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A casa às costas

Paulo Alves: “Em Riade levei uma cabeçada e joguei minutos que não me lembro. Acordei na ambulância, vi uns árabes e gritei: ‘Onde estou?’”

Paulo Alves está de regresso ao Gil Vicente, o clube que mais vezes representou tanto como jogador como treinador. Aos 48 anos, o ex-avançado do Sporting que passou pelo West Ham e pelo Bastia, confessa que a sua maior frustração é não ter sido campeão nacional e conta como uma lesão quase lhe arruinou a carreira

Alexandra Simões de Abreu

GETTY

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Nasceu em Vila Real. Como era a sua família?
Nunca nos faltou nada, a mim e aos meus irmãos. Não éramos uma família rica, mas felizmente nunca nos faltou nada. O meu pai tinha uma pequena empresa de construção civil com dois, três empregados e viveu sempre disso. A minha mãe trabalhava no banco Crédito Predial Português. Tenho mais dois irmãos, um irmão e uma irmã. Eu sou o mais velho. Tivemos uma infância normal e eu desde muito cedo estive virado para o futebol.

E a escola, gostava?
Gostava e era um aluno relativamente bom, só que pensava muito no futebol.

O seu pai era adepto de que clube?
O meu pai, e a família do lado do meu pai, era sobretudo adepta do Benfica e obviamente gostava muito de futebol, mas ninguém praticava. O meu gosto pelo futebol vem da paixão que desde muito pequenino tinha pela bola, só estava bem com a bola.

Calculo que tenha começado a jogar na rua com os amigos?
Sim, passava os dias na rua a jogar futebol.

Quem eram os seus ídolos?
O Fernando Gomes, o Nené, Jordão, Manuel Fernandes.

Nessa altura torcia porque clube?
Pelo Benfica, um pouco pela influência do meu pai. Mas desde muito cedo comecei a jogar e a perceber que mais cedo ou mais tarde ia ser profissional de futebol e o clubismo desaparece.

Paulo Alves é o primeiro em cima à esquerda

Paulo Alves é o primeiro em cima à esquerda

D.R.

Como e quando é que começa a jogar num clube?
Comecei cedo. A 100, 200 metros abaixo da casa dos meus pais, havia e ainda há um campo de futebol de um clube chamado o “Abambres Sport Clube” e comecei a jogar lá nos infantis, comecei muito cedo.

Lembra-se com que idade foi para lá?
6, 7 anos.

E depois?
Comecei a jogar, a dar nas vistas na cidade e, salvo erro, com 13, 14 anos fui para o Sport Clube de Vila Real.

Falaram consigo, com os seus pais, como é que aconteceu?
Falaram comigo e com os meus pais. O Vila Real era um clube da cidade, tinha mais nome, as equipas de iniciados e juvenis já participavam nos campeonatos nacionais. E embora o Abambres seja um clube de formação que também participou em campeonatos nacionais, não só distritais, o Vila Real tinha outro impacto por ser o clube da cidade.

Já jogava como avançado?
Sim. Desde cedo que joguei como avançado. Mas lembro-me de jogar a médio, quando era mais miúdo.

Quanto tempo esteve no Sport Clube de Vila Real?
Dois anos, até ir para o FC Porto.

E como é que surge o FCP?
Antes de ir para o FCP fui convocado para as seleções nacionais, para os sub-18 e sub-19, tinha uns 16, 17 anos. Tenho até uma história engraçada. O professor Carlos Queiroz, que na altura era o selecionador destas equipas, foi a Vila Real participar num colóquio da inauguração da Universidade de Vila Real e aproveitou para ir ver um jogo de juniores num sábado à tarde, entre o Vila Real e o Feirense. Lembro-me que marquei três golos nesse jogo, e na semana seguinte apareceu um telex, ainda não havia outras tecnologias, no clube, a dizer que eu tinha que me apresentar em Lisboa na semana seguinte. Foi uma surpresa.

Ficou eufórico?
Sim. Naquela época as convocatórias eram circunscritas aos grandes, havia eventualmente um jogador do Braga; lembro-me do Hélder, do Setúbal, e do To Zé, do Leixões, mas pouco mais. E um jogador ser selecionado do Vila Real era…

... Uma coisa do outro mundo, imagino. Como é que reagiram os seus pais?
Já não tenho bem a ideia, mas o meu pai ficou eufórico.

Eles nunca se opuseram a que jogasse futebol?
Não. O meu pai adorava que eu jogasse e ia ver sempre os jogos. A minha mãe tinha e teve sempre algum receio que eu me lesionasse e por isso não gostava muito de ver.

Paulo Alves na seleção

Paulo Alves na seleção

D.R.

Então foi para a seleção?
Sim, vou para a seleção e na altura era tudo novo. Chegar de Vila Real a Lisboa demorava-se 8, 10 horas. De Vila Real ao Porto eram 4h, para Lisboa era o dobro ou mais. A viagem era quase uma aventura, mas lá fui.

Foi sozinho, com o seu pai?
Sozinho, de comboio. Alguém da federação ligou-me a dar as indicações. Para ir ter ao Porto no comboio das “x” horas e estariam lá outros colegas de Braga e do Porto, para irmos todos juntos. Claro que da primeira vez foi um bocadinho difícil mas depois facilmente apanhamos o ritmo.

Lembra-se quem foram os outros jogadores que encontrou?
Claro. O Vitor Baía, o Fernando Couto, o Jorge Couto… Os jogadores aqui da zona norte, do Braga ou do Leixões, já os conhecia de jogar contra eles porque o Vila Real participava no campeonato nacional de juniores e jogavamos com os jogadores do norte. Mas, por exemplo, o Paulo Madeira, do Benfica, ou o Amaral e o Filipe do Sporting, esses não os conhecia.

Qual foi o impacto quando chegou à seleção?
Já tinha ido a Lisboa. Não tenho bem presente mas lembro-me de ter falado com os meus colegas. Íamos todos juntos no comboio e obviamente que havia aquela ansiedade, aquele nervoso miudinho mas nada de extraordinário. Fui tentar também a minha sorte e ver o que de facto podia sair dali e as coisas correram muito bem, fui muito bem aceite e fiquei. E depois fiz sempre parte das convocatórias até ter tido uma lesão.

Essa primeira convocatória foi para uma qualificação, um jogo amigável?
Não. A primeira convocatória foi apenas para treinos. Íamos muitas vezes fazer treinos e mais tarde somos campeões do mundo precisamente por isso, por andarmos muito tempo a mecanizar coisas, a organizar a equipa. O professor Queiroz tinha já uns métodos fantásticos que fomos apreendendo e que depois acabou por resultar naquelas gerações fantásticas de jogadores, fomos campeões do mundo em 89 e 91, a chamada geração de ouro do futebol português.

Com Jorge Pinto da Costa, presidente do FCP, clube que o foi buscar aos juniores do S.C. Vila Real

Com Jorge Pinto da Costa, presidente do FCP, clube que o foi buscar aos juniores do S.C. Vila Real

D.R.

Como é que vai para o FCP?
Nesses primeiros três dias em que fui à seleção, fui para Lisboa numa 2ª feira, chego lá treinamos à tarde e depois temos um jogo na 3ª feira com o Estori. Éramos uma equipa de sub-18 e jogámos contra a primeira equipa do Estoril que na altura estava na I divisão. Joguei na segunda parte e fiz dois golos, lembro-me perfeitamente disso: dois bons golos e isso teve um impacto muito forte em termos de imprensa. No dia seguinte, salvo erro no jornal “A Bola”, vinha um destaque na primeira página. Já na altura Portugal tinha esta coisa, que depois sempre existiu, que era a falta de pontas de lança e homens de área, e como ninguém me conhecia, criou-se ali um impacto forte e que chamou a atenção dos clubes grandes. Na altura o Benfica, o Sporting e o FCP, quiseram contratar-me.

Os três na mesma altura?
Sim, os três.

Tinha empresário?
Não, não. Acabei por ir para o FCP, não porque o FCP pagava mais ou menos do que os outros, na altura isso nem passou muito por mim. Foi o meu pai que resolveu, mas por influência da minha mãe que não queria que fosse para muito longe. Ela dizia que no FCP sempre dava para volta e meia ir lá, e para Lisboa era muito complicado.

Jogava na equipa de juniores…
...Mas normalmente era chamado para treinos da equipa A e cheguei a ir a jogos da equipa A.

Qual foi o seu primeiro jogo na equipa principal do FCP?
Na altura, o treinador era o senhor Tomislav Ivic e lembro-me de ter feito um jogo para a Taça de Portugal, em Moura, mas no Campeonato nunca cheguei a jogar. Jogava nos juniores, fazia muitos golos, ia às seleções só que de repente tive uma lesão muito grave no joelho.

Rotura?
Sim, rotura de ligamentos total. Uma lesão complicadíssima, muito grave. Na altura, inclusivé, diziam que seria muito difícil voltar a jogar futebol.

Como é que aconteceu?
Foi num jogo Leixões-FCP, ia chutar na bola e o guarda-redes sai para bloquear o remate, mas eu já tinha a perna no ar, choquei contra ele e pouco mais me lembro porque fiquei inconsciente. Só me lembro depois de acordar, ou ter a ideia de acordar, no lar do FCP, já com a perna engessada, com a minha mãe à minha beira a chorar.

Quando vai para o Porto vai viver para o lar do FCP?
Sim.

Como é que foi sair de casa para um lar de jogadores?
Não custou muito porque quando vamos realizar um sonho e fazer aquilo que gostamos, que é a nossa paixão, não custa nada. Tinha um grupo de colegas excelente, tinha ali a minha vida em termos desportivos. Treinava, jogava, aos fins de semana vinha a casa ou os meus pais iam lá ver os jogos. Gostava daquilo que fazia, adorava.

Nessa altura ainda estudava?
Até sair de Vila Real estudei sempre. Quando fui para o Porto cheguei a fazer a matrícula numa escola perto da rotunda da Boavista, mas era impossível conciliar. Não que não quisesse ou não tivesse vontade de ir, mas éramos praticamente profissionais. Treinávamos à tarde, depois estava também muito tempo fora com as seleções, tive que optar mesmo.

Estudou até que ano?
Fiquei no 11º. Nunca tinha chumbado, mas fiquei por ali.

Paulo Alves com o equipamento do FCP

Paulo Alves com o equipamento do FCP

D.R.

Disse que fez aquele jogo na Taça pela equipa A, mas nunca jogou para o campeoanto na equipa principal do FCP. Porquê, porque vai para o Gil Vicente?
Depois, já não consegui mais fazer parte da equipa do FCP. Embora tivesse ainda alguns anos de contrato com o FCP, a verdade é que, quando recupero da lesão, sou emprestado ao Gil Vicente juntamente com alguns colegas meus. Mas nunca mais fui o mesmo jogador, pelo menos naqueles primeiros anos porque a operação tinha sido muito grave.

Quanto tempo é que demorou a recuperação?
Passado um ano fui selecionado para o campeoanto do mundo e fui campeão do mundo. Fui e as coisas até correram bem, fiz um golo lá, mas não consegui voltar a ser, pelo menos naqueles anos seguintes, o jogador que era porque perdi muita mobilidade no joelho, dobrava a perna pouco mais do que 90 graus, não esticava totalmente; foi um processo doloroso, aqueles três primeiros anos foram duros. Só mais tarde, já no Marítimo, aos 23, 24 anos é que volto a ser um bocadinho aquilo que era antes. Comecei a ganhar mais mobilidade, mais elasticidade na perna.

Que recordações tem do Campeonato do Mundo?
Tenho uma história fantástica. Essa seleção tinha um espírito de grupo extraordinário. O professor Queiroz e o Nelo Vingada eram para nós, em termos desportivos, os nossos pais. São referências extraordinárias até hoje, e tenho quase a certeza que falo por todos os meus colegas. Fomos para o campeonato do mundo, mas nenhum de nós imaginava que iria ser campeão. Portugal na altura era um país pequenino, estávamos longe dos grandes palcos e sentíamos isso. Jogávamos contra a Alemanha, a Rússia ou contra a Inglaterra e sentia-se. Mas o professor Queiroz e o professor Vingada meteram-nos sempre na cabeça e motivaram-nos de forma a acreditar. O professor Queiroz incutiu-nos o espírito de não pensar pequeno, não temos que ser inferiores a ninguém e isso é algo que, pelo menos a mim, marcou. Fomos para a Arábia Saudita e aos poucos fomos acreditando. Não por sermos uma seleção talentosa por aí além – tinhamos grandes jogadores, como o João Pinto, o Fernando Couto, o Amaral, uma série de jogadores bons, mas não tinhamos um talento enorme. Taticamente éramos uma equipa muito sólida...

E a história?
Voltando à história, no segundo jogo contra a Nigéria, eu terei levado uma cabeçada, um soco, uma coisa qualquer de um nigeriano e fiquei inconsciente, só que ainda joguei por mais uns minutos. Sinceramente não me lembro, não sabia onde é que estava e acabei por ser substituído. Há imagens disso, eu a sair com o massagista, mas basicamente só me lembro de acordar em pânico na ambulância (risos). Fui levado para o hospital e quando acordo na ambulânica estão os enfermeiros ou os médicos, vestidos obviamente com as vestes deles, árabes, e eu acordo, olho para os tipos e começo a gritar “onde é que eu estou” (risos). De repente o nosso saudoso massagista, o senhor João Silva, o médico da seleção e do Belenenses durante muitos anos, infelizmente já nos deixou, toca-me no braço e diz “Calma Paulo, estou aqui, tudo bem, tranquilo” (risos). Lá acalmei, mas aquele episódio, aquela reação ficou para sempre. Ainda hoje toda a gente se ri com isso.

Com quem é que fez uma amizade mais estreita desses tempos da seleção?
É difícil dizer porque éramos uma seleção muito unida. É evidente que, como tinha jogado no FCP, se calhar tinha mais proximidade com o Jorge Couto, com o Morgado, porque éramos colegas, e com o Folha. Mas também me dava muito bem com o Bizarro, com o Tó Zé do Leixões, com o Paulo Madeira, o próprio Amaral. Mas é complicado estar a dizer que era mais amigo deste ou daquele porque é injusto.

Paulo Alves com a equipa do Gil Vicente. É o primeiro em baixo, à esquerda

Paulo Alves com a equipa do Gil Vicente. É o primeiro em baixo, à esquerda

D.R.

Quando foi emprestado ao Gil Vicente, quem era o treinador na altura?
Quando vim para o Gil Vicente o treinador era o senhor António Gomes, que esteve muito pouco tempo, saiu logo a seguir. Sinceramente não tenho muita ideia dele porque também cheguei um bocadinho mais tarde por causa da recuperação. Depois, foi uma pessoa muito importante para mim, o senhor Mário Reis, que de alguma maneira me ajudou no processo que eu precisava de ritmo de jogo, de jogar e de treinar, e ele proporcionou-me isso e acabei por fazer uma época boa o que deu azo a que fosse ao Campeonato do Mundo, portanto tenho que lhe estar grato. Ele só teve esse ano, depois nos anos seguintes veio o Rodolfo Reis.

Depois vai para o Tirsense porquê?
Por dois motivos. Primeiro, o Gil Vicente entrou numa crise. Não constituíram logo direção no final da época e as coisas ficaram um bocadinho indefinidas. Esse foi o motivo. Mas também porque o Rodolfo Reis tinha sido meu treinador dois anos no Gil e quis que eu fosse. Na altura eu ainda era jogador do FCP e fui com ele.

Gostou?
Acabou por ser bom, porque subimos de divisão, no Tirsense, e fui dos melhores marcadores da Liga. As coisas começavam aí a correr bem.

Nessa altura já namorava ou estava casado?
Comecei a namorar no Gil Vicente com a minha atual mulher, Madalena.

Segue-se a ida para a Madeira, para o Marítimo.
Sim, eu na altura estava bem, até costumava fazer os inícios de época no FCP. E estive quase para ficar na primeira equipa do FCP, mas depois contrataram um ponta de lança do Brasil, o Paulinho César, não me lembro de ter tido um grande impacto cá. Acabei por ir para o Marítimo porque o Paulo Autuori fez uma força enorme para eu ir.

Foi sozinho?
Sim, mas a minha namorada ia lá com frequência. Custou-me um bocadinho a adaptar à ilha, mas mais pela questão dos voos, por saber que estava num ilha.

Fazia-lhe confusão ser uma ilha?
Não vou dizer que me fazia confusão, mas se calhar naqueles dois ou três meses custaram-me um bocadinho a adaptar-me àquela realidade, mas as coisas começaram a correr muito bem e posso dizer hoje que foi fantástico viver e ter tido sucesso na Madeira.

Esteve sempre com o Paulo Autuori?
Sim, sempre com ele. Durante dois meses esteve lá um outro brasileiro chamado Edinho, mas depois saiu, não se adaptou, e regressou o Paulo Autuori.

Paulo Alves, o primeiro à esquerda, com alguns colegas do Gil Vicente

Paulo Alves, o primeiro à esquerda, com alguns colegas do Gil Vicente

D.R.

Entretanto tem uma passagem pelo SC Braga.
É muito curta, na altura o treinador era o Antonio Oliveira. No fim desse primeiro ano, no Marítimo, quis levar-me para lá, o que também coincide um pouco com essa tal saída do Paulo Autuori. Eu fui para Braga, mas só lá estou dois meses.

Porquê?
As coisas não estavam a correr bem.

Mas porquê?
Não correram bem, não estava bem, não conseguia jogar, aquelas coisas que não têm muita explicação. E como na altura o mercado não era como agora, ou seja, podia-se mediante uma circunstância qualquer trocar de clube… . Lembro-me que o presidente do Marítimo ligou-me, a querer que eu voltasse. Falei com o SC Braga, deixaram-me sair. Lembro-me que as coisas financeiramente também não estavam muito sólidas no clube. Estamos a falar antes deste SC Braga moderno, clube quase grande que conhecemos hoje. Na altura, as coisas eram muito diferentes e acabei por voltar ao Marítimo.

Como surge depois o Sporting?
As coisas começam a correr extraordinariamente bem. Na época seguinte a esta de que falava, sou chamado à seleção A e começo a ser internacional.

Quem era o selecionador quando é chamado pela primeira vez à seleção A?
O António Oliveira. Eu já o conhecia das outras seleções, porque ele tinha sido selecionador de sub-21. Só que ali no Braga as coisas não funcionaram, mas passado um ano ele foi para a seleção e comecei a ser chamado por ele.

Foi chamado para alguma qualificação?
Sim, para o Europeu de 1996.

Já como jogador do Sporting, na foto com Otávio Machado

Já como jogador do Sporting, na foto com Otávio Machado

D.R.

Voltamos ao Sporting, como vai lá parar?
Essa é uma história complicada. Inicialmente eu era para ir para o Benfica. As coisas estavam todas encaminhadas nesse sentido.

E porque é que não foi?
Porque depois há um problema entre aquilo que foi acordado pelos clubes. As coisas não correm bem e acabei por regressar ao Marítimo. Voltei para a Madeira, para o Marítimo e faço o inicio da época com o Marítimo. Na altura o Marítimo fazia pré-época na Suécia. Entretanto, o Santana Lopes era o presidente do Sporting, liga ao presidente do Marítimo e chegaram a acordo. Inclusivamente, viajei diretamente de Estocolmo para a Holanda onde o Sporting estava a fazer a pré-época e começo a trabalhar com o Sporting a partir daí.

Ficou triste por não ter ido para o Benfica uma vez que era o clube pelo qual torcia em pequeno?
Nessa altura já somos profissionais e é um bocadinho difícil deixar que as emoções tomem conta. Foi o que tinha de ser.

Quem era o treinador do Sporting?
O Carlos Queiroz.

Que recordações mais marcantes tem das três épocas que esteve no Sporting?
Primeiro que tudo, adorei estar no Sporting. Só que infelizmente eram anos de muita instabilidade no clube. Em três anos terei conhecido uns oito ou nove treinadores e três ou quatro presidentes. O Sporting, na altura, era de facto um clube muito instável e por isso mesmo era difícil ter conquistado muitas coisas. Mas lembro-me de ter ido a Paris conquistar uma Supertaça contra o FCP e de ter sido fantástico, quer em Paris quer em Lisboa, quando chegámos, o mar de gente. No outro ano participámos na Liga dos Campeões e acabámos por fazer coisas interessantes mas dentro daquilo que o Sporting era naqueles anos.

Veio para Lisboa sozinho?
Sim, mas pouco tempo depois comecei a viver junto com a minha namorada Madalena.

O que fazia a sua mulher profissionalmente?
Trabalhava num escritório de contabilidade, mas depois deixou. Nessa altura, em 1998, nasce o primeiro filho, o Lourenço, e em 2004 nasce o Tomás.

Entretanto é emprestado ao West Ham. Como foi a aventura inglesa?
A minha mulher foi comigo, grávida do nosso primeiro filho. Também por isso as coisas não correram bem. Sobretudo ela não conseguiu adaptar-se. A gravidez não ajudou. Estivemos lá cinco, seis meses.

Mas gostou da experiência do futebol inglês?
Gostei, gostei muito. O futebol em Inglaterra na altura ainda era o futebol puro. Treinamos para o jogo, finalização e jogo. Não havia o que chamamos hoje de treino articulado ou organizado, ofensivo ou defensivo. Era direcionado para o jogo, ponto. E aí sim, nos jogos exigiam uma atitude sem limites, mas tudo de uma forma pura. Isso era apelativo. Os estádios estavam sempre completamente cheios, era uma loucura, com os adeptos sempre a cantar e a gritar. Era uma motivação extraordinária, os jogadores quase não se cansavam.

Teve pena de vir embora.
Sim, alguma pena. Entretanto houve também uma mudança de treinador no Sporting, entrou o Carlos Manuel que me ligou a perguntar como é que eu estava, se estava para voltar ou não. Um pouco empurrado pela situação da minha esposa, acabei por vir.

Quando Paulo Alves assinou pelo Sporting, o presidente do clube era Santana Lopes

Quando Paulo Alves assinou pelo Sporting, o presidente do clube era Santana Lopes

D.R.

Regressou em 1997...
...Fiz esse resto de época, as coisas até correram bem e depois fui comprado por um clube francês no ano seguinte.

Como foi a experiência no Bastia?
Fui com a minha mulher e com o meu filho ainda bebé. Mas não foi fácil porque não conhecíamos ninguém. Embora a vida na Córsega não fosse má, não conhecíamos ninguém e com um miúdo tão pequenino as coisas também não foram fáceis. Inclusivamente, a nível profissional, depois de um curto espaço de tempo houve uma mudança de treinador; deixei de jogar e tive princípios de uma pubalgia que me complicou bastante a vida na altura. Porque em França trabalhava-se muito, mesmo muito, corria-se demais. E eu não me adaptei aquela situação.

É por isso que vem embora?
Eu tinha mais dois anos de contrato. Na altura já não tinha os grandes interessados em mim, mas, inicialmente, tinha o V. Guimarães, o Boavista e o Marítimo interessados, só que o Bastia queria reaver algum do dinheiro que tinha investido em mim. Naquela fase inicial do mercado fui-lhes dizendo que ninguém pagaria o valor do passe, mas eles acreditaram que sim e foram atrasando, atrasando, esperando, e evidentemente que esses clubes foram fechando porque foram contratar outros jogadores e acabei por ir para a U. Leiria.

Quem era o treinador?
Era o Mário Reis com quem tinha trabalhado no Gil Vicente. Vivi dois anos bons lá.

E vai para o Gil Vicente, uma espécie de regresso a casa.
No final dessa última época em Leiria o Gil Vicente vai jogar a Leiria e as pessoas do clube falaram logo comigo, demonstraram interesse, a época terminou e voltei ao Gil, sem grande surpresa. Já tinha a minha casa em Barcelos, o meu primeiro filho tinha nascido lá e voltei.

Ficou no Gil quatro épocas até pendurar as chuteiras. Foi muito difícil a decisão de terminar a carreira?
Não, não foi nada difícil, porque na verdade eu quase já não aguentava treinar e jogar. Inclusivé pedi para terminar um ano mais cedo porque já se falava que eu poderia ter algumas funções no departamento sénior e júnior do Gil Vicente, e ,antes da última época, fui falar com o presidente para me deixar terminar a carreira. Só que era o primeiro ou o segundo ano em que ele estava como presidente e disse-me claramente para não me preocupar em treinar ou jogar, mas que tinha de ficar porque era importante no balneário. Eu era um dos capitães da equipa e ele confiava em mim. Tive de estar mais um ano como jogador. E esse último ano foi muito penoso para mim.

Por causa das dores?
Sim, tinha tido muitos problemas de joelhos e de pés. Ainda estive esse ano a jogar e em janeiro, o último jogo que fiz contra o Penafiel em casa, para a I Liga. Fiz uma rotura no tendão de Aquiles e disse para mim mesmo: “Chega! Venha quem vier, para mim acabou. Vou só recuperar disto, para poder andar normalmente”. E terminei a carreira. Chegamos a um ponto em que temos de aceitar, pelo menos eu entendo assim, que não é mais possível continuar, por muito que gostemos, por muito que a paixão seja forte. Quem me dera ainda hoje ser jogador de futebol, mas a realidade é que não é possível.

Entretanto tinha nascido o seu segundo filho.
Exatamente tinha nascido o meu segundo filho em 2004.

Paulo Alves disputa a bola com Hélder, durante um derbi Sporting-Benfica

Paulo Alves disputa a bola com Hélder, durante um derbi Sporting-Benfica

D.R.

Estava com 35 anos e passa logo a treinador. Foi sempre isso que pensou fazer quando deixasse de jogar futebol?
Não, passo primeiro para director desportivo.

Gostou de desempenhar essas funções?
Gostei, porque estava perto da equipa, estava perto dos jogadores, acompanhava os treinos e tudo o que dizia respeito à equipa.

Quando é que se torna treinador?
Entretanto as coisas não estavam a correr bem à equipa e o treinador acaba por sair e o presidente pede-me para tomar conta da equipa até final do campeonato. Na altura, a equipa estava com problemas de descer de divisão, faltavam nove jogos, e pediu-me para ser responsável pela equipa até ao final da época, queria que a salvasse de descer de divisão. Lembro-me perfeitamente que nesses primeiros dias nem dormi, com essa responsabilidade.

Já tinha obviamente tirado o curso.
Tirei os primeiros níveis ainda como jogador, estava no Leiria. Aproveitámos, eu e alguns colegas, que tínhamos tempo livre e fomos a Coimbra tirar os dois primeiros níveis. Depois, quando passei a diretor desportivo tirei o terceiro nível, que a bom rigor ainda não dava para treinar na I divisão, mas a Liga tinha um artigo, não sei se ainda tem, que dizia que se a pessoa se comprometesse a tirar o 4º nível logo que ele existisse, estava apto para treinar. E foi assim que aconteceu. Já tinha os três níveis e fui treinar até final da época. E conseguimos, foi um final de época épico, foi mesmo até à última mas conseguimos manter o clube na I Liga.

Estava a dizer que nos primeiros dias nem dormiu tal era o peso da responsabilidade.
Foi, isto é uma história complicada, porque na altura tinha ido ao Brasil em prospeção de jogadores e o presidente ligou-me porque ia trocar de treinador e queria que eu viesse para ajudar nisso. Lembro-me de vir no avião a pensar em nomes de treinadores que estivessem livres e que o Gil Vicente pudesse ir buscar, longe de pensar que ele iria colocar-me essa responsabilidade. Mandou-me ir ter com ele mal chegasse. Cheguei ao Porto por volta das onze da manhã; fui ter a casa dele e ele disse-me que o clube não estava em condições de ir buscar um treinador, não tinha muito dinheiro e que queria colocar-me no comando técnico. Fiquei surpreso, embasbacado, nem sabia o que havia de dizer perante a situação. Por um lado era uma responsabilidade ,mas também uma oportunidade que eu não podia perder... e eu disse-lhe que não estava minimamente a contar com isso. Ele também disse logo: “Se vês que não consegues, ou não queres, diz já”. “Não, tenha calma. Deixe-me respirar um bocadinho, deixe-me pensar, acabei de chegar, vou almoçar com a minha mulher e depois já lhe digo.” A minha mulher deu-me apoio, disse-me que se era aquilo que eu queria tinha de meter a cabeça. E logo se via o que acontecia. E foi assim que comecei a ser treinador de futebol.

Recorda-se como é que se preparou para os primeiros treinos? O que é que fez?
Fui logo treinar nessa tarde. Cheguei do Brasil de manhã e à tarde fui treinar.

O que é que disse aos jogadores?
Não me lembro muito bem do que terei dito, mas basicamente terei dito: “As coisas aconteceram assim, vou ser eu que vou estar aqui até ao final”. Eles já me conheciam, alguns tinham sido inclusivé meus colegas e eu disse-lhes: “Vocês já me conhecem, eu vou tentar gerir isto dentro dos padrões normais, já sabem que para mim o profissionalismo está acima de tudo, Portanto vamos à nossa vida, há trabalho para fazer”. Não foi fácil nos primeiros dias e nas primeiras horas. Felizmente as coisas correram bem, eles aceitaram muito bem.

Ficou com a restante equipa técnica que lá estava?
Fiquei só com um elemento da equipa técnica o professor Manuel Ribeiro. É uma pessoa de quem gosto e em quem confio muito. Pedi-lhe para ficar e ajudar-me. Ficámos só os dois nos primeiros dias e depois fomos buscar um treinador de guarda redes que hoje está com o Marco Silva no Watford, um rapaz excelente que também nos ajudou muito e os três levámos a equipa até à final com sucesso.

Paulo Alves festeja com Dominguez um golo marcado ao serviço do Sporting

Paulo Alves festeja com Dominguez um golo marcado ao serviço do Sporting

D.R.

Com tanto sucesso que lá continuou.
Atingimos os objetivos, salvámo-nos na última jornada, tínhamos que ganhar o jogo e ganhámos, em casa, ao Belenenses. O estádio estava completamente cheio, foi uma festa espetacular, mas depois infelizmente o clube acabou por descer em termos administrativos. O famoso “Caso Mateus”. Só agora, passado este tempo todo, é que será reposta a verdade. Já há decisão do tribunal e acordo na Liga e na Federação, para o clube voltar à I Liga. Mas naquela altura fomos despromovidos por via administrativa.

Foi um balde de água fria.
Diria mesmo que foi um balde de água gelada para toda a gente. Sobretudo para mim que estava a começar e tinha um início auspicioso. E fomos para a II divisão. O clube esteve para acabar, faltou a jogos, teve muitos problemas financeiros. Foram tempos muito complicados.

É muito difícil gerir um balneário numa situação dessas?
Na altura, nem sei como, conseguimos levar a equipa até ao final e salvámo-nos de descer de divisão também. O clube faltou a jogos, levou um castigo e foi o cabo dos trabalhos, mas levámos a equipa até ao final e acabámos por fazer um bom final de época. Mas se me pergunta se foi difícil, como é que se geriu? Até hoje, não sei. Fui gerindo o dia a dia, tentando perceber as dificuldades dos jogadores. Jogadores que tinham contratos de I Liga estavam a jogar na II Liga, jogadores que nunca tinham jogado na II. Era ir tacteando, ir levando as coisas com uma paciência extraordinária.

Esteve sem receber?
Tivemos fases complicadas. Sim, tivemos dificuldades, coisa que até aí o Gil Vicente nunca tinha tido. Imagine o que é fazer uma equipa para a I Liga e depois… Tinha um orçamento de um milhão de euros, com receitas condizentes com isso, que ia gastar. Era um clube estável, não tinha problemas. Agora passa-se exatamente com o mesmo orçamento para a II Liga, mas com uma receita 100 mil euros, veja como é que isto... percebe?

É uma diferença brutal.
Brutal, mas brutal. Inclusivé o clube ponderou nem se quer participar. Nas primeiras três jornadas não disputou jogos, só à 4ª, 5ª jornada, e depois para apanhar o ritmo e começar a ganhar foi um problema. Só começámos a ganhar à 9ª, 10ª jornada.

Entretanto ainda faz mais uma ou duas épocas?
No ano seguinte o clube tenta o regresso à I Liga, Tínhamos uma boa equipa, ficámos muito perto mas não conseguimos subir.

Depois tem uma passagem pela U. Leiria e pelo Vizela.
Sim, depois vou para Leiria, as coisas não correm bem, vou para Vizela onde faço uma boa época ainda nesse mesmo ano e depois saio e fui para a Federação Portuguesa de Futebol.

Quem o convidou para selecionador dos Sub-20?
O professor Queiroz.

Paulo Alves com a mulher e os dois filhos

Paulo Alves com a mulher e os dois filhos

D.R.

A experiência de ser selecionador é muito diferente da de treinador?
Bastante. Sinceramente não me adaptei, não me consegui adaptar. Não é que não tivesse gostado, porque gostei, mas era muito tempo parado. Naquele ano, a equipa pela qual eu estava responsável não tinha competição oficial e tinha só dois torneios para fazer. O torneio da Madeira, em janeiro, e o torneio de Toulon, no final da época. E, na altura, não percebi até hoje porquê, foram anulados. Vi-me ali praticamente seis meses em que tinha um estágio ou outro… O Gil Vicente pediu-me muito que voltasse, porque o clube queria voltar à I e diziam que tinha que ser eu, que só eu é que conseguia. Conseguiram dar-me a volta. Pedi ao professor Queiroz, ele percebeu muito bem a questão e voltei para o Gil e a verdade é que no ano seguinte subimos mesmo.

E esteve quatro épocas no Gil Vicente nessa altura?
Vim salvo erro em fevereiro até ao final da época, depois estive mais três épocas mas na II Liga, em que fomos campeões, e depois mais duas na I Liga.

Depois vai para o Algarve, para o Olhanense. Porquê?
Depois dessas duas épocas na I Divisão, quer a direção quer eu chegamos a acordo. Eu já estava há bastante tempo no Gil, resolvi sair, a direção também entendeu continuar o seu caminho por outro lado. Entrei no Olhanense salvo erro em outubro, novembro, mas numa situação muito complicada. Fui para o Olhanense com sentido de querer continuar na I, de continuar a ser treinador de I Liga, mas de facto era muito difícil, a realidade. Foi um erro grande ter ido para lá.

Porque é que diz isso?
Tem a ver com a forma como o Olhanense estava estruturado. Estava a ser gerido por uns italianos, na equipa os jogadores eram praticamente todos estrangeiros. Nós às vezes pensamos que conseguimos fazer milagres, mas não fazemos e acabou por correr muito mal.

Quando foi para o Algarve a família acompanhou-o?
Na altura fui sozinho porque os miúdos já estavam grandes e na escola. Não dava para levar a família. A vida de treinador é muito instável e é complicado estarmos a mudar a realidade toda dos miúdos. Mas acabaram por ser só três meses.

Os filhos nunca reclamaram ou não reclamam quando tem de ir para fora?
Já estão habituados e já sabem. Felizmente deu para estar com eles naquela fase inicial. Estive sempre com eles enquanto foram mais pequeninos.

Depois do Olhanense vai para o Beira Mar.
Sim, depois vou para o Beira Mar, o clube também estava numa situação difícil em termos financeiros, mas devo dizer que gostei de estar no Beira Mar, apesar de depois não ter conseguido, por razões que a mim não me dizem respeito, segurar-se na liga profissional. Mas gostei muito porque é um clube de muita história, de muita tradição. Depois, porque não havendo estabilidade financeira, não havendo uma estrutura que segurasse o clube, tinha uma grande equipa e grandes jogadores. Gostei de estar lá apesar de não termos recebido a tempo e horas e as coisas nesse aspecto terem sido muito difíceis. Fizemos um trabalho fantástico e tenho a certeza de que, nesse ano, se o Beira Mar estivesse mais estável, mais seguro ou se eventualmente tivesse chegado lá um pouco mais cedo, com a equipa que tinhamos se calhar, não vou dizer que teríamos subido de divisão, mas teríamos entrado na luta também.

Paulo Alves, com o numero 9, na seleção A

Paulo Alves, com o numero 9, na seleção A

JAMAL WILSON

Segue-se o Irão.
Sim, depois é uma história fantástica.

Como é que surgiu isso?
Surgiu através de um empresário que me colocou a situação e me explicou qual era o projeto. Vou ser sincero, adorei estar no Irão. Primeiro, come-se bem, as pessoas são fantásticas, aceitaram-me extremamente bem.

Foi sozinho?
Fui com um colega meu. Dois treinadores com um adjunto. O projeto era interessante, era um clube de I Liga mas com muito apoio em termos de massa associativa, um clube histórico, que não estava na I Divisão há 20 anos. O presidente, dono do clube, queria voltar à I Divisão. E de facto tinha uma boa equipa e as coisas estavam a correr bem. Mas depois vim a saber pelo meu tradutor, que era a pessoa com quem eu me dava mais, que o presidente estava a investir no clube para o pôr na I Liga mas em contrapartida queria uns terrenos para fazer um novo estádio e uns prédios. Esse presidente era construtor, estava em expansão em termos de construção. E tinha a promessa da câmara ou do governo regional para fazer isso tudo. Eles de facto davam o terreno para o estádio, mas estavam com alguma dificuldade em dar-lhe o terreno para uma cidade nova, para os prédios. Entretanto, tínhamos um jogo em casa contra um rival vizinho. Um jogo que para aquela gente era o jogo do século. O jogo estava 0-0, era um jogo difícil, eram duas boas equipas, mas a minha equipa nos descontos consegue fazer o golo.

E?
O presidente foi à câmara e disse: “Ou me dão os terrenos ou vou deixar cair isto”. Eles não deram e ele disse ao diretor desportivo que nao metia mais dinheiro no clube e que se os treinadores quisessem ficar que ficassem, mas que ele não pagava mais nada enquanto não lhe dessem os terrenos. Ficámos sem saber o que fazer. Entretanto, o diretor desportivo saiu e eu não tive alternativa. Não ia ficar ali sem saber quando é que ia receber ou não e fui-me embora.

Não recebeu?
Eles lá pagam em tranches. Quatro ou cinco tranches anuais. Recebi duas. Também não fiz muita confusão porque não tinha muito por onde. Ficamos assim.

Tem alguma história de lá que possa partilhar?
As pessoas iam buscar-nos sempre para almoçar ou jantar. à beira de casa tinhamos dois restaurantes que tinha alimentação paga para nós, mas as pessoas faziam gosto em ir buscar-nos e levar a restaurantes italianos ou de peixe. Comia-se muito bem. E eu achava estranho ver as ruas completamente cheias de gente à uma ou duas da manhã. As pessoas dançavam comiam gelados, brincavam, até a praia, à noite, estava cheia de gente a conviver. Isto para dizer que as pessoas têm uma ideia do Irão que se calhar não corresponde à realidade porque o que eu vi foi um país alegre e feliz. Não é aquela coisa muito rígida em termos religiosos.

Neste momento vive momentos de grande tensão.
Tenho visto as notícias. Mas aquilo que me parece é que eles, no dia a dia, não ligam nada a isso, vivem a vida deles na boa. Pelo menos que eu me tenha apercebido.

A sua mulher chegou a ir ter consigo?
Não, mas tive pena. Não me importava de levar lá a família. Teerão é uma cidade espectacular. Faz lembrar Nova Iorque. Tem uma coisa incrível, o trânsito é completamente caótico, é inacreditável. Mas tem infraestruturas para tudo, bons aeroportos em cada cidade, vê-se bons hospitais, etc. Gostei muito.

Paulo Alves esteve duas épocas no Sporting de 1995 a 1997

Paulo Alves esteve duas épocas no Sporting de 1995 a 1997

D.R.

Veio para o Penafiel. Duas épocas?
Uma época e meia.

Porque sai?
Não foi por nada de especial, foi um ano e meio bom. Fui à procura de um outro desafio que infelizmente não correu bem, na Madeira.

Porque é que foi para o União da Madeira?
Porque me foi apresentado um projeto que me parecia interessante, com algumas situações que achei que poderia levar ao sucesso. Numa fase inicial havia conjugação de ideias por parte de mim e da administração, mas infelizmente com o tempo as coisas não se concretizaram.

Mas o que aconteceu em concreto?
Sobretudo, falta de consonância de ideias. As minhas ideias eram umas, as da administração outras. Não quero muito entrar por aí. As coisas já passaram e todos tentámos fazer o melhor. Tínhamos uma boa equipa, começámos bem, mas com o tempo as coisas foram ficando mais difíceis e levou depois à decisão de sair.

E vem novamente para o “seu” Gil Vicente.
Saí, entretanto colocam-se várias hipoteses que não se concretizaram e surgiu agora a situação do Gil. Parece-me um projeto interessante. O clube sabe que em 2019/20 estará na I Liga e pediram-me para tentar organizar isso tudo.

É mais difícil ser treinador do que jogador.
É muito mais complicado. O jogador age individualmente, o treinador tem de pensar em todos e tem de ser um líder aceite, que possa conjugar uma série de questões e egos que por vezes são difíceis. Não é qualquer pessoa que tem essa sensibilidade. Na altura em que comecei não sabia se tinha ou não, mas fui preparando o futuro.

Hoje já tem a certeza de que tem essa sensibilidade para ser treinador?
Gosto muito, é a minha paixão. Direi que se eventualmente não tivesse algumas características, não vou dizer que tenho tudo, não estaria aqui. Já estou há tempo suficiente para saber que pelo menos consigo fazer algumas coisas.

Qual é a sua mais valia enquanto treinador?
A minha ideia é que há uma conjunto de factos que são fundamentais. Desde logo ter uma boa comunicação e ser coerente com aquilo que se diz e aquilo que se faz. E depois, o que vai fazer de nós líderes ou não é ser verdadeiro com os jogadores, e não estar com coisas que depois não se efetivem. Ter capacidade de os motivar e de os fazer acreditar em tudo e mais alguma coisa. Depois, obviamente que se tem de ter competências ao nível do treino, ao nível daquilo que é a análise do jogo.

Tem alguma referência?
Tenho algumas. Desde logo o prof. Carlos Queiroz. Alguém que faz de nós campeões do mundo tem de ser uma referência para nós. Para além disso, a capacidade que ele tinha de organizar tudo o que dizia respeito ao jogo, o treino sectorizado, o treino planeado, tudo isso ele tinha bem definido. Depois conheci o Paulo Autuori no Marítimo, que foi também uma referência sobretudo pelo lado emocional e pelo lado psicológico daquilo que é o futebol, ele tinha muito essa característica, era uma pessoa que apelava muito ao sentimento da entrega, da paixão pelo jogo. E, depois, o Vitor Oliveira, sobretudo por aquilo que acho fundamental que é ser direto, ter uma comunicação simples e eficaz. Ser verdadeiro e sincero naquilo que diz e que faz. Esses três treinadores foram os que mais me marcaram.

Um recorte de jornal que Paulo Alves guardou

Um recorte de jornal que Paulo Alves guardou

D.R.

O seu momento mais alto enquanto jogador foi ser campeão do mundo.
Sim.

E a maior frustração?
Foi não ter sido campeão nacional. Adorava ter sido campeão nacional.

E enquanto treinador?
Foi ter sido campeão no Gil Vicente. foi esse o maior sucesso. A maior frustração foi não ter ganho a Taça da Liga, quando atingimos a final, com o Benfica.

Os seus filhos jogam futebol?
Não. Não são nada apegados ao futebol.

Tem pena?
Não. Claro que se tivessem enveredado por esse caminho estaria cá para apoiá-los, mas não tenho pena porque se não é aquilo que eles gostam... Por outro lado, o futebol é um mundo muito difícil e complicado, que pode dar tudo de repente, mas que também pode tirar tudo muito de repente. Eles têm uma coisa muito boa, são ambos excelentes alunos. O mais velho tem 19 anos e está no 2º ano de engenharia no Porto. São dois rapazes excelentes e esse é o meu maior grande orgulho.

Lembra-se qual o valor do primeiro ordenado e o que fez com esse dinheiro?
Eram 50 contos (250 euros), quando era júnior do FCP. Mas não me lembro de ter comprado nada de especial.

Ganhou mais dinheiro como jogador ou como treinador?
Ganhei bastante mais dinheiro como jogador.

Investiu onde?
Basicamente em imobiliário, nunca tive nada de extraordinário. Sou muito contido.

Tem algum hóbi?
Não. Sou muito caseiro, gosto de estar em casa, gosto de estar com os miúdos. Tenho os hóbis deles, em função do que lhes apetece, ir ao cinema ou ir à praia quando é tempo disso. Temos uma tradição de família, nós, os meus cunhados e sobrinhos. Normalmente vamos andar de karting no último dia do ano. Passamos uma tarde assim.

A sua mulher voltou a fazer alguma coisa profissionalmente, criou algum negócio?
Não, nada. Geriu a casa e a família e já não é pouco.

Se não fosse jogador de futebol seria o quê?
Não faço ideia (risos). Qualquer coisa da vida teria que fazer seguramente.

Não tem mais histórias para contar do futebol?
Tenho algumas. Olhe, quando fui treinar um clube importante português - que nem vou dizer o nome - logo no primeiro treino chego ao estádio, um estádio do Euro 2004, e não tinha luz, nem água. Tínhamos de dar o treino porque iamos ter jogo três dias depois, e a solução que se encontrou foi arranjar umas velas no balneário para nos conseguirmos vestir e tivemos de ir tomar banho a casa. O que vale é que era de dia e cá fora pudemos dar o treino. Posso contar mais uma.

Força.
Tive um jogador que tinha uma autoconfiança e uma autoestima enorme, se calhar dos jogadores que treina com mais à vontade para jogar, com mais tranquilidade e desapego. E tinha coisas extraordinárias. Nem sempre era titular. E quando sabia que na ia ser titular, chegava ao pé de mim e perguntava: “Mister o jogo de hoje não é para ganhar?” (risos). E eu: “Mas és maluco, claro que é para ganhar”. “Então e eu não jogo, vou para o banco?” (risos). Tinha um desapego enorme, mas era próprio dele. Foi no Gil Vicente e esse jogador passados umas épocas acabou por assinar com o Benfica. Esse mesmo jogador tem outra história...estávamos na II Liga aqui no Gil, e jogávamos para a Taça da Liga contra o FCP, à noite. E ele, nesse dia de manhã colocou um post no Facebook a dizer: “Hoje é um excelente dia para marcar dois golos”. O resultado do jogo foi 2-2 e quem marcou os dois golos? Foi ele! Que confiança, já viu? [o jogador em causa é Hugo Vieira, hoje jogador na Liga japonesa].

  • Alexandra Simões de Abreu

    Autores

    Licenciada em Ciências da Comunicação, iniciou o percurso profissional na "Gazeta dos Desportos", em 1995. Um ano depois entra para o Expresso. Esteve dez anos na secção do Desporto, foi editora da Sociedade e há sete anos que escreve sobretudo na Revista.