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A casa às costas

Pauleta: “Ainda hoje as pessoas abordam-me na rua e dizem: 'Olha o homem do queijo'”

Aos 44 anos, Pedro Resendes está feliz com tudo o que alcançou no futebol, mas confessa que o maior sonho da sua vida só foi vivido há um ano, quando assistiu à festa de formatura do seu filho mais velho, na universidade. Humilde, diz que não é o melhor jogador de sempre do PSG, apesar de ter sido eleito como tal, e que nunca se deslumbrou com o dinheiro. Vive desde sempre para a família e para o futebol - a diferença é que agora já pode dar-se ao luxo de ter dois Porsches

Alexandra Simões de Abreu

Pedro Pauleta, diretor da FPF, na Cidade do Futebol

Nuno Botelho

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Qual a primeira imagem que tem de si quando lhe falam em infância?
Curiosamente é com uma bola. Neste Natal estive nos Açores e vieram cá uns tios meus que estão nos EUA há mais de 40 anos e eu lembro-me do dia em que eles foram embora. Não me lembrava do facto de eles terem vivido uns tempos em casa dos meus pais antes de irem para a América, mas lembro-me do que estava a fazer no dia em que foram embora. Eu tinha quatro anos e estava com um primo meu da minha idade e jogávamos. Lembro-me do primeiro equipamento que a minha mãe me comprou, uma camisa azul de bico com uns calções amarelos. E lembro-me de estar no quintal dos meus pais a chutar a bola contra a parede. Era daquelas bolas vermelhas de borracha com as tiras pretas. Depois lembro-me de aos sete, oito anos o meu pai, que não me deixava sair de casa para ir jogar à bola com os meus amigos na rua, ter-me deixado ir ter com eles. Lembro-me que logo nessa primeira vez em que fui jogar com eles fiz bastantes golos.

Como e quando é que vai para a equipa do Comunidade Jovens de S. Pedro?
Aos nove anos. Os meus amigos falam-me dessa equipa e do sr. João Bosco, que os ia buscar e levar. Fui lá experimentar, ele gostou de mim. O equipamento era amarelo e preto e ainda tenho essa camisola em casa, na minha sala dos troféus. Tenho uma grande admiração por ele e criámos grande amizade. Ele era o presidente, o roupeiro, treinador, tinha bastante jeito para aquilo. Recordo-me que tinha um Citroën dois cavalos e às vezes íamos sete ou oito ali dentro. Não sei como é que aquele carro aguentava, nas curvas então [risos].

Pauleta na escola primária.

Pauleta na escola primária.

D.R.

Os seus pais faziam o quê?
O meu pai era pintor de construção civil e a minha mãe ainda hoje trabalha, porque quer, infelizmente, como contínua numa escola secundária. Mas só começou a trabalhar quando eu tinha já 10 anos. Ela diz que vai trabalhar até à reforma, apesar de já ter 66 anos.

Tem irmãos?
Tenho duas irmãs. Uma um ano mais nova e outra com menos sete, oito anos.

Alguém na família estava ligado ao futebol?
O meu pai foi jogador. E marcou um golo ao Benfica, que é algo que o deixa muito contente. Foi na inauguração do Estádio de Ponta Delgada, em que o Benfica ganhou 17 ou 18 a 1 e ele marcou o golo.

Também era ponta de lança?
Era. E se falarem com pessoas de mais idade lá nos Açores não há um que não diga que ele era melhor do que eu. Toda a gente: "O teu pai era melhor do que tu, se tivesse tido oportunidades..." [risos]. Ele chegou a jogar na III Divisão, no Oliveirense, mas fez a carreira toda no União Micaelense.

Sempre quis ser jogador de futebol, seguir as pisadas do pai, ou ainda quis ser outra coisa?
Sempre quis ser jogador de futebol. O meu sonho foi sempre esse. Vou contar uma coisa que nunca contei. O meu sonho, ali pelos 13, 14 anos, também um pouco porque vi o meu pai a jogar na III Divisão e uma vez jogou contra o Lusitânia, o meu sonho não era jogar nos grandes, o meu sonho na altura era, se chegasse a sénior, jogar no Lusitânia. Porque na altura o Lusitânia era o grande clube dos Açores, a par do Santa Clara. Mas como era de outra ilha, era esse o meu sonho.

Depois dos infantis vai jogar para onde?
Eu saio da Comunidade porque não tinha mais escalões e vou para uma equipa de iniciados que pertencia à União Micaelense. No ano a seguir vou para o Santa Clara, onde faço os dois anos de juvenis. Mas há uma história pelo meio.

Conte.
No primeiro ano de juvenil no Santa Clara, faço o torneio interassociações Lopes da Silva e marco sete ou oito golos pela seleção dos Açores. Fiquei naquele lote dos 40 e tal para serem convocados para a seleção nacional, que na altura era liderada pelo Carlos Queiroz e pelo Nelo Vingada. Entretanto, voltando um pouco atrás, no primeiro ano de juvenil, havia um colega meu que jogava no Santa Clara, o Carlos Freitas, que veio para o V. Setúbal e ele disse-me: "Tu devias era ir ao V. Setúbal fazer uma experiência". Então, como sou convocado para a seleção, decido nessa mesma viagem aproveitar para fazer a experiência no V. Setúbal. Só que recebo uma chamada dos meus pais, através de um senhor do Santa Clara, que me dizem: "O Benfica não quer que faças experiência nenhuma, quer que tu vás para lá, para o Benfica". Quando chego a Lisboa, em vez de ir para Setúbal, fui para o Benfica. E fiquei no lar do Estádio da Luz, estive lá 15 dias a treinar todos os dias com o professor Arnaldo Cunha e com o mister Nené.

Pauleta com o pai

Pauleta com o pai

D.R.

Não fica no Benfica porquê?
Eu chorava todos os dias porque queria ir para a minha mãe. Não queria ficar em Lisboa, não me consegui adaptar. Todos os dias pedia ao senhor do lar para ir para casa. Não é como agora, naquela altura se calhar tinha sido a segunda viagem de avião que tinha feito na vida, a sair de perto dos meus pais. Na altura estavam no lar o Paulo Madeira, o Rui Bento, o Paulo Sousa, mas eu não me adaptei e ao fim de 15 dias voltei para o Santa Clara outra vez. Tinha 14 ou 15 anos. Volto e sou campeão regional pelos Açores e vamos disputar a zona norte onde apanhamos o FC Porto. Faço um golo ao FC Porto e quiseram-me levar para os juniores de 1º ano.

Qual foi a diferença entre a experiência de Lisboa, no Benfica, e a do FC Porto, onde esteve um ano?
São contextos diferentes. Desde logo a idade. Quando fui para o Benfica era mais novo e foi no início da minha carreira, assustou-me um pouco aquele impacto. O FC Porto surge um ano e tal depois, já tinha vivido aquela experiência em Lisboa. Não tem nada a ver ser sul ou norte, até porque fui muito bem tratado no Benfica e toda a gente queria que eu ficasse. Curiosamente fui campeão nacional nos juniores do FC Porto, apesar de jogar muito pouco ou quase nada na equipa principal, jogava era pela equipa B.

Quem era o treinador dos juniores?
O Inácio. Eu tinha assinado por dois anos, que eram os dois anos de júnior, mas no segundo ano o FC Porto queria dispensar-me para o Maia e para o Varzim. E eu disse que se era para ir para um desses clubes então voltava ao Santa Clara.

Sentiu que esse ano no FC Porto foi uma mais-valia para si? Cresceu como jogador?
Sem dúvida. A todos os níveis. Tínhamos uma equipa de juniores muito boa, de jogadores que mais tarde se afirmaram na I Divisão e na seleção, como o Jorge Costa, o Rui Jorge, o Cao, o Tulipa, o Bino, o Jorge Silva, o Toni e o Miguel Bruno, avançados. Cresci como jogador e como homem, porque foi a primeira vez que saí de perto dos meus pais e estamos a falar de há 30 anos, em que viver no Açores ou viver no Continente não era a mesma coisa do que é hoje. Sair de casa não era o mesmo que hoje, em que um miúdo com 10 ou 12 anos já está farto de viajar. Se as coisas desportivamente tivessem corrido bem, não tenho dúvida que tinha continuado. Mas a partir do momento em que falaram na dispensa para o Maia ou Varzim, preferi ir para o Santa Clara jogar com os juniores e treinar com os seniores. Nessa altura o Santa Clara estava na II Divisão B.

Tinha esperança de chegar à equipa principal do FC Porto?
Sempre tive a capacidade de ver a realidade das coisas e a realidade é que se não era titular numa equipa de juniores, como é que queria chegar a uma equipa principal? Não quer dizer que não conseguisse, mas existe uma grande diferença.

Na altura quem era o treinador principal do FC Porto?
O Artur Jorge.

Ele alguma vez falou consigo?
Não, mas fui uma vez fazer um jogo de reservas com o FC Porto, se não me engano para a inauguração da iluminação do campo do Varzim. Fui eu e mais cinco ou seis miúdos dos juniores do FC Porto. Fomos para encher o banco. Mas foi um momento muito bom para mim, porque pude estar ao lado de vários jogadores do FC Porto, ainda que fossem dos jogadores que menos jogassem.

O jogador com a mãe

O jogador com a mãe

D.R.

Volta ao Santa Clara. Notou muita diferença?
Sim, de andamento e tudo. Tanto é que comecei logo a treinar com os seniores e ao fim de quatro ou cinco meses já era titular nos seniores, com 17 anos, na II Divisão, que era a nossa II Liga de hoje.

Quando decidiu ir para o Porto, como reagiram os seus pais?
O meu pai queria. Ele é adepto ferrenho do Benfica, portanto queria que eu tivesse ficado no Benfica. Depois queria que eu ficasse no FC Porto, porque torcia para que eu ficasse fora dos Açores, num grande. A minha mãe já não, o facto de eu voltar para casa para ela foi uma alegria. Mas naquela altura não havia a pressão que existe hoje sobre os miúdos: "Tens de ser jogador e tens de ficar aí fora". A minha decisão foi voltar para o Açores para jogar futebol e ir trabalhar.

Foi trabalhar para onde, a fazer o quê?
O Santa Clara arranjou-me um emprego numa empresa de distribuição de mercadoria.

Trabalhou aí durante quanto tempo?
Durante dois anos, dos 17 até ir para a tropa. Isto é, joguei um ano de sénior, com 18 anos, no Santa Clara, depois fui para o Operário, com 19 anos, e no segundo ano fui para a tropa. Fiz um mês de recruta e puseram-me como motorista do comandante, que era o Coronel Mendonça.

Custou-lhe fazer tropa?
Custou um bocadinho. Curiosamente era aquilo que mais temia na vida na altura, porque toda a gente dizia que a tropa cortava as pernas às pessoas e eu tinha o meu emprego, tinha o futebol... fiz tudo para não ir à tropa. Inclusivamente quando fui à inspeção o presidente do Operário arranjou-me umas chapas [raio-x] de um senhor que tinha problemas de asma. Cheguei lá, mostrei e disse que não podia ir para a tropa porque tinha asma. Perguntaram-me que bomba é que eu usava. Eu não sabia nem percebia nada daquilo [risos] e então ele disse-me: "Estás apto para ir para a tropa". Disseram-me: "Se tu estivesses como estão estas radiografias já estavas morto". Fiz quase oito meses de tropa.

Foi muito duro?
Aquela fase inicial é, mas acho que faz bem a toda a gente. Apesar de ter sido sempre uma pessoa bastante disciplinada e rigorosa com os horários, a tropa faz-te aprender isso e há amizades que ficam para a vida. Apesar de não concordar com algumas coisas, que às vezes são um bocado exageradas, muitas das coisas fazem bem e acho que toda a gente devia passar por isso.

Continuou a jogar no Operário?
Continuei. Eu jogava na III divisão série E e quando íamos jogar à Madeira só voltávamos na segunda-feira. Eu tinha sempre de pedir uma licença ao comandante porque não podia ir buscá-lo a casa na segunda de manhã e ele passava a licença para só ir na terça. Uma vez fomos jogar à Madeira, estava um enorme temporal e eu não conseguia voltar na segunda-feira. Eu estava muito preocupado, porque regras são regras, então pedi para falar com comandante. Arranjaram-me o contacto e ele disse-me diretamente: "Pedro, não te preocupes com isso, quando chegares, chegaste". Depois disso ficava sempre a rezar para que ficasse mau tempo na Madeira, para não vir para a tropa aqueles dias [risos].

Pauleta com a sua primeira camisola da Comunidade Jovens de S. Pedro

Pauleta com a sua primeira camisola da Comunidade Jovens de S. Pedro

D.R.

Depois do Operário vai para o Angrense, na ilha da Terceira. Porquê?
Eu estava no Operário, já tinha saído da tropa e o Angrense fez-me uma proposta que era irrecusável.

Estamos a falar de que valores?
Já eram bons valores, não sei se hoje há jogadores a chegar à I divisão que ganhem aquele valor. Fui ganhar €2000 limpos por mês, que na altura eram 400 contos, isto em 1993/94. Ganhava no Operário €250 e trabalhava todo o dia, das oito às seis da tarde, para ganhar €200, que eram pouco mais de 40 contos, o ordenado mínimo na altura. Eu também tinha aquela coisa de querer sair e ser profissional e para mim o facto de sair da ilha já era um primeiro passo. Foi isso que aconteceu. Só que a determinada altura as coisas correram mal.

Pois, só lá fica um ano.
O presidente do Angrense foi buscar oito jogadores, o treinador era o António Pereira - o “Mourinho dos pobres”, como costumam chamar-lhe - e tínhamos uma grande equipa. Tenho a certeza que se aquela equipa continuasse do princípio ao fim o Angrense tinha subido de divisão. Mas infelizmente as coisas começaram a falhar. Não gosto de culpar ninguém, mas acho que as pessoas que estavam à frente do Angrense, apesar de terem feito mal ao clube, não o fizeram com más intenções, nem para tirar proveito para si. Eles desgraçaram as suas vidas por causa da ambição e todos ficaram com problemas financeiros, se calhar para o resto da vida. Mas foi uma altura gira, um clube diferente.

Nessa altura tinha 20 anos. Já namorava?
Há bastante tempo. Estou com a minha mulher desde os 16/17 anos, mas conheço-a desde os seis anos, porque vivíamos a 30 metros um do outro. Já nos conhecíamos desde crianças, começámos a namorar e depois fui para o FC Porto. Já estou casado com ela há 22 anos, mas estamos juntos há 27 anos.

E a escola?
Não sou o melhor exemplo, porque de facto não queria estudar, era só futebol. Só fiz até ao 7º ano, estudei até aos 14, 15 anos, o que hoje em dia é uma coisa impensável. Mas a minha cabeça... sempre foi jogar futebol.

Os seus pais não o chatearam por isso?
A primeira coisa que o meu pai me disse foi "se queres deixar a escola vais trabalhar comigo como pintor, para veres o que a vida custa". E eu fui. Aos 16 anos, antes de ir para fora, ia muitas vezes ajudá-lo a pintar casas. Depois apareceu a oportunidade de ir para o FC Porto e a partir daí as coisas foram diferentes.

Pauleta durante a entrevista na Cidade do Futebol

Pauleta durante a entrevista na Cidade do Futebol

Nuno Botelho

Voltando ao Angrense. As coisas não correram bem...
O presidente saiu, o clube mudou a estratégia toda e pediram-me para baixar o salário para 80 contos. Uma pessoa que ganhava 400 contos vir para os 80 contos... Entretanto apareceu o União Micaelense a oferecer-me as mesmas condições e fui. Estive lá seis meses, até que apareceu a oportunidade do Estoril.

Como surge essa oportunidade?
Eu já namorava com a minha mulher e a casa da minha futura sogra tinha telefone. Todos os dias ia namorar com a minha mulher, mas era namoro de janela, porque a minha sogra não me deixava entrar. Até que um dia a minha sogra chama a Sandra e diz: "Está um senhor a ligar aqui para casa a dizer que quer falar com o Pauleta". Eu fiquei estranho. Quem é que ia ligar para a casa da minha namorada?

Quem era?
O Jorge Gama, o empresário, que passou a ser meu empresário até final da minha carreira. Disse-me que tinha um clube interessado em mim, que estava lá o Carlos Manuel, que foi do Benfica... Eu disse que ia pensar, mas não liguei muito, não fiz caso daquilo. Uma semana depois ele liga-me. E aquilo andou assim a partir de março, abril, e foi tanta a insistência que chegou a uma altura, em finais de abril, princípios de maio, que eu disse à minha namorada: "Eu vou, mas numa condição: a gente vai-se casar".

Casaram nessa altura?
Num mês tratámos de tudo e casámos. Casei-me no dia 8 de julho, viajei para o Estoril no dia 9 de julho à noite e no dia 10 estava a treinar.

Nem tiveram tempo para lua de mel.
Não, ela cobra-me isso até hoje [risos]. Depois nasceram os miúdos e nunca mais tivemos um dia sozinhos.

Qual era a profissão da sua mulher?
Ela trabalhava como secretária numa empresa, mas estava a trabalhar só há um ano. Foi uma decisão conjunta de virmos para o continente.

Foi fácil convencer os pais dela?
O pai dela já tinha falecido há alguns anos e à mãe eu disse-lhe que era o sonho da minha vida. Já namorávamos há quatro ou cinco anos e não era um risco, porque o pior que podia acontecer era ao fim de um ano voltarmos, eu ia jogar para o Santa Clara ou outro clube açoriano e arranjava um emprego para os dois. E o que o fossemos ganhando ia dar para fazermos a nossa casa. Já tinha comprado um terreno com o dinheiro do futebol, enquanto estava nos Açores, que era para construir a minha casa.

Ainda antes de ir para o Estoril.
Sim, com o dinheiro que ganhei no Operário e no Angrense comprei um terreno. Depois como apareceu o Estoril, a partir daí já não regressei.

Sempre fez a casa nesse terreno?
Depois, mais tarde, construí uns apartamentos para mim. Mas fiquei sempre com o terreno. Fiz lá quatro apartamentos.

A equipa do Operário onde jogou Pauleta (o quarto, em pé, a partir da esquerda)

A equipa do Operário onde jogou Pauleta (o quarto, em pé, a partir da esquerda)

D.R.

Quando é que ganha o primeiro ordenado?
Foi no FC Porto, eram 70 contos.

O que fazia ao dinheiro?
Se não me engano mandava 20 contos para a minha mãe e dos 50 que sobravam, se calhar metia 45 no banco e ficava com o mínimo possível para gastar. Sempre fui muito poupado. Não gastava nada. Curiosamente, nos anos seguintes, quando fui para o Operário, em que no primeiro ano ganhava 200 e no segundo no 250, eu não tocava nesse dinheiro. Eu só tocava no dinheiro do trabalho, que eram os tais 40 contos. Desse dava metade à minha mãe e com a outra metade fui juntando até poder comprar um carro em segunda mão, a prestações.

Veio para o Estoril, já casado...
E continuei a fazer a mesma coisa. 90% do dinheiro ia para uma conta e o resto era para me governar, a mim e à minha mulher. Trouxe o meu carro dos Açores para o continente, um Renault 5 GTX, que me deixou mal duas ou três vezes. Mas eu disse que só ia comprar um carro novo quando fizesse um outro contrato. E só comprei um carro novo quando cheguei a Salamanca.

Antes disso, a vinda para o continente com a mulher como foi? Ficaram a viver onde?
Chegámos à uma e tal da manhã e estava o sr. João do Rosário, que era o secretário do Estoril, à nossa espera, e levou-nos para um apartamento perto do campo do Estoril. Um T1 cheio de humidade. A minha mulher no dia a seguir esteve a lavar aquele apartamento todo com lixívia. Nunca mais me esqueço que, por exemplo, o nosso balde do lixo era uma caixa da ananases que tínhamos trazido dos Açores para oferecer a esse João do Rosário [risos]. A casa não tinha nada. A minha mulher nunca tinha viajado na sua vida, foi a primeira vez que saiu dos Açores e que andou de avião. E foi o nosso início. Graças a Deus que tive e tenho uma grande mulher, que começou logo a saber fazer comida, a fazer tudo.

Ela não voltou a trabalhar.
Não, graças a Deus não houve essa necessidade. A minha mulher vive para os filhos. E para o marido, mas mais para os filhos.

Pauleta (ao centro, em pé) com a equipa do Salamanca que subiu à I Divisão espanhola

Pauleta (ao centro, em pé) com a equipa do Salamanca que subiu à I Divisão espanhola

D.R.

Esteve uma época no Estoril Praia e salta logo para Salamanca. Como é que isso acontece?
Estou no Estoril e o João Alves era o treinador do Belenenses, que na altura tinha uma grande equipa, com o César Brito e aqueles jogadores todos que foram para Salamanca. Estou a fazer uma grande época no Estoril e há um jogo, um torneio que faço pela seleção dos Açores, contra o Belenenses, em que marco um golo e o João Alves a partir daí queria levar-me para o Belenenses.

Não vai porquê?
Quase no final da época, sai a Lei Bosman, em que os jogadores passam a ser livres para assinar por qualquer clube. Eu só tinha esse ano de contrato com o Estoril e na minha cabeça, como na cabeça de qualquer jogador em final de contrato, eu já podia assinar por outro clube. Assino pelo Belenenses. Entretanto nesses dois, três meses que faltavam até final da época, acontecem duas coisas. O presidente do Belenenses tem problemas financeiros, a Lei Bosman não funcionava em Portugal, funcionava só para o estrangeiro, isto é, se estavas em final de contrato e fosses para um clube estrangeiro saías livre, em Portugal continuava a haver a indemnização. Entretanto, o João Alves sai do Belenenses por causa daqueles problemas financeiros, o Quinito vem para o Belenenses e como era preciso pagar pela transferência ao Estoril, claro que... Na altura eu também não era conhecido e o Belenenses não quis pagar. O contrato foi anulado e tive de ficar no Estoril.

Entretanto o João Alves assina pelo Salamanca...
E leva aqueles portugueses todos. E tenho uma história gira porque realmente há coincidências... Estou de férias nos Açores, no verão, e estou a ler umas entrevistas no jornal “A Bola” dos jogadores que foram para Salamanca com o João Alves. Recordo-me como se fosse hoje, a minha mãe estava à minha frente e eu disse-lhe: “Ele quis-me levar para o Belenenses, está em Salamanca com estes gajos todos, porque é que não me chama para ir para lá, que isso é que era bom?". No dia a seguir, às nove, dez da manhã liga o meu empresário: "Ó Pedro, sabes quem é que me ligou hoje às quatro da manhã, que a minha mulher até ficou doida? O João Alves, quer que tu vás para o Salamanca já!". E foi assim. Ainda tive de ficar até ao dia 31 de julho no Estoril porque antigamente era obrigatório ficar até ao último dia do contrato, e no dia 1 fui-me embora para Salamanca.

Foi fácil a adaptação?
Foi, primeiro porque tinha vários portugueses lá. Tinha o César Brito, que era uma pessoa de quem eu gostava muito, fizemos grande amizade lá, ajudou-me muito. A minha mulher estava à espera do meu filho, ficou nos Açores até ao dia 31 de agosto, quando nasceu o meu filho, e 15 dias depois foi ter comigo a Salamanca. Mas quando chego a Espanha e faço os exames médicos, estava com início de um problema de pubalgia e o médico do clube não queria que eu ficasse. O João Alves disse que queria que eu ficasse. Depois aparece o presidente do Salamanca: "Tu és novo e temos aqui três avançados...".

Quem eram?
O Claudio Barragan, que tinha jogado na seleção espanhola e no Corunha; o Catanha, que tinha feito uma época excelente no Belenenses e o César Brito, do Belenenses também, depois de ter vindo do Benfica. E ele diz-me: "Tu vais ser o quarto avançado". Se é para ser o quarto avançado, não fico. Mas o João Alves mete-se e diz: "Quem manda aqui sou eu, quem vai fazer as equipas sou eu e tu vais jogar". E assinei contrato com o Salamanca. A partir daí começou a minha aventura. Infelizmente na equipa que o João Alves construiu eu não era titular, ao fim de cinco jogos as coisas não estavam a correr nada bem. Eu de facto era o quarto avançado e tive que esperar pela minha oportunidade.

Quando e como surge?
Antes de um jogo contra o Toledo, em casa. Um tinha-se magoado, o outro tinha um castigo e o João Alves diz-me: "Vais ter a tua oportunidade hoje". Ainda não tínhamos ganho um jogo. Ganhámos 2-0 e eu fiz os dois golos. A partir daí fui sempre titular. Entretanto o João Alves sai e entra o Goikoetxea, conhecido por ter partido a perna ao Maradona. Depois renovei com o Salamanca, fui o melhor marcador com 23 anos, subimos à I divisão e fiquei mais um ano. Logo no primeiro ano da I Divisão no Salamanca faço 15 golos na Liga espanhola e aparece a oportunidade do Corunha. Aliás, antes disso há uma história.

Força.
Na altura do Vale e Azevedo, o Benfica quer que eu vá para o clube. Tinha tudo feito com o Benfica. Contrato preparado, malas feitas, tudo feito. Só que o presidente do Salamanca diz-me: "Só te deixo ir com garantias bancárias porque contaram-me umas histórias do Benfica e do presidente". E ficamos à espera, até que chegou um dia em que ele diz: "Vais-me desculpar, mas como não apresentaram as garantias bancárias, tu não vais". Ele fala-me da Udinese, porque era amigo do presidente da Udinese. Lembro-me que fui olhar para o mapa para ver onde ficava a Udinese e disse que não queria. Depois apareceu o Corunha e assinei por sete anos.

Pauleta com o filho e Bruno Basto quando venceu a Taça da Liga, no Bordéus

Pauleta com o filho e Bruno Basto quando venceu a Taça da Liga, no Bordéus

D.R.

Esteve no Corunha...
Dois anos. No primeiro tive uma lesão um bocado chata, fico para o segundo ano e no segundo ano somos campeões, ganhamos o campeonato e a Supertaça espanhola. Uma coisa que não era normal, porque ninguém ganha o campeonato a não ser o Barcelona e o Real Madrid e de vez em quando o Atlético de Madrid. Foi um ano muito bom, o Corunha tinha uma equipa muito forte, éramos 10 ou 12 avançados, era uma coisa impressionante. E no final da época, depois de sermos campeões, ainda começo a época seguinte mas aparece uma oportunidade de ir para o Bordéus, uma proposta também muito boa.

Dos quatro anos que esteve em Espanha, do que gostou mais?
É fácil qualquer pessoa adaptar-se a Espanha. O nível de vida é muito bom. Salamanca é uma cidade muito universitária, com muita gente, as pessoas vivem a vida. E Corunha é uma cidade perto do mar, que é algo a que sempre estive habituado, por isso adaptei-me muito facilmente. Depois tive sempre a sorte de ter portugueses a jogar na equipa. No Salamanca tinha o César Brito, o Taira, o Agostino e alguns brasileiros, e depois chego ao Corunha e tenho o Hélder e o Nuno Espírito Santo, que me ajudaram. A língua também não era muito diferente. E eu estava realizar o meu sonho, que era ser profissional de futebol. E ser profissional e estar, ao fim de um ano, no estrangeiro...

Há pouco disse que quando chegou a Salamanca comprou o seu primeiro carro novinho em folha.
Sim, em Salamanca tenho duas histórias de carros. Quando chego, a primeira coisa que fiz foi dar o meu carro antigo à minha irmã e comprar um novo. Comprei um Renault Clio. Só que a partir do primeiro ano, em que acabo como melhor marcador, começo a reparar que todos os outros jogadores tinham grandes carros, o César Brito com um BMW, outros com Mercedes. Nunca fui de ir atrás dos outros nessas coisas, de carros e relógios, etc. Mas houve uma determinada altura da época em que cada vez que eu passava no stand da BMW com a minha mulher, eu dizia-lhe: "O meu sonho é ter um carro daqueles". E a minha mulher: "Eu já sei como tu és. Vais ter aquele carro daqui a 10 anos. Estás sempre a passar e só a olhar" [risos]. E assim foi. Todas as vezes que ia ao centro da cidade passava pelo stand da BMW e olhava para aquele carro.

Comprou-o?
Subimos de divisão, passámos para a I Divisão. E eu a cada golo que marcava pedia a renovação, o presidente do Salamanca já se ria. Uma vez renovei com ele numa viagem de autocarro para um jogo que fomos fazer a Lutece. Sentou-se ao meu lado no autocarro - ele tinha a mania de tirar o relógio do pulso e metê-lo assim na mão [exemplifica] - e perguntou-me: “O que é que tu queres?". E eu: "Ó presidente, eu sou o que ganho menos aqui e sou o que marco golos". E ele dizia: "Mais 10 mil, segunda-feira passas nas 'oficinas'". E na segunda-feira quando eu passava nas 'oficinas' já lá estava tudo aquilo que o homem tinha falado comigo, e às vezes ele já ia 'bem disposto', mas estava sempre tudo certinho. Voltando à história do carro. Numa dessas vezes, eu falei-lhe do sonho de ter o carro. E ele disse-me: "Faço um acordo contigo: se fizeres 15 golos na I Divisão, dou-te o BMW que tu queres". Ele nunca pensou que ia acontecer. O meu erro foi ter querido o BMW 320, se tivesse escolhido o 350 ou o 400, não sei o que é que havia na altura, ele tinha pago na mesma [risos], mas eu estava tão fixado naquele [risos]...

Mas conseguiu o carro.
Houve uma altura em que estive quatro ou cinco jogos sem marcar. Ele foi ter com o Jorge Gama, o meu empresário, e disse: "Aquele gajo já está há quatro, cinco jogos sem marcar, não é normal...". E o Gama diz-lhe: "Eh pá, sei lá se aquela porcaria não é por causa do carro". E o presidente: "Diz àquele gajo para ir buscar já o carro, eu pago-lhe já o carro" [risos]. Fui ter com ele e ainda lhe disse que ia marcar os 15 golos e que só depois ia dar-me o carro, mas ele insistiu para ir buscá-lo logo. Fui buscar o carro e, curiosamente, no último jogo, faço dois golos ao Barcelona e atinjo os 15 golos. Fui ter com ele cheio de moral e disse-lhe: "Você não me deu nada, só deu o que estava no contrato" [risos]. E foi assim que consegui ter o meu BMW 320 preto.

Não se deslumbrou com o carro e com o que pudesse vir a ganhar mais a partir daí?
Não. Fui sempre muito ponderado. O meu objetivo principal no futebol começou por ser comprar o terreno para construir a minha casa, porque era o que a gente fazia lá na terra - o meu pai sabia construir e ia ser mais barato. Essa fase passou. A segunda fase, antes de ter carros novos, era comprar uma casa. Os meus pais sempre me ensinaram que se uma pessoa tiver uma casinha, depois trabalhando...

Pauleta recebe o troféu de melhor marcador de Espanha, no Salamanca

Pauleta recebe o troféu de melhor marcador de Espanha, no Salamanca

D.R.

Quando compra a sua primeira casa?
Deve ter sido no final do primeiro ano do Salamanca, em que temos um prémio de subida e eu tive um prémio para ficar no Salamanca. O contrato previa que o clube tinha de me pagar 50 mil euros se quisesse ficar comigo no final da época. Recordo-me de dizer ao César durante a época: "Oxalá eles fiquem comigo, que eu quero receber aqueles 50 mil euros". E ele só me dizia: "Tu és tonto. Oxalá que eles não fiquem contigo porque tu podes ir para o clube que quiseres, podes ir de graça para um clube grande, o que tu quiseres". E eu insistia: "Tu estás maluco. Eu quero é receber aquele dinheiro para comprar a minha casa". E no final comprei um apartamento que ainda hoje tenho, que foi a minha primeira casa, nos Açores. Tudo o que comprei, quase tudo, foi nos Açores.

Antes de passarmos para a experiência em França, como é que foi o percurso na seleção durante estes anos?
Devo ter sido o único jogador que foi chamado à seleção sem nunca jogar na I Divisão. No penúltimo jogo do primeiro campeonato pelo Salamanca, em Badajoz, chovia muito e marquei um golo de penálti aos 95 minutos. Ganhámos 1-0. Na altura o selecionador era o Artur Jorge e houve alguém que me disse que o Rui Águas, que era o seu adjunto, estava lá, em Espanha, para me ver a mim e ao Taira. Para mim aquilo foi... quer dizer, jogo na II Divisão, em Espanha. E de facto a seguir a esse jogo fui convocado para a seleção, em agosto de 1997. Fiz o meu primeiro estágio e entrei logo no primeiro jogo, em Setúbal, frente à Arménia. Era um jogo de qualificação. Entrei a 10 minutos do fim para o lugar do Domingos. Depois comecei a ser chamado sempre à seleção, mas não era titular. Até que tenho uma experiência bastante má, curiosamente com o nosso vice-presidente da FPF, Humberto Coelho.

O que aconteceu?
Ele torna-se selecionador e mete-me a titular num jogo contra a Hungria, em casa, em que tínhamos de ganhar com uma diferença de dois ou três golos para podermos qualificar-nos para o Euro-2000. Foi um jogo no Estádio da Luz e eu, com a vontade de querer marcar, faço um golo logo no primeiro minuto, em que não estou fora de jogo, mas é marcado fora de jogo. Eu chuto à mesma e o árbitro deu-me cartão amarelo. 15 ou 20 minutos depois estou sozinho na área, o Figo pode dar-me a bola pelo chão, mas dá-me a bola por cima, eu não chego, meto a mão e levo o segundo amarelo. E pensei: "Estou desgraçado. Se não nos qualificamos..." Mas felizmente acabámos por nos qualificar, o Abel Xavier marcou mesmo no final do jogo. A partir do Euro-2000 passei a ser sempre titular.

Pauleta já com a camisola da seleção

Pauleta já com a camisola da seleção

BEHROUZ MEHRI

Entretanto sai o Humberto e entra o António Oliveira.
Sim, a partir do momento em que entra o Oliveira fui sempre titular.

Chegou a apanhar a cena de pancada, no Estádio Nacional, do Sá Pinto com o Artur Jorge?
Não, isso foi um tempo antes de eu ser chamado.

Mas apanhou o Mundial de 2002, de má memória.
Sim, aí é que está... Essa para mim foi das grandes seleções que Portugal já teve, mas infelizmente... houve muita coisa de que não vale a pena falar.

Coisas surreais.
Exatamente, coisas surreais. Aquela seleção era muito boa, de grande qualidade, os jogadores do banco eram tão bons ou melhores do que aqueles que jogavam.

Houve má gestão de uma seleção talentosa?
As coisas quando correm bem é tudo bem feito, quando correm mal é tudo mal feito. Não vou dizer que não houve erros, houve. Mas já houve noutras vezes e correu melhor. O futebol por vezes é difícil de explicar, há coisas que acontecem que não têm explicação, agora é verdade que há coisas que não se deviam ter passado, mas não vale a pena estarmos a falar e à procura de culpados. A única coisa que posso dizer é que além da alegria de ter feito três golos num jogo espetacular que fizemos contra a Polónia, e de um jogo a seguir em que podíamos ter ficado qualificados com a Coreia, houve também uma pontinha de falta de sorte, porque de facto tínhamos uma equipa muito forte.

Os braços abertos para festejar os golos tornou-se numa imagem de marcai

Os braços abertos para festejar os golos tornou-se numa imagem de marcai

Shaun Botterill

De onde vem a alcunha Pauleta?
Vem do meu pai, da família do meu pai. Nos Açores é costume dar-se alcunhas, há sempre um apelido, e a família do meu pai era os Pauletas. A minha avó da parte do meu pai era Pauleta...

...então Pauleta era mesmo nome?
Não, foi um apelido que deram, ninguém sabe de onde vem. Era a família dos Pauletas e passou da minha avó para o meu pai e quando comecei a jogar futebol as pessoas começaram logo a associar o Pauleta e pronto.

Em casa é tratado por Pauleta?
Não. As únicas pessoas que me chamam Pedro são os meus pais e as minhas irmãs, de resto mais ninguém me chamava Pedro, aliás, se chamavam eu não olhava. Só que quando vou para França toda a gente me chamava "Pedrô, Pedrô". E a partir daí é que muita gente, mesmo já em Portugal, começa a tratar-me por Pedro Pauleta. E começaram a chamar-me mais Pedro.

Quando e como nasce a mania de festejar os golos com os braços abertos, como um açor?
Começa em Salamanca. Eu sempre abri os braços quando fazia golos, agora é óbvio que quando estás aqui na III Divisão ninguém associou a isso, e também não era sempre que abria os braços. Em Salamanca, um amigo meu que trabalhava na RTP Açores, o José Simas, que era amigo da família, de casa, tinha ido lá fazer uma reportagem comigo e disse que achava que abrir os braços era uma forma muito gira de homenagear os Açores, a águia, o milhafre - e então a partir daí foi-se associando as duas coisas e eu como gostava de festejar daquela forma dei uma continuidade. Teve sucesso porque marcava bastantes golos. Mas houve mais associações, em Espanha também surge o "Ciclone dos Açores". Tinha a ver com o tempo mau que vem dos Açores e que passa na Corunha, por exemplo. Mas começou em Salamanca. Em França continuou.

Na seleção abraçado a Luis Figo

Na seleção abraçado a Luis Figo

NICOLAS ASFOURI

Vamos então a Bordéus. Adaptou-se bem a França e aos franceses?
Adaptei-me bem porque vivia para a minha profissão. Eu e a minha mulher, que teve de acompanhar-me nisso. Ir para Bordéus era igual, eu queria lá saber, queria era jogar e fazer golos. Era só o que queria fazer. Chego a França numa segunda, viajo para Bordéus numa terça de manhã, treinei à tarde, viajei com a equipa para Nantes e faço três golos em Nantes no dia a seguir, quarta-feira. Um jogador que chega na terça e na quarta faz três golos... Até mesmo eu fiquei... A adaptação a partir daí foi fácil. No jogo a seguir fiz mais dois golos contra o PSG, depois fiz mais três golos para a Taça UEFA contra o Liege, da Bélgica. Os golos é que fizeram a minha adaptação ser muito fácil. Entretanto a minha mulher estava à espera do segundo filho, neste caso filha.

Tem três filhos.
Sim, os meus filhos foram um português, uma espanhola e uma francesa, e foi sempre antes de eu sair. Isto é, antes de sair do Estoril nasce o meu filho, com 15 dias chega a Salamanca. A minha filha nasce na Corunha e 15 dias depois vai para Bordéus. E a minha outra filha nasce em França, 15 dias depois de eu deixar o futebol, no PSG, e depois fomos para os Açores outra vez.

Estava a dizer que nasce a sua filha na Corunha e depois a sua mulher vai ter consigo. Para ela também foi fácil adaptar-se a França?
A minha mulher sempre se adaptou facilmente porque foi sempre uma pessoa muito caseira. Somos bastante caseiros, somos bastante familiares e juntos, não precisamos de muito para nos sentirmos bem.

Tinha outros jogadores portugueses no Bordéus, nessa altura?
Tinha um que foi essencial para mim, aliás houve duas pessoas que foram essenciais para mim. O Bruno Basto, que é como um irmão para mim, tenho um carinho muito grande por ele, e é daquelas pessoas que, além de jogar futebol, sabia tudo. Ele em duas semanas já sabia falar francês, já conhecia Bordéus toda, era uma pessoa a quem até chamámos “o bola branca”, porque ele sabe tudo [risos]. Ganhámos amizade entre as famílias. A outra pessoa foi o Jean Pierre.

Quem é o Jean Pierre?
Chego ao aeroporto de Bordéus e está um senhor à minha espera com o filho. Fiquei desconfiado, um gajo à minha espera, eu não conheço ninguém em Bordéus! Ele diz: “Eu sou o Jean Pierre”. Sempre fui um bocadinho desconfiado. Até que ele diz “Sou muito amigo do Aizpurua”, que era guarda redes do Salamanca. Pelos vistos terá dito que eu ia para Bordéus e que se precisasse de alguma coisa, que me ajudasse. Cumprimentei o senhor, falámos um bocadinho, agradeci-lhe mas fui-me embora. No dia a seguir ele estava no campo de treinos. Então o que fazia o senhor? O Jean Pierre trabalhava num banco e ganhámos uma amizade tal que a partir daí ele é que tratava das minhas coisas no banco - e meti-o a tratar das coisas de todos os jogadores do Bordéus. Ele ganhou uma importância enorme no seu banco [risos]. Isso porque era uma pessoa muito séria e honesta, mas confesso que na primeira vez, quando chegas a um país e aparece-te alguém a dizer que é amigo daquele, ficas assim… . Depois também fiz amizade com uns portugueses emigrantes em Bordéus, que agora vivem em Espinho, e que foram padrinhos da minha filha.

Conheceu-os como?
Eles iam ver os nosso treinos, o Bruno Basto é que os apresentou, e um dia combinámos almoçar e por aí fora. Também vamos sentindo as pessoas, se há interesse ou não. Por exemplo, tive uma situação em Paris... Chegou-se um gajo ao pé de mim a dizer: "Sou amigo de (um jogador de futebol que não vou dizer o nome) e tu tens que ser meu amigo". Disse-lhe logo para não aparecer mais. E se calhar o homem era boa pessoa, mas a forma como me abordou "tens de ser meu amigo", nunca mais o quis ver. As minhas amizades fora do futebol não são poucas mas foram sempre bem pensadas e bem escolhidas, felizmente.

Pauleta foi para o Paris Saint German (PSG) m 2003/2004

Pauleta foi para o Paris Saint German (PSG) m 2003/2004

OLIVIER LABAN-MATTEI

Três épocas no Bordéus...
Foram se calhar as melhores três épocas da minha vida. Apesar de Paris ter sido a grande consagração.

Porque diz isso?
Fiz quase 100 golos em três anos, fui o melhor jogador de França dois anos seguidos, ganhei a Taça da Liga, estava mesmo no auge da minha carreira. Foi um clube a que me adaptei facilmente e que me deu condições fantásticas. Um clube que só peca um pouco por falta de ambição, porque tem condições para ser melhor. Sentia-me tão bem que não queria sair mais de Bordéus. Até que apareceu aquela oportunidade para o PSG, que era outro clube pelo qual também tinha simpatia, pelo Artur Jorge ter estado lá, por ser o clube da capital. Eu e o Bordéus decidimos que era um bom negócio para ambos, eu estava com 30 anos.

Fez o contrato da sua vida com o PSG?
Sim.

E Paris?
Diferente. A minha grande preocupação nos clubes por onde passei, e Paris foi igual, era darem-me uma casa perto do campo de treinos e perto de um hospital. Tinha sempre essa maluquice, queria uma casa que não ficasse muito longe do hospital por causa da minha mulher e filhos, para o caso de eu não estar em casa algum dia que fosse preciso. Em Salamanca foi igual e no Corunha tinha tudo certo para assinar, mas disse que não assinava. Até que o presidente apresentou-me uma pessoa que disse que ia ficar responsável por tudo o que eu queria. Insisti que a minha primeira preocupação era a minha mulher estar bem com os meus filhos, para depois eu poder concentrar-me no futebol. Depois foi fácil. Eu também já vinha com uma bagagem grande, já era um jogador respeitado e conhecido em França e portanto foi a melhor decisão que tomei. Passo cinco anos em Paris, que me dá uma grande consagração. Marcar um golo no PSG era a mesma coisa que marcar três no Bordéus, a dimensão é totalmente diferente. Só o estádio, marcar um golo naquele estádio é qualquer coisa de diferente.

Porquê?
Perguntaram a vários jogadores em França, que já jogaram em vários clubes e nos melhores estádios, qual é o estádio em que lhes dá mais prazer jogar e todos eles respondem o mesmo: o Parque dos Príncipes. É realmente um estádio mítico e diferente, tem um ambiente diferente. Portanto, Paris é o clube do meu coração.

Falando nisso, quando era pequeno torcia porque clube?
O meu pai, como disse, era do Benfica, e ainda em pequenino, para haver discussão em casa, eu dizia-lhe que era do FC Porto. Depois aquilo passou. E sinceramente se me perguntarem qual o meu clube em Portugal, não tenho. Tenho alturas em que estou a torcer por um lado, outras, por outro. Tenho uma simpatia mais por um ou outro, também por causa das pessoas, isso conta muito, mas não tenho um clube do coração. Tenho o PSG, porque de facto os cinco anos que lá passei foram muitos bons, e o carinho que aquelas pessoas me dão...

Pauleta festeja a conquista da Taça de França, em 2006, pelo PSG

Pauleta festeja a conquista da Taça de França, em 2006, pelo PSG

FRANCK FIFE

Foi eleito o melhor jogador da história do PSG.
Mas se me perguntar se acho que fui o melhor jogador, não fui. Não fui. Tenho consciência disso. Fui escolhido não só por aquilo que fiz no campo, mas também pela minha maneira de ser, pela forma como sempre tratei o clube, pelas oportunidade que tive depois de sair, para o Lyon e vários clubes no estrangeiro, e não quis sair do Paris, porque me sentia bem; pela forma como sempre tratei os adeptos, esse conjunto de coisas é que os leva a escolher-me como o melhor jogador da história do PSG.

O facto de ter sido escolhido pelos adeptos tem mais importância para si?
Claro, muito mais. O clube são as pessoas, as pessoas passam e o clube fica para sempre. Mas os adeptos é que fazem um clube.

Falou na oportunidade de sair. Além do Lyon foi abordado por que clubes?
Tive o Arsenal, quando estava no Bordéus, tive o Manchester City também interessado. Faço o melhor contrato da minha vida, aos 33 anos, com o PSG, depois de já lá estar há três anos, porque tinha uma oferta louca do Lyon.

Quais os valores?
Não vale a pena dizer. Mas era um valor bastante elevado para a altura, nunca pensei que pudesse acontecer. Claro que me ajudou, porque o PSG queria tanto que eu ficasse.

Se não houvesse essa melhoria de contrato, tinha ido para o Lyon?
Joguei também um bocadinho com isso, como é óbvio. Só se houvesse uma grande diferença, porque os meus filhos estavam na escola e eu sempre fui muito conservador em relação a isso. Nunca gostei de estar a mudar por mudar. Quando acabo o contrato com o PSG, aos 35 anos, e chego aos Açores, recebo uma proposta do Mónaco, de dois anos de contrato. Era o Ricardo Gomes treinador do Mónaco. Eu disse que não ia. E fizeram-me uma proposta muito boa, para um jogador que tinha acabado a carreira. Ir viver para o Mónaco não era nada mau, mas tinha tomado a decisão de terminar a carreira, já tinha assumido o compromisso com o PSG como embaixador do clube e não quis.

Pauleta e Cristiano Ronaldo durante um treino da seleção

Pauleta e Cristiano Ronaldo durante um treino da seleção

JEAN-CHRISTOPHE VERHAEGEN

Foi muito difícil tomar a decisão de terminar a carreira?
Foi. Mas preparei-me muito tempo para isso. No último ano preparei-me muito, tive um ano difícil. Nunca tive problemas com treinadores, mas aquele de facto [Paul Le Guen]... Não que tivéssemos um problema os dois, agora ele tinha um problema com o contrato que eu tinha. E muitas das vezes não estávamos de acordo, mas eu sempre o respeitei e isso é que foi a minha grande vitória também para os adeptos. Os adeptos queriam que eu fizesse algumas declarações, porque eu era o capitão de equipa, e ninguém gostava dele, mas nunca o fiz.

Porquê?
Porque acho que tinha de respeitar o meu colega que jogava muitas vezes no meu lugar. Foi um ano difícil e nessa altura a minha cabeça só pensava: "No final vou deixar isto". O meu filho no final do ano também ia mudar para a escola secundária, a minha filha saía da escola primária. Pensei: “Vou mentalizar-me que é o último ano”. Aos 35 anos eu também já me sentia cansado, já olhava para os miúdos e pensava ou eles são muito fortes ou eu estou ficando mais fraco.

Acha que era capaz de ter jogado mais um ano, por exemplo?
Sim. Graças a Deus não tinha lesões, sentia-me bem fisicamente. Foi uma decisão. E acho que foi a melhor decisão que fiz porque acabei no auge.

Qual foi a lesão mais complicada que teve?
Foi no Corunha. A minha chegada ao Corunha... tinha saído dois anos antes o Bebeto e cada avançado que chegava ao Corunha era "o novo Bebeto". E claro que não há Bebetos a surgir todos os dias. O departamento médico do Corunha na altura também... não havia as condições que há hoje e tive uma rotura, tive duas recaídas e foi o suficiente para perder um bocadinho o comboio. Apanhei o comboio no ano a seguir, fui campeão mas jogava hoje, amanhã já não era titular, outras vezes era, e como o que eu queria era jogar, a decisão de ir para Bordéus também... Posso dizer que desde que jogo futebol, do primeiro até ao último dia, fui sempre subindo nas minhas condições financeiras. Fui sempre ganhando mais todos os anos e isso fez com que me sentisse sempre bem onde estava e, quando saía, sabia que ia para melhor.

Pauleta domina a bola sob o olhar do holandês Edgar Davis, durante o Euro 2004

Pauleta domina a bola sob o olhar do holandês Edgar Davis, durante o Euro 2004

JAVIER SORIANO

Há pouco dizia que teve propostas do Arsenal e do Manchester City. Nunca se sentiu tentado a experimentar outros campeonatos, outras ligas, como o futebol inglês?
O campeonato italiano nunca me fascinou, nem fascina.

Porquê?
Não gosto daquele estilo, daquela forma, não gosto, não consigo ver nenhum jogo italiano. À parte do Milan numa certa altura, não gosto. O futebol inglês claro que fascina qualquer pessoa, mas lembro-me que quando foi a altura do Arsenal, o Bordéus queria 30 milhões. Estamos a falar há 15 anos. O Bordéus não me queria deixar sair. Eu tinha sido eleito o melhor jogador.

Ou seja, por si, tinha ido?
Sim, apesar de eu ter sempre aquele receio, porque não falava nem falo muito bem inglês. Teria sido uma decisão se calhar mais difícil de tomar mas... com o Manchester City foi exatamente igual. A partir do momento em que cheguei a França, o carinho que sentia pelas pessoas e a vontade que elas tinham em que eu ficasse, fez com que eu não saísse. Depois havia sempre aquela história: "Não tens o sonho de jogar num grande em Portugal?" - que é o sonho que qualquer miúdo tem. Isso comigo... a determinada altura eu nem sequer queria falar em vir para Portugal. Quando me sinto bem num sítio deixo-me ficar, não sou aquele gajo ambicioso, capaz de estar seis meses aqui e mais um ano ali. Sempre dei prioridade ao aspeto familiar.

Quando resolve vir embora, para os Açores, os seus filhos reclamaram muito?
Se ficasse mais um ano em França tenho a certeza que já não voltava. O meu filho nesse ano ia mudar de escola e já estava com o seu grupo de amigos. Uma das coisas que me fez deixar o futebol também foi isso, não queria mudar mais os miúdos de escola. Mais um clube, mais uma cidade, mais um país, mais uma escola para os miúdos... Achei que era a altura certa de eles começarem a ter aulas de português e de regressar aos Açores. Preparei a minha vida para isso.

Nunca lhe passou pela cabeça viver no continente?
Nunca. A minha vinda para o continente resume-se a um convite do presidente Fernando Gomes para a FPF. Eu vivia nos Açores e continuei a viver no primeiro ano. Vim para Lisboa quando o meu filho veio para a universidade. Então conjugámos as duas coisas.

O seu filho estuda o quê?
Ele já se licenciou em Gestão Desportiva e agora está a fazer o MBA, em Madrid, na Universidade Europeia. Acaba este ano.

E as suas filhas?
Uma está no 12º ano, na área de Economia, e a outra tem nove anos, está ainda na quarta classe. O meu sonho era ver os meus filhos formarem-se. Esse era o sonho da minha vida.

O sonho da sua vida?
Sim. Se me perguntarem se era ser o melhor marcador, ser jogador deste ou daquele clube, não, o meu sonho era... voltando ao início da conversa e aos estudos e ao facto de eu não gostar de estudar... A partir do momento em que tive filhos, o meu sonho sempre foi um dia ver o meu filho formado. A maior alegria da minha vida aconteceu há um ano, ao estar com ele naquele momento na universidade, quando se formou.

Durante o Euro 2004, Pauleta não marcou um único golo

Durante o Euro 2004, Pauleta não marcou um único golo

Ben Radford

Vai para os Açores, já retirado, mas depois resolve jogar pelo São Roque. Porquê?
É uma situação diferente. Deixo o futebol e o meu filho vai jogar para o São Roque. O meu pai jogou no São Roque quando era miúdo. A determinada altura, o São Roque não tinha futebol sénior, só tinha futebol de formação. Como ia levar o miúdo ao futebol e estava sempre ali - porque eu sou de São Roque -, a dada altura numa conversa com amigos surgiu: “O São Roque tem toda uma formação, mas depois quando chegam aos seniores estes miúdos não têm equipa para jogar... E se a gente abrisse os seniores?”. Até que o presidente decidiu abrir os seniores mas disse que precisava da minha ajuda. Disse-lhes: “Vocês fazem os seniores e eu comprometo-me a fazer um ou dois jogos pelo São Roque. E a nível de publicidade, eu ajudo a fazer”. E foi assim, fiz um jogo, fiz mais 3 ou 4, e depois entusiasmei-me, já estava com aquela coisa de querer ir todos os fins de semana. Até que a minha mulher disse que eu estava maluco, e acabei por fazer só quatro jogos [risos].

Mas fez só quatro jogos porque a sua mulher lhe pôs um travão?
Eu já estava a começar a ficar entusiasmado. Mas calhou bem porque o quarto jogo foi uma final da Taça que o São Roque nunca tinha ganho. Ganhámos a Taça, fiz sete golos nesse jogo, as pessoas estavam entusiasmadas e eu estava a entusiasmar-me também, já ia aos treinos e tudo. Foi uma boa experiência mas acabou.

Por causa da sua mulher.
Não, foi uma decisão minha. Não podia, também estava ligado ao Paris. Eu só queria que eles abrissem os seniores.

Pedro Pauleta na Cidade do Futebol

Pedro Pauleta na Cidade do Futebol

Nuno Botelho

Em 2004 nasce a sua escola de futebol. Com que objetivo?
Foi um pouco para dar oportunidade aos miúdos dos Açores de terem um sítio para jogar futebol com qualidade. Um sítio diferente, onde a grande prioridade não fosse ser jogador de futebol ou estar num clube. Aconteceu através de um amigo meu que me acompanhou na carreira, o Vitor Simas, que é o meu padrinho de casamento e professor de educação física - ele é que ficou responsável pela escola. Em 2007 fica completo o complexo desportivo que temos agora na escola.

Foi um sonho seu ou uma proposta que lhe apresentaram?
Foi um sonho, ali não houve propostas, porque eu é que fiz aquilo tudo. Era um sonho que tinha e lembro-me de tantas vezes falar com ele sobre isso.

A fundação com o seu nome vem na sequência disso?
A fundação é criada em 2007. Três anos depois de abrirmos a escola temos muitos miúdos e já precisávamos de um espaço novo. Para além da escola fizemos a fundação. E a fundação porquê? Porque desde que comecei a jogar futebol, todos os anos, no Natal, comecei a fazer ações de solidariedade a nível pessoal. Em 2007, o Vitor Simas diss que com a Fundação podiamos fazer esse tipo de ações mas com os miúdos também. Era giro os miúdos acompanharem-nos quando fizéssemos alguma entrega, alguma doação, é uma forma de não ser só futebol, e de ajudá-los a crescer também como pessoas.

Entretanto nasce o clube.
Sim, o clube de futebol é outra fase. Temos a escola, a fundação e agora o clube de futebol. Já temos desde os benjamins até aos juniores, tem sido sempre a crescer. Hoje temos 300 e tal miúdos, já estamos a pensar em fazer mais um campo de futebol de 7. Tem sido um projeto muito giro. Já corremos os Açores todos e o continente também. Não temos muitas, mas também temos miúdas na escola. Já fomos aos EUA, já passámos por muitos sítios. Ainda neste Natal fizemos várias ações com os sem-abrigo, com várias instituições com miúdos deficientes. Está tudo englobado. É um pouco a minha imagem que a escola vive. Mas tenho um grupo de pessoas comigo que me ajudou muito.

Pauleta com a mulher e os três filhos

Pauleta com a mulher e os três filhos

D.R.

E a propósito de imagem, fez muitas campanhas publicitárias. Qual foi a primeira?
A primeira, mais visível, foi a do queijo Terra Nostra, foi a que ficou mais conhecida. Fiz também com o Banif. Não fiz muitas, mas a do queijo foi a que ficou mais conhecida.

Quem é que teve a ideia?
Foram eles que me apresentaram a ideia. Eu achei giro e era um produto dos Açores, e foi a que teve mais sucesso. Ainda hoje as pessoas dizem: “Olha o da bola Terra Nostra”; “o homem do queijo”. Ainda há muita gente que me aborda por causa desse anúncio.

Qual foi a coisa mais esquisita que algum fã lhe tenha feito ou dito?
Foi em Nice, tinha ido fazer um jogo do PSG a Nice e estávamos no hotel. Estava eu, o Mario Yepes e o Marcelo Gallardo. Tínhamos acabado de almoçar e estávamos a tomar café. E estava uma senhora sentada, mais um senhor, e ela estava sempre a olhar para mim. E nós em espanhol começamos na brincadeira: “A mulher está sempre de olho em ti e está ali o marido…” [risos]. Acabámos de tomar café e vamos embora. À noite foi a mesma coisa. Depois do jantar, quando acabo de tomar café, começam eles: “Lá está a mulher, sempre de olho para ti” - e começámos ali na palhaçada. Entretanto levanta-se o marido dela, vem direto a mim e pergunta se pode falar comigo. E eu: “Mas há alguma problema?”. E ele: “Vai-me desculpar, mas a minha mulher é fã do senhor. Nós fizemos 1000 kms de carro para ela o ver e não deve ter percebido, mas nós comprámos a sua chávena do café da manhã ao hotel e gostávamos que a assinasse, porque a minha mulher quer como recordação”. Foi uma risada com os outros todos. A mulher tinha ficado com a chávena onde eu tinha tomado café [risos]. Tinha feito 1000 kms, queria tirar uma fotografia comigo e que eu assinasse a chávena do café que tinha tomado. Foi a história mais maluca.

Nunca lhe mandaram nada para casa?
Por acaso no Mundial da Coreia, uns meses depois disso, recebi em casa um álbum de fotografias minhas, tiradas por umas miúdas da Coreia que eram fanáticas por Portugal. Enviaram para a casa dos meus pais, não sei como é que conseguiram a morada.

Feliz depois de ter marcado pela seleção

Feliz depois de ter marcado pela seleção

JUERGEN SCHWARZ

Qual foi o treinador que mais o marcou e porquê?
Tive bons treinadores, tive maus, mas com boa relação com praticamente todos eles. O Scolari foi um treinador que me marcou bastante. Marcou pela forma de ser, pela nova mentalidade que veio dar ao futebol.

Curiosamente, o Pauleta não marcou nenhum golo durante o Euro-2004.
Joguei sempre porque ele tinha uma confiança enorme em mim. E não esqueço esse Europeu por causa disso. Nunca tive tanto tempo na seleção assim, foram cinco jogos sem marcar. Mas tinha uma relação com ele, eu e todos os jogadores, especial, pela abertura que ele dava aos jogadores e pela importância que dava à equipa. Se perguntarem, foi por causa dos treinos, foi por causa da forma de treinar? Não, porque o futebol já foi inventado, não vale a pena falarmos do aspecto de treino. Foi mais pela pessoa, pelo lado humano dele. É uma pessoa por quem tenho um carinho muito grande. Depois o Carlos Manuel e o João Alves são pessoas de quem tenho uma recordação bastante grande.

Custou-lhe muito não ter marcado nenhum golo no Euro-2004?
Mais do que qualquer outra coisa na vida de jogador de futebol. Não me perdoo.

Acha que isso aconteceu porquê? Pela pressão, pelo peso de ser um Europeu em casa?
Aconteceram várias coisas, podia arranjar mil e uma desculpas, mas não vou arranjar. Só para ter uma ideia, nesse ano o Paris termina em segundo lugar, a três pontos do Lyon, que é uma coisa impensável, porque o Lyon ganhava os campeonatos todos em França. Fui o melhor marcador. Fui o melhor marcador da Taça de França e marco o golo que nos dá a vitória na final da Taça de França. Vinha com um moral enorme. Depois quando cheguei começaram a aparecer problemas de todo o lado, até cheguei a treinar na seleção com uma bota cortada, porque tive uma infecção na unha que não conseguia curar - e no último jogo tive que jogar com uma infiltração no dedo grande do pé, porque não conseguia calçar a bota. Foi tanta coisa que foi acontecendo, umas atrás das outras, e depois por falta de qualidade... não sei, não sei. Até ali, nunca tinha estado na seleção mais do que três, quatro jogos sem jogar e sem marcar. Aquela foi a única altura em que estive cinco jogos sem fazer um golo. E depois acaba o Europeu e começa o apuramento para o Mundial e sou o melhor marcador de todas as séries. Não sei, não consigo explicar, mas foi muito difícil.

Essa é a sua maior frustração no futebol?
Sim, é essa. Não ter marcado e não termos ganho esse Europeu. Portugal merecia ganhar, o povo português merecia, por tudo aquilo que vivemos, por tudo aquilo que trabalhámos juntos. O país merecia ter ganho aquele Europeu em 2004. Não aconteceu. Fizemos uma coisa que até então nunca tinha sido feita, fizemos coisas lindíssimas mas de facto o que marca é quando tu ganhas.

A partir de Salamanca, Pauleta passou a abrir sempre os braços, como um açor, para evocar os Açores

A partir de Salamanca, Pauleta passou a abrir sempre os braços, como um açor, para evocar os Açores

NICOLAS ASFOURI

Qual foi o troféu, o título que mais gozo lhe deu ganhar?
Todos eles são importantes, todos eles foram bons de ganhar, todos eles têm o seu sabor. Ser campeão de Espanha foi algo de extraordinário. Ganhar uma Taça com o Bordéus foi lindo, a forma como a ganhei - ainda hoje sou o melhor marcador da história da Taça da Liga em França. A subida de divisão com o Salamanca, não sei se a festa foi maior ou igual à de quando fui campeão com o Corunha, mas foi uma coisa impressionante. Depois, a nível individual, quando sou melhor marcador nos campeonatos todos, o ter sido o melhor jogador de França, fui o primeiro jogador a ganhar dois anos seguidos no campeonato francês. Mas é óbvio que os títulos coletivos são mais importantes, porque são o fruto do trabalho de uma época.

Quando ultrapassou a marca do Eusébio como melhor marcador da seleção foi um momento único?
Quando entrei na seleção o meu primeiro objetivo era fazer um golo com a camisola da seleção e isso foi conseguido. Depois comecei a fazer golos e lembrei-me de ter como objetivo fazer os mesmos golos das referências que tínhamos no futebol, o Néné, o Jordão, o Fernando Gomes. Marcar os golos que esses jogadores tinham já era... Depois passei essa marca, depois já era passar o João Pinto, o Figo, e depois chegou uma altura em que disse, falta o Eusébio e acho que é possível. A determinada altura passou a ser o objetivo.

Nessa altura ele disse-lhe alguma coisa?
Deu-me os parabéns. O marcar mais golos que o Eusébio na seleção nacional é só o facto dos números, porque nunca me quis comparar nem pouco mais ou menos com a figura que é o nosso Eusébio. Mas o gozo de dizer: sim, eu bati o recorde do Eusébio - era uma grande alegria ser reconhecido por isso.

E quando aconteceu o contrário, quando o Ronaldo bateu o seu recorde?
Foi quase em simultâneo com o Ibrahimovic bater o meu recorde. Eu era também o melhor marcador da história do PSG e o Ibrahimovic passou-me. Quando tu és ultrapassado por um jogador como o Ronaldo ou como o Ibrahimovic, só tens que ficar feliz, porque é sinal que fizeste qualquer coisa de grande e que estás a ser batido pelos melhores. O Ronaldo bate os recordes todos do Real de Madrid, uma coisa impensável. Bater o meu recorde era uma coisa que eu sabia que iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Por isso dá-me mais gozo dizer que o Ronaldo bateu o meu recorde do que dizer “sou o melhor marcador”. Acho que fica melhor dizer que o Ronaldo bateu o meu recorde ou que o Ibrahimovic bateu o meu record, porque são duas figuras do futebol que vão ficar para sempre.

Pauleta com alguns colegas de seleção e Scolari (de costas), em 2006

Pauleta com alguns colegas de seleção e Scolari (de costas), em 2006

PASCAL PAVANI

Tem mais 400 golos marcados ao longo da carreira, mas nunca ganhou a Bola de Ouro. Tem pena?
Isso é diferente. Mas tenho em minha casa um quadro quando fui nomeado. Quando estava no Bordéus e fui nomeado o melhor jogador do ano, fiz 30 e tal golos, quase 40, estou lá nomeado na lista dos 50. Tenho lá esse quadro.

Mas tem pena de não ter ganho nenhuma?
Não, isso é para outros patamares. Isso era para outro nível que já não era o meu.

Porque é que diz isso?
Porque a gente tem que saber, temos que ter consciência do valor que temos e eu sempre tive muita consciência daquilo que consegui. Ganhar uma Bola de Ouro tem que ser para jogadores como aqueles que ganharam até hoje, apesar de uma ou outra vez se ter intrometido algum com o mesmo valor do que eu, mas a grande maioria, Ronaldo, Figo, Zidane... isso é para eles. Quando eu vejo jogadores como o Maldini, como o Raul, como o Iniesta, como o Xavi, que não ganharam nenhuma Bola de Ouro, como é que podes querer ganhar uma? É impensável. Mas claro que depois custa-te ver, e não quero tirar o mérito a esses jogadores, um Cannavaro eum Weah a ganhar e outros não ganharam.

Quando foi convidado para estas funções na FPF, hesitou?
Quando o dr. Fernando Gomes me convidou, eu disse que vivia nos Açores e não ia conseguir, mas ele insistiu, porque gostava muito que o acompanhasse neste projeto de estar a acompanhar as seleções jovens - e numa segunda conversa aceitei. As coisas ficaram muito melhores, desde o momento em que vim para cá viver, há quatro anos.

Com a camisola de embaixador do PSG

Com a camisola de embaixador do PSG

SAJJAD HUSSAIN

Para quem nunca tinha pensado viver no continente como é que está a ser?
Está a ser bom. Tanto eu como a minha esposa estamos satisfeitos. Primeiro ela ficou satisfeita porque está perto do seu filho que veio para a universidade.

As filhas não ficaram chateadas de sair dos Açores por causa do pai e do irmão?
No início custou-lhes um bocadinho, mas depois adaptaram-se. Somos fáceis de adaptar porque somos muito chegados, somos uma família muito unida.

Tem algum hóbi?
Não. A minha vida é o futebol. A minha mulher diz-me isso muitas vezes, que eu não vejo mais nada que não seja o futebol. Gosto muito de ver jogos de futebol, quando estou em casa é só ver futebol. Mas gosto imenso de estar com os amigos, de fazer almoços.

Qual foi a maior amizade que fez no futebol?
Fiz muitos amigos. Aqueles que foram sempre importantes para mim e que me ajudaram muito são o César Brito, o Bruno Basto, o Cavaco da altura do Estoril... Aqui na FPF tenho uma relação muito boa com todos, com o Rui Jorge, o Romeu, o Brassard, o Alex, pessoas que estão comigo no dia a dia e que acompanho. Gosto de fazer uma peladinha de vez em quando, tenho os meus amigos nos Açores que jogam comigo sempre que estou lá.

Como é o seu dia a dia?
O meu dia a dia é deixar os meus filhos na escola, depois faço o meu treininho, faço a minha corridinha ou vou ao ginásio, e venho para a federação. Não faço muito mais do que isso. Tenho alguns compromissos com o Paris e com o Turismo dos Açores também tenho algumas coisas.

Além da escola, da fundação, do clube com o seu nome e do imobiliário, investiu o seu dinheiro em mais alguma coisa, num negócio, por exemplo?
Não há nenhum jogador de futebol que tenha um negócio que tenha dado certo e aquele que continua a apostar nisso está a cometer um erro. E como eu aprendi isso logo no início…

Pauleta (à direita) com Luis Figo e Kaká (no meio), durante um jogo de solidariedade contra a pobreza, em 2010

Pauleta (à direita) com Luis Figo e Kaká (no meio), durante um jogo de solidariedade contra a pobreza, em 2010

MIGUEL RIOPA

Nunca foi aliciado pela política?
Tenho uma relação com as pessoas da política muito boa, principalmente nos Açores. E desde o início sempre fui muito claro com qualquer uma dessas pessoas. Tudo o que eu quero fazer, por exemplo a escola, não quero nunca nada relacionado com a política. Nunca ninguém me vai ver encostado a um político, a apoiar A, B ou C. Felizmente as pessoas sempre respeitaram isso. Tenho hoje em dia uma boa relação com o presidente do Governo e com o presidente da Câmara, que são de dois partidos diferentes. Tenho uma relação de amizade e de carinho enorme, tanto eu por eles como eles por mim, e eles já sabem que para apoiar os Açores estou disponível para tudo aquilo que eles quiserem. Para apoiar a política, um partido, não contem comigo.

O que é ser um açoriano?
Acho que o açoriano é uma pessoa simples, séria, honesta e que se sabe dar com toda a gente. Um bom açoriano é isso e a maior parte dos açorianos é isso. Pessoas simples, pessoas honestas que trabalham, pessoas que foram à procura do seu sonho, muitas delas fizeram sacrifícios enormes.

Quando é que vai fazer a sua lua de mel?
Quando as minhas filhas me deixarem sair sozinho com a minha mulher [risos].

Que carro tem agora, ainda é o mesmo BMW?
Não [risos]. Agora já tenho um Porsche - tenho dois. Hoje, graças a Deus, já me posso permitir a isso tudo.