Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

Custódio: “Tenho uma história incrível. Um treinador mandou-me entrar, fiz o 3-2, ele ficou chateado e disse: ‘Eh pá, todos menos ele’”

Garante que deixou de ser jogador do SC Braga por sentir que estava a ser um peso nas finanças do clube, mas voltou para ser treinador adjunto da equipa B, depois de uma boa experiência na Turquia, onde arrumou as botas no final da época passada. Com 34 anos, Custódio confessa que o seu grande objetivo e ambição sempre foi ajudar a família, missão que tem cumprido com sucesso

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

Partilhar

Nasceu em Guimarães, mais concretamente onde?
Em Brito, uma vila a quatro, cinco quilómetros de Guimarães.

Os seus pais o que faziam ou fazem?
A minha mãe era doméstica, o meu pai era empregado numa fábrica têxtil. Mas desde há alguns anos para cá que trabalham com a venda de pão e bolos, com pastelaria.

Têm um negócio próprio?
Não é negócio deles. São vendedores.

É filho único?
Fui o primeiro filho de três. Tenho duas irmãs, com dois anos de diferença para uma e quatro para a outra.

Como era em miúdo, tranquilo, agitado?
Segundo o que me dizem, sempre fui um miúdo tranquilo e do que eu me lembro não era muito de sair.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Tinha dois tios que jogavam no Brito. Um era guarda-redes e outro jogava como defesa direito. Assistia sempre aos treinos deles e aos jogos.

É por aí que nasce o “bichinho da bola”?
Acho que sim. Nasci nesse meio. Os meus avós viviam numa quintinha cujas costas davam com o campo de futebol do Brito, eu passava muito tempo com os meus avós e estava sempre metido no campo a vê-los. Vem muito daí.

Esses avós ainda são vivos?
Sim, são os meus avós maternos e meus padrinhos.

Então cresceu a saber mexer na terra, a ajudar os avós?
Ajudava um bocadinho. Hoje essa quinta é minha, comprei a quinta e eles ainda vivem lá, mais um tio que também trabalha na agricultura. Comprei mais para criar condições próprias para os meus avós. Acabei por restaurar aquilo tudo e hoje está uma coisa gira.

Custódio começou a jogar como guarda redes (segundo em cima à direita), aos nove anos, no V. Guimarães

Custódio começou a jogar como guarda redes (segundo em cima à direita), aos nove anos, no V. Guimarães

DR

E da escola, gostava?
Nunca gostei muito.

Do que é que não gostava?
Não gostava de estar preso. Lembro-me de, na primária, estar dentro da sala a olhar para o campo. Eu queria era estar solto, a correr, a jogar. Era isso que eu mais sentia, não era por não gostar de português, ou de matemática.

Como e quando é que vai jogar futebol num clube?
Felizmente, eu faço parte da geração em que o futebol começava na rua. A rua dava-nos muito, em relação ao que se vê hoje, onde tudo é muito mais formatado. Vou para um clube com oito, nove anos de idade. Através do senhor Rola, que infelizmente já faleceu, que tratava das captações do Vitória e que andava com um saco de bolas no seu “carocha” de vila em vila. Um dia chegou à nossa escola primária, em Brito, juntou os miúdos, apresentou-se e convocou-nos para um joguinho no final do dia. E foi assim, através dessa captação na vila que fui escolhido e chamado para ir fazer testes ao Vitória onde acabei por ficar.

Quando ele lhe dá a notícia de que tinha sido escolhido para ir fazer testes, lembra-se de qual foi a sua reação?
Foi logo no final do joguinho: disse que gostava muito de nos ver, a mim e a outro meu colega. Foi a minha casa, falou com os meus pais, pediu à minha mãe para que me deixasse ir. A minha mãe deixou e eu fiquei todo contente claro. Poder jogar num clube, pela primeira vez com oito anos, acho que era o que todos queríamos.

Custódio com os avós

Custódio com os avós

D.R.

Recorda-se de como foi esse dia quando foi a Guimarães fazer os testes?
Não me lembro muito bem, mas na altura fui fazer testes como guarda-redes.

Como guarda-redes?
Sim, jogava muito como guarda-redes. Talvez porque um dos meus tios era guarda-redes e eu tinha acesso a todo o equipamento: luvas, os calções de guarda redes que eram diferentes, com aquelas almofadas. Depois, porque um dos meus ídolos de infância era o Vítor Baía. Isso influenciou muito. Só passei a jogar na frente, como jogador de campo, nos iniciados. Fiz os infantis como guarda-redes.

Gostava?
Gostava e achava que tinha alguma competência.

Como é que passa a jogar no campo?
Quando estava na baliza jogava muito bem com os pés, muitas vezes arriscava demasiado, até que na transição para iniciados, fui falar com o senhor Emídio, que era o meu treinador na altura, e pedi-lhe para passar para a frente, não queria continuar a ser guarda-redes. Houve alguma resistência por parte do treinador dos guarda-redes, mas eu estava decidido e o senhor Emídio aceitou e as coisas correram bem.

O que motivou querer jogar mais à frente se até gostava de ser guarda redes?
Era o gosto de ter a bola nos pés. Naquela altura como infantil quase não tocava na bola. Hoje, os infantis jogam futebol de sete, futebol de oito; na altura jogavam futebol de onze e eu quase não tocava na bola.

Tinha quantos anos quando começa a jogar como médio?
Foi na passagem para iniciados, teria 12 anos.

Custódio, o primeiro em pé à direita, fez toda a formação no V. Guimarães

Custódio, o primeiro em pé à direita, fez toda a formação no V. Guimarães

D.R.

Fez os iniciados no V. Guimarães também?
Sim, joguei dos oito aos 17, 18 anos no V. Guimarães.

Até essa idade estudou sempre?
Abandonei a escola nos juvenis. Houve um ano de seleção em que faltei mais ou menos três meses. Não foram três meses seguidos. Hoje os clubes têm uma facilidade maior, têm horários preparados para os miúdos que estão em alta competição. Na altura isso não existia e faltei muito. Esse ano foi mau na escola mas a verdade é que as coisas também se iam encaminhando. Eu já tinha contrato profissional, tive contrato profissional muito cedo no Vitória.

Com quantos anos?
Com 13 para 14 anos.

Começou logo a ganhar dinheiro?
Já, mas não era muito dinheiro.

Lembra-se qual era o valor do seu primeiro ordenado?
Há duas coisas que eu não gosto muito de falar: do dinheiro e da escola. Fiz a minha primeira pré-época com 15 anos nos seniores do V. Guimarães, ainda era treinador o Quinito. Não vou dizer que ganhava muito, mas se fosse comparar o que eu ganhava no Vitória com contrato de formação com o que ganhava uma pessoa normal…era bom.

Houve alguma coisa que quisesse comprar logo?
Não, a verdade é que estava muito mais concentrado em ajudar os meus pais. Venho de uma família humilde que naturalmente vivia do trabalho e os meus avós da agricultura, e o que eu queria era ser mais uma ajuda. Se tivesse as condições para os ajudar, vivia feliz com isso. Não era a PlayStation, nem as chuteiras de marca: o meu objetivo era ajudar a criar o bem estar.

Os seus pais nunca se opuseram a que largasse a escola para se dedicar ao futebol?
De uma forma muito vincada, não. Claro que não ficavam contentes com tudo isso, mas depois as coisas também foram acontecendo muito rápido.

Custódio com os pais

Custódio com os pais

D.R.

Estava a dizer que com 15 anos faz a sua estreia no plantel sénior...
Com 15 anos fiz a estreia na pré-época do Guimarães, com o Quinito como treinador.

Chega a jogar no plantel principal do V. Guimarães?
Só em amigáveis.

Porque entretanto surge o Sporting.
Sim, eu ainda vou na qualidade de júnior para o Sporting.

Como é que surge o Sporting? Tinha empresário?
O primeiro convite que tenho para ir para o Sporting foi no final de um Torneio Lopes da Silva. O Lopes da Silva é um torneio para sub-14 e eu fiz dois Lopes da Silva. O Sporting fez-me esse convite para ir para lá, mas eu não me sentia preparado. Não me sentia preparado para largar a família. Só que o Sporting sempre foi acompanhando a minha evolução, até que chegou ao ponto de haver uma renovação no Vitória e eu não aceitei a renovação, ainda na qualidade de júnior.

Não aceitou porquê?
Na altura eu já era representado pelo Jorge Mendes, comecei a ser representado por ele mais ou menos com 16 anos, e eu saí do Vitória com 17 para 18 anos. Além de achar que devido ao assédio que estava a ter de várias equipas grandes em Portugal, e mais algumas de fora, ser o momento de dar o salto, ia a todas as seleções, tinha sido Campeão da Europa de sub-16 - e, muito por conselho do Jorge, por ele achar que era o momento de eu ir para um clube de outra dimensão, lá fui. Basicamente, essas foram as razões e apareceu o Sporting novamente.

Custódio foi para o Sporting na época 1999/2000

Custódio foi para o Sporting na época 1999/2000

PAULO COELHO

Como é que surge o Jorge Mendes na sua vida?
Tinha um amigo que jogava comigo nos iniciados do Vitória, que era do Penafiel, e o pai dele conhecia um colaborador do Jorge, que era o senhor Armando Silva, que é de Castelo do Paiva. Tentou chegar até mim através dessa pessoa. Observava-me nos jogos, gostava muito de mim e queria representar-me. Basicamente, foi esse senhor Armando Silva que chegou e se apresentou como colaborador do Jorge Mendes e que mostrou muito interesse em representar-me.

Quando recusa continuar no V. Guimarães já tinha contrato com outro clube?
Não tinha contrato, apenas interessados e abordagens.

Quem eram os clubes interessados para além do Sporting?
Não sei se tem muita importância falar disso agora...

Já passou tanto tempo, não pode dizer?
Na altura o Jorge falava-me de muitos clubes. Posso dizer-lhe que eram os grandes em Portugal e mais alguns fora.

Os clubes estrangeiros interessados eram de que país?
De Espanha.

Em 2007, o Sporting conquistou a Taça de Portugal com uma vitória sobre o Belenenses, no Jamor, por 1-0. Custódio ergue a Taça com o guarda redes Ricardo

Em 2007, o Sporting conquistou a Taça de Portugal com uma vitória sobre o Belenenses, no Jamor, por 1-0. Custódio ergue a Taça com o guarda redes Ricardo

STRINGER

Porque é que opta pelo Sporting?
Houve todo um contexto engraçado. O Inácio era na altura o treinador do Vitória e tinha interesse no Nuno Assis. O Sporting propôs que o Nuno Assis viesse para o Vitória, que na altura, se não estou em erro, estava emprestado no Gil Vicente, mas o Sporting também não estava interessado que ele ficasse e houve uma troca. Houve uma verba que o Sporting pagou, mais o Nuno Assis. O Vitória viu interesse nessa situação e viabilizou. Penso que foram essas circunstâncias que também convidaram ao negócio.

Como é que foi a sua mudança para Lisboa?
Quando fui para Lisboa tinha 18 anos e não fui sozinho, só nos dois primeiros meses, porque casei muito cedo. Casei com 18 anos. Sou precoce em tudo (risos), por isso quando digo que com 15 anos já era muito maduro, faz muito sentido. Casei com 18 e namorava com a minha esposa desde os 13 anos.

Como é que a conheceu?
Na escola. Temos dois filhos já vamos fazer 17 anos de casados.

Quando vem para Lisboa está dois meses sozinho e depois ela vem ter consigo. É isso?
Sim. Casei em setembro de 2001. Achámos que era o momento, estávamos juntos há muito tempo, a vida ia mudar, o contrato que fiz no Sporting também ajudou, foi um contrato muito bom. Em termos financeiros estava seguro, estava tranquilo para o início de vida.

A sua mulher na altura fazia o quê? Estudava, trabalhava?
Estudava e continuou estudar em Lisboa depois. Fomos morar para a Alameda das Linhas de Torres, no Lumiar. E foi sem dúvida um aspecto facilitador na minha adaptação à vida em Lisboa. Não estava sozinho, também já era bastante maduro para a idade, estava casado, penso que isso me deu uma estabilidade e tranquilidade enormes.

Custódio com a mulher, Soraia

Custódio com a mulher, Soraia

D.R.

Que jogadores encontrou quando chegou ao Sporting?
Um deles, muito importante para mim, foi o Hugo Viana. Já nos conhecíamos desde os sub-13. Jogámos juntos na seleção regional. Foi um dos suportes nos primeiros tempos. Também tinha o Quaresma que eu conhecia das seleções. Basicamente, tinha muitos amigos das seleções jovens, o Carlos Marques, o João Paiva, jogadores que tinham feito um percurso de seleção comigo. Mais tarde, e já na equipa principal, o Hugo [defesa central] foi importante porque era de Braga, do norte, e fomo-nos conhecendo mais, as esposas também e ainda hoje somos grandes amigos. Depois houve aquela altura no Sporting, e falando da equipa principal, em que a adaptação era muito fácil porque tinha jogadores que ajudavam bastante na adaptação e na integração no plantel sénior, como o Pedro Barbosa, o Rui Jorge, o Paulo Bento.

Quando é que passa a jogar na equipa principal?
Eu tinha idade júnior e fui para equipa B do Sporting. Fiz meio ano na equipa B, até dezembro, e a partir dai fico sempre no plantel da equipa principal, com o Laszlo Bölöni.

Lembra-se do primeiro jogo na equipa principal do Sporting?
Foi com o Salgueiros no ano do título, 2001/2002, joguei nove ou dez minutos se não estou em erro.

Então foi campeão.
Fui campeão, exatamente.

Hugo Viana, Alan Silva e Custódio levantam a Taça da Liga conquistada pelo SC Braga, depois de bater o FC Porto por 1-0, em 2013

Hugo Viana, Alan Silva e Custódio levantam a Taça da Liga conquistada pelo SC Braga, depois de bater o FC Porto por 1-0, em 2013

MIGUEL RIOPA

Quando era pequeno torcia por que clube?
Isso é uma pergunta muito difícil… Não vou responder (risos). Até porque passei por muitos clubes, por respeito.

Voltando ao Sporting, estreia-se com o Boloni na equipa principal e antes de ir para fora, que outros treinadores é que teve no Sporting?
Fernando Santos, Peseiro e Paulo Bento na equipa principal. Na equipa B o Jean Paul e o Luís Alegria.

Dos treinadores que teve em Alvalade qual foi o que o marcou mais e porquê?
Todos eles foram importantes. Seria injusto não falar de todos, agora o treinador em que a aposta em mim foi efetiva e com quem eu comecei realmente a jogar a titular, com 19 para 20 anos, foi o Fernando Santos. Foi muito importante para mim, por ser o primeiro treinador. O Bölöni foi tendo um projecto para mim, tentando incluir-me na equipa, mostrando o que eu precisava e o que era importante para poder chegar a um bom nível. Mas quem apostou realmente em mim foi o Fernando Santos e só por esse factor falo dele. O Peseiro foi importante também, fiz uma época fantástica, chegamos à final da Liga Europa. E o Paulo Bento, que também já tinha sido meu colega como jogador, e depois o apanhei como treinador.

É complicado ser treinado por quem foi um recente colega?
Há sempre um factor que torna isso fácil. A personalidade e o carácter de cada um dos envolvidos. Tanto eu como o Paulo somos de carácter, com uma personalidade e um profissionalismo acima de tudo, e então tudo se torna fácil porque sabemos separar as coisas. Sabemos o que cada um tem que fazer. As coisas correram de forma fantástica.

Custódio foi jogador do SC Braga durante quatro épocas e meia

Custódio foi jogador do SC Braga durante quatro épocas e meia

MIGUEL RIOPA

Em relação à seleção, passou por todos os escalões...
Desde os sub-15 à selecção A. Fui campeão da Europa pelos sub-16, fiz dois Europeus pelos sub-21, e a primeira vez que fui chamado para a selecção A, foi com o Scolari, em 2004, 2005 se não estou em erro. Só que tive uma lesão no dia anterior a esse estágio e acabei por não ir. Mais tarde quando sou novamente chamado, já é o Paulo Bento o treinador e vou ao Europeu de 2012.

Mas antes disso sai para o Dínamo de Moscovo, em 2007.
Exatamente.

Como é que isso acontece, porque é que sai?
Antes de ir para o Dínamo de Moscovo, tenho uma proposta boa para ir para a Turquia, para o Galatasaray. Queria muito ir para a Turquia, em termos financeiros para o Sporting era bom, em termos financeiros para mim era bom. No entanto, o Sporting não me deixou sair. Fizeram-me sentir a importância que tinha clube sendo eu o capitão, etc, mas as coisas não chegaram a bom porto.

Como assim?
Disseram que gostavam muito de renovar comigo, mas depois as coisas não foram acontecendo e achei que o que me foi apresentado não era condizente com aquilo que eles me iam dizendo. A época, também por estes factores, não me correu bem. Tudo influenciou e no fim desse ano acabou por surgir o Dínamo de Moscovo que foi quase como uma solução de recurso.

Na seleção, a celebrar um golo com Ronaldo e Miguel Veloso

Na seleção, a celebrar um golo com Ronaldo e Miguel Veloso

Lars Baron

Nesse último ano do Sporting, quem era o treinador e quem era a direção?
Era o Paulo Bento, e na direção penso que era o Soares Franco o presidente; o Carlos Freitas como director desportivo se não estou em erro. E as coisas foram andando com propostas de renovação, mas sempre longe daquilo que eles diziam, as relações não foram ficando saudáveis e foi um desgaste grande.

Quando foi para Moscovo já tinha filhos?
Tinha uma filha, a Mafalda, que nasceu em 2004. Fomos os três para a Rússia.

Como é que foi a adaptação a um país e língua novos?
Na Rússia, o que tinha que correr mal, correu mal. A adaptação foi muito difícil, pessoas frias, futebol diferente, sem pessoas no estádio na altura. O clube tinha alguns problemas, não financeiros mas de estrutura, e não me consegui adaptar nem ao futebol, nem ao país, nem à cultura.

Custódio consola Ronaldo na meia final do Euro 2012 que Portugal perdeu com a Espanha

Custódio consola Ronaldo na meia final do Euro 2012 que Portugal perdeu com a Espanha

Jasper Juinen

E para a sua mulher também foi difícil?
Para elas foi fácil. Gostavam muito da cidade, mas eu, agarrado à parte profissional, as coisas não correndo bem, a adaptação não aconteceu. É que nem foi fácil, nem foi difícil, não aconteceu porque não me consegui adaptar.

Mas era o futebol, não se conseguiu encaixar?
Era o futebol, era o frio, as pessoas eram frias, não recebiam muito bem os estrangeiros no clube, também um pouco desconfiados por tudo o que se tinha passado. Tinham ido muitos portugueses antes e as coisas não tinham corrido bem, a não ser com o Danny.

Havia mais algum português na equipa?
Sim, o Danny e o Cícero.

Eles ajudaram de alguma forma?
Ajudaram muito, estávamos sempre juntos, ajudávamo-nos uns aos outros, mas não consegui adaptar-me mesmo assim.

Custódio jogou no Dinamo de Moscovo mas nunca conseguiu adaptar-se à Rússia

Custódio jogou no Dinamo de Moscovo mas nunca conseguiu adaptar-se à Rússia

Dima Korotayev

E foi para o V. Guimarães. Quem era o treinador?
O Manuel Cajuda. Em ano e meio apanhei o Cajuda, o Nelo Vingada, o Paulo Sérgio e o Manuel Machado.

Ainda foram muitos treinadores, não deve ter sido fácil.
Não, não foi fácil e demonstra a instabilidade que se vivia no clube, e por isso nem sempre é fácil atingir os objectivos para os quais nos propomos; o futebol é um desporto de equipa. Para os jogadores também não é fácil estar sempre a mudar de treinador, têm conceitos diferentes…

É por isso que depois vai para Braga?
No fundo, sim. As coisas, não estando a correr bem e comigo a tentar tentar recuperar de tudo o que se tinha passado, sentia que tinha mais ambição do que o clube. E sentia que, para poder atingir patamares aos quais me propunha porque acreditava nisso, tinha que sair. Entretanto, apareceu o SC Braga e não hesitei. A partir daí, acho que as coisas correram muito bem e é sabido as épocas que fui fazendo no SC Braga.

Quatro épocas e meia.
Sim.

Em Alvalade, Custódio e a mulher

Em Alvalade, Custódio e a mulher

LUIS MANUEL NEVES

Quando nasce o seu segundo filho?
Nasce em 2008, quando regresso da Rússia. Venho em outubro de 2008, a minha esposa já estava grávida e ele nasce no dia 8 de novembro.

Das quatro épocas e meia no SC Braga, o que é que lhe vem de imediato à cabeça?
O que me vem à cabeça, quando falo do SC Braga, sem falar de jogos e de vitórias, é ambição. Quando cheguei ao SC Braga senti: “eu aqui vou vencer, eu aqui vou triunfar”. Sentia que o clube estava preparado e que tinha grandes ambições. E senti-me “em casa”.

Quem era o treinador?
O Domingos. As coisas foram acontecendo naturalmente, a final da Liga Europa, a Liga dos Campeões, a Taça da Liga que vencemos; e, mais uma vez, a Liga dos Campeões com o Peseiro. Conseguimos sempre resultados muito bons no campeonato, com a excepção de um ano, ou seja, era a cultura que já se vivia no clube, de ambição.

Foram os melhores anos da sua carreira?
Não sei se foram os melhores, mas foram anos fantásticos. No Sporting também vivi grandes momentos, mas os de Braga marcaram-me muito.

Com a camisola do SC Braga

Com a camisola do SC Braga

D.R.

Para além do Domingos teve outros treinadores?
O Jesualdo Ferreira e o Paixão no mesmo ano, e depois podemos dizer que foi um treinador por ano.

Algum que o tenha marcado mais?
Todos eles foram fantásticos. É verdade que o ano em que esteve o Jesualdo não foi bom em termos desportivos, mas todos os outros foram bons. Sabemos o que o Domingos fez em Braga, foi fantástico. O Leonardo Jardim também. O Peseiro ganhou a Taça da Liga e conseguiu o apuramento para a Liga dos Campeões. O Sérgio Conceição, apesar de eu só ter estado meio ano com ele, sabemos que fez uma época fantástica porque foi à final da Taça de Portugal e ingloriamente perdemos essa final. Por isso, todos me marcaram de uma forma bastante positiva.

Então porque sai para a Turquia?
Senti que era o momento de sair. Nunca quis ser um peso para o clube. O clube recebeu-me bem, fazia-me sentir em casa e chegou um ponto em que, podem ser coisas da minha cabeça, mas senti que era o momento de... eu não sei se era o mais bem pago ou não... mas sentia que, naquele momento, era altura de aliviar um bocadinho o SC Braga. Senti que se calhar era melhor eu sair e não ser um peso no orçamento do Braga, libertar muito dessa parte e também aproveitar um bocadinho um interesse que havia de um clube na Turquia e também beneficiar disso. Mas o meu primeiro pensamento foi: “eu não quero ser um peso no Braga, eu não quero estar agarrado ao dinheiro, não quero estar agarrado a um ordenado”. E foi muito isso que me levou a procurar uma situação diferente. Foi por isso e só por isso que fui para a Turquia.

Mas não foi vantajoso em termos financeiros para si?
Foi, é verdade. Eu também já tinha 32 anos, queria aproveitar um bocadinho, foi por aí.

Custodio cumprimenta Bosingwa antes de um jogo entre o Akhisar e o Trabzonspor, ambos da Turquia

Custodio cumprimenta Bosingwa antes de um jogo entre o Akhisar e o Trabzonspor, ambos da Turquia

Vai com a família ou sozinho?
Sozinho. Estive dois anos e meio sozinho na Turquia porque tinha os filhos na escola e era duro demais estar a mudar. Até porque os meus filhos cá não andavam na escola inglesa. Se andassem, até podia ponderar porque podia ser uma solução. Mas como não andavam, a minha esposa teve de ficar com os meus filhos.

Custou ir sozinho?
Custou muito. Mas apanhei o Hugo também, que me trata muito bem. Fiquei com bastantes amigos e foi isso que me ajudou muitíssimo. Mas o facto de não ter família foi muito doloroso.

E a adaptação à Turquia. Gostou do país, das pessoas...
Um país fantástico, adorei, adaptei-me muito bem, as coisas correram muito, muito bem. Foram dois anos e meio muito bons da minha carreira. Desfrutei muito. Gosto muito do país, das pessoas, o clube tratou-me de forma fantástica não tenho um aspecto negativo que possa falar da Turquia. Ao contrário da Rússia.

Estavam lá outros portugueses?
Quando fui, no primeiro ano tenho o Roberto Carlos como treinador, o jogador Douglão, que jogou comigo no Braga, e foi ao mesmo tempo comigo o Ricardo Vaz Tê.

Ficou em apartamento ou hotel?
Num apartamento. Vivia num sítio fantástico com muitos restaurantes. Como estava sozinho o sair de casa um bocadinho, o ir ao restaurante, parece que não, mas aliviava bastante. Entretanto fui conhecendo as pessoas do restaurante. Fui comunicando e aprendendo com eles, aprendi um bocadinho da língua, e todo este contacto social com uma cultura diferente foi giro.

Custódio jogou três epocas no Akhisar da Turquia

Custódio jogou três epocas no Akhisar da Turquia

Veio embora porquê?
Eu tinha uma proposta para renovar com eles mas tinha decidido, também por causa da família, que tinha chegado o momento de regressar a Portugal. Disse inclusivamente ao presidente, quando me fez a proposta de renovação, que se continuasse a jogar, jogava lá, mas que não ia jogar mais e que ia abraçar um projeto aqui. Também não foi por isso, por abraçar um projeto, que deixei de jogar - isso de ser treinador do Braga só surgiu depois. Eu senti que tinha chegado o momento de estar mais perto outra vez dos meus meus filhos e da minha esposa.

Custou parar?
Custou muito. Uma pessoa como eu que vive o futebol com paixão... mas chegamos a um ponto em que temos de pensar bem no que é importante para nós.

Quando regressou tornou-se entretanto adjunto do treinador dos juniores do SC Braga.
Sim, estou a tirar o curso de treinadores agora. É essencial e tem de ser feito. E estou a acabar o 12ª ano.

É isso que quer fazer na vida daqui para frente, ser treinador?
Sem dúvida. É a minha paixão. Desde sempre tive esta paixão de estar no relvado, do treino e de tentar passar valores.

A mulher e os filhos de Custódio

A mulher e os filhos de Custódio

D.R.

Os seus filhos jogam futebol?
O meu filho sim, joga numa escolinha de futebol. A filha não.

O que faz a sua mulher?
Nós temos um salão de beleza, que tem a parte de cabeleireiro e a parte de estética. A mãe da minha esposa é proprietária do salão e trabalham as duas nisso.

Qual o clube onde gostava de ter jogado?
Mais do que um clube, eu gostava de ter jogado em Itália.

Porquê?
Na altura em que eu tinha 24, 25 anos o futebol italiano fascinava-me. Pelos aspectos táticos, pelos treinos, por tudo. Agora atravessa uma crise enorme, mas na altura era o que me fascinava. Gostava muito da Roma, do AC Milan.

Além do Vítor Baia quem eram os seus ídolos?
O Figo, o Ronaldo o fenómeno, Paulo Sousa, o Paulo Bento, gostava muito da forma como ele jogava. E o Maradona.

Tem algum hóbi?
Gosto muito de cinema, mas adoro teatro.

Teatro? De que género?
A última peça que vi foi “A Ressaca” do Carlos Cunha. Gosto do género revisteiro, com humor. Também já assisti a alguns musicais. Gosto de música.

O que costuma ouvir?
Coldplay, Rui Veloso. Gosto muito de fado, gosto muito da Ana Moura e de ouvir os fados antigos da Amália.

Custódio tornou-se treinador adjunto da equipa B do SC Braga

Custódio tornou-se treinador adjunto da equipa B do SC Braga

D.R.

Qual a sua maior ambição?
Nunca pus grandes metas naquilo que quero para mim. Sempre pensei muito mais no bem estar da família, essa sempre foi a minha meta. Nunca fui de pôr as coisas, em termos futebolísticos, num patamar elevado do tipo “tenho de conseguir isto ou aquilo”. Sempre fui uma pessoa que se preocupou com o bem estar da família.

Isso significa o quê? Que além da compra da quinta dos avós e das melhorias que lá fez, também comprou casa para os pais?
Por exemplo. Era esse tipo de coisas que me motivavam. Outro dos objetivos, era que os meus filhos e a minha família tivessem um conforto e acesso a coisas que se calhar eu não tive.

Nunca se deslumbrou? Nunca houve um dia em que gastasse um pouco mais?
Não. Cometi erros, como toda a gente, mas sempre fui muito ponderado, sempre planeei bem a minha vida e felizmente sempre deu certo. Se tinha que comprar um carro, eu planeava, se tinha de comprar casa, planeava. Nunca fiz as coisas por intuição. Fui sempre muito poupado.

Aos 34 anos Custódio assume que quer continuar a carreira de treinador

Aos 34 anos Custódio assume que quer continuar a carreira de treinador

D.R.

Quem são as amizades do futebol que fez para a vida?
Aquela amizade, que posso dizer que é como um irmão, em que somos compadres, é o Hugo que jogou comigo no Sporting.

Lembra-se quando conheceu o seu ídolo, Vítor Baía?
Foi na época 2003/2004. No meu primeiro jogo no Sporting com ele, pedi ao Rui Jorge para falar com ele e pedir-lhe a camisola. Assim foi, o Rui disse-lhe que ele era o meu ídolo e ele no final do jogo deu-me a camisola sem eu ter que lhe dizer nada... e tenho a 99 até hoje.

Tem alguma história do futebol que hoje já possa contar e que o tenha marcado?
Tenho uma história incrível. Num jogo para a Liga em que não fui titular, quando sou chamado a entrar faço um golo e o jogo termina com 3-2 a nosso favor (não vou dizer o clube). O incrível é que na altura em que marco o golo, o treinador, cujo nome não vou revelar, virou-se para trás, para os adjuntos e disse qualquer coisa do género: “Todos menos ele. Não é possível que tenha feito golo!”. Ou seja, ficou chateado por eu marcar golo. É verdade que não éramos os melhores amigos, mas eu não queria acreditar que fosse possível alguém ter este tipo de atitude, principalmente àquele nível. Soube disto porque toda a gente que estava no banco veio contar-me. E não foi só um ou dois, por isso há confirmação da história.