Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

Delfim: “Contra todas as perspetivas e dados estatísticos, depois de três anos parado, voltei a jogar. Com quatro parafusos nas costas”

Ainda tem processos em tribunal por causa das lesões que sofreu ao serviço do Sporting e do Olympique de Marselha, e que lhe valeram anos de dores e muitas operações. Aos 41 anos, Delfim diz-se feliz com a vida e conta como um peito do pé forte (tinha a alcunha de "pontapé canhão") e o filme "Braveheart" arruinaram a sua vontade de comprar sapatos sem atacadores

Alexandra Simões de Abreu

O ex-internacional português Delfim

RUI DUARTE SILVA

Partilhar

Deixou o futebol há oito anos. O que faz agora?
Neste momento faço a gestão do património que fui adquirindo e tenho o privilégio de ser pai de três magníficos filhos a 100%.

Que tipo de património, imobiliário?
Sim. Durante a carreira fui tendo o cuidado de fazer aplicação nesse sentido de forma a não me dispersar e garantir o futuro da família. É património pessoal, faço compra e venda de propriedades.

Há um ano apoiou o candidato Pedro Madeira Rodrigues e se este tivesse vencido as eleições do Sporting, o Delfim seria team manager no clube.
Sim, fui contactado por várias pessoas simpatizantes do Sporting e o coração falou mais alto. Foi aquele sentimento de gratidão para com uma instituição como o Sporting Clube de Portugal, que tive o prazer de representar durante três épocas. Sensibilizaram-me para aquele projeto e não pude deixar de dar o meu apoio.

Delfim com um ano

Delfim com um ano

D.R.

Já conhecia Pedro Madeira Rodrigues?
Só o conheci nessa altura. Foram outras pessoas que fizeram a ponte e o Pedro Madeira Rodrigues conhecia-me como atleta, conhecia o meu percurso, tinha informação de muita gente que lidou comigo, informação essa positiva, e veio falar comigo.

Tem pena de não ter desempenhado as funções de team manager?
Acredito que este Sporting poderia estar mais bem gerido. Bruno de Carvalho começou com um propósito quando da sua chegada ao Sporting e hoje faz o oposto, acho que não é salutar esta gestão e daí eu estar disponível para contrariar essa tendência.

Aos cinco anos Delfim com a irmã Cristina, 19 meses mais velha

Aos cinco anos Delfim com a irmã Cristina, 19 meses mais velha

D.R.

Nasceu há 41 anos em Amarante. Tem irmãos?
Tenho uma irmã mais velha 19 meses, formada em biologia e geologia.

Os seus pais o que faziam quando nasceu?
O meu pai é engenheiro agrónomo e a minha mãe é formada em física e química. Estão ambos reformados agora. A minha mãe lecionou na escola e no colégio S. Gonçalo, em Amarante, e o meu pai exerceu grande parte da carreira na escola profissional agrícola do Marco de Canaveses.

Era uma criança traquina ou sossegada?
Tinha muita vida. Sempre no exterior, a correr quilómetros e sempre com a bola e bicicleta. Os meus pais relatam que não me viam de outra forma a não ser com uma bola.

Havia alguém na família ligado ao futebol?
Diretamente não. Sei que havia um tio, irmão da minha mãe, que tinha muito jeito para o futebol, mas uma lesão grave aos 18, 19 anos fez desmoronar o sonho de fazer carreira.

Quando tinha 11 anos Delfim vestiu-se de arlequim, no Carnaval

Quando tinha 11 anos Delfim vestiu-se de arlequim, no Carnaval

D.R.

Como e quando começa a jogar num clube?
Começo na rua, e depois nos torneios inter freguesias. Eu vivia na freguesia da Madalena e fiz esses torneios com 7, 8 e 9 anos de idade. Num deles fui visto por um primo em 3º grau da minha mãe que fazia a prospeção para o Amarante. Ele abordou os meus pais e fui fazer parte da primeira equipa de infantis na história do Amarante Futebol Clube. Dessa equipa fazia parte também o Nuno Gomes, embora ele fosse mais velho um ano. O Amarante só tinha uma equipa de infantis e jogamos juntos esse ano, eu com 10 anos e ele com 11.

Mantém-se no Amarante até ir para o Boavista. Com que idade vai para o Porto?
Fiquei no Amarante até aos 15 anos. Os meus pais já tinham sido contactados pelo Boavista quando eu tinha 12 anos, mas puseram logo de parte essa possibilidade porque era muito cedo. Amarante fica a 60 quilómetros do Porto, mas na altura demorava-se duas horas e meia a lá chegar. Para os meus pais era impensável deixar-me sair de casa com 12 anos. Fui obrigado a estudar e estudei sempre até ao 12º ano, mas confesso que foi por obrigação. Com 15 anos o Boavista voltou à carga, convidou-me novamente para representar os juvenis de segundo ano e os meus pais ai sentiram-se entre a espada e a parede, no sentido em que se não me deixassem ir, mais tarde eu poderia insurgir-me com eles, por não me terem dado a oportunidade para fazer aquilo que mais queria. A custo deixaram-me sair de casa.

Ficou a viver onde no Porto?
Na zona da Boavista, debaixo da bancada da entrada principal do Estádio, numas camaratas do centro de formação. Fui fazer o 10º ano já no Porto.

Delfim com 14 anos, durante um passeio escolar a Paris

Delfim com 14 anos, durante um passeio escolar a Paris

D.R.

Como é que foi sair debaixo da alçada dos pais?
Correu tudo pelo melhor. A mudança foi feita no verão, vou representar uma equipa de topo na formação, estava hiper motivado. Ia compartilhar uma camarata com outros colegas que conheci na altura, rapidamente me integrei e fiz amizade. Portanto o desafio foi extraordinário.

O Nuno Gomes foi consigo?
Já estava num apartamento ou noutra zona do centro de formação. Ele foi para o Boavista dois anos antes de mim.

A adaptação foi fácil então.
Sim. É lógico que em setembro quando começaram as aulas foi agressivo. Agressivo no sentido em que éramos seis ou sete a partilhar um quarto e a partir de determinada altura eu era o único a levantar-me às sete da manhã para ir estudar. Não era fácil ver os colegas ficarem no quarto e eu ter que pegar na mochila e ir para a escola. Mas ainda bem. Desde o início que isso foi uma imposição dos meus pais. Não queriam abrir precedentes e colocaram-me os pontos nos “is” quando me levaram ao Porto. “Estás cá para jogar mas primeiro para estudar, se tens uma falta injustificada, voltas para casa. E não vens para brincar, vens para jogar, não vens para ser suplente ou para não seres convocado, porque senão voltas para Amarante que lá és titular” (risos). As cartas ficaram logo em cima da mesa, preto no branco e eu tive de jogar o jogo deles e bem.

Delfim, o terceiro em pé da direita para a esquerda, e a sua equipa de iniciados no Amarante FC

Delfim, o terceiro em pé da direita para a esquerda, e a sua equipa de iniciados no Amarante FC

D.R.

Notou muita diferença de Amarante para o Boavista em termos desportivos?
Sem dúvida. O Boavista na altura era um Boavistão em seniores e a formação era algo de extraordinário. Era um clube que disputava toda as fases finais para tentar ser campeão. Tive o grande privilégio, também com o Nuno Gomes, de fazermos história na formação do Boavista, de pertencermos à equipa que ganhou o primeiro título nacional de juniores do Boavista e que é um registo importante no clube.

Mas se o Nuno Gomes estava à sua frente um ano como é que ele ainda jogou nessa equipa?
No ano em que somos campeões, eu sou júnior de segundo ano e o Nuno Gomes já estava nos seniores, mas havia uma lei que entrou em vigor nessa época, em que três jogadores de 3º ano, ou seja com 19 anos, podiam representar na fase final os juniores. E nessa altura os três jogadores foram o Nuno Gomes, o Jorge Silva, que era central do Boavista e que foi cunhado dele do primeiro casamento do Nuno Gomes, e outro não me estou a recordar o nome.

Delfim já como jogador do Sporting

Delfim já como jogador do Sporting

Getty Images

Foi para o Porto com 15 anos, estava a viver com outros jovens jogadores, isso levou-o a começar a sair à noite?
Havia controlo, havia porteiro. Recordo-me de noitadas desse tempo, mas eu não as fiz. Sabia o que queria e estava sob uma alçada apertada por parte dos meus pais. Mas lembro-me que às vezes de madrugada, às duas, três da manhã, saíamos quando estava a chover e brincávamos no relvado de treinos do Boavista. Na altura só treinávamos nos campos pelados, treinar no relvado era um privilégio, só nas fases finais de cada época é que tínhamos o prazer de calcar o relvado principal. Isto hoje é corriqueiro, há piso sintético, há relva natural, mas na altura era tudo pelado. Portanto as brincadeiras eram essas, e jogar às cartas e contar anedotas.

Começa a namorar nessa altura?
Sim, uns namoricos, mas a sério só aos 19 anos, relação essa que mantenho até hoje.

Já lá vamos. Torcia por que clube?
É engraçado mas nunca tive amor clubístico.

Não?
Não, nunca recortei posters, nunca colecionei cromos, nunca tive um ídolo. Pode parecer estranho mas a minha grande paixão diária era o contacto com uma bola. Era a bola e as chuteiras. A minha prenda de natal tinha que ser uma bola ou umas chuteiras. Recordo-me de, em miúdo, dormir com a bola ou as chuteiras, e sentir o cheiro do couro ao meu lado (risos). Nunca tive amor clubístico. Hoje gosto e tenho um grande respeito profissional pelo Boavista que apostou em mim, e tenho também uma grande admiração pelo Sporting pela forma como me abraçaram durante os três anos que lá estive.

Delfim num lance acrobático com um jogador do Bolonha, durante um jogo da Taça UEFA, em 1998

Delfim num lance acrobático com um jogador do Bolonha, durante um jogo da Taça UEFA, em 1998

Matthew Ashton - EMPICS

Antes de ir para o Sporting ainda é emprestado ao Desportivo das Aves, certo?
Exatamente.

Quando é que faz a sua estreia como sénior? Lembra-se em que jogo foi e quando foi?
Se não estou em erro, faço a minha estreia com os seniores ainda era júnior de segundo ano, e era o Manuel José o treinador do Boavista. Creio que foi no Boavista-Tirsense para o campeonato, fiz uns 15, 20 minutos.

Estava nervoso?
Estava tenso, mas ciente de que era a oportunidade que sempre quis e foi-me concedida por um grande treinador.

Lembra-se de alguma coisa em especial que lhe tenham dito?
Recordo-me que o nosso lateral direito que na altura era o Jaime Alves lesionou-se, o Paulo Sousa que era o capitão foi substituído e o Manuel José chamou-me e disse: “miúdo estás a ver esta linha?” e apontou para a linha da bandeirola “é tua” e foi esse o repto lançado por ele para um jovem recém chegado ao escalão principal.

Jogou como extremo?
Fiz a ala. Fiz a ala toda e preocupei-me mais em defender.

Nessa altura já era médio?
Era médio, sim. Joguei sempre a médio, mas ali naquele jogo específico recordo que havia a falha daqueles jogadores e ele viu em mim características físicas ou técnicas, para fazer um tampão.

Delfim foi para o Olympique de Marselha na época 2001/20002

Delfim foi para o Olympique de Marselha na época 2001/20002

Serge Pagano

Continuou a ser chamado para a equipa sénior?
Nessa época fui convocado para dois ou três jogos, treinava com eles, mas jogava sempre nos juniores. Depois recordo-me de fazer o primeiro jogo a titular, em Faro. Tivemos a infelicidade de perder esse jogo e fui substituído aos 39 minutos. Não foi uma estreia feliz da minha parte, mas faz parte do percurso de aprendizagem.

É por isso que é emprestado ao Desportivo das Aves?
Não. Era norma clubística. É lógico que havia casos de exceção que transitavam diretamente dos juniores para os seniores e por lá ficavam, mas na altura 95% dos jogadores que assinava contrato profissional vindo das camadas jovens e que subiam à equipa principal do Boavista, iam rodar, ganhar experiência no escalão inferior, na II divisão e eu acabei por ser um deles. Em boa hora fui emprestado ao Desportivo das Aves porque com 19 anos tive o privilégio de encontrar um grupo de trabalho extraordinário, liderado na altura pelo professor Luís Campos, e fiz uma época boa.

Delfim lesionou-se ao serviço do Marselha e esteve parado três anos

Delfim lesionou-se ao serviço do Marselha e esteve parado três anos

Icon Sport

É um embate muito grande passar de júnior a sénior?
Foi enriquecedor, foi fantástico dar-me com atletas da minha idade e com muitos atletas mais velhos. Fez-me crescer, fez-me ascender a um grau de competitividade a que ainda não tinha chegado. Essa época foi extraordinária, correu bem a nível individual e depois foi coroada com a ida, pela primeira vez, ao Torneio Internacional de Toulon, na altura com o professor Jesualdo Ferreira.

É então chamado pela primeira vez à seleção?
Já tinha sido representado a seleção nos sub-18, num Torneio Internacional do Porto, com Agostinho Oliveira. Depois tive o privilégio de trabalhar quatro anos seguidos com o professor Jesualdo Ferreira na seleção. Ele acreditou sempre em mim e a imprensa portuguesa deu-me como melhor jogador português desse torneio. É quando regresso ao Boavista para fazer contrato e início nova época 97/ 98 no clube, com o mister Mário Reis.

Recorda-se de quando é que celebrou o seu primeiro contrato?
O primeiro contrato é com o Boavista, aos 15 anos. O ordenado era de 15 contos (75€). E pagava seiscentos e tal escudos (3€) de imposto de selo (risos).

Lembra-se o que fez ao dinheiro?
Quando recebi a primeira mensalidade, a primeira coisa que disse aos meus pais foi: “Papá, mamã, a partir de hoje a mesada que me davam mensalmente passem por favor à minha irmã”. Na altura os meus pais davam-me dois ou três contos, que são hoje 15€, mas na altura valia muito mais que isso.

Depois de sair de França Delfim foi jogar para os Young Boys da Suíça

Depois de sair de França Delfim foi jogar para os Young Boys da Suíça

Icon Sport

Comprou alguma coisa, com esse seu primeiro dinheiro, que quisesse muito?
Eu era poupado, não quis gastar, mas recordo-me que ao fim de meio ano, houve uma altura que quis comprar uns sapatos, sapatos esses que custavam 17 contos (85€), o que fazia mais do que um salário mensal.

Que sapatos eram esses tão especiais?
Esses sapatos têm uma história engraçada. Eu tenho um peito do pé muito forte, grande, e sonhava calçar uns sapatos sem cordão. Vi uns que me encheram os olhos e namorei-os durante duas, três semana até que tive coragem de entrar na sapataria, na Rua Júlio Dinis no Porto, uma rua conceituada de sapatarias. Experimentei os sapatos a custo, porque era difícil o pé entrar, mas a senhora lá me disse que com o uso aquilo ia cedendo, ia alargando. Não hesitei e comprei.

E alargaram?
Entretanto, vou ao cinema ver o “Braveheart”, um dos melhores filmes que vi até hoje e que tinha acabado de estrear. Levei esses sapatos. O filme durava umas três horas e a meio do filme ou ainda antes, estava calor, os sapatos começaram a cortar a circulação dos pés e resolvi descalçá-los para ver o filme descansado. Depois do filme acabar não queira saber o problema que foi conseguir calçar os sapatos (risos) e ir embora. Nunca mais calcei aqueles sapatos e nunca mais comprei sapatos sem atacadores.

Delfim foi jogador dos Young Boys da Suíça, durante apenas quatro meses, em 2006

Delfim foi jogador dos Young Boys da Suíça, durante apenas quatro meses, em 2006

Não é por acaso que a sua alcunha era "pontapé canhão".
Essa alcunha vem já como sénior, mas de facto desde tenra idade que rematava muito forte comparativamente com os meus colegas. Eu sobressaía por ter essa qualidade bem evidente.

Nunca teve outra alcunha?
Os meus amigos de infância sempre me chamaram de "Delfa". Na família sou o "Fimzé", porque o meu nome é Delfim José.

Estava a contar que depois do torneio de Toulon que, correu muito bem, vai para a equipa sénior do Boavista.
Sim, face à época que fiz no Desportivo das Aves e que culminou com o torneio de Toulon em que perdemos na final com a França 2-1, renovo contrato com o Boavista.

Delfim e a mulher Susana com quem casou em Outubro de 1998

Delfim e a mulher Susana com quem casou em Outubro de 1998

D.R.

É nessa altura que começa a namorar com a sua atual mulher?
Comecei a namorar com a Susana ainda não tinha ido para o Desportivo das Aves.

Como se conhecem?
Conheci-a no “Foco”, uma urbanização a 300m do estádio do Boavista. No prédio onde eu vivia nessa altura, havia uma empresa onde ela trabalhava, que ficava no 2º andar. Ela é mais velha do que eu três anos por isso já trabalhava. À força de nos cruzarmos no elevador e na entrada principal começou aí o contacto e o namoro.

Que dura até hoje.
Dura até hoje e é engraçado porque conhecemo-nos no Porto e eu sou natural de Amarante e ela é natural de Marco de Canaveses, são cidades vizinhas.

O que ela fazia profissionalmente?
Ela nasceu em Angola, veio para Portugal com dois anos, viveu em Marco de Canaveses até aos 11 e foi com os pais para Nova Iorque onde viveu até aos 18 anos. Depois regressou. Os meus sogros tiveram medo que ela e a irmã criassem raízes nos EUA e decidiram regressar e elas acabaram a formação delas aqui. Tirou o curso de assistente de gestão num instituto. É engraçado porque os meus pais apesar de terem nascido ambos cá, conheceram-se e casaram em Angola. Os meus avós tinham umas fazendas de exploração de café em Angola e o meu pai foi muito cedo para lá. A minha mãe também. A minha irmã nasceu em Angola e eu já vim nascer cá, fruto das circunstâncias que todos sabemos, tiveram de fugir praticamente e largar tudo. O que valeu aos meus pais foi o curso superior que ambos têm.

Os filhos mais velhos de Delfim, Gabriela e Tiago, com a cadelinha Sacha

Os filhos mais velhos de Delfim, Gabriela e Tiago, com a cadelinha Sacha

D.R.

Como é que corre a época já como sénior no Boavista?
Foi sempre em crescendo, as pessoas já percebiam quem eu era, já me davam espaço para evoluir. Tive o privilégio de participar na conquista da Supertaça Cândido de Oliveira. Ganhámos nessa época ao FC Porto. Depois, creio que no início de janeiro, Mário Reis sai do Boavista e entrou pela primeira vez na história do clube, como treinador, o Jaime Pacheco.

Jogou mais?
Intermitente. Não era titularíssimo. Jogava a espaços. Estava ainda a tentar impôr-me. A equipa do Boavista estava repleta de excelentes jogadores, nomeadamente no meio campo, que me estavam a transmitir conhecimentos e eu aqui e acolá conseguia jogar e fazer um ou outro golo. Paralelamente representei sempre a seleção de esperanças, com o professor Jesualdo Ferreira. E em julho vou para o Sporting.

Outra das paixões de Delfim são as motos. Na foto, durante um passeio de enduro

Outra das paixões de Delfim são as motos. Na foto, durante um passeio de enduro

D.R.

Como surge o Sporting? Já tinha empresário?
Na altura já estou representado pelo Jorge Manuel Mendes que me abordou tinha eu 20 anos, na altura em que começaram a entrar em voga os empresários e a representação. Fui abordado de uma forma simples e direta e achei interessante vincular-me e hoje é um grande amigo.

Foi ele quem apresentou a proposta do Sporting?
Não propriamente. Foi o João Loureiro. Estou de férias na Costa Brava, em Barcelona com a Susana, que ainda não era mulher, a irmã dela e o marido e uma tarde chego ao hotel e tenho três faxes do João Loureiro, a pedir para eu lhe telefonar com urgência. Na altura não havia telemóveis, não sei como é que ele descobriu onde eu estava. Telefonei-lhe e ele diz-me: "Vais para o Sporting. Vem rápido para cá, para assinares". Eu respondi: "Dr. Loureiro vai-me desculpar mas eu paguei uma semana de férias, ainda me faltam três dias, vou gozá-los e depois falamos" (risos). Na altura o diretor desportivo do Sporting era o José Couceiro, atual treinador do V. Setúbal que, creio, foi outrora jogador do prof. Jesualdo e julgo que havia ali alguma partilha de informação. Aquilo que eu fazia na seleção e no Boavista fez o Sporting apostar em mim.

Foi um salto muito grande para si a nível salarial?
Na altura, estamos a falar da época 1998/99, face ao que eu ganhava no Boavista fui ganhar quatro vezes mais. Fui ganhar 1800 contos brutos (9000€). Era um bom dinheiro face àquilo que eu ganhava no Boavista mas provavelmente na altura seria dos mais mal pagos do plantel do Sporting.

Delfim, à direita, com a camisola da Naval, clube que representou depois de sair da Suíça

Delfim, à direita, com a camisola da Naval, clube que representou depois de sair da Suíça

CityFiles

Ficou eufórico quando se viu no Sporting?
Fiquei radiante como é lógico, estava a ser ressarcido do esforço, do empenho e dedicação de muitos anos. Ser reconhecido deixava-me muito contente. Mas sempre fui muito racional perante as coisas, tanto assim é que à quase imposição do Dr. João Loureiro para que eu regressasse imediatamente a Portugal eu respondi que ainda me faltavam três dias de férias para gozar e que só ia embora ao quarto dia. Isto mostra a tranquilidade e a forma como eu geria também essa parte da emoção. Sempre com os pés no chão.

Veio para Lisboa sozinho? Casou entretanto?
Eu e a Susana namorávamos há dois anos e sete meses. Não estamos a falar dos tempos de hoje e portanto tive de pedir a mão da Susana em casamento, ao meu sogro. Também porque já não era fácil a reputação que um jogador de futebol tinha na altura. Eu não queria namorar à distância, porque sempre concebi o conceito de família, portanto foi fácil decidir pelo casamento.

Casou antes de ir para Lisboa?
Não, decidimos fazer as coisas pausadamente. Casei pelo civil em 25 de outubro de 1998, já com três ou quatro meses de Sporting e a Susana só vai ter comigo a Lisboa em janeiro de 1999, porque ela era profissional e não quis sair da empresa sem dar formação a outra pessoa. As coisas foram feitas de forma ponderada.

Delfim com os filhos Tiago e Salvador, durante as marchas populares em Celorico de Basto

Delfim com os filhos Tiago e Salvador, durante as marchas populares em Celorico de Basto

D.R.

Quando foi para a capital foi viver para onde?
Fui viver para a Abóboda, depois da portagem de Carcavelos.

Porquê?
(risos) Eu chego a um plantel riquíssimo como o plantel do Sporting, saio do Porto onde tinha casa paga pelo Boavista, chego a Lisboa e sou eu que tenho de investir na minha estadia. Deparei-me com rendas de 400/500 contos (2500€), o que para mim era impraticável, e isso fez com que fosse à procura casa na Grande Lisboa. Encontrei um T1 para alugar, na Abóboda, por 80 contos (400€).

Já tinha carro?
Já tinha o meu Fiat Punto turbodiesel, que comprei quando fui para o Desportivo da Aves, porque precisava de fazer aqueles quilómetros do Porto a Vila das Aves.

Nos seis meses que esteve em Lisboa sozinho, aproveitou para sair à noite e divertir-se com os colegas?
Não, as saídas que tinha era sempre na véspera da folga. Os regulamentos do clube eram bem claros e eu nunca fui boémio. Tudo o que fazia era dentro das regras.

Delfim, à direita, durante um passeio de enduro com amigos

Delfim, à direita, durante um passeio de enduro com amigos

D.R.

Quando chega ao Sporting quais foram os jogadores com quem travou amizade?
Ainda hoje tenho uma grande consideração e amizade pelo Rui Jorge, atual treinador da seleção de esperanças, pelo Pedro Barbosa, que é o meu capitão, foi o melhor capitão que tive durante a carreira. Mas eu relacionava-me com todos embora fora do estádio nunca privei muito com os colegas de profissão.

Tinha outros amigos em Lisboa com quem saía ou ficava por casa?
Eu era muito de descansar, de ir ao cinema. Tenho família em Lisboa, dois tios do lado do meu pai, com quem também tinha contacto, por isso foi fácil a adaptação a Lisboa.

Para a sua mulher também foi fácil adaptar-se? Ela voltou a trabalhar?
Tomámos a decisão de fazer uma primeira adaptação para percebermos também como nos dávamos como casal, porque uma coisa é namorar e outra é partilhar um teto. Rapidamente percebemos que nos entendíamos bem, que tínhamos condições para abraçar o grande desafio do casamento e pouco tempo depois partimos para a ampliação da família. A partir do momento em que engravida, decidimos esperar e tudo se precipitou de uma forma positiva. Ou seja, impus-me no Sporting, renovei contrato e decidimos que ela estaria mais tempo com a família.

Quando é que são pais pela primeira vez?
Somos pais do Tiago Delfim Carvalho Teixeira, a seis do seis de 2000.

Delfim com um cabrito recem nascido na sua propriedade em Marco de Canaveses

Delfim com um cabrito recem nascido na sua propriedade em Marco de Canaveses

D.R.

Quando chega ao Sporting o treinador era o Mirko Jozic. Que outros treinadores teve?
Na época seguinte iniciamos com o italiano Materazzi que à sexta ou sétima jornada sai e entra Augusto Inácio que inicia a senda de vitórias que nos levaria a sermos campeões nacionais.

Em 2000 é campeão nacional e pai. Qual foi a sensação de conquistar o primeiro título?
É único, quanto mais num clube que há 18 anos procurava esse feito. Foi uma conjugação de factores, de sentimentos... Sou campeão em maio e o Tiago nasce em junho.

Assistiu ao nascimento?
O médico não me deixou. É uma pecha que fica porque assisti ao nascimento dos meus outros dois filhos, a Gabriela e o Salvador.

Qual foi a sensação de ser pai pela primeira vez?
É assustador porque eu tinha 23 anos, confesso que só ao terceiro filho é que a maturidade é outra, fui pai do Salvador já com 31 anos e aí sim tinha perfeita noção do que é ser pai. Com 23 anos não, embora eu sempre fosse responsável, coerente, mas ter de repente aquela coisinha pequenina em casa, segurá-lo nos braços era um mundo diferente e novo para o qual não estava preparado, mas a que me adaptei, logicamente.

Delfim a mulher e os filhos Gabriela e Santiago, em casa, na semana em que foi entrevistado pela Tribuna

Delfim a mulher e os filhos Gabriela e Santiago, em casa, na semana em que foi entrevistado pela Tribuna

RUI DUARTE SILVA

Depois de ser campeão, a época seguinte já não correu tão bem.
O Inácio inicia a época mas as coisas começam a correr mal, coletivamente e individualmente. E fui também fustigado por muitas lesões.

Que lesões?
No joelho. Fui operado três vezes ao joelho direito, ao serviço do Sporting. Depois tive uma rutura muscular muito forte que me obrigou a parar cerca de quatro meses e que antecedeu a ida para o Olympique de Marselha.

E como se dá a ida para Marselha?
O contacto inicial foi feito pelo Dr. José Bettencourt, creio. Na altura tinha mais quatro anos de contrato com o Sporting. Ele fez-me ver que o Sporting financeiramente não estava no seu melhor e não havia perspetiva de outras transferências de outro jogadores para haver encaixe financeiro para o clube e a proposta que havia era do Marselha para os meus serviços. Os clubes estavam de acordo, eu era livre de não aceitar, mas ele pediu-me o favor de pelo menos ouvi-los para ver se havia base de negociação.

O que o fez aceitar?
Confesso que foi aquele sentimento de gratidão. Porque se soubesse o que sei hoje não tinha assinado.

Porquê?
Porque cheguei a um clube que naquela altura não tinha minimamente um projeto desportivo. Era um clube à deriva.

O pai de Delfim com o neto Tiago, de 17 anos

O pai de Delfim com o neto Tiago, de 17 anos

D.R.

Vai para França com a familia?
Sim, claro. Primeiro fui sozinho porque havia a pré época para fazer. As primeiras cinco, seis semanas estive sozinho mas rapidamente me instalei. Um pouco à imagem do que se passou no Sporting, fiquei assustado (risos) com o ritmo a que determinados colegas estavam habituados, com casas alugadas por 5000, 6000 euros, e eu aluguei um T2 por 1200 euros.

A língua não foi problema?
Na altura não gostava do francês e por força das circunstâncias ao fim de três meses já compreendia e fazia-me compreender, sem ajuda de aulas, só com o dia a dia, de ouvido.

Como correu a primeira época, quem era o treinador?
O primeiro treinador foi o falecido Tomislav Ivic, que foi treinador do FC Porto e do Benfica. Era um gentleman, um senhor do futebol e um senhor fora do futebol. Tinha sido já treinador do Inácio no FC Porto e daí também a partilha de conhecimentos e de informação que fez com que ele quisesse os meus serviços.

E os colegas de equipa, com quem se dava mais?
Estando fora a tendência é darmo-nos mais com os brasileiros porque é mais fácil. Recordo-me do Fernandão que era um atacante e que infelizmente já não está entre nós porque com 36 anos faleceu num acidente de helicóptero, no Brasil. Era o jogador com quem eu tinha mais contato. Depois tive o privilégio de me cruzar com jogadores com uma carreira riquíssima com o Frank Leboeuf, Lizarazu, Fabien Barthez, Franck Ribéry, Didier Drogba, entre outros.

Delfim andou de lambreta quando visitou Phuket, na Tailândia

Delfim andou de lambreta quando visitou Phuket, na Tailândia

D.R.

Entretanto há a famigerada lesão que o afastou dos relvados quase três anos. Como é que acontece?
Acontece no início da segunda época no Marselha. Fiz uma pré época ao mais alto nível, partimos para o primeiro jogo do campeonato, jogo esse com o Nante que era em casa mas como o clube estava castigado tivemos que ir jogar a Lyon. Fizemos 380km de autocarro e recordo-me de ter adormecido talvez durante uma hora e meia nesse trajeto. Acordo com uma contratura lombar clássica, mas que me impossibilitava de treinar e jogar a 100%. No treino, na véspera do jogo, senti muitas limitações, falei com a equipa médica e técnica e disse-lhes que não estava em condições, mas o treinador Alain Perrin quis que eu participasse e que fosse para o banco de suplentes. Entrei a 14 minutos do fim. Foram os primeiros e únicos 14 minutos que fiz em três épocas.

O que se passou a seguir?
Dois dias depois no primeiro treino pós-descanso fui manipulado de uma forma muito agressiva por parte do fisioterapeuta/osteopata do clube e que me provocou uma entorse da coluna vertebral. Depois disso foi um calvário com quatro operações e três anos sem jogar ao mais alto nível.

Quando ele o manipulou sentiu logo que havia alguma coisa errada?
Senti. Senti uma torção violentíssima na coluna que me provocou dores violentas durante praticamente dois anos.

Delfim com a mulher durante umas férias em Chiang Mai, na Tailândia

Delfim com a mulher durante umas férias em Chiang Mai, na Tailândia

D.R.

Quanto tempo passa desde essa manipulação até à primeira operação?
O problema é que fui manipulado a sete de agosto de 2002 e depois fui três vezes operado, em três meses, a supostas hérnias inguinais. Portanto, erro de diagnóstico. Isso foi entre outubro de 2002 e 24 janeiro de 2003. Só fui operado à coluna vertebral a 29 julho de 2003, onze meses depois da manipulação, ou seja, só nessa altura fui operado à verdadeira causa da lesão.

Quem descobre a verdadeira causa?
Fui à revelia do clube a um neurocirurgião que, quis o destino, foi quem mais tarde me operou, em Marselha. Ele percebeu logo e disse-me: "Infelizmente caíste num ciclo vicioso".

Os médicos do Marselha não perceberam ou não quiseram perceber o que se passava?
O processo está em tribunal, em Marselha. Fui magoado naquela data, o processo prescrevia em 2012 e avancei com o processo oito ou nove dias antes de prescrever.

Porquê só nessa altura?
Enquanto jogasse futebol não queria de maneira alguma estar envolvido em processos. Porque eu voltei a jogar. Contra dados estatísticos e tudo o que se perspetivava para o meu estado clínico, voltei a jogar. E a minha preocupação era desfrutar do tempo que me restava.

Delfim e o amigo Sebastão no Moto GP de Jerez de La Frontera

Delfim e o amigo Sebastão no Moto GP de Jerez de La Frontera

D.R.

Quando volta a jogar?
Se não estou em erro em fevereiro, março de 2005, no Moreirense.

É emprestado ao Moreirense entretanto porquê?
Fui emprestado ao Moreirense durante quatro meses para perceber se tinha condições ou não de continuar a carreira ao mais alto nível, com quatro parafusos na coluna. Basicamente é isso. Fiz a fixação artificial de duas vértebras a L5 e S1. Os resultados, as respostas foram as melhores possíveis. No Moreirense joguei dois meses com Vitor Oliveira como treinador, e nos últimos dois meses com o Jorge Jesus. E percebi que tinha condições para continuar e regresso ao Marselha para cumprir a última época que tinha de contrato com o clube.

Mas aí as relações com o clube já não eram as melhores...
Não, não. Até porque apresento-me no início da época contra as previsões de tudo e todos, porque pensavam que eu estava incapacitado. E tive o privilégio de encontrar um treinador muito humano, (Jean Fernandez), que desde cedo deu-me espaço para ombrear com colegas que faziam parte do plantel.

Ainda fez 21 jogos.
24 no total com a Taça UEFA. se contabilizarmos de sete de agosto de 2002 a agosto de 2005, foram três anos sem vestir a camisola do Olympique de Marselha.

Susana, mulher de Delfim, e os filhos mais velhos Tiago e Gabriela

Susana, mulher de Delfim, e os filhos mais velhos Tiago e Gabriela

D.R.

Durante esses três anos passou-lhe pela cabeça abandonar o futebol?
Não. Confesso que a revolta era tanta que nunca me foquei no "porque é que isto me está a acontecer", mas sempre foquei em saber como recuperar e como voltar a competir. O sucesso do regresso esteve muito nessa vertente, nunca perdi tempo a questionar porquê a mim. Concentrei-me em recuperar.

A sua mulher nunca lhe falou nisso também, em desistir?
Não, foi um pilar muito importante na nossa família. Na altura tínhamos dois filhos, filhos esses que durante dois anos não consegui pegar ao colo. Foi um processo muito complicado, muito doloroso a vários níveis. E tive ali uma ajuda e uma companheira à altura.

Quando é que nasce a sua filha Gabriela?
Nasce a 15 de maio de 2002 e praticamente três meses depois fico incapacitado e privado dois anos de pegar neles ao colo e de brincar com eles.

Nesses três anos o seu dia a dia como era?
Foi uma luta pela recuperação. O pós-operatório de uma lesão como a minha, foi ainda mais violento em termos de dor, do que antes da operação. Tive o acompanhamento de uma pessoa extraordinária, muito competente e humana, o António Gaspar, fisioteraputa hoje da seleção nacional. Foi com ele que tive o privilégio de fazer a recuperação. Foram onze meses a trabalhar bi-diariamente. Vim viver para Lisboa obviamente. Ele próprio disse uma vez na televisão que o caso mais difícil que teve, com sucesso, foi o meu.

Delfim e a mulher durante um passeio de moto

Delfim e a mulher durante um passeio de moto

D.R.

Estávamos a falar da sua última época no Marselha. Como correu essa época, foi muito difícil em termos psicológicos?
Consegui alhear-me, que não é fácil, de tudo o que vivi ao serviço do clube nos anos anteriores e estou com um plantel em que alguns jogadores eram os mesmos e eles perceberam a força que tive para voltar, tudo o que vivi. Depois tive a sorte de ter uma equipa técnica diferente das outras, que me deu espaço, e que me deu prazer de voltar a vestir a camisola do Olympique de Marselha. E nada melhor do que no primeiro jogo que faço a titular foi na final da Taça Intertoto contra o Desportivo da Corunha, disputado em duas mãos e vencemos a taça. Para mim foi extraordinário, joguei a titular os dois jogos.

Quando regressa, sente que regressa o mesmo jogador ou sente que está mais limitado?
É difícil de responder, porque a vontade de jogar era tanta, tanta que eu não tinha sensações de incapacidade. Até porque tive de superar testes na medicina do trabalho, porque o Olympique tudo fez para que eu não voltasse a jogar mais. A minha revolta e luta foi tal que potencializei de tal forma a minha condição física que nos testes a que fui sujeito na medicina do trabalho nenhum médico foi capaz de me dar como inválido.

Porque é que o Marselha não queria que regressasse?
Isso é do foro do processo… Veja, eu era um ativo, fui magoado por um empregado, assalariado do clube, o fisioterapeuta, quebrou a minha margem de progressão, deixou-me afastado três anos, quando aos olhos de toda a gente eu nunca mais voltava a jogar... portanto era do interesse do clube logicamente que eu fosse dado como inválido para depois ativar certamente o seguro que tinham.

Delfim, em sua casa, na semana em que foi entrevistado pela Tribuna

Delfim, em sua casa, na semana em que foi entrevistado pela Tribuna

RUI DUARTE SILVA

Faz essa época no Marselha e depois ruma à Suíça. Como surge o Young Boys?
Sinto-me lisonjeado por ter sido convidado pelos Young Boys, mas gostava de evidenciar que fui eu que optei por sair de França porque tive o convite de seis equipas francesas da primeira liga, entre elas o Nantes. Eu, com 29 anos, quatro parafusos na coluna. Veja-se a forma como trabalhei. Tinha o Olympique de Marselha também interessado em renovar comigo na altura. Fui frontal com eles. Se assumissem o que tinham feito e o que financeiramente me tinham lesado eu renovava na hora. Mas como a direção era outra e não se revia naquilo que me fizeram, não quiseram assumir e optei por não renovar.

Assinou por quatro épocas mas ficou apenas quatro meses na Suíça. Porquê?
Já lá vamos. Eu optei pelo Young Boys porque sabia que mais tarde ou mais cedo eu iria avançar com o processo e eu não queria estar em França nessa altura. E a informação que tinha da Suíça é que era um país de eleição e extraordinário ainda para mais para uma família com crianças. E eu queria mudar. E uma equipa que propõe um contrato de quatro anos mesmo depois de todo o meu historial clínico, foi algo que me sensibilizou. Infelizmente, nunca pensei eu que fosse ter os problemas que tive de foro contratual na Suíça.

Que problemas?
Não me pagavam e queriam pagar-me fora da Suíça. Um contrato que estava homologado na federação suíça de futebol, preto no branco, eles queriam pagar parte do salário fora do país.

Em offshores?
Sim, do género, para não pagarem a carga fiscal. Isto obrigou-me a rescindir unilateralmente porque nunca trabalhei com offshores, nunca quis ganhar mais do que o devido, sempre quis ser correto. Rescindi unilateralmente o contrato em outubro de 2006.

Delfim, a filha Gabriela e a recem nascida burra Risca, em Marco de Canaveses

Delfim, a filha Gabriela e a recem nascida burra Risca, em Marco de Canaveses

D.R.

Findos esses quatros meses vem para Portugal e vai parar à Naval. Como é que isso acontece?
A deceção foi tão grande, tão grande com a expetativa de ter quatro anos fantásticos na Suíça, o país que estava a investir no futebol porque ia realizar o Europeu de 2008 em parceria com a Áustria... O Young Boys tinha acabado de construir um estádio novo. A expetativa ficou defraudada ao fim de quatro meses com aquela gestão danosa que me obrigou a ir para o Tribunal do Desporto e saí vencedor ao fim de quatro anos e meio.

Pagaram-lhe tudo?
Fui ressarcido não na totalidade dos quatro anos de contrato, mas em cerca de metade do valor.

Voltando à Naval...
Quando rescindo para mim foi quase como voltar à estaca zero. Ou seja, ia levantar questões, ia pôr fantasmas na minha condição física, as pessoas não iam perceber se foi realmente do foro contratual ou se foi da condição física e aí sim eu ponderei acabar a carreira e deixar o futebol. Venho viver entretanto para o Porto e já próximo de fevereiro a Naval 1º Maio mostrou-se interessada, apelou ao coração e eu representei a Naval durante época e meia.

Já não foi pelo dinheiro...
Zero, zero. Foi mesmo para demonstrar a Portugal, porque isto tudo que vivi foi fora de portas, e muitas vezes manobrado pelo Olympique ao nível da imprensa, porque quem geriu todo este processo foi na altura o presidente para o futebol Christophe Buchet, um ex-jornalista que foi controlando sempre os media sobre mim e o meu dia a dia no Marselha.

Na Naval quem era o treinador?
Primeiro foi o professor Mariano Barreto, uma pessoa fantástica. Na época seguinte, foi o Ulisses Morais.

Delfim numa paragem de um passeio de moto

Delfim numa paragem de um passeio de moto

D.R.

E ainda joga pelo Trofense.
Termino na Naval, queriam renovar mas eu disse que não, que para mim chegava. Venho para o Porto, mentalizado para terminar a carreira e em agosto volta à carga o Trofense "Delfim, Delfim, Delfim". Pensei: “Estou a 28km de casa, porque não? Vou fazer mais uma época”. Ainda estava com o bichinho do treino e lá fiz mais uma época. Em maio decidi acabar definitivamente a carreira porque em março ou abril dessa época tive que operar o joelho direito pela quarta vez. Mais uma artroscopia. Decidi que estava na altura de preparar-me para ter qualidade de vida e não sujeitar-me à decadência.

Entretanto é pai novamente.
Sou pai em 2008 do fantástico e extraordinário Salvador. Ele faz oito anos de diferença para o mais velho e seis anos para a Gabriela, acho que entrou nas nossas vidas num momento importante e veio enriquecer sobremaneira já o nosso clã e apaixonámo-nos todos pelo Salvador. É uma criança adorável.

O que é que os seus filhos fazem além de estudar?
O Tiago tem a tarefa sempre difícil de ser o mais velho, está a acabar o 12º ano na área de economia. É um indivíduo extraordinário, equilíbradissimo, um adolescente/adulto. Joga futebol, é defesa esquerdo nos juniores do Boavista. Está consciente de que o futebol não é fácil e apesar de mostrar interesse em seguir carreira profissional não põe isso como uma meta doentia, não vive obcecado com isso, porque sabe que os estudos lhe darão estabilidade. Gostava de seguir eventualmente uma carreira militar e portanto ingressar na Academia Militar é uma opção que está em cima da mesa. A Gabriela está no 10º ano em economia. Atualmente pratica atletismo, mas já experimentou várias modalidades, desde voleibol, basquetebol, ténis... Nunca se identificou com nenhuma delas. E dos três é a que tem a personalidade mais forte, consegue pôr em sentido os irmãos, é voz de comando (risos). O Salvador que faz dez anos em maio, joga futebol também, tem o vício da bola e de rua. Está na escola internacional francesa.

Delfim e o filho mais novo Santiago, de nove anos

Delfim e o filho mais novo Santiago, de nove anos

D.R.

Sei que tem paixão pelas motos.
Tenho, felizmente por um lado e infelizmente por outro, porque já me provocou fraturas nas mãos e consequente operação também. Isto vem desde miúdo porque como lhe disse andava sempre agarrado à bola e à bicicleta. Sempre fui atrevido na bicicleta, com uma destreza enorme que por vezes roçava o perigo. E os meus pais, quando por volta dos meus 14,15 anos toquei no tema moto, nunca me deixaram ter uma, e ainda bem.

Então quando compra a primeira moto?
A minha primeira mota foi uma moto quatro, que comprei em 2010, já depois do fim da carreira. E depois decidi enveredar pela moto de duas rodas. Tirei a carta de condução e comecei com moto de enduro, para andar no monte. Passado dois anos decidi comprar moto de estrada e hoje sou fã de grandes passeios de moto.

Que moto tem atualmente?
Tenho uma KTM 1290 Super Adventure.

Gosta de acelerar?
Não muito. Gosto do conforto dela, é uma trail, a posição é confortável.

Já entrou em competições?
De moto quatro e moto de duas rodas fiz duas vezes a Baja Portalegre. E adorei. Em moto quatro fiquei em 34ª lugar da geral, no ano seguinte em duas rodas fiquei em 59º.

Participa em concentrações?
Esporadicamente. Mas há cinco anos seguidos que vou a Jerez de La Frontera, à concentração no Moto GP. A cidade de Jerez transforma-se.

Vai sozinho ou a sua mulher partilha dessa paixão?
O primeiro ano fui sozinho, no segundo fomos em casais, no terceiro fomos sozinhos, no quarto fomos em casais e no quinto fomos sozinhos, mas não foi programado. Ela gosta mas não foi fácil. Muito devagarinho consegui. Já pega nos headphones, ouve música e desfruta.

Os seus filhos também gostam?
O Tiago tirou a carta dos micro carros com 16 anos. Foi um desafio que lhe fiz, sou sincero, eu gostava que ele tivesse na altura a carta de moto, mas a força familiar direta e indireta era tanta para que não o fizesse, que sentir-me-ia mal se ele tirasse a carta de moto só por minha vontade. Portanto ele soube ouvir e aceitou essa decisão. Eu também fiz carreira abdicando de nunca ter moto, portanto se ele ambiciona também vir a alcançar isso, pelo menos até aos 18, 19, 20 anos acho que não deve ter.

Ofereceu-lhe um micro car?
Sim tem um já usado, com quatro, cinco anos e é a forma de ele andar aqui no Porto, de ir para a escola e tornar-se em parte independente.

Delfim com a mulher ao lado e filhos mais novos, Gabriela e Santiago, às costas

Delfim com a mulher ao lado e filhos mais novos, Gabriela e Santiago, às costas

RUI DUARTE SILVA

O que faz hoje me dia para se manter em forma? Li que gosta de futsal.
Corro e preocupo-me em ter uma vida saudável. Gosto de futsal mas é penoso para o meu joelho por isso só faço um joguinho de vez em quando.

Com que tipo de limitações ficou à conta das lesões no joelho e na coluna?
Quando vou ver jogos posso dizer que é extremamente doloroso estar sentado na mesma posição muito tempo, sobretudo com frio. Fico com dores fortíssimas no joelho e temo pela velhice como é lógico.

Chateia-o mais o joelho do que as costas?
Sim, para já sim e ainda bem, porque nem ao nosso inimigo desejo as dores nas costas.

Alguma vez essas dores nas costas foram limitadoras ao ponto de não conseguir andar?
Muitas vezes. Num processo doloroso muitas vezes tive crises que me obrigavam a parar. Não podia andar, não me podia mexer durante 40 minutos, uma hora. Ficava com crises muito fortes.

Delfim durante um passeio de moto, na Pampilhosa da Serra

Delfim durante um passeio de moto, na Pampilhosa da Serra

D.R.

Como é hoje o seu dia a dia?
Acordo todos os dias às 7h10 da manhã. Sábado e domingo não toca o despertador de cabeceira, mas toca o despertador biológico e levanto-me praticamente à mesma hora. Durante a semana sou eu que dou o alerta para o despertar de todos e depois levo as crianças à escola e faço a minha vida normal.

Tem algum escritório para fazer a gestão do seu património?
Não, é tudo em casa, depois desloco-me aos terrenos e às casas.

A sua mulher voltou a trabalhar? Tem alguma atividade?
Temos empregada duas vezes, de manhã, somos nós que cuidamos da casa e temos quase uma lavandaria profissional (risos), porque cinco pessoas em casa não é fácil, as crianças com atividades desportivas sujam muita roupa e o dia a dia é uma logística pesada, que exige muito de nós e fazêmo-lo em família.

Sei que em dezembro de 2014 houve um fogo numa quinta sua...
Temos uma propriedade no Marco de Canaveses onde ao longo dos anos fomos guardando as coisas das família e das viagens que fomos fazendo, e que num futuro próximo queremos converter em turismo rural. Tínhamos lá um espaço, uma casa que tinha muitas coisas relacionadas com a nossa família e um incêndio no dia 28 de dezembro de 2014 tudo nos roubou.

Como é que aconteceu?
Acendi a salamandra, enchi-a de lenha porque íamos jantar ao Porto nesse dia, mas depois regressávamos ao Marco, em família. Estava eu no Porto quando recebo um telefonema de um vizinho a dizer que tinha a casa a arder e tudo se perdeu. Felizmente não estava ninguém.

O que perdeu de maior valor para si?
Álbuns de fotografias, o álbum do casamento, o vestido de casamento da Susana, coisas das crianças, documentos, registos.

o clã de Delfim

o clã de Delfim

D.R.

Além das motos, tem algum outro hóbi?
Não. Em miúdo lembro-me de colecionar latas de Coca-Cola e de sumos porque com os meus sete, oito anos era um privilégio abrir uma lata dessas, eram escassas. Recordo-me de pelo menos uma ou duas vezes por ano, ir com os meus pais a Vigo e a minha distração na rua era procurar latas diferentes. Devo ter umas 200, 300 nem sei bem. Por acaso é algo que um dia destes quero fazer, ir com os meus filhos pesquisar essas latas que já devem estar todas enferrujadas em casa dos meus pais (risos).

Em toda a carreira qual foi o treinador que mais o marcou e porquê?
Seria injusto evocar um, esquecendo-me de outros, porque muitos ajudaram e participaram no meu crescimento enquanto atleta. Muitos me prejudicaram também. Em França fui penalizado. Mas desde o Manuel José, através do meu primeiro contrato profissional, professor Luís Campos, no Aves, Jesualdo Ferreira, outros tantos que foram importantes, que acho que seria injusto estar aqui a mencionar um só, seria mau não dar o tempo devido a cada um.

E jogadores com quem tenha criado laços mais fortes?
É engraçado que eu nunca privei muito em casa com jogadores. Considero todos, posso fazer um telefonema e falar com um colega com quem já não falo há quatro, cinco anos e certamente seria como se na semana passada tivesse estado com ele. Contudo também por ai, não tenho uma referência, um colega que possa dizer, olhe este frequentei e frequenta a minha casa. O futebol para mim foi sempre profissão e acho que isso diz tudo.

Tem ainda a decorrer um processo contra o Sporting ou contra a seguradora do Sporting?
Isso é algo que tem a ver com as lesões que tive ao serviço do Sporting e que envolve a seguradora e não diretamente o Sporting. O objetivo é reconhecer que as sequelas e mazelas que ficaram, fruto da atividade e fruto das operações a que fui sujeito me impossibilitaram de ficar a 100%.

Antes de ter deixado de jogar futebol, nunca lhe passou pela cabeça ser treinador? Como é que imaginava o seu futuro depois de “arrumar as botas”?
Nunca ambicionei ser treinador, porque enquanto jogador se já não é fácil a vida familiar, porque nos ausentamos muitos, como treinador é a mesma coisa. Não me vejo num projecto que não seja em família. O treinador se ao fim de dois, três meses as coisas não correm bem, é despedido.

Mas imaginava fazer outra coisa ligada ao futebol, ser diretor desportivo por exemplo?
No âmbito em que estava inserido na campanha do Sporting, abraçaria esse projecto a 100% e a minha família iria também comigo para Lisboa.

Fez alguma formação nessa área?
Não. Mas tenho uma experiência de vida que muito poucos atletas têm. Fui sujeito a níveis de exigência muito fortes quer físicos quer, principalmente emocionais, psicológicos. Muitas vezes os atletas não estão preparados para ser confrontados com lesões, com momentos de pausa e com o pós carreira. Isso é de facto uma lacuna e com a minha experiência poderia passar alguma informação e conhecimento aos jovens atletas para se focarem muito no pós carreira e não pensarem só no dia a dia, naquilo que estão a viver enquanto jogadores, enquanto profissionais, porque de um momento para o outro, saímos dos carris.

Delfim quando entrou para os infantis do Amarante FC

Delfim quando entrou para os infantis do Amarante FC

D.R.

Ficou só a faltar a seleção A, pela qual fez apenas um jogo. A culpa foi das lesões?
Sim, sem dúvida. Tive a oportunidade e o prazer de vestir a camisola das quinas por uma vez pela equipa principal, num jogo de preparação Portugal-Israel, que ganhámos 2 -1, e fiz os 90 minutos.

Quem era o selecionador?
António Oliveira. E sim, a partir daí pensei que conseguia atingir mais uma etapa na carreira, chegar à equipa principal da selecção, já tinha sido internacional nos sub-18 e por aí fora, até às esperanças, com boas campanhas, bons jogos nas camadas jovens e com legitimidade após a primeira convocatória, pensava que a carreira iria ser outra a nível internacional e com a equipa principal da seleção, mas as lesões quebraram esse trajeto.

É disso que tem mais pena? A nível do futebol é essa a sua maior frustração?
Não. Confesso que não sinto nada de frustração. Se hoje falasse em frustração, teria que ter estado frustrado noutros momentos críticos da minha vida, em que se calhar não estava com a condição física que tenho hoje, estaria possivelmente numa cadeira de rodas e a palavra, o conceito de frustração, no meu ideal de vida não existe. Procuro sempre ser positivo e valorizar as coisas. Cada um carrega a sua cruz. Acho que foi com um propósito, a passagem de testemunho, passar estas vivências, essa experiência aos meus filhos, aos meus próximos e partilhar com eles. Fui até onde me deixaram ir, até onde pude, até onde consegui e sinto-me realizado, sinto-me muito feliz.