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A casa às costas

Ricardo Rocha: “Na véspera da meia-final da FA Cup fui dormir com a minha esposa, à socapa. Ganhámos e fui o melhor em campo”

O defesa central que começou como guarda-redes e chegou a campeão do Benfica, ao lado de Luísão, em 2004/2005, revela como foi difícil adaptar-se a Inglaterra, onde até inventaram uma entrevista sua que, garante, nunca deu. Mas de lá trouxe o "bichinho" do golfe e a vontade de um dia tornar-se diretor desportivo, objetivo que agora persegue

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Nasceu em Santo Tirso. Como era a sua família?
O meu pai era eletricista, a minha mãe trabalhava na secretaria de uma escola, tenho quatro irmãs e um irmão, sou o segundo mais novo.

Era um miúdo timido?
Sim, sempre fui muito tímido e introvertido, mas passava a vida a jogar à bola com os meus vizinhos e amigos.

Gostava da escola?
Nem por isso. No início, quando era pequenino, tinha dificuldade e arranjava muitos problemas à minha mãe porque era muito ligado a ela e queria sempre ir atrás dela para todo o lado. Foi complicado para a minha mãe gerir isso. Mas uma pessoa acaba por gostar da escola porque é onde fazemos mais amigos e onde começamos a fazer pela vida.

Quando começa a jogar num clube?
Eu tinha um vizinho, o Pedro, que era filho do professor Bailão. Era professor de artes manuais no Instituto Nuno Álvares onde andávamos e ao mesmo tempo coordenava lá umas equipas de futebol. Comecei por intermédio dele e do filho. Mas por incrível que pareça eu na altura era guarda-redes.

Guarda-redes?!
Sim, jogávamos futebol de salão. Havia um clube muito perto da escola, chamado ARCA (Associação Recreativa e Cultural de Areias), e um dia alguém de lá foi à escola perguntar se não havia miúdos de 9, 10, 11 anos que quisessem jogar futebol de 11. Foi assim que comecei.

Os seus pais não se opuseram?
O meu pai, no início. Eles diziam sempre que eu tinha de estudar, porque os estudos é que eram importantes. Mas pedi e insisti muito. As próprias pessoas do clube que conheciam os meus pais, porque num meio pequeno toda a gente se conhece, também lhes pediram para me deixar jogar.

Ricardo Rocha com cinco anos

Ricardo Rocha com cinco anos

D.R.

Gostava de jogar a guarda-redes?
Adorava, só que era muito pequenino e não tinha hipóteses. Sinceramente acho que até tinha jeitinho, mas os outros guarda-redes eram grandes, altos.

Que idade tinha quando foi para a ARCA?
Uns 11 anos. Jogávamos no pelado.

Como e quando muda de posição em campo?
Eu saio da posição de guarda-redes porque o treinador, o senhor Carlos, tinha prometido em certo jogo que eu ia ser titular. Treinávamos duas vezes por semana, quarta e sexta, para jogar ao domingo. Num desses treinos, na brincadeira, peguei na bola e fui por ali fora, fintando um aqui outro ali e marquei golo. O pessoal ficou todo contente. No domingo, quando vamos para o jogo, ainda na carrinha, o senhor Carlos começa a dizer: "Hoje vai ser especial porque vou dizer a equipa aqui já na carrinha.". E começa, o Nº1 é o jogador tal, o Nº2.... Quando ele disse aquilo, o meu coração ficou apertadinho, só pensava: "Não vou jogar." Ele continua a dizer os números um a um, até que: "E com o Nº9 vamos ter uma grande surpresa, vai jogar o Ricardo". Eu, a avançado?! Fiquei perplexo. Ele diz que me tinha visto no treino a fazer aquilo, que eu era rápido e queria ver como é que corria. Marquei dois golos nesse jogo.

A partir daí ficou como avançado?
Sim, quase um ano, até que meti na cabeça que no inicio da próxima época, já como juvenil, ia recuar e jogar no meio campo. O treinador: "Não, tens de jogar a avançado". Mas insisti, disse que achava que tinha características para jogar a trinco. Lá deixaram. Só que quando a época começa, às tantas a posição de central estava sem ninguém. O treinador pediu-me para ocupar a posição. Eu disse que não queria, mas tive de fazer. Gostei e a partir daí fiquei sempre a central. Tinha 14/15 anos.

Entretanto vai para o Famalicão.
O senhor Carlos tinha conhecimentos no Famalicão e levou-me lá. Disseram que queriam ficar comigo, só que na altura os clubes pequenos exigiam sempre um pagamento em dinheiro, bolas ou coletes. O Famalicão disse que não dava nada e regressei à ARCA. Faço lá o 2º ano de juvenil e no ano a seguir, o Famalicão volta à carga. Num domingo de manhã tocam à campainha de minha casa, era o dirigente do Famalicão, senhor Granja, mostrou-me um papel e disse: "Ricardo, confirmas o teu nome aqui?". Disse que sim. "Considera-te a partir de hoje jogador do Futebol Clube Famalicão". Eh pá, aquilo para mim foi uma alegria. Acho que na altura compraram-me por uns mil euros, entre dinheiro, bolas e coletes.

Ricardo Rocha quando jogava na ARCA. é o terceiro a contar da esquerda em baixo.

Ricardo Rocha quando jogava na ARCA. é o terceiro a contar da esquerda em baixo.

D.R.

Torcia por que clube?
Sempre fui do Benfica. A minha família é toda do Benfica.

Quem era os seus ídolos?
O Mozer, o Ricardo Gomes e o próprio Helder com quem vim a jogar, que eram na altura os grandes centrais e defesas do Benfica.

Esteve um ano no Famalicão e vai para o V. Guimarães.
Sim, a meio da época a equipa sénior estava com muitos problemas financeiros, na II Liga, e muitos jogadores foram embora. Eles levaram-me para a equipa principal basicamente para treinar porque jogava com os juniores à mesma. fizeram-me um contrato. Não me pagavam nada, porque não podiam, mas tinha um contrato. Um dia fizemos um jogo treino contra o V. Guimarães, que na altura tinha à frente da equipa, o professor Manuel Machado. Viu-me, gostou, e quando ele pega novamente na equipa junior do V. Guimarães, pede o meu empréstimo ao Famalicão.

Ainda estudava?
Sim, estudei até ao 11º ano.

Depois de Guimarães ainda regressa ao Famalicão, antes de ir para o Benfica.
Regresso, mas o professor Machado vai treinar o Fafe e tenta levar-me. Eu e outros juniores. Mas o Vitorino, treinador do Famalicão diz que não posso ir porque tenho muita qualidade e no futuro podia render algum dinheiro. Fiquei. Joguei na IIB e depois levo com uma "bomba": sou chamado à tropa.

Fez a tropa?
Seis meses. Fiquei muito triste, foi das piores noticias que recebi. Fui para a tropa em janeiro, na minha primeira época de sénior. Estive seis meses na Escola Pratica de Engenharia de Tancos. O primeiro dia foi muito complicado. Chorei e tudo.

Porquê?
Porque uma pessoa está habituada à sua liberdade e chega ali... Estamos presos, estão a dar-nos ordens a toda a hora, temos de as seguir e não podemos reclamar, não podemos nada. Foi muito difícil. Mas depois de ter feito aqueles seis meses digo que foi uma das grandes experiências da minha vida.

Como assim?
A situação de conhecermos certas regras, de não podermos fazer o que queremos, de termos de levantar e deitar a "x" horas, fazer a cama todos os dias, o espirito de camaradagem, termos de fazer as coisas todos juntos porque se um faz diferente do outro vamos pagar todos. Tudo isso ajuda a crescer. E acabei por conhecer nos últimos meses da tropa o tenente João Ferreira que mais tarde acabou por ser arbitro da I Liga.

Tem alguma história engraçada da tropa?
Lembro-me que ao fim de semana vínhamos a casa e aproveitava para jogar. Não treinava, mas estava em sintonia com o treinador e jogava ao domingo. Mas na tropa todos temos de ficar pelo menos um fim de semana no quartel. Calhou-me uma vez a mim e fiquei "doente" porque não podia jogar, não podia ir ver a minha namorada, etc. Na semana a seguir os dirigentes do Famalicão disseram que tinham de arranjar uma maneira de eu sair mais cedo. E telefonaram para o quartel a meio da semana a dizer que o meu avô tinha falecido (risos). Eles deixaram-me ir para casa na quarta-feira e acabei por poder treinar com a equipa durante três dias e jogar no domingo.

E o seu avô "vivinho da silva".
(risos) Exatamente.

Ricardo torna-se jogador do Benfica na época 2002/2003

Ricardo torna-se jogador do Benfica na época 2002/2003

D.R.

A namorada dessa altura tornou-se na sua mulher, certo?
Sim. Eu e a Maura conhecemo-nos no liceu, tinha 17 anos e estamos juntos desde então.

O que ela faz profissionalmente?
Não faz nada porque infelizmente acompanhou-me, mas tem a licenciatura de Educação Fisica e Desporto.

Porque diz infelizmente?
Porque eu sei que é uma coisa...Ela estudou muito, lutou muito para tirar o curso e com as condicionantes do futebol não conseguiu lecionar. É só nesse sentido que falo, porque sei que era uma coisa que ela tinha muito gosto.

Casam quando?
Em dezembro de 2001, antes de ir para o Benfica.

Antes do Benfica, depois do Famalicão vai parar ao SC Braga. Como?
Ainda estava na tropa. Os presidentes de ambos os clubes é que trataram de tudo. quando terminei a tropa assinei o contrato e apresentei-me em Braga. Mas eu era muito novinho, tinha 19/20 anos e acabei por ser emprestado novamente ao Famalicão por mais uma época. No ano a seguir vou para Braga porque criaram a equipa B, em que o treinador era o Toni e o adjunto o Caldas.

E na época seguinte sobe à equipa principal?
Eu fazia sempre as pré-épocas com o plantel principal e depois retomava na equipa B. Nesse ano, o SC Braga começa bem o campeonato até que há o famoso jogo contra o Sporting e há um conjunto de situações que me permitiram ter a possibilidade de fazer esse jogo.

Que situações?
O Idalécio lesionou-se, o Artur Jorge é castigado por causa de um cartão vermelho e sou chamado para treinar. Agradeço a oportunidade ao mister Cajuda porque ele podia ter optado por uma outra solução. O Barroso que jogava a meio campo e trinco era sempre uma possibilidade de jogar na minha posição. Mas o mister Cajuda deu-me a possibilidade de jogar contra o Sporting. Ganhámos por 3-1, faço uma grande exibição e a partir daí fico na equipa principal.

O Cajuda é uma figura ímpar do futebol português. O que achou dele?
É cinco estrelas. O discurso dele, a maneira como diz as coisas. E é uma pessoa muito brincalhona. Recordo-me que antes do jogo com o Sporting ele veio ter comigo e pergunta-me: "Se eu te dissesse agora que não ias jogar, tu ficavas chateado?". Eu, que já estava concentrado e focado no jogo, nem pensei e respondi: "Sim". Mas eu nem estava atento à pergunta, tanto que ele diz-me: "Tu não entendeste o que te disse pois não? Mas deixa lá, tu vais jogar". Só tenho a agradecer ter-me dado a oportunidade porque há muitos jogadores que só necessitam de uma oportunidade e não a têm.

Ricardo Rocha disputa uma bola com o brasileiro Ronaldinho Gaúcho durante um jogo da Liga dos Campeões

Ricardo Rocha disputa uma bola com o brasileiro Ronaldinho Gaúcho durante um jogo da Liga dos Campeões

FRANCISCO LEONG

Quando começa a ganhar um ordenado?
Quando vou para os juniores do V. Guimarães. Eram 250 euros.

Como disse há pouco casou antes de ir para o Benfica...
Foi uma coincidência.Na segunda época na equipa principal do SC Braga casei com a minha esposa no dia 23 de dezembro e assino pelo Benfica, em janeiro. Não fazia ideia.

Foi num negócio que envolvia o Tiago e o Armando Sá também.
Sim, só que eles foram logo para o Benfica e eu não. O presidente do Sc Braga disse que um de nós tinha de ficar e acabei por ser eu. O que me deixou numa situação muito ingrata e incómoda para com os adeptos do Braga.

Porquê?
Porque não gostaram dos valores da transferência pelos três jogadores e acabei por levar com isso tudo. Nas derrotas o culpado era eu, porque estava ali mas já estava com a cabeça no Benfica, etc.. O mister Cajuda a determinada a altura entendeu que eu não devia jogar por tudo o que estava a acontecer. Eu não deixei de ser quem era e continuei a trabalhar da mesma maneira, mas sabemos que quando as coisas não correm bem tem que se arranjar alguns culpados, entre aspas.

Quando vai para o Benfica já tinha empresário?
Não tinha, mas nessa altura quem me aborda é o José Veiga e ele depois fica como meu empresário.

Como foi o impacto de chegar a um clube como Benfica, ainda por cima o clube do coração?
Para mim foi o início de um sonho. Eu não era uma cara muito conhecida, acho que quando o Benfica me contratou os adeptos devem ter dito: "Mas quem é este gajo?". Porque eu acabo a época em Braga, saio e vou logo fazer uma digressão com o Benfica, para me ambientar ao clube.

Onde foi essa digressão?
A Angola e aos EUA. Nem sequer fui apresentado nem nada. Só quando voltei para o inicio da época é que tomei consciência da grandeza do clube.

Quem foram os jogadores que o ajudaram a ambientar-se?
Para mim foram todos muito fixes. Mas eu tinha o Tiago e o Armando. Eu e o Tiago éramos e somos ainda muito amigos. Ajudou-me muito nessa ambientação. O Simão também, sempre uma pessoa muito simpática e amiga.

Ricardo Rocha, à esquerda, recebe o cartão vermelho do árbitro Paulo Costa num dérbi com o Sporting, em 2005

Ricardo Rocha, à esquerda, recebe o cartão vermelho do árbitro Paulo Costa num dérbi com o Sporting, em 2005

NICOLAS ASFOURI

Teve de sair da Maia, onde vivia com a sua mulher. Como foi a adaptação a Lisboa?
No inicio foi um grande impacto. Sairmos de uma cidade muito tranquila, e da zona de Santo Tirso, onde estão as nossas origens, para Lisboa, foi complicado.

O que custou mais?
O dia a dia de uma grande cidade, com muito trânsito. Acho que as pessoas são mais abertas e afáveis aqui no norte. Mas depois de sabermos o que é a vida em Lisboa até achamos normal certas coisas, porque as pessoas estão mais preocupadas com o trabalho, os horários, etc.

O vosso primeiro filho nasce em 2004.
Sim, o Gustavo.

Nesse ano festeja o primeiro título pelo Benfica, a Taça de Portugal.
Sim, com o Camacho (treinador). Foi fenomenal, porque jogámos contra o FCP que era o grande favorito e não tinhamos nenhuma festa preparada. Ninguém, honestamente, estava à espera que ganhássemos, nem nós próprios. E, quando ganhámos, há festa no balneário e alguém nos disse que íamos passar com o autocarro na zona da Av. da Liberdade porque normalmente os adeptos do Benfica costumam festejar ali. Fomos, mas estávamos à espera de encontrar pouca gente e quando começámos a entrar na Avenida, era a loucura. Só pensávamos, ganhámos a Taça e é isto, imaginem quando ganharmos o campeonato.

O que veio a acontecer na época seguinte.
Sim, só que não conseguimos ir à Avenida da Liberdade porque fizemos o último jogo no Bessa. Mas foi a completa loucura aqui na cidade do Porto. O mais incrível é que quando chegámos a Lisboa, às cinco da manhã, tínhamos 50 mil pessoas no Estádio da Luz para festejar o título connosco. Foi memoravel mesmo. O Benfica já não era campeão há 11 anos.

Foi o título que lhe deu mais gozo…
Sem dúvida, primeiro título nacional pelo Benfica, benfiquista como eu sou, era mais um sonho que conseguia concretizar. É algo indescritível mesmo.

Ficou quatro anos e meio no Benfica. Como foi lidar de perto com o Eusébio?
Eu parecia um miudito. Sou muito introvertido, mas fico a olhar para tudo. Na altura chamavam-lhe King. E é mesmo o King. Era fantástico.

Que treinadores teve no Benfica?
Apanhei o Jesualdo Ferreira, o Camacho, o Trapattoni o Koeman e estive seis meses com o Fernando Santos.

Resumidamente o que pode dizer sobre cada um deles?
Com o Jesualdo aprendi a defender, a colocar-me defensivamente, ele é muito bom no posicionamento. O Camacho também é bom na abordagem ao jogo, na maneira de encarar o jogo. O Trapattoni é excelente, as palestras dele em que misturava português, espanhol, italiano, inglês, alemão eram surreais. Ele criava grande empatia com os jogadores, até porque ele fazia o aquecimento connosco o que para nós era algo de extraordinário. Se calhar não era tão bom no aspecto tático, mas na relação humana com os jogadores era fantástico. O Koeman era muito bom no desenvolvimento do jogo, na questão do passe. Tive pena de só estar seis meses com o Fernando Santos, mas acho que foram os meus melhores seis meses da minha carreira no Benfica. Quando fomos campeões, também fiz uma época muito boa.

Assim que Ricardo se apercebeu do que tinha acontecido a Feher levou as mãos à cabeça

Assim que Ricardo se apercebeu do que tinha acontecido a Feher levou as mãos à cabeça

Viveu de perto um momento dramático no Benfica. Estava em campo quando o Feher cai e acaba por falecer.
Sim. Recordo-me que estávamos a ganhar por 1-0, mas o jogo estava a ser muito dificil. Na altura nem estava atento ao que se passava porque estava a conversar com os meus colegas da defesa. Quando olhei vi o Féher no chão e como estávamos já no fim do jogo até pensei: "Boa, o Féher está a tentar perder algum tempo, a ver se a gente consegue ficar com o 1-0". Só que entretanto o Tiago chama-me, começam a chamar toda a gente e vi logo que alguma coisa de grave se passava. Foi horrível. Éramos amigos. Tinha estado com ele no SC Braga quando ele esteve lá emprestado pelo FCP e quando venho para o Benfica ainda ficámos no mesmo no hotel uns tempos, enquanto estava à procura de casa. É daquelas coisas que uma pessoas nunca mais se esquece na vida.

Depois do Benfica vai para o Tottenham, certo?
Quando somos campeões assinei um contrato de quatro ou cinco anos com o Benfica e fiquei a ser um dos jogadores mais bem pagos, segundo o presidente, do plantel. Quando chega a proposta do Tottenham, pressionado quer pelas pessoas do Tottenham quer por empresários, fui falar com o Fernando Santos no treino e disse-lhe que era a minha grande oportunidade de jogar no futebol inglês, porque na altura tinha 28 anos. Pedi-lhe para me deixar sair. "Não deixo. Já disse ao presidente que tu não sais". Na altura, erradamente, disse-lhe: "Então eu não treino". "Tu não quê? Vai já lá para dentro, vais treinar" (risos). Fui equipar-me e treinar (risos). Eu não conseguia, não é da minha pessoa fazer isso, disse aquilo da boca para fora. E depois fui vendido por cinco milhões de euros, pagos a pronto.

Como é que reagiu a sua mulher à ideia de ir para Inglaterra?
Cheguei a casa, disse-lhe que tínhamos de ir no dia seguinte para Londres e ela começou a chorar. A nossa filha, Luna, só tinha um mês, tínhamos já a nossa vida assente em Lisboa, e vamos para o desconhecido. Foi muito complicado. As pessoas que estão de fora não percebem, mas o meu insucesso no Tottenham tem precisamente a ver com um conjunto de situações que aconteceram, não só a nível desportivo, mas também a nível familiar. A familia não estando bem, o resto não corre bem.

Nunca se adaptaram a Londres?
Não. Só nos adaptámos depois. Quando saí do Tottenham, fui cinco meses para a Belgica, e regresso para jogar no Portsmouth. Aí tudo foi diferente. Passei por momentos muito difíceis no Tottenham.

Pode dar exemplos?
Os primeiros seis meses foram muito difíceis. É toda uma realidade completamente diferente. Em relação à língua não houve problema nenhum, porque eu sabia inglês, sempre foi uma língua que adorei e fácil para mim. Mas tudo o resto, não ter amizades, família por perto. Tive duas pessoas no Tottenham que nos ajudavam em tudo o que precisassemos resolver, mas às vezes precisamos de mais. No Benfica, quando chega um estrangeiro ele não vai passar por dificuldades nenhumas, em Inglaterra não é bem assim.

Está a referir-se em concreto a quê?
Tudo. No balneário por exemplo, os portugueses na recepção aos estrangeiros são fenomenais e muita gente reconhece isso. Em Inglaterra há um misto de nacionalidades, havia o grupo dos ingleses, que estavam normalmente juntos, havia um grupo dos franceses e basicamente os meus amigos eram um canadiano, cuja esposa era portuguesa, e era um finlandês.

Ricardo com a mulher e os filhos, este ano, na Luz

Ricardo com a mulher e os filhos, este ano, na Luz

D.R.

A sua mulher ficou em casa com os filhos?
Sim, fomos ver sitios para pôr os miúdos mas achámos que não tinham as condições para eles ficarem. Ao fim de seis meses pedi para sair. Disse que a minha família não estava bem, que queria ir embora. Não jogava tanto como queria, embora tenha aprendido depois que essa é a realidade em Inglaterra. Uma pessoa pensa que é contratado para jogar, mas a realidade não é essa. Na altura o diretor desportivo disse-me para ficar que as coisas iam correr bem, que iam apostar em mim, ia jogar mais. Acabo por ficar e a verdade é que fiz uma boa pre-epoca, comecei a o campeonato a jogar e, de repente, do nada, saí da equipa. Depois tive uma lesão no tornozelo, tive de ser operado.

Não perguntou porque saiu da equipa de repente?
Na altura o que me disseram foi: "Ricardo estás a jogar bem, mas vem aí um jogo muito importante para nós e vai jogar o colega "x" porque ele fala mais do que tu em campo e também tiveste aquela questão de querer sair no final da época passada". Fiquei mesmo muito triste. E quem sabe disto, sabe que a confiança para um jogador é tudo. E há também um episódio surrealista, que é muito grave e que explica muita coisa.

Conte.
Nessa altura em que ainda estava jogar havia muita pressão sobre o treinador, o holandês Martin Jol. Dizia-se que vinha um treinador espanhol. Os resultados não eram bons, o ambiente não era bom e corria boato que o Tottenham queria contratar outro treinador. Há um fim de semana que vou passar a Portugal e quando regresso, apanho o táxi do taxista que normalmente me vinha buscar ao aeroporto. Quando entro no taxi, ele diz-me: "Olha, tenho aí o jornal para ti, da tua entrevista". "Minha entrevista, que entrevista?". E ele: "Deste uma entrevista a um jornal inglês, a dizer que vês o treinador preocupado nos treinos e que o ambiente na equipa não é muito bom...". Era mentira. Não dei entrevista nenhuma.

O que aconteceu a seguir?
No dia seguinte quando chego ao Tottenham falei com a comunicação do clube, disse-lhes que aquilo era mentira, que tinha estado em Portugal a descansar e que não tinha dado entrevista. Eles ficaram de falar com o jornalista que assinava a peça. Passados uns dias vêm ter comigo: "Oh Ricardo olha que deste mesmo a entrevista!". E eu: "Ui! Vocês sabem mais do que eu?! Não dei entrevista nenhuma". E eles dizem-me que o jornalista inglês disse que eu tinha dado a entrevista a um jornalista espanhol e que ele comprou a história.

E deu a entrevista ao jornalista espanhol?
Não dei nada. Não falei com ninguém. Garanto que é verdade. E o meu espanto foi que eles acreditaram. Disse-lhes claramente :"Vocês são uma vergonha, acreditam num jornalista inglês que diz que comprou uma entrevista a um jornalistas espanhol que diz que falou comigo". O momento do Tottenham não era o ideal e nós sabemos por histórias que ouvimos que os jornalistas ingleses são pioneiros a fazer aquilo, adoram fazer aquilo. Fizeram-me essa porcaria, porque depois fiquei mal visto perante as pessoas. Mas, repito, não dei entrevista absolutamente nenhuma.

Não quis falar com o jornalista?
Não. Não me dei ao trabalho, porque as pessoas que deviam acreditar em mim nao acreditaram. O que acontece é que a minha relação com os jornalistas, sejam de que nacionalidade forem, não voltou a ser a mesma.

Ricardo Rocha como jogador do Tottenham

Ricardo Rocha como jogador do Tottenham

Phil Cole

É por tudo isso que sai para o Standard de Liège.
Não, isso é outra situação. Entretanto sou operado, há a tal troca de treinadores, chega o espanhol Juande Ramos, que diz que nos vamos entender muito bem, etc., e, nunca joguei! Cheguei ao final da época fui ter com o diretor desportivo: "Por favor, deixem-me ir embora. Não quero dinheiro nenhum, por favor deixem-me ir embora". Ele disse-me que não deixa porque eu tinha um valor de mercado e achavam que ainda conseguiam bom dinheiro por mim. Entretanto, o Rui Costa, que tinha deixado de jogar, ligou-me a perguntar se estaria disponível para regressar. Disse que era já. Mas eles arranjaram-me outro clube inglês, fiquei à espera, e ligaram-me a dizer que tinham dito que eu não estava interessado... Outra mentira. Vim a saber mais tarde que a exigência do Tottenham era muito grande.

Se disse que sim ao Rui Costa porque não regressou nessa altura ao Benfica?
Não sei. Provavelmente os clubes não se entenderam. As exigências do Tottenham eram muito altas.

Nessa altura tinha empresário?
Não. Tinha uma ou outra pessoa amiga que estava a tentar encontrar-me colocação. Mas o que mais me devastou, até chorei, foi ter aparecido nesse mesmo ano o Espanhol de Barcelona, que falou comigo, tinha tudo acertado, era um contrato até ligeiramente superior àquele que tinha, era um clube que me queria no imediato para jogar. A coisa arrastou-se até à janela de transferências de agosto - o objetivo era pagar por um empréstimo, mas depois poder assinar contrato com eles, uma vez que estava no meu último ano de contrato com o Tottenham. E no último dia de transferências, no dia 31 de agosto, recebo um telefonema do diretor desportivo do Espanhol de Barcelona a dizer: "Ricardo, pedimos-te imensa desculpa mas não conseguimos chegar a acordo com o Tottenham. Não aceitamos as exigências deles e como é o ultimo dia de trasnferências temos de ir buscar uma alternativa".

Qual era a exigencia do Tottenham?
Que se eu estivesse a jogar bem, queriam-me de volta em janeiro. E o negócio não se fez por causa disso. A janela de transferências fechou e no dia a seguir o diretor desportivo liga-me a dizer: "Temos um clube da II divisão inglesa que te quer emprestado". Disse-lhes que nem pensar. Então havia um clube que lhes pagava pelo meu empréstimo, que eu queria ir porque saia de Inglaterra e agora querem-me mandar para a II divisão inglesa? Não vou!

O que aconteceu?
Mandaram-me para a equipa de reservas no dia a seguir. A mim e a mais oito colegas meus. Fiquei lá durante um mês ou dois. Depois houve troca de treinadores novamente. Veio o Redknapp, que voltou a puxar-me para a primeira equipa. Ainda fui ao banco muitas vezes, mas acabei por não jogar. Entretanto acaba o meu contrato, eles não quiseram renovar, mas o que me deixa orgulhoso de mim mesmo é que no dia em que me despedi de toda a gente, o diretor geral, John Alexander, cumprimentou-me e diz: "Obrigado Ricardo pelo teu profissionalismo. Apesar daquilo que passaste neste clube, conseguiste manter o teu profissionalismo sempre". Eu cheguei a ter colegas que diziam que se estivessem na minha situação já tinham feito trinta por uma linha para obrigá-los a deixar ir embora. Esse John Alexander depois acabou por ser importante quando saio do Standard de Liège para o Portsmouth.

Durante um jogo, à direita, já com a camisola do Potrsmouth

Durante um jogo, à direita, já com a camisola do Potrsmouth

ANDREW YATES

Antes disso, como vai parar ao Standard de Liège?
Eu estive um ano e meio sem jogar, a maior parte das equipas que mostra interesse por mim, é para eu ir treinar à experiência. Eu achava que não merecia esse tratamento e fui recusando. Depois acabou a janela de transferencias. O treinador do Standard de Liège era o Bölöni e, através do Jorge Mendes o Bölöni mostra interesse e fui para lá em setembro.

A família vai consigo para a Bélgica ou fica em Inglaterra?
Vai comigo. Mas só ficamos cinco meses.

Porquê?
Fisicamente não estava no meu melhor nível, a nível futebolístico também não. O Standard de Liège foi muito bom para mim porque ajudou-me a reabilitare. Era uma equipa muito jovem, não atravessava um bom momento e às tantas vejo que a culpa começava a ser posta nos mais velhos e com mais experiência. Disse à minha esposa: "Tenho de arranjar alternativa até janeiro, porque já sei que até final do ano não jogo." Como as coisas não estavam a correr muito bem, pensei que o meu auge futebolístico estava a desaparecer, com 30 anos. Meti uma pessoa amiga a ver se me arranjava colocação e no último dia de transferências ele liga-me e diz que tem o Portsmouth para mim, que estavam com dificuldades financeiras, no último lugar, mas que podia ser uma grande oportunidade para voltar a jogar.

Aceitou de pronto?
Ele disse-me aquilo às quatro e meia da tarde e tinha de ficar tudo feito até às seis. Eu tinha de ir para um hotel para trocar faxes, assinar as coisas, etc. Desliguei o telefone e disse à minha esposa "Eu acho que não vou, porque já falta pouco tempo e ainda tenho de ir agora para um hotel aqui perto e ficar à espera de faxes..." E ela: "Tu tens que ir já. Vai imediatamente". Quase que me escorraçou de casa (risos). Fui, recebi as propostas, assinei, mandei de volta e graças a Deus aquilo passou tudo e chego ao Portsmouth, na Premier League novamente.

Ricardo Rocha foi mais feliz a jogar pelo Portsmouth do que pelo Tottenham

Ricardo Rocha foi mais feliz a jogar pelo Portsmouth do que pelo Tottenham

Ben Hoskins

Como foi a readaptação a Inglaterra?
Correu muito bem. Portsmouth é no sul de Inglaterra e as pessoas são completamente diferentes das de Londres. Aquilo era como uma familia. O clube estava a passar por dificuldades financeiras, por causa do dono, mas era uma familia. E vou para o Portsmouth porque eles perguntaram ao John Alexander, o diretor geral do Tottenham, o que achava e ele disse o melhor de mim, que eu era um grande profissional.

As coisas correram tão bem que ficou lá quatro épocas.
Sim, na primeira época, acabamos por ir à final da Taça de Inglaterra. Nas meias finais jogo contra o Tottenham em Wembley, eles são eliminados e sou considerado o melhor jogador em campo. Fomos à final com o Chelsea e perdemos 1-0. Depois, tive várias ofertas mas estava especificamente à espera de uma, do Avram Grant, que disse que ia tentar tudo para ir com ele para um determinado clube.

Qual?
Prefiro não dizer. Recusei muitas propostas porque queria segui-lo, mas acabou não se concretizar e o Portsmouth insistiu para eu ficar. Fiquei. Os meus filhos foram hiper bem tratados na escola, falavam e falam inglês como ninguém, a minha esposa tinha relação com vizinhos e com as mães de outras crianças. Tinhamos um conjunto de amigos fantástico e foi extraordinário. Consegui jogar sem problema ao mais alto nível. Tinha e ainda tenho, via Twitter, uma relação extraordinária com os adeptos. Continuo a acompanhar o clube.

Deve ter muitas histórias para contar desses tempos em Inglaterra…
Assim de repente é difícil lembrar... Há uma que hoje já posso contar (risos). Aquela meia final da Taça de inglaterra em que fomos a Wembley, a minha esposa como ia ver o jogo ficou no mesmo hotel onde estava a equipa. E eu, à socapa, fui para o quarto dela, dormimos juntos sem ninguém saber, e a verdade é que ganhamos, fiz um grande jogo, como já disse, fui considerado o melhor em campo.

Ricardo Rocha fez seis internacionalizações pela seleção nacional

Ricardo Rocha fez seis internacionalizações pela seleção nacional

Phil Cole

E a seleção?
Sou chamado a primeira vez, pelo Agostinho Oliveira, quando estou em Braga. Antes já tinha sido chamado à seleção B. Fiz um jogo particular. Depois volto a ser chamado pelo Scolari. Fiz uns particulares também. Depois tive imenso tempo sem ser chamado e volto a ser convocado para o apuramento do Euro2008. Fiz o jogo contra o Cazaquistão e contra a Polónia.

Tem pena de não ter jogado mais pela seleção...
Sim, mas a minha maior pena é não ter participado numa grande prova internacional pela seleção. É um desgosto que tenho. Mas a minha geração era fenomenal a nível de centrais. Tinhamos muita qualidade. Cumpri o sonho de ser internacional. Fiz seis internacionalizações. A primeira vez que fui à seleção até tinha vergonha de cumprimentar os grandes como o Figo, Sérgio Conceição, Rui Costa, etc, havia um respeitinho, estava ali e só pensava: "Estou com estes gajos na seleção isto é inacreditável".

Como é que se dá o fim da carreira?
O fim foi um bocado triste. O Portsmouth desce à quarta divisão e querem renovar, mas sugerem-me que ao mesmo tempo tire um curso para ficar depois na estrutura do clube. Eu disse que o podia fazer, mas precisava de uma segurança para ficar em Inglaterra e por isso queria que eles colocassem essas propostas que me fizeram por escrito, em forma de contrato. E isso não aconteceu. Fiquei triste porque quebrou um bocadinho a confiança. Regressei a Portugal para tentar encontrar um clube, não consegui e depois uma pessoa - que não quero dizer quem foi - prometeu-me que arranjava uma coisa certa para janeiro, que não me preocupasse. Esperei até janeiro e afinal não tinha conseguido. Eu sabia que já não ia conseguir colocação em lado nenhum, com 35 anos, ainda para mais estando já há seis meses sem jogar. Fiquei tão triste que afastei-me completamente do futebol. Nem jogos via. Dediquei-me completamente à familia.

Isso foi em 2014. Entretanto veio viver para onde?
Para Santo Tirso.

Com os filhos, a despedir-se de Portsmouth

Com os filhos, a despedir-se de Portsmouth

D.R.

O que faz agora ou o que pretende fazer no futuro?
Tirei o segundo nível do curso de treinador, em Inglaterra, mas não tenho por objetivo ser treinador. Acho que não encaixo nesse perfil. Estou à procura de uma oportunidade, e tenho feito formações nesse sentido, de ser diretor desportivo. O essencial é entrar na estrutura de um clube, aprender, ver como é que as coisas funcionam e depois o objetivo é ser diretor desportivo. É isso que me vejo a fazer e que se adequa ao que sou como pessoa.

Onde investiu o dinheiro que ganhou?
Fui fazendo alguns negócios de imobiliário e o resto está no banco. Vou fazendo umas coisas aqui porque tenho muitos amigos que estão em direções de clubes em Inglaterra, e ajudo-os, ao nível de scouting.

Tem algum hóbi?
O golfe. Em Inglaterra toda a gente joga golfe, desde o jardineiro, ao canalizador, até ao dono de empresas. 90% dos jogadores também jogam e começaram a chatear-me. Fui aprendendo e agora quase todas as semanas jogo. É engraçado porque eu detestava golfe e agora fico colado à televisão a ver e adoro jogar (risos).