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A casa às costas

Cajuda, parte I: “Um dia, meti na cabeça que só ganhava jogos se antes desse um abraço a uma árvore”

Aos 66 anos Manuel Cajuda voltou a Portugal, para treinar o Académico de Viseu, da II Divisão. Conversador nato e sem medo das palavras, desvenda os caminhos de uma vida, a sua, onde a família saiu sempre a ganhar. Nesta primeira parte de uma longa entrevista, revela como a morte da irmã o abalou, diz que não quis ser treinador e confessa que já deu três voltas ao Santuário de Fátima, de joelhos, para agradecer uma vitória especial

Alexandra Simões de Abreu

RUI DUARTE SILVA

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Nasceu em Olhão.
Algarvio de gema.

Viviam onde?
Vivíamos no Bairro da Barreta, aquilo chamava-se na altura o Mundo Novo, em Olhão. Não era porque fosse um mundo novo de riqueza; era uma zona nova da cidade, que tinha os pescadores, e que hoje é provavelmente uma das zonas mais famosas da cidade, onde todos os estrangeiros procuram comprar casa.

Ainda tem essa casa?
Já não, a vida modificou-se muito. Eu saí do Algarve há praticamente 40 anos. A minha mãe esteve connosco em Braga até há 6, 7 anos. Depois, começámos a andar pelo estrangeiro, era difícil mantê-la em casa e tive a felicidade de encontrar um lar onde é muito bem tratada. Com 97 anos já tem muitas dificuldades de locomoção e ela também não queria ficar sozinha em casa, porque já tinha tido duas ou três quedas. Não me perdoava se lhe acontecesse alguma coisa e ela estivesse sozinha. Continuo a ter casa no Algarve mas é outra que comprei, em Vilamoura. Apareceu um negócio, num almoço com um amigo que queria desfazer-se do apartamento e eu comprei.

Que ocupação tinham os seus pais?
O meu pai tinha uma casinha de bicicletas, era mecânico de bicicletas. E a minha mãe tinha a profissão maior para as mulheres na altura: dona de casa, do lar.

Tem mais irmãos?
Tinha a minha melhor amiga, a minha irmã, infelizmente faleceu há uns 12, 13 anos. Era mais velha 3 anos. Era a minha melhor amiga.

Faleceu como?
Com a doença da moda, cancro. Teve de partir. Eu não sei o que é que vale agora a irmandade. Sei que no meu tempo ela era a minha melhor amiga, era a que me amparava, a que me ajudava e a que me batia. Ela faleceu num dia de jogo, que fiz questão de orientar. Era o Beira Mar ou o U. Leiria, não consigo precisar, mas jogámos em Penafiel e eu estive no banco, sempre a chorar porque a minha irmã tinha morrido duas ou três horas antes. Só fui para o Algarve para a última despedida, depois do jogo.

Cajuda em criança

Cajuda em criança

D.R.

Como era o Cajuda em criança?
Era um sacanita (risos). Era terrível, como criança, como adolescente, ainda hoje sou um pouco.

Teríivel como?
Fazia aquelas brincadeiras que a idade permitiam. Vou dar um exemplo: à noite pegava em fio de pesca, atava às manetas das portas, antigamente não havia campainhas, e puxava para as pessoas virem à porta. Lembro-me de ter feito uma vez essa maldade à minha mãe. Ia para a minha açoteia com o fio e batia à porta da rua, a minha mãe vinha à porta, nunca via ninguém. Eram maldades boas, traquinices próprias da idade. E hoje continuo a ser assim.

Ainda gosta de pregar uma boa partida?
Gosto. Não há euromilhões que valha uma boa partida, mas tive sempre o cuidado de perguntar às pessoas: “Como é que está o seu humor hoje?”. Às vezes ficavam apreensivas. Brinco muito na minha área do cidadão, na área do futebol brinco menos. Embora...Uma vez, chegou ao Portimonense um jogador de cor, o Pires, um brasileiro, eu chamei-o, virei-me para ele: “Vou dizer-te uma coisa: eu sou racista. Não tenhas dúvidas nenhumas de que sou racista e não suporto certas coisas, sou mesmo racista”. Ele cada vez abria mais os olhos (risos), aflito. Depois disse-lhe: “Epá, se estás preocupado é um problema teu. Eu não gosto de brancos” (risos). Ele ficou a olhar “Aí mister, você é um bandido” (risos).

Gostava da escola?
Gostava de ir à escola. Se era um bom aluno é diferente, mas gostava de ir à escola porque era, digamos, um ponto de comunicação, um ponto de brincadeira e um ponto de reunião. Embora fosse muito diferente de hoje; na altura, as meninas estavam de um lado e nós do outro. Havia um muro que separava a beleza da sacanice. Mas era bom. Não fui um aluno brilhante, mas mau aluno é que não fui.

Torcia por que clube?
Pelo da minha terra, o Olhanense.

Costumava ir à bola com o seu pai?
Costumava, ia muitas vezes. No tempo em que os pais ainda tinham tempo para levar os filhos à bola. Agora os pais não têm tempo de levar os filhos à bola. Sou muito crítico em relação à formação dos jovens de hoje. Formam-se diante de um ecrã, diante do computador. E os pais também estão cada vez mais diante do computador e cada vez menos com tempo para os filhos. Eles formatam-se ao computador, nós formatavamo-nos noutras coisas, na escola, na rua, na educação.

Ou seja, passava o dia na rua, a jogar a bola, a andar de bicicleta…
Nunca tive uma bicicleta, curioso. Chorei tantas vezes para ter uma mas nunca tive.

Porquê?
O meu pai não me podia dar. Eu utilizava as bicicletas que andavam por lá na oficina quando ficava a fazer mandados ao meu pai. E fazia muitos, nas férias.

É uma expressão algarvia, “mandados”?
É uma das coisas que eu tenho pedido a Deus nas minhas orações, que não me roube a pronúncia algarvia. Faço tudo para não a perder. “nã faço, nã tenho, nã posso”, são estas coisas que fazem parte da minha cultura, não as quero perder. Podia fazer um esforço para falar de uma outra forma, mas porque é que tenho que falar à lisboeta quando sou algarvio?

Cajuda, o quinto em cima, na sua primeira época enquanto jogador, no Olhanense

Cajuda, o quinto em cima, na sua primeira época enquanto jogador, no Olhanense

D.R.

Como é que surge o futebol? É o jovem Cajuda que pede ao pai para ir jogar à bola, é alguém que o vê a jogar na rua?
Eu jogava bem, não vou dizer que era o melhor porque é muito complexo, mas era um dos melhores a jogar futebol na escola. Havia professores que no intervalo das aulas vinham ver-me jogar.

Jogava em que posição?
Jogava futebol, jogava a tudo. Tive o primeiro desgosto do futebol, melhor, a primeira lição, aos 15 anos. E eu só percebi o meu pai muito mais tarde. Tinha 15 anos e todos os meus colegas da escola, que jogavam muito pior do que eu, foram treinar para um clube, os da escola, os da minha rua e o meu pai não me deixou. Fui o único na rua.

Porque é que não deixou?
Porque o meu pai, tendo a 2ª classe, o que fez, fez acima de tudo com amor. Disse-me: “Só vais jogar à bola quando terminares o 5º ano” - a escolaridade obrigatória na altura. Chorei muito nessa altura, pensei muito mal do meu pai. Juro. Pensei que os pais dos outros eram todos melhores do que o meu. Mas passado um tempo descobri que o meu pai, sem querer, estava a ensinar-me que, para atingir os meus objetivos, tinha de os conquistar. O meu pai não estava a proibir-me de jogar à bola, o meu pai estava a dizer que quando eu acabasse o 5º ano ia jogar à bola. E eu conquistei o meu primeiro objetivo aos 15 para 16 anos. Fui ter com ele e disse-lhe: “Acabei o 5º ano, agora quero jogar à bola”. E o meu pai disse-me: “Agora vai jogar à bola”. Fui jogar um ano atrasado em relação aos meus colegas, mas estou-lhe muito grato por ter-me ensinado a conquistar objetivos e a lutar pela vida. É pena que só tenha reconhecido isto 20 anos depois, mas é verdade.

Vai jogar para o Olhanense.
O clube da minha terra. Cheguei ao Olhanense e era um dos melhores da minha equipa e quando se é um dos melhores, as coisas parecem sempre todas brilhantes, as pessoas gostavam de mim, as coisas corriam bem.

Assinou contrato?
Assinei, não havia os agentes que há hoje, não havia tanta gente a incomodar (risos), tive que pedir a autorização ao meu encarregado de educação. Comecei como juvenil, tinha 16 anos.

Começa logo a ganhar dinheiro?
Qual dinheiro? Nessa altura havia um copo de cacau no final do treino e às vezes uma sandes mista.

Cajuda ao centro em baixo, na equipa do Sambrasense, de S. Brás de Alportel

Cajuda ao centro em baixo, na equipa do Sambrasense, de S. Brás de Alportel

D.R.

Largou a escola?
Não, continuei a estudar. Fui para as secções preparatórias e depois para os institutos porque queria continuar a estudar. Mesmo não sendo um estudante brilhante queria continuar a estudar, mas como não tinha dinheiro, não estudei. Quis ir para o exército também não consegui, não era muito fácil.

O que é que queria estudar?
Não sei. Vamos lá a ver, não era a mesma coisa do que é hoje, temos que recuar 30, 40 anos para perceber o que era a vida nessa altura. Pensei em tirar o curso de engenharia, mas gostava de ser médico.

Médico?
Sim, mas seria um médico desgraçado (risos). Iria trocar as consultas por patos, galinhas... Não me vejo a tirar dinheiro às pessoas, não me vejo a cobrar o dinheiro que se cobra hoje. Não estou a dizer que os médicos são maus, mas seria um mau médico, um mau contabilista da minha conta. Pensei em ser padre também.

De onde vem esse lado religioso? Foi-lhe incutido desde pequeno?
Não e enquanto estudante era muito contestatário da Igreja fui sempre muito contestatário à Igreja. Mas, repare, o padre na altura era uma figura importante na sociedade. Faltar ao respeito a um padre era qualquer coisa. Tínhmaos que ir à cataquese, tínhamos que dar um beijinho na mão do padre. Provavelmente isso terá fascinado em alguns momentos. Felizmente, não fui padre (risos), senão não tinha conhecido a maravilha da minha vida que é a minha família. Felizmente não fui, não tive dinheiro para estudar.

Então quando é que deixou de estudar?
Nessa altura em que acabo as secções e não tenho possibilidade de continuar. Ia fazer 19, chumbei duas vezes.

Por causa do futebol?
Sim, já me dedicava mais ao futebol. Para continuar só tinha faculdade em Lisboa, Coimbra ou Porto, não havia mais nada. Hoje parecem as farmácias, em cada esquina há uma faculdade. Naquela altura não. Os meus pais não tinham dinheiro, nem eu podia sobrecarregá-los mais, deram-me tudo. Costumo dizer que não sou filho de uma família pobre, mas humilde, porque embora na minha casa não houvesse riqueza, nunca me faltou nada. Nunca me faltou as calcinhas de domingo.

No primeiro ano como adjunto de Mladenov, Cajuda, a distribuir camisolas num treino do Farense. A criança é o seu filho Hugo

No primeiro ano como adjunto de Mladenov, Cajuda, a distribuir camisolas num treino do Farense. A criança é o seu filho Hugo

D.R.

Entretanto mudou de clube ou foi trabalhar?
Antes deixe-me dizer que tive outra lição enorme. Estava no 2º ano de júnior, era muito bom e estava convocado para a seleção nacional. Era muito difícil alguém ser convocado para a seleção nacional na altura dos juniores: só iam os do Benfica, do FC Porto e do Sporting, da província não ia ninguém. E na semana em que estou convocado para um jogo com a Itália parto a clavícula, numa quinta-feira, num treino. Não fui, claro. E passados uns tempos acabei por partir a outra clavícula. Jogávamos nos pelados e as quedas eram muito mais complicadas.

Tinha que idade?
16, 17 anos. Fraturei as duas clavículas três vezes num ano e criei a imagem de um jogador frágil, de um jogador cujos ossos não prestavam. E o Olhanense emprestou-me para o União Sambrasense, de São Brás de Alportel.

Como é que parte as clavículas três vezes?
Uma das vezes parti em casa. Estava todo ligado desde a cintura para cima, já estava farto daquilo, já tinha o braço em alguns sítios em carne viva, já cheirava mal, tinha que pôr perfume, não podia tomar banho porque tinha o tronco praticamente todo ligado; e um dia peguei numa tesoura e tirei as ligaduras. Achava que já estava bom. O braço também já estava a perder a força...Depois quis agarrar-me a uma cadeira, desequilibrei-me, quando me levantei, a fratura voltou a abrir. Toca de ir para o hospital outra vez. Mas emprestarem-me ao Sambrasense foi a melhor coisa que me fizeram.

Porquê?
Humildade. Não fui para a universidade, fui para a humildade.

Fe-lo descer à terra.
Sim. É tão bom que eu não consigo traduzir por palavras. Estou muito grato ao Sambrasense. Treinávamos à noite, passávamos frio, bebíamos um copo de cacau quando acabava o treino, íamos em carrinhas, andávamos 30 ou 40 kms para treinar, e cultivámos o sentido de família em relação à equipa; éramos amigos e foi muito bom para mim. Estive lá dois anos e reabilitei-me. Cheguei à conclusão que os ossos se partiam com a mesma facilidade do que os das outras pessoas. O Olhanense foi buscar-me outra vez.

Cajuda, à direita, no balneário do Olhanense no seu primeiro ano como treinador principal

Cajuda, à direita, no balneário do Olhanense no seu primeiro ano como treinador principal

D.R.

Recorda-se do seu primeiro ordenado?
Perfeitamente. 750 escudos, que não correspondem bem aos 3,5 euros de hoje.

Claro que não. Lembra-se do que é que comprou com o primeiro ordenado?
Comprei um robe à minha mulher. Era solteiro ainda mas comprei-lhe um robe e umas botas.

Quando é que conhece a sua mulher?
No casamento da minha irmã.

Era de Olhão também?
Não, era de Moncarapacho, mas já morava em Olhão.

Tinha quantos anos?
Tinha à volta de 17 anos.

Conhece a sua mulher no casamento da sua irmã e começam logo o namoro?
Comecei a andar atrás dela no casamento. Como o casamento era da minha irmã, o gira-discos era meu e a música só tocava se eu dançasse com ela, mais ninguém dançava com ela. Depois do casamento, ela começou a namorar comigo. Ela era bonita demais, ainda hoje é muito bonita, e eu dizia: “Este peixe não é para mim” (risos). Ela foi tão simpática que, uns dias depois, eu tinha mais vergonha de a procurar do que ela a mim, pedia-me discos emprestados...

Discos de quem?
Do Bob Dylan, do Gianni Morandi, ainda hoje a música “Non Son Degno Di Te” hoje toca lá em casa. Foi a música que nos uniu mais. O resto eram as coisas da moda, o início do Roberto Carlos.

Namoraram quanto tempo antes de casar?
Obrigaram-nos a namorar 8 anos.

Obrigaram?
Pois, não tínhamos dinheiro para casar, estivemos 8 anos a juntar as coisas. Comprámos tudo à nossa conta.

O que fazia a sua mulher?
Depois de fazer o 5º ano, empregou-se numa companhia de seguros. Esteve alguns anos empregada e quando a vida começou a ficar melhor para mim, ela fez o favor de se tornar minha empregada (risos). Digo empregada no bom sentido. Uma coisa é o que digo, outra é o que deduzem. Tenho ali a coisa mais preciosa do mundo. Boa mãe, boa amiga, boa namorada. Ainda hoje namoro a minha mulher.

Cajuda de fato, no banco do Portimonense no primeiro ano como treinador da I Divisão. O filho Hugo está sentado no chão de fato treino

Cajuda de fato, no banco do Portimonense no primeiro ano como treinador da I Divisão. O filho Hugo está sentado no chão de fato treino

D.R.

Estava a dizer que o Olhanense vai buscá-lo novamente. Fica lá quanto tempo?
Um ano e depois vou para o Farense. Eu jogava bem, isto não é vaidade, é realidade. Dei nas vistas e o Farense que era o arqui-rival do Olhanense foi buscar-me. E aqui há uma história intercalada. Estive 3 anos sem jogar futebol.

Porquê?
Porque estive 3 anos no serviço militar e ganhava bem no serviço militar. Tinha 20 anos quando fui para o Exército. Fui para a Escola Prática de Cavalaria de Santarém, curso de sargentos. Fiz o curso e tive a sorte de ficar bem classificado. Os 5 primeiros não foram chamados ao Ultramar e eu fui o 5º, em setenta e tal.

Viveu o 25 de Abril na tropa?
Sim. Hoje tenho a noção de que soube do 25 de Abril a 24 de abril. Na altura não. Tive a noção de que havia qualquer coisa estranha. Eu e mais quatro furriéis milicianos fomos fazer os testes para a carta de condução, penso que em Algés, e fomos sondados. Quiseram saber qual a nossa reação se houvesse alguma coisa no nosso quartel. Recordo-me perfeitamente de ter dado a resposta mais inteligente que se podia dar na altura: “Eu quero lá saber. Sou miliciano, estou aqui a passar o meu tempo e a ver se não vou à guerra. A cama que me fizerem é a cama onde me deito”. Estávamos num estado de ditadura, tínhamos de ter cuidado com as respostas. À noite, eram umas 11 horas, levantaram-nos e começam a gritar: “Golpe de estado, golpe de estado”. E eu saio-me com esta: “O que é isso de golpe de estado? Acordar um gajo agora por um golpe de estado” (risos). Não tinha noção. Quando cheguei à parada vi toda a gente armada a correr, de um lado para o outro. Também corri, fui buscar armas como os outros. Nós, Polícia Militar, saímos pouco minutos antes da meia noite para a rua para ir fazer guarda ao quartel general, porque as tropas vinham de Santarém. Quando subimos a Calçada da Ajuda, a companhia parou toda lá em cima, em Monsanto, e o tenente vira-se: “Calma malta, eu sou a favor do Movimento”. Aquilo para nós foi uma alegria. E um caminho que levava uns 25 minutos a fazer, demorámos duas horas. O tenente disse que íamos dar uma volta maior para chegarmos atrasados. Quando chegámos, já lá estavam as tropas do Movimento, que tinham vindo de Santarém. Enquanto o tenente foi falar com os oficiais nós fomos detidos durante alguns minutos, à guarda dos militares, até ele explicar que o nosso esquadrão estava a favor do Movimento. Depois, fomos mandados para a Praça do Comércio.

Viveu tudo de perto, intensamente.
Vivi, vivi. Quando foi da tomada da PIDE estava lá, quando foi do quartel do Carmo, o nosso esquadrão estava por trás. Aí estávamos com um bocado de medo. Posso dizer-lhe que eu tinha fixado um café numa esquina, e se aquilo começasse aos tiros eu enfiava-me no café e fazia-me passar por morto, para não morrer. Cada um pensava as suas coisas, porque aquilo estava muito perigoso. Tínhamos atrás do nosso esquadrão a GNR e tínhamos receio da reação da GNR em relação ao que se estava a passar no quartel do Carmo. Mas depois, felizmente, apareceu alguém com uma coragem fantástica, o Salgueiro Maia, que não lhe fizeram a justiça que... e pronto, adiante.

Nessa altura tinha consciência política?
Não. Era revolucionário como qualquer estudante. Acho que era moda os estudantes serem revolucionários, e acho que continua assim. Mas atenção que os estudantes deste tempo são mais inteligentes do que os do meu. A nossa civilização está melhor, o mundo está melhor, com maiores perigos é verdade. Vejo isso em relação ao futebol também, quer jogadores, quer treinadores são muito mais inteligentes dos que os do meu tempo de jogador.

Cajuda, durante a entrevista, em Viseu

Cajuda, durante a entrevista, em Viseu

RUI DUARTE SILVA

Esteve dos 20 aos 23 anos sem jogar?
Sim, e só voltei para o futebol por causa da Revolução de Abril.

Como assim?
Quando saí da tropa ia entrar na banca. No Banco do Algarve. Já tinha metido os papéis e entrava no dia 2 de abril. Mas dá-se o 11 de março, dá-se a nacionalização da banca e a minha entrada ficou parada à espera de nova oportunidade. Eu não tinha dinheiro, tinha que fazer alguma coisa, tinha que trabalhar. E voltei a fazer aquilo para o que tinha mais jeito.

Foi jogar para onde?
O primeiro ano depois da tropa, no Olhanense; no ano a seguir, no Farense.

E fica sete épocas no Farense.
Sim.

Quando é que casa?
Em 1977. Quando já estava no Farense. Alugámos uma casa em Olhão. Tínhamos estado uns anos a pagar as nossas mobílias, montámos a nossa casinha. E pagámos o nosso casamento. Paguei 18 contos de casamento, eram duzentas pessoas, fomos nós que juntámos o dinheirinho. Ela já trabalhava, eu ganhava no futebol, fizemos o nosso casamento; é uma história de vida, uma história engraçada.

Nos anos de jogador, qual foi o treinador que mais o marcou?
Tive um treinador 3 meses que me marcou muito. Ele nunca mais foi treinador, treinou pouco tempo, que era o António Marçal, um rapaz de Olhão que vive em Aveiro e que foi muito meu amigo. Depois tive um que foi um dos padrões daquilo que hoje se vive no futebol, Carlos Silva. O Carlos Silva foi vice-presidente da FPF, foi treinador do Atlético, treinador do Belenenses, esse senhor ensinou-me o que é a humanização do futebol, a humanização do treino. Eu não treino máquinas de futebol, eu treino humanos que jogam futebol. Podiam ser electricistas, trolhas, carpinteiros, como eu podia ser outra coisa qualquer. Por baixo da camisola, para mim, há-de estar sempre um humano, que tem defeitos, que eu tenho obrigação de descobrir e de ajudá-lo a ter um melhor rendimento. O resto são flores de intelectualização, a que chamo de “infelizmencia”. Se me perguntarem o que é uma “infelizmencia”, não sei. É uma “infelizmencia” (risos), é uma mente infeliz.

Quando se fala dos seus tempos de jogador, o que é que lhe vem de imediato à memória?
O desgosto que provoquei ao meu pai. Saí do Olhanense para o Farense. Nem imagina o que era isto há alguns anos. Foi um desgosto enorme para o meu pai, mas era a minha vida. E o Farense é que me deu vida. O Olhanense deu-me o berço, o Farense deu-me a vida, deu-me tudo depois. Quando ouvi a notícia de que o Farense tinha que fechar, eu ia para Braga de carro com a minha mulher, e chorei. Comecei a chorar. No Farense fiz tudo. Fui jogador, fui roupeiro...

Roupeiro?
Sim. Quando fez falta comprar roupa, fui comprar do meu ordenado. Apanhei o Farense numa altura muito difícil, outros deram cabo do Farense e dizem que eles é que gostam do Farense. Eu não; estive no Farense e comprei roupa que outros gastaram e esses é que parecem os grandes heróis do Farense. Depois, não havia autocarro para irmos jogar, não havia dinheiro para o gasóleo, pus do meu ordenado.

Como é que se torna treinador?
Não foi uma coisa que quis ser. Acabei como jogador aos 31 anos, muito cedo. Puseram-me a treinador sem querer.

Conte lá essa história, como é que o põe a treinador?
O senhor Fernando Barata, presidente do Farense, às vezes chamava-me a Albufeira para reuniões porque eu era o capitão da equipa. E uma vez acabámos o treino e ele: “Manuel temos que ir a Albufeira”. Fui. Quando cheguei, fui confrontado com esta situação: “A partir de amanhã, passas a ser adjunto deste senhor”. Eu nunca tinha visto aquele senhor na minha vida. Explicaram-me que o senhor tinha sido selecionador da Bulgária no Mundial e que tivera formação da Universidade de Sofia. Perguntei porque é que me tinham escolhido, e a resposta ainda me deixou mais estúpido. Disseram que eu era um líder. Ora falarmos hoje do que é um líder, não é a mesma coisa da ideia de um líder em 1981 ou 82. Os líderes que conhecia na altura eram o Che Guevara, o Hitler, o Franco...Dizerem-me que eu era um líder, era qualquer coisa.

Quem disse que era um líder?
O tal senhor, o búlgaro Mladenov. Disse que andou 20 dias a ver os treinos, sem que ninguém soubesse e percebeu que eu era um líder dentro da equipa, pelo comportamento que tinha, pela maneira como dialogava, pela maneira como motivava os colegas e, escolheu-me.

Deixa de ser imediatamente jogador ou ainda faz os dois papéis?
Faço um único papel que é o de jogador. No outro dia quando me chamaram para o balneário dos treinadores, eu disse: “Não vou, fico aqui no balneário dos meus colegas e depois vou aí falar consigo. Eu prometi ajudá-lo, não prometi que ia ser treinador”. E levou 10 meses até criar a ideia de que iria ser treinador. Eu não gostava e depois gostei.

Não gostava porquê?
Não tinha conhecimento, não tinha capacidade. Eu na altura tinha zero de conhecimento. Estamos a falar de uma época em que não havia livros, não havia internet. Hoje quando dizem que eu estou ultrapassado, eu digo que estou rodeado de gente estúpida. A internet que vai para si, não é a mesma que vai para mim? Os livros que você lê ou que os outros lêem, não me chegam a mim? Sabe, detesto mesas redondas com pessoas quadradas à volta delas. Isso do ultrapassado... um dia volto ao tema com argumentos mais do que suficientes. Mas vamos voltar onde estávamos...

Cajuda no meio dos dois filhos e com os netos, a mulher e nora em baixo

Cajuda no meio dos dois filhos e com os netos, a mulher e nora em baixo

D.R.

Mantem-se como adjunto dois anos. Foi sempre com Mladenov?
Não, depois veio o Fernando Mendes. Vou contar outro pormenor, que julgo nunca contei a ninguém. Eu tive um curso prático de dois anos. Aconteceu-me aquilo que não aconteceu a nenhum outro treinador em Portugal. No primeiro dia de treinador fiquei zangado, porque enquanto jogador, chegava 5 minutos antes ao treino, equipava-me à pressa para ir treinar. No primeiro dia de adjunto, obrigaram-me a chegar hora e meia mais cedo. E eu disse-lhe: “Que porra é esta? Ainda por cima vou perder tempo? Eu chegava aqui 5 minutos antes e agora sou obrigado a chegar uma hora e meia mais cedo ?!”. E, para surpresa minha, o Mladenov fez o que considero a maior das bondades. Disse-me para tomar notas, escrever e ir treinar”. “Ó mister eu não sei treinar, vou treinar o quê?”. “Manel vais fazer isto que eu te disse e depois do treino vens aqui para eu te dizer o que está bem e o que está mal”. E eu levei dois anos e meio com esta prática todos os dias.

Ele ditava-lhe o treino?
Ditava o treino e obrigava-me a dá-lo. Eu que nunca tinha feito nada. Eu tinha 95% de prática, de conhecimento tinha zero.

Como é que foi a reação dos seus colegas quando passou a treiná-los?
A melhor, sem eles eu nunca tinha sido treinador. Vou-lhe contar outro pormenor: eu fui um excelente treinador de guarda redes.

De guarda-redes?
Um dia o Mladenov mandou-me treinar os guarda redes. Um dos guarda-redes era o Mészáros, estamos a falar de um dos expoentes da baliza. Tinha vindo do Sporting para o Farense, esteve em três mundiais. Mandou-me ir treinar o Mészáros e eu: “Não vou. Eu não sei mister”. “Vai Manel. Depois ele fala contigo”. Aqueles oitenta metros que eu andei até à marca do penalti foram um pesadelo para mim. Felizmente sou mais inteligente do que pareço. Quando cheguei à baliza a bancada estava cheia para ver o Mészáros, pus a bola em cima da marca, virei-me para o Mészáros: “Eu nunca fiz um treino, não percebo nada disto, está aqui a bancada cheia para te ver treinar e eu nunca fiz nada disto”. E o Mészáros disse-me isto, que nunca hei-de esquecer: “Manel tu manda eu bater com a cabeça no poste eu bato com a cabeça no poste. Tu manda eu cair para a direita, eu caio para a direita, tu manda, eu faz tudo. Se tu queres, todos os dias eu ensina para ti como treinas os guarda redes”. Estive 6 anos a treinar, antes de ir dar treino ia à aula com o Mészáros e depois ia treinar. O Mészáros era um excelente treinador de guarda redes. O jogador ensinou-me. Se eu não conseguia chegar ao conhecimento, fazia o conhecimento chegar até a mim. Se eu fosse para a faculdade, tinha de levar 5 anos lá, a estudar. Eu tive 5 anos em que a faculdade veio até a mim.

Como?
Escolhi 5 preparadores físicos para me trazerem a ciência do treino, que era coisa que não havia na altura. A partir do 5º, 6º ano, sabia tanto ou mais do que eles, porque eu tinha a parte prática e o que fiz foi 'cientificar' a parte prática. Mas isso eu nunca contei a ninguém.

Quem foram essas 5 pessoas, recorda-se?
Recordo. O primeiro foi extraordinário, Elísio Gouveia da Veiga. Tinha sido preparador físico do Belenenses, grande mestre. Eu não sabia nada do treino físico, não sabia nada daquilo. Depois tive dois brasileiros, um português e um búlgaro. O búlgaro, Tersiski, que foi preparador físico do Sporting, com quem eu me reunia uma vez por semana. Ele era do inimigo, eu já morava em Olhão, já tinha deixado o Farense, e ele reunia-se comigo para me ensinar. Uma vez por semana tinha uma aula com ele. E tive o Leonel, que era de Olhão.

Quando é que se torna treinador principal?
No segundo ano. No primeiro subimos de divisão, fomos campeões. No segundo ano, na 1ª Divisão as coisas começaram bem, mas o senhor Mladenov teve que sair, faltavam 5 jornadas para acabar o campeonato. Eu quis sair com ele. Ele disse “Não, tu não sais. Eu tenho que sair pelos resultados. Tu ficas aí e eu todos os dias vou ter contigo aos treinos”. Eu fiquei como treinador e o Mladenov todos os dias ia ao balneário falar comigo. O mestre não desapareceu. Eu fiquei porque tinha que ficar e conseguimos salvar o Farense de descer de divisão, na última jornada, é verdade, mas não desceu e aquele senhor nunca me faltou, nunca me abandonou.

E no ano seguinte é que vem o Fernando Mendes?
Sim. Os jogadores foram todos pedir ao presidente para eu continuar como treinador. E o presidente deu-me o lugar de treinador principal, mas eu recusei: “Não, eu não vou ser treinador principal porque ainda não tenho capacidade para ser”. Hoje qualquer badameco, se lhe oferecessem o lugar, agarrava-se com unhas e dentes. Eu tive a clarividência necessária para perceber que ainda era muito cedo para chegar a treinador principal. Já que estava a gostar daquilo decidi formar-me à medida das minhas possibilidades e quis tentar continuar como adjunto. O Fernando Barata diz-me: “Então vais ser tu a escolher o treinador principal”. E eu escolhi um homem que me tinha ajudado muito, o Fernando Mendes, que tinha sido o meu primeiro treinador em Faro, que tinha feito tudo por mim. Ele aceitou e no final desse ano, avisei o presidente do Farense de que me ia embora, que sentia estar pronto para tentar a minha sorte como treinador principal. Ele ainda tentou que eu ficasse mas eu disse-lhe: “Não, aqui eu vou ser uma parte da mobília, vou ser uma perna da mesa, e um dia a mesa parte-se e a perna vai fora. Se eu quero tentar alguma coisa, vou sair daqui”. Dizem que santos da terra não fazem milagres e então voltei para a minha terra, era o mais difícil para ter começado, mas comecei no Olhanense. Fiz duas épocas muito boas e fui me embora.

Para o Portimonense, depois volta ao Olhanense, segue-se o Louletano. Ou seja, treina os principais clubes do Algarve.
E depois já não tinha espaço. Optei por fazer aquilo que não gostava, ser treinador, e depois tornou-se um sonho. Decidi: "Já que aqui estou vou ser bom nisto".

Manuel Cajuda

Manuel Cajuda

Jamie McDonald

É nessa altura que vai para o Elvas. Já tinha filhos?
Tinha o Hugo, que nasceu em 1979. O João nasceu três anos depois. Quando comecei como treinador já era pai dos dois.

A família foi consigo para Elvas?
Foi. Isso para mim não é opção. Fiz um pacto há muitos anos quando comecei como treinador. Entre o futebol e a minha família, primeiro a minha família. Se me perguntarem, sente-se frustrado por não treinar o clube A ou o clube B? Não sou nada frustrado. Frustrado era eu ter perdido a minha família por causa do futebol. A família foi para todo lado. Foi para Torres Vedras, para Elvas, Leiria, Madeira, Egipto, China, Tailândia... Os clubes tenham santa paciência, eu não troco os clubes pela minha família.

Foi sempre condição então poder levar a família.
Sempre. A minha família foi o barómetro. Provavelmente se não tivesse a minha família, ter-me-ia perdido em algumas coisas. Viver sozinho é um perigo. Principalmente os homens. Um dia vão a um bar, outro dia vão a um bar e qualquer dia estão rotulados como bêbados. Eu, quando vou, levo a minha família, levo a minha mulher para todo o lado. Fui muito criticado por isso. Quando vou a um jantar, levo a família. Há uma coisa que me podem dizer: a mulher manda nele. Mas é preferível a mulher mandar nele, do que as outras mandarem nele ou os outros mandarem nele.

Elvas.
Em Elvas aprendi a ir à Igreja, eu, o contestatário.

Aprendeu como?
Morava em Elvas com a minha mulher, os miúdos estavam na escola e depois do almoço íamos tomar café. Elvas é muito quente e o sítio mais fresquinho que encontrámos foi a igreja. Entrámos, ficámos a apanhar um pouquinho de fresco e houve um padre que nos viu, a mim e à minha mulher, sentados a conversar. O padre achou aquilo engraçado de nos ver ali todos os dias e começou a vir falar connosco. Tornou-se nosso amigo. Todos os dias estava lá para nos receber e falar connosco. E aí ganhei o hábito de ir à igreja. Agora quando vejo uma igreja aberta, vou. Mas.... Deus diz-me uma coisa e a igreja diz-me outra.

Sei que é também um devoto da Nossa Senhora de Fátima. Como é que aconteceu?
Foram muitas coisas. Não é milagres. Sou suficientemente evoluído para perceber o que é milagre... mas há muitos sinais na vida que me identificaram com muitas coisas. Eu disse que só voltava a um clube se Nossa Senhora de Fátima quisesse.

Isso foi quando?
Quando voltei a Braga. O SC Braga tratou-me muito mal da primeira vez, quando me mandou embora. Eu sei porque é que me mandaram embora e, curiosamente, pediram-me desculpa depois.

Porque é que o mandaram embora?
Não colaborei com algumas sacanices que estavam a fazer ao SC Braga e fui posto na rua. Estou completamente à vontade para falar nisto.

Mas que tipo de sacanices?
Chegaram ao pé de mim e disseram que eu tinha que avaliar um jogador e não sei quê... Eu disse que não. O jogador veio e eu fui para a rua. Era um negócio que não percebi e fui para a rua. Passado um ano, voltaram a ir buscar-me porque estavam para descer de divisão. Depois de eu sair, o Braga foi à final da Taça e eu tinha um acordo feito para voltar ao SC Braga. Entretanto nesse dia da final da Taça ligaram-me a dizer que o Engenheiro Mesquita achava que ainda era cedo para voltar a Braga, porque tinha saído há seis meses. Fiquei furioso com aquilo. Já tinha chegado a um acordo e depois pediram-me para voltar atrás. Disse na casa do meu adjunto na altura, o Nascimento: "A Braga só volto quando Nª Srª de Fátima me puser lá". E para não adiantar mais conversa, sabe onde é que eu renovei o contrato com o SC Braga? No Santuário de Fátima.

Como é que isso aconteceu?
Estava no Algarve, ligaram-me e disseram: "meta-se no carro e venha para cima, que nós vamos para baixo". A última vez que me ligam a perguntar onde estou, eu digo: "Estou a chegar a Fátima". "Então vá para Fátima porque nós acabamos de passar Leiria". E o contrato é renovado no Santuário e é aí que me pedem desculpa e à minha mulher, do mal que tinham falado sobre mim. Quer coisa mais bonita do que esta? Isto não é um milagre, mas foi curioso, com tanto sítio para assinarmos e é no Santuário que assino o contrato?

Mas como surge a sua devoção a Fátima, pode contar.
Posso, não há nada na vida que me envergonhe. Eu era contestatário à Igreja e depois fui duas ou três vezes a Fátima e gostei de lá estar, achei aquilo tranquilizante. Quando saí dali disse para mim: "Não sejas burro, Cajuda, isto é uma coisa que não te faz mal nenhum". Então habituei-me a ir a Fátima, vou a Fátima com muita frequência. E adoro a ignorância dos outros.

O que quer dizer?
Sabe a quantidade de vezes que estive em Fátima e ouvi as pessoas atrás de mim a dizer: "Olha o Cajuda veio pedir para ganhar jogos". Eu não posso ser um católico como os outros seres normais? Então mas acham que sou tão estúpido ao ponto de ir pedir à Nª Srª de Fátima para ganhar jogos. No dia em que Nª Srª me der um jogo a mim, está a tirar a outros, ou não? Porque é que não tenho o direito de ser um cristão e ir a um sítio onde me sinto bem? Eu só lá vou pôr as minhas velinhas pelos meus filhos, pelos meus amigos. Acho que não faz mal nenhum fazer isto. Deus a mim nunca me faltou.

Lembra-se de algum episódio em que tenha sentido a presença de Deus ou de Nª Srª?
Lembro, mas eu até tenho vergonha de contar porque as pessoas pensam que eu sou um artista... Num jogo com o Marítimo, eu tinha a minha santinha de Nª Srª de Fátima na mão, tinha-a sempre, e nós precisávamos de ganhar para ir à Europa, desde que o Boavista empatasse. Durante o jogo eu ouvi nas bancadas: "Golo do Boavista". Tornou as coisas muito mais complicadas para o Marítimo. Passados uns minutos, penálti contra o Marítimo. E eu falei com a minha santinha: "Srª se me puderes ajudar agora...". Moral da história, o Marques defende o penálti. É evidente que não foi a Nª Srª de Fátima que defendeu o penálti. Passados uns minutos, o Boavista empata, o que era muito bom para nós. Só faltava ganharmos o jogo.

E ganharam?
Na segunda parte, penálti contra o Marítimo. E eu falei com a Santinha outra vez e disse-lhe: "Srª eu agora já tenho vergonha de pedir, já não posso pedir mais". O penalti foi ao lado. A seis minutos do fim, ganhei o jogo. As pessoas entendam o que quiserem. Eu não tenho o direito de ser grato a Nª Srª? Eu vim da Madeira, fui ao Santuário de Fátima e dei três voltas de joelhos. As pessoas disseram-me: "Você também acredita nisto?". E eu respondi: "Incomoda-vos que eu dê três voltinhas aqui e que ponha um ramo de flores a Nª Srª? Faz-lhe algum mal a si?". Mas como era treinador de futebol... "Fica-te mal". Fica-me mal, a mim? Todas as vezes que passo por Fátima, só não paro se não puder mesmo. E mais, sou cristão e já fiz o Ramadão. E Nª Srª e o meu Deus não se incomodaram por isso.

Já lá vamos ao Ramadão. Antes quero saber, é um homem de superstições também? É muito diferente de ter fé...
Não, já fui. Já não sou.

Foi enquanto jogador?
Enquanto jogador e treinador também.

Que tipo de superstições?
As coisas mais estúpidas que existem. Houve uma altura em que meti na cabeça que só dando um abraço a uma árvore é que ganhava os jogos. E, então um dia, em Setúbal, estávamos num hotel e saí para dar um abraço a uma árvore. Só que cada vez que ia abraçar a árvore, vinha uma pessoa e eu voltava para trás e assobiava. Fiz cinco ou seis tentativas para dar um abraço à árvore. Depois cheguei à conclusão: "Tu és burro demais, rapaz. Acaba com essa palhaçada." (risos). Outra vez era porque não podia tocar na barba ao domingo. Veja a estupidez. Um dia, estava num hotel em Espinho, e sem querer, sem perceber porquê, comecei a desfazer a barba. Desfiz metade. Olhei para o espelho: "Meu Deus, e agora o que é que eu faço?". Vou assim para o campo, com a barba metade feita e metade por fazer? Mas pensei que era é ridículo (risos). Não tive outro remédio e desfiz a barba toda. Aos 20m estava ganhar 4-0: "Oh minha besta, onde é que tu foste arranjar esta teoria'" (risos). Fui, fui muito supersticioso. Houve outra altura em que nunca vestia cuecas brancas. Até que comecei a perceber que quanto mais trabalhava mais sorte parecia que tinha. Aliás, há uma frase que escrevi no meu currículo há muitos anos: "Quanto melhor trabalho, mais sorte parece que tenho".

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Ainda não falamos da passagem pela U. Leiria.
Antes, um agradecimento a Elvas. Se eu não tenho conhecido pessoas tão boas como conheci em Elvas, provavelmente teria voltado para o Algarve. Era a primeira vez que saía do Algarve e os alentejanos trataram-me de uma maneira que nunca me hei-de esquecer. Se me têm tratado mal eu rejeitava a ideia porque ainda estava naquela fase que não sabia se queria ser treinador de futebol. A maneira como trataram levou-me a abrir novas portas e novos desafios. Estou grato a Elvas. Depois de Elvas, seguiu-se o Torreense. Que 27 anos depois subiu de divisão. Quando o Zé Agostinho das tintas Robbialac me ligou, eu estava sentado no chão, aos pés da cama, a conversar com a minha mulher. Aceitei logo. Cheguei a um sábado e no domingo fui para o banco.

Sem mais?
Resolvi assumir a responsabilidade. Pensei, estes homens precisam de um líder já hoje, não precisam terça-feira. Empatámos com o Paços de Ferreira, do Vitor Oliveira.

O que o levou a aceitar logo o Torreense?
Estava desempregado. Saí do Elvas por desentendimentos com o presidente do Elvas.

Que tipo de desentendimentos?
Para ser politicamente correto vou-lhe dizer: eu era mais burro do que o presidente do Elvas. Assim fica melhor. Fui despedido, tive que meter o Elvas em tribunal porque eu era mais burro. Fica assim.

Ganhou a causa?
Ganhei.

Fica três epocas no Torreense...
...Subimos de divisão logo na primeira. Quando cheguei estavam em 7º lugar, subimos de divisão e imagine quem foi o prejudicado? O Académico de Viseu (risos). A vida dá voltas. Eu que tanto mal fiz ao Académico de Viseu vim agora parar aqui.

Gostou de Torres Vedras e a família também?
Muito. Há duas coisas em Portugal que, quando posso, não perco, a Páscoa em Braga e o Carnaval em Torres Vedras.

Alguma vez participou no Carnaval?
Sim, nunca me mascarei, mas fazíamos os jantares com a rainha do Carnaval. De vez em quando vou a Torres Vedras. Os meus filhos andaram lá na escola, estivemos lá durante três anos e por causa do Torreense chorei.

Então?
Vou contar uma história que nunca contei a ninguém. A vaidade fez-me perder o cargo de treinador. Eu tinha subido o Torreense de divisão, estive um ano na I divisão e depois no último jogo descemos por uma história que não me interessa contar. Não é que me faça mal, mas envergonha muita gente. E fiquei outra época na II divisão e andei muito tempo cheio de vaidade a dizer aos diretores do Torreense que no final do ano queria ir embora. Mas eu não queria. Eu queria é que andassem atrás de mim. E os diretores sempre me disseram que eu não saía de Torres Vedras. E eu sempre a mesma coisa: "Não, eu quero ir embora, procurem outro treinador porque quero ir embora". Eu não queria, mas a puta da vaidade! Um dia eles perguntaram outra vez: "Oh Mister, sempre quer ir embora?". E eu, armado em bom: "Quero, quero". Mas a pensar que eles iam pedir-me para ficar. Eles responderam "Então, já que o mister quer ir embora nós pagamos tudo até final do campeonato, mas é legítimo colocarmos já aqui outro treinador para acabar esta época e começar a outra, para começar a trabalhar". E eu aí (longo suspiro). Nunca pensei que acontecesse aquilo. Mas eles fizeram bem. E pronto, não havia volta a dar, saí. Quando cheguei a casa fartei-me de chorar. Estava a minha mulher em casa e eu cheguei a chorar.

Ela disse-lhe alguma coisa?
Disse-me aquilo que me diz muitas vezes e eu acho giro e gosto de ouvir ela dizer: "Cada vez estás mais burro". Hoje, quando me chamam de falso humilde, eu rio da ignorância das pessoas. Eu sou humilde mesmo. Eu não ganho nada em ser falso humilde. Sou um mortal igual aos outros. Não quero ser o melhor treinador do cemitério, não quero ser o mais inteligente, nem o mais bem vestido. Uma vez disseram-me que eu era o treinador mais mal vestido em Portugal.

Quem?
Houve até um senhor que me disse que eu nunca podia ser um bom treinador porque eu não sabia escolher as gravatas a condizer com a camisa. Veja a inteligência desta besta.

Quem é que lhe disse isso?
Um dia vou dizer em direto na televisão (risos). Foi um senhor jornalista. E, agora, quando fui para a China, houve outro que me chamou de coitadinho porque eu ia para a China. "Coitadinho do Manuel Cajuda que teve de ir para a China porque não tinha trabalho em Portugal". Olhem só quem ele escolheu para chamar de coitadinho. Deve ter pensado que fui ganhar 7 euros à hora. E é capaz de ter pensado que a China é um país de ignorantes. A China compra tudo em Portugal e qualquer dia se calhar até compra a estação de televisão onde ele trabalha. Daqui por dez anos anda tudo a chorar para ir para o mercado chinês. Se ao menos dissesse: "Coitado do Manuel Cajuda, lá foi abrir portas para outros portugueses".

Iamos falar da União de Leiria.
Sim, depois do Torreense estive dois meses desempregado, até que o Bartolomeu (presidente da U. Leiria) telefonou-me. À 5ª jornada. Quando chego lá estava em último lugar e subimos de divisão.

Mas porque é que não fica em Leiria?
Outra vez… Porque fui mais burro que o presidente do U. Leiria. Eu ganhava 500 contos por mês, subi de divisão e no ano a seguir ia ganhar menos. Disse ao presidente: "Eu vou pôr um pé fora do escritório, e você é capaz de não acreditar, mas quando eu puser o segundo nem com um milhão vai fazer-me voltar atrás". Ele pensou que fazia, que eu era um vendido. Foram à minha casa e deram um cheque de 2000 contos à minha mulher para ela aceitar. A minha mulher perguntou-me: "O que faço?". "Devolve". Saí do U. Leiria, porque quiseram brincar com a minha dignidade e isso eu não permito a ninguém. Dizem que tenho mau feitio, enganam-se. Agora não dou o direito a ninguém de brincar com a minha dignidade. Eu sou um cidadão, com profissão de treinador de futebol. Eu não sou treinador de futebol. A minha profissão podia ser talhante, trolha, e era com o mesmo sorriso, desde que chegasse a casa e dormisse com tranquilidade. Subimos de divisão e saí, fui para Braga.

D.R.

Em Braga, apanha o clube no 15º lugar e deixa-o no 4º lugar, na Liga Europa ao fim de três anos, certo?
Sim. O Braga no ano anterior tinha ficado no 15º lugar, não desceu por um golo. Quando saí, deixei-o nas competições europeias, há 16 anos que não iam às competições europeias. Voltaram à Europa. E mandaram-me embora.

Porquê?
Por uma questão política. Porque eu queria ir para o estádio quando conquistámos o direito a ir à Europa. O estádio estava cheio à nossa espera e as pessoas quiseram ir fazer política para a Câmara. Eu fui contra. E quando os políticos foram falar, eu disse: "Lá vêm eles montar-se nesta merda". No outro dia fui despedido, porque o senhor vereador estava ao meu lado e foi contar ao senhor presidente da Câmara, que é muito meu amigo e verdadeiro pai do SC Braga, o engenheiro Mesquita Machado. Podem falar o que quiserem mas ele para mim, vale ouro. Estou a falar em termos de treinador, vale ouro. E eu fui despedido. Não fui despedido por maus resultados.

Como reagiu?
Pedi que pagassem o que tinham para me pagar. Disseram que não tinham dinheiro e eu disse-lhes: "Façam um leasing, faz de conta que compram um carro, mas eu não saio daqui sem o meu dinheiro". Eu tinha um prémio para ir à Europa. Só de descontos para a Caixa de Providência paguei 8000 contos, portanto, o prémio era bom. O meu filho provavelmente vai ficar aborrecido com esta entrevista porque acha que conto coisas que não tenho que contar. É a minha vida.

Os seus filhos nunca reclamaram por estar sempre a mudar de casa, de terra, de escola?
O João. O mais velho não. O João um dia em Braga, ao almoço, vira-se para mim: "Pai, preciso falar contigo. É um assunto sério". Um miúdo com 13 anos a dizer-me aquilo. Fiquei assustado, fugi da conversa. Tive medo e passados uns dias ele voltou a pedir-me para falar comigo. Eu só pensava: "O que será que ele fez? Bem, pode ter sido a maior bandidagem do mundo, mas é do meu sangue e vai ser sempre meu filho". Até que apanhou-me à mesa e sai-se com esta: "Pai, tu andas a vida toda para trás e para frente, mudas de cidade e a gente tem de ir atrás de ti. Vou-te dizer uma coisa. Vai para onde quiseres, mas eu não saio mais de Braga. Porque perdi os amigos de Torres Vedras, perdi os amigos de Leiria, estou agora a fazer aqui em Braga e qualquer dia não tenho amigos. Vai para onde quiseres que eu fico sempre aqui em Braga".

Ironia do destino, ele agora tem um blogue de viagens...
Pois, agora sou eu que só o vejo de vez em quando. É a vida. Falei com ele há poucos dias, estava na Tailândia. Mas telefona quase todos os dias para casa, para a mãe.

Depois de Braga, vai para o Belenenses.
Que desgosto.

Então?
Desgosto porque eu desci com o Belenenses de divisão. Os sócios do Belenenses e o clube não mereciam, mas a equipa era tão má, tão má. Até o treinador era mau, que é para não ser só os outros (risos). Mas ficou-me atravessado na garganta. Ainda hoje tenho isso atravessado. Eu gosto tanto do Belenenses e não fui um bom treinador para o Belenenses.

Como é que foi a adaptação a Lisboa?
Morávamos em Setúbal. Eu não quis morar em Lisboa.

Porquê?
Vamos lá a ver. Lisboa é uma cidade fantástica, mas eu não gosto de Lisboa. Não gosto porque estive três anos na tropa em Lisboa e apercebi-me de uma coisa: é contra a minha filosofia de vida. As pessoas em Lisboa andam todas a correr, até dormem a correr. Não têm tempo para dormir. Eu para ir a um restaurante era um problema: onde é que vou estacionar o carro, será que há parque de estacionamento? Fui morar para Setúbal. É a terra da minha mãe e da minha família. É uma terra que eu adoro. Na minha infância eu ia passar férias a Setúbal, com os meus tios e com os meus primos. E eu preferia fazer 40km todos os dias do que ficar em Lisboa.

É nesta altura que tem hipótese de voltar ao Braga logo passados seis meses, mas não pode porque consideravam que era muito cedo. Mas volta ao Braga em 1998/99, para mais quatro épocas.
Estavam de novo entalados. Numa situação muito má e lembraram-se que fui eu que lhes dei vida. Foram buscar-me. Dá-me vontade rir quando eles dizem que o Braga começou agora. Atenção, eu não saí do Braga no outro século, saí em 2001, e deixei-os no 4ª lugar, que é o lugar que eles têm agora. Com a lojinha dos 300.

A lojinha dos 300. O que quer dizer com isso?
Um dia, estava de pé e olhei para o meu banco e vi qualquer coisa como 10 mil contos sentados. Tinha cinco jogadores ali sentados que ganhavam mil e tal a dois mil contos cada um, e eu vi 10.000 contos sentados. E o SC Braga com grandes dificuldades financeiras. Quando fui para o SC Braga, o clube tinha quatro meses de ordenados em atraso e cinco bolas para treinar. As pessoas não gostam que eu diga isto, mas isto é a realidade, não estou a mentir. Então alguém tinha que se sacrificar, alguém tinha de fazer alguma coisa pelo SC Braga. Eu fiz tudo pelo SC Braga, até de pateta fiz para salvar o SC Braga.

De pateta, como assim?
Vou explicar-lhe como conquistei o SC Braga. A imprensa naquela altura era governada como hoje, em Lisboa. Braga tinha direito a 50 bacalhaus como vocês diziam, na imprensa. E eu descobri uma coisa muito importante. Eles só vão publicar alguma coisa quando eu disser uma patetice. Dizendo uma patetice escreviam, se dissesse uma coisa normal, não. Então disse tanta patetice quando estava ao serviço do SC Braga, sabendo de antemão que iam escrever. Eu desafiei a imprensa. Fui pateta para criar o SC Braga. Braga quando fui para lá, era uma cidade migrante, eu fui talvez o único que viu isso na altura. Joguei um jogo com o Benfica e não sabia quem era do Benfica e quem era do SC Braga. Mas sabia que 20 anos depois, os filhos dessa gente que veio da província iam ser verdadeiros bracarenses como são os meus filhos hoje. Braga era mais moderna pela universidade, portanto tinha tudo para ser aquilo que é hoje, só precisava de alguém que fizesse o SC Braga crescer, e esse alguém fui eu. Através de entrevistas, palhaçadas, eu chamava-me papagaio a mim próprio. Acha bonito que eu tenha de chamar-me papagaio? Dizia asneiras para serem publicadas. Eu não era papagaio nem era atrasado mental, eu sabia o que estava a fazer. Um dia disse que ia ganhar a Alvalade e que ia jogar com três avançados. À quinta-feira chamaram-me tudo no jornal "A Bola". Tive uma sorte do caraças, ganhamos mesmo em Alvalade. Na outra semana a seguir, tive um artigo de opinião, que dizia que eu era o treinador mais inteligente do mundo. Está a ver como é que é a vida? Eu arrisquei-me às palhaçadas, mas eu não sou palhaço. Eu trabalhei para o meu clube tal como estou a fazê-lo agora no Académico de Viseu. Os adeptos do Viseu não vão gostar de muitas coisas que eu digo. Mas Viseu já teve mais visibilidade em três semanas do que nos últimos 14 anos de vida. Hoje está cá o Expresso, porque eu estou cá.

Sente-se uma pessoa importante.
Eu não sou uma pessoa importante, eu sou uma figura pública. Fizeram de mim uma figura pública. Eu não quis ser figura pública. E durante um período fizeram e eu gostei, agora continuam a fazer e eu não gosto. Eu hoje não gosto de ser figura pública. Incomoda-me. É mau.

Porque é que é mau?
As pessoas falam comigo com carinho, é verdade. Mas imagine o que é ir a um restaurante e virem 20 pessoas do restaurante falar consigo. Um agora, outro depois, e por aí fora. Só que as pessoas fazem com carinho e eu não posso tratar mal as pessoas e tenho que responder com o mesmo carinho. Há dias disse à minha mulher: "Faz a lista que quem vai ao supermercado, às compras, sou eu". Eu nunca tinha feito isso na vida (risos). Às vezes ia com ela, mas sozinho nunca fui. Pensei: "Tenho tido a vida miserável de treinador de futebol, nunca soube o que era um fim de semana". Já viu o que é estar 40 anos sem saber o que é um fim de semana? O meu fim de semana foi sempre à segunda-feira. Tenho o direito de dizer, quero fazer aquilo que nunca fiz. As pessoas admiraram-se de me ver com o carrinho, nas compras, sozinho. Eu não sabia onde é que estavam as coisas, levei duas horas no Continente, em Braga (risos).

Cajuda com o seu Chihuahua chamado Paris.

Cajuda com o seu Chihuahua chamado Paris.

D.R.

Fica tanto tempo em Braga da segunda vez porque as coisas estavam a correr bem, por causa dos filhos? É que entretanto assenta arraiais em Braga.
Comprei casa em Braga e moro em Braga há 24 anos. O futebol é no norte, e eu queria ficar no centro do futebol e estando no norte… Mas houve uma percentagem de influência grande da família que gosta muito de Braga e do Minho. Somos algarvios, mas depois de correr o país todo, e com todo o respeito pelas outras zonas, o Minho e o Funchal são os locais mais bonitos para viver. As pessoas são mais puras. No Algarve andam 200 para enganar 1. Ali andam só 180. Eu sou algarvio de gema, não me tratem mal o meu Algarve, agora o meu Algarve...

O que tem o seu Algarve?
A civilização chegou mais cedo ao Algarve. Quando os meus filhos tinham dois anitos, eu estava na praia e chegou um casal de holandeses que se despiram completamente ao lado da minha mulher e ficamos assim, a olhar. Ficaram nus, trocaram de roupa, não fizeram mal a ninguém e foram-se embora. A civilização europeia chegou mais depressa ao Algarve através do turismo. Nós somos mais avançados no tempo e as pessoas tratam muito mal o Algarve. A Algarve foi a última província a ser ligada aos centros de decisão por autoestrada. As pessoas só se lembram do Algarve quando vão passar férias. O Algarve tem a maior indústria deste país, que é a indústria hoteleira.

Voltando ao SC Braga. Acaba por sair para a U. Leiria porquê?
Outra vez a mesma coisa. Fui mais burro que eles (risos). Já é a terceira vez que lhe digo que sou mais burro do que os outros. Acredite se quiser.

Qual é a história?
O crescimento do SC Braga foi tão grande que eu comecei a ser incomodativo. Houve dois diretores que vieram pressionar para eu dar o aval a um ou dois jogadores que vinham do Brasil. Não conhecia o jogador e fui confirmar que não interessava ao SC Braga e os diretores quiseram forçar-me a dar o aval. E eu disse: “Não dou o aval. À minha conta o jogador não vem”. Contrataram o jogador e eu fui despedido, porque eu era um empecilho. Nunca fiz a contratação de um jogador nem hei-de fazer, porque eu conheço o futebol por dentro e por fora. O que tenho de fazer é indicar à minha direção, que para o meu projeto preciso de... E normalmente dava quatro ou cinco hipóteses para a mesma posição. Os negócios não são comigo, não me meto neles. Sei o que se passa e por isso não me quero meter nisso. Chegaram a dizer que a minha mulher era empresária. Veja só, a minha mulher.

Os seus filhos formaram-se em quê?
O João tirou Comunicação. O Hugo saiu ao pai, não gostava de estudar, tirou o 12º ano.

Ele foi jogador de futebol, não foi?
Foi. Começou no Marítimo-Olhanense, um clube pequenino de Olhão. Depois foi para Elvas, para Braga, onde jogou nos juniores, até que ficou inutilizado para o futebol.

O que é que aconteceu?
Uma operação mal feita. Operaram-no três vezes a uma coisa que ele não tinha. Operaram-no ao tendão rotuliano e ele não tinha nenhuma lesão naquele tendão. Mas é uma história que não vale a pena tocar.

Porquê?
Porque o médico é muito bom médico. É excelente e continua a ser o médico de família. Houve ali um desfasamento no diagnóstico e leva-o a operar ao tendão rotuliano quando ele tinha a cartilagem toda desfeita. Mas repito, o médico é um homem de extraordinária competência, hoje continua a ser o médico de quem me socorro quando preciso, só que... Quando se veio a ver a cartilagem estava toda desfeita por dentro e o Hugo que era internacional em todas as camadas aos 22 anos, vê-se obrigado a abandonar. E teve uma atitude linda.

Conte.
Ainda o Dr. Beça que o queria operar uma quarta vez e fiquei surpreendido e satisfeito com a resposta do meu filho: "O Dr. desculpe, eu acredito muito em si, mas no meu joelho já ninguém toca. Sou muito jovem, tenho outras coisas para fazer, o futebol para mim acabou. Eu não me quero arrastar nos campos. Se eu jogar vão dizer que é por ser filho do Cajuda e eu nunca mais vou ser um jogador normal. Para acabar aos 26/27 anos, acabo hoje com 22 anos. " Nesse dia fiquei perturbado, mas achei que ele teve uma coragem enorme.

O que ele faz hoje?
Trabalha no futebol. Trabalha como agente desportivo. Felizmente trabalha mais no estrangeiro do que em Portugal. Nunca trabalha comigo. Dificilmente ele vai meter um jogador dele na minha equipa, porque eu sei como é que são as pessoas no futebol. Mas os meus últimos contratos, para a China, foi ele que mos arranjou. Foi ele que trabalhou para mim. Um dia disse-me assim: "Oh pai tu trabalhaste tanto para mim que eu vou ficar tão feliz de trabalhar para ti. Não te quero ver triste. O que tu precisares tu vais ter, nem que eu tenha de dar a volta ao mundo". É a melhor coisa da vida, afinal valeu a pena ter optado pela família. Claro que fui um mau pagador.

Como assim?
Nunca paguei a percentagem nenhuma (risos).

Entretanto, sai de Leiria para o Marítimo. Porque é que sai de Leiria?
Imagine qual é a resposta que lhe vou dar...

Ok “Fui mais burro que o presidente”. Agore imagine a minha pergunta.
Antes de mim no U. Leiria, esteve um treinador por quem eu tenho uma adoração especial, José Mourinho. Tenho dificuldade em falar do Zé Mourinho, porque vão dizer logo que me estou a aproveitar. Eu gosto do Zé Mourinho e não quero falar dele. O Zé tinha seis ou sete anos, ele não se lembra, mas eu andei com ele ao colo. Mas não é por isso: eu tenho a adoração pelo Zé Mourinho porque ele mais do que um mestre, mais do que um senador, eu digo que ele é uma fonte de utilização de inteligência para as oportunidades que teve. Ganhou tudo o que tinha para ganhar. Retomando. Antes de mim, esteve o Zé Mourinho, e eu fiz melhor do que ele. Eu não estou a dizer que sou melhor treinador do que o Zé Mourinho. Estou a dizer que fiz o 5º lugar que é a melhor classificação de sempre da U. Leiria, que o Manuel José também fez, e fui à final da Taça de Portugal, coisa a que o clube nunca tinha ido. E no final da época vejo-me na necessidade de ir embora.

A necessidade surge de onde?
Quiseram baixar-me o ordenado. Veja lá, e dizem que eu é que tenho mau feitio. Eu fui-me embora, disse ao presidente: "Dou-lhe uma semana para pensar". E ele insistiu: "Pense bem". Passados três dias, eu assinei pelo Marítimo e calei-me. Quando ele veio perguntar-me a resposta, eu contei-lhe. "Nós damos mais". "Agora não, já estou no Marítimo".

Já sei que gostou de viver no Funchal. O que o encantou?
O Funchal é o sonho de viver em Portugal. É muito bonito, as pessoas são muito boas. Eu percebi no Marítimo, como cidadão, uma coisa que os madeirenses falam e eu defendo-os: a insularidade. Têm mais problemas do que nós aqui. Adoro o Alberto João Jardim. Adoro. Não há política nisto. Tive conversas com ele que me fizeram adorá-lo. Se me perguntassem quem eu condecorava um dia na vida, Alberto João Jardim.

A sério?
A sério. Eu conheci o homem. Perguntei-lhe algumas coisas, ele disse-me algumas coisas e eu percebi muita coisa. Ponto.

Quanto tempo esteve no Marítimo?
Uma época e no 1º jogo da segunda volta fui, despedido. Tinha ido à Europa. Já viu? Qualquer dia recuso-me a ir à Europa (risos). Cada vez que vou à Europa sou despedido.

Foi despedido porquê?
Mais uma vez vou dizer: fui mais burro que o presidente. Acho que o presidente entendeu mal muitas coisas. Neste caso aconteceram algumas coisas que levaram o presidente a pensar que eu estava a brincar com ele. Mas não. Sou muito amigo dele. Ele nunca se meteu no meu trabalho. Foi um dos melhores presidentes que eu tive. E cada vez que vou à Madeira choro, porque as pessoas tratam-me tão bem... Uma vez fui lá jogar com o clube e a bancada pôs-se de pé desde que eu vim do balneário até ao banco. As lágrimas escorriam. Adoro o Marítimo.

Volte ao que aconteceu com o presidente.
Um dia vamos para um jogo e eu disse ao presidente: "Vou fazer-lhe a vontade". Ele gostava muito que a equipa jogasse com dois pontas de lança. Dizia-me: “Você é teimoso, sabe que eu gosto que a equipa jogue assim e nunca me faz a vontade”. Eu respondia: “Ó presidente, quando você quiser faz a equipa...". Ele dizia sempre: "Não, não. Respeito por cada um. Eu sou o presidente, você é o treinador, joga como quiser". Mas naquele dia disse-lhe: "Amanhã vou fazer-lhe a vontade, vou jogar com dois ponta de lança". Só que nessa noite dois jogadores saíram do hotel, numa escapada, e no outro dia a seguir quando fiz a equipa disse-lhes: "Tu e tu, rua, não jogam". Tive de mudar a equipa e não joguei como o presidente queria. Acho que ele entendeu que eu estava a brincar com ele. Provavelmente deve ter dito aos amigos que o treinador ia fazer-lhe a vontade. E quando acabou o jogo, ao jantar eu ia falar com ele e ele disse-me: "Ó mister, não brinque mais comigo, não me diga nada, eu sou o presidente você é o treinador. Não me diga nada". Eu percebi que havia qualquer coisa ali que tinha falhado, mas eu não o fiz com maldade e se foi isso que ele pensou, está muito enganado. Mas houve outra situação.

Diga.
Foi uma viagem à Argentina, em que o presidente foi sozinho porque eu tinha deixado o meu passaporte no Funchal. Estava de férias no Algarve e o presidente quis que eu fosse para a Argentina com ele. Disse-lhe que tinha o passaporte no Funchal. E ele disse que iam à minha casa, arrombar a porta, com autorização minha, para ir buscar o passaporte. Eu disse que não autorizava ninguém a arrombar a minha porta. E o presidente foi para a Argentina sozinho. Quando chegou mandou-me ir imediatamente à Madeira. Interrompi as férias e fui. A primeira coisa que me disse foi: "O seu empregado esteve a trabalhar para si a ver jogadores na Argentina. Tem aqui estas cassetes todas para ver, amanhã quero uma resposta". Eu percebi que as coisas não estavam bem, ele não era o meu empregado, era o meu presidente. Percebi que já tinha pouca margem. Fui para casa e estive 36 horas seguidas a ver vídeos. Não dormi. Estava sozinho, estrelei ovos para jantar, fiz uma chafurdice de comida que tive de comer, e não aprovei nenhum jogador. Também por birra. Primeira jornada do campeonato, perdi em Belém e fui para a rua.

E foi para Aveiro, para o Beira-Mar.
No Brasil há os meninos do Rio, eu apanhei os meninos da Ria. Não tenho vergonha de falar assim, foi a pior equipa que encontrei em termos de dignidade profissional. Tiveram quatro treinadores e desceram de divisão na mesma. Do pior. Um dia fui ter com o presidente e contei-lhe umas coisas e ele: "Você inventa para caraças". Fui ao posto da polícia: "É verdade que está aí uma participação dos jogadores?". Pedi o papel e mostrei-lhe. "Eu é que invento? Está aqui. Andavam a tomar banho na Ria, bêbados, os ingleses que estavam para lá". Do pior que encontrei. Quando tive possibilidade, vim embora.

Ruma à Naval.
Pouco tempo. Três ou quatro meses. É caso para dizer, a bruxa mandou-me embora. Atenção a uma coisa. Eu adoro o senhor Aprígio. E pôs-me na rua. Se calhar foi a bruxa. Um dia chamaram-me, tínhamos empatado com a Académica, estávamos bem classificados, a meio da tabela, e o presidente só me disse: "Você não merece isto que eu lhe vou fazer". “Se não mereço, não faça”. "Ó mister, você não merece...desculpe mas tem de se ir embora". Ótimo. Até lhe disse: "Não percebo esta rescisão, eu é que estou a ser despedido e você é que está mal disposto?". (risos).

Chegou a perceber o que aconteceu?
Acho que é caso para dizer, só indo à bruxa é que eu posso perceber...

Teve a ver com crendices?
(encolhendo os ombros) Eu não fiz mal nenhum, estávamos bem classificados. Mas gosto do homem, do senhor Aprígio. Vou contar um pormenor: mandaram-me embora e pagaram-me tudo até final do ano. Pagaram-me seis cheques de 10.000 euros, portanto, 60.000. Mas eu, passados dois meses, fui para o Egipto e antes de ir pedi ao senhor presidente da Naval se podia receber-me, mas disse-lhe que só ia a Aveiro se me pagasse o almoço. Ele: “Eu pago os almoços que você quiser.” Quando cheguei almocei, e depois agarrei nos quatro cheques que faltava meter e disse-lhe: "Estão aqui os quatro cheques, não preciso do seu dinheiro para nada. Não sou um mercenário. Os dois meses que passaram eu recebi, os outros, eu vou trabalhar para o Egito por isso não preciso do seu dinheiro". Ele voltou-se para a minha mulher e começa aos gritos, sem ser ofensivos, com a minha mulher: "O seu marido é uma besta, é a maior besta que já vi na minha vida. É um animal". Mas isto num sentido não ofensivo. E diz à minha mulher: "Estes cheques... Vou-lhe dar dois a si, ai de si que você dê dinheiro ao seu marido, que isso é o maior cavalo que eu conheci na minha vida" (risos). E deu os dois cheques à minha mulher. Ri tanto. E devolvi o dinheiro.