas favoritas. Somos campeões europeus, somos sempre favoritos.

Quem foi o melhor jogador de todos os tempos?
Para ser justo, o Maradona. Porque para mim o Maradona foi um rock star. Pélé também. Eu falo muito daquilo que vi. Eu tenho a alcunha de Pélé por algum motivo. Mas o único jogador de quem tive posters, foi do Maradona. Maradona era rock star. Foi com ele que as pessoas passarama ver futebol de maneira diferente. Futebol conectado com música, com arte, foi através dele. Eu vivi isso. Obviamente que temos o Eusébio, o Pélé, o Cruijf que ainda vi jogar ao vivo várias vezes, temos agora o Cristiano Ronaldo, o Messi, o Zidane, o Figo… Mas o Maradona para mim é o melhor da história.

De onde vem a sua alcunha de Pelé?
Dos tempos da escola. A minha mulher trata-me por Pelé, a minha mãe tratava-me por Pelé, desde miúdo, o meu pai trata-me por Pelé O meu nome é Carlos Narciso Chainho, mas tenho vários nomes. Há quem me trate por Carlos. Mas as pessoas mais chegadas tratam-me todas por Pelé.

Mas porque é que lhe deram essa alcunha?
Era habilidoso na altura, fazia bicicletas e no bairro destacava-me.