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A casa às costas

Frechaut: “O Jorge Mendes chamou-me ao Bessa, de madrugada, e disse: 'Só vais para a Rússia se fores comigo'. Ele não era o meu empresário”

Além de V. Setúbal, Boavista e SC Braga, Nuno Frechaut representou o Dínamo de Moscovo e o Metz, entre outros clubes. Depois de arrumar as botas já treinou camadas jovens, foi diretor desportivo mas é como agente de jogadores que se apresenta agora. Dedicado à família, diz que não gosta de falar da vida pessoal, mas acaba por confessar como um acidente de viação o marcou para sempre

Alexandra Simões de Abreu

Fred Marvaux

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De onde vem o nome Frechaut?
Da parte da minha mãe. A minha bisavó era francesa, o nome vem daí. O meu apelido é Barreto, da parte do meu pai, mas o nome pelo qual fiquei conhecido foi Frechaut porque acharam mais engraçado.

Qual a era a profissão dos seus pais?
O meu pai era serralheiro tubista e a minha mãe funcionária de uma escola.

Onde viviam?
Nasci em Lisboa, mas com poucos meses mudámo-nos para Setúbal. Fiquei lá até começar a minha carreira profissional.

Tem irmãos?
Tenho duas irmãs mais novas, que têm menos três e menos sete anos do que eu.

Na sua família já havia alguém ligado ao futebol?
Os meus pais são os dois moçambicanos e o meu pai diz-me que jogou futebol em Moçambique, com o Shéu e o Nené. Jogaram juntos na infância. Na altura, creio que até houve um convite da Académica, mas a minha avó não permitiu que ele viesse para Portugal para jogar futebol. É esta a história que ele me conta.

Os seus pais vieram para Portugal quando?
Em 1977.

Calculo que tenha começado a jogar à bola na rua como qualquer miúdo.
Sim, na rua no meu bairro, o bairro do Índios, ao lado da Bela Vista. Quase todos os dias jogávamos à bola

E da escola, gostava ou nem por isso?
Gostava da escola, não era mau aluno, mas aplicava-me só quando era necessário. Só para dar um exemplo, no 5º e no 6º anos, quando tinha mais negativas do que as que devia, se chegasse ao 2º período com três ou quatro negativas, o meu pai proibia-me de ir treinar e acabava por recuperar as notas facilmente e passava sem uma nega. Mas era preciso haver esse tipo de pressão para que eu me aplicasse um bocadinho mais na escola.

Nuno Frechaut em bebé

Nuno Frechaut em bebé

D.R.

Quando é que inicia o futebol num clube e em que clube?
Para além de jogar no bairro, comecei a jogar futebol de cinco no Núcleo Recreativo e Desportivo Ídolos da Praça que era um pequeno clube do bairro. Fiz um primeiro treino de futebol de onze ainda com os Ídolos da Praça, e tive a felicidade de estrear umas botas que eram quatro ou cinco números acima, mas estava todo contente porque eram umas botas de futebol que tinham pitons.

Quando começou no futebol de cinco tinha que idade?
Era muito novo, tinha cinco/seis anos.

Como é que surge o V. Setúbal?
Tinha um vizinho que jogava no V. Setúbal e com quem jogava na rua, que me disse para eu ir lá fazer uns treinos. Era o Joca, morava no 2º andar, salvo erro; eu morava no 8º. Eu disse-lhe que gostava, mas que se calhar a minha mãe não ia deixar porque era longe da Bela Vista. Não era fácil e nem havia condições financeiras para haver esse tipo de deslocações, mas lá chateei tantas vezes a minha mãe que ela levou-me para fazer um treino com os da minha idade.

Tinha quantos anos?
Uns seis, sete anos.

E como é que correu?
Fiz dois treinos de captação, no segundo treino disseram que tinham gostado bastante de mim e que queriam que eu continuasse. Fiquei muito contente, a minha mãe é que não gostou muito da ideia. Mas, depois, estiverem a falar com ela e comprometeram-se a ajudar com o passe para poder ir fazer os treinos ao V. Setúbal, que fica no centro da cidade. E começou assim.

Nuno Frechaut em criança

Nuno Frechaut em criança

D.R.

No início jogava como defesa ou como médio?
Fui à experiência como defesa, mas depois acabei por ser escolhido para ir mais para a frente. Joguei como médio, como extremo direito e fiz todas as camadas jovens como médio e como extremo.

Foi fazendo sempre a escola ou deixou de estudar?
Deixei de estudar quando comecei a treinar com os seniores do V. Setúbal - tinha 17 anos. Lembro-me perfeitamente que o mister Quinito me chamava com alguma regularidade para treinar com os seniores e, um dia, quando soube que eu tinha deixado a escola, chamou-me e disse que se eu não voltasse para a escola, não voltava a jogar com a equipa principal.

E voltou para a escola?
Voltei, claro (risos).

Quando deixou a escola estava em que ano?
Tinha 17 anos, nunca tinha chumbado, devia estar no 10.º, 11.º ano.

E terminou o 12.º ou não?
Não. Fiz o 11.º ano, depois o mister Quinito saiu e, entretanto, nesse mesmo ano, fiz um contrato profissional e com a chamada à seleção e tudo mais, acabei por deixar a escola nessa altura e não cheguei a terminar o 12.º ano. Completei o 12.º mais tarde.

Nuno Frechatu com os pais e uma das irmãs

Nuno Frechatu com os pais e uma das irmãs

D.R.

Assinou o primeiro contrato profissional com 17 anos?
Sim, foi a minha mãe que assinou, salvo erro.

Recorda-se de quanto ganhava?
Acho que eram 120 contos (600 euros). Era muito dinheiro e para a minha família fazia muita diferença. Lembro-me que, quando recebi o primeiro salário, disse à minha mãe para irmos ao Jumbo, para ela escolher uma máquina da loiça. Ela não queria, disse que nem pensar, que eu estava maluco. Insisti, disse que íamos descansar um bocadinho de lavar a loiça; pedi-lhe para ela escolher a máquina. Ela escolheu mais barata (risos). Disse-lhe que não, que ia levar a aquela que custava 90 contos (450€), quase o dinheiro do salário, mas comprei a máquina e para mim foi uma alegria poder ajudá-la.

Comprou alguma coisa para si, lembra-se?
Já não sei o que fiz com o pouco que sobrou. Sei que depois comprei a minha casa ainda a ganhar 120 contos (600€), já não me lembro se foi logo no ano seguinte ou não.

Em Setúbal?
Sim, comprei casa ao lado dos meus pais; eles já tinham mudado de casa, entretanto.

Nuno Frechaut com os primos e irmã

Nuno Frechaut com os primos e irmã

D.R.

Tinha quantos anos quando foi chamado a primeira vez à seleção?
Comecei nas selecções cedo, nos sub 15.

No V. Setúbal, depois do Quinito quem é que apanhou como treinador?
Quando assinei o meu primeiro contrato profissional comecei a treinar com o mister Mário Reis, nos seniores.

Já namorava?
Só comecei a ligar a isso um bocadinho mais tarde, entretanto só via futebol e berlindes.

Berlindes?
É maneira de dizer, eu só via futebol, era a minha paixão, era o meu sonho.

Não tem nenhum episódio divertido dos tempos do V. Setúbal?
Lembro-me de um, na véspera de um jogo. Devia ter 19 ou 20 anos, já estava na primeira equipa do V. Setúbal, e eu ficava no quarto com o Mário Loja, éramos os mais novos da equipa. Éramos brincalhões e um pouco inconscientes, e após o almoço vínhamos a brincar no corredor e ele pegou no extintor do hotel e ameaçou que ia disparar. Eu tirei-lhe aquilo das mãos, tirei a cavilha e disparei. Só que eu não sabia que aquilo fazia tanta fumarada. Foi só um toque pequeno no extintor mas saiu imenso pó que encheu o corredor. Ficámos apavorados, deixámos o extintor no sítio e fomos a correr para o quarto (risos). Passados alguns minutos, fui ao corredor e encontrei o Hélio, que era nosso capitão, e o Mamede, e disse-lhes: “Alguém já fez asneira no corredor” (risos). O diretor do hotel entretanto chamou o treinador e houve reunião de grupo para saber quem foi e assumimos a culpa.

Qual foi o castigo?
Na altura o mister Cardoso virou-se para nós e disse: "Amanhã jogamos contra o Benfica e a única coisa que vocês têm de fazer para se redimirem é serem os melhores jogadores em campo". E a verdade é que ganhámos esse jogo e estivemos os dois bem (risos).

Frechaut fez toda a formação no V. Setúbal

Frechaut fez toda a formação no V. Setúbal

D.R.

Quem foram os jogadores do V. Setúbal que mais o marcaram?
Tive colegas fantásticos. Tive colegas que me ajudaram muito na transição. O Pena, o Chiquinho Conde, o Chipenda, o Ayew. Tenho esses jogadores como referências, ajudaram-me davam-me boas indicações.

Ficou a viver com os seus pais até ir para o Boavista cinco épocas depois?
Fiquei e, mesmo estando no Boavista, quando ia a Setúbal, mesmo tendo casa, ficava com eles.

Como é que surge o Boavista? Tinha empresário?
Tinha empresário, mas na altura em que surgiu o Boavista não foi através do empresário.

Mas quem era o seu empresário?
O Kostov. Era o empresário do Ayew, um avançado muito bom que tínhamos. Quis falar comigo e com os meus pais e eles acharam que se calhar seria a melhor opção.

Estava a dizer que não foi através dele que foi para o Boavista, então foi como?
Não, porque entretanto passou-se um ano, passaram-se dois anos e rescindimos contrato. E o mister Jaime Pacheco que sempre mostrou algum interesse em mim, fez-me chegar esse interesse através do presidente do clube, o João Loureiro, com quem me cruzava algumas vezes nas seleções porque fazia viagens connosco. Ele já me dizia que um dia havia de ver-me de xadrez. Um dia, o mister Jaime Pacheco chamou-me a uma casa que ele tinha, não sei se ainda tem, em Palmela. No tempo de férias eu tinha feito um torneio de futebol de 7, em Palmela, e ele chamou-me lá a casa.

Aceitou na hora?
Não, nem poderia porque tinha contrato com o V. Setúbal. Ele disse que gostava de mim, que me apreciava, perguntou se eu gostaria de trabalhar com ele. Disse obviamente que sim. Entretanto as negociações seguiram via clube.

Frechaut, o segundo em cima à esquerda, numa das equipas que representou no V. Setúbal

Frechaut, o segundo em cima à esquerda, numa das equipas que representou no V. Setúbal

D.R.

Como foi a mudança de Setúbal para o Porto?
Gostei muito, porque Setúbal já estava a ser uma cidade pequena para mim, já passava grande parte do tempo em Lisboa. E quando fui para o Porto, senti que era aquilo que me estava a fazer falta. Senti que em termos futebolísticos, para o futebol que praticava, devia ser um bocadinho mais aguerrido e via grandes diferenças nas camadas jovens entre o futebol que se pratica no centro e sul do país para o futebol que se praticava no norte. Achava que devia de ganhar um bocadinho mais dessa garra. E foi isso mesmo que vim acrescentar ao que já tinha.

Foi viver para onde?
Para Gaia. Respondendo à sua questão, não foi uma mudança difícil porque, quando vim, nas duas primeiras semanas vim sozinho, mas depois tive sempre a companhia do meu pai, da minha mãe ou da minha tia. E sempre que tinha oportunidade estava com a minha família direta em Setúbal.

E ainda nada de namoros?
Havia um namoro, que para mim era sério, com uma rapariga de Setúbal.

Ela não quis ir viver consigo para o Porto?
Nem se punha a hipótese, éramos muito novos (risos). Nem eu pensei dessa forma, nem ela com certeza.

Há pouco dizia que achava que Setúbal já era pequena para si e que passava a vida em Lisboa. É nessa altura que começa a fazer as noitadas, ir às discotecas?
Não, eu nunca fui muito disso.

Não?
Não, por acaso não. Não lhe vou dizer que nunca saí, saí várias vezes, mas nunca fui de fazer noitadas porque sou daquelas pessoas que não conseguem dormir durante o dia. E então, como não conseguia recuperar, passava os dias fechado, cheio de dores de cabeça e acabava por não gostar. Preferia ficar em casa com os meus amigos, mais do que ir para a discoteca. Não era coisa que me atraísse. Saí algumas vezes sim, mas nada de mais.

E no Porto?
Tentei levar a mesma vida. A exigência para além de ser maior, parecendo que não, os clubes também têm outro peso e os próprios diretores sabiam o que é que se passava. Se havia algum jogador que saía durante a semana ou tivesse um comportamento menos correto, as coisas sabiam-se logo.

Frechaut, à esquerda, já com a camisola do Boavista

Frechaut, à esquerda, já com a camisola do Boavista

David Davies - PA Images

Quando chegou ao Boavista foi logo campeão. Qual é a sensação de ser campeão pela primeira vez como sénior?
Foi uma época fantástica, foi uma época de muita luta, de muito sofrimento, em que demos tudo. Tínhamos um grupo fantástico, éramos mais do que as pessoas dizem. Muitas dizem que éramos uma equipa de sarrafeiros. Éramos realmente uma equipa muito agressiva, era uma equipa que se calhar o futebol português não estava à espera. Para além de ser uma equipa agressiva, tinha qualidade e jogadores com muita qualidade e acabámos por conseguir chegar ao final do campeonato na frente e foi muito merecido. Todos os jogadores estiveram unidos, todos sabiam o que é que queriam fazer, qual era o objetivo. E foi muito bom, muito bom.

Desses tempos no Boavista com quem é que estava mais, com quem é que saía mais?
Tenho bons amigos. Gostei muito do William, do Moreira, com quem estive só um ano no Boavista, mas que é um dos meus melhores amigos; o Martelinho, uma pessoa que cria bom ambiente no balneário e que todos os dias entra com o mesmo sorriso e nos dá aquela motivação extra; o Cafú, o Éder, o Paulo Turra, o Lucas, que infelizmente já não está connosco e que me deixa muitas saudades. Estar a mencionar o nome dos jogadores todos é muito complicado.

D.R.

É quando está no Boavista que começa a namorar a sua atual mulher?
Sim.

Como é que a conhece?
A Luísa trabalhava em transitários e eu conheço-a através de uma amiga, no Porto.

Casaram quando?
Começámos a namorar em 2001 ou 2002 e casámos só em 2009.

Na altura do Boavista falou-se na sua eventual saída para o Sporting.
Houve uma especulação em relação ao Sporting e não só, houve outros clubes.

Que outros clubes?
Aquilo que se ouvia falar, era o Sporting, o Benfica, o FC Porto...Mas nada disso se deu.

Tinha alguma preferência?
Não, naquele momento não. E, como disse, o Boavista estava a passar por uma fase fantástica.

Não queria sair?
Tinha essa ambição de sair, de jogar num dos três grandes, e o Boavista claro, também faria parte do lote dos quatro grandes.

Porque é que nunca se concretizou jogar num dos três grandes?
Não sei... sabe que essas coisas ultrapassam-nos um bocado. Às vezes não basta nós querermos.

Tinha empresário?
Tinha, na altura era o Lucídio Ribeiro que me representava.

Frechaut num lance acrobático enquanto jogador do Boavista

Frechaut num lance acrobático enquanto jogador do Boavista

Phil Noble - PA Images

Quando era pequeno torcia por que clube?
(Risos) Está a pôr-me numa posição muito complicada...

Porquê?
Porque sim, porque o que eu faço agora... dificulta-me a resposta. Agora faço intermediação, se disser que torço por este ou aquele clube, fica um pouco mais complicado. Posso dizer que a minha família, sublinho, a família, da parte do meu pai, era toda benfiquista. Mas nunca me disseram que tinha de jogar no Benfica ou que o sonho deles seria que eu jogasse no Benfica. Nunca ouvi o meu pai dizer nada disso. Sabia que eu gostava muito de futebol e que lutei muito para chegar onde estava. Eles queriam que eu fosse feliz, jogasse onde jogasse.

Fez o apuramento para o Euro2004, mas não foi convocado. Percebeu porquê?
Não fiz parte da convocatória final. Fiz os Jogos Olímpicos.

Que correram mal. O que é que aconteceu para aquilo ter corrido tão mal?
Em termos gerais foi mau, na verdade os resultados não foram os melhores. Em termos pessoais, fui para os Jogos Olímpicos com uma fissura na bacia, na crista ilíaca. É uma dor alucinante quando se treina.

Como é que contraiu essa fissura?
Num treino e foi bastante impeditiva para mim.

Então por que razão foi assim?
Porque fui chamado e como era um dos jogadores que poderia vir a substituir alguém em caso de lesão... Ou então achavam que era uma maneira de compensar aqueles que não foram chamados ao Europeu... É o meu ponto de vista, posso estar errado.

Preferia não ter ido?
Gostava de ter ido noutras condições físicas. Simplesmente estou a dizer que, em termos pessoais, fisicamente, não estava no melhor nível. Obviamente que queria ir e quero sempre representar o nosso país. Nunca iria dizer que não. De perna partida, fosse como fosse. Se me pergunta se estava nas melhores condições, vou-lhe dizer que obviamente não estava.

Essa participação nos Jogos Olímpicos prejudicou-o?
Talvez em termos de recuperação, foi uma recuperação um bocadinho mais morosa. Com os treinos e com os jogos, se calhar demorou um bocadinho mais.

Frechaut já com as cores do SC Braga

Frechaut já com as cores do SC Braga

MIGUEL RIOPA

Como é que surge o Dínamo de Moscovo?
Na altura já se falava que havia a possibilidade de ir para a Rússia, e recebi um telefonema a meio da noite, do Jorge Mendes, em que me diz que quer falar comigo urgentemente. Eu disse-lhe que falávamos no dia seguinte, mas ele insistiu e disse que precisava que eu fosse ao estádio do Bessa naquele momento. Ainda lhe lembrei que era de madrugada, mas ele insistiu. Fui então ter com ele ao Bessa. Perguntou-me se queria ir para a Rússia. Disse-lhe que estava quase tudo certo, faltavam uns pequenos detalhes com o clube, mas que isso era com o presidente e não comigo. E ele disse-me: “Não, só vais para a Rússia, se fores comigo”. E eu: “Mas Jorge não posso ir contigo porque acho que já está quase tudo tratado”. Ele insistiu e disse que só iria se fosse com ele e entregou-me uma declaração do presidente do Dínamo de Moscovo, que tinha acabado de comprar o clube, a dar-lhe plenos poderes para fazer a negociação. Caso contrário, se não fosse através dele, não iria.

Mas o Jorge Mendes não era o seu empresário, pois não?
Não, mas na altura passou a ser o meu empresário.

Então quem é que estava a negociar a sua ida para a Rússia?
O Lucídio Ribeiro.

Que ficou zangado consigo, calculo.
Ficou, ficou magoado porque tínhamos uma relação de amizade, acima de tudo. Mas penso que acabou por compreender, porque fiz questão de ir logo ter com ele para contar-lhe exatamente o que se passou, quando voltei a Portugal. É que há aqui história pelo meio.

Que história é essa?
Depois de me mostrar a documentação assinada pelo presidente, o Jorge Mendes disse-me que tínhamos de ir imediatamente para o Mónaco. Apanhámos logo o primeiro vôo, às sete e tal da manhã, para ir fazer os exames médicos porque era lá, no Mónaco, que o presidente vivia. Chegámos ao Mónaco, fomos recebidos no aeroporto por um motorista que nos dirigiu para um apartamento. Nisto, veio um senhor de cabelo grisalho, de fato de treino, abrir-nos a porta. E eu pensei: "Quem será esta senhor? Para estar vestido de forma tão descontraída, deve ser provavelmente um funcionário do presidente". Ele pediu para nos sentarmos, sentou-se à nossa frente e começou a falar. “Fogo, este é o presidente”, uma pessoa super simples, super acessível, muito simpático. Criámos uma empatia grande e a partir daí as coisas tornaram-se muito mais fáceis. Explicou-me como é que tinha sido a vida dele, porque é que tinha entrado no futebol. Basicamente, ficámos amigos e no ano em que estive na Rússia mantivemos uma amizade muito boa. Nisto, fiz os exames médicos, no Mónaco, e voltei para Portugal. Cheguei a Lisboa e fui diretamente ter com o meu agente para lhe explicar. Nesta altura, em 2005, eu já tinha um filho, que nascera em 2003.

Era uma boa oportunidade que não queria desperdiçar. Mas o seu empresário, Lucídio Ribeiro, deve ter ficado bem chateado.
Ficou. Como já mencionei, para além de meu agente eu tinha uma relação muito próxima com ele. Ele era meu amigo de casa, ele dormia lá em casa com a minha família, com os meus pais, almoçávamos e jantávamos, foi uma pessoa muito importante para mim, era um amigo, não era pura e simplesmente um agente. E com toda a consideração que eu tinha por ele, eu sabia que mostrando a documentação - como lhe mostrei a documentação e dizendo que a vida e a carreira de um jogador de futebol é muito curta - ele iria compreender. Eu tinha família, ele sabia disso, tinha que aceitar nem tinha como dizer que não. Obviamente que essa pessoa merece todo o carinho e toda a minha consideração.

Frechaut começou a representar a seleção nacional muito cedo, nos sub-15

Frechaut começou a representar a seleção nacional muito cedo, nos sub-15

Neal Simpson - EMPICS

Foi para a Rússia sozinho ou foi com a mulher e o filho?
No início fui sozinho, até porque tinha de arranjar casa e quando nos reunimos com o Dínamo de Moscovo, reunimo-nos em Espanha. O primeiro contacto que tive com a equipa foi em Espanha, onde passámos 15 dias. Só voltámos para a Rússia na semana em que ia começar o campeonato e só depois é que ia ver a casa e as condições, etc.

A família depois foi viver consigo para Moscovo?
Não porque o meu filho desde muito cedo, desde os seis meses, que começou a ir para o infantário, sempre conviveu com crianças ao redor dele. Sempre teve a escolinha e os seus amigos com quem brincar e essa foi uma grande dificuldade quando eles foram ter comigo à Rússia. Nos primeiros tempos, além das condições climatéricas, havia sempre neve, as condições para os miúdos brincarem eram complicadas. Era uma tarefa muito difícil encontrar outros miúdos com quem ele brincasse. Até que, ao ver o meu filho em Portugal e ao vê-lo na Rússia, percebi que ele não estava a ser feliz, faltava-lhe alguma coisa. Estava sempre com o pai, com a mãe e com a avó (a minha sogra), mas faltava-lhe as outras crianças. Houve um dia que estávamos num jardim e estavam duas, três crianças mais ou menos da idade dele a brincar e ele estava a tentar entrar dentro do grupo para brincar e eles pura e simplesmente foram brincar para outro lado e deixaram-no lá, sozinho. Ele olhou para mim, eu olhei para a minha mulher e disse que não dava. Nem ele estava a ser feliz, nem nós lhe estávamos a proporcionar a felicidade que ele merecia. Por isso, era melhor ela voltar. Foi o que aconteceu.

Foi difícil a adaptação para si? O que é que foi mais difícil?
Para ser sincero, quando desci do avião e enterrei os pés na neve a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “O que é que eu estou aqui a fazer?". Esta foi a minha primeira sensação, não minto, já contei aos meus amigos pessoais. “O que é que eu estou aqui a fazer com um frio de rachar?”. (risos). É estranho, não é? Assinamos por um clube, estamos três semanas com a equipa do clube, está tudo impecável, tudo excelente e quando chegamos ao país que vamos habitar e viver, pensamos o que é que estamos aqui a fazer. Os treinos em Espanha foram maravilhosos, os jogos espetaculares e quando cheguei à Rússia, nada, mas nada que se passasse na minha cabeça me faria pensar naquilo que me atravessou o pensamento naquele momento. Foi uma coisa, um frio de rachar, uma coisa assim alucinante. Depois foi toda a adaptação.

Ao longo dos anos Frechaut foi colecionando as camisolas dos clubes por onde passou

Ao longo dos anos Frechaut foi colecionando as camisolas dos clubes por onde passou

D.R.

Gostou dos russos?
Gostei das pessoas, gostei dos russos. As pessoas com quem contactei já tinham estado fora de Moscovo, e essas pessoas têm uma visão completamente diferente dos russos típicos que nunca saíram ou que têm a mente mais fechada. Essas pessoas quando são amigas, são mesmo muito amigas e tive a felicidade de conhecer vários russos de quem continuo amigo. Mas no geral a população é muito fechada. Éramos vistos dentro do clube como alguém que, além de ser estrangeiro, tinha de acrescentar qualquer coisa de diferente ao futebol russo. E por isso olhavam para nós com um bocadinho mais de respeito e de admiração. Trazíamos responsabilidade extra, apesar de já estarmos habituados a isso. Mas temos de compreender que a cultura deles é muito diferente da nossa.

Está a referir-se em concreto a quê?
Nós desde miúdos que estamos habituados a ter horários para treinar, para a alimentação, ninguém se levanta da mesa sem que a equipa se levante, ninguém vai comer sozinho, vai o grupo todo. Chegamos ao treino e cada um tem o seu cesto de roupa. Desde pequenos que é assim. Lá fomos encontrar uma realidade completamente diferente. A partir do momento em que chegámos a um balneário e fomos à procura da nossa roupa, olhámos para o chão e havia um monte de meias, depois outro monte com calções, outro com camisolas... e ter que andar ali à procura das nossas coisas... Eu respeito, mas estamos a falar do Dínamo de Moscovo. Só que é a cultura deles, não é coisa a que dêem grande importância, nós é que temos de nos integrar, porque estamos no país deles. Mas com o tempo as coisas foram mudando porque o próprio presidente era o primeiro a querer saber o que podia fazer para melhorar. Tinha acabado de comprar o clube e estava sempre a pedir-nos opinião. E começámos com estas coisas simples.

E a casa, quem escolheu?
Quando cheguei. disse que tinha família e que gostava de dar-lhe as mesmas condições que tinha cá. A primeira casa que me mostraram tinha nove quartos. Disse logo: eu não posso ficar aqui porque vou sujar isto tudo e não vou conseguir limpar, nem pensar. É demasiado grande. O Danny, que na altura tinha gémeos, disse que a casa era ideal para ele; o Jorge Ribeiro ficou com outra igual, ao lado. Eu insisti que queria uma coisa mais pequena. Então, arranjaram-me um casa em madeira, com uma cerca em madeira à volta, muito gira, e quando entrei tinha quatro ou cinco quartos, quentinha, confortável, um pátio enorme, garagem. Na altura o pátio estava coberto de neve, mas quando veio a primavera, começou tudo a ficar verdinho e na parte de trás da casa havia dois lagos com uma ponte por cima; tinha sauna. Ou seja, só depois é que me apercebi de como espetacular era a casa. Foi a melhor escolha. Não fazia ideia de como são boas as casas em madeira e repare que estamos a falar de condições extremas, com neve.

Falava em inglês com os colegas?
Sim. Mas nem todos os russos sabem inglês. Aprendemos palavras base, relacionadas com o futebol, como bola ou baliza, para podermos comunicar dentro do campo. Mas para qualquer comunicação com o treinador ou com os colegas fora e mesmo dentro do balneário tínhamos um tradutor.

Frechaut com os seus dois cães, Chocolate e Mel

Frechaut com os seus dois cães, Chocolate e Mel

D.R.

Quem foi o primeiro a chegar à Rússia, o Danny, o Jorge Ribeiro?
Fui eu. Depois foi o Danny, o Jorge Ribeiro, Tiago Silva, Cícero, estava também o Derlei, brasileiro.

Conviviam entre vocês?
Algumas vezes juntávamo-nos até porque grande parte deles levou a família. Depois, juntou-se o Costinha e o Maniche e o Seitaridis. De vez em quando, como todos tínhamos lá família, juntávamo-nos, mas quando a minha mulher e filho vieram para Portugal, andava ali a ver quem é que estava soiznho, quem não estava.

A sua mulher e filho estiveram lá quanto tempo?
Mais ou menos três meses.

O Frechaut esteve lá um ano, como correu a época desportivamente?
Foi uma época difícil. Desportivamente gostava de ter conseguido melhores resultados porque é um clube fantástico.

Estranhou muito o futebol russo? Foi isso o mais difícil?
No meu caso o mais difícil foi a adaptação ao clima e aos sintéticos. Eu sei que isto vai parecer como o bailarino que quando não sabe dançar diz que a culpa é dos sapatos, mas realmente tive grandes dificuldades nos sintéticos, porque tive uma lesão na tíbia durante muito tempo, que não me ajudava também. Em termos desportivos não foi fácil.

E a nível familiar também não correu pelo melhor. É por isso que vem embora?
Sim, tudo pesou na hora de vir embora. Tive colegas que se adaptaram muito bem e continuaram lá durante bastantes anos, mas de facto a minha adaptação não foi tão boa.

E veio sem dramas?
Na hora de vir embora, falei com o presidente, já se falava do meu regresso a Portugal. O presidente disse que eu faria o que entendesse. Tinha uma boa relação com ele, muito próxima. Fui eu que acabei por decidir e decidi vir para mais perto da família.

Foi que pesou mais?
Sem dúvida. Quando se está no aeroporto a despedir da família e há um filho que diz "não vás pai, fica"... O corpo vai mas a cabeça e o coração ficam e isso é muito complicado.

Frechaut em ação num jogo pela seleção nacional

Frechaut em ação num jogo pela seleção nacional

PASCAL GUYOT

Quando regressou já tinha assegurada a mudança para o SC Braga?
Na altura, tinham-me dito que havia a possibilidade de eu ir para o FC Porto. Obviamente fiquei muito agradado com a situação.

E não se concretizou porquê?
É sempre uma incógnita. Não sei. Sei que na altura o professor Jesualdo Ferreira, que estava a treinar o SC Braga, entrou em contacto comigo e disse que gostava muito que eu fosse para o SC Braga. Entretanto o presidente Salvador também me ligou e disse que gostava muito que eu fosse para o SC Braga. Eu nunca digo que não por respeito e porque nunca sabemos o dia de amanhã. Disse só que precisava de refletir. Passaram-se uma ou duas semanas, as coisas não evoluíam com o FCP, continuava a haver interesse do SC Braga e então decidi ir para Braga.

Além do Jesualdo Ferreira que outros treinadores apanhou em Braga?
O Carvalhal, Jorge Gonçalves, Jorge Costa, Jorge Jesus e Domingos.

Dessas quatro épocas e meia em Braga que recordações maiores é que tem?
Braga foi fantástico. Apanhei um SC Braga em crescimento, já era um clube grande, mas apanhei-o num crescimento brutal, com um presidente super ambicioso, com um treinador e jogadores de grande qualidade. Para mim foi voltar a viver o futebol com a alegria a que estava habituado e foi o conquistar da minha posição novamente, marcar a minha posição e dizer estou aqui, e quero ficar aqui muitos anos. Gostei muito do clube e da cidade.

Não houve nenhuma situação menos boa?
Situações menos boas passamos sempre, em treinos, em disputas com colegas, mas isso faz parte do futebol, para mim não é estranho.

Frechaut jogou no Metz, mas uma lesão e o afastamento da família ditaram o seu regresso

Frechaut jogou no Metz, mas uma lesão e o afastamento da família ditaram o seu regresso

Icon Sport

Alguma vez foi praxado?
Fui praxado em Setúbal, com a célebre entrada em campo onde os jogadores mais velhos fazem um túnel e temos de passar e aguentar com tudo aquilo que nos for atirado. No Boavista, foi igual. Num dos treinos o professor mandava-nos ficar deitados no final de olhos fechados para descontrairmos e relaxarmos e quando abríamos os olhos estávamos sozinhos no relvado e toda a gente já estava no balneário. Passei por essa situação no Boavista. Em Braga já não fui praxado. Praxei (risos).

E na seleção, quem era os seus concorrentes nessa altura?
Depende, se fosse como lateral direito, havia o Paulo Ferreira e o Bosingwa, se for no meio campo a concorrência é enorme, é só dizer nomes.

Saiu do SC Braga para o Metz. Como é que isso aconteceu?
O Metz é um clube que já me abordava há algum tempo. Cheguei a falar com o presidente e com o diretor desportivo porque queriam que fosse representar o clube que estava na II Liga mas tinha ambições de subir e se subisse gostavam que eu fosse. Disse-lhes que tinha contrato com o SC Braga, que teriam de falar com o presidente e que, se chegassem a acordo, eu pensaria nisso. O tempo passou, eles não conseguiram subir à I divisão, eu estava no meu último ano de contrato com o SC Braga e o Metz fez-me uma proposta no último dia de inscrições. O diretor desportivo do SC Braga chamou-me, apresentou-me a situação, disse que o Metz tinha feito uma boa proposta, para o clube e para mim, e que eu é que decidia. Fui falar com o presidente, disse-lhe que a proposta do Metz era para assinar por três anos, enquanto no SC Braga estava em final de contrato. Ele disse: "Olha Nuno, tu é que vais decidir não é o dinheiro que o Metz vai pagar por ti que vai fazer a diferença, tu vais decidir se queres ficar aqui ou se queres ir. Eu para já não te posso dizer que vou assinar um contrato contigo". Estávamos no início da época, ia fechar o mercado naquele dia, e do outro lado tinha três anos de contrato garantidos. Isso pesou na hora da decisão.

Decidiu mesmo em cima da hora?
Sim, a minha decisão teve de ser muito rápida porque ou era inscrito naquele dia ou então...

O que pesou mais?
Aí pesa tudo. Temos que pensar que temos uma família, temos de ver quais são as possibilidades da família mudar para lá, se Metz seria ou não uma cidade a que a família se adaptasse. Tudo isso a pesar e temos de decidir em minutos. E a minha decisão foi tomada a pensar numa coisa que me desse alguma estabilidade. Acabei por ir para o Metz porque era trocar uma incerteza por uma certeza de três anos.

Quando deu a notícia à sua mulher qual foi a reação?
A minha mulher nunca me impediu, nem foi um travão ao que eu quis fazer. Ela nunca travou nenhum dos meus sonhos e vice-versa. Sempre respeitámos muito o trabalho um do outro. Metz é um bocadinho mais perto do que a Rússia. Na altura eu tive 30 minutos para tomar uma decisão. Entre telefonemas com ela e a pressão do clube para eu ir, decidimos por bem trocar o SC Braga pelo Metz.

Nessas alturas o dinheiro conta muito...
Exatamente.

Hugo Viana, Paulo Sousa Frechaut, Figo e Abel Xavier, num encontro da seleção,

Hugo Viana, Paulo Sousa Frechaut, Figo e Abel Xavier, num encontro da seleção,

D.R.

Qual foi o clube onde ganhou mais dinheiro?
Dínamo de Moscovo.

Quando foi para o Metz a família foi consigo?
Não, fui sozinho, à procura de casa para me estabelecer. Quando cheguei ao Metz, estive um mês e meio a viver num hotel e à procura de casa. Não encontrava, mas tive um senhor amigo com quem criei grande amizade, e de quem continuo amigo até hoje, que se chama Antonino, e que me ajudou nesse sentido.

Como é que o conheceu?
Ele vive no Luxemburgo e ia muitas vezes a Metz, víamo-nos muito no final dos jogos porque, em França, quando acabam os jogos, temos de passar nos camarotes dos patrocinadores e foi assim que o conheci. Uma pessoa fantástica que me ajudou a encontrar a casa que eu pretendia. Fiquei a viver no Luxemburgo.

Como foi a adaptação da família dessa vez?
Já tinhamos a nossa filha que nasceu em 2006. Não foram viver comigo, iam sempre que havia disponibilidade escolar. E eu sempre que tinha dois, três dias, também vinha para cá. O período mais longo em que estivemos sem nos ver foi um mês e meio. Foi logo a seguir a ter saído de Portugal.

E a sua adaptação como foi?
Gostei muito de Metz, gostei muito do Luxemburgo. De vez em quando ainda vou ao Luxemburgo.

E desportivamente?
Foram duas épocas e meia. Tínhamos o objetivo principal, quando cheguei, de subida à I divisão. Coisa que não aconteceu. Mesmo em termos de Taça, também não nada por aí além.

D.R.

O que fazia nos tempos livres?
Quando tinha mais tempo livre, como tenho o meu pai na Holanda, que fica a duas horas de caminho, ia ter com ele. Na altura vivia lá com a minha mãe, mas ela entretanto foi para Moçambique.

Porquê?
Afastaram-se. Ela gosta mais de lá estar. Estão felizes os dois, ainda há pouco tempo estiveram juntos e fico agradado por eles continuarem amigos.

Como fazia com as refeiçõe, ia sempre a restaurantes ou gosta de cozinhar?
Gosto de cozinhar.

Tem jeito?
Eu acho que sim e as pessoas também dizem que sim. Não tenho jeito é para arrumar depois (risos). Acho que os utensílios quando foram feitos, foram feitos para utilizar. E enquanto as mulheres são capazes de usar o mesmo utensílio para fazer muita coisa, eu tenho que utilizar os utensílios todos, o que é uma chatice.

Qual é o seu melhor prato?
O que as pessoas mais gostam é da carne no forno. Faço vinha de alho de um dia para outro e depois vai ao forno.

Fui embora porquê?
Estava a sentir que precisava de estar mais presente na família. Os meus filhos reclamavam a minha presença e eu sentia que também precisava muito deles. Quando voltei a Portugal já não vim com sentido de continuar a jogar, até porque contraí outra lesão, uma fissura no perónio - devia ter sido operado e não fui, fiz apenas uma paragem de duas ou três semanas, o que provocou desgaste da cartilagem no tornozelo. Quando isto tudo foi detetado, já foi tarde. Corria 10 minutos, inchava o tornozelo e começava a doer-me bastante. Quase não conseguia treinar e por isso tive de dizer que queria voltar para casa e já não iria jogar futebol.

Nessa altura já tinha pensado no seu futuro, no que iria fazer profissionalmente?
Não, apenas sabia que viria para casa, fazia uma paragem e pura e simplesmente queria estar algum tempo com a família e depois decidiria com calma.

Frechaut junto da sua foto no SC Braga

Frechaut junto da sua foto no SC Braga

D.R.

Mas acabou por ir jogar para a Naval.
Fiz uma pausa e toda a gente achava que ia parar. No início parecia bom, durante um mês ou dois pareciam férias, mas depois comecei a chatear toda a gente.

Porquê?
Não sei, se calhar precisava do desgaste físico, da emoção do balneário, da emoção dos jogos. E percebi que ainda necessitava de sentir outra vez o pulso a um balneário e o contacto com a bola, o cheiro da relva, os adeptos, tudo o que envolve o futebol. Então comecei à procura de um clube mais perto de casa que me pudesse proporcionar tudo isso.

Mas quando diz que chateava toda a gente, irritava-se a sério?
Acho que era mais mal humorado (risos) e então começava a pôr toda a gente mal disposta. Acho que era mesmo a necessidade de ter algum tipo de desgaste, algum tipo de foco onde pudesse extravasar, para depois voltar a ser calmo, como sempre fui, aliás. Como nunca tive numa situação destas, sem ser utilizado...

A sua mulher ainda trabalhava nessa altura?
Sim.

O que fazia durante o dia, sem a mulher e filhos?
Sempre fui muito caseiro. Tentava ajudá-la, aliviá-la, ia levar e buscar os filhos à escola, passeava e brincava com eles. Tentei recuperar uma coisa que é irrecuperável, o tempo que perdi. Eu fui para fora, nunca mais vou recuperar, tenho noção disso. Pensava que iria conseguir, mas não, não consegui. Não quer dizer que tenha perdido os meus filhos, de maneira nenhuma, tenho uma relação fantástica com eles hoje, mas quando vim para Portugal tive de reconquistar outra vez o meu espaço.

Como assim?
Não foi só chegar aqui e dizer o pai está em casa e o pai vai ficar em casa. Eles têm os seus hábitos, as suas regras. Foi entrar devagar. Por exemplo, eles chegavam, deitavam-se no sofá e ocupavam o sofá praticamente todo. Tinha de chegar devagar e, ou chegava-me para um canto, ou ia sentar-me noutro lado. Teve de ser assim no início. Tive de os conquistar outra vez. Nunca estive ausente mas também nunca fui um pai presente fisicamente. Mas o que passou, passou.

Como surge a Naval?
O mister Manuel Ramos contactou-me e perguntou-me se queria tentar ajudar a Naval. Isso para mim foi muito bom. Pude voltar a fazer o que gosto, pude aliviar todo o stress que tinha. E continuei a estar perto de casa.

Frechaut num treino da seleção, com Scolari, ao centro, e Luis Boa Morte, à esquerda

Frechaut num treino da seleção, com Scolari, ao centro, e Luis Boa Morte, à esquerda

FRANCISCO LEONG

E o regresso ao Boavista?
Quando terminei a época na Naval, voltei ao mesmo. Pensei que já não ia voltar a jogar futebol e que faria a minha paragem porque o tornozelo também já não aguentava mais. Voltei a cair no mesmo erro e passado algum tempo o meu organismo e, provavelmente, a minha cabeça estavam a pedir e a dizer que ainda preciso de fazer mais alguma coisa. E surgiu-me o convite para voltar ao Boavista. Foi na altura em que o Ricardo Silva e o Petit voltaram.

Nessa altura o Jorge Mendes ainda era seu empresário?
Não. Deixei de ter empresário na altura em que fui para o Metz.

As coisas correram bem no Boavista?
O Boavista estava numa situação completamente diferente, já tinha a I Liga garantida na época seguinte, jogava em ligas inferiores, não havia pressão absolutamente nenhuma. Por isso a coisa nunca podia correr mal. Foi bom. Fizemos um grupo muito bom. Juntámos muitos jovens jogadores a quem tentámos passar o melhor que sabíamos.

Fez uma época no Boavista e depois passa a coordenador técnico de formação.
Exactamente. No ano em que o Petit fez a transição de jogador para treinador, pediram-me para ser treinador dos sub 18, no Boavista.

Aceitou logo?
Sim, era um desafio novo, via aquilo com bons olhos porque começava a ser uma transição e começava a juntar o útil ao agradável. Como referi, já há alguns anos que sofria de uma lesão, sabia que tinha que fazer alguma coisa, não sabia ainda bem o quê. Continuei a jogar na mesma, a ter o prazer que tinha e comecei a entrar numa outra área.

Fez as duas coisas ao mesmo tempo?
Sim, jogava e ao final do dia ia dar treino aos sub 18.

Já tinha algum nível do curso de treinadores?
Tinha o 1º nivel, a equivalência que é dada aos jogadores, e mais tarde acabei por tirar o 2º e o 3º níveis. Depois dos sub-18, surgiu o convite para fazer ser o coordenador da formação.

Aí já não dava treino.
Não, aí ficou o Pedro Costa como treinador da equipa de sub 18 e eu fiquei como coordenador.

Frechaut com osseus companheiros da Ibersports, a empresa de agenciamento de jogadores

Frechaut com osseus companheiros da Ibersports, a empresa de agenciamento de jogadores

D.R.

Depois esteve como diretor desportivo no Beira Mar.
Sim. Entretanto, as coisas em termos daquilo que eu achava que era necessário para o projeto do Boavista, não aconteceram. Prometeram-me coisas, o que me levou consequentemente a fazer certas promessas aos pais e aos miúdos em termos de melhorias de condições. De uma época para a outra, as condições que me tinham dito que iam dar, não deram, e por isso como não podia cumprir com os meus jogadores, achei por bem sair, porque não estava de consciência tranquila.

Quando saiu já tinha alguma alternativa?
Não. Quando saí vim para casa repensar tudo. Fui acabar o 12º ano em Amares, numa escola de formação. Fui fazer o 2º e o 3º níveis do curso de treinadores, fui-me cultivando, fui estando mais com a família, mais presente e acabei por entrar num projecto de agenciamento de jogadores e hoje é o que faço.

Entrou nesse projeto antes de ser director desportivo do Beira Mar?
Está atenta a tudo, tinha-me esquecido. Antes de tirar o 2º e o 3º níveis de treinador, fui diretor desportivo do Beira Mar exatamente.

Como é que surgiu?
Surgiu através de uns investidores que queriam entrar no Beira Mar e queriam saber como é que as coisas estavam dentro do clube, queriam uma pessoa que estivesse dentro do futebol e lembraram-se de mim. Não aceitei logo, estive uma ou duas semanas a ver treinos, a ver os jogos da equipa, e depois acabei por ficar lá de dezembro até ao final da época como diretor desportivo. Depois, o clube acabou.

Gostou da experiência como director desportivo ou nem por isso?
Gostei muito e aprendi bastante. Trabalhei bem com o presidente e diretamente com o treinador e com os jogadores.

Depois disso é que começou a fazer agenciamento?
Depois disso, fiz o meu curso de treinadores e depois é que comecei a fazer agenciamento.

Essa empresa de agenciamento já existia?
Já. É a Ibersports. É de um amigo meu, aquele que lhe falei há pouco, o Antonino, que vive no Luxemburgo.

Que jogadores é que tem em carteira? Que negócios é que já fez?
Isso ai é outro campo.... A empresa existia mas estava parada e então a convite do senhor Antonino. Começámos a trabalhar há cerca de dois anos. É uma empresa relativamente nova. Estamos a trabalhar há dois anos e meio, já fizemos algumas coisas engraçadas, estamos muito no início. Tenho a noção de que em Portugal tem que se trabalhar muito, porque há empresas muito fortes a fazer bons trabalhos, tanto em Portugal como lá fora. Fizemos um estudo de mercado para ver qual poderia ser o nosso mercado, qual a melhor porta para entrarmos. Decidimos explorar o mercado asiático. Estamos a começar por aí.

É isso que quer fazer o resto da vida?
Sim estou a gostar muito, trabalhamos diretamente com os jogadores, com os clubes, fazemos as viagens, as deslocações que temos que fazer à procura de clubes, à procura das necessidades dos clubes. Gosto muito deste trabalho. Faço observação de jogadores e felizmente os que temos são todos escolhidos por nós.

D.R.

Não tem o sonho de ser treinador?
Para já, quero ser o melhor que posso ser naquilo que estou a fazer, mas a minha vida está cheia de desafios e eu nunca disse que não a nenhum. Para o ano pode acontecer outra coisa. Mas, para já, neste momento, aquilo que quero é exatamente aquilo que estou a fazer. No futuro não faço ideia.

Ao longo dos anos onde é que foi investindo o seu dinheiro?
Acho que sempre fui cuidadoso, o futuro irá dizer. Investi algum em imobiliário, guardei algum, também fiz as minhas asneiras.

Que tipo de asneiras?
Também gastei dinheiro mal gasto.

Dê me um exemplo.
Sei lá.... se calhar comprei carros sem necessidade de ter.

Qual foi o melhor carro que já teve?
Ai meu Deus não vamos por aí.

Não vejo qual o problema de dizer qual o melhor carro que já teve...
Foi um Porsche. Era o meu carro de sonho desde criança. Um Carrera 4R.

Essa foi a sua maior loucura?
Não considero que tenha sido loucura, considero que foi a concretização de um sonho.

E ainda tem o carro?
Não.

Tem a ver com o acidente de viação que teve em 2013, em que faleceu o condutor do outro veículo?
Sim.

O que é que aconteceu?
Tinha saído do treino e vinha para casa. Estava na faixa da esquerda porque ia fazer uma ultrapassagem e a carrinha saiu da faixa da direita também para fazer uma ultrapassagem, bate no meu carro e pronto. A carrinha entrou em despiste e capotou e eu andei também em despiste.

Ficou muito abalado?
Acho que é a pior coisa que pode acontecer a alguém. Vou-lhe dizer o que digo cá em casa...Eu posso até não me sentir culpado, mas só o facto de ter morrido uma pessoa, já faz com que eu sinta...Pesa muito, independentemente de ser ou não culpado, não consigo esquecer... E depois, ficou uma mulher, ficou um filho, uma filha... podia ter sido eu. A questão aqui é que uma pessoa perdeu a vida e isso mexeu comigo; mexeu e mexe, nunca irei esquecer.

O seu nome surgiu também envolvido ao caso dos seguranças da noite, foi constituído arguido. Esteve envolvido em alguma coisa relacionada com a empresa de segurança que está no centro deste caso, que também ficou conhecido como “Máfias da Noite”?
Sobre esse assunto não falo.

Tem animais de estimação?
Tenho dois cães, o Chocolate e a Mel, que foram adotados numa associação onde a minha esposa trabalha. Temos ainda quatro gatos e uns 10 peixes. Esta entrevista está a ser muito difícil. Sempre quis separar a minha vida pessoal da minha vida profissional. Sempre tive o cuidado de proteger os meus filhos ao máximo.

Só para terminar, quem são os amigos mais chegados do futebol, com quem continua a ter contacto?
Luís Boa Morte, Moreira, Litos, Rui Gomes, Petit, e muitos outros, o Ricardo (o Labreca)...

Pratica algum desporto agora?
Não. Quando tenho oportunidade jogo um padbol com os amigos.

E de música. Gosta?
Gosto de ouvir Justin Timberlake, Skin, Skunk Anansie.