Tribuna Expresso

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A casa às costas

Inácio, o jogador: “No FC Porto controlovam tudo. Discotecas, bares. E punham a mão em cima do capô do carro para ver se estava quente”

Augusto Inácio começou a jogar futebol no Sporting de onde saiu campeão, mas foi no FC Porto que mais cresceu como jogador e criou o hábito de ganhar. Com uma memória tremenda desfia, em histórias, o seu passado de jogador, sempre de forma crua e genuína. Revela, por exemplo, como as gentes do Porto controlavam os seus jogadores e zangavam-se com eles se os apanhassem na noite, enquanto em Lisboa, os adeptos do Sporting preferiam tirar fotos. Um almanaque de histórias do futebol português dos anos 80. Esta é a primeira parte de uma longa entrevista. No domingo, Inácio, o treinador, falará do Sporting e de um determinado jogador num determinado contexto que lhe terá custado o emprego em Alvalade

Alexandra Simões de Abreu

Nuno Botelho

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Nasceu no Alto do Pina, em Lisboa. O que faziam os seus pais nessa altura?
O meu pai era empreiteiro da construção civil e a minha mãe vendia peixe juntamente com a minha avó e com as irmãs, era pessoal do peixe.

Irmãos?
Tenho dois mais velhos. Em relação ao do meio, sou dois anos mais novo, em relação ao mais velho, quatro.

Cresceu no Alto do Pina?
Sim, até aos 9 anos. Depois fui viver mesmo em frente ao estádio do Sporting, o Alvalade velho que ainda tinha o peão aberto, ao lado do Magriço. Vivíamos num 7º andar e era engraçado porque víamos os jogos. Quando era dia de jogo era um forrobodó, toda a gente a tocar à porta a pedir ao meu pai “Oh sr. Canhoto!”, que era a alcunha do meu pai. Quando fecharam a bancada, deixaram de tocar à porta. Foi um descanso (risos). Era engraçado porque eu às vezes estava lá a treinar e os meus colegas diziam: “Olha os teus pais!”. Os meus pais estavam a ver o treino, diziam-me adeus e eu também tinha que dizer adeus, cheio de vergonha.

Sempre torceu pelo Sporting?
Sempre fui do Sporting. Já com quatro, cinco anos o meu pai levava-me ao estádio de Alvalade. O meu pai era doente pelo Sporting.

Do que se recorda dessas primeiras idas à bola?
Lembro-me que nas bancadas vendiam rebuçados e os nougats e o meu pai comprava-me aquilo. Lembro-me também que primeiro entravam os árbitros, depois entravam as equipas e, quando entravam os árbitros - veja a fama dos árbitros já na altura - a primeira coisa que eu fazia era tirar o rebuçado da boca e dizer “ladrões, gatunos” e atirava o rebuçado (risos). Já fui educado assim.

Augusto Inácio, em baixo à esquerda, com a mãe Maria Fernanda, o pai António Inácio, o irmão do meio e o mais velho.

Augusto Inácio, em baixo à esquerda, com a mãe Maria Fernanda, o pai António Inácio, o irmão do meio e o mais velho.

D.R.

O primeiro clube onde começa a jogar é o Sporting. Com que idade?
Com 16 anos. Não havia iniciados, não havia escolinhas, não havia nada naquela altura. Jogava na escola, no campeonato inter-turmas. Aquilo era tudo cimento. Mas fui sempre um miúdo de jogar à bola, mesmo rua contra rua. Se não havia bolas, nem que fosse com as meias da minha mãe fazíamos uma bola ou roubávamos as bolas dos matrecos. As balizas eram de sarjeta a sarjeta, quando a bola entrava, azar, tínhamos de arregaçar a manga e meter a mão na sarjeta para tirar a bola e continuar a jogar; ou carro a carro e a bola tinha que passar entre os pneus do carro da frente para ser golo; porta a porta, era uma porta de um lado do passeio e a outra do outro lado e quando a bola batesse era golo… Sempre joguei à bola, até que fui viver em frente do campo do Sporting e comecei a jogar o mini-basquete do Sporting, na Rua do Passadiço, mas como era muito longe comecei a jogar hóquei em patins lá no estádio.

Hóquei em patins?
Guarda-redes de hóquei em patins.

Mas porquê? Porque quis?
Sim, achava piada aquilo, os meus amigos andavam no hóquei em patins e lá fui eu também, só que fiquei na baliza por uma razão muito simples. Eu não sabia patinar (risos) e então vai para a baliza Augusto que ali não tens que patinar. Depois, também joguei andebol, não federado. Até que, quando já andava no curso industrial, na Afonso Domingos, em Marvila, o meu professor de educação física, Tavares Júnior, disse-me: “tu tens muito jeito para o futebol, porque é que eu não vais treinar às captações ao Sporting que é o teu clube?”. E eu: “Dê-me um cartão seu que eu vou lá”. Ele deu-me o cartão, eu fui lá, e apresentei-me no Sporting. “Professor Tavares Júnior da Escola Afonso Domingos”. Mandaram-me equipar. Éramos uns 40 ou 50. Perguntam-me: “ó miúdo em que lugar é que gostas de jogar?”. Eu todo pimpão: “extremo esquerdo”. Fui jogar a extremo esquerdo, driblava bem mas cada vez que fazia um cruzamento, a bola não chegava à área, não tinha força.

Era franzino?
Era franzino, mas com genica. Ao intervalo diz assim o treinador: “Quem quiser pode trocar de lugares”. E eu que estava com a língua de fora, já não podia com uma gata pelo rabo, disse que gostava de jogar mais atrás. “Então vais jogar a defesa esquerdo”. E pronto, mandaram-me ir a um segundo treino, ao fim do segundo treino quiseram que ficasse. E eu todo contente, jogador do Sporting, o meu clube. Lembro-me que, quando íamos no autocarro do Sporting, quando nos deslocávamos a qualquer lado, eu queria ir sempre à janela para verem que aquele que estava ali, era jogador do Sporting (risos). Mas naquela altura só fiz um ano como juvenil e um ano como júnior. Depois, comecei a pensar: tinha 18 anos, que ia acontecer como os outros, ou seja começava a trabalhar de dia e à noite ia jogar com as equipas que treinavam às sete e às oito da noite. Mas o que é certo é que o Sporting convidou-me para ficar no plantel.

Inácio, à esquerda, com o irmão mais velho José António) e o do meio Vítor Manuel

Inácio, à esquerda, com o irmão mais velho José António) e o do meio Vítor Manuel

D.R.

Entretanto os estudos ficam para trás?
Larguei a escola com 17 anos. Quando era juvenil ainda estava na escola, mas depois, como júnior, larguei.

Não gostava ou não conseguia conjugar?
Era calão, não gostava de livros. Gostava de futebol e queria ser jogador e só comecei a ter a noção de que queria ser jogador quando fui júnior.

É aí que assina o seu primeiro contrato?
Não, só quando acabei os juniores e comecei como sénior, como profissional, dos 18 aos 20 anos. Eu dizia: “onde é que está o papel para assinar?”. Nem sabia quanto é que ia ganhar. Convidavam-me para renovar e eu: “onde é que está o papel?”. E assinava. Assinei assim praticamente até aos 27 anos.

Recorda-se do valor do primeiro ordenado?
Sete contos e quinhentos, em 1975 ou 76.

Como viveu o 25 de abril, onde é que estava?
Estava no lar do Sporting a jogar às cartas com o Dani, a jogar à lerpa (risos) e ouvimos qualquer coisa: “Epá há uma revolução”. Eram umas três e tal, quatro da tarde. O Dani estava a perder, coitado já morreu. E eu: “Epá, temos que acabar com isto”. E ele: “acabar o quê! Estou a perder ninguém sai daqui”. Ficámos lá até ele recuperar o dinheiro, até às sete ou assim. A revolução a dar-se e nós a jogar à lerpa (risos). Mas lembro me perfeitamente bem que ganhava sete contos e quinhentos. E com 20 anos casei-me.

Augusto Inácio já como jogador do Sporting

Augusto Inácio já como jogador do Sporting

D.R.

Quando é que começou a namorar?
Aos 18, dois anos depois casei-me. Não era muito namoradeiro na altura, embiquei para aquele lado e as coisas aconteceram.

Como é que se chama a sua primeira mulher?
Ana Paula.

Fazia o quê profissionalmente?
Nada.

Conheceu-a onde?
A história é engraçada. Eu gostava de ver as modalidades do Sporting, o hóquei, o andebol. A equipa de hóquei jogava muito na Reboleira e havia um senhor que ia sempre ver esses jogos. Perguntei lá no Magriço: “alguém vai para a Reboleira?”. Na altura ainda não tinha carro. E disseram-me que costumava lá ir um mecânico tomar café que ia sempre à Reboleira. Uma vez que ele lá foi, perguntei-lhe se podia dar-me uma boleia. Ele: “com certeza”. Depois de tantas vezes a irmos juntos apresentou-me a filha e pronto, já não tirei os olhos da filha. Foi assim que a conheci.

Estiveram juntos quanto tempo?
31 anos.

Foi pai cedo.
Quase a fazer 21, do Pedro, que hoje tem 40 anos.

O que é que o Pedro faz na vida?
Trabalha nas comunicações e também vende camisolas para os colecionadores.

Nunca quis seguir a via do futebol?
Não. Ele chegou a jogar como profissional, foi jogador do Leça e jogou nas Antas, era eu treinador-adjunto. Lembro-me que uma vez levou uma porrada mesmo ao pé de mim e eu: “Levanta-te meu paneleirinho, levanta-te, sempre com o cu no chão” (risos)”.

Ele jogava em que posição?
Médio defensivo, mas não tinha o espírito de profissional, não tinha capacidade para sofrer. Gostava de viver a vida de jovem ao mesmo tempo que era jogador, não tinha futuro.

Augusto Inácio é o terceiro em pé, a contar da direita. Na equipa do Sporting que foi campeã naiconal em 1973/74

Augusto Inácio é o terceiro em pé, a contar da direita. Na equipa do Sporting que foi campeã naiconal em 1973/74

D.R.

O dinheiro chegava para tudo?
Sim e comprei um carro. Lembro-me por causa disto, era um Austin 1300 GT que custava 91 contos e eu, salvo erro, tinha 41. O meu pai emprestou-me 50 e eu dos sete contos e quinhentos que ganhava, dava cinco contos ao meu pai para pagar a dívida - e ficava com dois contos e quinhentos que era o valor da renda. E pensava: “então e agora para a comida como é que é?” Então arranjei uma estratégia impecável, à defesa esquerdo. Almoçava em casa dos meus pais e jantava em casa dos meus sogros e fui equilibrando assim as coisas (risos).

Lembra-se do seu primeiro jogo como sénior?
Acho que foi num jogo com a Académica, para a Taça de Portugal, era o Fernando Rio o treinador do Sporting, e a quatro minutos do final, que foi em Coimbra, entrei para o lugar do Tomé. Acho que foi esse o primeiro jogo na equipa principal. Curiosamente comecei a singrar no Sporting como defesa direito, eu que sou um canhoto nato.

Canhoto de mãos e pés?
Não, só pés.

Porque é que foi para o lado direito?
Porque o Tomé lesionou-se no jogo da apresentação, salvo erro com a Académica, em casa, e nós tínhamos que ir a Madrid fazer um jogo para a festa de homenagem a um guarda-redesque o Atlético de Madrid lá tinha, o Rodri. O treinador era o Juca e o Sporting na altura não tinha defesa direito e o Juca falou comigo - eu com 20 anos mas já muito reguila - e diz-me assim: “Miúdo vais jogar a defesa direito”. E eu: “Está bem senhor Juca, onde é que está o problema?”. E ele: “Sabes quem é que vais apanhar? O extremo esquerdo da Argentina, o Ayala”. Respondi logo: “Eu vou apanhar o Ayala e ele vai apanhar o Inácio, onde é que está o problema?” Quando começou o jogo, a primeira coisa que eu fiz foi dar-lhe duas porradas que virei Ayala pelo ar (risos). E comecei a jogar a defesa direito onde estive dois anos, fui à seleção também como defesa direito, sendo canhoto. Era o único naquela altura. Destros a jogar à esquerda muitos, mas canhotos a jogar à direita nunca.

Era mais difícil?
Então não era? Quando queria fazer os “carrinhos”, em vez de atirar a bola para fora, como era ao contrário, mandava a bola para canto. Era canto contra nós, do meu lado não eram lançamentos, eram cantos, cantos, cantos (risos).

Augsuto Inácio, o terceiro em pé, a contar da direita, esteve no Sporting dos 16 aos 27 anos

Augsuto Inácio, o terceiro em pé, a contar da direita, esteve no Sporting dos 16 aos 27 anos

D.R.

Esteve no Sporting dos 16 aos 27 anos. Desses anos todos qual é a melhor recordação que tem?
Quando fui pela primeira vez internacional A. Fui jogar a Chipre, a Limassol.

Foi chamado por que selecionador e tinha quantos anos
Pelo Juca e tinha 21, 22 anos.

Mal chegou a sénior teve uma ascensão rápida.
Estive dois anos como “minhoca”, andava ali na pesca, a jogar na reserva, a fazer os treinos conjuntos. Lembro-me que uma vez, a jogar pelos “minhocas”, as reservas, faço uma jogada, o grande Zé Carlos, que ainda hoje falo bem com ele, vem à ganância, eu meto-lhe a bola debaixo das pernas e o Damas quando sai, eu dou-lhe uma trivelada e a bola entrou. O Zé Carlos chegou-se ao pé de mim e disse: “Ó miúdo se tornas a fazer essa merda, dou-te duas chapadas no focinho que até andas de lado”. E eu: “Desculpe senhor Zé Carlos, já não volta a acontecer” (risos). Mas a história mais gira disto tudo, é que andámos ali tanto tempo a lutar para sermos campeões e nas duas vezes em que o Sporting é campeão, 1979/80, 81/82, são os dois anos em que sou operado ao menisco. Os meus colegas já diziam assim: “Epá não te vás embora para ver se és operado ao menisco e nós somos campeões”. Fui operado ao direito e ao esquerdo. Curiosamente, na primeira operação ao menisco iam-se enganando, e iam operando o menisco bom, da outra perna.

Como é que isso acontece?
Fui para a clínica, lembro-me que estava na cama, na preparação para a operação, dão-me duas “macacas” como eu costumo dizer, que são duas injeções, fiquei grogue e quando me levavam para o bloco operatório, já à porta do bloco, sinto um fresco na perna, eram eles que estavam a rapar os pêlos e a pôr betadine na perna. Lembro-me desse fresco e só disse assim, meio bêbado: “Não é essa a perna.” E eles: “Não é esta perna?”. Passado um bocado “Epá, ele tem razão, não é a direita, é a esquerda” (risos).

Augusto Inácio é o segundo em pé à direita.

Augusto Inácio é o segundo em pé à direita.

D.R.

Foram dois anos praticamente sem jogar?
Faço a época 1980/81 que é quando a minha filha nasceu. Foi muito engraçado porque o Sporting fazia sempre estágio, mas como faltavam dois jogos para o final do campeonato não houve estágio porque já estávamos a 14 pontos do primeiro. E, nessa noite de sábado para domingo, levo a minha mulher para a clínica e depois fui para casa, sempre a pensar que era um menino, tinha preparado o meu filho: “Vais ter um irmão para brincar”. Sempre na cabeça que era um menino, até que vou para o jogo e houve um jogador que me deu uma porrada que me virou de pernas para o ar, e o árbitro, o Veiga Trigo, nada, siga para a frente. Eu apanho o gajo e, se ele me deu uma porrada, eu dei-lhe duas. O árbitro chega-se ao pé de mim e eu: “Ó senhor árbitro, então o gajo dá-me uma porrada e o senhor não faz nada, não lhe deu amarelo, e a mim dá-me logo amarelo?”. E ele: “Cala-te senão vais para a rua” e eu “E coragem para essa merda?”. Tumba levei com o vermelho (risos). “Olha o filho da mãe, deu me mesmo o vermelho”.

E a sua filha já tinha nascido?
Não. Depois saio dali e à noite, depois do jogo, vou à clínica. Lembro-me que a minha mulher estava no 3º andar e uma enfermeira, que estava lá em cima, olhou para baixo e começa: “Senhor Inácio, é uma menina”. E eu: “O quê? Então levo vermelho, vou para a rua e ainda levo com uma menina?”

Porque é que queria mais um menino?
Porque somos todos rapazes. Três rapazes e eu sempre vivi com rapazes. A única mulher lá em casa era a minha mãe. Era o meu pai e três rapazes, e eu queria igual. Mas ainda bem que foi uma menina. Foi a melhor coisa. É a minha Tânia Vanessa, ela de Vanessa não gosta muito, mas de Tânia Inácio gosta. É a minha menina. Já tenho duas netas dela. Lindíssimas.

Como é que se chamam e que idade têm as suas netas
[Mostrando as fotos] São estas duas meninas lindas, esta parece uma modelo, que é a Rafa, a Rafaela Inácio. E esta é a Iara Inácio, são lindíssimas. A Iara tem 3 anos e a Rafa tem 14.

E do seu filho tem netos?
Tenho uma neta também. A Cecília que tem 13 anos.

A filha e as netas de Augusto Inácio

A filha e as netas de Augusto Inácio

D.R.

Qual é a sensação de ser campeão pela primeira vez? É inigualável?
Cada vez que somos campeões é inigualável. São momentos. No FC Porto, por exemplo, já não era igual porque era normal ser campeão. A normalidade que devia ser uma anormalidade é quando somos campeões. O Sporting, ser campeão em 1979-80, é uma coisa. Em 1981-82, jé é normal. Não fomos no outro o ano, fomos agora, normal. Lembro-me que quando estava no Porto, era o Mourinho o treinador-adjunto do Bobby Robson, quando ele é despedido do Sporting e vai para o FC Porto, o Bobby Robson é campeão pelo FC Porto em Alvalade. Então foi uma alegria entrar ali pelo relvado adentro. Eu estava de fato de treino, era o adjunto, estava com o Pinto da Costa que me diz assim: “Inácio nós já estamos habituados a ser campeões, mas eles não estão habituados. Olha para eles a fazerem a festa”. É a tal coisa: o hábito de ganhar. Eles como não estavam habituados a ganhar fizeram daquilo uma festa maior.

Dos anos todos no Sporting, de todos os treinadores que teve, qual foi aquele que o marcou mais?
O Juca, que foi quem me lançou na equipa do Sporting e me levou à selecção nacional. O professor Rodrigo Dias foi também uma pessoa muito importante; o Malcolm Allison, o inglês, tinha ideias diferentes e isto às vezes de ser ideias diferentes, não quer dizer que seja melhor, mas deu-me uma perspectiva de futebol diferente daquela que eu estava habituado.

E amizades desse tempo no Sporting?
Olhe, eu tinha uma grande amizade com o Juca, o treinador. Fiquei quase como o filho dele da bola. O professor Rodrigues Dias tinha para comigo um carinho muito grande e eu mais tarde fiz-lhe uma coisa que ele ficou eternamente agradecido, mas que não tinha nada que agradecer. Fiz aquilo porque entendi que o devia fazer, eu acho que tenho bom coração. Quando gosto das pessoas e sou amigo das pessoas, só não faço mais porque não posso. Ele teve um problema na casa dele em Queijas por causa de umas fumaradas, de uns químicos que havia lá no ar, e ele estava com problemas porque tinha muitos filhos, tinha que sair da casa e eu ofereci-lhe a minha casa, o meu apartamento. Eu já não estava lá e ofereci-lhe o apartamento para ele lá estar o tempo que quisesse e enquanto não se resolvesse aquele problema. O homem ficou eternamente agradecido. O Allison tinha uma relação boa fora do campo mas era com todos, não era só comigo, ao ponto de irmos almoçar e quando ele estava bem disposto, toda a gente tinha que fumar do charuto dele, toda a gente tinha que dar uma passa. Mas no dia seguinte, no treino, não conhecia ninguém. Dizia: “Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque”. Tinha que ser assim. Agora, daqueles tempos, o meu compadre, o Eurico. Vivi 31 anos no Porto, saí do Porto para vir para o Sporting. Abandonei tudo lá em cima, a minha filha ainda vive na Maia. E tenho o Eduardo Luís, o Amaral, o Jaime Pacheco, o Rodolfo, Fernando Tomé (que é padrinho do meu filho), o Vítor Manuel (pai do Vítor Bruno, o preparador físico do Sérgio Conceição). Ainda hoje é com o Eurico e com o Rodolfo com quem me dou mais. E com o Tomé, que é mais velho do que eu e é meu compadre, falamos algumas vezes.

Augusto Inácio, em tronco nú, no dia em que o FC Porto venceu a Taça dos Campeões Europeus, em 1987

Augusto Inácio, em tronco nú, no dia em que o FC Porto venceu a Taça dos Campeões Europeus, em 1987

D.R.

Como e quando é que vai para o FC Porto?
A ideia que as pessoas têm, os adeptos principalmente, é que os jogadores são uns traidores, mas há aspectos que fazem com que sejamos quase, quase obrigados a trocar. E porquê? Porque eu tinha um contrato de três anos, ganhava 1100 contos/ano e havia colegas meus que ganhavam 5000, 6000, 7000 contos. Mas fui sempre daqueles que nunca fiz queixinhas na imprensa. Quando chega a minha vez de fazer contrato, peço aquilo que acho que devo ganhar. Nunca me queixei, nunca me lamentei, nada disso. Até que chega a altura do contrato. Tinha 27 anos, como já disse, até aos 27 anos era o que eles me punham à frente. Até que com 27 anos comecei a perceber que tinha dois filhos e aos 30 anos as pessoas já diziam que um jogador era velho. Olhava para a conta bancária e não tinha assim grande coisa, tinha o meu carrito, o meu apartamento, mas em termos daquilo que podia ser uma “folguinha” mais para o futuro, não tinha. E pensei: “Tenho que olhar para minha vida”. Entretanto o Jaime Lopes, que era o homem forte do futebol do Sporting, veio ter comigo e disse que o Sporting queria que eu continuasse e me dava mais três contos por mês de aumento. “Estás a brincar comigo?”. E ele: “Epá é onde a gente pode chegar”. Ficava a ganhar 1136 contos e pergunto se não chegavam aos dois mil. “Ui, impossível os dois mil”, diz ele. Veio o V. Guimarães, chegámos praticamente a acordo; foi o Pedroto que mandou virem falar comigo, nunca mais me esqueço. O gajo do Vitória bebeu quase metade da garrafa de Chivas Regal que eu tinha lá em casa e eu na parte final digo-lhe assim: “Está tudo ok, só queria mais uma coisa, um Renault 5”. “Um Renault 5?”. “Sim, se vou mudar de Lisboa para Guimarães e a mulher quer ir com os miúdos para a escola, não tem carro. Eu vou com o carro para o treino, preciso de um Renault 5. Ele dizia que o clube não dava carros a ninguém e eu: “Não dá carros a ninguém mas tem que me dar a mim”. E por causa desse Renault 5 demorou-se tempo a chegar a acordo. Nesse entretanto, recebo uma mensagem do Pedroto a dizer que não ia continuar no V. Guimarães. Como quem diz, não assines que eu não vou ficar em Guimarães. Entretanto, essa pessoa que esteve a falar comigo apercebeu-se que eu já não ia ficar no Vitória Guimarães e “rasgou-me” todo no jornal a dizer que eu tinha faltado à palavra. Se me desse o Renault 5 e eu dissesse que não ia, era uma coisa; mas não, o Renault 5 nunca veio e eu nunca fui.

E o Sporting no meio disso?
Entretanto continuei a falar com o Jaime Lopes, a dizer que queria ficar no Sporting, porque nunca imaginei na minha vida sair do Sporting para ir para outro clube qualquer, nunca me imaginei. Andei sempre atrás do Jaime Lopes, mas ele sempre “impossível, impossível, impossível”, até que vamos jogar com o V. Guimarães no antigo estádio do Braga - porque o V. Guimarães tinha o campo castigado. Eu tinha sido operado ao menisco, nesse ano, em que o Sporting tinha sido campeão, em 82. Lembro-me que saio da cabine, vou para entrar depois para o túnel e há um gajo, que é mesmo o termo, um gajo que a gente chamava de Johnny Hallyday, tinha o cabelo loiro enrolado atrás, todo manhoso. Esse gajo vira-se para mim e diz: “Inácio está tudo bem contigo, meu?”. E eu: “Eh, Johnny como é que tu estás?” E de repente aperta-me a mão e deixa-me um papel. E eu com o papel na mão, fui andando para o banco de suplentes, mas fui vendo e era o número de telefone do Pinto da Costa (risos). E eu: “Ui”. E então tive uma reunião com o Pinto da Costa onde ele tinha a Cegroup e praticamente chegámos a acordo ali - digo praticamente porque não assinámos. Continuei a ir ter com o Jaime Lopes: “Epá ó Jaime, não me digas que não chegas aos dois mil?”.

Pediu o Renault 5 ao Pinto da Costa?
Não, porque o contrato já era bom. Eu pedi dois mil ao Sporting, o FC Porto deu-me cinco. Ao fim de três anos, eram nove mil de diferença e naquela altura era muito dinheiro. Mas mesmo assim, cheguei ao pé do Jaime Lopes e disse-lhe assim: “Epá vai lá falar com o João Rocha para chegar aos dois mil. Tenho uma proposta para ganhar muito dinheiro, mas eu quero ficar no Sporting”. Andava ali com uma ansiedade... e ele acabou por dizer que não podiam dar mais. Então disse-lhe que ia para o FC Porto. “Se quiseres, vai”. E fui.

E assina quando?
Os contratos antigamente eram um espectáculo. Levaram-me para uma marisqueira em Matosinhos, e o senhor Vasconcelos, que era um diretor do FC Porto, estava a comer um marisquinho, pergunta-me se eu quero comer alguma coisa, e puxa da caneta. Ele tinha uma voz grossa. “Então isto é assim, 5 mil contos por ano, para 3 anos, pá, pá, pá... fico à espera da tua resposta”. E eu disse-lhe: “Mas eu já falei com o senhor Pinto da Costa sobre isto”. “Então está tudo ok?”. “Está, está tudo ok”. Ele chama um tipo: “Oh não sei quem, leva o homem para o escritório (risos)”. E eu assino o contrato.

E a conversa com Pinto da Costa?
Perguntou-me se o Vasconcelos já tinha falado comigo, digo-lhe que sim. E ele: “Então e as expectativas?”. E eu: “Quais expectativas, senhor presidente, estamos aqui para ser campeões, um clube grande como o FC Porto, a expectativa é para ser campeão”. Ele gostou logo da forma como eu falei.

Augusto Inácio com os calções e camisola da seleção nacional que vestiu durante o Mundial do México 1986

Augusto Inácio com os calções e camisola da seleção nacional que vestiu durante o Mundial do México 1986

D.R.

Foi sozinho ou a mulher e filhos foram consigo?
Fui sozinho, só depois é que foram ter comigo.

Como é que foi a adaptação?
Foi fácil para todos. Só que havia uma coisa. Antes de entrar em campo molhava a cabeça, e estivesse chuva, sol ou frio eu jogava de manga curta; quando havia manga comprida eu arregaçava as mangas, molhava os braços, olhava para o espelho e dizia: “Vamos lá Augusto, vamos a isto”. Mas durante seis ou sete meses, de cada vez que fazia isto e me olhava ao espelho havia qualquer coisa que não batia certo… “Ah está bem, são as riscas que eram verdes e brancas na horizontal e agora são azuis e brancas na vertical” (risos). Aquilo fazia-me confusão às vezes. Não no jogo, não quando estava a jogar. Mas quando me olhava ao espelho. Só que eu cativei muito depressa as pessoas do Porto, os adeptos do FC Porto, porque eu era um jogador com muita genica. Quando a bola ia para fora, eu não precisava que os apanha-bolas fossem buscar a bola. Saltava os reclames e ia lá buscá-la e lançava, estivéssemos empatados ou a perder. Agora, a ganhar, deixa ir a bola (risos).O Pedroto dizia muito: “Tu parece que nasceste no Porto”.

Entrou com o Pedroto como treinador. Há pouco ia contar uma história com o Pedroto...
Quando ele perguntava aos jogadores o que tinham achado do jogo eles borravam-se todos. Houve uma altura que alguém lhe disse: “Oh pá, eu acho...”. E ele: “Oh pá? Mas pensas que estás a falar com o teu pai? (risos)”. Aquilo era um silêncio que as pessoas tinham medo. Então quando ele perguntava alguma coisa eu dizia: “Ó mister eu acho que isto, isto e tal”. Dava a minha opinião. As pessoas tremiam todas com o Pedroto, porque ele era aquela figura. E um dia ele chamou-me ao gabinete: “Diz lá ó Inácio, como é que é o Sporting?”. E eu respondi: “Ó senhor Pedroto o Sporting é um grande clube. Eu até acho que é maior que este clube. Acho. Só com o tempo é que vou ver, mas é um clube extraordinário”. E é quando ele me diz que esteve para ir para o Sporting por duas vezes. E eu: “O mister ia bem que aquilo é um grande clube, só que se calhar não tem olho em relação a como é que deve ser um clube de futebol em termos de ganhar. Eles são realmente uns passarinhos, mas é um grande clube”. Ele pergunta-me logo: “Mas qual é o teu clube?”. “Ó mister, estou aqui no FC Porto, mas tenho Sporting no coração. Agora se houver aqui um FC Porto-Sporting, comigo a jogar, quero que ganhe sempre o FC Porto, mas se for hóquei em patins ou o andebol, quero que ganhe o Sporting”. E ele: “Muito bem. Muito me contas”. Respeitavam-me porque sabiam que eu era profissional a 1000%. E a melhor medalha, que não há dinheiro nenhum que pague isto, é eu ser “Prémio Stromp” no Sporting como jogador e treinador, ser “Dragão de Ouro” no FC Porto como jogador e como treinador. Acho que isto diz muita coisa. Modéstia à parte, não preciso que me digam que fui um grande profissional. Tenho vaidade no profissional que fui. Eu aleijava-me e às três da manhã estava a pedir gelo à minha mulher para no outro dia não perder o treino.

A equipa do FC Porto campeã europeia em 1987 Inácio é o terceiro em pé, a contar da direita.

A equipa do FC Porto campeã europeia em 1987 Inácio é o terceiro em pé, a contar da direita.

D.R.

Para além dos meniscos teve mais alguma lesão complicada?
Não, desloquei uma omoplata mas graças a Deus nunca parti nenhuma perna. Nunca parti nada. Tive uma rotura muito complicada no FC Porto. Por querer demonstrar tanto, por não saber o que era uma lesão, em sprint com o Eurico, senti uma picada na coxa e digo-lhe: “Senti uma coisinha aqui”. Mas andei a brincar com aquilo ao ponto de ter que ser operado porque o FC Porto precisava de mim para jogar. Quando mostro a coxa ao médico, ao Domingos Gomes, ele diz que eu tenho que ir para o bloco operatório - tinha a coxa toda preta do derrame. O tendão partiu, foi uma ponta para um lado e uma ponta para o outro, e eles tiveram que unir as pontas e coser.

Havia e ainda há a ideia de que os jogadores do FC Porto são hiper controlados, não podem sair à noite, ir aqui ou acolá porque são logo apanhados.
É verdade. Eles chamaram-me logo à atenção. Um dia chamaram-me ao gabinete do Pedroto e perguntaram-me: “Então o ‘Muralhas’ estava bom?”. Muralhas, o vinho verde. E eu: “Ó senhor Pedroto então não estava bom? Fresquinho com o peixinho.” Eles disseram-me aquilo para mostrar que sabiam tudo. Eles até iam à porta da casa dos jogadores para saber se estavam em casa ou não, punham as mãos em cima do capot para ver se estava quente ou se estava frio. Controlavam tudo, tudo, tudo.

Gente do clube ou mesmo adeptos?
Uma das grandes diferenças que notei entre o FC Porto e o Sporting, é que se os adeptos do Porto apanhassem um jogador às duas e tal da manhã, eles próprios insultavam os jogadores e se fosse preciso até davam porrada; os do Sporting queriam tirar fotos. É uma diferença grande de exigência dos próprios adeptos. Ninguém podia ir a uma discoteca, a um bar, porque os porteiros ligavam logo para alguém e diziam: “Atenção que está aqui um jogador vosso”. Eles tinham tudo controlado mas eu também não era assim de vidas, a mim não me incomodava nada essas coisas. Ia à discoteca quando no outro dia não tinha treino e só ficava até às duas da manhã; depois, ia para casa. E não gostava, só ia à discoteca para desanuviar, para ouvir um bocado de música, para a mulher não estar sempre em casa também.

Augusto Inácio, o segundo à esquerda, com as cores da seleção nacional

Augusto Inácio, o segundo à esquerda, com as cores da seleção nacional

D.R.

E praxes, alguma vez foi vítima de praxe?
Não. Havia uma praxe e tínhamos que estar todos com cuidado. Por acaso, vi fazer a um e já não caí na esparrela. Era uma armadilha. Era num hall onde havia umas escadas que iam dar ao departamento de futebol, ao departamento médico, e havia uma espécie de sofás encostados à parede onde nos sentávamos. Havia uma cadeira de cabedal que ficava um bocado fora do contexto. E quando estava tudo ocupado, ninguém dos antigos se sentava ali porque já sabia o que acontecia, mas os mais novos viam aquela cadeira vazia e sentavam-se. Só que entretanto alguém já tinha subido e atirava com um balde de água (risos). Depois havia outra coisa que me fizeram e que também fiz, mas não era praxe. Era quando recebíamos botas novas dávamos aos mais novos para andarem com elas uma semana. As botas eram duras, eram novas, e primeiro que nos adaptássemos… Às vezes até punhamos espuma na sola por causa dos pitons não ferirem os pés por baixo. Apanhava cada bolha. E se chegasse a ferida era muito complicado depois calçar e jogar. Comecei a aprender. Se der aos putos eles ficam todos contentes com botas novas. Normalmente tínhamos três pares, um par de borracha ou dois e um par de alumnio ou dois. Chegávamos aos juniores: “Ó puto, bate aí as botas. Bates durante esta semana e depois para a semana vens entregar”. E eles todos contentes (risos). Fizeram-me o mesmo quando era júnior, eu cheio de calos, ainda tenho alguns calos nos pés porquê? Foi à custa disso (risos).

A praxe do balde de água manteve-se durante muitos anos, contaram-me que o Paulinho Santos era um dos que mais gostava de pregar essa partida...
Sim, sim. E se quer saber como é que o Paulinho Santos vai para o FC Porto, eu conto-lhe a história.

Força.
Conheço o Paulinho Santos quando eu era treinador do Rio Ave. Ele veio para o Rio Ave com outros oito ou nove juniores do Porto. Vi o Paulinho, cheguei ao pé do Reinaldo e disse-lhe assim: “Está lá um miúdo, vão buscá-lo que é um bom jogador. Tem aquela raça à Porto”. Mas aquilo entrou por um ouvido e saiu por outro. Chegou março, abril e começou a ouvir-se notícias de que se calhar ele era capaz de ir para o Belenenses. Acaba a época e ele ainda não tinha assinado por ninguém, o Belenenses ainda não o tinha ido buscar. Eu estava no Algarve e começo a ouvir que o Paulinho pode ir para aqui, pode ir para acolá. Disse para comigo: “Não”. Viro-me para a minha mulher e para os meus filhos: “Quem quer ir a Lisboa comigo num instante?”. Estava em Albufeira e a mulher: “onde é que vais?”. “Vai haver uma festa, um arraial do Porto que costuma ser numa quinta perto do Lumiar e eu vou lá dizer uma coisa ao Pinto da Costa e depois venho-me embora. Venho logo para baixo”. Como era só ir e vir, eles ficaram. Não sei se vim sozinho ou com o meu filho, já não me lembro bem, sei que quando lá cheguei, estava tudo de roda do Pinto da Costa e eu, que tinha confiança com ele, quando o apanhei um bocado mais livre, peguei-lhe no braço. “Presidente, só cinco minutos”. E disse-lhe: “Vim de propósito do Algarve até aqui, estava a apanhar sol, para falar consigo. O Paulinho se não for para o FC Porto, se for para outro clube qualquer e se for aquilo que penso que vai ser, eu depois vou dizer aos jornais que o presidente do FC Porto não quis o Paulinho, mesmo tendo eu vindo de propósito do Algarve para falar com ele em Lisboa”. E pergunta ele: “Mas tu acreditas mesmo nesse Paulinho?”. “Estou-lhe a dizer que esse puto é um grande jogador”. “Pronto se tu acreditas, está bem”. Não sei o que é que ele fez, mas três dias depois o Paulinho já estava no FC Porto.

Augusto Inácio assume-se um avô babado. Com as netas Rafaela e Yara

Augusto Inácio assume-se um avô babado. Com as netas Rafaela e Yara

D.R.

Porque é que não disse para ir para o Sporting, se é o seu clube de coração?
Eu estava ligado ao FC Porto. Estava muito ligado ao FC Porto. Eu era treinador do Rio Ave mas tinha sido durante dois anos treinador de juniores no FC Porto .

Apesar do coração se manter verde tem um carinho especial pelo Porto.
As pessoas às vezes não entendem isto. Paixão é uma coisa e amor é outra. Tenho amor ao Sporting, é o clube do meu coração, mas tenho uma grande paixão pelo Porto, pelas vivências, pelas conquistas, pelo trato, por tudo isto. Tenho um carinho por outros clubes, mas o Porto ultrapassa esse carinho, há uma ligação forte. É a Taça dos Campeões Europeus, é o título de Campeão do Mundo, é a Supertaça Europeia, é os campeonatos de Portugal, é as Supertaças; há uma conjunto de várias coisas.

Foi onde ganhou mais títulos enquanto jogador?
Sim, foi no FC Porto. Mais títulos e mais dinheiro. E depois é ali que começo como treinador de juniores, é ali que sou treinador-adjunto, há uma ligação muito grande. Ainda hoje há gente do Sporting que cada vez que me vê, não gosta muito disto que digo. Mas eu sou lisboeta do bairro, do típico bairro, das marchas de Lisboa, fico todo contente quando o Alto do Pina ganha as marchas, mas gosto mais de viver no Porto do que em Lisboa.

Porquê?
Porque é mais calmo. Aqui em Lisboa tenho os amigos do Sporting mas não tenho muito mais amigos. A minha família é a minha mãe que está aqui, a minha filha está lá em cima, as minhas netas estão lá em cima, a família da minha mulher também é lá de cima, do norte.

Da atual mulher.
Sim, atual... já vai para 15 anos que isto dura. E a família dela está toda lá em cima, mas entretanto troquei tudo isso, e se calhar já estou a adiantar-me no tema, por amor ao Sporting, isto é que é interessante.

Augusto Inácio orgulha-se de fazer parte da melhor seleção portuguesa de todos os tempos, eleita pelo jornal francês L'Equipe, antes da final do Euro 2016

Augusto Inácio orgulha-se de fazer parte da melhor seleção portuguesa de todos os tempos, eleita pelo jornal francês L'Equipe, antes da final do Euro 2016

D.R.

Antes de falarmos mais do Sporting e da sua carreira de treinador vamos falar da seleção. Saltillo?
Começa logo na Alemanha com aquele golo do Carlos Manuel e aquilo foi uma coisa...íamos no trajeto para o estádio e soubemos que a Suécia tinha perdido na Checoslováquia e só ganhando é que seriamos apurados. Foi uma cena...Começou nos treinos em Lisboa.

Então?
O Mário Jorge nos treinos era extremo esquerdo e eu era defesa esquerdo. Ele ia à frente mas vir para trás como dizem lá no Porto, “vai no Batalha”, não é preciso. Até que houve uma altura, parou-me o “capacete”, mandei a bola para a bancada fui direito a ele, chamei-lhe tudo e disse-lhe: “Ouve lá, o que estás a fazer aqui é o que vais fazer no jogo e no jogo não podemos fazer isto. Tu vais à frente, tens que vir atrás”. Insultei-o todo. Quando fomos para o jogo, o Torres dá a equipa, jogamos ambos, ele chegou-se ao pé de mim e disse: “Ó amigo, tu só me orientas”. E eu: “Vais fazer uma coisa, o defesa direito quando subir tu vais sempre com ele, se ele for para a casa de banho, vai com ele também, ele não pode é subir porque o extremo eu tomo conta dele. Agora Imagina que os dois se encontram, vais sempre com o teu que eu vou com o meu. Mesmo que o meu vá para o outro lado, eu vou com e ele e se ele for para a casa de banho eu vou atrás dele, o teu é que não podes deixar que ele faça cruzamento”. Quando era o contra-ataque deles eu: “Mário, Mário”. E ele: “Já sei, amigo”. E vinha logo a correr (risos). E por aqui fizeram pouco jogo de perigo. E no final do jogo o Mário Jorge disse: “Eu precisava de um gajo que me orientasse, grande dupla que fizemos”.

E Portugal é apurado ao fim de 20 anos...
Nós não estávamos preparados para aquilo. Os dirigentes não estavam nada preparados para aquilo e quando chegamos lá foi uma confusão. Começou logo com as promoções, publicidades, etc. Mesmo cá em Portugal equipávamos com emblemas da Sagres e por aí fora. E nós pensávamos: “Mas a gente está a fazer publicidade, ninguém fala com a gente, só eles é que ganham a pasta e nós não ganhamos nenhum com publicidade?”. Então viramos as calças e camisolas ao contrário para não se ver a publicidade. E pedimos reunião ao Silva Resende [na altura, presidente da FPF]. Nós sabíamos que havia os patrocinadores, não éramos burros, e que os patrocinadores não entram por simpatia, entram com dinheiro. E cabia-nos uma fatia, tinha que calhar alguma coisa. Começámos a perceber que a federação não queria falar nada disso com a gente.

Até aí. o que ganhavam quando iam representar a seleção?
Ajudas de custo, além das viagens, estadia e alimentação. Davam uns prémios de jogo também.

Augusto Inácio, em Alcochete, durante a entrevista à Tribuna,

Augusto Inácio, em Alcochete, durante a entrevista à Tribuna,

Nuno Botelho

E a tal reunião com o Silva Resende?
Nunca a teve connosco aqui em Lisboa. Falámos com o Amândio de Carvalho, que os jogadores chamavam de “chouriço” com carinho, e perguntámos como era: íamos para o México e queriamos saber com o que contávamos. Então, foi prometido que lá, no México, as coisas se resolviam. Chegámos ao México e as coisas nunca se resolveram. Entretanto, o Joaquim Oliveira vai fazendo contratos de publicidade com jogadores e chegou-se a mim, por exemplo, assim: “Canetas, canecas, sabonetes, Inacio, 100 contos”. Mas havia outros, os Gomes, os Futres, esses tinham de certeza outros valores. Os jogadores nunca diziam, egoístas, quanto recebiam. Eu dizia logo: “Deram-me 100 contos”. Era pouco (risos), mas aqueles que ganhavam muito nunca se abriam. É quando começam a estalar as coisas lá e depois a organização...

Como assim?
Não estávamos preparados. Íamos estar 40 dias em Saltillo, não é brincadeira. Fomos ver o que é Saltillo - é o faroeste e ainda deve haver lá índios. Quando chegámos, fomos para o campo de treinos e o relvado era inclinado e torto. Nos treinos fazíamos buracos como é normal e reclamávamos que o campo estava cheio de buracos e, no outro dia, quando íamos ver, estava com cimento. Tapavam os buracos com cimento (risos). Houve uma altura em que o Futre lesionou-se, vai mais cedo para o quarto dele e quando chega lá os seguranças estavam a roubá-lo (risos). Fumavam charros, os seguranças, era um cheiro (risos). Foram histórias atrás de histórias. Outro exemplo, um jogo amigável em Monterey: chegámos lá e no balneário os empregados estavam a equipar-se ao pé de nós. Vamos para dentro do campo e a outra equipa começa a chegar, começamos a ver: “conheço aquela cara”, “aquela também”. Eram os empregados de mesa que nos serviram o pequeno almoço que iam treinar com a gente. Mas o que é esta merda? Então treinamos uns contra os outros, era o que faltava agora estar a treinar com o cozinheiro e com o empregado de mesa (risos). E esta era a nossa organização. Nunca quiseram dar o peito às balas, nunca quiseram dar a cara, foi uma vergonha e acho que foi a partir daí que começaram a ganhar consciência de que isto não é um torneio de amigos, em que vamos passear e fazer umas compras ao México. Tínhamos que deixar de ser amadores e acho que foi a partir daí que começaram a abrir a pestana. Mas teve que haver este confronto.

Quem eram os lideres?
Quem lia os comunicados era normalmente o Bento, rodeado pelo Diamantino, Carlos Manuel, mas...lembro-me de uma vez ter dito: “A gente pode fazer o comunicado que a gente quiser mas temos de ter algum cuidado e não falar de dinheiros, apesar disto ter a ver com dinheiro, porque as pessoas não entendem. Isto a ganhar é muito bonito, mas se perdermos vão chamar-nos de tudo e mais alguma coisa, vão dizer que somos mercenários”. E assim foi. Enquanto no primeiro jogo, em que ganhamos à Inglaterra era: “Os jogadores merecem, pá, pá, pá”. Perdemos o jogo com a Polónia, ficámos mais ou menos, depois levámos com a ripa com Marrocos. “Mercenários, deixaram mal a nação, o país, só querem dinheiro, seus filhos de uma grande p…”. E ficámos com esta fama toda quando sabíamos que tínhamos a razão do nosso lado. A forma como depois reivindicámos é que estava errada, porque as pessoas não entendiam isto, como é evidente. Sabíamos que havia gente da federação que enchia, desculpe a expressão, o cu de dinheiro à nossa custa. E, claro, reivindicar uma parte era justo, era nosso.

Quando deixa de ser jogador. Foi decisão sua, custou-lhe arrumar as botas?
Foi uma decisão minha, o FC Porto queria que eu continuasse. E essa é mais uma razão porque é que gosto das pessoas do FC Porto. Porque faltam quatro meses para acabar o meu contrato e o Pinto da Costa quer que eu renove mais um ano. Eu disse-lhe: “Presidente, é melhor não. Ir à frente ainda vou, agora para vir atrás, posso vir duas ou três vezes e é preciso vir um camião do lixo para me trazer para trás. O cu já não dá, já não dá para ir e voltar”. Mas o FC Porto tinha uma coisa boa e engraçada, mesmo que um jogador não rendesse como jogador dentro do campo - podia aproveitar esse jogador para render dentro do balneário. Acho que era isso que queriam fazer comigo. Só que eu entendia que tinha de arrancar e avançar por mim. Depois daquela conversa com ele, passado um tempo ele diz-me: “Arranjei aqui uma solução boa para ti. A gente paga-te o salário até ao final da época e vais para o “First Portuguese Toronto” fazer quatro meses que eles querem-te lá.” Era muito dinheiro. Mas eu às vezes penso que sou romântico, se fosse hoje era capaz de fazer isso...não sei. Respondi “Presidente, está a esquecer-se de uma coisa, é que se for para lá acabei a carreira com a camisola do “First Portuguese Toronto” e eu quero acabar a carreira com a camisola do FC Porto, não quero acabar com uma camisola que não conheço de lado nenhum”. Eu sei que ele gostou, embora eu não o tenha feito para agradar-lhe mas pela minha consciência.