Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

Cândido Costa, parte I: “A primeira vez que me cruzei com o Paulinho Santos num túnel parecia que estava a ver um deus”

A paixão portista e a sensibilidade à flor da pele são duas marcas que sempre vincaram a personalidade de Cândido Costa, de 36 anos. O miúdo que começou na Sanjoanense, foi para o Benfica a sonhar com o FCP, conta como foi jogar e conhecer os ídolos, como Jorge Costa, Kostadinov ou Paulinho Santos. Nesta primeira parte da entrevista há histórias de amor, do covil dos Dragões, de sofrimento e resiliência e algumas lágrimas de dor e riso. E amanhã há mais

Alexandra Simões de Abreu

Rui Duarte Silva

Partilhar

É natural de São João da Madeira. Apresente a sua família.
É só nomes invulgares. O meu pai chama-se Noé Costa, a minha mãe, Preciosa Costa, o meu irmão mais velho, Ivânio, tem mais 4 anos do que eu, depois sou eu e o meu irmão mais novo é Fábio, tem 7 anos de diferença para mim. Só conheci um trabalho à minha mãe, gaspeadeira. Trabalhava numa fábrica, a Charles, em São João da Madeira. Mais tarde foi trabalhar com o meu pai e o meu irmão, quando eles abriram um negócio. O meu pai foi vendedor numa empresa de material escolar e mais tarde abriu um negócio de papelaria e material escolar juntamente com o meu irmão.

Cresceu onde em concreto?
Na Mourisca. É um bairro social. Daquela zona, embora não sejam mesmo do bairro, são o Secretário e o José Carlos.

Foi o seu irmão mais velho quem o incentivou a jogar futebol, como foi?
O meu irmão mais velho tinha jeito, era esquerdino, e ainda hoje o meu pai diz que ele também podia ter sido jogador, mas tinha pouco espírito de sacrifício. Gostava de futebol mas à primeira adversidade… Não era persistente como eu e acabou por desistir. Eu também tinha algum jeito, andava sempre com a bola, aquela típica história do jogador da bola, não fujo muito disso.

Não havia ninguém ligado ao futebol?
Não. O meu pai sempre foi muito vocacionado para o desporto. A profissão dele exigia que andasse muito tempo sentado no carro e, quando chegava do trabalho, ia correr. E via em mim também muita vontade de ser alguém, na área desportiva, porque eu andava sempre com a bola, sempre a jogar. Ele fez uma aposta muito pessoal na minha vontade e dedicou-me muito tempo. Isso às vezes até criava um bocado de ciumeira entre os meus irmãos. Mas eu também lhe dava troco. Enquanto ele chegava ao pé do meu irmão mais velho e estimulava-o para ir correr para a serra, para ir cheirar eucalipto, e o meu irmão respondia: “Ó pai está a chover”, ou isto ou aquilo, havia sempre uma desculpa. Eu via naquilo uma coisa muito positiva e uma oportunidade de passar tempo com ele.

É ele que o leva à Sanjoanense?
É.

Tinha que idade?
7 anos.

Cândido Costa, de lacinho no meio, com os pais e irmãos

Cândido Costa, de lacinho no meio, com os pais e irmãos

D.R.

E da escola, gostava, ou nem por isso?
Eu tinha uma personalidade muito rebelde. Mas atenção, passados estes anos todos, e não tem a ver com o que fui depois, um jogador de futebol com alguma visibilidade, as pessoas que levaram comigo nessa idade gostam muito de me ver. Por isso calculo que a minha rebeldia não era sinónimo de má educação. São duas coisas completamente diferentes. Eu era muito extrovertido, muito brincalhão, não conseguia parar quieto. Se calhar, agora estou a pagar tudo com os meus filhos, porque eles são muito parecidos. Era muito intenso, creio que ainda o sou, às vezes até revolto-me comigo próprio.

Porquê?
Porque olho para mim em miúdo e vejo-me hoje. Muita coisa mudou, mas continuo a ser aquele gajo que está sempre a falar, tem que ser ele a contar as histórias e às vezes digo para mim próprio: “Cala-te, deixa os outros falar. Lá estás tu outra vez”. A minha esposa também me critica, está farta de ouvir as mesmas histórias, as anedotas mil e uma vezes contadas.

Era um puto reguila então.
Gostava de fazer as brincadeiras típicas dos rapazes. Puxar a cadeira, roubar fruta, tinha as mãos leves quando era miúdo. Os meus pais detestavam. Mas era só fruta, saltava as quintas, ainda levei uns cachaços valentes (risos). Era um índio mas não era malcriado, nem tenho memória de ter tido alguma atitude malcriada com uma funcionária ou professora.

E de estudar, gostava?
Tenho de confessar que até ao 9º ano fiz a escola em modo de sobrevivência. Nunca reprovei porque tinha o sentido de responsabilidade em casa, através dos meus pais que me obrigavam a correr atrás do prejuízo. Mas em termos de empenho, do gostar de estar ali, eu estava presente mas não estava, como aqueles jogadores que vão ao treino. Uma coisa é ir ao treino, outra coisa é treinar. E eu ia para a escola porque tinha de ir. A escola para mim era sinónimo de estar com os amigos, de diversão, de namorar, nunca foi uma coisa que eu percebesse que era ali que estava um possível futuro, uma vida melhor que pudesse vir a ter.

Então nunca quis ser outra coisa que não jogador?
Sim. Mas curiosamente estou a ir ao encontro de outra coisa que sempre gostei: televisão. Sempre gostei de televisão e volvidos estes anos todos encontrei na televisão [Cândido é comentador no Porto Canal] muita satisfação e hoje percebo-me melhor.

Percebe-se melhor através da televisão, como?
Desde muito cedo, fruto de algum talento que tinha no futebol, habituei-me a emoções fortes. A pacatez, o mais do mesmo, fico aborrecido. A adrenalina, a crítica, o andar na corda bamba, o bom, o mau, o abrir o jornal no outro dia e ver o que é que dizem de mim...Coisas fortes, isso sou eu. E a televisão, os diretos, dão-me isso. Quando comecei a fazer comentários as palmas da mão suavam. Era uma sensação má mas ao mesmo tempo era aquilo que eu sempre tive no futebol. A ansiedade é viciante. Eu critico a ansiedade, fez-me muito mal, tirou-me anos de vida, perdi cabelo por causa do stress do jogo, de ter de corresponder às expectativas, mas é viciante. Quando acabei a carreira e não tinha nada para fazer, andava aqui em casa e estava a ficar maluco da cabeça.

Cândido Costa, o primeiro em pé à esquerda, com a turma da escola primária

Cândido Costa, o primeiro em pé à esquerda, com a turma da escola primária

D.R.

Já lá vamos. Foi com 7 anos para a Sanjoanense, nessa altura já tinha uma posição definida?
Não, lembro-me que tinha capacidades ofensivas, queria era bola, não gostava muito andar atrás da bola defensivamente, mas quando os colegas ganhavam a bola, eu era o primeiro a pôr a mão no ar, a pedir. Fico sempre nostálgico quando falo desse tempo porque se calhar aí ainda era tudo em estado puro. Ainda me lembro dos dizeres de alguns treinadores, como o Zequinha. Disseram-me coisas muito puras, que se perpetuaram durante muito tempo na minha carreira. Apesar da globalização e de toda a tecnologia para poder encontrar motivação, o que me dava força eram aquelas palavras simples, “Nunca desistas, mete o pé, não sejas malandro”. Essas coisas ficaram durante muito tempo na minha vida.

O seu amor pelo FCP nasce quando?
O meu portismo foi natural. Não tenho memória de uma camisola dada por um tio ou do meu pai forçar fosse o que fosse. A única memória que tenho bem viva, a partir do momento em que me recordo de mim próprio, é de umas cassetes que se faziam no final da época. O narrador era o Gabriel Alves. Fazia aqueles resumos de fim de época, com aquela voz emotiva. Quando chegava a altura do FCP... as claques, o azul e branco, os jogadores… A minha cama por trás tinha os cromos todos do FCP, e alguns depois vieram a ser meus colegas de equipa.

Quem eram os jogadores que admirava?
Eram os bravos. O Fernando Couto, o Kostadinov… Quando jogava no Parque da Jana, na Mourisca, quando ia com a bola, às vezes ia a narrar: “Kostadinov de cabeça levantada passa pelo primeiro e entrega a bola a Domingos Paciência”. Foi assim que começou o meu portismo. Fui sempre portista, assim como os meus dois irmãos são benfiquistas, o meu pai é portista, a minha mãe não tem clube.

Aos 15 anos já sonhava em ser jogador do FCP, mas vai para o rival Benfica. Como é que isso aconteceu?
Sim, mas há aí um espaço temporal em que o futebol começou a ficar um bocadinho sério para mim. Até aos 12, 13 anos, era só infantis, mas já começava a ter algum protagonismo, já se falava: “Epá, o Cândido Costa, tens que ir ver o miúdo a jogar à bola”. Eu sabia disso. Se ganhássemos 9-0, 6 dos golos eram do Cândido. Comecei a perceber que tinha possibilidade de fazer parte de algo grande. A Sanjoanense nesse ano tinha uma equipa muita boa, estávamos sempre nos nacionais. E na escola comecei a ser associado a “um craque do caraças” e com isso começaram a vir coisas positivas para mim, as raparigas, o status... O futebol era uma coisa que me fazia sentir e ser especial – eu era alguém. Comecei a arquear as pernas como os jogadores, a imitar aquele caminhar típico, armado em bom (risos)... E os portistas começam a dizer que eu ia para o FCP, os benfiquistas e sportinguistas que ia para o Benfica e para o Sporting. Comecei a interiorizar aquilo dentro de mim. Até os adversários diziam: “Miúdo, tu cuida-te, tu tens umas qualidades do caraças, podes ir longe”. E houve ali um ano em que se falava que o FCP andava a ver a Sanjoanense, andava a ver a equipa. Eu andava com um peito (risos).

Pensava que andam a ver o Cândido, mas quem vai para o FCP é outro colega.
Sim, o Gustavo, ainda mantenho o contacto com ele. Aquela situação provocou-me, não tristeza, mas uma curiosidade... Então, mas e eu? O meu telefone também vai tocar, há-de tocar. Mas nunca tocou. Quando chegava a casa: “Ó pai achas bem? Que injustiça. Não me passam cartão”. Chorava. Com todo aquele encanto que uma criança tem nessa idade, aquilo para mim estava a ser uma traição, uma facada.

Mas insistiu.
Insisti. Virei-me para o meu pai: “Porque é que não me levas lá a treinar?”. Só pensava, vou pegar nas minhas chuteiras, chego lá, peço para treinar e mostro o meu valor. Antes da época começar, pedi ao meu pai para me levar lá. Cheguei, com as chuteiras na mão, sem ter avisado ninguém. Fui ao departamento do futebol juvenil: “Boa tarde, vim cá treinar”. “Mas você falou com alguém?”. “Não, mas estão interessados em mim aí dentro, mandaram-me vir cá, não me lembro do nome do treinador, acho que é Bandeirinha, mas não tenho a certeza”. E o porteiro “Ok, tudo bem”, deixou-me passar. Quando cheguei ao roupeiro, pedi um cesto e ele: “Mas quem és tu?”. “Eu vim cá treinar para ver se eles me querem”. “Epá, isto não é assim. Dá meia volta e andamento. Pensas que isto é o da Joana?”. E pôs-me lá fora. Aquilo foi um momento...Ui. Então eu ando à porrada na escola por causa do FCP, é Porto isto, Porto aquilo, chego aqui e sou espezinhado, nem sequer me deixam treinar? Cheguei ao carro e comecei a chorar.

O que é que o seu pai disse?
Para eu ter calma. E disse-me uma coisa, às vezes ainda falamos disso: “Tu vais fazer mais uma época na Sanjoanense e vais ver que, no final da época, vais ter aqui os três clubes a mendigar para ires para lá. Se continuares igual a ti próprio, tu vais ver”. Isto dito agora parece uma coisa fácil de superar, mas na altura para uma criança era bastante difícil de ouvir como uma coisa possível.

Cândido Costa, em pé ao lado do guarda-redes, na Sanjoanense

Cândido Costa, em pé ao lado do guarda-redes, na Sanjoanense

D.R.

Voltou à Sanjoanense?
Sim, fiz mais uma época. Só que nessa época fui muito resiliente. Ou é agora ou não. Fiz promessas escritas em papel e tudo: “Eu hei-de jogar num grande, eu vou jogar num grande. O FCP não me quis mas eu vou provar que mereço”. Coisas assim que já não sei se sou eu que as tenho ou a minha mãe. Tenho pena de ter perdido essa essência de criança, porque quando começas a perder essas coisas, começas a perder tudo o resto. Através da Sanjoanense fui chamado à seleção nacional. Sete jogadores do Sporting, sete do Benfica, seis do Porto e um da Sanjoanense. Logo aí um miúdo da Sanjoanense receber o reconhecimento de ir à seleção, não é muito normal.

Seleção de sub-16?
Sim. E a partir do momento em que fui lá abaixo treinar a Lisboa, um jogador da Sanjoanense, aqueles olheiros todos, “Dá-me lá o teu nome, quero falar com o teu pai”. Do Sporting, do Boavista, do FCP. E o Benfica, na altura, foi quem tomou as rédeas, porque passados dois dias estavam aqui, em São João da Madeira. Vieram à sede da Sanjoanense reunir com o presidente, ligavam para o meu pai quase todos os dias. Havia a questão da distância, mas o FCP retardou muito, não ligava e eu enraizei em mim que não queria nada comigo, não via grandes coisas em mim. Mesmo quando apareciam, era do género: “Se queres, queres. Se não queres, não queres”. Eu tinha a mania que era o maior da aldeia e ir para Lisboa... Os meus pais se calhar sabiam que eu ia encontrar muita dificuldade. Mas tomei a decisão e fui para o Benfica com mil e uma esperanças, mil e um sonhos na cabeça, como qualquer jovem.

Ficou a viver no centro de estágios?
Sim, que era no próprio Estádio da Luz. Fui muito bem recebido, muito bem tratado.

Como é que foi quando se viu sozinho, sem a família?
Foi traumatizante. Foi horrível. É a parte mais sensível da minha vida.

Passou-lhe pela cabeça vir embora?
Tantas vezes, tantas vezes. É a parte mais sensível da minha vida, detesto-a porque sempre que sou obrigado a falar sobre isso, fico quebrado e não gosto. Tenho uns pais maravilhosos, agora estou muito presente na vida deles. Porque a fase da infância é muito bonita, é mágica, até aos 15 anos, e depois há um corte, muito radical, muito bruto. E muitas desilusões, porque uma coisa é tu seres razoavelmente bom, até nem és feio de todo, mas vens para Lisboa, o mercado é muito maior, afinal não és assim tão bom, afinal não és assim tão bonito, és um gajo normal ou vulgar.

Sentiu isso tudo na pele quando chegou a Lisboa?
Senti isso tudo. Que havia pessoas mais fortes do que eu, melhores do que eu, que se vestiam melhor do que eu, que tinham mais estilo do que eu. E eu é que passei a ser o gozado, pelo sotaque, por tudo. Foi muito agressivo. Tive momentos desgraçados, só não me fui embora porque, quero acreditar, que sou um tipo mesmo rijo, sou um gajo do norte.

Passou de estar num pedestal para, de repente, descer à realidade em Lisboa?
Sim, à realidade, e sozinho, numa sala muito maior.

Continuou os estudos?
Sim, primeiro fui para a escola Padre António Vieira, em Alvalade. Mas foi muito difícil. Creio que estive lá 4 meses e reprovei. Fui para o 10º e reprovei. Depois fui para um externato particular, em Benfica, para concluir o 12º ano, mas o futebol começou a ficar cada vez mais sério, com as seleções nacionais estava quase sempre fora. Acabei por vir embora sem o 12º ano.

Cândido Costa ainda guarda o certificado da sua 1ª internacionalização

Cândido Costa ainda guarda o certificado da sua 1ª internacionalização

D.R.

Cândido Costa, com a camisola 7, ganhou a Taça de campeão europeu pela seleção de sub-18

Cândido Costa, com a camisola 7, ganhou a Taça de campeão europeu pela seleção de sub-18

D.R.

Mas integra-se bem no Benfica.
Chego ao Benfica e rapidamente sou titular, ganhei uma notabilidade muito grande, porque aliada à qualidade técnica, tinha uma intensidade de vulcão, era precoce. Tinha muita força, fazia uma vida muito condizente com os dizeres do meu pai que todas as semanas me mandava uma carta. O meu pai escreve muito bem e as cartas vinham cheias daquelas frases motivacionais, muito apelo à família: “Não te esqueças dos nossos treinos”. E eu era um miúdo que fazia as coisas muito bem feitas. Não fumava, não bebia, cuidava-me muito, a noite para mim era sinónimo de coisas negativas. Aquilo que sentia na Sanjoanense, rapidamente comecei a sentir no Benfica. As pessoas a dizer: “Epá, este miúdo é uma máquina”. De todos os outros jogadores que tinham vindo de outras partes do país, eu era o que estava mais na berra.

Havia outros jogadores no lar do Benfica que também sofriam por estar longe da família?
Lembro-me do Carlos, que calhou no meu quarto. Era de Viana do Castelo. Era ainda mais sôfrego do que eu no que diz respeito à família. Eu às vezes estava triste, sobretudo depois de ler as cartas do meu pai ficava quebrado, precisava de um tempo para mim e chegava ao quarto e ainda ficava pior (risos). O Carlos é que foi mesmo uma não adaptação. Além de não jogar. Isso também conta muito porque o estímulo desce quando no fim de semana não jogas e estás longe, não há nada para te agarrares. Eu era titular e via ali a luz ao fundo do túnel, cada vez acreditava mais, mas o Carlos não estava jogar e era muito duro. E, naquela altura, o futebol dava-nos responsabilidade. É quase tudo proibido, tens que ter boas práticas, tens que vender bem o teu produto, tens que ser educado, saber estar, ter comportamentos aceitáveis. Uma coisa simples como dar uma pêra a alguém, que é normal na canalha com 16 anos, ali era considerado... “Mas onde é que nós estamos, rapazes, nós estamos num clube grande, rapazes”. E tu começas a ficar subserviente, submisso, porque só assim é que vais receber dinheiro e ter uma vida boa. A própria sociedade não desculpa coisas que às vezes são normais na tua idade.

O rebelde tornou-se um miúdo “certinho”?
Tinha que ser. Era um rebelde terrível que tinha vindo de São João da Madeira, mas que chegou ali e. ao ouvir as palestras motivacionais e de boas práticas, olhava para mim e pensava “Fogo, tenho que ser bem comportado”. Extravasava tudo na escola, agora naquele contexto de futebol eu era um menino bem comportado, que fazia as coisas como deve ser.

Nessa altura já ganhava dinheiro?
Não, absolutamente nada. Pagavam o passe para irmos para a escola e uma ajuda de custo para comprar umas bolachas, mas não tinha ordenado. Ainda precisava dos meus pais, não para as refeições, mas para comprar umas calças, por exemplo.

Cândido na seleção de Aveiro Sub-14

Cândido na seleção de Aveiro Sub-14

D.R.

Entretanto sofre uma lesão que ia deitando tudo a perder.
Sim, com 16 anos. Os meus pais, coitados, faziam um sacrifício enorme para vir a Lisboa, porque o dinheiro era contado e nesse dia tinham acabado de sentar-se no estádio para ver o jogo. Curiosamente, estava a jogar a extremo esquerdo. Há uma bola metida nas costas, eu adianto a bola, o central faz um carrinho, eu tento tocar com o biquinho da bota primeiro do que ele, mas ele apanha-me o pé, torce e fiquei com o perónio exposto, foi uma coisa feia mesmo.

Fratura exposta?
Sim, muito feia. Rompi os ligamentos do pé com que chutava e o perónio também partiu. Rachou ao meio e ainda ficou um bocado fora da pele. Imagine a aflição dos meus pais na bancada a ver aquilo. Ainda tentei levantar-me, mas quando vi o pé fiquei horrorizado e a partir dali... Depois só me lembro de acordar no hospital. Acordei e a primeira ideia que tenho é de localizar-me, ver o meu pé todo engessado e nisto ouço o médico, o Dr. Martins, a conversar com o meu pai. Estava a fazer o cenário ao meu pai, o bom e o mau.

O que é que ele dizia?
Estava a tentar persuadir o meu pai para mudar a convicção que eu tinha de que ia ser jogador. Começou a dar-lhe um quadro “Não ponham de lado a hipótese de o Cândido não ficar igual. Foi uma lesão feia, a operação correu muito bem mas se calhar é necessário começar a equacionar o cenário do miúdo. Isto não é uma lesão assim tão fácil como se possa pensar...” E eu a ouvir aquilo. Fiquei a pensar que tinha tido um azar tão grande na minha vida, que tinha acabado tudo, que nunca mais ia ser jogador de futebol. Até que… (emociona-se) É por isso que digo que esta é a parte mais sensível da minha vida.

Se não quiser contar...
...O meu pai fez algumas coisas nessa altura que me marcaram muito. Foi tudo, fisioterapeuta, amigo, pai, tudo. Vir do norte e aparecer de repente, apesar de todas as dificuldades… Dava-lhe aquela tristeza de eu estar a recuperar sozinho e aparecia, ia para o meu quarto e continuava a recuperar-me, levava-me areia aqui da praia para pôr no pé... .

Uma das cartas que o pai de Cândido Costa lhe escreveu depois da lesão

Uma das cartas que o pai de Cândido Costa lhe escreveu depois da lesão

D.R.

Recuperou mais depressa do que era expectável?
Muito mais cedo. Eles tinham dito que com sorte seriam uns 7, 8 meses porque os ligamentos ficaram todos afetados. Só que nessa altura tinha muito fogo dentro de mim, isto não me concede nenhuma estátua, mas tinha o fogo natural das crianças e aquele sonho... “Tens de voltar, tens de voltar”. Fui muito bem tratado, muito bem acompanhado no Benfica e voltei 5 meses depois. Lembro-me que o primeiro treino que fiz foi horrível e aí é que chorei. Acho que foi a vez que chorei mais depois do que aconteceu, porque até lá eram tudo palavras positivas que me rodeavam. Do meu pai: “Faz as coisas bem que vais voltar mais forte, o pé ainda vai ficar mais forte do que era”. E a primeira vez que me deixaram treinar com a equipa, tudo parecia irrisório. Passava tudo por mim, rematava e a bola parecia que ia a 10 à hora, eu a perceber a cara de espanto dos colegas. Aí é que foi dilacerante.“Isto é que é estar bom?! Estou morto. Não pode ser”. Essa constatação de que as coisas não iam ser assim tão fáceis, nem um mar de rosas, numa altura que me diziam que já estava bem, a cara não batia na careta. Depois, no primeiro jogo que fiz, sou expulso.

Então?
Toda a gente a bater-me palmas, o regresso do Cândido Costa e tal, eu senti-me a última bolacha do pacote. E na primeira vez que há uma lance, o árbitro interpretou que abri o braço e… Mas o colega para quem abri o braço percebeu a situação, viu que eu tinha sido expulso e foi ao árbitro pedir para não fazer aquilo. Percebeu que tinha sido sem querer. “Senhor árbitro não faça isso ao Cândido, ele não me quis agredir”. Eu não queria acreditar naquele vermelho direto, depois daquele calvário. Mas essa expulsão acaba por dar-me mais tempo, para ficar ainda mais forte. Mandavam-me fazer duzentas e eu fazia quatrocentas, mandavam-me fazer quatrocentas e eu fazia mil. Como às vezes vemos nos filmes, o gajo a ir treinar sozinho, eu era assim. Às vezes, à noite, o meu colega estava a dormir e eu com o elástico no pé a puxar, pumba, pumba, sempre a somar. Meti a lesão a um canto. Comecei a esquecer, comecei a meter o pé no treino e a perder o medo, ganhei de novo a titularidade e fiz um percurso de dois anos no Benfica muito bons. Voltei a ser o Cândido.

Cândido, à direita, na seleção de sub-15

Cândido, à direita, na seleção de sub-15

D.R.

Conhece a sua mulher quando e onde?
Foi a seguir à lesão. Na escola Padre António Vieira era só bad boys, no externato era só betinhos, só “filhos do papá”, jogadores do Benfica e jogadores não sei de onde. No primeiro dia de aulas, no externato, já estava a turma toda sentada, a aula ia com 5 minutos quando batem à porta. Era a tresloucada da minha esposa (risos). Na altura tinha uns canudos quase até ao rabo, umas botas Doc Martin fora das calças, toda rebelde, toda hippie, com um lenço preto e branco de lado. “Posso?”. A sala estava toda ocupada, o único lugar vago era ao meu lado. Ela pede desculpa ao professor e começa a procurar um lugar. Quando chega ao pé de mim, aquela figura toda rebelde e eu era assim para o bimbo, olha para mim e diz: “Eia, não brinques comigo. Não.” Virou as costas e foi-se embora. Imagine, no primeiro dia de aulas, com a turma toda. Fiquei assim: “Mas eu cheiro mal ou quê?” (risos). Fiquei traumatizado.

Como é que ela se chama?
Sónia. Quando acabou a aula, no intervalo, só olhava para ela. Ela dava-se com os mais rebeldes da escola. Fiquei mesmo... Era meio atração/ódio. Eu estava a fazer daquilo um caso. Falava com os outros e dizia-lhes: “A tua amiga tem a mania. Aquilo não se faz”. Até que um dia ela chega ao pé de mim “Então como é que é bimbolândia, está tudo bem?”

Bimbolândia?!
(risos) “És do norte?”. E eu “Sou”. “Ficaste ofendidinho? Estava a brincar contigo. Não queria ir às aulas, fiz aquilo a brincar”. E minimizou uma coisa que eu andava a remoer há 15 dias e a fazer um filme. Para ela era uma coisa normal. “Tu és fixe. Diz lá.... “ E começa a pedir-me para dizer coisas com sotaque do norte (risos). Comecei a andar muito com ela na escola, era rebelde e eu encontrei ali um parceira. Faltávamos às aulas juntos, íamos beber umas minis. A Sónia foi muito importante para mim, quando estava com ela, eu era o Cândido, e era a única altura em que conseguia ser o Cândido, porque ela era muito descomprometida com aquilo que eu fazia, ser jogador de futebol. Não ia ver os jogos, mas dava-me tudo o resto. Apeguei-me muito a ela e passou a ser a minha melhor amiga, mas sem acontecer nada. Ela gostava muito de um colega meu, não me pergunte o nome que eu não vou dizer, ainda hoje tenho ciúmes (risos). A parte pior era quando ela me perguntava se eu já tinha falado com ele. Comecei a gostar dela de outra maneira, até que num aniversário, éramos só amigos mas demos um beijo na pista, uma coisa um bocadinho à “Dirty Dancing”. Eu já tinha bebido uns copos, ela também, demos um linguado, lembro-me dos pormenores todos. No dia seguinte quando cheguei à escola, ia cheio de dúvidas, ia cheio de vergonha, parecia que a tinha conhecido ontem. Cheguei ao pé dela “Então, Sónia, tudo bem?”. “Tudo”. E em vez de dois beijinhos na cara, demos um beijo na boca, demos as mãos e começámos assim a namorar, aos 16, 17 anos.

E nunca mais se largaram?
Não. Temos dois filhotes.

Cândido Costa com a mulher e os dois filhos

Cândido Costa com a mulher e os dois filhos

D.R.

Já vamos falar deles. Entretanto, no Benfica as coisas correm-lhe bem e acaba por ir para o Salgueiros, mas esse passo já tem a ver com o FCP, certo?
Sim. O próprio Jorge Mendes dizia que havia ali a forte possibilidade de ir para o FCP.

Quando e como aparece o Jorge Mendes?
Ainda no Benfica. Depois de um jogo apareceu um indivíduo a dizer que gostava de falar comigo e com os meus pais. Fomos almoçar todos, ele falou da vida dele, ainda não era o Jorge Mendes que é hoje. Pareceu-nos uma pessoa simpática e razoável. Para os meus pais era ótimo ter alguém que supostamente iria olhar por mim, preocupar-se comigo, e pronto, ficou assim que ele é que seria o meu empresário. Um ano depois do Jorge, fomos campeões nacionais de juniores, fiz uma época incrível e o título foi discutido no Estádio das Antas, no campo número dois. Eu tive uma ação nesse jogo preponderante, além de ter feito o golo, a forma como o festejei, levava a crer que das duas uma: ou este gajo é um portista ou está cheio de raiva. Foi isso que suscitei nas pessoas do Porto: “Quem é este gajo que faz um golo e parece que ganhou a Champions?”. No fundo, eu estava a desafiá-los. “Porque é que vocês nunca olharam para mim? Como é que é possível vocês nunca terem olhado para mim?” Mas isto não era uma traição ao Benfica. Aliás, costumo dizer que foi pelo que fiz no Benfica que tive oportunidade de jogar no meu clube de sonho. Entreguei-me ao Benfica nos três anos que lá estive.

No Benfica sabiam que era portista?
Sabiam, toda a gente sabia. Havia até pessoas que me chamavam: “Ó portista”.

Continue a contar como é que foi parar ao Salgueiros.
Entretanto, fomos ao Europeu e faço também um grande Europeu de sub 18, na Suécia. Eu e o Ricardo Costa éramos os capitães, ganhamos esse Europeu. Quando cheguei cá, tive a noção de que ia ter mais um ano de júnior apesar do que se estava a passar. Toda a gente falava de mim, o telefone sempre a tocar, o Jorge sempre a perguntar se estava tudo bem, se precisava de alguma coisa. Nos jornais também, toda a gente falava: “Ele vai fazer mais um ano de júnior, não vai já para uma equipa sénior”.

Cândido Costa foi apresentado por António Linhares, no Salgueiros

Cândido Costa foi apresentado por António Linhares, no Salgueiros

D.R.

Nessa altura ainda não ganhava dinheiro nenhum?
Ganhava 30, 40 contos. No segundo ano no Benfica, em vez de receber ajudas de custo, passámos a receber o passe e mais 20, 30 contos. Mandava o dinheiro para os meus pais, não tinha carro na altura. Ficava com algum para comprar alguma coisa à Sónia, um peluche, para pagar um jantar e não dava para muito mais.

Vamos continuar com a ida para o Salgueiros.
Um dia estava a namorar com a Sónia na mata de Benfica e liga-me o Jorge Mendes a dizer que havia possibilidade de ir para o Salgueiros e que se as coisas corressem bem: “Há a possibilidade de ires para onde sempre quiseste ir”. Passados dois ou três dias, ligou-me o presidente do FC Porto.

O próprio Pinto da Costa?
Sim. “Se o FCP quisesse que viesses, tu vinhas?”. “Amanhã já presidente, é o meu maior sonho”. “Então continua a trabalhar”. Só assim. Fiquei com as pernas a tremer. E no dia seguinte fui para o Salgueiros. No próprio Salgueiros dão-me indicações de que eu ia para o FCP.

Ir para o Salgueiros significou sair de Lisboa. Como é que foi a mudança, a Sónia foi consigo ou ficou em Lisboa?
Veio comigo. Tínhamos 18 anos, ainda não vivíamos juntos, mas ela tinha que vir comigo.

Ela já tinha deixado de estudar?
Até aí não. Tinha feito o 9º ano, mas também não ia muito à bola com os livros. Na altura estava muito ligado emocionalmente à Sónia e mal disse aos meus pais que vinha para o norte, que ia jogar para o Salgueiros, disse que a Sónia vinha comigo.

Os pais dela não se opuseram?
Não, porque eles já me conheciam bem. Como eu estava ali sem os meus pais, entreguei-me muito àquela família, já dormia muitas vezes lá em casa, e eles tratavam muito bem de mim. O Cândido já não era aquele namorado que a Sónia conheceu em Lisboa. E quando assinei pelo Salgueiros, já era um contrato profissional.

Cândido Costa com a camisola do Salgueiros

Cândido Costa com a camisola do Salgueiros

D.R.

Lembra-se quanto passou a ganhar?
Penso que passei desses 30, 40 contos para 800 contos.

Isso em 1999, para uns miúdos de 18,19 anos, deve dar a volta à cabeça, não?
Jesus, sentia-me a última bolacha do pacote. A primeira vez que meti o cartão no multibanco, até parecia que o boneco estava a dançar (risos). Tanto dinheiro meu Deus!

Fez alguma loucura?
Tirei a carta e andava a namorar um carro: um Peugeot 206 GTi que na altura era o carro da malta nova com pinta. Acho que fui ao stand da Peugeot mil vezes. O vendedor já estava farto de me aturar. Eu pedia para me sentar dentro do carro, fazer que estava a conduzir, só dizia: “Que máquina”. E nem sabia que o Salgueiros ia aparecer. Andava a discutir com o vendedor, mais conto menos conto. Depois de assinar com o Salgueiros apareci lá com o Jorge Mendes. O Jorge vira-se para o vendedor: “Posso fazer um pronto pagamento para a amanhã?”. Depois, o Jorge descontava no meu ordenado. O vendedor deve ter pensado que me tinha saído o euromilhões (risos).

Foi viver com a Sónia para onde?
Para um apartamento que o Salgueiros nos concedeu. Era um mar de rosas. Dois putos novos com a possibilidade de viverem numa casa arrendada pelo clube.

Cândido na seleção de sub-16

Cândido na seleção de sub-16

D.R.

Como foi encarar um balneário novo, sénior?
Foi um choque para mim. É normal, eu tinha 18 anos, vinha de uma situação em que era tudo meu. Capitão do Benfica, capitão da seleção, campeão europeu... Cheguei ali: “Eu aqui não sou ninguém”. Jogadores com trinta e tal anos: “Ó miúdo isto, ó miúdo aquilo”. O Salgueiros é um clube com especificidades muito particulares, muita alma bairrista. Eu era alvo de muita brincadeira, era muito miúdo.

Que tipo de brincadeiras?
Lembro-me de uma… (risos). Não vou dizer o nome, mas havia um jogador que tinha placa à frente, não tinha dentes, e eu não sabia. Num treino em que estava a chover muito, há uma jogada em que tenho a bola em discussão com ele – ele também era daqueles raçudos – e, no meio da confusão, acabámos por cair os dois. E ele, palhaço, agarrou-se à cara: “Olha o que tu me fizeste!”. Mostra-me a boca e não tinha dentes nenhuns à frente. Eu vejo os dentes na lama, fico em pânico (risos). Depois, percebi que era gozo, mas houve ali uns milésimos de segundos em que pensei que lhe tinha tirado os dentes todos (risos). Ele pega naquilo cheio de lama: “Estou a brincar contigo, miúdo”. Encaixa aquilo outra vez na boca e começa a correr. E eu só pensava, “Ai Jesus, que raça. Eu penso que tenho raça, estes gajos é que são raçudos”.

E treinadores?
Epá, o Vitor Manuel quando chegou também foi muito engraçado. Queria fazer daquilo um inferno. No dia em que foi apresentado aos jogadores, estávamos no balneário e ele: “Agora vamos sair daqui, vamos ao relvado mostrar aos índios lá fora que vamos fazer disto um inferno”. Com aquela voz rouca típica dele: “Tem que ser meus meninos, vamos embora, tudo atrás de mim, tudo juntinho”. O Salgueiros tinha balneários em que subias 4 ou 5 degraus e estavas logo no relvado. Nós saímos a correr, Vitor Manuel à frente... mas só havia 7 ou 8 pessoas na bancada. E ele: “Obrigado por estarem aqui. Isto é um inferno” (risos). Foi muito engraçado, ele depois na roda: “Epá, pensei que estivesse mais gente, c…..!”

Na seleção de sub-21

Na seleção de sub-21

D.R.

É nessa altura que começa a fazer as primeiras loucuras das saídas à noite?
É.

Sozinho ou com a Sónia?
Também ia com a Sónia. Ela começou a perceber que eu estava a mudar. Lembro-me perfeitamente que foi um choque muito grande para a Sónia, perceber que eu estava a mudar.

A mudar em que sentido?
O futebol estava a ter interferência em mim. Por exemplo, eu nunca tinha posto gel, nem cera, no cabelo. Ela gostava desse ar selvagem em mim, com uma argola pequenininha, t-shirts simples...E começo a pôr umas “Guess”, a ficar vaidoso, calça apertadinha... e ela a ver-me mudar. Já não atendia logo o telemóvel. Não era a perder o encanto, mas era o futebol a tomar conta de mim. Eu a tornar-me futeboleiro. Em vez de irmos para um bar simples, para bebermos umas “jecas” e termos uma boa conversa os dois, já queria ir para o sítio da moda. Naturalmente, ela começou a receber esse lado com muito desagrado. Chegou a dizer-me que eu estava a perder o meu estado mais puro. “Estás a ficar boleirão”. Depois comecei a querer mudar de carro, a namorar um carro à jogador.

Que carro comprou a seguir?
Um BMW 330 D. Burro do caraças, andei a pagá-lo durante 5 anos.

Ainda estava no Salgueiros?
Não, já estava no Porto. Fui em janeiro de 2000 para a equipa B do FCP e comprei o carro.

Cândido Costa no dia em que assinou pelo FCP

Cândido Costa no dia em que assinou pelo FCP

D.R.

Como foi a passagem para o FCP. Mudou de casa?
Não, nessa meia época fiquei a viver na mesma casa.

A sua mulher fazia alguma coisa profissionalmente?
Ela queria, mas eu não deixava. Como eu ganhava bem e a Sónia tinha o 9º ano, eu achava que o que ela podia fazer e ganhar não era necessário. Hoje, olhando para trás se calhar devia ter deixado fazer o que quisesse. Mas, naquela altura, a vida de jogador permitia-me estar muito com ela. Só treinava de manhã, chegava às 11h30 e podíamos estar juntos. Podíamos almoçar, passar a tarde e jantar juntos.

Qual foi o impacto de sair do Salgueiros e chegar à equipa B do FCP?
Para já, eu pensava que ia para a equipa A. Dois meses antes de mercado de dezembro fechar, estava consumado que eu ia para o FCP. E eu achava que era para a equipa principal.

Foi um choque quando percebeu que ia para a equipa B?
Não. Eu estava nas nuvens, estava muito feliz. Para mim foi o concretizar de um sonho. Foi mesmo. Vestir a camisa do FCP, ver aquele símbolo... para mim foi muito especial. Mesmo sendo na equipa B. O cruzar-me nos corredores com pessoas que eu idolatrava. A primeira vez que me cruzei com o Paulinho Santos...só vinha à memória aquilo que falei no início, aqueles relatos do Jorge Gabriel (imitando a voz): "Paulinho Santos, na raça, corta aqui"...A primeira vez que me cruzei com ele num túnel parecia que estava a ver um Deus. Tudo isso só senti no FCP. O presidente... Quando entrei na sala para assinar o contrato, a minha mão a tremer, nem conseguia olhar para a cara dele. Ele notou e disse: “Calma, rapaz". Quantas e quantas vezes já não entrei agora no Estádio do Dragão, até porque trabalho lá, e nunca é indiferente. Como não será indiferente para uma pessoa que sinta o mesmo pelo Sporting e pelo Benfica. Não sou daqueles que diz que sente isto porque o FCP é melhor. Não, digo isto porque sou portista.

Fica meia época na equipa B. Quando e como é que sabe que vai para a equipa A?
Logo no final da época avisaram-me que ia fazer a pré-época com a equipa A, em França. Atenção: não me disseram “vais para a equipa A”. Disseram-me: “Vais fazer a pré-época com a equipa sénior”. Fui de férias e apresentei-me para fazer a tal pré-época. Quando cheguei, comecei a ver o desfile de estrelas, nos seus magníficos carros. Só pensava :“Meu Deus, eu vou fazer a pré-época com estas figuras, com estes jogadores”. Muito envergonhado, cumprimentava-os e eles sem me passar cartão, o que era normal, era mais um miúdo que vinha para ali. E confesso que a probabilidade de eu ficar era remota porque jogava na posição do Capucho, tinha jogadores a chegar. Era eu e mais dois miúdos, que não me recordo agora o nome, à experiência. Mas fiz uma pré-época tão boa que o Fernando Santos era obrigado a ficar comigo.

Cândido a receber o Prémio Revelação do jornal "A Bola", das mãos de Fernando Couto

Cândido a receber o Prémio Revelação do jornal "A Bola", das mãos de Fernando Couto

D.R.

Como é que foi o primeiro impacto com o Fernando Santos?
Ele só me dizia: “Miúdo, trabalhar bem, sem pressão, não te quero ver pressionado. Faz o teu papel, não tens de provar nada a ninguém, as coisas vão correr bem. Tranquilo”.

Notou diferença nos treinos?
Claro, uma qualidade incrível. Jogavam muito. Percebia que ali tinha de estar sempre 100% focado para poder dar nas vistas. Quando uma pessoa vai fazer uma pré-época, miúdo, não basta correr bem, tens que pôr as pessoas a olhar para ti, a falar de ti. Depois havia uma coisa, essa admiração que eu tinha por esses jogadores, esse deslumbramento, entrando para o campo...Eu dava porradinha neles se fosse preciso, eu era muito aferroado. Parecia que tinha choque no corpo. Caía com eles e quando diziam “ó miúdo, tem cuidado aí com o pé” eu respondia logo “cuidado com o pé? Estou a treinar”. Era muito bravo. Depois, no final já voltava a admiração toda, a subserviência. Já era: “Ó miúdo traz aí o gelo”, “Ó miúdo chega-me isto”, “Ó miúdo não te esqueças das minhas botas". E eu ia buscar, era muito humilde, muito submisso. Lembro-me que, um dia, o Vítor Baía deu-me as chaves do carro: “Ó miúdo, vai-me ali à bomba num instante lavar o carrito que está cheio de pó. Não te importas?”. Aí fui eu com o Porsche à bomba de gasolina, buuuu, buuu.... Cheguei “Sr. Vitor, está aí. Fiz a lavagem que pediu”. Mas, lá dentro do campo, não me deixava calcar, não facilitava. Depois comecei a perceber, durante a pré-época, que o Fernando Santos estava a gostar muito do que estava a ver. Já me dava mais minutos que aos outros. Começou a falar comigo: “Ó miúdo, olha que eu vou ficar contigo”.

Essas vivências hoje já não são assim, pois não?
Não. Isto nunca mais vai ser assim. Eu apanhei uma fase do futebol, uma estirpe de pessoas, de caráter, de jogadores, que nunca mais há hipóteses de vir a ser assim. Porque, primeiro, já não tem piada nenhuma para estes rapazes. Por exemplo, conseguirmos introduzir um queijo, uma faca, um bocado de presunto e umas cervejas lá atrás, no autocarro, para nós era um espetáculo, era o nosso momento, aquilo ganhava jogos. Hoje em dia os miúdos não ligam nada a esse tipo de coisas. Vão a partilhar coisas no telemóvel e, quando chegam, cada um vai à sua vida. Eu apanhei essa fase. Chegar à equipa dos meus sonhos e ver como eles eram na sua essência para mim foi a explicação de por que é que eles ganhavam.

Porquê?
Porque eles gostavam mesmo um dos outros e isso para mim foi uma coisa muito positiva. Por isso é que sou um eterno revoltado com alguns valores que se vão perdendo. Nós também éramos filhos da mãe uns para os outros. Eu gostava de jogar e não que o outro jogasse, mas havia um respeito muito grande entre nós. Quando tínhamos algum problema ligávamos uns para os outros. Havia sentimento de pertença.

E havia hierarquias bem definidas.
Claro. Mas eram bem aceites porque eram conquistadas pelo exemplo. Eu quando vi os joelhos do Jorge Costa não queria acreditar. A partir daí, deixei de me queixar do que quer que fosse. Ele acabava de treinar, um treino simples, e tinha de pôr uma saca de gelo à frente e outra atrás, nos dois joelhos. Tinha de ficar 20 minutos com as pernas estendidas no balneário, em todos os treinos. E, no dia seguinte, vê-lo chegar à frente do pelotão, com a idade que já tinha, cheio de cicatrizes, era qualquer coisa.

Cândido Costa como ogador do FCPj

Cândido Costa como ogador do FCPj

GERRY PENNY

Foi praxado?
Aquilo que eles fazem da escadaria, de levarmos com água, eu tive sorte porque vi muitas fazerem aos outros (risos). Quando fui para a pré-época, nessa altura foram chegando reforços e eles preferiam fazer a esses do que a mim. Era o lugar do morto, ou seja, deixavam uma cadeira vazia; entretanto, o Bicho [Jorge Costa] agarrava-se a esse jogador novo, conversava com ele, e encaminhava-o para lá. O Paulinho entretanto ia tratar do balde (risos). Depois a malta até começou a dizer que podia ser perigoso, porque o Paulinho exagerava. Enchia aquilo com tudo o que apanhasse na rouparia, na enfermaria, plásticos, restos de seringas, gelo, ia tudo para o balde. E aquilo ainda era uma altura de três metros, aquilo era uma pedrada de água. Havia gajos que até ficavam em pânico. O sinal para o Paulinho era quando começavamos a cantar: "Paulinho Santos, lá lá lá lá lá lá, Paulinho Santos" (refrão de "Can't Take my eyes off you"). Há uma história com o Pizzi [futebolista argentino] engraçada.

O que aconteceu com ele?
Foi atrás do Paulinho. O Pizzi só dizia: “Te voy a matar” (risos). O Pizzi começou a correr, o Paulinho deu a volta pelos confins do estádio, voltou, meteu-se no balneário no meio da malta também a cantar: “Paulinhos Santos, lá lá lá lá lá lá Paulinho Santos”. Depois, o Pizzi lá percebeu que era ele (risos). O Pizzi ficou mesmo bravo.

Lembra-se da primeira vez que teve coragem de meter conversa com o Jorge Costa, o Paulinho Santos, essas figuras míticas do FCP?
O treino e o jogo desbloqueia muita coisa. Nessas alturas não vou chamar “Sr. Jorge”. O jogo-treino é um fator desbloqueador. Na viagem de avião para França e nos primeiros treinos, esquece, eu não abria a boca. Estava caladinho cheio de medo. Eles gozavam comigo. Com tudo, com o penteado, com a roupa, eu era o factor de gozo porque era o mais novo, era sempre: “Ó miúdo isto”, “ó miúdo aquilo”, “corta-me esse cabelo. já viste essas patilhas?”. Tudo era fator de gozo. Eu ria-me. Depois começaram a elogiar nos jogos-treino: "Boa miúdo”. E começas a entrar dentro do grupo. O facto de seres humilde, saberes ouvir, o facto de levares o primeiro amasso e aguentares. A primeira vez que vi o Jorge Costa bravo comigo no intervalo de um jogo, nessa pré-época, fiquei cheio de medo. Ver o Jorge Costa com aquela braçadeira no braço a gritar comigo a dizer que eu não estava a fazer bem as coisas: “Mete o pé, caralho!”. Fiquei traumatizado, na segunda parte parecia que estava ligado à corrente, não parava de correr. Só olhava para ele para saber se estava a fazer bem, se estava intenso.

No FCP com José Mourinho

No FCP com José Mourinho

D.R.

Como eram as famosas viagens no autocarro?
Eu queria muito ir lá para trás, queria muito ir para o “U”. Na parte de trás os bancos estavam em “U” e tinham um mesa no centro e era onde ia a velha guarda. Ali é que se passavam as coisas. Ali é que eram as conversas boas, as tangas, o riso. E tinha uma cortina. Só o facto de ter uma cortina já suscita uma curiosidade terrível.

Os treinadores não iam lá?
Não, ninguém entrava ali, era sagrado. Aquilo era dos jogadores. O primeiro treinador que entrou ali, pediu autorização. Foi o José Mourinho. Sentou-se connosco a comer e a beber depois de um jogo. Mas antes mandou o roupeiro lá acima perguntar ao Jorge se podia juntar-se a nós. Porque era sagrado. Era o covil. O covil dos Dragões era ali. Chegou lá disse para o encararmos como um jogador e que só no dia seguinte, no treino, é que o encaravamos como treinador outra vez. Começou a conversar e rapidamente percebemos que estava a ser genuíno. Naturalmente que este convívio acontecia mais nas vitórias. Quando as coisas corriam menos bem aquilo parecia um funeral. Aprendi isso. A cara de quem ganha é diferente da cara de quem perde. Quando se perde, há muita gente desiludida e frustrada, silêncio. Não é para cantar nem beber uma cerveja. Não faz sentido.

Como é que foi a sua estreia lá atrás?
Foi talvez a meio da época. Eu andava sempre por ali, encostava-me junto ao “U” e eles diziam: “Ó miúdo estás mortinho para vir para aqui”. O Jorge Costa, o Secretário, o Paulinho Santos, o Domingos, o Aloísio, o Deco, o Baia, o Capucho... E eu, sorria e dizia: “Quando houver um espaço...”. O Jorge era o único que podia ir com os pés esticados. Ele ocupava dois lugares, um dos lugares estava “morto”, era onde ele levava as pernas esticadas. Um dia disse: “Ó miúdo queres vir para aqui? Se queres vir para aqui tens de levar com estes ramalhetes em cima”. “Não faz mal”, disse eu. Andei mais de uma época a fazer viagens de 300km com aqueles dois presuntos em cima das minhas pernas. A viagem toda, só para ir ali, nem mexia (risos). Era um privilégio. Tenho pena de não ter fotos disso. Diziam que eu era as pernas do Bicho. Eu ia ali todo contente.

Era de facto uma outra geração...
Então não era? Tinham defeitos como toda a agente. Às vezes tinham comportamentos não tão profissionais, eram muito entregues à coboiada, mas não se comparava com hoje.

Que tipo de coboiadas?
Não é que hoje não se façam, umas noitadas de vez em quando. Por exemplo, nós tínhamos almoços que se prolongavam até ao jantar. Mas, para mim, é uma coisa positiva. Quando é, é. Às vezes, íamos fazer almoços de equipa e quando dávamos por nós, já estávamos a jantar. Mas isso fortalecia muito o grupo. Hoje, faz-se um almoço de equipa, cada um está a mexer no seu telemóvel e, mal acabas de comer a sobremesa, já estão todos a despedir-se. “Até amanhã” e fica lá a equipa técnica. Hoje em dia é praticamente assim. O que é que isso traz?

Cândido Costa, ao centro com a bola, na equipa do FCP que conquistou a Taça UEFA

Cândido Costa, ao centro com a bola, na equipa do FCP que conquistou a Taça UEFA

D.R.

A sua primeira época na equipa principal, com o Fernando Santos, correu bem?
Muito bem. Ganhei o prémio revelação atribuído pelo jornal “A Bola”. Fui muito falado, o Capucho deixou de jogar muitas vezes por minha causa. Foi uma época em cheio. O que gerou uma expetativa muito grande em relação a mim, já se falava muita coisa, “O miúdo de 18 anos já é titular e encostou o Capucho”. Era projetada uma época a seguir ainda melhor.

Mas não foi isso que aconteceu. Com a vinda do Octávio Machado as coisas mudaram.
Deixei de jogar tanto. Não era das primeiras opções do Octávio. Mas depois vem o Mourinho, em dezembro, porque os seis meses do Octávio não foram felizes. A liderança do Octávio é claramente diferente da do Mourinho. E houve uma libertação enorme em nós. É quase como passar de uma liderança ditatorial para uma democrática, com tudo o que isso tem de bom. Essa libertação foi muito importante para o que veio a acontecer ao FCP depois. Aqueles títulos. Na época a seguir ganhamos a UEFA, o campeonato, a Taça de Portugal.

Curiosamente, para fora há um pouco a imagem de que Mourinho é duro.
Quem conhece bem o Octávio Machado sabe que é uma pessoa que tem alguns valores que vão com ele. Não são negociáveis. Não é muito fácil sentar com o Octávio Machado e passar-lhe uma perspetiva daquilo que é a minha visão e fazê-la compreender. Ou seja, há algumas coisas que estão enraizadas na personalidade do mister Octavio. Bem ou mal, é dele, ele não as negoceia. E ter esta personagem como líder, para nós era castrador. Cansava. Sentíamos que estávamos debaixo de alguém que atribuía demasiada responsabilidade ao insucesso a nós, jogadores. Era uma coisa muito severa. De repente veio alguém que, sendo exigente no que ao treino diz respeito, foi uma libertação. Passamos de “estes jogadores são assim ou assado e a culpa é deles” para alguém que dizia “eu tenho os melhores jogadores do mundo”. De repente, eu saía do treino feliz, a contar que tinha um treinador, um amigo, que acreditava em mim, que me ligava, que me perguntava: “Estás bem? O treino foi forte? Então as pernas, os músculos?” Alguém interessado e metódico. Os treinos todos organizados. Passámos de treinos que eram muito de componente física que, não vou dizer que não são importantes, mas eram aborrecidos, para treinos dinâmicos, com bola, tudo feito com bola, uma comunicação positiva, no sentido da melhoria. Eu sentia-me parte integrante da coisa. Isso agregava. Ele tinha um discurso muito correto. Por exemplo, uma vez chamou-me e disse: “Olha miúdo, prepara-te que vais jogar, aconteça o que acontecer vais jogar. Se treinares mal até sexta-feira, vais jogar. Se treinares mal sábado, vais jogar. E vais jogar como o c...”. Era um privilégio ser treinado por ele.

O Jorge Costa que tinha saído entretanto, volta.
Exato. Chateou-se com o Octávio. De repente, perdemos o Jorge Costa que era o grande símbolo do balneário. O Jorge era intocável. Quando o Jorge falava as paredes tremiam. Eu nos anos que estive no FCP, voz mais forte que a do Jorge, só a do presidente. De resto, quando o Jorge falava os alicerces tremiam. O Mourinho resgata-o na época a seguir. O Jorge foi uma época para o Charlton e vem ganhar tudo o resto.

Cândido Costa no FCP

Cândido Costa no FCP

Phil Walter - EMPICS

Quando é que volta a jogar com o Mourinho, lembra-se?
Foi num FCP- Benfica, e foi o melhor jogo que fiz. Ainda hoje se fala sobre isso. Ganhámos 3-2 nas Antas e lembro-me que já sabia que ia jogar muito bem porque essa semana ele injetou-me uma confiança incrível. Tantos craques naquela equipa, Deco, Capucho, Alenitchev, e ele durante a semana dizia “Aquele (eu) é que vai resolver o jogo. O miúdo vai partir esta m... toda”. À frente dos outros. E depois dizia: “E mais, se jogares bem, provavelmente vou tirar-te. Se jogares mal, vais jogar os 90'. Eu confio”. E ele tirou-me numa ovação incrível, como tinha dito, e pôs o Costinha.

Mas depois a coisa vira.
Nessa época jogo muito. A seguir faço a pré-época toda como titular. Toda. O meio campo era o Costinha, Deco e eu. Não jogava o Maniche nem o Alenitchev. Na semana que antecede o primeiro jogo da época seguinte, creio que era com o Belenenses, tudo indicava que eu ia jogar a titular e comecei a fazer uma semana horrível de treinos. Na pré-época encontrei equipas fortíssimas como o PSG e saí-me muitíssimo bem, nessa semana...

Porquê essa mudança de comportamento?
Pressão. Acusei a pressão. Lembro-me que ele chamou-me à parte e perguntou: “Miúdo, estás bem? Não acertas uma. Está tudo a sair-te mal”. E eu a dar tangas: “Ó mister, más decisões acontecem”. E ele: “Não, não estás bem, eu conheço-te, a tua linguagem corporal, não estás bem, não estás harmonioso, parece que estás pressionado”. Eu sempre a fugir: “Não, dormi mal”. E às tantas ele diz-me: “Vou sacar-te, vou meter o Maniche no jogo. Tenho de pôr. Tu punhas, tu próprio punhas o Maniche a jogar”. E assim foi. O Maniche pega e engata. Faz dois golos nesse jogo e pronto começou a jogar o Maniche. Eu entrava, participei em jogos da UEFA mas...

Sentiu-se revoltado?
Comigo só. Eu não deixava de ter 19/20 anos e estar a jogar no clube dos meus sonhos, com um projeto que era de ser campeão nacional, a titular, com jogadores internacionais russos no banco. Eu acusei a pressão. Comecei a ver o facto muito perto e comecei a sentir a pressão, a ansiedade, as coisas a não saírem bem, falhava um passe e já mexia comigo. Eu era titular, mas sabia que estava na corda bamba. Eu era titular porque estava a trabalhar muito bem e eu não podia falhar e, falhei.

Teve ou procurou ajuda psicológica?
Não. Hoje olho para trás e sei que era pura e simplesmente muita pressão. As coisas estavam a sair-me mal nessa semana, assim como me saíram muito bem na pré-época porque estava mais liberto. Quando comecei a ver o colete de titular as coisas começaram a sair mal. Se calhar, se estivesse numa fase de maturação como jogador, 24/25 anos, tinha gerido isso melhor. Mas é a minha história. E essa semana de trabalho, quem estava lá comigo, se lerem a entrevista vão-se lembrar e podem atestar que o miúdo, o Cândido, perdeu a titularidade por causa dessa semana de trabalho. Depois de o Maniche começar a jogar, eu voltei a ser o mesmo Cândido. Por isso é que ele gostava tanto de mim e diz, nesse período, que eu era para o FCP o que o Luis Enrique era no Barcelona, por causa da intensidade, da raça. Dizia: “Enquanto eu cá estiver o Cândido fica no FCP”. Porque depois eu descomprimi, soltei. Depois do primeiro jogo em que joga o Maniche e ganhámos, foi um alívio. Comecei tanto a lutar por ela que a dada altura achava que já a merecia outra vez. E é por isso que peço para sair em dezembro.

Foi só isso?
Houve duas coisas que se voltaram contra mim. Eu gosto de me sentir parte de algu,a coisa. Gosto. Tomei algumas decisões menos felizes na minha vida em termos monetários por causa disso, pelas sensações. Isto é, eu pensava: “Se ficar ali ganho mais, mas não estou feliz., por isso quero ir embora já, mesmo que vá ganhar menos”. Eu estava a jogar muito pouco e na seleção começou a aparecer a nova fornada, os Cristianos Ronaldos, os Quaresmas, e eu a ver-me no banco e comecei a pensar: “Estou a perder o lugar na seleção porque estou a jogar pouco no FCP"” O Jorge Mendes, assim como tenho palavras para o elogiar, aí, nessa altura, crítico-o. Porque começou a dizer-me que eu tinha de sair: “Tens de jogar, vou-te vender, vais para ali, vais para acolá, vais ganhar isto, precisas é de jogar porque os gajos de não sei onde precisam de ver-te e tens de jogar para eu te vender por não sei quantos”. Havia ali um discurso muito positivo, parecia que tudo ia acontecer. “Vais fazer uma época no V. Setúbal e depois eu vendo-te para Itália e vais ganhar não sei quanto”. Mas as coisas no futebol não são assim tão lineares e tão práticas de se resolver.

Cândido Costa com os dois filhos, Cândido Rafel e Gabriel

Cândido Costa com os dois filhos, Cândido Rafel e Gabriel

D.R.

Mas vai mesmo para o V. Setúbal.
Fui uma época para o V. Setúbal. O meu primeiro filho, Cândido Rafael, tinha acabado de nascer. Há um jogo, depois de ele nascer, para as competições europeias, em que havia prémio de jogo. Estávamos a ganhar e, já perto do fim, faltava uma substituição e o Mourinho chamou-me para eu receber o prémio. Acho que foi contra o Espanyol de Barcelona. Quando me chama, fala-me ao ouvido, eu a pensar que ele ia dar-me alguma indicação sobre o jogo, e ele diz: “Parabéns pelo bebé. É para o leitinho”. E piscou-me o olho. Ele gostava de mim. Mas pronto, fui ter com ele peço para sair, ele chamou-me maluco três ou quatro vezes, disse-me para refletir, que não estava a tomar uma decisão certa, que contava comigo, que eu era muito importante, para não fazer isso que ia arrepender-me.

E arrependeu-se?
Sim. Custou-me tomar a decisão mas, em relação ao meu portismo eu estava de consciência tranquila, lembro-me que até achava que estava a ser mais portista do que os banais porque dizia para mim: “Jogo pouco, conto muito pouco para isto, ando aqui a receber, estou a tornar-me como os outros”. Havia esse sentimento em mim. Também sentia que o comboio da seleção estava a andar e eu estava a perdê-lo. Depois apareceu o Jorge Mendes com o cenário. Uma época em Setúbal e depois seria vendido.

Como foi o primeiro impacto no V. Setúbal?
Uma realidade completamente diferente. Ordenados em atraso... Andei durante três anos da minha vida a ouvir: “Vitória, só a vitória é que interessa”. Cheguei ao balneário do V. Setúbal e passei a ouvir: “Não perder é bom. Temos de agarrar o pontinho. Lutar para não descer”. Aquilo para mim foi um choque. O meu trajeto até então tinha sido coisas grandes, pensamento grande, não faltava nada, equipamentos a estrear. E entro num balneário sôfrego, com muitos ordenados em atraso. Passei a receber pelo V. Setúbal, estive lá seis meses e recebi um salário. Para mim aquilo foi...Quero sair daqui rápido, o que é isto?

Quem era o treinador quando lá chegou?
Tive três ou quatro. Quando cheguei era o Luís Campos. Depois veio o Diamantino e ainda tive outro, o Carlos Cardoso. Foi muito mau, três treinadores em seis meses, sem receber, equipa desanimada. A cidade, clube e gentes espetaculares, mas o resto.

A mulher adaptou-se bem?
Ela é de Lisboa, estava perto dos pais, para ela até foi porreiro porque tinha a ajuda deles com o bebé pequeno. Foi tranquilo.