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A casa às costas

Ricardo Sousa: “No Chipre a minha cama era a toalha da praia”

Como filho de peixe sabe nadar, Ricardo Sousa seguiu as pisadas do pai, António Sousa. Foi jogador de futebol, começou no clube do coração, a Sanjoanense, passou pelo clube por quem sofre, o FC Porto, e aventurou-se por Alemanha, Holanda, Chipre e Eslovénia antes de pendurar as botas depois de duas épocas na Gafanha. Hoje é treinador, como o pai, enquanto o filho, Afonso, revela-se capaz de manter a tradição nos juniores portistas

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Quando nasceu em que clube jogava o seu pai, António Sousa?
No Beira-Mar.

E a sua mãe o que fazia?
Era professora de Educação Física, numa escola em Aveiro.

É filho único?
Não, tenho uma irmã mais nova três anos.

Sente que nasceu com o bichinho da bola entranhado, à conta do seu pai?
É normal. Quando somos jovens os nossos ídolos acabam por ser os nossos pais. E eu tive a sorte de ter um pai jogador que era o que era na altura, por isso a minha vontade e desejo de me tornar jogador foi enorme desde muito cedo. O meu pai nunca me direcionou para o futebol, nunca me levou aos treinos, nunca me tentou incentivar, o bichinho foi crescendo em mim, por aquilo que eu via. A minha vontade vem desde muito cedo, desde as primeiras asneiras.

Primeiras asneiras?
Sim, os vidros partidos na escola, na 1ª e 2ª classe, por andar a jogar à bola. Eu ia para a escola sempre com a bola, dormia com a bola, fazia tudo com uma bola debaixo do braço.

Quando tem noção pela primeira vez de que o seu pai é jogador de futebol?
Em 1984. Quando o meu pai joga a final da Taça das Taças, FC Porto-Juventus, na Suíça, se não me engano. Tinha cinco anos, foi a minha primeira viagem de avião e senti realmente aquilo que o meu pai era com o golo que ele fez. É a primeira recordação que tenho dele como jogador.

Ricardo Sousa com três anos

Ricardo Sousa com três anos

D.R.

Com que idade é que começa a jogar na Sanjoanense?
Tinha uns seis anos. Tinha alguns colegas que já jogavam lá, pressionei os meus pais para ir também e eles acharam bem. Mas naquele tempo não havia o rigor de hoje, com seis anos jogávamos contra jogadores que tinham 11,12 anos. Hoje já não acontece. O meu crescimento foi superior ao crescimento dos jogadores de hoje por causa disso.

Acaba por ir para o FC Porto. Como é que se dá essa mudança?
Foi uma passagem natural. Fui para o FC Porto com 17 anos, no meu último ano de júnior. Mas desde o 2º ano de juvenil que já jogava nos seniores da Sanjoanense e desde os meus 15 anos comecei a ser presença assídua nas seleções nacionais.

Qual é a sensação de ser chamado pela primeira vez a uma seleção nacional?
É muito boa, eu sentia-me um pouco diferente de todos os outros, porque olhava para as convocatórias da seleção nacional e tinha jogadores do FC Porto, Benfica, Sporting, Boavista e um jogador da Sanjoanense. Foi assim sucessivamente durante três anos. Durante esse período andei a ser chateado por todos os clubes e mais alguns, FC Porto, Benfica e Sporting, e sempre rejeitei porque não queria sair da Sanjoanense. A minha saída só se dá depois do meu 1ª ano de juniores, quando faço 19 golos na II Divisão B. Aí assim optei por fazer o meu ultimo ano de júnior no FC Porto. Sendo que a meio dessa época recebi uma proposta do Espinho, que na altura estava na I divisão, mas rejeitei com o intuito de integrar o plantel dos juniores do FC Porto a partir da época a seguir.

Ricardo, à direita, com o pai António Sousa e a irmã

Ricardo, à direita, com o pai António Sousa e a irmã

D.R.

Quando era pequeno por que clube torcia?
Sempre pelo FC Porto. Porque as primeiras recordações que tenho do meu pai foram no FC Porto e a partir desse momento jamais deixei de ser portista. Ainda me lembro de levar uma coça da minha mãe, quando o meu pai em 1985 vai para o Sporting. O estádio de Alvalade era mesmo ao lado da casa onde vivíamos e lembro-me de uma vez ter ido para um Sporting-FC Porto com uma camisola do FC Porto por baixo do casaco [risos]. Parecia um bocado mal o pai jogar no Sporting e o filho chegar com uma camisola do FC Porto. Lembro-me que levei uns estalos da minha mãe nessa altura por causa disso. Tinha os meus sete anos.

Quando diz que apesar de ter ofertas dos grandes preferiu ficar na Sanjoanense, antes de ir para o FC Porto, isso aconteceu por vontade sua ou dos seus pais?
A vontade do meu pai era que progredisse e andasse para a frente, e sentia que eu progredia mais num clube de topo. Mas a minha vontade foi sempre ficar na Sanjoanense.

Porquê?
Estava muito ligado aos meus amigos. Na altura jogava à bola pelo prazer e não por obrigação, e sentia que, indo para outro clube, ia jogar por obrigação e não queria perder o prazer de jogar.

Quando assina o primeiro contrato?
Na Sanjoanense, no primeiro ano de júnior, tinha 16 anos. Recebia 50 contos (€250).

Lembra-se do que fez com esse primeiro dinheiro?
Lembro-me que na altura andava a juntar dinheiro para tirar a carta e comprar um carrito.

Ricardo Sousa na escola primária

Ricardo Sousa na escola primária

D.R.

Como foi mudar-se para o Porto?
Eu não me mudei. Na altura fazia as viagens todos os dias, porque havia um colega que tinha carta e, até ao momento em que também tirei a minha, fazíamos as viagens juntos. Era perto, cerca de 40 minutos.

Ainda estudava?
No ano em que fui para o FC Porto deixei de estudar. Estava no 11º ano e era impossível conciliar os estudos com o futebol, porque no FC Porto treinávamos muitas vezes de manhã e de tarde. Mediante o que me estavam a apresentar tinha que fazer uma opção e a opção foi futebol.

Como atleta do FC Porto é emprestado ao Beira-Mar, na epoca 1998/99.
Sim, fui júnior do FC Porto um ano, depois subi aos seniores. Acho que já não subia um jogador diretamente dos juniores para os seniores há 10, 12 anos - o último tinha sido o Domingos [Paciência]. Acabei por ficar meio ano nos seniores e só fiz dois ou três jogos, era extremamente complicado jogar.

Porquê?
Porque o FC Porto tinha Zahovic, Drulovic, Capucho, Doriva e as oportunidades eram escassas. Como naquela altura eu queria jogar, optei por um empréstimo ao Beira-Mar. Apareceram outros clubes interessados, o V. Guimarães, o SC Braga, o Belenenses, mas como o meu pai era treinador do Beira-Mar optei por ir para lá, porque sentia que o acompanhamento seria mais específico.

Nunca sentiu o peso de ser filho de quem é?
Nunca me pesou. Todos os anos em que joguei com o meu pai fiz sempre mais de 15 golos/ano. Se calhar se a produção não fosse boa eu poderia ficar com algum receio daquilo que as pessoas pudessem pensar, mas quando na I Divisão uma pessoa faz sempre acima de 15 golos/ano pouco existe a dizer. Sabia que tinha de treinar mais e melhor do que os outros para ninguém nos apontar nada.

Foi uma imposição do seu pai, que tinha de fazer mais e melhor do que os outros?
Não, pessoalmente nunca me disse o que quer que fosse, nem me direcionou para o que quer que fosse. Ele sabe os meus princípios e valores e eu sabia o que era necessário fazer para ninguém nos apontar o dedo. Nem sequer precisou de dizer nada.

Em casa costumavam falar do que acontecia no treino, nos jogos, falavam da equipa?
Nada, zero. Uma das coisas que nos habituámos a fazer foi, a partir do momento em que entrámos em casa, o futebol fica à porta, e dificilmente falamos de futebol. Só porventura quando estamos a ver um jogo na televisão, discutimos um bocado de futebol, mas à exceção disso, nada.

Fica com o seu pai no Beira-Mar durante quanto tempo?
Meio ano e voltei ao FC Porto no ano a seguir.

Como correm as coisas dessa vez?
Começam por correr muito bem. Na pré-época faço nove golos em cinco jogos. Inicio a época a titular e acabei por perder o meu espaço também fruto do jogador que jogava na minha posição, o Deco. E pedi novamente para sair para jogar mais regularmente.

Ricardo, à direita, com a mãe e a irmã

Ricardo, à direita, com a mãe e a irmã

D.R.

É quando vai para o Santa Clara, nos Açores.
Exatamente, é o ano em que o Clayton vem para o FC Porto. O Santa Clara estava em 5º, 6º lugar. Tinha mais clubes interessados, mas como o FC Porto queria fazer o negócio do Clayton tentou direcionar-me para o Santa Clara.

Nessa altura já tinha empresário?
Tinha, era o Jorge Mendes. Tornou-se meu empresário tinha eu 16 anos, ainda estava no Sanjoanense.

Surgiu através do seu pai?
Sim, ele mantinha uma boa relação com o meu pai já há vários anos. Na altura não era o Jorge Mendes de hoje, era o Jorge que estava a iniciar, que estava a dar os primeiros passos, que estava sempre presente e andava a apanhar alguns miúdos das seleções. Eu fui um deles.

Vai para os Açores sozinho?
Sim.

Como foi essa experiência de sair de casa dos pais?
Foi duro, por dois factores. Por sair de onde me sentia bem e porque mal cheguei aos Açores, passadas duas semanas, tive uma lesão grave num pé, e basicamente acabei por perder o resto da época e tive de voltar ao continente para fazer a recuperação com o departamento médico do FC Porto. Por isso estive nos Açores pouco tempo.

Como acontece a lesão?
Num treino, é uma entorse de grau um. Não foi fissura por muito pouco.

E depois do Santa Clara?
Vou fazer uma época no Beira-Mar com o meu pai ainda como treinador.

Volta a casa dos pais então.
Não, aí já fico a viver em Aveiro. Já tinha namorada e fiquei a viver junto com ela. Tinha 21 anos.

Ricardo Sousa na altura em que começa a jogar na Sanjoanense

Ricardo Sousa na altura em que começa a jogar na Sanjoanense

D.R.

Depois regressa à equipa principal do FC Porto?
Sim. Tinha feito 17 golos nesse ano no Beira-Mar.

Passou a ser mais utilizado?
Sim, mas mesmo assim o tempo de utilização era muito curto e a meio da época pedi novamente para sair e fui para o Belenenses.

Outra mudança, agora para Lisboa. Vem sozinho ou com a namorada?
Com ela.

Como se conheceram?
Na altura em que eu jogava no Beira-Mar. Foi uma pessoa que nos apresentou.

Antes de falarmos da experiência em Lisboa… Quando chegou ao FC Porto foi praxado?
Não fui praxado porque tinha feito um ano de juniores no FC Porto e quando andamos por ali começamos a ver algumas coisas. Percebi quais eram as praxes e acabei por fugir delas.

Que praxes eram essas?
Faziam sempre uma. Há uma sala no estádio que tem umas escadas para o departamento médico e quando chegávamos lá, os jogadores estavam todos sentados, mas há um banco que fica livre, mesmo debaixo da escada. Os novos viam que aquele era o único lugar livre e sentavam-se lá. De repente levavam com um balde de água, gelo ou lixo pela cabeça abaixo. Normalmente era o Paulinho Santos que fazia. Eram poucos os jogadores que conseguiram fugir a essa praxe.

Apesar de não ter sido como sonhava, as recordações do FC Porto são boas?
Muito boas. As pessoas tinham uma consideração e um respeito por mim muito grandes, devido a ser filho de quem sou. Lembro-me que no primeiro ano a sério no FC Porto, não o primeiro de júnior mas o a seguir, estávamos a escolher a numeração para a nova época e eu fiquei para último pelo respeito que tenho pelos outros e qual não foi o meu espanto quando me apercebo que tinham a camisola 10 reservada para mim. Na altura era o Folha o camisola 10 e ele disse que trocaria para o número 22 e me deixava a 10 porque queria que eu envergasse a camisola que o meu pai também já tinha vestido um dia.

Ricardo Sousa no dia em que fez 10 anos

Ricardo Sousa no dia em que fez 10 anos

D.R.

Voltando ao Belenenses, quando chega quem era o treinador?
O Marinho Peres.

Gostou dele?
Uma pessoa fora de série, motivadora, entendedor de futebol, mas era uma paz de alma, não era capaz de dar um grito, um berro a alguém. Era mole demais. Se ganhássemos no domingo e se pedíssemos a terça-feira de folga ele dizia: “Então em vez de ser treino quarta, é na quinta”. Era demais. Muitas vezes tínhamos de ser nós a dizer que não eram precisos tantos dias, porque por ele, depois de uma vitória, dava tudo e mais alguma coisa aos jogadores. Foi um treinador com quem gostei de lidar tanto pessoal como profissionalmente. É um senhor, uma pessoa íntegra no futebol.

Como foi a adaptação à capital? Foi viver para onde?
O Belenenses alugou-me um apartamento num aparthotel no Estoril. Fiquei a viver cinco ou seis meses lá. Ao início foi difícil por causa do trânsito. Nos primeiros dias fiz a viagem de carro e primeiro que conseguisse chegar a Belém eram duas horas. Então tirei o passe de comboio e todos os dias ia de comboio até Belé, e depois o Duque ou o Marco Paulo apanhavam-me e ia de carro.

Depois desses cinco meses no Belenenses, regressa ao FC Porto...
Mas não inicio a época no FC Porto. Faço a época no Beira-Mar, ainda com o meu pai como treinador.

É nessa época que faz o golo que dá a Taça de Portugal ao Beira-Mar?
Nao, esse golo foi na minha primeira época de sénior, em 1998/99.

Como foi esse momento?
Foi um momento marcante. Primeiro porque ganhar um título numa equipa grande é fácil, numa equipa como Beira-Mar vive-se uma vez. Sabemos que o nosso nome vai perdurar para sempre na história do clube e ainda para mais sendo um clube que me é muito especial, eu nasci em Aveiro, sempre acompanhei o Beira-Mar, sempre gostei do clube e ganhar por um clube de que se gosta muito é diferente de ganhar por um clube que não nos diz nada. A satisfação foi imensa.

Ricardo Sousa foi para o FCP ainda como júnior

Ricardo Sousa foi para o FCP ainda como júnior

D.R.

Voltando ao Beira-Mar de 2002/2003, como correu essa época?
Faço uma época muito boa, faço outra vez 17 ou 18 golos, fui considerado o melhor jogador do campeonato e é quando faço a minha transferência para o Boavista.

Ainda era jogador do FC Porto?
Sim, tive de rescindir, os clubes chegaram a acordo. O treinador do Boavista era o Erwin Sánchez, que tinha deixado de jogar à bola nesse ano e passou para treinador.

É estranho ser-se treinado por um ex-colega tão recente?
Eu joguei contra ele, tinha uma relação boa com ele. Não era estranho porque acho que os treinadores têm que ser pessoas ligadas ao futebol porque entendem melhor aquilo que se pretende e aquilo que é o futebol. O Sánchez era um homem da bola. Acabou por ter azar no trabalho que desempenhou nesse ano, porque começámos muito bem a época e depois a equipa foi abaixo, mas fiz uma época muito boa.

Apanhou também o Jaime Pacheco como treinador?
Sim. Era um treinador diferente, que exige muito fisicamente, passámos alguns dias sem sequer tocar na bola, eram treinos que não eram fáceis.

Segue-se a aventura por terras da Alemanha, no Hannover.
Na altura tinha muitas propostas, mas o Boavista não queria libertar-me por menos do que o valor que exigiam e o Hannover comprou-me por quatro milhões de euros.

Qual foi a sua reação?
Sinceramente, a minha vontade era sair, experienciar uma aventura nova. Foi com agrado que recebi a proposta do Hannover. Primeiro porque na altura o campeonato alemão era o campeonato com maior assistência em todo o mundo, sabia aquilo que ia enfrentar. Retirei informações do Hannover, era um clube super equilibrado, com umas condições medonhas, porque tinha um complexo desportivo recente. Não olhei para trás.

Vai sozinho ou com a namorada?
Com a namorada, mas não era a mesma. Era outra, a Helga. Com a primeira, a Ana, casei-me, mas depois divorciei-me. Com a segunda é que não me casei. A Ana foi comigo para Lisboa e tive um filho com ela. Caso com ela em 2001, estava no Beira-Mar. Durou pouco, separei-me em 2002. O Afonso nasceu em 2000, quando casei ele já era nascido.

Qual foi a sensação de ser pai?
É muito boa. Assisti a tudo. Ele nasceu quando eu estava a jogar nos Açores. Ela foi lá de ferias e ele acabou por nascer lá.

Ricardo Sousa jogou como médio no FCP, como o seu pai António Sousa, e com o mesmo número, o 10

Ricardo Sousa jogou como médio no FCP, como o seu pai António Sousa, e com o mesmo número, o 10

Tony Marshall - EMPICS

Como foi a adaptação à Alemanha?
A Alemanha é um país difícil, é difícil sermos aceites, essencialmente quando não percebemos ou não falamos a mesma língua que eles. A adaptação ao frio também não foi nada fácil. Foram seis meses difíceis e a partir daí gostei muito de lá estar.

Comunicava em inglês?
Sim, mas os alemães são complicados, porque eles sabem falar inglês bem, mas se nós só falarmos inglês a maior parte das vezes eles dizem que não sabem. O que acontecia era eu falar em inglês para eles e eles em alemão para mim. Se entendia muito bem, se não que entendesse. Por isso é que a adaptação foi difícil, porque só quando comecei a ter algumas aulas de alemão e a perceber é que consegui ter uma abertura e facilidade maior de lidar e de estar com eles.

É o único português quando chega?
Sim. Há dois brasileiros e tinha um colega de quarto que já falava português na íntegra, porque tinha jogado em Portugal alguns anos, o guarda-redes Enke. Passamos muito tempo juntos porque na Alemanha fazem-se muitos estágios, antes e depois dos jogos.

O Enke suicidou-se uns anos depois, em 2009. Como era ele na altura?
O Enke era uma pessoa pacata, era muito da família, vivia para o trabalho. Quando a filha nasceu ele foi assistir ao parto e no dia a seguir soubemos que o parto não tinha corrido em condições e a partir daí ele tornou-se uma pessoa mais triste e sempre preocupado com a menina. Ela sofreu três operações ao coração. Quando passado mais de um ano o problema de coração estava praticamente solucionado, detetaram-lhe um problema de surdez. Na altura em que a foram operar para recuperar a audição, disseram-lhe que era uma operação sem qualquer tipo de risco e a menina acabou por falecer na operação. Estive no baptizado da menina, ele não convivia com muita gente, não falava com toda a gente no grupo, era uma pessoa muito reservada, mas nós os dois criámos um laço de amizade grande, ele desabafava várias vezes comigo e o estado de espírito dele não era o melhor, mas nada fazia prever que acontecesse o que aconteceu, que ele fizesse aquilo. Foi dos melhores profissionais que já apanhei na minha carreira.

Ricardo Sousa também jogou pelo Boavista

Ricardo Sousa também jogou pelo Boavista

David Rogers

Esteve três anos na Alemanha, mas pelo meio foi jogar à Holanda.
Sim, foi na altura em que tive uma lesão mais grave, pubalgia, e estive três meses parado - e como o futebol alemão é muito mais rápido e exigente sentia que não estava preparado, então preferi ir ganhar ritmo para a Holanda e voltar mais forte.

Como foi na Holanda?
É um país similar à Alemanha. Na Holanda eles não recriminam tanto não falarmos holandês. A facilidade em falar inglês é enorme. A adaptação foi mais fácil por isso. Deram-me uma moradia para viver. A distância para a Alemanha era pequena e por isso andava sempre de um lado para o outro e não me larguei muito da Alemanha.

É importante ter a namorada ou mulher por perto?
Sim, ajuda muito ter alguém ao lado que nos apoie, que nos direcione. Ser jogador de futebol é uma vida de muito alto e baixo, termos alguém para nos amparar quando estamos mais em baixo, é importantíssimo.

Quanto tempo jogou na Holanda?
Dois ou três meses. E quando me sinto em condições regresso à Alemanha.

Ao Hannover, onde fica mais dois anos, certo?
Sim e sou emprestado ao Boavista no meu terceiro ano na Alemanha. Tenho que renovar contrato porque eles não queriam emprestar-me. Mas pedi para ser emprestado porque no ano anterior tinha jogado pouco e queria jogar. Renovei contrato com o Hannover e fui emprestado ao Boavista.

Ricardo, à direita, chegou ao Hannover, da Alemanha em 2004

Ricardo, à direita, chegou ao Hannover, da Alemanha em 2004

Friedemann Vogel

Como corre esse regresso ao Bessa?
O início da época começa bem, temos o prof. Jesualdo Ferreira, mas existe um percalço com ele, porque ele abandona o Boavista na pré-época para ir para o FC Porto. E veio o Jaime Pacheco. Não foi uma época brilhante como as outras que tinha feito no Boavista.

Veio viver para o Porto ou para Aveiro?
Para Aveiro. Sempre que joguei no continente vivi sempre em Aveiro, à exceção do período em Lisboa, quando estive no Belenenses.

Depois do Boavista regressa à Alemanha, mas não fica por lá.
No ano em que regresso à Alemanha tive um clube do Chipre que pagou o meu valor e fiz um contrato de três anos.

Bem diferente da Alemanha...
Sim, o Chipre é um paraíso. Um paraíso para viver, com calor, 11 meses de verão, 11 meses de praia, muita festa. É um país complicado para quem não tem juízo. Ganha-se bom dinheiro mas a vida também é excessivamente cara. Quem não tiver juízo vai e vem sem dinheiro. Mas gostei de lá viver, essencialmente pelo que conheci, foi o país com as praias mais bonitas que conheci. Espero um dia poder regressar.

A Helga também gostou?
Sim. No Chipre foi mais fácil porque as pessoas do clube tinham vários negócios e acabaram por arranjar-lhe um emprego, numa loja de roupa. Assim eu estava direcionado para o futebol e ela para o trabalho dela, o que é o normal.

Esteve só sete meses no Chipre. Porquê?
Porque recebi uma proposta para voltar à Alemanha e decidi voltar.

No Chipre perdeu a cabeça ou não?
[risos] É difícil não perder um bocadinho por toda a envolvência que aquele país tem. Mas é normal nos tempos livres e nos dias em que podemos divertirmo-nos e aproveitarmos o que a vida nos dá.

Ricardo Sousa no Hannover, onde acabou por sofrer uma lesão que o levo a ser emprestado ao De Graafschap da Holanda

Ricardo Sousa no Hannover, onde acabou por sofrer uma lesão que o levo a ser emprestado ao De Graafschap da Holanda

Friedemann Vogel

Qual foi a maior loucura que fez no Chipre?
No início de época quando comecei a perceber o que aquele país nos dava, devido a ser um país de festa, era difícil não sair à noite, independentemente de termos treino no dia a seguir de manhã. E depois os horários de treinos eram muito esquisitos, treinávamos às sete da manhã e às oito da noite, então passávamos o dia sem fazer nada. Algumas vezes fui para a noite, ia de seguida para o treino, depois para a praia e depois para o treino outra vez. E a minha cama era a toalha da praia [risos].

Alguma foi castigado ou era prática comum os jogadores fazerem esse estilo de vida?
Era prática comum. Ninguém criticava ou dizia alguma coisa, desde que as pessoas rendessem ao domingo, isso era o mais importante. As coisas correram-me bem. Mas atualmente é diferente, o Chipre é um país mais moderno em que o futebol evoluiu. Mas quando recebi nova proposta para voltar á Alemanha e devido ao facto de achar que aquilo era amador demais para aquilo que já tinha vivenciado, decidi abandonar o Chipre e voltar à Alemanha.

Essas noitadas era com colegas de equipa ou com a mulher?
Eu estive lá algum tempo sozinho, porque ainda não tínhamos casa e a maior parte das vezes em que eu sai ela ainda lá não estava. Ela só foi para o Chipre depois do clube me dar casa.

Ricardo Sousa com o filho mais velho, Afonso Sousa

Ricardo Sousa com o filho mais velho, Afonso Sousa

D.R.

Vai jogar no Kickers Offenbach. Já dominava o alemão nessa altura?
Falar era complicado, mas entender entendia tudo. Nem sequer precisou existir integração, porque foi natural.

E a nível de futebol?
Os primeiros tempos foram difíceis porque eu vinha de um futebol onde não era necessário correr tanto, era um futebol muito mais lento que o alemão e por isso senti algumas dificuldades. Mas foi um ou outro jogo e depois as coisas entraram nos eixos.

Quanto tempo fica na Alemanha?
Seis meses. Só assinei contrato até final do ano.

Entretanto regressa ao Beira-Mar. O seu pai continuava lá como treinador?
O meu pai tinha saído mas também regressa nesse ano.

Acaba por viver vários períodos do Beira-Mar sempre com o seu pai como treinador. Sentiu diferenças nele ao longo dos anos?
Não, foi sempre igual. A maneira de ser e de estar do meu pai é única, por isso não existia alterações de um ano para os outros. Tudo muito igual.

Fica quanto tempo no Beira-Mar?
Seis meses, porque tive uma chatice grave no Beira-Mar. Como eu disse, o Beira-Mar é o meu clube de coração, o clube que amo e quando assim é nós exigimos e queremos que o clube tenha só um caminho e que toda a gente tenha só uma direção. Havia coisas de que não gostava, que achava que não estavam certas e houve um dia em que me chateei com o vice-presidente Quintaneiro e acabei por sair.

Chateou-se como e porquê?
Senti que o vice-presidente estava a entrar em caminhos que não devia entrar. O futebol é muito direcionado, o treinador faz uma coisa, o massagista faz outra, o roupeiro faz outra, o presidente faz outra. E eu achava que esse vice-presidente queria estar em todo o lado e não estava em lado nenhum. E além disso ainda criticava a equipa fora do sítio onde devia criticá-la. Quando existe uma crítica de um vice-presidente, acho que tem de ser olho no olho e ele não era capaz de o fazer e falava nas costas. Um dia em que o apanhei lá tive uma chatice grande com ele.

Chegou a vias de facto?
Não chegou, porque os meus colegas não me deixaram, porque vontade da minha parte para isso não faltava.

O seu pai estava lá?
Não estava na discussão.

E quando soube, deu-lhe na cabeça?
Sim, é normal porque eu era jogador, mas eu sentia que estava a proteger o grupo de trabalho, era um dos capitães, beliscaram o grupo de trabalho na minha presença, eu não ia deixar que o fizessem nunca, fosse no Beira-Mar, fosse no FC Porto, no Boavista, fosse onde fosse. Saí em defesa do grupo de trabalho, fui o único jogador que o fez independentemente de achar que havia mais um jogador, o Fary, que tinha obrigatoriamente de o fazer, mas escondeu-se atrás da saia do presidente.

Ricardo Sousa, à esquerda, também jogou pelo Kickers Offenbach da Alemanha

Ricardo Sousa, à esquerda, também jogou pelo Kickers Offenbach da Alemanha

Eibner-Pressefoto

Foi despedido?
Na altura levei com um processo disciplinar, fiquei impedido de entrar nas instalações, tinha mais quatro anos de contrato, porque a minha intenção era acabar a carreira no Beira-Mar. As informações que me davam perante tudo o que tinha acontecido, através do meu advogado, é que aquilo não ia dar em nada e eles teriam que reintegrar-me no grupo de trabalho. Mas depois do que aconteceu e olhando para tudo o que estava a acontecer decidi que não queria continuar no clube e acabei por pedir para perdoar os quatro anos de salário e saí sem receber nada.

Como assim?
Eles queriam rescindir o contrato, mas para sair eu podia exigir os anos de contrato que tinha, os tais quatro anos, e acabei por lhes perdoar e saí sem nada, por ser o Beira-Mar. Porque eu ia ganhar a causa e eles não tinham como fugir, mas por ser o clube que me diz tanto, eu ia estar a prejudica-lo em detrimento de algumas pessoas que não estavam a fazer bem ao Beira-Mar, então preferi proteger o clube.

O seu pai continuava como treinador?
Sim.

Vai a seguir para o União de Leiria.
Vou e é quando subimos o U. Leiria à I divisão. E por incrível que pareça o último jogo foi em Aveiro contra o Beira-Mar. Joguei 70 minutos e festejámos a subida em Aveiro

E foi bem recebido em Aveiro depois do que tinha acontecido?
Sim, nada a apontar sobre as pessoas do Beira-Mar. Sou muito acarinhado na cidade e pelo clube. As pessoas do Beira-Mar têm um apreço muito grande por mim e eu tenho um amor muito grande por elas por tudo aquilo que me deram ao longo dos anos.

Mas não fica em Leiria.
Recebi uma proposta financeira fora do normal de um clube da Eslovénia. O vice-presidente da Eslovénia tomou conta de um clube, quis fazer algumas contratações e fez-me uma proposta muito boa.

Foi onde ganhou mais dinheiro?
Não, onde ganhei mais dinheiro foi na Alemanha.

Foi sozinho para a Eslovénia ou com a namorada?
Com a namorada, mas já não era a mesma. A Helga acabou quando viemos para Aveiro da segunda vez. A relação acabou, estive quase seis meses sem namorada e depois arranjei uma namorada nova, a Sílvia, que é a mãe da minha menina e com quem estou até agora.

A sua filha nasce quando?
A Leonor nasceu em 2010, quando estou na Oliveirense. Quando regressei da Eslovénia assinei pela Oliveirense.

Gostou da Eslovénia?
É um país diferente. Era uma cidade muito pequena onde nada se fazia, basicamente só havia o futebol. Frio, muito monótono, não havia um centro comercial, um sítio onde pudéssemos passear, refugiámo-nos em casa e pouco mais fazíamos. Fui lá única e exclusivamente pelo dinheiro e estive só seis meses porque o presidente acabou por sair, o clube ficou sem dinheiro e basicamente o grupo todo rescindiu unilateralmente e regressámos todos aos nossos países.

Ricardo Sousa marcou o golo que deu a Taça de Portugal ao Beira-Mar na época de 1998/99

Ricardo Sousa marcou o golo que deu a Taça de Portugal ao Beira-Mar na época de 1998/99

DR

Regressando à Oliveirense. Foi só uma época?
Sim, fui bem recebido, as pessoas já me conheciam porque sou de S. João da Madeira, de perto, foi uma época muito boa. A seis jornadas do fim estávamos em primeiro e infelizmente tive uma lesão, rutura do ligamento cruzado anterior, que me obrigou a ficar sete meses parado.

E não renovaram...
Eu estava parado. Também foi uma atitude que me marcou, ainda para mais vinda de quem veio que era uma pessoa amiga. Quando um jogador tem uma lesão destas no final de uma época, e um jogador que deu tudo por aquele clube, normalmente renovam o contrato até o jogador ficar bom e depois vê-se o que dá. Mas não. A Oliveirense decidiu não renovar e acima de tudo nem sequer deu uma palavra de apreço pelo que quer que seja e isso magoou-me. Deixou-me com uma mão à frente e outra atrás, sem ter qualquer direito a tratamento. Fiz o tratamento por minha conta e risco. Foi uma atitude que me magoou, são atitudes que já não se têm. Caiu mal, não só a mim mas a muita gente que ficou indignada, que eu sei. Mas tenho de respeitar, continuo a dar-me bem com as pessoas da Oliveirense.

Mas a carreira não acabou aí.
Não, embora depois da Oliveirense eu tenha ponderado acabar o futebol. Ponderei não jogar mais. Estou um ano sem jogar e depois recebi a proposta do S. João Ver, através do Cândido Costa, meu amigo de infância. Como estava há um ano sem fazer nada caí na tentação de jogar e de ajudar durante três ou quatro meses. E o bichinho de futebol reapareceu.

Sentiu que já não era o mesmo jogador?
Senti. Senti que já não conseguia ser o Ricardo que era antigamente. Primeiro porque tinha estado um ano parado, tinha vindo de uma lesão muito grave, a mais grave do futebol, a competitividade era completamente diferente, foi difícil apanhar o ritmo em que os outros estavam. Foram três meses difíceis. Não em termos de grupo, que foi fantástico, mas difíceis por tudo aquilo que eu queria e não conseguia.

Leonor, a filha mais nova de Ricardo Sousa

Leonor, a filha mais nova de Ricardo Sousa

D.R.

No ano em que esteve parado, ficou mesmo sem fazer nada ou aproveitou para dedicar-se a algum projeto?
Estive mesmo parado, aproveitando para estar mais presente e dedicado à família. Única e simplesmente jogava num sintético em Esgueira, perto de Aveiro, com uns amigos. Jogávamos às segundas e quintas uns contra os outros. Era o único contacto que tinha com uma bola.

Já tinha tirado o curso de treinador?
Já. Tirei o primeiro nível quando estava em Leiria

Ainda joga duas épocas no Gafanha.
Sim, como disse o bichinho do futebol acabou por aparecer. O treinador era um amigo de infância, o Miguel Marques. No Gafanha estavam jogadores que tinham jogado comigo no Beira-Mar, reunimos um grupo que já tinha dado muitas alegrias ao Beira-Mar e o que era para ser uma época, acabou serem duas.

Depois arruma mesmo as botas. Foi difícil tomar a decisão?
Foi. Até porque eu sentia-me bem, fisicamente estava bem, mas medi tudo aquilo por que tinha passado. Tinha recebido uma proposta para iniciar a carreira de treinador no clube da minha terra, a Sanjoanense, e decidi acabar a carreira de jogador para me dedicar à de treinador.

Foi sempre isso que quis para o seu futuro, ser treinador?
Sim. E tenho muito mais prazer naquilo que sou hoje do que tinha quando era jogador.

Porquê?
Acho que perdi o prazer em jogar à bola muito cedo.

Porquê?
Porque eu com 22 anos já tinha ganho dois prémios do melhor jogador do campeonato português e chego ao FC Porto e o FC Porto preferia jogadores que ia buscar à Malásia, à China, à Colômbia, que nunca tinham provado nada a ninguém, mas tinham mais oportunidades do que eu. Sentia-me triste e isso tirou-me a motivação para continuar a jogar à bola.

Ricardo Sousa e a sua mulher Sílvia , mãe de Leonor

Ricardo Sousa e a sua mulher Sílvia , mãe de Leonor

D.R.

Ficou sempre com essa mágoa em relação ao FC Porto?
Fiquei com uma mágoa muito grande, porque era o que eu perguntava aos treinadores, e disse-o na cara do Fernando Santos e do Octávio: "Você está a apostar em A e B e C, o que é que ele já fez no campeonato nacional que eu não tenha feito? O ano passado fiz 17 golos pelo Beira-Mar e 23 assistências. Porque é que continua a apostar num jogador que fez um golo e duas assistências?"

Porque é que acha que isso acontecia?
Na altura, outros negócios. O FC Porto era uma SAD, era um mundo complicado. E de lá para agora tudo mudou, porque na altura com 21 ou 22 anos éramos novos e atualmente com 22 ou 23 anos já começamos a ser velhos. A mentalidade no futebol mudou muito. Atualmente já não se tem medo de apostar em jogadores de 16 e 17 anos. Acho que se tivesse nascido nesta altura ou se tivesse aproveitado o futebol agora, se tivesse feito 17 ou 19 golos em duas épocas consecutivas na I divisão, atualmente valia milhões. Porque vejo jogadores que jogam cinco jogos no Benfica, ou num FC Porto e são vendidos por 10 ou 20 milhões de euros.

Essa mudança é mais benéfica do que prejudicial para os jogadores?
É muito benéfica porque dá oportunidade aos mais jovens de progredirem. É um facto que os clubes apostam mais nos meninos da casa, o que acho que tem de acontecer cada vez mais. Se são formados no FC Porto têm o direito de se estrear, desde que tenham qualidade para isso. Porque são esses jogadores que vão defender os clubes, mais do que os outros que vêm de fora. Ao jogador que vem da Colômbia, o FC Porto não diz nada e para mim o FC Porto dizia-me muito, eu era capaz de morrer em campo pelo FC Porto, e sentia que o meu colega não era capaz de o queria fazer, até era desleixado no treino, mas as oportunidades iam sempre para ele. Isso indignou-me.

Acha que isso tem mais a ver com negócios do que com a qualidade de um ou outro jogador?
Só pode. Porque olhando aos números que fiz e aos que muitos jogadores fizeram não existe outra visão.

Apostar em jogadores cada vez mais jovens, não pode também ser prejudicial, no sentido em que podem perder a cabeça com mais facilidade por terem muito dinheiro no bolso, muito cedo?
Sim, também pode dar-se o caso de não haver maturidade suficiente para aguentar ou para ter tanto dinheiro numa conta bancária tão cedo. Mas eu preferia ter tido a oportunidade de jogar e de me impor e de se calhar fazer uma carreira mais sólida no clube que eu gostava, do que ter passado por aquilo que passei. Além de que os valores que me deram e a estrutura que eu tinha de casa acho que não permitiam que perdesse a cabeça.

Afonso Sousa, à direita, filho de Ricardo Sousa conquistou, ao serviço da seleção de sub-17, a Algarve Cup do ano passado

Afonso Sousa, à direita, filho de Ricardo Sousa conquistou, ao serviço da seleção de sub-17, a Algarve Cup do ano passado

Getty Images

Qual o conselho do seu pai que mais o marcou?
Para eu nunca me desviar do caminho em que acreditava. Sempre tive uma linha traçada para aquilo que queria.

E o que é que queria em concreto?
Primeiro ser igual a mim próprio, nunca fugir dos valores que me deram e isso para o meu pai sempre foi o mais importante, os valores à frente de tudo. Ele sempre me disse: "Ricardo nunca te esqueças que os valores vêm do berço. E se tiveste o berço que tiveste, respeita os valores que tens". Foi o que sempre fiz.

Voltando à carreira de treinador, onde é que se inspirou, tem algum treinador de referência?
Já acompanhava alguns trabalhos. quem está 20 anos ligado ao futebol sabe o que tem de fazer, sabe o que é bom, o que é mau, como motivar... Muitas vezes surgem dúvidas sobre carga e intensidade de trabalho e numa primeira fase tive duas pessoas que me ajudaram, o meu pai e o Carlos Azenha.

Tendo em conta a experiência que tem dos dois lados, qual é a pior coisa que um treinador pode fazer ou dizer a um jogador?
Faltar com a palavra. Um treinador pode tomar as opções que tomar, é livre de o fazer, mas quando diz que hoje pretende isto e amanhã já está a dizer o contrário, perde o grupo de trabalho da mão.

Como corre a sua primeira época como treinador?
Corre bem. Fico meio ano na Sanjoanense, construí a equipa mais nova do Campeonato Nacional de Seniores, estava em segundo lugar, a dois pontos do primeiro, mas acabo por sair por causa daquilo que disse há bocado, porque tenho valores. Na altura a Sanjoanense estava a querer gerir a Sanjoanense de fora para dentro, com alguns investidores que metiam o dinheiro no clube e que tinham alguns miúdos brasileiros a jogar, e a certo momento tive um diretor a pedir-me e a dizer-me para meter A, B ou C a jogar. Entreguei-lhe a capa e disse: "Se queres ser treinador és tu, porque se eu ficar vou tomar as minhas opções e esses jogadores que estás a dizer jamais vão jogar comigo". E acabei por sair.

Quando sai vai fazer o quê?
Fico seis meses sem fazer nada e depois aparece a oferta para ir para o Lusitano de Vila Real de Santo António.

É uma mudança grande.
Sim, vou outra vez com a casa às costas, vou sozinho. A minha mulher fica em Aveiro, porque a minha filha já andava na 1ª classe e ela trabalha. E estar a mudar tudo nesta fase não era o ideal. Estou um ano sozinho no Algarve

A sua mulher trabalha em quê?
Gere uma loja da Lusavouga.

Custou-lhe ficar sozinho aquele ano?
Custou, essencialmente porque estou habituado a fazer tudo com a minha filha e estar longe da família é sempre muito complicado.

Ricardo Sousa está a treinar o FC Felgueiras desde dezembro de 2017

Ricardo Sousa está a treinar o FC Felgueiras desde dezembro de 2017

D.R.

Vem para o Anadia entretanto.
Sim, um clube perto de casa que me dava a possibilidade de começar a fazer o grupo de trabalho. Estávamos a fazer um campeonato dentro daquilo que era pretendido mas agora em dezembro felizmente surgiu a oportunidade de mudar para o Felgueiras, um clube com mais ambição, com outra estrutura, profissional, e era algo que não podia negar. Por enquanto estou satisfeito. É um monstro adormecido em termos de adeptos, em termos de estrutura diretiva é um clube em que nada falta. Normalmente nos clubes mais amadores pedimos uma coisa e é para amanhã ou para depois de amanhã, e no Felgueiras é para ontem. Isso satisfaz-me porque demonstra que o clube quer crescer e chegar a outros patamares o mais rápido possível.

Qual a sua maior ambição enquanto treinador?
Chegar ao mais alto nível do futebol nacional o mais rápido possível, para me abrir portas para outras fronteiras, porque todos nós temos sonhos e desejos.

E quais são esses sonhos e desejos?
Tenho três clubes que gostava de treinar. Primeiro o Beira-Mar: não vou acabar a minha carreira sem um dia poder sentar-me no banco do clube a orientar o clube que eu amo. Outra cadeira de sonho é a do FC Porto, porque foi o clube que me viu nascer e crescer para o futebol. E é o clube que eu acudo, à exceção quando joga contra o Beira-mar. E depois por aquilo que passei na Alemanha, o Borussia Dortmund. É um clube que admiro muito pela massa adepta que tem e gostava de o treinar um dia.

Quando era miúdo quem eram os seus ídolos, além do seu pai?
Tinha um jogador que sempre adorei, foi o único de quem tive um poster no quarto, o Roberto Baggio.

Há algum treinador que admire mais?
Sim, tenho três de que gosto muito. O Mourinho, taticamente dos melhores do mundo, o Diego Simeone, do Atlético de Madrid, e o Guardiola, porque em termos de futebol ofensivo dificilmente existirá outro treinador igual.

Gosta mais do futebol ofensivo?
Sem margem para dúvidas, prefiro ganhar 5-4 do que ganhar 1-0. O futebol tem de ser espectáculo, temos de dar ao público aquilo que espera de nós e as pessoas vão ao futebol para ver os jogadores jogar e marcar. Num jogo que fique 0-0 não existe esse tipo de espetáculo.

O seu filho Afonso joga futebol?
Sim, está com 17 anos, joga no FC Porto, onde já está há quatro anos. Tem contrato profissional com o FC Porto, é um dos capitães da seleção nacional de sub-18. Espero que possa vir a ter sorte.

Ele é melhor jogador do que o Ricardo?
É diferente do pai. O meu pai era médio, eu fui médio e o Afonso é médio. Aquilo que me dizem é que se calhar eu tinha mais qualidade do que o Afonso, mas ele tem mais intensidade e mais velocidade do que o pai, além da qualidade também ser grande, o que pode ser útil para o futebol atual.

Quem são os amigos mais próximos ligados ao futebol?
Tenho um que é familiar, o Souza, que jogou no Belenenses, no Benfica e acabou por jogar no FC Porto e no SC Braga. O Ribeiro com quem joguei no Beira-Mar. O Hugo Leal que é atualmente diretor no Estoril. O Simão Sabrosa... Foram as pessoas de quem fiquei mais próximo.

Houve uma altura em que a sua ex-mulher, mãe do Afonso, veio a público acusá-lo de violência doméstica. O Ricardo sempre negou essas acusações...
Neguei e foi provado que as acusações foram falsas. Chegou a haver uma audiência onde ela foi declarada culpada por calúnias e teve de pedir desculpa por aquilo que fez. Já foi há muitos anos, já passou.

Só para terminar. Nunca pregou partidas a nenhum colega?
[Risos]. Joguei alguns anos com o Tiago que jogou no FC Porto, no Benfica, no U. Leiria, o médio centro que nos últimos anos andava a jogar no Trofense. Sempre lhe preguei algumas partidas. E um dia eu e alguns colegas ligámos para ele, fizemos de conta que éramos da Umbro e que o queríamos patrocinar. Estivemos uns 45 minutos ao telefone, no dia a seguir enviamos um e-mail falso com imagens de botas que estaríamos disponíveis a enviar para ele meter o nome dele, marcámos uma entrevista para ir um jornal a casa dele para dar ênfase à situação. E andamos a enrolá-lo durante um mês, mandávamos fatos de treino e botas para ele escolher e ele escolhia os números, os fatos de treino... Só passado um mês é que lhe dissemos que era mentira [risos], que fomos nós que fizemos aquilo. Ficou cego, queria matar-nos [risos].