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A casa às costas

Moreira: “Desisti no 11º ano porque ia para a escola tentar ser miúdo e só perguntavam: 'E o balneário? E o João Pinto? E o Nuno Gomes?'”

É o jogador mais velho da equipa do Estoril Praia, com 36 anos, e afirma que se fez homem no Benfica, clube pelo qual foi campeão de juniores e seniores. Em casa é o Filipe, no futebol ficou Moreira, guarda-redes que acabou por sair para o estrangeiro, porque Jorge Jesus não apostou nele. Regressou e apesar de estar num clube à beira de despromoção, mantém o sonho de ainda representar a seleção e garante que é melhor guarda-redes agora do que há 10 anos

Alexandra Simões de Abreu e Nuno Botelho

Nuno Botelho

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É do Porto. Conte-me um pouco mais sobre o local onde nasceu e a sua família.
Nasci em Massarelos, numa família perfeitamente normal. O meu pai tinha um talho e a minha mãe era doméstica. Tenho um irmão, seis anos mais novo. O meu pai também já tinha sido jogador de futebol, embora em clubes pequenos. Fui criado sempre com a bola ao pé de mim. Vivi até aos dezassete anos numa vilazinha de Gondomar, chamada Baguim do Monte, e aos 17 anos venho para Lisboa.

O seu pai jogava em que posição?
Era número 10, ponta de lança, mas eu não me lembro de o ver jogar. Quando nasci ele já não jogava, mas sempre teve o bichinho do futebol e sempre me acompanhou.

O Moreira começou a jogar na rua, certo?
Sim, jogava com os meus vizinhos. Não havia Playstations, não havia telemóveis. Era ao contrário de hoje. Hoje tentamos puxar os nossos filhos para fora de casa, para largarem os tablets, e naquela altura eram os pais a tentar trazer os filhos para casa porque só queríamos estar na rua. Foi assim que surgiu, nem era jogar futebol, era brincar ao futebol.

Quando jogava na rua e na escola já ia para a baliza?
Normalmente jogava a médio ou era guarda-redes. Dependia, se havia guarda-redes, tentava jogar a médio, se não houvesse guarda-redes ou se fosse um jogo mais importante, ia para a baliza. Naqueles jogos entre as turmas rivais da mesma escola, normalmente eu ia para a baliza.

Porque tinha um jeito nato e gostava ou eram os outros que o empurravam para a baliza?
Sentia que podia ajudar mais na baliza do que à frente. Normalmente quase ninguém gosta de ir à baliza, como eu gostava, aproveitava. Recordo-me que no 5º ano, e aí já tinha começado a jogar no Salgueiros, o próprio professor de educação física quando mandava os alunos dar voltas ao campo, ia fazer remates à baliza comigo. Mas a primeira vez que fui treinar numa equipa à experiência, perto da minha casa, fui treinar como jogador. Mas só fiz um treino.

Porquê, não gostou?
Não gostei. Não era aquela ideia que tinha. Quando jogava lá à frente a minha ideia era jogar à bola, não era jogar futebol, era divertir-me, e estar num treino a jogar com indicações do treinador, não me senti motivado. Isto foi nas férias da escola, deve ter sido em julho ou agosto, e depois em dezembro fui às captações do Salgueiros mas já como guarda-redes. E fiquei.

O cartão de atleta do Salgueiros, clube no qual José Moreira ingressou com 10 anos

O cartão de atleta do Salgueiros, clube no qual José Moreira ingressou com 10 anos

D.R.

Quantos anos tinha quando vai às captações?
10 anos.

Pediu ao seu pai para ir consigo, foi sua a iniciativa?
Sim, pedi. Tinha lido no "Jornal de Notícias" acho eu, um anúncio das captações no Salgueiros.

Nessa altura torcia por que clube?
Essa é uma daquelas perguntas difíceis, porque nunca fui grande aficionado de um clube quando era jovem. Gostava de futebol em geral. A minha família, parte era portista, parte benfiquista, e sempre existiu aquela rivalidade. Mas quem me conhece sabe que sou muito solitário. Gosto de estar no meu canto, sossegado. Quando vamos para estágio, quem fica comigo já sabe que, por exemplo, quando me deito na cama, fico muito sossegadinho, não faço barulho, não faço nada. Faz-me falta, é quase como que ter uma interiorização. Acho que naquela altura não tinha nenhum clube definido. A partir dos 15 anos, quando assinei pelo Benfica, tornei-me mais benfiquista e posso dizer que hoje quando olho para trás, sou benfiquista. Mas lembro-me de ir ver jogos ao Estádio das Antas com o meu pai que era portista e de festejar com a família nos Aliados, quando o Porto foi campeão europeu. O meu avô era benfiquista e puxava-me para o lado do Benfica. No fundo estava um pouco dividido. Depois, como desde os 10 anos, quando comecei a jogar no Salgueiros, os nossos rivais eram o Boavista e o Porto e outras equipas do norte, nunca cheguei a jogar contra o Benfica, nem contra o Sporting até aos meus 15 anos. Passei a ser do Salgueiros, mas como o Salgueiros também é vermelho e depois passei para o Benfica...

Então quando é que assume o seu benfiquismo?
Por acaso recordo-me perfeitamente. Foi quando estive no Campeonato da Europa de sub-18, na Suécia e fui chamado no final para fazer a pré-época com a equipa principal do Benfica, aos 17 anos. Ainda estava no Salgueiros, mas já tinha contrato com o Benfica. Quando voltei dessa pré-época com a equipa principal, estive uma semana de férias e regressei para a equipa B do Benfica. Nesse período em que estive na equipa B, que foi só uma semana, fui ao jogo entre o Benfica e o Bayern de Munique, de apresentação aos sócios, no mítico Estádio da Luz, com 90 mil pessoas. Fui ver o jogo para o terceiro anel, e aí deu-me um cliquezinho.

Entretanto é chamado à equipa principal.
Sim, só estive uma semana com a equipa B. O Bossio tinha tido um problema com o passaporte, o Enke já tinha voltado mas o Nuno Santos, que era o outro guarda-redes, tinha um problema no ombro. Conclusão, estava eu, o Enke e o Bossio. Só que o Bossio não pôde ser inscrito até dezembro, logo fiz meia época no banco.

José Moreira, em pé à direita, na equipa de infantis do Salgueiros

José Moreira, em pé à direita, na equipa de infantis do Salgueiros

D.R.

Voltando aos 10 anos, quando se inscreve nas captações do Salgueiros, decide apresentar-se já como guarda-redes porquê?
Porque aí já tinha aquele bichinho. Sempre gostei de ir à baliza. Costumo dizer, o guarda-redes não se escolhe, sente-se e eu senti que tinha de ir para guarda-redes. Recordo-me que cheguei lá e o mister Raul Machado perguntou-me como é que eu me chamava e eu disse-lhe Filipe. “Filipe não, já existem muitos Filipes no futebol. Diz-me o teu nome completo”; “José Filipe da Silva Moreira”; “vais ficar Moreira”. E fiquei Moreira.

Mas em casa era o Filipe?
Sim. E na escola sempre fui o Filipe ou o Zé. A minha esposa trata-me por Filipe. Mas passados uns tempos, mesmo na escola, começaram a chamar-me Moreira.

No Salgueiros nunca tentaram mudá-lo de posição?
Não e mesmo que tentassem, eu já ia com os meus objetivos definidos, porque tinha tido a tal experiência como jogador e não tinha gostado. Ou dava como guarda-redes ou não dava.

Gostava da escola?
Gostava. Eu era daqueles alunos que fica na cadeira da frente. Ainda hoje quando os misters dão palestras faço isso. Porque como não gostava muito de estudar, tentava absorver tudo da sala de aula e foi isso que, até ao 9º ano, fez-me ser um excelente aluno. Conseguia absorver tudo o que se passava na sala de aula e escusava de estudar. Era aluno de cincos. Quando passei para o 10º ano, começaram os meus problemas, porque comecei a faltar muito à escola, devido às idas à seleção nacional. Como o meu método de aprendizagem, era na sala de aula, não estando presente, não tinha o hábito de ir aos livros e de estudar, de pedir rascunhos de colegas, não conseguia. Ainda fiz o 10º ano, com alguma dificuldade. Infelizmente no 11º ano não reprovei mas deixei 3 disciplinas para trás.

Na altura em que se inicia no Salgueiros, já havia treinador de guarda-redes?
Não.

Então como eram os seus treinos?
Basicamente eu e os outros guarda-redes fazíamos um aquecimento e depois entrávamos com a equipa. Os treinadores de guarda-redes eram só para equipas principais e profissionais. Até os meus 15 anos nunca tive treinador de guarda-redes. Só tinha quando ia jogar à equipa profissional do Salgueiros. Normalmente o que acontecia no final dos treinos era o treinador vir fazer uns remates e algo diferente com os guarda-redes, mas era só mesmo no final dos treinos porque antes estava com os outros jogadores.

José Moreira, o primeirio jogador em pé à direita, na equipa que disputou o Torneio Interassociações

José Moreira, o primeirio jogador em pé à direita, na equipa que disputou o Torneio Interassociações

D.R.

Como é que surge o Benfica?
Quando tinha 11 anos, fiz um jogo amigável pelos infantis contra o Benfica, através do Salgueiros. Foi um jogo que me correu muito bem. Joguei os primeiros 20 minutos da 1ª parte, depois jogou o outro guarda-redes. Ainda tenho em casa esse jogo gravado em vídeo. Os olheiros do Benfica estavam lá e metem uma anotação no meu nome: “Ver como é que está este miúdo daqui a um ou dois anos”. Depois houve um olheiro que começou a observar-me, as coisas corriam-me bem e no torneio entre seleções, eu jogava pela Associação do Porto, fui o guarda-redes menos batido e o melhor. Fui à seleção nacional.

Tinha 15 anos quando é chamado à seleção nacional. Como é que soube?
Estava de férias, na praia do Homem do Leme. Alguém da Federação ligou ao meu pai e perguntou se eu tinha passaporte. O meu pai disse que não e eles disseram: “Tem que ir já tirar porque ele vai ser convocado e a digressão da seleção nacional é em Moçambique”. Foi tudo muito rápido.

Lembra-se do que é que sentiu na altura?
Eu já estava à espera de ser chamado à seleção porque o torneio Interassociações tinha corrido muito bem. Para mim era óbvio que para aquela primeira fornada de jogadores da seleção eles elegessem os melhores do torneio, por isso eu pensava em ser chamado. Não pensava é que seria chamado tão cedo, foi tudo muito rápido. Fiquei felicíssimo e também um bocado em pânico porque era a primeira vez que ia andar de avião. E logo para Moçambique que são 9 horas de viagem (risos).

Como foi a experiência de andar de avião pela primeira vez?
Para lá foi muito engraçada, porque havia turbulência e eu curtia a turbulência. Para cá tive medo. Quando descolámos o avião tremeu muito, as luzes apagaram, ouviu-se um estrondo, houve alguém que ia do lado da janela, disse que estava a ver faíscas do motor, eu fiquei cheio de medo. Encostei-me à janela e tapei-me com o cobertor. Depois de estar lá em cima, recordo que o capitão disse que não havia nada, talvez tivesse sido uma ave que tivesse passado pela turbina, mas que não havia danos, não havia nada. Mas eu vim a viagem toda encostado e tapado, já não me mexi (risos).

Moreira com a taça do Torneio Internacional de Associação, de sub-14

Moreira com a taça do Torneio Internacional de Associação, de sub-14

D.R.

E a experiência em Moçambique?
Primeiro foi uma alegria, porque estamos longe dos pais, 18 rapazes, com 15 anos, “largados” em Moçambique... Mas depois foi um choque. Uma realidade completamente diferente. O hotel tinha regras como por exemplo, não se podia tirar comida de lá. Não podíamos sair da sala do pequeno almoço com um pão no bolso. Depois começamos a perceber porquê. Porque cá fora estavam miúdos a pedir comida. Começámos entre nós a fazer sandes e a levar as sandes quase nas cuecas para ninguém ver. Chegávamos cá fora, fingíamos que íamos dar uma volta, dizíamos aos miúdos para vir connosco e mais longe oferecíamos a comida. Mesmo uma garrafa de água, eles ficavam contentíssimos.

Essa confrontação com a pobreza chocou-o?
Sim. Nenhum dos jogadores que lá estavam vivia no luxo, mas dar muito valor a um simples pão ou a uma garrafa de água são coisas muito diferentes. Havia muito comércio de produtos de madeiras trabalhadas, nós éramos miúdos, também não tinhamos dinheiro, mas as pessoas queriam tanto que diziam: “Trocamos essas meias da seleção, pela estatueta que quiseres”. Fazíamos troca por troca. Levávamos também roupa nossa, nem que fossem tshirts para dormir, e trocávamos por objetos de madeira da arte deles. Foi uma experiência muito enriquecedora.

Ainda tem algum desses objetos?
Na arrecadação, mas tenho. Ainda tenho algumas coisas dessas.

Jogos em Moçambique, lembra-se de algum em particular?
O primeiro jogo foi contra Angola e por acaso joguei contra o Pedro Mantorras, de quem depois fui colega no Benfica. E por acaso defendi um penálti nesse jogo, não foi do Mantorras, mas foi ele que sofreu o penálti. Mais tarde em conversa é que descobrimos que tínhamos feito esse jogo um contra o outro.

Moreira, o sétimo a partir da esquerda na última fila em pé, com a equipa do Salgueiros

Moreira, o sétimo a partir da esquerda na última fila em pé, com a equipa do Salgueiros

D.R.

Ainda não contou como e quando assina pelo Benfica.
O Benfica surge na sequência de eu começar a ir à seleção. O olheiro já me tinha sinalizado. Mas nessa altura houve propostas do FCP, Boavista, Sporting e do Benfica. Ou se calhar o próprio Salgueiros tentou negociar com todos. A proposta mais vantajosa para eles e se calhar também para mim era a do Benfica. Porque eu não iria mudar, aos 15 anos, para Lisboa. Eles davam a hipótese de eu ir só no início da próxima época ou dois anos a seguir, quando tivesse 17 anos. Como deram isso a escolher, optei pelo Benfica. Porque antes sabia que não ia estar preparado.

Sentia que não estava preparado porquê?
Quando vinha à seleção e via como é que eram os miúdos de Lisboa e nós, os lá de cima... Os de Lisboa tinham outro andamento. Não havia hipótese. Recordo-me das palavras do Chalana. Naquela altura as equipas do norte ganhavam mais vezes do que as equipas de Lisboa e o Fernando Chalana disse que a grande diferença é que naquela altura existia a 24 de Julho em Lisboa e não existia no Porto. Era a grande diferença. Nós éramos de vilazinha, não de cidade, era diferente. Os jogadores do Benfica e do Sporting tinham outro andamento. Isso para um miúdo com 15 anos, assustava-me. Não me sentia com maturidade para viver uma experiência diferente, neste caso, vir para o centro de estágio do Benfica, estar com outros.

Era tímido?
Ainda sou. Gosto muito de falar, mas ainda sou um bocado tímido. E nesses dois anos fui-me preparando mentalmente. Vinha a Lisboa para os treinos da seleção de sub-15 e de sub-16 e por isso vinha duas ou três vezes à capital durante o mês. Conclusão, fui-me habituando, fui vendo, percebendo. Quando aos 17 anos mudei para Lisboa, já estava adaptado. Embora, só estive só dois meses no centro de estágio. Não consegui ficar mais tempo.

Porquê?
Se calhar por ser solitário. Gosto de ter o meu cantinho e no centro de estágios, que era no Estádio da Luz, havia muita agitação. Muito mais andamento do que eu, não a nível futebolístico, mas a nível pessoal. Não gostava de coisas que via. Miúdos de 17 anos a fumar à janela, escondidos a querer fugir pela janela do centro de estágio para ir sair à noite. A mim fazia-me confusão porque eu tinha ido para lá com um objetivo, ser jogador de futebol, e aqueles miúdos, muitos deles só gostavam de divertir-se.

Era gozado por causa disso?
Não era gozado, mas era “lá está o bem comportado”... Se calhar foi isso que me deu um bocado mais de personalidade de fazer aquilo que eu quero, não o que os outros fazem. Se for preciso ser o único que não vou, eu não vou. Não tenho problema de dizer que tenho uma opinião diferente.

Moreira, em pé à direita, com os restantes guarda-redes do Salgueiros

Moreira, em pé à direita, com os restantes guarda-redes do Salgueiros

D.R.

Foi muito difícil largar a família?
Não custou tanto quanto estava à espera.

Disse que só esteve dois meses no centro de estágio, depois foi para onde?
Para um apartamento, sozinho. Pedi ao Benfica, como também já estava na equipa principal, e aceitaram. Nessa altura também renovei o contrato e fui para uma casa sozinho, aos 17 anos, sem carta de condução, sem nada.

Onde era o apartamento?
Em Telheiras. Mas, para quem não tem carro, torna-se um bocado longe porque a pé ainda eram uns 40 minutos. No autocarro, como já estava na equipa principal, entrava e era toda a gente: “Olha o Moreira, o guarda-redes do Benfica”.

Como é que foi viver sozinho?
Foi fantástico porque aí consegui ter o meu mundo. Consegui crescer, consegui aprender a cozinhar por tentativa, erro, tentativa, erro. Hoje não sei fazer muitos pratos, mas, o que faço, a minha esposa costuma dizer que cozinho bem. A minha especialidade são os grelhados, mas se me pedirem para fazer um peixe ao sal, se me pedirem para fazer um bife com molho de natas e cogumelos sei fazer. E o meu arroz é muito bom. A minha esposa pede-me sempre para ser eu a fazer o arroz porque gosta mais do meu do que do dela.

Na altura em que vai viver sozinho ainda não tinha namorada?
Não, nessa altura eu era um miúdo que veio do norte com o objetivo de jogar futebol. No Porto nunca saí à noite.

Quando é que vai pela primeira vez a uma discoteca?
Se não engano foi em Lisboa, ao Docks. Tinha 17 anos. Foi através dos jogadores da equipa B. Como eu ia jogar à equipa B, um dia acabámos o jogo num sábado, a equipa principal também já tinha jogado, havia folga no domingo e fomos. Mas aquilo era tudo muito... Hoje em dia continuo a dizer que não gosto. Se sai 20 vezes à noite para ir a discotecas em toda a minha vida, foi muito. Prefiro ter um jantar ou ir a um barzinho, que dê para conversar. Não gosto do barulho da discoteca, não gosto da confusão, não gosto de dançar e não sei...

Tem dois pés esquerdos?
Quase, quase (risos). Prefiro um programa de casa, de conversa.

Moreira ainda guarda o recorte de jornal onde leu a notícia do interesse dos três grandes por ele

Moreira ainda guarda o recorte de jornal onde leu a notícia do interesse dos três grandes por ele

D.R.

Quando chega a Lisboa continua os estudos ou não?
Inscrevi-me para completar o 11º ano, na Secundária de Carnide. Mas desisti porque ia para a escola tentar ser miúdo e era só: “E o balneário? E o João Pinto? E o Nuno Gomes?”. Faziam-me sempre perguntas sobre futebol. Parei com a escola. Conclusão, saía de manhã para treinar, à tarde, como já tinha aberto o Centro Comercial Colombo, ia para lá, almoçava, ia ao cinema, estava lá um bocado, depois ia para casa e dormia, descansava.

Quem eram os seus ídolos nessa altura?
Recordo-me que quando cheguei ao balneário do Benfica, ver o Nuno Gomes ali ao pé de mim, o João Pinto, Poborsky, o próprio Enke, de quem fiquei amigo... Eu ensinava-lhe português e falávamos em inglês, ele era melhor no inglês.

Quem o chama a primeira vez para ir treinar com a equipa principal?
O Shéu.

Como foi a receção?
Eu já tinha feito a pré-época com eles. Tinha viajado do campeonato da Europa de sub 18, onde fomos campeões, diretamente para o estágio da pré-época. Recordo que ainda ia com o equipamento da seleção e fiz direto da Suécia para a Alemanha. O estágio era na Áustria e o Chalana foi-me buscar à Alemanha. Fizemos duas horas de carro até à Áustria e ele foi-me ambientado, dizendo o que é que ia encontrar. Foi uma experiência engraçada.

Ia assustado?
Não era assustado, ia quase na descoberta. O que é que será que vou encontrar? Como é que será a minha reação, será que as minhas mãos vão tremer quando estiver a receber os remates deles? Como é que vai ser no treino, como é que eu vou dizer “marca, salta, tira” a um Paulo Madeira? Mas puseram-me todos à vontade.

As mãos tremeram ou não?
Não. Custa mais o pensar do que o executar.

Moreira guarda um recorte do seu primeiro estágio em Moçambique, onde foi chamado de "novo Vítor Baía"

Moreira guarda um recorte do seu primeiro estágio em Moçambique, onde foi chamado de "novo Vítor Baía"

D.R.

Nesse primeiro estágio com a equipa principal ficou com quem no quarto?
Sozinho (risos). Porque no dia em que chego ao estágio, um jogador tinha saído por causa de um problema na inscrição ou qualquer coisa, já não me recordo bem. Conclusão, eu ia ficar com ele e acabei por ficar sozinho. Mas antes disso, antes do Campeonato da Europa, eu estava-me a esquecer, o Benfica fez uma digressão no final da época aos Açores e o Michel Preud’Homme estava lesionado, o Benfica não tinha guarda-redes, eu ainda era guarda-redes do Salgueiros, mas chamaram-me para ir fazer essa digressão. O Souness tinha sido despedido e foi o Shéu a assumir a equipa nos últimos jogos. Foi aí que fiz a minha estreia pelo Benfica, com 17 anos. Jogámos contra a seleção dos Açores, ganhámos 2-0.

Estava muito nervoso na estreia?
Estava. Porque tinha feito só um treino com a equipa nos Açores e joguei no dia a seguir. Não os conhecia. Mas correu bem o jogo.

Treinar com a equipa principal e jogar pela equipa B, era um cenário que já esperava u chocou-o ter feito a pré-época com eles e depois ir jogar pela equipa B?
Não, eu até gostava porque assim eu tinha jogos. Eu andava a saltitar.

Como assim?
Eu treinava com a equipa principal. Na primeira fase da época, era convocado para ir aos jogos da equipa principal. Mas se o jogo fosse no sábado, no domingo ia jogar pela equipa B. A partir de janeiro, com a entrada do Bossio, eu continuava a treinar com a equipa principal e também jogava nos juniores. Ou seja, jogava nos juniores, na equipa B, na equipa principal, onde calhasse.

Quem eram as suas referência de guarda-redes?
O Vítor Baía e o Michel Preud'Homme. Mas na equipa B tive o privilégio de trabalhar com o falecido Bento, com o Zé Gato, eram grandes figuras e eu estava ali a treinar com eles. O treinador de juniores era o Chalana e quando ele jogava connosco, jogava melhor do que nós todos.

Moreira com Lucien Huth, antigo treinador de guarda-redes do clube da Luz

Moreira com Lucien Huth, antigo treinador de guarda-redes do clube da Luz

D.R.

Quando é que faz a sua estreia na equipa principal, no campeonato?
Foi num Benfica-V.Guimarães. O Enke tinha andado a treinar lesionado de um ombro. E aos 25 minutos cai, queixa-se do ombro e pede a substituição. Nem tive tempo de pensar, foi tirar a roupa e ir lá para dentro, empatámos 0-0.

Quem era o treinador?
O Toni. Entretanto o Toni saiu e a minha estreia como titular já é com o Jesualdo Ferreira, porque o Enke não aceitou renovar contrato. A aposta do Benfica teoricamente seria em mim. O primeiro jogo como titular foi contra o Gil Vicente em Barcelos na época 2001-2002.

A partir daí engata.
As coisas começaram a correr bem, mas infelizmente ao clube não, porque foi uma altura atribulada. Assinei com o Damásio, fui para o Benfica com o Vale e Azevedo, entrou o Manuel Vilarinho, e até o Luís Filipe Vieira assumir a presidência e construir o que construiu até agora, foram anos complicados. É engraçado, do ano em que o Luis F. Vieira entra no Benfica, eu sou o único jogador ainda no ativo.

Conversavam entre vocês no balneário sobre o que se estava a passar?
Como é óbvio. Mas sempre nos habituámos a que parte do que vem nos jornais é mentira. Ainda noutro dia estava a falar com um jornalista e dizia-lhe: "Tentem averiguar mais as coisas. Não é porque uma pessoa mete uma coisa no Facebook, e que três jornais contando isso, se vai tornar verdade. Não. Averiguem. Porque hoje em dia coloca-se a dignidade das pessoas em causa porque alguém diz que disse".

Está a referir-se ao que aconteceu agora com o guarda-redes Vagner, que foi acusado de ter favorecido o FCP no jogo com o Boavista?
Sim. É fácil caluniar. Num outro tempo, em que não havia tanto mediatismo das coisas más, um jogador falhava um passe, era pezudo; um guarda-redes sofria um golo com culpa, era frangueiro; um jogador falhava um golo, não presta. Hoje em dia, falhas um golo, estás comprado; sofres um frango, estás comprado; fazes um grande golo, estás vendido. Existe o erro, é normal existir o erro, sempre existiu e sempre vai existir. Só que hoje está-se a vulgarizar e a levar muito para sentidos negativos do futebol.

As redes sociais vieram ajudar a essa propagação?
Vieram. No meu tempo era impossível um jogador estar agarrado ao telemóvel no balneário e se for preciso hoje em dia estão os 20 jogadores. Mas nós não podemos controlar essas coisas.

Moreira tenta chegar a uma bola, durante um jogo da seleção de sub-21, com a Itália

Moreira tenta chegar a uma bola, durante um jogo da seleção de sub-21, com a Itália

Moritz Winde

Ficou 12 anos no Benfica. Teve muitos treinadores. Koeman, Heynckes, Mourinho, Trapattoni. Algum deles o marcou mais?
Todos me marcaram, seja por aspectos negativos ou positivos, mas sempre procurei absorver as melhores coisas de cada um. Prefiro não enumerar nenhum e enumerar todos porque todos me ajudaram. O Mourinho porque começou a ser treinador principal no Benfica e eu estava lá nessa altura...

Fala-se muito do Special One. Notou grande diferença, ele é realmente diferente dos outros?
É. O treino propriamente dito, todos os treinadores mudam uma coisa ou outra mas vai dar ao mesmo, é tudo treino de futebol. Mas o Mourinho é um excelente líder e consegue extrair mentalmente o melhor de cada jogador. Se o jogador não joga ele se calhar está feliz na mesma porque o Mourinho consegue mudar a cabeça. E naquela altura, há tantos anos, foi um dos aspetos mais em evidência. Mas todos os treinadores me marcaram.

Com quem criou amizade mais forte no Benfica?
Tenho medo de enumerar alguns e esquecer-me de outros. Sou muito solitário e ainda por cima não gosto muito de telemóveis, gosto mais de falar pessoalmente. Tenho um grande amigo meu no Chipre, cipriota, que fica chateado comigo porque ele se for preciso liga uma vez por semana, mas eu não gosto de falar uma vez por semana. Se calhar prefiro aguentar as notícias e quando falar, falar mais tempo com ele. Se nos falamos todos os dias, não damos valor. O Bruno Aguiar, que jogou comigo desde miúdo e é meu vizinho, se for preciso estamos um ano sem jantar um com o outro. Prefiro se calhar falar de jogadores que me marcaram.

Força.
O Robert Enke marcou-me muito por todos os aspetos. Porque ele era um miúdo quando jogou no Benfica, teve o problema que teve e depois acaba por se suicidar, são coisas que marcam.

Não estava à espera daquele desfecho.
Ninguém estava à espera. Sabiamos que as coisas não estavam fáceis, mas nunca se espera que aconteça aquilo. Só prova que nós, jogadores de futebol, também temos problemas e às vezes não falamos desses problemas porque toda a gente acha que somos imbatíveis ou que somos os melhores. Ou se calhar o colete de forças que procuramos meter dentro do campo, acabamos por vesti-lo fora do campo também. Imagine o que é um guarda-redes sofrer um golo com culpa e estarem 60.000 pessoas a ver. São 60.000 pessoas que estão a apontar o dedo àquela pessoa que ali está. Temos de criar anticorpos para isso e depois se calhar na sociedade mantemos esses anticorpos. O Nuno Gomes foi outro jogador que me marcou muito pelo que me ajudou. O Bruno Aguiar, estive com ele no Benfica e no Chipre, quando cheguei ao Chipre foi dos que mais me ajudou, porque já tinha tratado de quatro casas para eu ver para alugar, carro, etc. Fiquei a viver em casa dele durante 15 dias. São coisas que marcam. Tenho o prazer de poder dizer que alguns dos meus ídolos tornaram-se meus amigos.

Moreira com o ex-guarda-redes José Henrique (Zé Gato), com quem ainda se cruzou no Benfica

Moreira com o ex-guarda-redes José Henrique (Zé Gato), com quem ainda se cruzou no Benfica

D.R.

Houve algum treinador de guarda-redes que o tenha marcado também?
Um dos que me marcou mais foi o Silvino. Explico porquê. O Silvino tinha acabado a carreira dele como guarda-redes e estava a começar a de treinador. E eu naquela altura entre escola, treinos dos juniores, nos juvenis, idas à seleção, tinha poucas manhãs livres para treinar com os seniores do Salgueiros. Sempre que eu ia, ele dava-me na cabeça porque não tinha ido antes. Costumo dizer que ele foi o meu padrinho e eu fui o afilhado dele. Ele era meu ídolo também, e ser treinado por ele... Fez-me evoluir muito e acredito que também o tenha ensinado porque foi o primeiro ano em que ele foi treinador de guarda-redes.

Deixa a escola em Lisboa aos 17 anos no 11º ano e quando começa a namorar?
Quase a fazer os 18 anos. Miúdas que estavam a ver, amigas de amigos, mas nunca fui de ter muitos relacionamentos ou duradouros. Também porque comecei muito cedo a viver com a minha esposa. Tinha 20 anos.

Como é que ela se chama?
Maria João.

Como a conhece?
Fui fazer o desfile da roupa de guarda-redes da Adidas, pelo Benfica e ela estava a fazer o desfile da roupa casual do Benfica. Conhecia-a nesse desfile, mas nem falamos. Trocámos olhares. Um mês depois, em conversa com uma amiga perguntei por aquela miúda que esteve a fazer o desfile, se sabia o telefone dela e ela mostra-me uma SMS da Maria João que dizia: "Se o guarda-redes perguntar por mim, diz-lhe que eu o achei muito giro". A partir dessa altura começamos a falar, a conhecer, a namorar. Depois tivemos um arrufozito, mas passado um mês voltamos a namorar e passados dois meses ela veio viver comigo.

Ela faz alguma coisa profissionalmente?
Não. Trabalhava numa agência de eventos, mas agora, como costumo dizer, é apenas mãe.

Moreira foi chamado ao Euro2004 mas não jogou. Aqui celebra com o Nuno Gomes a passagem à final

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JAVIER SORIANO

Lembra-se da primeira vez que ganhou dinheiro com o futebol?
Lembro, foi na seleção. Na viagem a Moçambique. Tinhamos um valor de diária que eles davam e foi a primeira vez que recebi algum dinheiro do futebol.

Fez questão de comprar alguma coisa com esse dinheiro?
Lembro-me que comprei um leitor de CD's e acho que um ou dois CD's.

E o valor do primeiro ordenado, que cálculo tenha sido quando assinou com o Benfica?
Sim. 25 contos (125 euros). Fiquei com o dinheiro e quando já estava em Lisboa, no Benfica, comprei o meu primeiro carro, porque tinha juntado.

O que comprou?
Hyundai Coupé. Tinha 18 anos.

Qual foi a maior extravagância que a que se deu ao luxo?
Acho que foi comprar uma casa. Nunca fui aficionado de carros. Comprei a primeira casa, em Queijas, com 22 anos. Ainda a tenho.

Quando ouve a palavra Benfica, qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça?
Fiz-me homem. Cresci, casei, tive a minha filha Beatriz, que vai fazer 12 anos, no Benfica.

Recorda-se quando foi campeão nacional?
Recordo. Logo em 1999/2000 fui campeão nacional de juniores, pelo Benfica. Depois em 2004/05 no Bessa, com o Trapattoni fomos campeões nacionais. Foi fantástica a viagem que fizemos do estádio do Bessa até ao aeroporto, com um cordão humano, foi fantástico.

Mas foi com Trapattoni que teve um mini arrufo não foi?
Não tive mini arrufo nenhum. Aquilo foi uma situação em que infelizmente nós perdemos 4-1, inclusive fui o melhor em campo, e no jogo a seguir ele veio ter comigo ao quarto e disse-me: "Não vais jogar o próximo jogo porque por questões psicológicas a equipa precisa de algo e vais ser tu o sacrificado". Saliento que ao menos foi honesto comigo.

Ficou revoltado, ou não?
Claro que fiquei. Mas desde sempre aprendi a respeitar as opiniões dos treinadores. Eles estão lá para tomar decisões. São pagos para isso, é óbvio que não gostei. Disse-lhe que não concordava mas que ia respeitar.

Moreira como guarda-redes do Benfica, clube onde esteve 12 anos

Moreira como guarda-redes do Benfica, clube onde esteve 12 anos

Stephen Pond - EMPICS

E lesões, quando tem a primeira?
Em 2005. Depois de ser campeão, quando já estamos com o Ronald Koeman. Estava a fazer uma boa época, jogamos Liga dos Campeões em Old Trafford, depois de um jogo que fazemos em casa contra o V. Guimarães, lesionei-me. Naquela altura o Scolari não me chamava para a seleção, chamava o meu suplente entre aspas, que era o Quim. Com o Trapattoni foi o contrário, trocou-me pelo Quim, com o Koeman estava a jogar eu mas o Scolari chamava o Quim à seleção. Só havia dois guarda-redes no treino após o jogo contra o V. Guimarães, tive que treinar, lesionei-me no joelho e fui operado.

Quando é convocado a primeira vez para a seleção A?
Foi para ir ao Euro 2004. Fiz o campeonato da Europa de sub-21, mal acabou vim direto para o Euro 2004 e foi uma emoção muito grande poder estar outra vez ao pé de ídolos. Era miúdo tinha 22 anos.

Fez o Euro 2004, mas não jogou. Ficou triste por não jogar?
Não, eu já estava feliz por lá estar. Não estava jogar mas procurei contribuir com outros aspetos. Depois em 2009, fui chamado novamente à seleção, pelo Carlos Queiroz, fiz os últimos jogos do apuramento para o mundial. Fiz dois jogos, um para o apuramento e outro amigável. E depois em agosto fui chamado para um particular contra o Lichtenstein e foi aí que me estreei com a seleção. Nesse particular.

Tem pena de não ter defendido mais a baliza da seleção?
É óbvio que gostava de ter jogado mais, gostava de ter sido chamado mais vezes, mas não me arrependo nem olho com mágoa para o que se passou. Hoje em dia posso dizer que sou um dos poucos jogadores que tem pelo menos uma internacionalização em cada escalão da seleção. Tenho desde os sub-15 à seleção A, passando por seleção olímpica, seleção B, sub, 20, sub-21, sub-23. No total tenho quase cem jogos jogados pela seleção, o que me orgulha imenso. Por isso olho com muito orgulho para o meu passado e com nenhuma mágoa. Sei que as lesões atrapalharam um pouco, mas faz parte.

Além dessa, teve mais?
Tive outra, no joelho esquerdo. Também fui operado e estive parado durante cinco meses, o que me atrasou num aspecto importante da minha carreira. Uma foi em 2005 e a outra em 2007, foram muito próximas uma da outra.

Atrasou por quê?
Porque na minha posição só joga um e perdendo a vaga depois torna-se difícil. Mas são coisas que acontecessem.

Em 2008, Moreira, o primeiro em pé à direita, foi com a equipa do Benfica a Cabo Verde

Em 2008, Moreira, o primeiro em pé à direita, foi com a equipa do Benfica a Cabo Verde

D.R.

Há pouco disse que na seleção não estava a defender a baliza mas que tentava ajudar noutros aspectos. Como?
Primeiro, mordendo os calcanhares aos guarda-redes que estão a jogar, porque se eu treinar bem ele vai ter que treinar melhor. Se eu o ajudar dentro do campo a evoluir, ele vai ser melhor guarda-redes e eu também vou ser melhor. E noutros aspetos, ajudar jogadores no final do treino se quiserem fazer remates, terem sempre alguém para estar na baliza, coisas desse género. Porque o sucesso de um é o sucesso de todos.

O que foi para si o melhor e o pior do Benfica?
Se calhar o pior foram as lesões. O melhor foi um pouco de tudo, de me ter feito homem, de ter crescido, do que aprendi, os valores que me passaram, foi uma aprendizagem. Posso dizer que se calhar a universidade da minha vida foram os anos que passei no Benfica.

Por que sai e como sai do Benfica?
Sempre tive o sonho de jogar em Inglaterra. Eles vivem o futebol com paixão. É só paixão. É diferente. Equipas que jogam fora levam 3000 adeptos, estádios sempre cheios, famílias que comem à volta do estádio e depois vão ver o jogo. É diferente. Sempre tive essa paixão e apareceu a proposta do Swansea City, eu não estava a jogar no Benfica, que naquela altura tinha eu e mais três guarda-redes. Notei que o Jorge Jesus não ia acreditar em mim, não confiava em mim como guarda-redes e pensei que se calhar era a altura de sair. Saí, fui ter uma experiência nova.

Gostou?
Gostei. Fez-me crescer muito. Fui com a família. No início foi um pouco difícil porque foi o primeiro ano da minha filha na escola, fez lá a 1ª classe. Os primeiros meses foram um bocado difíceis para todos. Ela não sabia falar, língua nova. Mas aprendeu mais depressa a escrever inglês do que português. Foi uma experiência enriquecedora, só estivemos lá um ano, mas foi uma aventura engraçada. Às vezes pensa-se que o papel da esposa não é importante, e aí nota-se o quanto é importante.

Porquê?
Porque quando se muda de país há muitas coisas como a escola, hospitais, centro de saúde que precisam de ser tratadas e com as quais nós, jogadores, não nos preocupamos muito. A minha esposa foi fantástica nesse aspecto e para a adaptação ser mais rápida. Quando estávamos em modo cruzeiro, a viver já quase em modo inglês, ou melhor galês, porque estava no País de Gales, voltamos para Portugal. Eu tinha contrato de dois anos mas o meu objetivo era jogar, como não estava a jogar e tenho saído do Benfica para jogar...

Não estava a jogar por que razão?
Eu fui contratação do chairman do Swansea e o treinador trouxe outro guarda-redes e, tenho de respeitar porque esse guarda-redes, o Michel Vorm, que agora está no Tottenham, esteve lindamente. Mas como tinha saído para jogar e não foi possível, chegamos a um acordo, quebrei o meu contrato e voltamos para Portugal.

Moreira jogou na equipa do Swansea City, em Inglaterra

Moreira jogou na equipa do Swansea City, em Inglaterra

Nick Potts - PA Images

Em Inglaterra encontrou outros portugueses?
No clube não, mas foi engraçado porque conhecemos uma pequena comunidade de portugueses que eram dentistas. Cruzamo-nos com eles na rua, eles reconheceram-me e começamos a falar. Ainda hoje mantemos o contacto, porque foram pessoas que nos ajudaram muito a manter o contacto com a realidade portuguesa num país diferente.

Houve alguma coisa de que tivesse ficado muito fã ou recorda-se de algo que o tenha chocado?
Fez-me confusão eles não ligarem muito ao jantar. Para eles comer chicken wings e beber umas pints (asas de frango e imperiais) serve de jantar, enquanto nós temos a cultura de jantar com a família ou com amigos. Eles é de beber uns copos e sair. Chocou-me um pouco não haver essa cultura do jantar. Mas gostei do tempo útil que se tem nas alturas de lazer.

O que quer dizer com isso?
Os miúdos saem às três da tarde da escola e os próprios pais também ou pouco mais tarde. Dá para fazer várias atividades em família até à hora de jantar. Quando está sol vai toda a gente para os parques e cria-se uma convivência engraçada, porque dá-se muito valor ao tempo livre e existe tempo livre. Aquele período das três às seis é um momento para estar em família ou ir passear. Gostava muito disso.

Em Portugal não consegue fazer isso?
Cá é diferente porque a filha sai às cinco da escola. Só o horário da escola portuguesa já é muito diferente.

Veio para cá sem clube?
Sim. Quando saí de lá houve um pequeno interesse do Estoril, chegamos a falar. O guarda-redes do Estoril na altura estava lesionado num ombro e ia estar afastado um mês e meio. Estive a um passo de vir para o Estoril. Não se concretizou, depois esperei para ver se aparecia outra equipa. Infelizmente não estava a aparecer, até que em janeiro surgiu o Chipre.

Tinha empresário?
Não tinha empresário fixo, tinha várias pessoas que estavam a ver o que é que se arranjava. Surgiu o Chipre. Começamos a falar no dia 29 janeiro, as inscrições fechavam dia 31, foi tudo muito rápido, entretanto liguei logo ao Bruno Aguiar que estava no Omonia. E fui.

A família também foi?
Não porque a minha filha estava na escola e como fui em janeiro, só foram lá visitar-me na altura das férias da Páscoa. Nos dois anos a seguir foram viver comigo. A minha filha foi para uma escola inglesa.

Moreira, o quinto em pé a contar da direita, com colegas da seleção naiconal

Moreira, o quinto em pé a contar da direita, com colegas da seleção naiconal

D.R.

Como correu a aventura cipriota?
Foi engraçado. Ainda apanhei um pouco do Chipre antes da crise dos bancos, que fecharam, portanto à quarta-feira à tarde ninguém trabalhava. Gostam todos de dormir a sesta, devido às temperaturas, que são elevadas. Não foi bem um choque porque eu estava no meio de portugueses. Só na mesma equipa éramos uns 10 que falavam português, entre brasileiros e portugueses. Por isso a adaptação foi muito fácil. Eles gosta muito de fazer churrascos, mas fazia-me confusão beberem o frapé de café com gelo e leite em todo o lado. Estão sempre a beber isso. Mas é uma cultura e um país que adoro. Boas praias, boa temperatura, boa comida.

Que outros jogadores portugueses além do Bruno Aguiar encontrou no Chipre?
O João Paulo, o Nuno Assis, o João Alves.

Conviviam muito?
Sim, bastante. Íamos à praia, à piscina ou ao café muitas vezes juntos.

Notou muita diferença ao nível do treino e do jogo?
Se calhar onde notei mais diferença ao nível do treino foi em Inglaterra, porque eles treinam com mais intensidade. Levam porrada e segue, é mesmo assim, cai, levanta. O Chipre é muito parecido com Portugal. Se calhar piores taticamente, mas muito parecidos a Portugal. Mas têm algumas coisas caricatas.

Dê um exemplo.
Na minha segunda época, fomos eliminados das competições europeias na primeira pré-eliminatória. Como o campeonato só começava em agosto, estivemos quase um mês sem jogos, depois de fazer a pré-temporada. Lá treina-se às sete da manhã e às sete da tarde e havia jogadores que chegavam com areia nos chinelos (risos). Como as praias são fantásticas foi uma realidade diferente e engraçada ver jogadores a chegar diretamente da praia. Mas pronto, não tinhamos jogos naquela altura. Uma coisa que aprendi com o mister Mourinho é que o rendimento do jogador vale por aquilo que ele faz durante o periodo em que está no clube, no treino e fora do treino. Depois, o aspeto pessoal a cada um diz respeito. Se um jogador gosta de dormir cinco horas e está bem para treinar, ótimo. Se precisa dormir 10 horas, tem de dormir 10h, cada um sabe da sua vida pessoal. Mas foi um aspeto que me marcou no Chipre, são realidades e culturas diferentes.

Disse numa entrevista que uma das coisas que o impressionou mais foi o fanatismo dos adeptos no Chipre.
Sim. As claques que as equipas grandes têm são...A primeira vez que levei com petardos foi lá. Eles caiam ao meu lado, explodiam, e segue o jogo. Enquanto cá se houver petardos caem longe, é nos cantos, lá não. Lá atiram mesmo para a baliza para estourar ao nosso lado. Tochas, moedas, vale tudo. Quando havia dérbis ou grandes jogos, e lá contra cinco equipas são sempre jogos de grande confusão, a minha filha gostava de ir ao campo no final para correr recolher as moedas. Eles atiravam moedas ao fiscal de linha, ao árbitro, ao guarda redes, para onde existia confusão. Uma vez ela e mais dois ou três filhos de colegas meus recolheram 14 euros em moedas e doaram à UNICEF, que andava a fazer uma recolha na escola deles.

Moreira foi para o Estoril Praia na época passada

Moreira foi para o Estoril Praia na época passada

Gualter Fatia

Entretanto vem embora do Chipre porquê?
Acabou o meu contrato e também tive uns problemas com o treinador da altura.

Que tipo de problemas?
Não cheguei a perceber muito bem a ideia dele. Porque ele começou a tentar afastar os jogadores portugueses. E o Omonia é um clube complicado. Depois, têm um vício. Quando querem mandar um jogador embora ou querem-no afastar começam a lançar boatos. O Chipre é um país que tem muitas apostas desportivas. Dizem até que é dos países onde existe mais jogos combinados.

Apercebeu-se disso?
Sente-se. Nunca ninguém me abordou, mas há jogos em ficamos na dúvida.

Na dúvida como? Tem a ver com o comportamento dos jogadores?
Normalmente isso não passa muito pelos jogadores, passa mais...Por exemplo, nota-se nos jogos amigáveis. Marcam um jogo amigável de uma equipa grande contra uma equipa do meio da tabela e esta equipa, na 1ª parte, joga com a melhor equipa e na 2ª metem juniores, logo, na 2ª parte vai perder por muitos, não é? E eles sabem que vai acontecer isso. As pessoas que lá estão e que se calhar apostam querem que isso aconteça. Nos jogos a sério não podem jogar os juniores nem jogadores à experiência. Mas agora torna-se mais difícil de certeza porque o Chipre é um dos países que está sinalizado com a bolinha vermelha a nível das apostas desportivas. Recorde-se o que aconteceu em Portugal na II Liga, há dois anos se não me engano...Quem faz é apanhado, não há hipótese. Os jogadores de futebol gostam de jogar futebol, o erro é normal. Os outros que infelizmente por aliciamento ou tentativa o fizeram foram apanhados e agora está na justiça.

Mas acabou por não falar ainda sobre os seus problemas com o treinador do Omonia.
Sofri um golo contra o Apollon, em casa, e foi um golo em que evidentemente eu podia ter feito melhor. O treinador já andava comigo fisgado, queria meter o outro guarda-redes, aproveitou esse golo e criou um pequeno boato como se eu tivesse facilitado de propósito. Não joguei mais essa época, o contrato acabou, eu fiquei lá a ver se dava para ir para outra equipa porque gostávamos muito do Chipre, não deu, apareceu o Olhanense cá, da II Liga. Vim embora.

Moreira, à direita, já como guarda-redes do Estoril Praia, disputa uma bola com Rafa Silva, do Benfica

Moreira, à direita, já como guarda-redes do Estoril Praia, disputa uma bola com Rafa Silva, do Benfica

NurPhoto

Custou-lhe regressar a Portugal, para a II Liga?
Custou-me um pouco pensar “Saí de Portugal pelo Benfica e vou voltar para a II Liga”, mas eu queria voltar, tomamos a decisão em família e voltamos.

A II Liga é um mundo muito diferente? Foi difícil adaptar-se à II Liga?
Custou-me um bocado porque saí da realidade do Benfica. Eu só conheci uma equipa a nível profissional, antes do Olhanense, que era o Benfica. É uma realidade diferente, condições diferentes, campeonato diferente, mas adaptei-me bem, fiz uma boa época e dei o salto para o Estoril.

Enquanto esteve no Olhanense viveu no Algarve com a família?
Não, a família ficou a viver já em Lisboa. Eu nunca deixei de ter a minha do Estoril, mesmo estando no estrangeiro.

Foi difícil viver sozinho?
Sim, um pouco. Muitas vezes sexta-feira ao final do dia a minha esposa pegava na nossa filha e ia para o Algarve passar o fim de semana comigo. Vinham de comboio e na segunda-feira, se eu tivesse folga ia para cima com elas. Fiz muitos quilómetros nessa altura. Hoje em dia quando vamos jogar a Chaves dizemos que é uma viagem longa, só me lembro de quando estava no Olhanense e tinha de ir jogar a Chaves (risos). Mas sempre fui muito bem tratado no Olhanense. Quando íamos jogar ao Norte, no regresso eu e mais dois ou três jogadores ficávamos em Lisboa e depois íamos juntos para baixo. Foi um ano de vivências diferentes, vivências humildes e em que aprendi o que são outras realidades do futebol, no caso, a II Liga. Que tem muito jogador de qualidade, muito miúdo desejoso de chegar à I mas que infelizmente por obra do acaso não conseguem.

Tem alguma história da II Liga e do Olhanense que possa contar?
Por acaso tenho. Uma vez, um dia antes de um Olhanense-FCPorto B, o clube estava a fazer uma manutenção no relvado e não nos deixava treinar no relvado, no dia antes do jogo. Porque as relações clube e SAD nunca foram boas. Então o Cristiano Bacci que era o treinador decidiu que iamos treinar no parque de estacionamento (risos). E foi ali, no parque de estacionamento, no alcatrão que fizemos o nosso treino tático um dia antes do jogo. Nunca tinha acontecido tal na minha carreira (risos). Mas guardo o Olhanense, o treiandor e a equipa no coração.

Moreira, depois de um treino no Estoril, no dia em que deu esta entrevista

Moreira, depois de um treino no Estoril, no dia em que deu esta entrevista

Nuno Botelho

Como surge o Estoril?
Devido ao bom trajeto que fiz no Olhanense. Assim que o Estoril mostrou interesse disse logo que vinha. Fico a 5 minutos de casa, é um clube de que sempre gostei, estive quase para vir para cá há cinco/seis anos...E era a hipótese de voltar a jogar na I Liga, a hipótese de concretizar o sonho que ainda hoje mantenho de ir à seleção novamente.

Mas estamos numa altura em que o Estoril está à beira de descer. De que forma é que isso mexe consigo?
Acabo contrato no final da temporada. Se me perguntarem se gostava de ficar cá muitos anos, digo que gostava, mas isso infelizmente não é uma decisão que me diz respeito a mim. De certeza que na altura certa as pessoas do Estoril vêm falar comigo e dizem quais os projetos que têm para mim. Não estamos numa situação fácil, há que ser realista. Mas temos duas hipóteses, desistir ou lutar. Eu vou pela de lutar. Temos sete jogos para jogar, que vão ser sete finais, precisamos de amealhar pontos e acho que todos juntos vamos conseguir. Não vai ser tarefa fácil, mas com muita vontade, entrega e trabalho vamos conseguir.

Acredita mesmo na permanência?
Acredito. Senão, é como digo, vamos todos embora para casa e já descemos. Não. Acredito, tenho confiança neste grupo de trabalho e em toda a estrutura e acho que vamos conseguir.

Qual foi o golo que mais lhe custou sofrer?
Um golo que o Deco me fez no antigo Estádio das Antas. Porque foi um golo em que eu podia ter feito melhor e recordo-me que se calhar a minha bagagem, o meu escudo não era tão forte. Foi um golo que me afetou naqueles dois meses em que as pessoas falavam muito. Se calhar foi o meu primeiro erro no Benfica em que toda a gente reparou. Depois criou-se ali um bocado de dúvida por causa daquele golo "Será que ele é guarda-redes para o Benfica? Não é?".

Pediu ajuda psicológica ou alguma vez teve esse tipo de ajuda?
Não. No Benfica sempre houve psicólogos mas nunca recorri. Consegui resolver os meus problemas com a ajuda da família.

Moreira regressou do Chipre e foi jogar no Olhanense, da II Liga

Moreira regressou do Chipre e foi jogar no Olhanense, da II Liga

D.R.

Há algum golo que o envergonhe?
Não. Sofrer golos faz parte da minha vida. Se eu os conseguir evitar, ótimo, mas não somos deuses, nem o super homem que vamos conseguir evitar todas as bolas. É natural que haja golos que custam mais sofrer do que outros, mas não sofri nenhum golo que me envergonhe.

Disse que ainda sonha com a ida à seleção. Acha possível?
O sonho comanda a vida. Se me perguntar qual a percentagem que tenho de ir à seleção neste momento, e sendo realista como sou, é 0,0001%, mas se calhar vou-me agarrar a esse 0,0001% para continuar o meu sonho. Se não for, não fui. Se for, ótimo.

Temos bons guarda-redes portugueses?
Portugal tem uma nova fornada de miúdos de 17,18, 19, 20 anos muito boa e acho que estamos muito bem servidos de guarda-redes.

O guarda-redes é o jogador que ocupa o lugar ingrato na equipa?
É. É a posição mais ingrata e a mais bonita. Nós vestimos roupa diferente, temos regras diferentes e o jogo não começa sem o guarda-redes. Um jogo de futebol tem de ter obrigatoriamente guarda-redes. Pode só ter seis jogadores de campo, mas tem que ter guarda-redes. É uma posição especial. É ingrata porque só joga um. Costumo dizer que se um treinador tiver o melhor guarda-redes do mundo e o segundo melhor guarda-redes do mundo na mesma equipa, só um é que joga. Enquanto se tiver o melhor jogador do mundo, o segundo melhor e o terceiro melhor, os três vão jogar. Mudam um bocadinho de posição, muda a tática, muda tudo se for preciso. Os guarda-redes não. E há muitos guarda-redes que viveram na sombra quase uma carreira inteira porque à frente deles estava um que o treinador pensava que era melhor. Até poderia não ser, mas se ele jogava e até jogava bem o outro nunca teve oportunidade de demonstrar.

Moreira com a mulher Maria João

Moreira com a mulher Maria João

d.r.

Alguma vez sentiu medo de ficar na sombra?
Foi por isso que sai do Benfica. Eu queria mostrar que quando jogava, jogava bem e que podia voltar a jogar, mas naquela altura com o Jorge Jesus sentia que não ia ter hipótese nenhuma.

Quem estava na baliza do Benfica nessa altura em concreto?
Estavam o Roberto, o Júlio César, Tinha chegado o Artur e era eu. Eu saí na pré-época da terceira época do Jorge Jesus, no Benfica.

Esteve duas épocas a perceber que ia ficar na sombra?
Eu fiz jogos, no primeiro ano dele fiz 5,6 jogos, mas era Taça da Liga ou Taça de Portugal. Não era o titular da equipa. Mas notei que ia ser difícil jogar.

Alguma sentiu que estava a fazer sombra a outros?
Sim. No Olhanense tive um aspecto curioso, o miúdo que jogava, o Tiago Maia que está agora no Praiense, é um miúdo que eu acho que tem umas qualidades enormes, mas quando eu fui para lá, fui tirar a vaga dele. Ele comigo lá nunca ia poder jogar. E é um guarda-redes excecional. E se calhar se eu não fosse para lá, ele é que tinha feito a época.

Isso fazia-o sentir-se mal de alguma forma?
Não. Fez-me sentir mais responsável. Eu tenho que ser melhor todos os dias e tenho que demonstrar o máximo porque sou eu que estou a jogar. Mesmo aqui no Estoril procuro fazer isso. Procuro ser o profissional exemplar para, jogando ou não, estar sempre nos meus limites.

Na final da Taça da Liga entre o Benfica e o Paços de Ferreira, que o Benfica ganhou por 2-1, Moreira defendeu um penalti e foi considerado o melhor em campo

Na final da Taça da Liga entre o Benfica e o Paços de Ferreira, que o Benfica ganhou por 2-1, Moreira defendeu um penalti e foi considerado o melhor em campo

D.R.

Costuma dizer-se que os guarda-redes são "malucos" e que têm uma personalidade muito peculiar. É verdade?
É. Não é só o ser "maluco", é ser diferente. É preciso ter uma personalidade diferente, também por causa da crítica, porque como já disse, se sofremos um golo, para quem olham? Para o guarda-redes. A bola pode passar pelos 10 jogadores, mas o último é o guarda-redes, a nossa função é evitar que a bola entre dentro da baliza.

Mas também pode ser o herói...
É muito mais fácil um jogador que não fez nada durante um jogo todo, fazer um golo e ser o herói, do que o guarda-redes. O guarda-redes é sempre mais vilão do que herói. Um guarda-redes para ganhar um jogo, alguém tem que fazer o golo. Mesmo que o guarda-redes evite um golo no último minuto, quem fez o golo foi o outro jogador. Ele não deu a vitória, ele segurou-a. Ao jogador basta uma bola para ser o herói, o guarda-redes pode defender 50 bolas durante um jogo, se sofrer um golo com um bocado de culpa ele é o culpado se perder o jogo. Se um avançado falhar 50 golos, fizer o golo e a equipa ganhar 1-0, é o herói. É por isso que nós guarda-redes temos que ter o nosso bocadinho de maluquice, porque somos aquela pessoa que está ali, tem que guardar a porta do castelo, mas os outros é que vão lá tentar fazer o golo, nós tentamos só defender.

Moreira, ao centro, com a filha Beatriz

Moreira, ao centro, com a filha Beatriz

D.R.

Alguma vez marcou um golo ou esteve perto disso?
Não.

Quais sãos os seus pontos fortes enquanto guarda-redes. Não quero que me diga o que os outros acham, quero que me diga aquilo que sente e pensa?
Atualmente é a regularidade e o controlo da profundidade. Ou seja, jogar fora da baliza nas costas da defesa.

O sair dos postes. Que é sempre uma tormenta para os guarda-redes,mais do que os penaltis.
O guarda-redes não tem pressão nenhuma no penalti. No penalti é o único momento em que o guarda-redes pode ser herói, nunca pode ser vítima. Porque a responsabilidade é toda do jogador e aí sim, é que se invertem os papéis. A principal tormenta de um guarda-redes é sofrer golo com responsabilidade. É saber que naquela bola, naquele golo podia ter feito mais. Por isso digo que quanto mais regular for o guarda-redes, melhor ele vai ser. No meu conceito de guarda-redes o melhor não é aquele que faz 10 boas defesas num jogo e comete dois erros. Eu prefiro um que não cometa erros e que só faça 6 boas defesas, se for o caso. Prefiro a regularidade à espetacularidade.

É o jogador mais velho da equipa do Estoril. Isso dá-lhe responsabilidade extra?
Dá. porque sendo o mais velho, quero mostrar que consigo fazer tão bem ou melhor do que eles. Costumo dizer-lhes "Se eu tivesse 20 anos, chegar 1 ou 2 minutos atrasado não era problema, pagava a multa e não havia problema. Hoje eu não me consigo imaginar a chegar 1 minuto atrasado". Porque eu quero mostrar, quero ser o primeiro a chegar aqui, quero ser dos últimos a sair. Porque se o "velho" consegue ter responsabilidade e ser bom profissional, se calhar o novo, vai olhar para ele como um exemplo.

Falou em "velho" mas esse é o lado menos ingrato da posição, permite uma longevidade maior do que a um jogador de campo. Já equacionou o pendurar, não das botas, mas das luvas?
Não. Ainda não. Gosto muito de jogar futebol. Às vezes passam pequenos slides na minha cabeça "O que é que vou fazer daqui a uns anos?". Mas para já gosto tanto de futebol e respeito tanto o futebol, que ainda quero jogar, enquanto o meu corpo der e tiver esta paixão de acordar e vir treinar.

Isso significa que, mesmo que o Estoril desça, não se importa de ir novamente para a II Liga?
O futuro a Deus pertence. O primeiro objetivo é ajudar o Estoril a ficar na I Liga. Depois o que pode acontecer...Se eu fico ou saio, se vou para a I ou II liga, se vou para o estrangeiro ou se fico em Portugal, isso não sei. Só na altura certa é que vou pensar sobre isso.

Moreira com o seu cão León, que nasceu no Chipre

Moreira com o seu cão León, que nasceu no Chipre

D.R.

Considera que pode estar num clube maior da I Liga. Ou o seu tempo já passou?
Não passou o meu tempo. Acho que sou como o vinho do Porto, estou melhor agora. Tenho capacidade para jogar na I Liga. E se me perguntarem se tenho capacidade para jogar no Real Madrid, eu sinto que tenho essas capacidades, depois depende do treinador A,B ou C, ou depende de muitos fatores. Mas confiança em mim como guarda-redes tenho-a, e muita.

Sente que hoje é melhor guarda-redes do que quando estava no Benfica?
Sinto. Não só pela experiência que ganhei mas também por aquilo que evolui como guarda-redes. Neste momento estou melhor do que estava.

Já preparou o seu futuro, aquilo que vai fazer depois de deixar de guardar balizas?
Já comecei a tirar cursos de treinador de guarda-redes, já fiz um curso na Universidade Lusófona de Diretor de Futebol, não de diretor desportivo, mas de Diretor de Futebol, para começar a entender também um pouco do outro lado, mas neste momento continuo com as minhas energias todas focadas no futebol. Ainda quero jogar por muitos anos. Vou continuar com as formações. Em princípio vou à Escócia tirar o curso de treinador de guarda-redes. Vou-me formando, mas o meu foco principal ainda está no futebol e em ser guarda-redes.

Moreira com o seu cão León, que gosta de fazer saltos para a água

Moreira com o seu cão León, que gosta de fazer saltos para a água

D.R.

Chegaram a chamá-lo de o Iker Casillas português. Gostava da comparação?
Gostava, porque foi uma situação engraçada, eu comecei a jogar no Benfica, ele começou a jogar no Real Madrid, ele é um ano mais velho do que eu. O nosso início foi muito semelhante e as pessoas comparavam o que é perfeitamente natural. Quando jogámos contra o FCP estive a falar come ele e estivemos a falar desses tempos.

Acha que pode ter prejudicado a sua carreira por ter jogado tantos anos no Benfica e não ter experimentado outros clubes de primeira linha em Portugal?
Não. Fiz a carreira que fiz, não me arrependo de nada, foram decisões que tomei de consciência, foi aquilo que batalhei. Fiz e estou a fazer uma carreira bonita e quero adicionar-lhe mais capítulos, porque o livro ainda não está fechado.

A sua filha vai fazer 12 anos. Quando fala na hipótese de voltar ao estrangeiro como é que ela reage?
Já me diz que para o estrangeiro não quer ir porque fez o núcleo de amigos cá. Nós também enquanto pais, já decidimos que se for para o estrangeiro, elas ficam. A nível familiar é o melhor para a nossa filha. As aventuras que ela teve foram muito boas porque fala o inglês perfeito nativo, com pronúncia inglesa, mas agora tem o seu grupo de amigos e para a evolução dela é melhor ficar.

Tem algum hobi ou coleciona alguma coisa?
Vinhos. Garrafas de vinho.

Quantas tem?
Umas 400.

Tem alguma preferência?
Tinto. Gosto de bons vinhos, não interessa a região, têm é que ser bons.

Já fez algum curso de vinhos?
Ainda não, mas estou a pensar fazer, quando tiver mais tempo, porque gosto.

De onde vem ou com quem aprendeu a apreciar um bom vinho?
Nao sei. Acho que foi natural. Apareceu em mim, comecei com uma garrafa, duas garrafas, três, depois comecei a aumentar a garrafeira em casa, fiz há pouco tempo uma remodelação e agora tenho um garrafeira engraçadinha (risos).