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A casa às costas

Cândido Costa, parte II: “Quando acabei, tinha o 9.º ano, pé e joelho lixados, filhos, esposa e dois carros que não podia manter”

Na segunda-parte desta longa entrevista, o ex-futebolista fala dos perigos do deslumbramento nos jovens que não sabem controlar impulsos gastadores e como chegou a acontecer consigo próprio. E revela histórias caricatas da época que jogou na Roménia, do encontro com Jorge Jesus no Belenenses e como este o chamou de "gordo". Descreve o pânico que viveu no parto de um dos filhos, "Parecia que estava num talho", e explica como é diferente treinar homens e mulheres.

Alexandra Simões de Abreu

Rui Duarte Silva

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Depois do Vitória de Setúbal, foi parar ao Derby County, de Inglaterra, a sua primeira mudança. Como e porquê?
Foi o Jorge Mendes, na época seguinte. Fui emprestado pelo FC Porto para esse clube também.

A família foi consigo para Inglaterra?
Não, ficou. O meu filho era muito pequenino e achámos melhor não arriscar. Eu vinha cá muitas vezes. Era um grande clube, apesar de ser Division I não me faltava nada, a casa onde fiquei tinha sauna no quarto. Em termos de magnitude, sinceramente, não notei diferenças em relação ao FCP. Um centro de treinos incrível, almoçávamos lá, 11 campos relvados, deram-me um carro com zero quilómetros, um apartamento em que saía de casa com tudo desarrumado e chegava ao meio dia, depois do treino, e estava tudo arrumado. Pagavam-me à semana, cozinhavam para mim. Foi fantástico. Ali foi só jogar futebol. Fiz uma boa época, joguei bastante, os adeptos gostavam muito de mim, as coisas correram-me bem, só que tinha a esperança de voltar para o FCP. E quando vejo o FCP a festejar a Liga dos Campeões, depois de na época anterior termos ganho o que ganhámos... E eu em Inglaterra. Foi um misto. Uma alegria de ver o meu clube a ganhar, mas eu, eu não estava lá.

Não se chateou com o Jorge Mendes nessa altura?
Não. O Jorge depois começou a ganhar muita notoriedade e em boa hora se diga que o que ele procurou para mim era o melhor.

Mas ele vendeu-lhe um sonho, de ir para Itália, que não se cumpriu.
Está bem, mas eu também tenho de olhar para mim próprio. Se calhar também não correspondi dentro de campo. Jogar não chega. Era muito fácil para mim estar com o dedo apontado ao Jorge, mas se calhar não era verdadeiro. Meio, meio. Porque se calhar o Jorge também começou a ter outros jogadores e as coisas a correrem melhor a outros.

Cândido Costa como jogador do Derby County, de Inglaterra

Cândido Costa como jogador do Derby County, de Inglaterra

Mike Egerton - EMPICS

O que aconteceu depois, desencantou-se do futebol?
Eu venho de Inglaterra a achar que ia ficar no FCP. Honestamente. Só que o problema é que o Mourinho sai. Ele ganha a Liga dos Campeões, sai, e vem o [Luigi] Delneri, que não conhecia o Cândido de lado nenhum. Quando lhe foi apresentado o dossiê Cândido e o possível regresso ele disse que não lhe interessava. O que é normal. Não fiquei.

Ficou triste?
Fiquei. Aí mexeu comigo. Porque depois rescindi contrato com o FCP para ir para o SC Braga. O SC Braga era um bom clube, mas eu senti que já estava destinado a ser esse jogador. O estrelato maior eu tinha perdido, tinha perdido a minha oportunidade. E, erradamente, enraizei isso em mim. Dificilmente o telefone da grandeza vai tocar outra vez. Eu tive o meu tiro e o meu tiro foi aquilo que consegui. Foi isto. Agora eu era apenas um bom jogador da I Divisão, a minha realidade ia ser aquela. Deixei de acreditar que era mesmo muito bom. E quando deixei de acreditar que era mesmo muito bom, eu deixei de ser muito bom. Passei só a ser um bom jogador. Foi o melhor elogio que recebi depois. Deixei de ser extraordinário. E quando deixas de acreditar, tudo em ti muda. Acomodei-me. Para mim era muito bom estar no Belenenses, como era muito bom estar no SC Braga. E era.

Quando chegou ao SC Braga quem era o treinador?
Jesualdo Ferreira. Estive duas épocas com ele.

E que tal?
Já o conhecia das seleções. O SC Braga já era o SC Braga. Ficámos duas épocas em quarto ou em quinto. Já era um SC Braga muito forte, que pagava bons salários, um clube já muito organizado. O Jesualdo fez duas grandes épocas, tínhamos uma equipa muito forte. Apesar de ter sido no Belenenses que mais tarde relancei a minha carreira e deixei a minha marca, fiz duas épocas boas no SC Braga, honestas, e gostei muito da vida de Braga. Vivi em Braga com família e gostei muito das pessoas. Agreguei-me muito ao clube, até porque não me faltava com nada. Senti-me parte integrante de um clube com alto pensamento e para mim foi interessante manter essa fasquia alta.

Cândido Costa jogou no SC Braga duas épocas

Cândido Costa jogou no SC Braga duas épocas

D.R.

Foi para o Belenenses mas tinha mais um ano de contrato com o SC Braga.
O Jesualdo saiu e apanho um treinador novo [Rogério Gonçalves[ e aquilo que me chega é que me queria mas se eu quisesse sair...

Entretanto, nasceu o seu segundo filho.
Sim, o Gabriel nasceu em 2005.

Assistiu ao parto de algum deles?
Dos dois. Foi no hospital particular e tive possibilidade de assistir. Foram dois nascimentos completamente diferentes. O primeiro foi muito lindo, muito romântico, dava para ser filmado e as pessoas iam ficar muito comovidas. Como vem nos livros, apesar de ter sido cesariana, correu muito bem. O do Gabriel não. Roxo. Lapada no rabo, não reage. Tubos no nariz, não reage. Cada vez mais roxo. Comecei a ver aflição nas pessoas que não deviam estar aflitas. Comecei a gritar encostado a uma parede, parecia que me estava a dar um ataque. Sem poder fazer nada. A mãe sôfrega com os olhos arregalados a tentar ver e perceber o que se estava a passar. De repente lá vem aquele choro. Depois ele tinha um roncar na respiração aflitivo, durante meses fazia esse barulho a dormir. Perdi anos de vida. O primeiro foi uma maravilha, no segundo parecia que estava num talho. Se tivesse outro filho agora não assistia. Quando aquilo acabou, parecia que tinha andado à porrada com três homens.

Com a mulher e os filhos

Com a mulher e os filhos

D.R.

Foi através do Jorge Mendes que foi para o Belenenses?
Na altura já havia a GestiFute e o Jorge tinha ido para outros mundos, já estava no mundo muito privado do Jorge. Eu também tinha passado para outro ranking e sinceramente ainda bem porque conheci umas das pessoas que mais me ajudou, o Cristiano Faria. Esse merece bem que o nome esteja aqui porque foi um empresário/amigo e uma pessoa muito presente e correta comigo. Apareceram uns clubes, de fora, mas disse que não gostava muito de ir para fora, e o tempo das inscrições a passar. E as equipas a arrancar. Eles aliciavam-me com a hipótese de ir para fora, para Chipre, Roménia, que ia ganhar bem, mas eu não queria ir para esse mercado, achava que ainda podia jogar na I Divisão. Até que apareceu o Belenenses, com Jorge Jesus. Já tinha ouvido histórias, de uma exigência incrível, um treinador top, mas terrível. E eu: “Está bem, vou para o Belenenses”. Último dia de inscrições, arranquei no meu carro por ali abaixo, encontrámo-nos com o Tuck, que teve de vir de Lisboa até Coimbra, para rapidamente fazer o contrato num notário de Coimbra porque senão passava o prazo. E depois de assinar continuo para Lisboa para ir fazer o primeiro treino.

Como foi o embate com Jorge Jesus?
Eu tive mais tempo de férias do que os outros porque não fiz pré-época. Tive dois meses e tal de férias nesse verão. E quando comecei a conversar como mister, ele olhou de cima abaixo para mim e disse: “Estás gordo, pá. Tu estás a rebolar”. No primeiro treino deu-me uma coça (risos). Fiz o treino com a equipa, quando o treino terminou eu todo contente: “Chegou ao fim”. Vinha de férias, estava num plantel que já levava um mês e meio de treinos – chegar ao final de pé para mim foi uma vitória. Já estava a baixar as meias quando o Jorge Jesus se virou para mim: “Vem fazer aqui um trabalhinho extra comigo”. Fez-me correr à volta do campo todo durante não sei quanto tempo. Eu fiz juras, fiz promessas de que se aquilo acabasse, eu cumpria as promessas.

Que tipo de promessas?
“Por favor isto que acabe, eu nunca mais bebo, eu fico duas semanas sem fumar um cigarro, nunca mais me porto mal, mas por favor isto que acabe”. Eu vinha das férias, das churrascos, dos convívios. E ele: “Vamos fazer mais uma que estás bem ainda”. Eu só pensava: “Não acredito que isto está a acontecer comigo”. Morto, mas sem dar parte fraca. Quando ele disse que já chegava, deitei-me na relva. “Obrigado senhor, obrigado Jesus” (risos).

Mas ele gostava de si.
Gostava e acredito que ainda gosta. Ele gostava muito das minhas características guerreiras. Eu valorizava muito o treino, era um jogador muito intenso nos treinos. Hoje, na pele de treinador, sei que eu ia gostar muito de mim. Porque era muito comprometido e muito disponível para o que fosse preciso para a equipa. Se o treinador precisava de um jogador para uma posição, eu oferecia-me. Sempre à frente, nunca refilava. Se havia mais valia em mim era essa abnegação. E com o Jorge Jesus isso é tido muito em conta porque ele gosta muito de rigor, de comprometimento coletivo. Se há valor que o Jorge Jesus gosta é de um jogador que perceba a ideia de jogo dele e que a executa, mesmo que às vezes isso não se reflita no resultado. É sinal que estás a seguir uma liderança, que ele acredita e que bem ou mal também vai assumir que foi o culpado.

Cândido em ação pela seleção nacional

Cândido em ação pela seleção nacional

D.R.

Foram duas épocas em que jogou sempre.
Sim. E em posições diferentes. A primeira como médio interior numa equipa fortíssima que foi à final da Taça de Portugal, com o Sporting. E na segunda época fizemos também um bom percurso. Com a saída dele o Belenenses deixou de ser o mesmo. A questão financeira foi tremenda. Essas duas épocas com Jesus abalaram, e de que maneira, o Belenenses. Se na verdade, em termos desportivos, as coisas corresponderam, também é verdade que dilacerou-se um bocado o Belenenses porque havia jogadores a ganhar muito dinheiro. Não diria muito dinheiro para a realidade futebolística ao mais alto nível, mas para a realidade do Belenenses... tenho de reconhecer que havia ordenado muito elevados. Com ele, as condições tinham de ser top, não pode falhar nada. E depois, sair desta exigência/condições e passares para menos exigência, e isto não é uma crítica aos treinadores, são lideranças diferentes, e menos condições, o reflexo foram duas épocas sofridas.

Sofridas para si?
Também. Pessoalmente comecei a ter muitas lesões musculares. Se calhar reflexo também da menor exigência, menor intensidade.

Estava a viver onde em Lisboa?
Em Massamá. Era vizinho, no mesmo prédio, do Passos Coelho. Era um apartamento top, pago pelo clube.

cândido Costa esteve uma época no Rapid de Bucareste, na Roménia

cândido Costa esteve uma época no Rapid de Bucareste, na Roménia

D.R.

Vai para o Rapid de Bucareste porquê?
Eu tinha um ordenado razoável no Belenenses, não era um ordenado à clube grande, nem à SC Braga hoje em dia, nem sequer à V. Guimarães. Eu tinha mais um ano de contrato com o Belenenses só que o Belenenses tinha descido de divisão e no meu contrato, se eu quisesse ser mauzinho para o Belenenses, eles tinham que me pagar o mesmo na II Liga, o que era impossível. Eu era muito querido no Belenenses e eu gostava mesmo do clube. Se fosse outro clube eu se calhar olhava um bocadinho mais para mim, mas ali havia uma carga emocional muito grande, muitos rostos de adeptos, muita vivência, muitos convívios, muita coisa boa, muita coisa má. Tinha-se mudado a presidência e o Belenenses devia-me três meses da época transata e tinha toda uma época para a frente.

O que fez?
Sentei-me com o presidente, fui o último jogador que ele chamou porque eu era o capitão, e disse-lhe: “Comigo a reunião vai ser rápida. O Dr. paga-me estes três meses quando puder, eu confio em si, o meu ano de contrato daí para a frente, com esse ordenado vocês podem contratar quatro ou cinco jogadores e eu saio”. Lembro-me que ele ficou emocionado com esta minha atitude, porque o Belenenses estava muito sôfrego. E foi uma coisa impressionante, o valor a quem o merece. Eu quando estava a fazer isso, passado um dia ou dois pensei: “Vou ficar a arder com o dinheiro”.

Porquê?
Porque eu assinei uma folha a dizer que o Belenenses não me devia dinheiro e devia-me três meses. E nem cheques tinha trazido. Nada. Só uma palavra do Dr. João Pinho de Almeida olhos nos olhos a dizer: “Cândido, se o clube não tiver dinheiro para te pagar, pago eu do meu bolso. Os salários vão ser pagos, dá-me aqui um bocado de tempo”. E eu já estava a jogar no Rapid de Bucareste, ele ligava para mim: “Cândido vai ser depositado o primeiro ordenado”. Passado um mês e meio, dois, dizia: “Cândido, já te consigo pagar o segundo ordenado”. Pagaram os três ordenados certinhos. Creio que um deles foi a título pessoal. No futebol isto é muito raro. Houve uma correspondência de afeto. Quando ele me liga a dizer que o primeiro cheque ia ser depositado, eu já não estava nada à espera. Pensava que ia ser uma coisa que se ia arrastar, que primeiro ainda tínhamos de nos chatear. Quando ele me ligou, fiquei emocionado, porque é tão raro no futebol as pessoas terem atitudes nobres e pensar nos outros.

Cândido Costa no Belenenses

Cândido Costa no Belenenses

D.R.

Foi sozinho para a Roménia ou com a família?
Sozinho. Coisas boas e coisas menos boas. Eu cheguei à Roménia, assinei contrato lá e percebi rapidamente que estava num cenário que até então não tinha encontrado. Muita tanga. Havia lá um diretor que quando eu cheguei para assinar falava um inglês como o meu, fluente. Tivemos um conversa brutal, falamos de várias coisas da vida, não só de futebol, de filhos, da situação política na Roménia. Ao primeiro problema que tivemos lá, ele pediu para falar em romeno porque não sabia falar inglês.

O que aconteceu?
Um mês e meio, depois mudaram as fechaduras da minha casa, porque não pagavam a renda e eu fui lá ao clube ter com alguém. Fui dizer que tinha a casa fechada e havia um senhor romeno a dizer: “no money, no money”. E ele: “Cândido english hard for me, in romanio". Tudo tanga. Disse-lhe que o senhor os ia meter em tribunal se eles não pagassem. Ele ria-se. Ou seja, no ano em que estive na Roménia, estive em três casas. Na segunda casa já nem desfiz as malas todas. Porquê? Porque eles pagavam a entrada, dois meses, e depois era deixa ver o que isto dá. Os senhorios também já sabiam e já nem perdiam muito tempo, atrasava dez dias e eles expulsavam. Da segunda vez, tinha um romeno à minha espera a pedir dinheiro. Disse-lhe que não era eu que pagava era o clube, mas ele obrigou-me a tirar as coisas e lá fui eu para o clube no carrito com as coisas no porta-bagagens. Meteram-me num hotel, ao fim de três dias, lá fui eu para uma casa nova. Nessa já nem desfiz as malas. Tirava só o básico, faltavam três meses para me ir embora. E essas coisas desiludiram-me um bocado.

Estavam lá outros portugueses?
Estava o Rui Duarte, lateral, e muitos brasileiros. O clube é muito bom. Se quisermos transportar o Rapid de Bucareste para um exemplo português, o Rapid, Dínamo e Steua de Bucareste, serão o FCP, Benfica e Sporting. Muitos adeptos, estádio sempre cheio. Só que vivi coisas ali, se fosse aqui era brutal.

Dê-me um exemplo.
Lembro-me de no intervalo de um jogo, o dono do clube, lá o presidente e o dono do clube são pessoas diferentes, ele entra no balneário rodeado de seguranças, "Bravo, bravo". Afastou-se toda a gente, os jogadores romenos levantaram-se logo do banco, percebi que era uma coisa que tínhamos de fazer também. Estávamos todos de pé, ele começa a falar romeno e de repente vai ao bolso, começa a tirar notas e a dar aos jogadores. Mas não dava a todos. Imagine o que é estar no intervalo de um jogo e o dono do clube começa numa ponta a dar um nota de 500 euros a um jogador, não dá o que está ao lado, depois dá a outro... (risos). Quando chegou perto de mim pensei: “Vai-me cair uma quinhentona” (risos). Elogia-me mas...segue e nada. Estava um brasileiro ao meu lado disse logo: “Se f... mano, fica para a próxima. O cara é assim mesmo, começa a dar, quem leva, leva!”(risos). Acha isto normal? Se fizessem isto aqui em Portugal, no dia seguinte os jogadores reuniam logo e perguntavam: “O que é isto?”

Cândido Costa, ao centro em baixo, na equipa do Belenenses que foi à final da Taça de Portugal em 2007

Cândido Costa, ao centro em baixo, na equipa do Belenenses que foi à final da Taça de Portugal em 2007

D.R.

Deve ter muitas histórias da Roménia...
Uma outra vez estávamos a comer lá o centro de treinos e começo a perceber que há agitação na porta. Olho, e o que era? Um padre com os fumos sagrados e outro tipo ao lado a atirar água, não sei se era benta ou não, para nós. Imagine estarmos a comer e passarem uns tipos a mandar água para cima da cabeça dos jogadores e a benzer tudo. Coisas que aqui dariam polémica, lá era tudo normal. Uma vez bati com o carro. Nunca tinha conduzido a nevar. Tive um azar. Eles deram-me um carro a cair de podre, nevava muito, havia muito gelo. Quando cheguei ao carro, nunca tinha visto uma coisa daquelas. Limpei o vidro com o que me veio à mão, uma toalha, e fui a conduzir muito devagar com o carro muito baço até ao treino. Consegui chegar ao centro de treinos. Só que à entrada do parque de estacionamento dos jogadores, quando aponto a frente do carro, com tanto carro para bater, e fui bater no carro do guarda-redes da seleção da Roménia, Danut Coman, e que era um jipe da Porsche. As rodas bloquearam e o carro ainda ganhou mais velocidade. Pum! (risos).

A sua mulher alguma vez foi lá ter?
Sim, foram la passar 20 dias. Mas eu estava muito farto de estar na Roménia. Eles queriam renovar mas eu estava muito farto daquilo.

O que fazia nos tempos livres?
Havia muitos brasileiros, passeávamos e passávamos muito tempo juntos, jantávamos em casa uns dos outros, fazíamos churrasco à janela, a maioria deles não tinha lá as mulheres também, porque a Roménia não era muito agradável para se viver. A vida não é muito atrativa. Lembro-me que, da segunda vez que fiz a viagem daqui para lá, quando cheguei apanhei um táxi, ainda não tinha carro. Perguntei-lhe se sabia alguma coisa de inglês e disse-lhe o nome da rua. Ele: “No problema my friend”. E, nisto, tira o taxímetro e meteu dentro do porta-luvas. À minha frente, sem vergonha nenhuma. Chegou lá e pediu o que ele quis e ainda disse: “You, friend, you can call me”. E deu-me o número para continuar a roubar-me (risos). Perfumes. Levei uma banhada com perfumes.

Conte.
Havia um perfume que eu gostava muito, já nem se comercializa, o Versace Dreamer. Só que o perfume, o maior deles, custava mais de 100 euros, era caro. Na Roménia o perfume que eu tinha levado, acabara. E um dia estava a passear com a minha mulher, lá em Bucareste, e vi uma loja muito esquisita, dentro de um sítio muito esquisito, e vi que tinha muitos perfumes. Entre eles, o tal Versace Dreamer. Fui ver e custava cerca de 8/9 euros. Muito barato. Mas como era a Roménia, pensei que era possível. Entrámos. Tinha que cheirá-lo porque estava desconfiado. Ele abriu a caixa, era tudo igual, e tirou para eu experimentar. Era o meu cheirinho. Como era tão barato pedi quatro frascos. Vieram os quatro frascos e pensei: “Nããã, eu sou de bairro, a mim não me vais enganar”. E obriguei-o a abrir os quatro frascos e experimentei todos. Top. Todo contente, tinha poupado muito dinheiro. Mal cheguei ao carro, pus mais um bocadinho de perfume. Passado um bocado, já não cheirava a nada (risos).

Descobriu o que era?
Fui lá falar com ele, coloquei-o à vontade, disse-lhe que não era da polícia e ele explicou-me. Um frasco dava para fazer 200. Como? Eles metem um bocadinho do Versace Dreamer e o resto é álcool e fecham. Tendo uma substância no álcool quando abrimos e metemos o cheiro é igual, só que a consistência é zero. Aquilo dura 20 segundos e desaparece, não tem essência, não tem corpo. Isto que estou a contar foi o gajo que me enganou que ensinou. (risos). Acabou por se tornar meu amigo (risos).

Cândido com os filhos

Cândido com os filhos

D.R.

Foi a alguma festa, a alguma discoteca?
Fui, mas não me sentia muito seguro, muito confortável. Mas não havia tanta violência como há aqui na noite. Porquê? Porque o sinónimo de desrespeito na Roménia, e rapidamente percebi isto, corre muito mal. Enquanto aqui temos a ousadia ou falta de respeito de chegar ao pé de um outro homem e por causa de uma pisadela ou de um empurrão dizer: “O que é que tu queres, ó filho da p...”. Isso lá tem que ser resolvido, nem com “Vou chamar o meu primo, vou-te matar”. Aquilo fica muito feio. Esse passo de desrespeito tem de ser muito bem ponderado. E é válido para um lado e para o outro. Tive situações em que achava que a pessoa podia virar-se a mim e ele vinha com muita calma a pedir-me desculpa e a dar-me dois beijinhos na cara. Porque se há desrespeito, aquilo mete facada, vale tudo, até ficar resolvido. Não fica resolvido só com um “és um filho d...”. Eles levam isso muito, muito a sério.

Quando regressa a Portugal vem com noção de que já não volta a um clube de topo ou ainda tenta?
Vinha com possibilidades claramente de jogar na I Divisão. E tive. Lembro que na altura havia o Paços de Ferreira, o Beira-Mar, que estava na I Divisão. Mas havia também a parte financeira e, na verdade, o Arouca queria-me muito. E era perto de casa, a 20 minutos. Uma insistência diária do presidente que me queria usar também como cabeça de cartaz, acabou por me convencer. Mas foi horrível.

Porquê?
O Arouca fez um forte investimento em mim. Para a realidade do Arouca, eu era um jogador caro. Eu estava bem e o facto de ir jogar na II Liga deixava em mim muita responsabilidade, tinha que ser uma mais-valia. E estava predisposto para isso. Assino. Ao segundo treino, fiquei com o joelho virado ao contrário. Rotura de ligamentos cruzados, tudo o que havia de ligamentos no meu joelho foi à vida. Agora veja isto. O suposto craque, com o joelho todo rebentado, uma lesão para 7, 8 meses numa época de futebol onde ficou apalavrado que receberia uma parte por fora. Claro que não recebi o dinheiro que seria pago por fora e para receber o que estava escrito já foi uma luta também. E, depois, isso gera na cabeça e na cara das pessoas o afastamento, o tu perceberes que só te mandaram embora porque tinham mesmo de cumprir com a parte deles.

Cândido Costa, à direita, treina a equipa feminina do Cesarense

Cândido Costa, à direita, treina a equipa feminina do Cesarense

D.R.

Pensou em desistir do futebol?
A seguir, quando saí do Tondela. Eu não estava igual. Eu ia transformar-me num ladrão do futebol. Não estava igual, o meu joelho inchava, perdi faculdades físicas. Acaba o treino fazia-me de alegre até ao balneário, entrava no carro e ia a chorar para casa. Ao que eu cheguei. Porque havia jogadas que eu sabia perfeitamente que, se fosse o Cândido sem a lesão, ganhava. E ver a cara dos treinadores... era mais respeito pelo jogador que eu era e aquilo que conquistei do que por aquilo que sou. Por isso, quando saí do Tondela disse a quem tinha obrigação de me arranjar clube, para mim acabou o futebol. Só joguei no S. João de Ver e na Ovarense porque os presidentes iam a minha casa tocar à campaínha insistir muito. E porque o bichinho do futebol estava cá. Houve alguns pedidos que não fui capaz de dizer que não.

Quando começa a pensar no futuro pós-jogador?
Eu não pensava em ser treinador. E, muito honestamente, ainda tenho bastante reservas em relação a isso. Eu quando acabei a carreira, e não há outra forma de dizer isto, olhava para mim e o que eu tinha era uma quantidade enorme de bagagem de vida, de histórias, camisolas, algumas medalhas e a imagem, de sair à rua e as pessoas pensarem que estou rico. Mas a realidade era completamente diferente. A realidade era um indivíduo com o 9º ano, com o joelho e o pé todos lixados, dois filhos e esposa que nunca tinha trabalhado, com dois carros que, honestamente, olhando para trás, nem sequer sei se tinha condições para lhes pôr gasóleo todo o mês.

Que carros tinha?
Tinha um Sirocco 2.0 TCi, que tinha comprado no Belenenses, e a Sónia andava com uma Voyager. E eu tive de recuar, e aí dou-me muito mérito, ao meu estado puro. Ao Cândido. Tive que apagar durante um ano e meio da minha vida as memórias. O Cândido Costa. e passar a ser o Candito, puto da Mourisca, ranho no nariz, fazer pela vida, reflexões, perceber o que se estava a passar à minha volta. O que vou fazer, com dois filhos, as contas que continuavam a cair e eu não sou rico...Felizmente, a Sónia arregaçou as mangas, foi logo trabalhar. Eu sentia-me muito frustrado porque a minha capacidade intelectual... decidi que tinha de fazer alguma coisa. Fui tirar um curso ao IEFP, conclui os meus estudos, fiz o 12º ano. Andei lá mais de um ano e as pessoas diziam todas que eu ia desistir. Éramos mais de 20 alunos e só 11 concluiram mas fui um dos que concluiu e com boas notas. Ajudei outros colegas a passar. E tenho de dizer isto, encontrei no IEFP de Aveiro força para esquecer o futebol. Encontrei na simplicidade das pessoas um lugar para mim. Porque o futebol tinha acabado para mim e passei a ser um mero espectador de jogos aqui em casa.

Cândido Costa, à direita, é treinador-adjunto da equipa masculina do Cesarense

Cândido Costa, à direita, é treinador-adjunto da equipa masculina do Cesarense

D.R.

Mas está a treinar a equipa feminina.
Entretanto, quando inicio o curso, o presidente da Ovarense andava constantemente a pedir-me para treinar os seniores. Disse que não queria porque tinham sido meus colegas de equipa e ele veio então com a conversa das meninas, para treinar as mulheres. Fui ver um jogo delas, elas jogavam no pelado em juniores, nem sequer havia futebol sénior e gostei muito. Gostei muito daquela magia. Elas faziam-me lembrar eu quando era puto. Eu falava e elas com os olhos abertos, encantadas, a forma genuína como metiam o pé, a minha palestra a passar, a minha mensagem a agregar, eu a ver os pés delas a mexer como quem está a ser contagiado. Então, apeguei-me muito a elas e comecei essa jornada do futebol feminino aqui na Ovarense, paralelamente a tirar o curso.

Como surge o comentário no Porto Canal?
De repente, a meio desse percurso, o Porto Canal convida-me para fazer uma entrevista: “A cadeira de sonho”. Dei a entrevista com os meus filhos e, passado um mês da entrevista sair, foi-me pedido para ir fazer os comentários ao FCP. Disse que sim, aquilo correu bem, as pessoas acharam que eu tinha vocabulário e um raciocínio porreiro e comecei a fazer análises no Porto Canal. E já lá vão mais de 3 anos.

Gosta, sente-se bem na pele de comentador?
Gosto porque mesmo estando num canal claramente associado ao FCP, a verdade é que nunca me condicionaram o raciocínio, nunca. Em momento algum. Agora, sou suficientemente inteligente para saber que há coisas que não devo dizer ou se disser, dizê-las de uma maneira de acordo daquilo que é a televisão do clube. Agora, condicionarem-me o raciocínio, falarem-me ao ouvido, nunca. Tenho livre arbítrio para fazer as minhas análises. Eu gosto de falar de futebol e dedico-me muito ao jogo jogado e acabo por ser um bocadinho corporativista porque andei lá muitos anos e às vezes há coisas que não digo porque me custam dizer. Esventrar jogadores não gosto de fazer. Já fui parabenizado por quase todas as equipas e isso sabe-me muito bem. Já falei mal do FCP quando acho que tenho de falar, já falei bem e cheguei a casa e vi que tinha feito uma bela figura porque falei mal. Sou muito crítico em relação a mim.

Revê na TV?
Ao início. Agora deixei de ver porque estou sempre a encontrar defeitos.

Cândido Costa esta semana na praia do Furadouro

Cândido Costa esta semana na praia do Furadouro

Rui Duarte Silva

Treina mulheres mas já teve experiência como treinador de homens.
Tive duas experiências. Uma, como adjunto do Ricardo Sousa, na Sanjoanense. Ele convidou-me e fui, por ser ele. Não tenho ambição nem vida neste momento para ser treinador principal de uma equipa sénior. E estive dois anos na Ovarense no futebol feminino, paralelamente como adjunto do Ricardo Sousa. E esta época sou o treinador principal do futebol clube Cesarense no futebol feminino sénior e adjunto dos masculinos futebol sénior.

Quais as principais diferenças entre treinar homens e mulheres?
Primeiro, a forma como olham para ti. Eu saio do treino dos rapazes às seis e um quarto e tenho consciência de que estive num contexto profissional, os jogadores fazem o que eu mando, o clube tem lá o roupeiro, eles não precisam de levar roupa para casa, têm um enfermeiro e fisioterapeuta a tempo inteiro. As meninas não. Treino à noite e sou eu e a minha equipa técnica que estamos lá, que enchemos as águas e tudo o que é preciso.

E no treino em si?
Elas são muito mais genuínas. Logo à partida não recebem qualquer tipo de salário. Depois, são genuínas no sentido de que tudo o que tenha a ver com o grupo é de facto verdadeiro. Se o grupo está mal, é horrível, tem de ser resolvido o que se está a passar porque as mulheres... Não se resolve com um abraço, se for um dito mal dito, uma polémica, ganha uma dimensão enorme. Se calhar, no balneário dos rapazes, basta dizer: “Estejam calados os dois, deem mas é um abraço. Vamos bebe uma cerveja." Ali não, é um caso. Chama-se o treinador, reúne-se as tropas, fecha-se o balneário porque tem que se falar sobre isto que se está a passar aqui.

É mais difícil de lidar com elas?
É, mas também é mais saboroso porque do outro lado da moeda está um mundo de arco-íris. Está um mundo genial, fantástico, inspirador. Em que de repente recebes, quando não estás à espera, um sorriso, um obrigado que não encontras nos rapazes. Elas são muito intuitivas e muito queridas também. São capazes de te pôr num trapo, mas também são capazes de te trazer cá para cima e fazer de ti o gajo mais especial do mundo. É muito mágico e delicado, a comunicação tem de ser diferente.

Cândido Costa confessa gostra muito de ser comentador do Porto Canal

Cândido Costa confessa gostra muito de ser comentador do Porto Canal

D.R.

No futuro o que se vê a fazer?
Gosto muito de televisão. Gosto muito da responsabilidade de falar do jogo. Levo isso muito a sério, muito a sério mesmo. Se calhar é mau dizer isto, mas preparo-me melhor para os comentários, do que para os jogos, porque é muita responsabilidade estar a falar de alguém, estar a falar de um jogador. A televisão entra pela casa das pessoas.

Era isso que gostava de continuar a fazer, ser comentador ou até ter um progama seu?
Sim, mas ao mesmo tempo que me fascina o mundo da televisão, não me consigo desprender do treino e do jogo, retiro muito daí. Agora, se me fosse confrontado, neste momento da minha vida, se calhar optaria pela televisão. E apostaria em formação nessa área.

A sua mulher trabalha onde?
Quando acabou a minha carreira foi trabalhar num armazém aqui na Feira e agora trabalha na empresa do meu irmão, de material escolar.

Ao longo da carreira, onde é que ganhou mais dinheiro?
Talvez em Inglaterra.

Onde é que investiu o dinheiro? Teve negócios?
Eu levei a minha vida bem levada até acabar a carreira. Comia bem, vivia bem, nunca pedi um garfo à minha mãe nem à mãe da Sónia. Pedi, obviamente ajuda em outras situações. Hoje tenho esta minha casa e vendi há pouco tempo um apartamento no Porto para equilibrar as coisas em termos financeiros. Tenho a minha vida porreira, tranquila, sem dívidas, com tudo organizado, reformulei obviamente as minhas escolhas. Se tivesse sido um gajo muito disciplinado financeiramente, era capaz de ter 150, 200 mil euros no bolso, mas se calhar tinha um monte de cabelo e as pessoas precisam de cabelo para quê? (risos). Da mesma forma que recebias muito dinheiro, também chegava muita conta, contas que não percebias, de dinheiro que tinhas esquecido que tinhas gasto, visas, muitos cartões, muitos seguros, muitas coisas. O nível de vida era muito elevado e também dá cabo da cabeça, sabe? Acabei a carreira com os pneus bem gastos, mudei-os, preparei-me para a vida nova. Não sou falso ao ponto de dizer ainda bem que acabei a carreira a precisar de trabalhar, mas também tenho a consciência de que não ganhei para estar milionário. Se me dissesse que aos 37 anos tinha a vida e as coisas que tenho hoje, não acreditava.

Qual foi a coisa mais disparatada que fez?
Foi gastar 14 mil euros em três relógios. Um para mim, outro para o meu pai e outro para o meu sogro. Mas fico feliz porque o meu pai estima-o muito, se calhar um dia até vai ficar para os netos. O meu sogro nem o usa, está na mesinha de cabeceira e quase que é a coisa mais valiosa que ele tem. Comprei quando ainda jogava no FC Porto. Depois, claro, também gastas em coisas mais fúteis, pagas muitos jantares aos amigos e acaba por ser tudo normal. Às vezes, olho para trás e vejo que fiz coisas que fosse hoje não teria feito, mas também vejo muita coisa positiva. Pai tão cedo, criei dois filhos bem criados.

Os filhos de Cândido Costa

Os filhos de Cândido Costa

D.R.

Qual é a coisa de que mais se arrepende?
De ter começado a fumar.

Começou com quantos anos?
17, 18 anos naquela fase de deslumbramento. Fui fumando um cigarrito às escondidas.

Prejudicou-o o futebol?
Bem não me fez. Costumo dizer: se eu já tinha uma força do caraças, se a minha principal qualidade era a força e a intensidade, se eu não fumasse, então era melhor. O grande responsável por não ter tido aquilo que se calhar o meu talento merecia, sou eu mesmo. E isso faz-me estar bem com o futebol, não ando com fantasmas, nem com diabos a achar que aquele filho da mãe… Percebo todos, os que me puseram a jogar, os que não puseram. Gostei muito de pertencer àquela geração do futebol, ainda bem que joguei nessa altura, porque acho que a formação agora está muito robotizada, muito padronizada, muito extremada e pouco harmoniosa. E dá-se televisão e dá-se comentário a pessoas que tiverem sucesso numa outra área qualquer que lhes conferiu um poder monetário para hoje falarem de futebol. Não percebo isso, acho que não faz sentido. Alguém que teve um mérito intocável a vender colchões, não lhe pode ser facultada a possibilidade de falar de futebol, só porque teve muito dinheiro a vender colchões. É um exemplo.

Se não fosse jogador o que é que acha que seria?
Jornalista. Gosto de jornalismo.

Tem animais de estimação?
Tenho 3 cães e uma gata. Dois boxers, o Romeno e a Vida. E um rafeirinho que é o Bolt. A gata é a Saria.