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Lito: “Na Líbia, quando se zangavam no trânsito tiravam a kalashnikov e davam uns tiros nos pneus uns dos outros”

Lito Vidigal está com 48 anos e acredita que um dia vai treinar um dos grandes em Portugal, para ser campeão. Com passagens por todas as divisões, tanto como jogador como treinador, assume que o Belenenses tomou-lhe o coração e recusa falar da vida pessoal. Mas conta como foi chegar a Vidago, onde nevava, quando veio fugido de Angola com a família

Alexandra Simões de Abreu

Tiago Miranda

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Nasceu em Angola, no Lubango, no seio de uma família numerosa. Quantos irmãos?
Somos “só” treze. Nove rapazes e quatro raparigas. Sou o do meio.

O que faziam os pais?
Os meus pais eram e são uns craques. Eram e são campeões independentemente daquilo que fizessem e fizeram a vida toda.

Mas profissionalmente...
Tinhamos propriedades. Os meus pais tinham terras, éramos agricultores. O meu pai também era carpinteiro.

Veio para Portugal com cinco anos. Do que é que ainda se lembra de Angola?
Lembro-me da minha casa e da zona circundante.

Há alguma coisa de que tenha mais saudade?
Eu não gosto de ter saudades. Vivo o dia a dia e estou à espera do amanhã. Mas é o amanhã, não é o amanhã para daqui a duas semanas. Tento aprender com as coisas que já vivi, mas não gosto de ter saudades.

Não há um cheiro, um sabor, um som, que o remeta de imediato para Angola?
Não é dessa forma que eu penso. Eu queria dar qualquer coisa de mim a Angola, porque vim de lá muito novo. Acabei por jogar na selecção nacional. Foi no momento de viragem, a seleção cresceu nessa altura. Depois, voltei também como selecionador e se calhar em ano e meio fizemos os melhores resultados no ranking da FIFA. Não são saudades, não são os cheiros, mas era algum sentimento de dever e nisso já me sinto realizado. Tanto como jogador, como treinador, dei algo de mim e acho que devolvi alguma coisa a Angola.

Quando veio, foi logo viver para Elvas?
Não, estivemos um ano no norte, em Vidago.

Porque é que foram para norte?
Nós não escolhemos, fomos refugiados de guerra. Quando rebentou a guerra civil tivemos de vir embora, fugimos. Saímos de Angola numa caravana de camiões e carros, e fomos parar à Namíbia. Lá, apanhamos um avião e viemos parar a Lisboa. Quando chegámos meteram-nos num autocarro e fomos parar a Vidago.

Conheciam alguém naquela zona?
Não. Vivemos num hotel durante um ano.

O que é que recorda dessa experiência?
Quando somos crianças não gostamos ou deixamos de gostar, adaptamo-nos. Mas lembro-me que comecei a ir à escola. E lembro-me que chegámos em janeiro ou fevereiro e estava a nevar. Foi um contraste giro. Quando fugimos, viemos com a roupa que tínhamos no corpo e eu lembro-me que tinha calções e chinelos.

Passou frio?
Eu acho que sim, mas não me lembro. Nós tínhamos o hábito de andar de t-shirt, calção e chinelos ou ténis e quando chegámos aqui, por muito frio que eu tivesse, aquele hábito levou tempo a alterar. Eu ia para a escola de calção, a nevar, e os professores e as senhoras na rua ficavam arrepiadas. A minha mãe às vezes batia-me porque queria que eu vestisse calças, mas gostava era de andar de calções. Era sempre uma dificuldade de manhã.

Lito Vidigal (primeiro à esquerda, em pé) na altura em que chegou a Elvas

Lito Vidigal (primeiro à esquerda, em pé) na altura em que chegou a Elvas

D.R.

Como e quando é que se dá a ida para o Alentejo?
O IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais) deu um ano para toda a gente encontrar o seu caminho e nós fomos parar a Elvas porque tínhamos umas pessoas conhecidas lá.

Tinham família em Portugal?
Não. O pai do meu pai era português e o pai da minha mãe também. Um dos meus avôs era de Montemor e outro da Madeira. Mas tanto o meu pai como a minha mãe já nasceram em Angola, não havia muita ligação.

Essas pessoas conhecidas em Elvas...
Eram nossos vizinhos em Angola. Os meus pais tentaram saber o paradeiro deles e começaram a contactar-se. Havia mais umas três ou quatro famílias em Elvas que eram nossos vizinhos em Angola e acabámos por ir para lá.

Como foi esse recomeço?
As famílias numerosas têm que partilhar tudo. Momentos bons e menos bons. Partilhámos a alimentação, o quarto, os brinquedos, tudo. Não éramos exceção. As minhas irmãs tinham um quarto para elas e os irmãos dormiam em dois quartos. Em beliches.

Costumavam pregar partidas uns aos outros?
Sim, o normal. Eu gostava mais de me rir das partidas, acho que não pregava. Era o equilíbrio no meio daquilo tudo.

Denunciava os que as pregavam?
Não, às vezes brincava com a situação ou dava um aviso, deixava nas entrelinhas. Não dizia, porque não sou de andar a entregar, mas deixava um alerta para ver se a pessoa que estava a ser vítima conseguia ligar as pontas e descobrir.

O que passaram a fazer profissionalmente os seus pais?
Fizeram tudo. O meu pai voltou a trabalhar na carpintaria, trabalhou na agricultura, a minha mãe idem. Fizeram tudo o que tiveram possibilidades de fazer para o ganha-pão, para ganhar a vida.

Como é que surge o futebol?
Eu acho que a gente já gostava, mas também tem de vir de dentro, é uma questão intrínseca. É mais fácil 20 miúdos partilharem um campo e uma bola, do que partilharem uma bicicleta ou outro brinquedo qualquer. Uma bola fazia a alegria de todos, lá em casa e na vizinhança. Nós próprios construímos um campo, arranjámos forma de fazer a cal para marcar o campo, de fazer as balizas. Criámos ali quase o ambiente de um clube profissional (risos). Nas férias, jogávamos à bola de sol a sol. Os meus pais nunca nos chamavam para comer, os dos vizinhos iam lá incomodar para irem almoçar, nós continuávamos a jogar. Era de sol a sol.

Era bom aluno?
Anos mais tarde, já em adulto, voltei a ter contacto com alguns professores e eles diziam que eu era especial.

Porquê?
Não sei, não lhes perguntei. Disseram e eu aceitei. Tenho uma ideia daquilo que sou.

Lito Vidigal torna-se selecionador de Angola em 2011

Lito Vidigal torna-se selecionador de Angola em 2011

ALEXANDER JOE

Quando é que começa a jogar no Elvas?
Com sete anos. Acho que jogava futebol de salão numa equipa lá do bairro e depois o treinador da escolinha, que na altura eram os infantis A e B, falou comigo e disse para eu ir treinar-me. Disse-me os dias, à 3ª e à 5ª, e eu aparecia para treinar.

Sozinho ou com os seus irmãos?
Ia com um dos meus irmãos. Estou no meio de duas irmãs, estou ali um bocadinho desfasado. O meu irmão mais velho já jogava à bola e o outro a seguir também, já tinham mais idade. Tenho quatro ou cinco anos de diferença deles.

Quem eram os irmãos que já jogavam?
Era o Beto e o Victor. Mas o Victor não chegou a fazer carreira, jogou na III divisão. Tinha talento, mas não estava para aí virado, não queria os sacrifícios do futebol.

Depois do Beto e do Victor foi o Lito?
Sim, eu, o Luís, o Toni e o Jorge.

Depois do Elvas foi jogar para o Fronteirense.
Sim, fui emprestado ao Fronteirense. O Elvas, na altura, estava na I divisão e eu e mais cinco ou seis colegas dos juniores, fomos emprestados ao Fronteirense, que estava na III divisão. Eu já joguei em todas as divisões. Na III, na IIB, na II liga, na I, fui internacional. E como treinador a mesma coisa. No Fronteira aconteceu a melhor coisa da minha carreira.

Conte.
Com 18 anos, parti o perónio e estive um ano sem jogar. Um adversário deu-me uma pancada, parti a tíbia e o perónio, a perna ficou solta. Levei a pancada, caí e quando levantei a perna, o pé ficou no chão. Disse logo: “Este filho da mãe já deu cabo da minha vida”. Depois, estive quatro ou cinco horas à espera no corredor do hospital, mas eu nem sentia as dores. Não sei se era a revolta… Eu só me via a ser jogador de futebol e acontecer aquilo, é difícil. De vez em quanto sentia os ossos a picar por baixo da carne e aí sentia algum desconforto. Nessas alturas, chamava um enfermeiro, dizia que estava a doer, mas não era por causa da dor, era para ter ali alguém perto, para não estar abandonado no corredor.

Foi operado...
Sim e na altura o médico perguntou-me: “Então, isso foi na tourada?”. Respondi que foi a jogar futebol e ele: “Pois agora nunca mais queres saber da bola não é?”. Lembro-me de ter agarrado na bata do homem, de a apertar e puxar para mim, e dizer-lhe para ele fazer um bom trabalho porque eu tinha que ser jogador profissional de futebol. Puseram-me uma placa com 20 ou 30 cm na tíbia com uns seis ou sete parafusos. Comecei progressivamente a fazer a recuperação, mas nesse ano não consegui jogar mais.

Já tinha deixado de estudar?
Já, no 8º ano. Mas não foi por causa do futebol. Foi porque pensei na minha vida e sabia que se continuasse a estudar não ia ter condições de ir para a universidade. Os meus pais não tinham condições de pagar um curso superior. Analisei as possibilidades que tinha disponíveis e percebi que a única profissão que podia ter, era a de jogador profissional de futebol. Percebi cedo que era a única profissão que podia fazer com paixão e que era a única que podia fazer-me subir na vida.

Enquanto selecionador de Angola, durante um jogo da CAN, em 2012

Enquanto selecionador de Angola, durante um jogo da CAN, em 2012

ALEXANDER JOE

Ficou esse ano parado a recuperar da perna e quando é que regressa?
No ano seguinte voltei para o Elvas. Entretanto, o Elvas queria renovar comigo, mas a pessoa que estava incumbida de fazer a renovação ligou-me para combinar um dia, depois adiou, voltou a adiar... E fui-me embora. Assinei pelo Estrela de Portalegre.

Já tinha sido sondado pelo clube?
Sim, já tinham interesse em mim. Atenção que estamos a falar de uma mudança de II liga para a III divisão, mas foi um ano muito importante para mim em Portalegre: foi o ano em que me afirmei e senti que tinha potencial para ser jogador.

Esteve duas épocas no Estrela de Portalegre e vai para o Campomariorense.
O Elvas e o Campomaiorense estavam interessados em mim, mas eu via o Elvas numa curva descendente e o Campomaiorense num curva ascendente, e optei por este.

Tinha empresário?
Não, nunca tive. Fui sempre eu que tratei de tudo, até da rescisão dos contratos eu tratava. Agora é que tenho um advogado para resolver as questões jurídicas, mas sou eu que vou às reuniões.

Do que é que recorda desses anos, de alguém em especial, algum treinador ou jogador?
De toda a gente, mas sobretudo do tio Rui Nabeiro.

Tratavam-no por “tio”?
Eu trato por tio. Eu.

Porquê?
Porque o homem é maior que o próprio nome. Tive um pequeno desaguisado com ele e ele teve uma atitude que, só muitos anos mais tarde, há pouco tempo, é que percebi a grandeza do homem.

Pode contar?
Não. Não vale a pena falar sobre isso. Mas não foi nada de mais. Tivemos um pequeno conflito de interesses e na altura não percebi a atitude dele; mas agora percebo. Percebo a grandeza do Rui Nabeiro. E não é sempre que encontramos gente com essa grandeza.

Nessa altura ainda vivia com os seus pais?
Eu não quero falar muito da minha vida pessoal... Vivia com os meus pais; na altura tinha 23 anos.

Depois de jogar pelo Belenenses, Lito torna-se treinador do clube em 2013

Depois de jogar pelo Belenenses, Lito torna-se treinador do clube em 2013

Tiago Miranda

Como é que surge o Belenenses?
Na altura, o treinador do Belenenses era o (João) Alves. Eu terminava o contrato em Campo Maior, falaram comigo e fui para o Belenenses.

Como é que foi sair da casa dos pais e ir para a grande cidade?
Eu vivia na casa dos meus pais, mas desde os meus 16 anos que era independente. Comecei a trabalhar desde os 13/14 anos. Nos três meses de férias da escola eu trabalhava para comprar os livros, roupa, para comprar as minhas coisas.

Em que é que trabalhou?
Em tudo. Nas obras, no campo, em lojas, em fábricas. Tudo o que fosse possível fazer. E em qualquer dos trabalhos, normalmente era aumentado e promovido. Por isso é que eu digo, sem problema nenhum, que faça o que fizer, eu vou acabar por ser promovido.

Quando veio para Lisboa, foi viver para onde?
Para Linda-a-Velha. Mal cheguei roubaram-me o carro. Mas apareceu dois dias depois.

Foi viver para Linda-a-Velha porquê?
Queria estar perto do estádio para não demorar muito tempo. Ter de viajar mais de uma hora é perder um tempo em que se pode fazer tanta coisa. Normalmente vivo sempre perto do local de trabalho.

Ficou a viver sozinho ou dividiu o apartamento com outro jogador?
Eu vivo sempre sozinho. Tenho muita dificuldade em... eu gosto de partilhar tudo, mas gosto do meu espaço.

Mas casou.
Claro que casei, mas isso não é para falar. Casei, bem casado, tenho duas filhas fantásticas, lindas...mas não quero falar disso. Só vamos falar do que está ligado ao futebol, agora ligado a mim, não me interessa. Muito pouca gente sabe de mim. Isso é uma vantagem e eu quero que continue assim.

Esteve oito anos no Belenenses.
Uma vida. Dez anos de Belenenses, oito como jogador e dois como treinador.

Qual era o clube pelo qual torcia quando era pequeno?
Belenenses.

Sempre foi o Belenenses?
Sim, porque eu nunca tive clube. Como sou dos do meio, tinha alguns irmãos que eram do Sporting, outros do Benfica e então eu dizia sempre que era do FC Porto, e depois já era do SC Braga, depois do V. Guimarães... Inventava sempre um clube para não ser daqueles que eles queriam que eu fosse. Nunca estive próximo de nenhum e então depois... Belenenses.

Foi para p Belenenses com o João Alves. Que mais treinadores é que teve enquanto jogador?
Tive o Vitor Manuel, o Vitor Oliveira, o Marinho Peres, o Quinito, o Cajuda, uma carrada deles.

Qual deles o marcou mais?
Todos.

Não houve algum mais especial?
Todos foram muito importantes.

Qual era o mais chato?
Eu era mais chato que eles todos (risos).

Chegou a jogar com algum dos seus irmãos?
Joguei contra eles todos, mas nunca joguei na mesma equipa. Acho que fui o único que nunca joguei na mesma equipa deles, mas contra.

Era diferente quando jogava contra eles?
Claro que era. Eu queria sempre que eles ganhassem.

Então era complicado...
Mas eu não deixava. Uma coisa é eu querer, outra coisa é eu fazer. Aliás, muitas vezes ganhei eu.

Lito foi treinador do Belenenses durante duas épocas

Lito foi treinador do Belenenses durante duas épocas

FRANCISCO LEONG

De todos os irmãos qual é o mais talentoso para o futebol?
Não sei, talvez o Beto, o mais velho. Era bom mesmo.

Mas aquele que teve maior projeção foi o Luís.
Sim, mas uma coisa é o talento. O talento não tem nada a ver com o entendimento do jogo. O futebol é muito abrangente tem que se dominar muitas áreas, muitas coisas e eu só percebi que o Luís era muito bom jogador depois de o ter treinado. Só quando o treinei percebi que ele era um craque.

Termina a carreira de jogador no Santa Clara.
Sim. Na altura o treinador do Santa Clara era o Manuel Fernandes que já tinha sido meu treinador no Campomaiorense. Fui para o Santa Clara já com 32 anos. Estive tantos anos no Belenenses que quis sair para não me mandarem embora, porque também sei perceber quando é que as coisas terminam e não queria andar a arrastar-me. Não queria ficar lá mais um ano sem jogar e optei por sair porque gostava do clube e não queria ser um problema para o Belenenses. Também não queria que me mandassem embora.

Como foi essa passagem pelo Santa Clara?
Foi boa. Os Açores em termos de beleza natural são um paraíso.

Deixa de ser jogador de futebol no final dessa época. Foi uma decisão difícil?
As coisas comigo não são difíceis, nem fáceis, têm de ser. Eu tenho a certeza de que conseguia jogar mais uns anos, mas uma coisa é aquilo que a gente quer, outra coisa é aquilo que o futuro nos reserva. Acabei a carreira ali e comecei outra.

Por decisão sua ou porque não surgiu mais nada?
Foi por decisão minha, mas se calhar porque não apareceu logo um clube e eu não quis ficar à espera. Preferi preparar-me, preferi fazer os cursos para ser treinador. Mais uma vez achando que, dando um passo para trás, podia dar dois ou três para a frente.

Sempre soube que ia ser treinador?
Eu achava que tinha algumas condições para ser treinador, mas tem que se ir devagar. O segundo nível fiz em Beja, já estava outra vez em Elvas. Ia e vinha todos os dias às duas/três da manhã, porque o curso era à noite. O terceiro e quarto níveis fiz mais tarde, já em Rio Maior. Fui fazendo a formação de forma progressiva, porque a minha carreira foi muito ascendente, foi muito rápida. E, de repente, estava a treinar a IIB e apareci a treinar na I.

Começa no Elvas.
Sim, onde comecei como jogador também. Aliás foi isso que pensei. Se um dia tivesse a possibilidade ou quisesse ser treinador ia começar por baixo, até porque sou uma pessoa reservada, mantenho o meu espaço, as minhas ligações são poucas, mas boas. Sabia que ia começar a minha carreira como comecei a de jogador, por baixo.

Voltando um bocadinho atrás… Foi chamado à selecção de Angola ainda como jogador…
Estava no Belenenses. Eu sentia que tinha algum dever para com Angola e acabei por concretizar esse sentimento quando fui jogar pela seleção e completei-o quando fui como treinador.

Quando foi chamado não lhe passava pela cabeça jogar por Portugal?
Uma coisa são os sonhos, outra é a realidade. É muito difícil um jogador que está a jogar no Belenenses, a não ser raras excepções, ser chamado à seleção. Normalmente os jogadores que eram convocados para a seleção nacional eram do Benfica, do Sporting e do FC Porto. E eu apareci a jogar no Belenenses já com 26/27 anos, numa fase muito tardia.

Como é que foi essa experiência de jogar pela seleção de Angola?
Foi boa em todos os aspectos. Fizemos apuramentos para o CAN (Campeonato das Nações Africanas), acho que fomos a dois CAN e fizemos apuramentos para o Mundial também. Na altura o selecionador era o professor Neca. Foi ele quem subiu a fasquia na seleção, organizou as coisas e a partir daí foram lançadas as bases para Angola ter ido a uma fase final do Mundial.

Tiago Miranda

Estava a contar que se iniciou como treinador no Elvas. No primeiro dia já levava o treino na cabeça?
Não pode estar só na cabeça. Tem que estar na cabeça e tem que estar documentado. Não se pode brincar. Não se podem inventar as coisas na hora, têm que ser organizadas e preparadas. É uma profissão muito difícil, muito dura. A maior parte das pessoas não têm noção do que é ser treinador.

É mais difícil ser treinador?
É muito mais difícil ser treinador. Os jogadores e os treinadores partilham o balneário, partilham as mesmas ambições, os mesmos espaços, mas trabalham em profissões completamente diferentes. Ser treinador não tem nada a ver com ser jogador, não tem ligação nenhuma. É totalmente diferente.

É mais difícil porquê?
Se eu tivesse que enumerar tudo aqui.... É muito mais difícil.

Não consegue dar um exemplo?
Não ia dar um exemplo, ia dar mil. É muito mais difícil mas eu sabia que ia ser melhor treinador do que jogador.

Porquê?
Porque tinha mais tempo. Eu apareci como jogador na I divisão com 26/27 anos e sabia que como treinador ia chegar muito mais cedo; ia ter mais tempo para ser melhor. Como jogador não tive tempo para ser melhor, tive que me virar.

Não foi melhor jogador porque não teve tempo?
Não estou a dizer que a culpa foi disto ou daquilo. Mas as auto-estradas em Portugal foram construídas há pouco tempo. Na altura em que eu jogava nos juniores em Elvas, para se chegar a Elvas tinham que se fazer cinco horas de viagem. Quem é que ia ver o Elvas jogar, lá no fim do mundo, no alentejo profundo, no interior, na raia, ao lado de Badajoz? Até Évora ainda faziam o sacrifício de ir, agora até Elvas... A energia despendida foi muito maior. Eu tive que gastar muito mais energia para fazer a minha carreira de jogador, do que gasto energia como treinador. Não estou a dizer que não tenha que trabalhar muito, e que não seja duro e difícil, mas a energia despendida foi muito mais difícil como jogador.

Sofreu na pele os problemas de viver no interior.
Eu não sofri, eu aprendi.

Como é que vai parar, como treinador, à Madeira? Primeiro no Portosantense e depois no Pontassolense?
Quando fui treinar o Elvas, o clube estava nos últimos lugares e terminamos a época nos primeiros cinco lugares. O Portosantense subiu de divisão e das duas vezes que jogámos com o Portosantense, tanto em casa como fora, ganhámos. Nessa altura eles falaram comigo, só que eu continuei no Elvas. E queria continuar no Elvas, achava que não devia mudar. Mas depois o Portosantense subiu de divisão, começou mal a época e insistiram muito comigo. Acabei por ir.

Foi sozinho ou foi com a família?
Fui sozinho.

Entretanto muda-se para o Pontassolense.
Sim. Achei que a minha vontade, a minha ambição era muito maior do que a do Portosantense. Eu era treinador há dois/três anos e tinha necessidade de um auto-conhecimento maior. Queria saber se realmente tinha qualidade para esta profissão. Precisava de alguma coisa muito, muito difícil. E se calhar fiz a pior asneira da minha carrreira.

Como assim?
Porque queria desafiar-me. Tinha começado no Elvas com resultados muito positivos, no Portosantense também tive resultados muito positivos. Entretanto apareceram-me alguns clubes da IIB, e eu decidi ir para o clube que estava mais mal posicionado, que estava em último. Senti que era um risco que tinha de correr. No final salvámo-nos no último jogo e percebi que não havia necessidade nenhuma de ter sofrido tanto. Não era isso que ia fazer a diferença. Mas pronto, vivi esse momento.

Ficou no Pontassolense na época seguinte?
Na época seguinte ficámos em primeiro.

Mas volta a Elvas.
Mais ou menos a mesma coisa. Achava que tinhamos ambições diferentes, eu queria qualquer coisa mais, e as pessoas na Ponta do Sol... eu percebo-as, elas se calhar não estavam preparadas para acompanhar uma ambição maior. Regresso ao Elvas. Como era o clube da minha terra... não podia dizer que não. Mas disse-lhes que estivessem preparados porque eu podia estar ali apenas uma semana. Disse-lhes que tinha como certo que dali a dois ou três jogos ia aparecer um clube da IIB, no mínimo, a contactar-me. Chegamos a acordo. Quatro ou cinco jogos depois apareceu o GD Ribeirão que estava mal classificado. Estava em último e eu acabei por ir para o GD Ribeirão e terminámos em primeiro.

A orientar a seleção de Angola durante um jogo

A orientar a seleção de Angola durante um jogo

ALEXANDER JOE

Segue-se o Estrela da Amadora. Como surge o convite?
Diretamente do presidente. Foi ver alguns jogos, começámos a conversar e acabámos por fazer contrato.

Foi um grande salto.
Foi.

É nessa altura que treina o seu irmão?
Sim, foi nessa altura que treinei o Luís.

Foi complicado?
Não, foi fácil. A única coisa que disse ao Luís foi: “Tens que ser muito melhor do que os outros, porque se fores igual eu não te ponho a jogar”. E estava a falar com um internacional A, que tinha feito umas sete épocas na série A italiana.

Ele percebeu e aceitou bem.
Claro. Nem ele estava à espera que eu atuasse de outra forma.

Mas as coisas não correram muito bem acabou por “bater com a porta”.
As coisas correram bem. Em termos desportivos então foram brutais. Quando eu saí do Estrela, estávamos em 5º ou em 6º, um clube que todos os anos lutava até à última jornada para não cair. Não sei se chegámos a receber algum ordenado ou não. Todos os dias tinha uma pequena reunião com os jogadores. Marcava o treino e às vezes já estava no campo e vinha um dos capitães chamar-me para dizer que tinhamos que conversar, que estavam a pensar fazer greve. Foi um ano muito difícil nesse aspecto.

Esse foi o seu desafio maior a nível de balneário?
Não. Esse ainda está para vir. Também há muita beleza nas dificuldades. E esse foi um ano lindo, foi um ano fantástico e o mais bonito desse ano foi que a maioria dos jogadores do Estrela, se não todos, conseguiram melhores contratos no ano seguinte. Os que saíram do Estrela foram para clubes melhores e mais bem remunerados.

Na altura vem embora e diz que é para proteger os jogadores, porquê?
Porque as pessoas que tinham a responsabilidade do clube andavam há algum tempo a dizer-me que iam pagar no dia tal, e nada. Sempre pedi serem honestos, se não tivessem dinheiro que dissessem, que eu falava com os jogadores e continuávamos a trabalhar à mesma. Dei a cara, disse aos jogadores que me tinham dito que no dia tal iam pagar. Quando chegou a data e as pessoas não cumpriram, fui embora. Dei a cara pelos jogadores na altura, tinha que sair depois.

Foi enganado?
Não, não fui enganado. Se calhar as pessoas que deram uma data também foram enganadas por outro e por outro. Não vamos ver as coisas dessa forma. Não se conseguiu cumprir aquilo que foi prometido ou falado. Foi só isso.

Como é que os jogadores reagiram?
Pediram para não sair, mas não havia volta a dar. Da mesma forma que tinha dito aos jogadores que tinham que ir trabalhar até aquela data, depois também não conseguia continuar porque quase os forcei a trabalhar.

No dia em que é apresentado como treinador do Al lttiha Tripoli, da Líbia

No dia em que é apresentado como treinador do Al lttiha Tripoli, da Líbia

MAHMUD TURKIA

O que fez a seguir?
Estive uns tempos a pensar no que tinha sido a minha carreira até ali. Fiz uma pequena pausa, uma introspecção, por onde é que eu podia evoluir, o que é que eu podia fazer... Queria ter ficado mais tempo quieto, mas acabei por ir para Portimão porque pediram-me muito e não consegui dizer que não a essas pessoas.

Como é que foi essa época e meia no Portimonense?
Duríssima porque o clube estava em último e tinhamos só sete ou oito jogos para fazer. Havia pouco tempo. Passei muitas noites em claro.

Muitas noites em claro porquê?
Porque tinha saído do Estrela, tinha lutado tanto para chegar à I divisão, e as coisas só não funcionaram por aqueles motivos que falámos, porque os resultados foram espetaculares. E depois de andar a lutar tanto para chegar à I Liga, volto para a II Liga e num clube que está a lutar para não cair…

Sentiu que estava a ser prejudicado não por culpa sua e que tinha de voltar atrás novamente...
Não vejo que isso seja prejudicial. Vejo as coisas sempre como uma aprendizagem. Tiro ilações positivas, tento aprender com esses momentos. Não olho para eles como coitado de mim. Olho como um teste que teria de passar.

Entretanto, continua no Portimonense.
No ano a seguir fazemos uma equipa com jogadores que já conhecia da III divisão e da IIB, procurei jogadores nos campeonatos amadores e o Portimonense subiu de divisão, para a I Liga.

Mas vai para Leiria, porquê?
Nesse ano em que estava a treinar o Portimonense no mínimo cinco equipas da I Liga, contactaram-me. A U. Leiria foi a 5ª o 6ª equipa a contactar-me, e eu disse ao presidente do Portimonense que já eram muitas equipas… Se não aceito uma delas, as pessoas começam a achar que eu acho que não tenho potencial para estar na I Liga. Posso dizer que não a uma equipa, agora a cinco ou seis... Não posso fazer isso. O presidente do Portimonense acabou por compreender. Despedimo-nos a chorar, eu, o presidente, a mulher dele. Temos uma boa relação.

Como foi em Leiria?
Ficamos para aí em 6º. Estivemos a rondar a Liga Europa. Foi um ano em que o clube estabilizou porque tinha subido no ano anterior.

Porque é que não ficou lá?
Sei lá, podia estar aqui a dizer tantas coisas... não fiquei porque na altura o presidente tinha ambições diferentes das minhas. Na altura se calhar eu tinha uma ideia de um projeto e ele tinha outra. Resumo assim.

Já como treinador do Arouca em 2016

Já como treinador do Arouca em 2016

FERNANDO VELUDO

E torna-se selecionador de Angola.
Sim, pouco tempo depois. Quando joguei lá, já sabia que também ia ser treinador da seleção.

Sabia como?
Sabia. Não sei bem como, mas sabia.

Era algo interior?
Era. Quando eu digo que sabia era nesse sentido. Da mesma forma que sei que vou treinar os clubes grandes aqui em Portugal, o Benfica, o Sporting e o FC Porto.

Como é que foi regressar, era uma Angola muito diferente?
Sim, muito mais preparada, muito diferente daquela que eu encontrei quando fui como jogador, mesmo em termos de organização na federação, totalmente diferente, muito melhor. Terminamos em 1º do grupo e fomos apurados para o CAN da Guiné Equatorial e do Gabão, e não fomos às meias finais por causa de um golo. Foi uma pena. Mas fizemos uma campanha fantástica. Subimos 80 e tal lugares no ranking da FIFA, foi a maior escalada da história do futebol angolano.

Treinar um clube é mais difícil do que treinar uma seleção?
No clube tem-se mais tempo para trabalhar. Na seleção tem-se muito tempo para organizar e pouco para trabalhar. Só temos três/quatro dias para preparar o jogo e jogar. Temos um mês, às vezes mais para preparar a organização do jogo, as convocatórias, os locais onde vamos trabalhar, para analisar os jogadores antes de os convocar. Mas depois o trabalho de campo é menor. No clube é ao contrário.

Qual prefere?
Eu gosto de treinar. Tanto me dá. Mas foi uma experiência que gostei. Achava que só ia treinar a seleção de Angola depois de treinar aqui os clubes grandes. Depois de já ter mais experiência. Mas aconteceu o inverso. Agora estou à espera dos próximos tempos, vou treinar aqui um dos grandes em Portugal.

Diz isso com muita certeza.
Porque é o que vai acontecer.

É?
É.

Mas já tem contactos?
Não. Não há contactos, não há nada. É o que tenho dentro de mim. Eu sei que vai acontecer, é o fruto do meu trabalho.

Tem uma convicção enorme!
Não é só treinar um grande. Eu vou treinar um grande para ser campeão. Não quero ir lá só por passagem. Quero preparar-me para quando essa oportunidade vier ao meu encontro eu estar pronto para chegar e ser campeão.

Sente que já está preparado?
Preparo-me todos os dias para isso, é uma questão de tempo. Quando aparecer a oportunidade, estou pronto.

FRANCISCO LEONG

A seguir a Angola foi para a Líbia. Foi sem hesitar?
Aí pensei um bocadinho, mas fui porque o clube era grande, dava-me possibilidades de lutar para ser campeão e se o meu propósito é ser campeão aqui em Portugal, interessava-me treinar esses clubes para ganhar experiência e maturidade.

Como é que foi a experiência com uma cultura diferente, uma língua diferente?
A minha preocupação é sempre a mesma, fazer o meu trabalho. Fui lá para trabalhar. Não tenho muito tempo de convívio com as pessoas que estão fora daquilo que é o meu trabalho. Era hotel, treino, treino, hotel. Como bons animais que somos, conseguimos adaptar-nos. Desde que haja vontade.

O que é que o chocou mais?
A mim não me chocou nada, agora que as coisas são diferentes são. Temos que respeitar essas diferenças. É no respeito das diferenças que está a virtude.

Não houve nada que lhe fizesse mais confusão?
Confusão não fez, mas andarem aos tiros na rua... Na estrada, de vez em quando havia uns que quando se zangavam não trocavam impropérios, tiravam a kalashnikov e davam uns tiros nos pneus uns dos outros.

Viveu alguma situação dessas?
Sim vivi, bem perto. Mas como não tinha nada a ver comigo...

Não sentiu medo?
Medo, eu já não tenho idade para ter medo (risos). Eu respeito tudo, mas temo muito pouco as coisas. Não tenho tempo para ter medo. Vou ter medo porquê?

De levar um tiro, por exemplo...
Não (risos). Pode achar estranho, mas não tive medo, nem tenho medo. Quando as coisas têm que acontecer, acontecem. Se calhar há alturas em que podes ser apanhado desprevenido e assustas-te um pouco, mas medo...se tivesse medo não ia para lá. Fui, respeitando toda a gente, e acima de tudo compreendendo que podia acontecer uma situação daquelas.

Quando vai para fora leva uma equipa sua ou vai sozinho?
Tento sempre levar o máximo de elementos da minha equipa. Às vezes não é possível porque o clube não tem condições ou não quer tantos. Vai sempre alguém da minha equipa. Se calhar não tantos como eu queria, mas têm ido sempre.

Porque é que não ficou na Líbia?
Porque o campeonato não chegou a iniciar. Fizemos estágios e andamos a jogar nas competições africanas, mas o campeonato nunca iniciou porque não havia condições de segurança. Acabei por ir embora, não havia competição, o que é que ficava lá a fazer?

FRANCISCO LEONG

A seguir vai para o Chipre.
Para o Chipre fui porque o diretor desportivo na altura era português e falou comigo diretamente. Era o Júnior, jogou no Estoril, terminou a carreira no Chipre e acabou por ficar lá como diretor desportivo. O intuito foi o mesmo. Era um dos clubes grandes, tinha condições para lutar pelo título. Tenho pena de não ter terminado, porque tínhamos uma equipa gira, quando saí, estávamos em 1º ou 2º, e se calhar tínhamos condições de ganhar o título. Mas a direção quis fazer algumas alterações, e queria que fosse eu a fazê-las. Eu achava que não devia, porque não acreditava naquelas alterações e acabei por ir embora.

Vem antes do convite do Belenenses?
Sim.

Quem o contacta do Belenenses?
O Rui Pedro Soares. Ele insistiu muito. Ele nem de carro andava e foi duas vezes de carro a Elvas falar comigo. Eu estava lá, no Alentejo, a preparar-me para o embate seguinte e acabei por aceitar aquele desafio, que foi duríssimo também.

As coisas correram bem porque no segundo ano conseguiu levar o Belenenses ao 4ºlugar.
É verdade. Foi esse o momento que acabou por alavancar outra vez o Belenenses e a partir daí o clube continuou já com uma estrutura muito mais forte e tem-se aguentado na I liga. Foi a partir desse momento. Porque naquele ano em que entrei o Belenenses ia acabar por descer de divisão se não déssemos as mãos. Se o Belenenses cai naquele ano já não se erguia mais.

Porque é que não continuou no Belenenses?
(risos) Essa pergunta tem de ser feita ao Rui Pedro Soares. Eu fui despedido. Acabámos por ir à Liga Europa. Mas fui despedido e...são outros quinhentos. O futebol não é só as quatro linhas, não é só dentro de campo... por isso, o melhor é perguntar a ele porque eu também não percebi porque é que não fiquei.

Ele não justificou o seu despedimento?
Não, não justificou. Aliás, se tivesse alguma justificação não me tinha despedido, porque não tinha justificação. Fiz uma campanha fantástica, estava bem posicionado, estávamos a ganhar...

Mas não houve nenhuma discussão antes, nada?
Eu sou homem de conversar, não sou de discutir, não tenho tempo para isso. Sou uma pessoa de soluções, não sou uma pessoa de conflitos.

Entretanto tem um convite do Betis...
Convites há muitos. A seguir vou para o Arouca.

Mas porque não vai para o Betis?
Eles tinham alguns nomes em cima da mesa e um dos mais fortes era o meu. Conversámos. Chegámos a acordo, mas depois, os pormenores...para ir tinha de ir com outras garantias, com outra segurança.

E o Arouca?
Chego ao Arouca quando estão a baixar o orçamento... Só tínhamos um campo para treinar que depois de tanto jogo já não tinha condições, e andámos a treinar naquelas aldeolas ali à volta. Fizemos quilometros e quilometros para podermos treinar e mesmo assim fazemos 5º. Foi uma brutalidade. Ganhar ao Benfica e ao FC Porto, foi uma brutalidade.

Saiu porquê?
Eu não fui embora. Eu terminei a época no Arouca. Aliás, fizemos 5º e fomos apurados para a Liga Europa. A minha equipa sai do Belenenses que faz Liga Europa e vai para o Arouca que faz Liga Europa. Disse várias vezes que se não se estruturasse bem o clube arriscava fazer um ano espectacular e no seguinte descer de divisão. Disse isso publicamente. Acabou por acontecer.

Lito Vidigal confessa que torce pelo Belenenses

Lito Vidigal confessa que torce pelo Belenenses

Tiago Miranda

Como surge o convite para ir para Israel?
Foi um empresário que veio falar comigo. Já tinha falado com responsáveis do Arouca também. Eles não viam aquilo com maus olhos desde que houvesse alguma remuneração ou coisa parecida, e acabei por ir para Israel.

Gostou?
Uma experiência fantástica. Grande país, de gente inteligente. Estão na vanguarda a nível mundial. Tudo o que são descobertas, investigação, estão sempre um passo à frente.

Mas a nível de futebol...
Não tem nada a ver com a nossa Liga. Acho que os clubes que são campeões lá aqui lutam para ficar em 6ª, 7ª lugar.

E foi embora, porque...
Também nem cheguei a perceber e não é altura para falar disso, porque ainda nem pensei bem sobre o que se passou. Não posso falar com certeza sobre esse assunto. Acabou a época e acabámos por decidir a não continuidade. Só isso.

Nessa altura ainda nem sequer tinha o convite do Aves.
Claro que não. O convite do Aves surgiu há pouco tempo. O Aves não é para falar. Há aqui uma guerra grande que ainda agora começou e não vale a pena falar nisso ainda.

Quando saiu de Israel foi viver para onde e fazer o quê?
Voltei a Elvas, a minha cidade natal. A minha vida é em Elvas é onde tenho as minhas coisas, onde tenho o meu património. Aliás, participei na candidatura do atual presidente da Câmara de Elvas, Nuno Mocinhas. Fiz comício com ele e tudo (risos). Foi o que andei a fazer em Elvas, andei a trabalhar para a minha cidade.

Os seus pais ainda são vivos?
A minha mãe. O meu pai faleceu quando eu tinha 26 ou 27 anos. A D. Deolinda já tem 87 anos. Está rija. Está uma craque. Vive sozinha e faz tudo sozinha.

Os seus irmãos estão todos em Portugal?
Sim. Estão todos bem. Trabalham. Mas não falo sobre a vida dos outros.

Tem muitos sobrinhos?
Carradas! Acho que são já quase uns 60. Acho que já sou tio bisavô (risos), é bem possível.

Costumam reunir-se?
Estamos muitas vezes juntos. Quando não está um, está outro.

Tem mais ligação a uns do que a outros?
Não, nem aceito isso. Mas é óbvio que se quiser ter uma conversa mais séria escolho um, se quiser rir-me, escolho outro, se tiver um trabalho para fazer, se calhar escolho outro. Todos somos diferentes. Dou-me bem com todos.

Tem algum hóbi?
Se não tiver, invento. Não tenho nenhum hóbi em concreto, agora não consigo estar algum tempo sem fazer nada, por isso, tento arranjar tempo no meio do futebol para fazer mais qualquer coisa.

De que género?
De vez em quando reabilito umas casinhas velhas lá em Elvas. Eu mesmo faço.

Nasceu com a veia de carpinteiro do seu pai?
Eu vou fazendo é mais de pedreiro (risos). Nem é de pedreiro é de mestre, faço de mestre.

É um investimento para vender depois?
Nao, não vendo nada. Vou remodelando aquilo aos poucos. Quando tenho tempo passo o tempo ali. Mas já chega de falar disso.

Quando foi para fora nunca levou a família consigo?
Não. A vida de treinador é muito diferente da vida de jogador. É uma vida de saltimbanco.

Tem uma ligação especial com o prof. Neca. Como surge?
O prof. Neca é um craque. Trabalhámos juntos na seleção e, depois disso, o professor sempre teve umas palavras de apreço, simpatia e força. Entretanto, iniciei também a carreira de treinador e de vez em quando cruzámo-nos por esses campos fora, e fomos mantendo contacto. Ele foi falando sempre na possibilidade de trabalhar comigo, não como treinador porque já estava noutra fase, mas estando próximo e podendo ajudar de alguma forma, sendo quase um coach. E as coisas acabaram por acontecer.

Onde investiu o dinheiro que ganhou ao longo da vida?
Em imóveis.

Foi ajudando a família?
Eu acho que andamos neste mundo para nos ajudar uns aos outros, senão, por muito que trabalhemos, por muito que ganhemos, se não partilharmos um pouco desse dinheiro, se não puderes ajudar alguém que esteja próximo, não me parece que esse dinheiro tenha valor algum. Eu pelo menos estou sempre pronto a ajudar de uma forma ou de outra dentro das minhas possibilidades.

Onde ganhou mais dinheiro?
Sempre ganhei bem, porque sempre sobrou dinheiro, por isso ou eu sempre ganhei muito bem ou a vida que faço é muito equilibrada. Sempre ganhei mais do que aquilo que eu precisaria.

O Lito e o Luís foram os irmãos Vidigal com mais sucesso...
Se o sucesso for avaliado dessa forma, de ter mais visibilidade, talvez tenhamos sido. Agora, o sucesso é aquilo que queremos da vida, se calhar outros não tiveram tanta visibilidade mas conseguiram os objetivos deles e ter mais sucesso até do que outros.

Alguma vez chorou com um jogador?
Não choro muitas vezes. Eu até gostava de chorar mais vezes.

Porquê?
Porque é um sentimento que devemos expressar. Se calhar não choro tantas vezes como gostava.

É uma pessoa muito reservada.
Gosto do meu espaço. E se sou reservado não tenho de responder a isso (risos).

Gosta de viver sozinho?
Gosto. Gosto de estar com toda a gente, mas prefiro estar no meu espaço. Depois se quero estar com alguém, ligo. Não sou uma pessoa expansiva.

Tem alguma história que possa partilhar?
Quando comecei a jogar na seleção de Angola, nos anos seguintes muitos jogadores portugueses que tinham alguma ascendência angolana também foram convocados. Quando chegavam a pancada era muito grande. Não estávamos habituados àquele ambiente. Chegar lá e no primeiro treino ter logo 25 mil pessoas... é uma pancada grande. E houve alguns jogadores com qualidade, que jogavam aqui em boas equipas, chegaram lá e bloquearam.

Alguma vez pensou em voltar a viver em Angola?
(Pausa) Acho que ainda tenho qualquer coisa para desenvolver em Angola, há mais para fazer em Angola. Mas é no sentido social.