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A casa às costas

Luís Boa Morte: “Fui ajudante de eletricista, nas obras. Acordava às seis da manhã, ia com o farnel atrás e aquecia o comer na fogueira”

Apesar de ter nascido em Lisboa, durante anos pensaram que não tinha documentos portugueses e por isso não era chamado à seleção, Passou 17 anos em Inglaterra, diz-se organizado e considera vergonhoso o que se está a passar no futebol português. Confessa também que já não vai aguentar muitos anos como observador do Arsenal, até porque o que quer mesmo é ser treinador de seniores

Alexandra Simões de Abreu

Nuno Botelho

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Os seus pais são de S. Tomé e Príncipe, mas ao contrário do que muita gente pensa o Luís nasceu em Lisboa, certo?
Sim.

Tem quantos irmãos?
Da minha mãe e do meu pai somos sete, duas raparigas e cinco rapazes, eu sou o penúltimo. Depois tenho meios irmãos só da parte do meu pai. O meu pai já tinha alguns filhos antes de conhecer a minha mãe.

Cresceu onde?
Nas Paivas até aos oito anos e depois fui para um bairro social na Arrentela, onde fiquei até ir embora para Inglaterra, aos 19 anos.

O que faziam os seus pais?
O meu pai era alfaiate e trabalhava nos cruzeiros e a minha mãe era cozinheira.

Passou dificuldades?
Dificuldades sempre tivemos, mas não nos faltou nada, porque os meus pais faziam o possível e o impossível para que não nos faltasse nada. Tivemos alturas em que a minha mãe saía muito cedo para o trabalho, o meu pai estava fora a trabalhar, e nós tínhamos duas carcaças para comer durante o dia, até a minha mãe voltar e fazer o jantar. Muitas vezes o meu lanche era ir à horta do meu pai, apanhar tomates, fatiá-los, colocar azeite e sal. Ajudou-nos a crescer.

Boa Morte nos juniores do Sporting. É o segundo em pé, a contar da esquerda

Boa Morte nos juniores do Sporting. É o segundo em pé, a contar da esquerda

D.R.

Quando começa a jogar futebol?
Com oito anos comecei a jogar futebol de salão nas Cavaquinhas. Aos 10 anos fui treinar à experiência ao Arrentela, futebol de 11, e fiquei.

Algum dos seus irmãos joga ou jogou futebol?
O mais novo, Bruno Leal, também fez parte do Arrentela, também passou pelo Sporting e depois foi para Inglaterra, onde esteve no Southampton. Tenho outro mais velho, o Jacinto, que também jogou, mas nas antigas III e II divisões, em Portugal.

O Luís entretanto vai para o Sporting.
Sim, ia fazer 12 anos. O meu irmão mais velho, Abel, viu um anúncio no jornal de captações no Sporting e levou-me. Fiz dois treinos e o Osvaldo Silva disse que queria ficar comigo.

Nessa altura já jogava como avançado?
No Arrentela jogava no meio campo, no Sporting é que passei a jogar no lado esquerdo.

É canhoto…
… só de pés. Sou destro no resto. O meu filho mais velho é assim também, o mais novo é que é esquerdino, esquerdino, e a minha filha é destra.

Como é que ia para os treinos?
Apanhava o autocarro até Cacilhas, depois o barco para a Praça do Comércio, ia a pé até ao Rossio e apanhava o autocarro para o estádio. Ia com um rapaz que também fazia parte da equipa, o David, e que vivia no Miratejo.

Ficou no Sporting duas épocas, mas depois vai para o Cova da Piedade.
Sim, era pequeno, magrinho e dispensaram-me. Cheguei a pensar em deixar de jogar. Foi o meu irmão Jacinto que estava no Piedade que me convenceu a ir para lá.

Ainda estava na escola?
Estava. Mas fiz só até ao 7º ano. Andei no 8º mas ficou incompleto. Eu não gostava da escola. Achava aquilo chato. Não era mau aluno, só que não gostava de estar ali sentado tanto tempo.

Luís Boa Morte com 17 anos

Luís Boa Morte com 17 anos

D.R.

Ficou muito desiludido quando foi dispensado do Sporting?
Sim. Depois decidi deixar a escola, contra a vontade da minha mãe, o meu pai não estava cá.

Como é que ele reagiu?
Quando voltou do cruzeiro não gostou, mas ao mesmo tempo ficou contente por saber que eu não estava sem fazer nada. Comecei a trabalhar quando tinha 14 anos.

Onde?
No verão fui trabalhar para um parque de campismo. Dois dos meus irmãos e uma meia irmã já trabalhavam lá. Como eu só tinha 14 anos e supostamente não podia trabalhar puseram-me no armazém. Fiquei os três meses de verão e à medida que fui conhecendo e ganhando experiência, passei para a padaria, charcutaria. Ganhava um bom dinheiro, 60 contos, e, claro, já não volto à escola.

Lembra-se da primeira coisa que comprou com o seu dinheiro?
Fui à Baixa e comprei umas calças da Lee e umas botas.

Que outros empregos teve?
No final do verão um amigo arranjou-me trabalho numa empresa de reparação de motores de frigoríficos e máquinas de lavar a roupa. Não percebia nada daquilo mas tive que passar a perceber. Ainda fiquei lá quase dois anos. Depois saí e fui trabalhar com um meio irmão, o Silvino, como ajudante de electricista, nas obras. Acordava às seis da manhã, ia com o farnel atrás, quando chega a hora de almoço, aquecia o comer na fogueira. São coisas que nos dão ensinamentos para a vida, passamos a ver a vida de outra forma.

Então hoje é um homem dos sete ofícios dentro casa.
Por acaso não (risos).

Entretanto o Sporting volta a chamá-lo.
As coisas correm bem no Cova da Piedade e o Sporting, o Benfica e o Belenenses ficaram com interesse em mim. O Sporting tinha vantagem porque já tinha jogado no Sporting e poderia rever alguns amigos.

Boa Morte com os pais.

Boa Morte com os pais.

D.R.

Nessa altura o seu coração torcia por que clube?
Vou revelar uma coisa que só a minha mulher e alguns dos meus amigos sabem. Quando eu era miúdo ia com o meu irmão mais velho assistir a todas as modalidades amadoras do Benfica. Futebol só viamos na televisão, quando dava no canal 1. Mas ia assistir ao hóquei, andebol, voleibol, basquete, e portanto nessa altura eu era do Benfica. Claro que depois quando passei a jogar pelo Sporting e comecei a ver os jogos do Sporting ao fim de semana… Já não podia ser do Benfica. Depois, à medida que os anos vão passando fui perdendo aquela simpatia que tinha pelo Sporting. Via os jogos do campeonato português, mas o meu clube passou a ser o Arsenal, porque foi o Arsenal que me levou para Inglaterra.

Quando regressou ao Sporting tinha quantos anos?
17. Fiz dois anos de júnior no Sporting, fui campeão e eu e mais oito fomos emprestados ao Lourinhanense.

Como é que surge o Arsenal?
O campeonato da III divisão correu-nos bem e seis de nós fomos chamados à seleção de sub-20 para ir ao Torneio de Toulon. Eu já tinha sido chamado para os sub-18, pelo Rui Caçador. Só fui chamado naquela altura porque não sei como nem porquê pensavam que eu era de Angola e que não tinha documentos portugueses. Não sabiam, não tinham a certeza mas também não perguntavam. Até que uma vez o mister Carlos Domingos, do Sporting, perguntou ao Caçador porque é que eu nunca era chamado. Foi ele que lhes disse que eu sou português, que tinha nascido em Lisboa. Depois passei a ser chamado.

Como foi o impacto de chegar à seleção?
Era uma coisa que já perseguia há algum tempo. Fui chamado a primeira vez para um jogo amigável com a Itália, na Mealhada. E depois quando estava na Lourinhã fui chamado para ir ao torneio de Toulon, em França. Portugal chega à final e perde. Entretanto sou contactado por um senhor, o Amadeu Paixão, que diz que há um clube do top 5 de Inglaterra que me quer. Meti o Amadeu a falar com o meu empresário, que na altura era o Jorge Gama. Quando chego a Portugal fui conversar com o presidente do Sporting, o Simões de Almeida, para me renovar o contrato com um melhoramento de salário. Eu não queria sair do Sporting, por várias razões.

Que razões?
Tinha 19 anos, estava a começar e com este interesse de um clube inglês no ano seguinte talvez fizesse parte do plantel do Sporting. Eu ainda não sabia qual era o clube inglês interessado. Só quando o Sporting não quis renovar é que fiquei a saber que era o Arsenal e aí disse logo: “Apanhamos o avião já amanhã”.

A primeira internacionalização como sub-18. Boa Morte é o primeiro à direita na segunda fila

A primeira internacionalização como sub-18. Boa Morte é o primeiro à direita na segunda fila

D.R.

Deve ter sido um choque para um miúdo de 19 anos sair de casa dos pais para ir viver para Inglaterra.
Foi um choque em todos os sentidos, a nível futebolístico, social, era tudo diferente.

Ficou a viver sozinho?
Tinha duas meias irmãs em Inglaterra e passava muitos fins de semana com elas, o que me ajudou bastante. Durante a semana estava em minha casa porque tinha treinos. Nas primeiras oito semanas o clube dá-nos hotel para termos tempo de alugar ou comprar casa.

Teve aulas de inglês?
Sim, o Arsenal arranjou-me professor durante seis meses.

O que o impressionou mais no Arsenal?
A qualidade do futebol que se praticava. Chego ao Arsenal e estou ali ao lado do David Seaman, Tony Adams, Dennis Bergkamp, Ian Wright, Overmars, Patrick Vieira, Emmanuel Petit, havia muita qualidade que eu estava habituado só a ver na televisão. De repente estou ali no meio deles. Eu, super pequenininho. Ao pé do Seaman eu parecia um franguinho. Essas coisas não estava à espera e tive que me habituar rápido.

Eles tiveram paciência consigo?
Tiveram e ajudaram-me. Não me posso queixar porque as coisas correram-me bem. Nos primeiros tempo há sempre aquele impacto, mas vamo-nos acostumando e o Wenger sempre teve um papel importante na integração dos mais jovens.

Quando faz o primeiro jogo?
Só faço o primeiro jogo pelo Arsenal em final de setembro, ou em outubro, num jogo da Taça da Liga. A época tinha começado em agosto. Antes já tinha jogado pela segunda equipa, em junho.

Nas duas primeiras épocas fez bastantes jogos, mas depois na terceira...
Na terceira época faço os três primeiros jogos e depois saio para o Southampton.

Porquê?
Para jogar mais.

Foi o Arsenal que o aconselhou a ir?
Não, eu tinha mais três anos de contrato, mas houve outros clubes que mostraram interesse na minha contratação e futebol é mesmo isso. Todos os anos há mudanças, saem uns entram outros.

Luis Boa Morte, ao centro, enquanto jogador do Arsenal

Luis Boa Morte, ao centro, enquanto jogador do Arsenal

Clive Brunskill

Teve uma proposta melhor do Southampton?
A mudança para o Southampton foi mesmo para jogar, porque na altura o que eu procurava era jogar mais. No Arsenal tinha jogado as duas primeiras épocas, mas não tinha feito os jogos que eu achava necessários.

Rescinde com o Arsenal?
Sim. O Southampton comprou o meu passe. O saldo foi positivo enquanto estive no Arsenal porque sou o primeiro português a ganhar o campeonato inglês e a Taça de Inglaterra. E lá não é como em Portugal, onde basta jogar um minuto ou dois e já se é campeão. Em Inglaterra tens que fazer pelo menos 10 ou 15 jogos para te poderes sagrar campeão. Consegui fazer esses jogos, para ganhar a minha medalha e ficar com o meu nome na história do futebol inglês.

Como correram as coisas em Southampton?
Foram correndo bem até março, quando há a troca de treinadores. Saiu o Dave Jones, entrou o Glenn Hoddle e a coisa deixou de fazer sentido.

Não encaixou bem com o novo treinador?
O futebol é mesmo assim. Eu era opção do Dave Jones, jogava sempre e não era opção para o Hoddle. Deixei de jogar, penso que fiz só um jogo com ele. Tive que ir à minha vida e virar-me para outras bandas.

O que aconteceu?
O Glenn Hoddle não foi correto porque não me comunicou que não fazia parte dos planos dele e eu fui ficando. Só na terceira semana de julho é que ele me diz que eu podia arranjar outro clube, quando fui ter com ele para ter uma conversa. Claro que na terceira semana de julho, com o campeonato a começar dali a duas semanas eu já estava em desvantagem. Falei com o Amadeu Paixão e tentámos arranjar uma solução, mas os plantéis estavam preenchidos. Liguei ao Wenger que me aconselhou a permanecer em Inglaterra. Ele fala com o Jean Tigana e fui para o Fulham à experiência.

Estava a ver o seu sonho a desfazer-se?
Claro que tudo o que era bonito, parece que deixa de fazer sentido. Ninguém me quer, tenho de ir à experiência para um clube da segunda Liga. Eu que há três anos tinha ido para Inglaterra e tinha estado na primeira Liga, dois anos pelo Arsenal e um pelo Southampton. De repente estou sem clube. Tinha mais três anos de contrato com o Southampton, mas sabia que não era opção para aquele treinador, por isso não ia ficar lá a fazer nada.

Passou-lhe pela cabeça desistir e vir embora para Portugal?
Não, mas fiquei um bocado sem saber o que fazer. Por isso aceitei ir à experiência. Agarrei nas minhas bagagens e lá fui eu do sul de Inglaterra para Londres. Nem sabia onde ficava o Fulham.

Pelos vistos a experiência correu bem.
Sim, o Tigana pediu o meu empréstimo primeiro e fomos campeões, subimos de divisão, foi uma coisa impressionante. Estivemos em alta, batemos recorde de pontos e correu tudo bem. Claro, depois o Southampton já me queria de volta, mas falei com o Amadeu. Lá chegaram a um acordo para o Fulham comprar o meu passe.

Tem uma história engraçada com o Tigana, durante um treino, pode contar?
(risos). Eu não ia jogar de início, a titular, ele mete-me na outra equipa durante o treino e pede-me para fazer uma diagonal quando recebesse a bola. Quando a bola vem é o que faço. Só que ele estava no caminho e levou com a bola. Que bolada! Ele bem queria aguentar-se de pé, mas não conseguiu e caiu (risos). Foi uma risada. E ele, furioso, disse que eu nunca mais jogava com ele. Mas claro que voltei a jogar. Ele sempre foi cinco estrelas.

No Fulham, Boa Morte chegou a capitão

No Fulham, Boa Morte chegou a capitão

Ryan Pierse

Viveu talvez o seu melhor período no Fulham.
Sim, foram seis anos e meio muito bons. Tenho um episódio curioso pelo meio.

Conte.
Quando saí do Southampton prometeram-me que iria voltar ao Sporting, mas não sucedeu.

Quem fez a promessa?
O Luís Duque. As coisas tinham corrido bem no Fulham, ia sair do Southampton, entretanto sou chamado pela primeira vez à selecção A, a 25 de abril de 2001, no Portugal-França, e começo a fazer parte do grupo dos selecionáveis para o Mundial de 2002. Portanto comecei a ficar mais apetecível. Ainda tive uma conversa com o Luís Duque, mas não aconteceu.

Porquê?
Não sei, até hoje não sei porque é que não aconteceu mas também não interessa.

Ficou no Fulham...
O FC Porto ainda se mete, mas quando entra ao barulho eu já tinha dito ao Fulham que ia para lá. E como sempre tive palavra, as decisões que eu tomo, estão tomadas. Foi pena porque gostei do interesse do Pinto da Costa. E também estive para ir para o Benfica quando o Luís Filipe Vieira vai para lá. Mas na altura havia vários sócios, uns a puxar para um lado e outros para o outro, e ele pediu-me para esperar, para ter calma, só que eu não o conhecia, só sabia que ele era presidente do Alverca e fiquei um bocado receoso. Com receio que se viesse a passar o mesmo do que com o Sporting.

Chegou a capitão de equipa no Fulham em 2004 /2005 e tornou-se uma referência no Fulham...
Aí senti que sim, que estava no top top. Era português, estava na selecção nacional, era capitão do Fulham, um clube da Premier League, o que é que podia haver mais?

Com o pai, entretanto já falecido, no dia do seu segundo casamento

Com o pai, entretanto já falecido, no dia do seu segundo casamento

D.R.

Acabou por não ir ao Mundial de 2002. Porquê?
Porque me lesionei no joelho, no menisco, tive de ser operado. Na altura fui visto pelo Dr. António Martins, foi uma rutura parcial do ligamento.

Entretanto já tinha casado.
Casei em 1999, estava no Arsenal. Comecei a namorar quando vim de férias pela primeira vez, em 1998. Caso em 99 e o meu primeiro filho, o Luís, que chamamos de Luigi, nasce em janeiro de 2000, já em Inglaterra.

Quanto tempo durou o casamento?
Separámo-nos em 2001 e eles vêm para Portugal.

Custou-lhe ficar longe do seu filho.
Sim, ele era pequenininho, tinha uns 13 meses. Foi duro, não era o que estava à espera, mas aconteceu e tive que aprender a viver desta forma. Tive períodos mais difíceis mas sempre com a cabeça no lugar para tentar dar a volta por cima e felizmente consegui. Claro que não acompanhei, não vivi todo o crescimento dele, mas não me posso queixar. A mãe dele também fez um bom trabalho e hoje em dia ele está bem.

Está com 17 anos.
Sim. É bom aluno e joga futebol nos juniores do Sintrense.

Voltou a casar.
Sim. Conheci a minha atual mulher, a Sara, em 2004, em Londres. Ela estava lá a estudar administração de empresas. Casámos em 2009 e temos dois filhos, a Rafaela e o Rodrigo.

Voltando a si, falha o Mundial de 2002 e apesar de ter feito os jogos de preparação para o Euro 2004, Scolari não o chama. Porquê?
Não sei (risos).

Ou não quer dizer?
Não, não sei qual foi o motivo. Não havia motivo aparente para o sucedido, mas a verdade é que ele tinha 30 e tal opções para levar ao Europeu. Escolheu aqueles 23, eu não fazia parte, tive que respeitar.

Quem eram os seus adversários mais diretos?
No lugar era eu, o Figo, o Simão, o Ronaldo. Porque é que eu durante dois anos fui a todas as convocatórias e depois na última não fui? Claro que fiquei curioso mas nunca perguntei, porque acho que não tinha que perguntar. Sempre tive a consciência tranquila. E dou-me bem com o Scolari até hoje.

Custou-lhe ficar de fora obviamente.
Claro que custou, porque independentemente dos jogadores que estiveram presentes em vários Europeus e Mundiais, a experiência vivida em Portugal foi uma coisa inédita, uma coisa de outro mundo que não se volta a repetir daquela forma.

Luís Boa Morte num jogo com o Iraque, nos Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas

Luís Boa Morte num jogo com o Iraque, nos Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas

Clive Brunskill

Dava-se bem com os outros jogadores, o ambiente no balneário da seleção era bom?
Sim, nunca tive problemas com nenhum colega meu na seleção, tirando o Ricardo Carvalho que não gostava que eu lhe desse umas porradas quando havia jogo Fulham-Chelsea (risos). Depois queria desforrar-se na selecção (risos).

Pegavam-se?
Uma vez num jogo Fulham-Chelsea houve uma situação em que o Ricardo Carvalho quis sair a jogar e eu dei-lhe um encosto, ele saiu disparado e foi bater no gradeamento do campo e ficou com uma marca no rabo, porque bateu e raspou. Ele fico cego (risos). Chegámos à seleção e quando nos estávamos a despir o Paulo Ferreira meteu logo fogo naquilo (risos). "Oh Boa, olha o rabo do Ricardo Carvalho, olha o que tu lhe fizeste". Chegamos ao treino, e há uma jogada em que me atiram a bola, ele veio fazer a dobra e faz uma entrada valente sobre mim (risos).

Disse numa entrevista que nessa altura o seu ídolo era o Figo.
Sim, sim.

Como é que foi lidar com ele?
Foi bom, porque o Figo, independentemente de ser o jogador que era e de ter todo aquele mediatismo, sempre ajudou e olhou pelo mais novos e por todos os jogadores da seleção. Aliás, fui bem recebido por todos. Eu e o Jorge Andrade que fez a estreia ao mesmo tempo que eu.

Vai ao Mundial de 2006 mas não faz muitos jogos. Porquê?
As coisas normais, são as opções. Temos que perceber que estamos a viver uma competição em que não há tempo para errar, não há tempo para corrigir erros e claro que um treinador quando vai para uma competição dessas com 23 jogadores, é normal que haja uma base e que não mexa muito.

De alguma forma acha que foi “vítima” de jogar num lugar onde também estavam o Figo, o Ronaldo, que são duas figuras de renome?
Sim, mas isso faz parte. Todos temos que perceber que o futebol é o momento. Quem tem mais arcaboiço para aguentar, aguenta. Temos que saber aceitar.

Tem alguma história engraçada do Mundial 2006 que possa partilhar?
No Mundial de 2006, o Scolari fez questão de levar o Jorge Andrade, apesar dele se ter lesionado e já não recuperar a tempo de jogar. Naquela altura tínhamos um grupinho que andava sempre junto, eu o Simão, o Jorge Andrade, o Miguel, o Paulo Ferreira. O Jorge Andrade meteu-se no quarto a ver vídeos no Youtube de fantasmas e de sustos. Ficou cheio de medo e depois não dormia sozinho (risos), tinha que dormir sempre comigo (risos), no meu quarto. Foi assim o Mundial todo (risos).

Ao serviço da seleção, num jogo amigável com a Croácia, em 2005

Ao serviço da seleção, num jogo amigável com a Croácia, em 2005

FRANCISCO LEONG

Como é que se dá a passagem para o West Ham?
Saí do Fulham em janeiro de 2007. Mas antes disso, um ano e meio antes, tenho oportunidade de ir para o Newcastle.

E não vai porquê?
Mais uma vez porque fui correto com o Fulham. Na altura falei com o treinador do Newcastle, que era o Graeme Souness, e só havia dois caminhos. Ou o Newcastle pagava o passe ao Fulham ou eu tinha que meter o “transfer request”.

O que é isso?
É quando não estamos mais interessados em jogar pelo clube. Só que não era isso que se passava. Porque eu sentia-me bem no Fulham. Era um clube que me dizia muito e que me ajudou quando eu mais precisei. Mas na verdade também gostava de ir jogar para o Newcastle porque é um dos clubes que admiro em Inglaterra. Quando parecia que tinham chegado a acordo faltavam dois dias para acabar a época de transferências e o Fulham já não tinha mercado e tempo para procurar alguém para me substituir. Acabei por não ir, e um ano e meio depois saio para o West Ham.

Já estava cansado do Fulham?
Não, quando o Alan Curbishley assina pelo West Ham, assim que abrem as transferências faz uma proposta por mim. O Fulham aceitou. Fiquei um bocado... o que é que se passa aqui? Eu sou o capitão e não sei de nada! Como o Fulham tinha aceite a proposta, acabei por ir, mas houve uma troca de palavras entre mim e o Chris Coleman que era treinador do Fulham na altura.

Porquê?
O Coleman tinha sido meu colega, antes de ser treinador, e ter de separar as águas às vezes não era fácil. O Tigana foi despedido, ele ficou como treinador principal e sou vendido nessa altura. A coisa azedou entre nós. Fui apanhado de surpresa. Estava bem no Fulham, o West Ham estava em último lugar e eu não estava a projetar sair do Fulham. Tive que aprender a viver com a situação. Assinei por três anos e no meu último ano no West Ham tive a minha lesão mais grave.

O que aconteceu?
Durante um torneio na China rasguei o joelho todo. O ligamento cruzado, o menisco, cartilagem, tendão, tudo. A minha mãe fazia anos nesse dia, 28 julho 2009. Na altura, pensavam que era só os ligamentos cruzados, não tive logo noção da real dimensão. Só quando cheguei a Portugal e fui visto pelo Dr. António Martins é que se confirmou o pior cenário. Aconteceu um mês depois de ter casado com a Sara. Durante a pré-época.

Quanto tempo durou a recuperação?
Dez meses e meio.

Ainda faz a época no West Ham e depois vai para a Grécia. Porquê a Grécia?
É engraçado porque depois do desaguisado com o Chris Coleman, vou para a Grécia com ele (risos).

Como é que fazem as pazes?
O Amadeu Paixão chamou-me e disse que o Coleman ia para Grécia e gostava de levar-me com ele. Eu sabia que aquilo era uma coisa passageira porque a nossa relação era muito boa, dava-me super bem com a família dele desde que jogámos juntos.

Foi sozinho ou com a família?
Fomos em família. O Rodrigo já tinha nascido, a Rafaela já era mais crescida.

Luís Boa Morte com os três filhos. Rafaela, Rodrigo e Luís

Luís Boa Morte com os três filhos. Rafaela, Rodrigo e Luís

D.R.

A aventura na Grécia só durou seis meses. O que gostou mais e menos?
O menos é a falta de organização na vida social. Não há regras.

Como assim?
Por exemplo, numa estrada de uma faixa eles transformam rapidamente em duas vias. Temos que nos adaptar a essas situações. Mas vive-se muito bem na Grécia. Gostámos muito. Os meus filhos foram para a escola Internacional mas houve uma altura em que começaram a vir para casa a soltar umas palavras de grego. Fiquei espantado porque era suposto virem para casa a falar inglês e não grego (risos). Eu e a minha mulher chegámos a aprender grego. Mas com a falta da prática... Ainda dá para ter uma conversa mínima.

Porque vem embora?
O presidente deixou de pagar e não lidei bem com a situação. Depois de 17 anos em Inglaterra com as coisas sempre bem definidas e certinhas, e de repente passa a ser tudo diferente... não consegui dar a volta. Gostei de viver no país, gostei da cultura, mas aquela falta de organização e sem regras... Bem, no geral foi positivo.

Segue-se a África do Sul.
Quando estou para sair da Grécia, o Benni McCarthy perguntou-me se não queria ir para a África do Sul, porque ele estava lá, no Orlando Pirates. A primeira coisa que fiz foi ir ao Google ver a distância e quantas horas de viagem. 12 horas! Torci o nariz mas depois pensei "o que é que um gajo gosta de fazer? Jogar à bola, não é?". Acabei por ir. Primeiro a família ficou em Inglaterra. Faço o CAN, que estava a ser jogado em Angola, como comentador do canal de televisão SuperSport.

Foi a primeira experiência como comentador?
Não, já tinha feito em Inglaterra para a Sky Sports.

E depois?
Acabei por ir para o Orlando Pirates, embora também tivesse proposta do Kaizer Chiefs. Quando assinei a família foi ter comigo.

Como foi essa experiência?
Foi diferente. Joanesburgo é uma cidade bastante evoluída. Claro que a minha mulher e a minha mãe às vezes mais receosas por causa do que se ouvia na Europa sobre os ataques a portugueses. Mas não tivemos qualquer tipo de problema e tivemos lá seis meses muito bons, apesar de ter assinado por ano e meio.

Porque só fica seis meses?
Porque o treinador foi substituído depois de termos sido eliminados da Liga dos Campeões. Vem um treinador da Academia, que na primeira reunião com os jogadores diz que quando fossemos para estágio tirava os telemóveis a todos e só entregava no dia seguinte, depois do jogo. Eu disse-lhe: "Vim agora da Europa, tenho a minha família aqui, percebo que são as suas regras, mas imagine que há algum problema de saúde ou algo do género, preciso de estar em contacto com a minha família". E ele respondeu: "Porquê, és doutor? Se acontecer alguma coisa, já aconteceu, o que queres fazer?".

O que lhe disse ou fez?
Respondi-lhe: “O futebol é a minha vida mas não é tudo na minha vida”. Eu tinha feito três jogos e a partir desse momento nunca mais joguei. Fui falar com o presidente e disse-lhe que só ficava até final da época. Se gosto de jogar à bola é impossível estar parado, sem atividade.

Com a camisola do West Ham

Com a camisola do West Ham

Richard Heathcote

Regressou a Inglaterra.
Ainda fui para o Canadá primeiro. Estive lá 10 dias a treinar e quando ia assinar com o Toronto trocaram de treinador e o negócio já não se deu. Voltei para Inglaterra. Primeiro estava só a treinar no Fulham, a ganhar forma para depois voltar a entrar em qualquer altura, depois comecei a trabalhar com os miúdos de sub-13 e também com os sub-23.

Ainda joga no Chesterfield.
Sim. Um dia cruzei-me com ex-colega que era treinador adjunto do Chesterfield e em conversa propôs-me ir para lá jogar. Eu estava em Londres e o clube era em Sheffield, não me estava a apetecer muito. Mas ele disse-me que podia treinar no Fulham à segunda e à terça, à quarta era dia de folga. só tinha de ir na quinta e regressava depois do jogo, no sábado. Já era mais apetecível, porque só passava metade da semana fora de casa. Assinei por três meses. As coisas correram bem, mas entretanto chamaram um treinador novo, que gritava muito, mesmo durante os treinos, e regressei a Londres.

Voltou ao Fulham.
Aí assumi mesmo como treinador dos sub-13 e adjunto dos sub-23.

Ser treinador foi sempre o que quis fazer depois de deixar de jogar?
Sim. Foi sempre o que projetei. Não programei quando é que ia retirar-me, o que em parte pode ser a causa de eu estar a fazer scouting agora.

Está arrependido de não ter programado?
Sim. Quando não se programa fica-se um bocado à toa. Na verdade tínhamos decidido ficar a viver em Inglaterra, mas dois anos depois começamos a pensar que os miúdos estavam a crescer e que era a última oportunidade que tínhamos de vir viver para Portugal. Se ficássemos mais tempo depois não tínhamos hipótese de voltar porque os miúdos iam ficar muito enraizados em Inglaterra.

Porque optaram por viver em Portugal?
Eu tinha ido embora aos 19 anos. A minha mulher também foi cedo para Inglaterra. Queríamos voltar para junto da família e também com dois filhos ia ser mais fácil estar aqui porque tínhamos mais ajuda. O meu empresário falou com o Virgílio Lopes e com o Inácio no sentido de que se houvesse alguma reestruturação na Academia do Sporting, pudessem dar-me uma oportunidade.

Foi o que aconteceu.
Sim. fui para o Sporting como treinador adjunto da equipa B. O Barão era o treinador principal. Depois trocaram o Barão pelo João de Deus. Um dia o Virgílio chama-me e diz que eu sou a pessoa indicada para tomar conta da equipa dos juniores. Fui treinador dos juniores durante uma época e vim embora.

Porquê?
Porque na altura ia-se passar algo que não coincide com a minha maneira de estar no futebol. O Paulo Leitão, que era o coordenador, disse que a partir do ano seguinte ia começar a intervir nos treinos, nos jogos e por aí fora. Não me identifiquei com aquele caminho. Levou-me algum tempo a construir a minha imagem e não podia ferir a minha imagem, porque sabia o que ia acontecer. No dia em que ele se metesse no meu treino ou no meu jogo íamos discutir, porque eu não aceitava essa situação. Falei com o Virgílio, agradeci-lhe e ao Inácio pela oportunidade que me deram e vim embora.

Ricardo, Hugo Viana, Luís Boa Morte e Miguel festejam a vitória sobre a Inglaterra nos quartos de final do Mundial de 2006

Ricardo, Hugo Viana, Luís Boa Morte e Miguel festejam a vitória sobre a Inglaterra nos quartos de final do Mundial de 2006

JUERGEN SCHWARZ

Não ficou desempregado muito tempo...
Só de maio a outubro, altura em que soube desta oportunidade de fazer scouting para o Arsenal.

Como surge essa oportunidade?
O filho do Chris Coleman, com quem tenho contato semanalmente, falou-me daquela oportunidade do scouting do Arsenal para Portugal. Como estava sem fazer nada achei que também podia ser uma boa oportunidade de enriquecer o conhecimento do futebol português. E já estou aqui há dois anos.

Vai continuar?
Para mim já é muito tempo. Eu gosto da pressão, de trabalhar debaixo de pressão.

Entretanto teve uma passagem como treinador do Sintrense.
O Ventura, preparador físico que trabalhou comigo nos juniores do Sporting, falou-me no Sintrense e no Mauro que tinha ido para lá e que tinha gostado do meu trabalho nos juniores do Sporting. Mas eu não estava muito para ali virado, porque o meu trabalho no scouting já me leva muito tempo. Acabei por assumir a part-time porque não larguei o scouting.

Como correu?
Foi diferente. O comodismo é enorme. Era um clube que estava numa série equivalente à League 1, em Inglaterra. Só que esta liga em Inglaterra é competitiva, eles estão sempre à procura de conseguir chegar mais além, de fazer um brilharete para ir para a Championship. Em Portugal não é assim. Os mais novos têm essa vontade, mas os mais velhos de 28/29 anos estão no comodismo. Como estão perto de casa e ganham ali algum dinheirinho, não querem que o clube vá mais além. Eu sou uma pessoa com ambição em tudo. O CNS (Campeonato de Portugal) é semi-profissional, à partida tens jogadores que trabalham, tens que ter um cuidado especial e saber que tipo de trabalho é que fazem. Se trabalha num café ou num escritório, se estão sentados o dia todo ou não, como é que é a disposição deles para vir treinar, e por aí fora. Tive que lidar com essas situações que por vezes são complicadas.

E não lhe agradou...
Não, não é isso. Gosto é de trabalhar com organização. Já tinha sentido falta de organização quando cheguei ao Sporting. Começava o treino às 10h30 e tinha adjuntos a chegarem às 10h10. Que organização é esta? Eu tenho que estar no campo pelo menos uma hora e um quarto antes, para organizar, rever, tentar imaginar o treino que montamos, lá, na área. No Sintrense também senti isso, chegava cedo e já era uma confusão. Só o facto de eu ir para o campo uma hora e meia mais cedo para ir montar o treino, começavam logo: "Eh pá o homem já está a montar o aeroporto". Fazia-lhes uma confusão.

Com o ídolo Luís Figo

Com o ídolo Luís Figo

NICOLAS ASFOURI

Perante tudo o que está a dizer e tendo em conta que está farto de ser observador, o que pensa fazer num futuro próximo?
Enquanto não aparecer nada como treinador vou continuar como observador. Em Portugal isto está tudo muito estranho, acho que podemos chamar estranho… Nos campeonatos profissionais é quase impossível os presidentes darem oportunidade a novos treinadores ou treinadores principiantes, como quiserem chamar. Se eu estivesse desempregado podia estar no CNS a praticar o treino, mas como ainda estou no scouting do Arsenal, não vou largar para me meter no CNS.

Ou seja, não se identifica com a forma de trabalhar em Portugal.
É difícil. Porque não vejo o que eles chamam de organização, planeamento, estar comprometido com o trabalho. Como posso dizer que estou comprometido com a equipa se o treino é às dez e meia e eu chego às dez e dez e ainda vou tomar o pequeno almoço? Isto é de malucos.

Não perdeu os hábitos ingleses...
Não e nem quero. Outra coisa. Falei com alguns presidentes da II Liga e alguns pensam que sou um treinador caro!

Porque dizem isso?
Por causa dos anos que passei em Inglaterra. Ou então a desculpa é "não tem conhecimento do futebol português". Aqui não há conhecimento do futebol português ou não. O futebol é igual em todo o lado, uma bola, 22 jogadores, árbitro, dois fiscais de linha, os árbitros de baliza mais o quarto árbitro. É igual em todo o lado. Quando um clube chama um treinador espanhol, por exemplo, o que é que ele conhece do futebol português? Cada um gere o seu clube como quer, mas acho que há muita desculpa para mil e uma coisas que não fazem sentido.

Tem contrato como observador do Arsenal até quando?
Até final da época.

Boa Morte em sua casa, durante a entrevista

Boa Morte em sua casa, durante a entrevista

Nuno Botelho

Recentemente o Tiago Fernandes criticou indiretamente o seu trabalho e o Luís respondeu nas redes sociais.
Ele até pode ter dito o que disse inconscientemente... Se eu fosse colega dele no Sporting, como já fui (ele treinava os sub-14 e eu treinava a equipa de juniores), sei o que faria, mas como não sou colega dele não vou comentar a entrevista que deu. Ele meteu muita coisa em causa, mas não vou tomar as dores de ninguém. Agora, quando mete o meu trabalho em causa, aí não vou admitir, nem a ele nem a outro colega de profissão que o faça. Temos de perceber que cada um de nós tenta dar o nosso melhor. Num país civilizado ou com pessoas civilizadas vamos tentar apoiar-nos uns aos outros. Quando fui chamado a treinar os juniores tive o cuidado de falar com o Lima, embora eu não tivesse que falar com ele.

Como se tornou treinador dos juniores?
Foi-me proposto. Eu era trabalhador do Sporting e o nosso chefe decidiu assim. Não andei a lamber as botas do meu chefe ou coisa do género. Mas tive o cuidado de explicar ao Lima que vieram ter comigo, apanharam-me de surpresa, e que se não fosse eu iria outra pessoa para o lugar dele. Se eu não aceitasse alguém ia aceitar. Por isso aceitava mas eu não queria que ele ficasse chateado comigo. Falámos na boa, ele estava de bem comigo, explicou-me os jogadores que tinha, como é que jogavam, posições, etc.

O Tiago não fez isso...
Não estou a dizer que o Tiago tinha que fazer isso, agora o Tiago meteu em causa o trabalho que eu fiz. Quando diz que antigamente era só levar goleadas e que agora é que é bom. Espera aí. Eu perdi com o Chelsea, é verdade, acho que perdemos 5-0, mas ele não pode meter o meu trabalho em causa, porque eu também não meti o trabalho do Lima em causa. O Lima fez o que achou ser o mais proveitoso para os jogadores, para os fazer evoluir como jogadores e como homens, e eu também. O Tiago entra e só tem que fazer o mesmo, tirar o maior proveito daquilo, sem ter que atingir ninguém. Mas atingiu-me e... nós todos temos telhados de vidro, só que temos de saber medir quando é que nos pode cair uma pedra em cima. Foi isso.

Com a mulher, Sara e os dois filhos

Com a mulher, Sara e os dois filhos

D.R.

Há uns anos surgiu a notícia de que um irmão seu tinha sido sequestrado. O Luís nunca quis comentar. O que se passou?
Era meu irmão só da parte do meu pai. Só que eu na altura não tinha conhecimento de que ele existia. Quando o meu nome é lançado para o meio da história, eu estava mesmo a apanhar do ar. Não sabia de nada.

Onde ganhou mais dinheiro?
É capaz de ter sido no West Ham.

E investiu onde?
No banco. Tenho um gerente de conta muito bom e não me posso queixar. Temos sido inteligentes... Tenho alguns imóveis, mas não são grandes investimentos.

Tem algum hobby?
Quando tenho tempo gosto de fazer algumas ações nos hospitais. De vez em quando vou ao Centro de Acolhimento Temporário Janela Aberta, ali perto de Paio Pires, levo alimentos para os miúdos, às vezes vou ao IPO levar Playstations portáteis para os miúdos. Mas são coisas que não costumo divulgar porque faço a título pessoal. Disse hoje, mas não costumo dizer.

Com que jogadores criou maior ligação?
Com o Frechaut, o Moreira, que esteve nos sub-21 e depois foi jogar para a seleção da Guiné, o Jorge Andrade, o Paulo Ferreira, com quem cheguei a passar o Natal e o Ano Novo em Inglaterra.

Alguma vez teve alguma problema ou episódio caricato por causa do seu apelido?
Lembro-me que quando chegamos de Toulon eu era para fazer um jogo pelos seniores com o Boavista, mas o Carlos Janela não deixou escrever Boa Morte na camisola. Ficou L. Pereira (risos). Tenho essa camisola lá para casa algures. Quando cheguei a Inglaterra foi diferente e não houve problema.

Acha que estas polémicas no futebol português sobre os emails ou o videoárbitro seriam impossíveis de acontecer em Inglaterra?
Sim. Este drama todo em volta de quem é o bom, quem é o mau, o árbitro que é bom, o árbitro que é mau, as entradas em campo de adeptos e as agressões a árbitros, etc. Isto envergonha-nos a nós portugueses que jogamos ou que trabalhamos no estrangeiro. Depois de sermos campeões da Europa, depois de termos conseguido conquistar o mais dificil troféu... Estamos a passar uma imagem péssima, péssima. Não me agrada nem me identifico com este clima que se vive aqui. Isto para nós é vergonhoso, independentemente de quem esteja certo ou errado.

Durante a entrevista

Durante a entrevista

Nuno Botelho

Quem é para si o melhor treinador, a sua referência?
Todos os treinadores que tive tocaram-me de certa forma, positiva ou negativamente. Tenho que dar prioridade ao Wenger porque foi ele que me levou para Inglaterra. O Scolari levou-me ao mundial. O Zola é uma pessoa extraordinária. Avram Grant é super inteligente, Chris Coleman foi meu colega e é meu amigo, e é cinco estrelas; Tigana foi um espetáculo, as coisas que vivemos e nos ensinou. Antonio Oliveira por ter sido o primeiro a chamar-me à seleção principal... todos foram importantes e tenho boa relação com todos. O único que não colou bem comigo e com quem não me identifiquei foi o Glenn Hoddle. Tenho muita boa relação com o Carlos Queiroz, o Jesualdo Ferreira também cinco estrelas.

É mais difícil ser treinador do que jogador?
Sem dúvida. Não há coisa mais fácil do que ser jogador. É o mais fácil e o melhor que há.

É católico?
Sou q.b.

O que é que isso quer dizer?
Às vezes praticante, mas não me posso considerar praticamente a 100% porque não vou sempre.

Continua a exercitar-se?
Sim, quatro cinco vezes por semana. Até há uns tempos atrás fazia kickboxing mas quando comecei a treinar no Sintrense fiquei sem tempo.

Porquê o kickboxing?
Surgiu cá. É uma modalidade que por acaso deixava-me super levezinho. É cansativo quando se pratica mas no final do dia é o tirar a pressão, o stress, aliviar. Ficava mesmo levezinho.