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A casa às costas

Saleiro: “No Sporting, o Paulinho pôs-me uma pomada dentro dos calções e fiquei com um ardor nas virilhas. Mas tive a desforra”

Aos 18 anos fartou-se de ser conhecido como o primeiro bebé proveta de Portugal e quis afirmar-se como jogador de futebol, na altura no Sporting, o clube de coração. Não foi tão feliz em Alvalade como sonhou e as experiências além fronteiras também ficaram áquem das expectativas. As lesões obrigaram a um final de carreira antecipado, mas Carlos Saleiro está de bem com o que fez e diz-se focado nos desafios que entretanto abraçou: o agenciamento de jogadores, e o lançamento de uma escola de futebol Sporting, no Brasil.

Alexandra Simões de Abreu

TIAGO MIRANDA

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É o primeiro bebé proveta em Portugal, recorda-se quando é que começa a ter essa noção?
Não me lembro de uma idade precisa. Lembro-me que aos poucos me fui apercebendo de algo, principalmente na altura do meu aniversário, em que havia mais aparato. Jornalistas a ligar para casa dos meus pais, a tentar que eu falasse e os meus pais sempre a protegerem-me. Acho que foi por volta dos meus 12, 13 anos que comecei a ter a noção.

Os seus pais sentaram-se consigo e tiveram uma conversa para explicar?
Não. Fui-me apercebendo, foi tudo muito progressivo, sem grande aparato, tudo muito normal. Aliás, eu sempre vivi uma vida normal, sem o “ah, é aquele”.

Mesmo na escola?
Mesmo na escola. Recordo vagamente a minha infância, mas não me lembro de nenhum episódio em particular em que me dissessem: “aquele é o bebé proveta”.

Nunca confrontou os seus pais ou foi à procura de informação sobre o assunto?
Aquela palavra “bebé proveta” ficou, mas nunca me despertou curiosidade para ir ver o que era. Aliás, naquela altura não havia internet nem o à-vontade para falar com os meus pais e perguntar o que é isto. Talvez até tenha perguntado, não me recordo. Foi uma situação normal e progressiva, nada de especial.

Nem se lembra da primeira vez que leu sobre o tema?
Não me recordo, sinceramente. Mais tarde, tomei obviamente uma posição perante os meus pais. Eles deixaram-me à vontade para falar pela primeira vez. E, quando fiz 18 anos, dei a primeira entrevista, já não me lembro se foi para uma revista ou para um jornal.

Carlos Saleiro, ainda no hospital

Carlos Saleiro, ainda no hospital

D.R.

Aborrecia-o tanto interesse em si?
Chateava, porque via que aquilo era uma coisa normalíssima. Ok, eu fui o primeiro bebé proveta em Portugal, mas já havia outros, noutros países. Para mim era uma coisa normal. Sei que foi especial para os meus pais, graças a Deus correu tudo bem, e foram os primeiros. Depois disso nasceram não sei quantos mais e ainda bem. Decidi falar e colocar um ponto final naquilo que era talvez um tabu para os jornalistas. Eu queria definir o Carlos Saleiro. Com 17 anos já jogava pelos seniores do Sporting, estava numa fase em que a minha carreira desportiva já se estava a definir. Quis pôr uma barreira nessa situação, definir que o Carlos Saleiro era conhecido como profissional de futebol e não por ser o bebé proveta. Foi um pouco por aí, e também para me libertar, não de um peso, mas de estarem constantemente a falar sobre o assunto.

Tem mais irmãos?
Na altura do parto fizeram um tratamento à minha mãe e resolveram o problema que ela tinha. A seguir a mim vieram mais dois irmãos, um rapaz e uma rapariga. E, antes de mim, os meus pais já tinham um afilhado o Miguel, que ficou com eles desde o primeiro ano de vida e que é como se fosse meu irmão. É meu irmão. Tem 42 anos. Os meus pais estiveram durante muito tempo a tentar ter um filho, mas não conseguiam. Depois, tiveram-me a mim e aos meus irmãos Nuno e Ana.

Saleiro com a mãe, Alda

Saleiro com a mãe, Alda

D.R.

E com o pai, Carlos

E com o pai, Carlos

D.R.

Cresceu onde?
Em Lisboa, no bairro da Musgueira Sul, que hoje em dia é a Alta de Lisboa. Mas saí muito cedo do bairro porque entretanto a Câmara deu casas novas, na zona do Lumiar aos meus pais, e com 9 ou 10 anos fui viver para um apartamento.

Antes vivia numa casa?
Sim. Não era uma barraca, eram casas de tijolos todas seguidas. Um bairro normal, naquela altura era muito comum em Lisboa. Felizmente isso praticamente acabou. Passámos para melhores condições. Mas lembro-me de jogar à bola na rua; basicamente, da minha infância, só me recordo de andar a jogar à bola. Curiosamente, os meus pais não sabiam que eu tinha este jeito para o futebol.

Não tem ninguém na família ligado ao futebol?
Não. Surgiu através de um amigo meu que também vivia nesse bairro e que também mudou na mesma altura para as casas do Lumiar. Perguntou-me se eu queria ir às captações ao Sporting.

Já torcia pelo Sporting?
Sim, em casa era tudo Sporting. O meu pai pertenceu à Juve Leo, na altura do filho do João Rocha.

Recrote de uma das várias notícias que surgiram na altura do nascimento de Carlos Saleiro, o primeiro bebé proveta em Portugal

Recrote de uma das várias notícias que surgiram na altura do nascimento de Carlos Saleiro, o primeiro bebé proveta em Portugal

D.R.

O que é que os seus pais fazem profissionalmente?
O meu pai sempre foi talhante e a minha mãe doméstica. Mas estava a dizer que fui às captações ao Sporting, tinha 7 anos, com esse meu amigo, o Pedro, que tinha 9 ou 10 anos. Na altura não ficámos e, uns meses mais tarde, ele quis levar-me novamente. Só que nessa altura, como não tinha ficado no ano anterior, chorei muito. Lembro-me como se fosse hoje.

Chorou porquê?
Não queria. Mas ele convenceu-me. Fomos e fiquei.

Já ia com uma posição definida?
Não, mas a posição que foi definida na altura, foi a aquela com que fiquei para o resto da minha carreira: ponta de lança.

Quem foi o seu primeiro treinador no Sporting?
O César Nascimento, durante 2 anos nas escolas, e depois o Osvaldo Silva, 3 anos nos infantis. Sempre joguei com os mais velhos. Tinha 8 anos e jogava com os de 9, 10. Nos infantis a mesma coisa. Destacava-me bastante, fazia muitos golos na formação.

E os estudos? Gostava da escola?
Não. Nunca fui bom aluno, não tinha grande interesse. Aos 14, 15 anos só pensava em focar-me no futebol, achava a escola uma “seca” tremenda (risos).

Carlos Saleiro junto de um leão em peluche oferecido pelo então presidente do Sporting, João Rocha.

Carlos Saleiro junto de um leão em peluche oferecido pelo então presidente do Sporting, João Rocha.

D.R.

Os seus pais apoiaram a sua ida para o Sporting?
Sim, a partir do momento em que fiquei no Sporting, aquilo foi uma loucura. O meu pai acompanhava-me sempre. Aliás, os meus pais acompanhavam-me sempre, nos treinos, nos torneios fora de Portugal, no norte, no sul.

Quando é que sai a primeira vez de Portugal?
Tinha 8 anos, foi para França, com o Sporting. Os meus pais não foram. Acho que nessa noite nem dormi, estava com receio do avião, como é que é, como é que não é.

Fez toda a sua formação no Sporting. Nesses anos houve algum jogador, algum treinador que o tenha marcado mais?
Tenho vários, porque me dei sempre bem com todos, nunca houve grandes problemas. Na minha formação houve uma altura em que estagnei um bocado e o Sporting se calhar deixou de acreditar no meu potencial, na minha evolução. E houve ali um momento em que fiquei a pensar: “saio ou fico?”.

Tinha quantos anos?
13, 14 anos.

Carlos Saleiro ao colo do médico António Pereira Coelho, responsável pelo seu nascimento

Carlos Saleiro ao colo do médico António Pereira Coelho, responsável pelo seu nascimento

D.R.

Por que é que estagnou?
Não sei. Eu era um dos mais baixos da equipa naquela altura, não jogava muito porque já havia jogadores com pêlos nas pernas, como costumo dizer, com uma maturação acima da minha. Só que depois, entre os 15 e os 17 anos, dei um salto tremendo e aqueles que eram mais altos do que eu ficaram mais baixos (risos) e destaquei-me. Mas voltando à questão, houve várias pessoas que me marcaram na formação. O César Nascimento e o Osvaldo Silva, que infelizmente já não estão entre nós, e que me ensinaram o que é o futebol mais puro, a liberdade do que é o futebol.

Explique lá isso “a liberdade do que é o futebol”.
Os primeiros pontapés que se dá. Não é o que a partir dos 17, 18 anos e por ai adiante se sente, que é uma competição enorme entre todos, entre os clubes. E isso, às vezes, leva-nos a pensar outras coisas. Até aos 12, 13, 14 anos, aquilo leva-se como uma brincadeira, séria, mas como uma brincadeira, livre, sem responsabilidade. Eu vejo-os nesse sentido: se calhar não me ensinaram a fazer um passe, mas ensinaram-me a fazer um passe como deve ser, nem um remate, mas a forma como rematar. Isso deu-me as bases, o suporte para o que foi a minha carreira em termos de qualidades que tinha. Depois, mais a sério, tive o Paulo Bento, que apanhei ainda como colega em poucos jogos e depois como treinador, nos juniores.

É muito difícil passar de colega a jogador de?
Nessa altura, não. Porque eu tinha 17 anos, ele já tinha trinta e poucos, tinha terminado a carreira; eu estava no início da minha, fiz dois ou três jogos com a equipa principal do Sporting e foi quando nos cruzámos. Depois, voltei para os juniores e ele começa aí a sua carreira como treinador na equipa de juniores onde eu estava. Foi um treinador que mais tarde apostou em mim, na equipa principal do Sporting.

Carlos Saleiro quando deu os primeiros passos

Carlos Saleiro quando deu os primeiros passos

D.R.

Quando é que fez o seu primeiro contrato?
Com 17 anos, tinha acabado de ser campeão da Europa, em 2003. Eu, o João Moutinho, o Miguel Veloso, entre outros.

Até aí o Sporting não lhe pagava nada?
Não. Só nessa altura, esses jogadores que foram campeões da Europa, é que fizemos o primeiro contrato profissional.

Quando é chamado pela primeira vez à seleção?
Num Portugal-Espanha, de sub17.

Quem era o selecionador?
O António Violante. Foi em janeiro, por aí, ainda tinha 16 anos, em fevereiro fazia 17, em maio aconteceu o campeonato da Europa de 2003, e sagrei-me campeão.

Carlos Saleiro, à esquerda, com or irmãos Miguel, ao centro, Nuno e Ana

Carlos Saleiro, à esquerda, com or irmãos Miguel, ao centro, Nuno e Ana

D.R.

O que sentiu quando foi chamado pela primeira vez à seleção?
Naquela altura já era um objetivo meu. Estava muito bem nos juvenis do Sporting, fazia golos e sabia que mais semana, mais mês, menos mês, poderia ser chamado. Sente-se algo diferente, o hino a tocar antes do jogo começar, aquela envolvência. E, sendo uma seleção, há 4 do FCP, 4 do Benfica, 4 do Sporting, 4 do V. Guimarães. Chegámos ali e parece que é tudo novo. Não há a pressão como nos clubes. Nos clubes estamos um ano seguido a levar com os mesmos, a levar com o mesmo discurso e às vezes, aí sim, torna-se mais pesado. Na seleção, como são apenas duas ou três semanas de convívio, há um bom clima e mesmo dentro do campo, se calhar esse peso de que estava a falar sai de cima dos ombros e os jogadores unem-se de forma a que aquilo possa desenrolar da melhor maneira.

A rivalidade dos clubes não vem ao de cima?
Não. Mas havia uma situação gira. No último treino de cada estágio da seleção, o mister fazia um jogo em que metia os jogadores do norte de um lado e os do sul do outro. Tínhamos de usar caneleiras obviamente (risos). Só aí é que se via essa rivalidade, depois no campo e no jogo, estávamos todos unidos.

Quem é que habitualmente ganhava?
Acho que eram os dos norte. Eram mais aguerridos, parecia que já tinham mais vivência, mais vida dentro deles.

Mas só dentro do campo, ou fora também?
Em tudo, fora também.

Saleiro pouco antes de entrar no Sporting

Saleiro pouco antes de entrar no Sporting

D.R.

Faziam muitas partidas uns aos outros?
Sim, desde acordar com pasta de dentes no cabelo... Tanta coisa que nem dá para lembrar. Mas os do norte eram claramente mais malandros.

Alguma vez foram castigados ou levaram um “puxão de orelhas” por causa das partidas?
Houve uma situação engraçada. Fomos campeões da Europa e tivemos acesso direto ao mundial da Finlândia, passados dois ou três meses. Na Finilândia ficámos num hotel, numa floresta, onde havia um lago muito grande. A seguir ao jantar saímos sempre um bocadinho para o parque, para não estarmos o dia todo fechados e só a treinar. Um dia a seguir ao jantar fomos dar uma voltinha e já não me lembro quem foi, mas dois dos jogadores resolveram pegar num barco que havia nesse lago e remar até uma ilha lá no meio. A corrente começou a ficar um bocadinho mais forte, estava um bocado de vento, e eles não estavam a conseguir voltar. Tivemos que chamar o pessoal do hotel, que chamou a polícia para irem lá buscá-los. Claro que levámos todos um puxão de orelhas bem valente (risos).

Nesse mundial em que lugar ficámos?
Ficámos nos oitavos de final, perdemos contra a Espanha.

Com quem criou laços mais fortes de amizade?
Com os da minha geração e do clube, o Veloso, o Moutinho, o Nani, o Djaló. Mas eu gosto de separar as coisas, são conhecidos, mas não são por exemplo, amigos de casa. Se tiverem que ir a minha casa, vão, como já aconteceu, mas não há uma frequência. Até porque o futebol ainda não permite isso. Eu já terminei, mas eles ainda não. Um está em Itália, outro em França, e é sempre complicado.

Saleiro, ao centro, mascarado de Super Homem, com os dois irmãos mais novos

Saleiro, ao centro, mascarado de Super Homem, com os dois irmãos mais novos

D.R.

A escola onde é que ficou?
Aos 17 anos, depois de ser campeão da Europa passo de juvenil a senior, vou para a equipa B do Sporting, com jogadores de 23, 24 anos e eles treinavam de manhã. Só que só treinavam às 11h30 por causa de mim e às vezes tinham de treinar à tarde também por minha causa. Precisamente por causa da escola. Depois de dois, três meses, aquilo já estava a ser “insuportável” e o meu aproveitamento na escola também não era o melhor.

Em que ano estava?
No 10.º ano. Já tinha chumbado duas vezes, no 7º ou no 8º e no 10º. Como o aproveitamento continuava a não ser o melhor, as psicólogas juntamente com os treinadores do Sporting, levantaram a questão de eu largar a escola naquela altura e passar a ser só profissional de futebol ou continuar e íamos ajustando, treinava umas vezes com os juniores e outras com os seniores. Naquela altura, como deve imaginar, a escolha foi fácil para mim.

E os seus pais como é que reagiram?
Eu já decidia muita coisa, obviamente com o consentimento deles, mas decidi praticamente sozinho, e optei pelo futebol. A escola terminou aí, com 17 anos.

Está arrependido?
Dessa decisão, não. Se calhar, estou arrependido de não ter aproveitado melhor o tempo em que estive na escola, de modo a ter passado os anos todos. Mas arrependido, não. Até porque ainda estou numa idade que me permite terminar.

Carlos Saleiro foi para o Sporting com 8 anos

Carlos Saleiro foi para o Sporting com 8 anos

D.R.

Deixa a escola, vai para a equipa B do Sporting, assina o seu primeiro contrato. Lembra-se do valor do primeiro ordenado?
500 euros.

Era um valor muito bom, em 2003, para um jovem de 17 anos.
Sim, eu até aí não recebia nada (risos).

O que comprou logo com esse dinheiro?
Roupa. Lembro-me de ter comprado um Mp3, que me custou mais de 90 euros (risos).

Namorada, já tinha?
Com 16 anos comecei a namorar com a minha atual mulher.

Conheceu-a onde e como?
A Joana vivia perto de mim.

O que é que ela faz?
É gestora de uma empresa americana aqui em Portugal.

Quando é que casam?
Não casámos. vivemos juntos. Ela veio viver comigo quando fui transferido do Sporting para a Suíça.

Saleiro, à direita, com os irmãos

Saleiro, à direita, com os irmãos

D.R.

Já lá vamos. Lembra-se da estreia na equipa principal do Sporting? Em que jogo foi?
Num amigável em Portimão, tinha ainda 17 anos.

Quem é que o chama?
O Fernando Santos. Ainda jogava o Paulo Bento, o Rui Jorge, Pedro Barbosa. Lembro-me de ir no autocarro com eles e ir encolhido no meu sítio (risos).

Não se meteram consigo?
Coincidência ou não, houve logo uma “química” entre mim e o Paulo Bento. Ele passou para a frente do autocarro e, quando volta, olha para mim e diz: “Que idade é que tens, pá?”. “17”. “Nã, diz lá a verdade”. “17”. “Dá cá o BI”. “Eu nao tenho aqui o BI, mas já lhe disse, tenho 17 anos”. Até o estava a tratar por você (risos). “Tu, com essa barba, tens 17?”. Eu tenho barba cerrada desde muito cedo, aos 15 anos já fazia bigode. “Sim, tenho, tenho”. Ele riu-se e foi uma forma de, até como jogador mais experiente, meter-me à vontade com jogadores que na altura eram meus ídolos e referências para mim.

Quem eram os seus ídolos?
Eram os jogadores que jogavam na mesma posição. O Jardel, Acosta, Pauleta, Raúl do Real Madrid. Depois havia outros que admirava bastante, como o Pedro Barbosa, o Figo.

Carlos Saleiro de camisa brancajunto a um dos seus ídolos, Luis Figo

Carlos Saleiro de camisa brancajunto a um dos seus ídolos, Luis Figo

D.R.

Como é que foi o primeiro embate com o Fernando Santos?
Eu já tinha ouvido histórias do Fernando Santos, de ser rígido. Aliás, uns meses antes de fazer esse jogo em Portimão ele até entrou no balneário da equipa B, porque os resultados não estavam a ser os melhores. Foi tentar com o seu discurso, mudar um pouco o que estava a acontecer. Quando entra nem sequer diz boa tarde, diz “Para tudo”. Um colega meu que tinha acabado de tomar banho e estava a vestir as cuecas continua a vestir e o Fernando Santos dá-lhe um berro “para tudo”. Esse meu colega meteu só a toalhinha por cima das pernas (risos). Deu um raspanete muito forte. Quando fui para esse jogo de Portimão com a equipa principal, já tinha a noção do que era. Quando entrei no autocarro ele ainda não estava lá dentro. Em Portimão, saio pela parte detrás do autocarro, ele estava na parte da frente, e eu fico naquela “Vou lá, cumprimento, não cumprimento”. Ele vê-me e faz só um gesto com a cabeça, nem ri, nem nada, só um gesto do tipo “Tudo bem?”, mas sem falar. Levantei a mão, do género “Bom dia mister”, e pronto. Mas depois foi simpático e transmitiu-me confiança na altura em que entrei.

Não foi tão rígido como estava à espera?
Não. Se calhar é normal, há treinadores que gostam de separar aquela parte mais pessoal. Ele talvez fosse assim.

Estava muito nervoso quando entrou em campo?
Estava ansioso por me mostrar e acho que só toquei umas duas ou três vezes na bola. Era imaturo, se tivesse entrado mais tranquilo se calhar as coisas desenrolavam-se de outra forma. Mas é um processo natural .

É supersticioso?
Numa determinada altura da minha carreira fui. Até porque por vezes as coisas não me corriam bem e tentava “agarrar-me” a essas superstições. Mas não era nada de mais. Entrava com o pé direito, tentava meter o carro sempre no mesmo sítio, nada de mais.

É crente?
Sou crente à minha maneira. Não vou à igreja, acredito em deus, mas não sou católico. Sou crente sem ser praticante.

Carlos Saleiro, à direita em baixo, com a sua equipa de infantis onde jogava também Cristiano Ronaldo, o segundo em cima à direita

Carlos Saleiro, à direita em baixo, com a sua equipa de infantis onde jogava também Cristiano Ronaldo, o segundo em cima à direita

D.R.

Voltanto à equipa B. faz esse jogo amigável. quando é que dá o salto para a equipa principal do Sporting?
Só muito mais tarde. Entretanto no final dessa temporada 2003-2004, acaba a equipa B do Sporting. Faço a pré-época com a equipa principal, já com o José Peseiro, mas não tenho espaço e volto para os juniores onde reencontro, como disse anteriormente, o Paulo Bento que tinha terminado a carreira de jogador e assume os juniores. No final dessa temporada somos campeões nacionais, com o Paulo Bento e aquela geração de Nani, Moutinho e Miguel Veloso. E aí começo a ter alguns problemas físicos.

De que tipo?
No final dessa época sou operado ao joelho. Tinha uma inflamação crónica no rotuliano e já não havia tratamento que resultasse. Quando sou operado, como não havia equipa B e já era o primeiro ano de sénior, o Sporting opta por emprestar-me ao Olivais e Moscavide. Entretanto a recuperação da primeira cirurgia não correu bem e tive que ser novamente operado e por isso só apareço em março no Olivais e Moscavide, onde termino a época, mas faço pouco jogos.

Tinha ajuda psicológica nessa altura?
Sempre fui forte psicologicamente, sempre achei que podia recuperar de tudo. Nessa altura ainda não tinha atingido o topo da minha carreira, não havia esse peso, essa responsabilidade, aquela pressão de poder voltar a ser o que era, como aconteceu mais tarde. Aí consegui dar a volta. No ano a seguir continuei a não ter espaço no Sporting e fui novamente emprestado ao Olivais e Moscavide, da II liga.

Ainda vivia com os seus pais?
Sim.

Quando é que compra o seu primeiro carro?
O meu primeiro carro foi emprestado pela gestifute, do Jorge Mendes.

Como é que o Jorge Mendes chega a si?
Não foi o Jorge Mendes que chegou até mim, normalmente nessas idades quem chega são os colaboradores do Jorge Mendes.

Foi abordado pela primeira vez quando?
Aos 17 anos, logo depois de ter assinado contrato com o Sporting.

Mas então o seu primeiro carro foi emprestado pela Gestifute.
Sim, era um Peugeot vermelho, com os estofos em ganga (risos). Era um carro que passava de jogador para jogador no Sporting. Esteve pouco tempo comigo, depois consegui comprar o meu primeiro carro, um VW Golf.

O que fazia ao dinheiro nessa altura, dava aos pais?
Os meus pais nunca foram de pedir dinheiro. Lembro-me que comprei o primeiro carro a crédito e praticamente todo o meu dinheiro ia para o carro.

Carlos Saleiro durante um jogo da equipa principal do Sporting

Carlos Saleiro durante um jogo da equipa principal do Sporting

CARLOS RODRIGUES

Entretanto é emprestado ao Fátima.
Exatamente.

A primeira aventura fora de casa. Como é que foi?
Aí é que começam as novas experiências. De ficar até tarde num jantar, poder sair um bocado sem dar justificação aos meus pais que sempre foram, não digo rígidos, mas... Havia regras, jantar às oito, chegar a casa depois das dez só com justificação.

Foi viver sozinho para um apartamento?
Fui e conheci um dos meus melhores amigos, o Pedro Moreira. Eu era para ir viver para uns quartos que o Fátima tinha feito para essa época, porque era o ano de estreia na II liga. Esse meu amigo ficou num dos quartos ao lado, só que ele tinha direito a casa porque era jogador do União de Leiria, e no contrato dele tinha direito a casa. O Fátima teve de dar-lhe uma casa e, no dia em que ele saiu, convidou-me para ir viver com ele.

A namorada ia lá ter?
Sim, de vez em quando. Era giro porque aquilo era um T1 e vivíamos os dois no mesmo quarto, cada um na sua cama. Quando a minha namorada ia lá ter, ele saía, e ia para o quarto que o Fátima tinha-me dado. Quando vinha a namorada dele e eu para lá (risos).

Saleiro, à esquerda, com Liedson e Matias Fernandez

Saleiro, à esquerda, com Liedson e Matias Fernandez

MIGUEL RIOPA

No ano seguinte é emprestado ao V. Setúbal. Como é que isso acontece?
Tinha assinado 5 anos, em 2003, e a temporada no Fátima corre-me muito bem, o treinador era o Rui Vitória.

Gostou dele?
Gostei muito, uma excelente pessoa, ele e os adjuntos, espetaculares. Faço uma grande época e acabava o contrato nesse ano. O Sporting quer renovar comigo por mais 4 anos, só que começam a surgir várias propostas de fora de Portugal, do Marselha, do Standard de Liège.

Balançou?
Não, porque o meu objetivo sempre foi chegar à equipa principal do Sporting. Esse era o meu sonho, desde que entrei para o Sporting. Se calhar, hoje os miúdos de 10 anos já não pensam assim, o que eu acho errado. Pensam que querem ir para o Real de Madrid ou para o Barcelona. Na minha altura, a maior parte dos miúdos queria ser profissional do Sporting. Um dos meus objetivos era jogar com a camisola número 9 do Sporting. Mas, voltando à questão, a negociação com o Sporting foi mesmo até à última e renovei 4 anos.

Aí já foi a Gestifute que negociou?
Não, já tinha mudado entretanto de empresário, era o António Teixeira, que esteve comigo até 2013.

Mudou de empresário porquê?
Neste meio, entre empresários e jogadores, às vezes é preciso apoio, às vezes é preciso uma palavra de carinho.

Não sentia esse apoio da parte da Gestifute?
Sentia e não sentia. Se calhar precipitei-me nessa altura, se calhar estava mais frágil em termos psicológicos, porque achava que tinha mais qualidade. Terminei com eles no meu segundo ano de Olivais e Moscavide. Mas, se calhar, eles estavam no caminho certo, no plano certo para mim. Eu tinha vindo de uma lesão e precisava de jogar. Só que naquela altura eu pensava mais à frente. Queria mais, queria jogar na I Liga, era ambicioso. Mas ficou sempre uma boa relação.

Saleiro, à direita com o Nº9, foi campeão Europeu de sub-17, em 2003

Saleiro, à direita com o Nº9, foi campeão Europeu de sub-17, em 2003

D.R.

Estava dizer que no final da temporada em Fátima...
Faço o meu contrato a sério com o Sporting. Quando digo a sério é com valores substancialmente melhores. E compro a minha primeira casa, uma moradia em Azeitão.

Porque ia para o V. Setubal?
Não. Porque eu tinha assinado mais 4 anos com o Sporting e de Azeitão a Alcochete era rápido. Foi nessa perspetiva. Ainda tenho essa moradia apesar de não viver lá.

Porquê?
Porque não gosto (risos). Não me adaptei bem. Sempre fui habituado a apartamentos.

Então porque comprou a mordia?
Lá está, porque era um sonho, casa com piscina, casa com isto, com aquilo. Eu gostava e realizei um sonho meu, mas também dos meus pais e irmãos, somos uma família grande. Ao fim de semana claro que gostava, porque estavam lá todos. Durante a semana não, porque estava sozinho. A namorada só estava de vez em quando. Às vezes até tinha de me trancar em casa (risos). No apartamento consegue-se perceber que o barulho vem do vizinho, numa moradia isolada: “quem é que está a fazer barulho?” (risos).

Saleiro, em pé à direita, com a equipa da época 2010-11

Saleiro, em pé à direita, com a equipa da época 2010-11

PHILIPPE HUGUEN

Qual foi o treinador que apanhou no V. Setúbal?
O Daúto Faquirá. Estive só seis meses no V. Setúbal e depois fui mais seis meses para Coimbra.

O que aconteceu?
As coisas no V. Setúbal não me correram bem. Houve um episódio que me marcou. Mas até acho que foi um mal entendido. Eu dei uma entrevista. Aquela vontade de jogar e de ajudar o clube...Na altura, há um jogo em que o treinador me manda aquecer duas, três vezes, e numa das últimas diz que vou entrar, manda-me aquecer rápido, mas quando chego junto dele... entrou outro. Fiquei um bocado chateado nesse dia. No dia a seguir, ligou-me um jornalista, de um desportivo, a perguntar se eu estava a sentir-me bem. E fiz uma afirmação que se calhar não devia ter feito naquela altura, mas foi sem maldade.

O que disse?
Que para estar parado mais valia estar no meu clube de origem, porque eu estava emprestado pelo Sporting. A direção, o treinador e principalmente os adeptos não reagiram bem a essa afirmação. Levei um processo disciplinar.

Quando diz “principalmente os adeptos”, o que quer dizer?
Estive afastado da equipa durante um mês. Treinava mas não era convocado. Depois, quando voltei a ser convocado, cada vez que tocava na bola era assobiado. Não tinha condições para continuar. O que me deixou muito triste porque gosto bastante do clube e da envolvência de Setúbal. O Sporting soube da situação e optou por emprestar-me seis meses à Académica. E aí correu muito bem.

Saleiro, com equipamento escuro, num jogo da seleção de sub-21, com a Holanda

Saleiro, com equipamento escuro, num jogo da seleção de sub-21, com a Holanda

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT

Gostou da vida de Coimbra?
Coimbra é espetacular (risos). É mágica. Aquela envolvência das pessoas, dos estudantes. A época também estava a correr bem ao clube. Nesse ano fizemos a melhor classificação dos últimos 60 anos: 5.º ou 6.º lugar. O treinador era o Domingos Paciência.

Fez alguma amizade especial?
Fiz. Com o Hélder Cabral, o Cris, o Piloto. Era um grupo muito unido. Acabávamos o treino da manhã e 10,12 jogadores íamos almoçar, depois para uma esplanada, e jantávamos juntos. Se fosse preciso chegávamos a casa às duas da manhã, mas no dia a seguir estava tudo novamente no campo, a treinar, a dar o máximo. E chegava ao domingo, aquela união dava frutos. Ao início, quando íamos almoçar, eu pedia a minha coca-cola e de repente chegava uma garrafa de vinho à mesa. Aquilo para mim era tudo novo e eu pensava: “Então, mas aquele gajo bebe vinho?!” O que eu sei é que, semanas mais tarde, eu também bebia esse copo de vinho. Foi um ano a todos os níveis espetaculares.

É na sequência dessa época que é chamado à equipa principal do Sporting, pelo Paulo Bento?
Sim. Anos mais tarde reencontro-me com ele e faço duas épocas no Sporting bastante diferentes. A primeira época muito positiva, a meu ver, inclusivamente fui pré-convocado quase todas as vezes para a seleção, estive muito perto de ir ao Mundial da África do Sul. Depois, naturalizaram o Liedson e foi ele.

Foi por isso que não foi ao Mundial?
Nao.

Então por que não foi?
Nao sei. Mas o Liedson era o goleador máximo do Sporting e se se naturalizou, a meu ver tinha lógica ir.

Quem eram os outros concorrentes?
Hugo Almeida.

Saleiro com o treinador Paulo Bento

Saleiro com o treinador Paulo Bento

D.R.

Só foi pré-convocado, nunca jogou pela seleção. Essa é a sua mágoa maior na carreira?
Claramente. Essa e terminar a minha carreira muito cedo. A partir de 2012-13 já não consegui jogar.

A segunda época no Sporting, 2010-11, apesar de ter feito mais jogos não correu tão bem porquê?
Porque fui o suplente mais utilizado. Enquanto na primeira época joguei bastantes jogos a titular, na segunda fui praticamente só suplente do Liedson e do Hélder Postiga. O treinador já era o Paulo Sérgio. Não me correu tão bem, entrava 5, 10 minutos. Foi uma época difícil mesmo em termos psicológicos. A certa altura começou a ficar muito pesado, porque eu ia aquecer aos 45 minutos e às vezes entrava aos 90’ ou aos 85’. Não é fácil.

Manifestava o seu desagrado?
Não, nunca.

Nunca teve uma troca de palavras mais azeda?
Não. Eu tinha sempre uma postura muito reservada, muito correta. Eu era um dos primeiros a chegar e o último a sair do balneário.

Saleiro em ação, sob o olhar de Simão Sabrosa, nm jogo dos quartos de final da Liga Europa, com o Atlético de Madrid, na época 2010-11

Saleiro em ação, sob o olhar de Simão Sabrosa, nm jogo dos quartos de final da Liga Europa, com o Atlético de Madrid, na época 2010-11

D.R.

Sabendo o que sabe hoje, mudava o seu comportamento?
Não, sinceramente não. Se calhar tinha uma conversa mais direta e mais objetiva com o treinador, mas não mudava quase nada. Até porque durante toda a minha carreira, talvez um ou dois treinadores possam apontar alguma coisa, mas, de resto, 99% vai sempre dizer que fui um grande profissional, sempre correto nas minhas ações. Nunca quis passar aquela linha que muitos que passam, às vezes resulta outras vezes não. Mas sempre tive uma postura correta com praticamente todos os treinadores.

Nunca teve nenhum problema de balneário?
Na Suíça tive.

Como é que se dá a ida para a Suíça?
Ainda tenho mais um ano de contrato com o Sporting. Na altura entra uma nova direção no clube, a do Godinho Lopes, e quiseram mudar 17,18 jogadores, eu incluído. Queriam emprestar-me novamente para outra equipa portuguesa. Mas eu queria sair, queria experimentar pela primeira vez, um clube fora de Portugal. Eu já tinha sido emprestado durante quatro ou cinco temporadas antes, tinha estado duas épocas na equipa principal e achei que tinha chegado o tempo de ir embora. Eu próprio meti o ponto final na ligação com o Sporting, rescindi o ano que tinha para rescindir.

Teve que pagar alguma coisa?
Não. E assinei duas temporadas pelo Servette, da Suíça.

Porquê o Servette?
Porque em fevereiro março de 2009-2010 entra o Costinha para diretor desportivo do Sporting. Ele gostava bastante de mim. Depois, na outra época, ele sai quando entrou o Godinho Lopes e o Costinha assumiu o mesmo cargo no Servette, nessa época 2011-2012. E fez-me o convite para ir para lá. Convenceu-me. Fez-me ver que podia ser uma boa porta de entrada para outros países como França e Alemanha.

Nessa altura tinha propostas de outros países?
De Portugal tinha propostas de praticamente todos os clubes, sem ser os grandes. Tinha da Turquia, com um salário muito alto, Bélgica, Alemanha, II Liga, só que o projeto e a forma como ele me explicou convenceu-me. O Servette é a equipa suíça que tem mais títulos. Era um grande adormecido que tinha passado por dificuldades financeiras e tinha acabo de subir à I Liga novamente.

Saleiro com Carlos Carvalhal

Saleiro com Carlos Carvalhal

D.R.

Foi sozinho?
Não, a minha namorada decidiu sair do emprego que tinha, e que tem agora na mesma, e foi viver comigo. Eu tinha dois anos de contrato, mas as coisas não correram bem no primeiro ano.

Não correu bem a adaptação?
Correu muito mal, mesmo. Quando cheguei, apesar de terem um bom estádio, as condições da academia não eram as mesmas; eu vinha de uma academia como a do Sporting, que é reconhecida, tem uma estrutura enorme, e ali as coisas não eram bem iguais. Por isso, a minha primeira vontade foi voltar para trás. Mas decidi aguentar. Os primeiros tempos até correram bem, só que... Eu cheguei lá já muito tarde, a época já estava a decorrer, eu vinha de um mês e meio de férias e o campeonato suíço já ia na segunda ou terceira jornada. Faço o meu primeiro treino, o treinador vê-me e diz: “Já vi que estás pronto para jogares”. Achei estranho porque eu vinha de um mês e meio de férias e eles já tinham feito pré-época. No treino a seguir tive uma lesão muscular. Eles diserram que era uma contratura, mas não era. Uma semana depois, fiz o primeiro remate e... novamente uma rotura. Vim para Portugal, recupero durante um mês, e regresso. As coisas começam a correr bem nos primeiros tempos, mas depois aconteceram coisas que eu achava estranhas.

O quê?
Eu volto, o treinador chama-me ao balneário dele e pergunta-me porque é que eu não falo, porque é que não me estou a entrosar. E eu disse: "Mister, eu cheguei agora, estou aqui há uma semana, como é que quer que fale francês? Falo um pouco inglês, falo um pouco espanhol com alguns, mas não posso falar francês corrente". E ele responde: "Vê lá isso". As coisas foram andando. E, depois, começaram a surgir várias conversas entre mim e esse treinador. Porque eu cheguei lá e ele pensava que eu era o Messi. Ele perguntou-me se eu batia penaltis, se eu batia livres, se fazia tudo. Ele se calhar pensava que eu ia fintar dois, três jogadores e fazer golo. E começou a ficar um clima um bocado mais pesado.

Quem era o treinador?
Prefiro não mencionar o nome.

Saleiro, ao centro, na equipa do Servette, da Suíça

Saleiro, ao centro, na equipa do Servette, da Suíça

D.R.

O clima ficou mais pesado e...
Eu não estava bem fisicamente, porque não tinha feito pré-época, porque me tinha lesionado logo no início, porque eles já estavam na 3ª jornada. Então, fui jogando aos poucos até que cheguei a uma certa altura que me sentia bem. Só que, quando fui para a Suíça, ia já com a ideia de comprar lá um carro. E há um dia em que o treinador me chama novamente ao balneário e pergunta-me porque é que eu comprei aquele carro. Fiquei de boca aberta. Respondi: "O que tenho aqui é o que teria em Portugal, mister". E ele: "Eh pá está bem, mas não podes aparecer aqui com este carro. Tenta ver isso", etc, etc.

Que carro era?
Um Porsche Panamera. O que é certo é que duas semanas depois ele aparece com um bruto Mercedes, topo de gama. Não percebo a lógica daquela conversa. As coisas foram andando. Depois era porque eu não estava bem fisicamente, etc, etc. E eu a dizer-lhe que precisava de jogos. Houve mais episódios no meio. Até que, em novembro, ele é despedido e houve um choque entre nós. Claramente, eu não jogava, nem ele gostava de mim.

Nunca chegaram a vias de facto?
Não. De maneira nenhuma. Discutimos uma vez, bastante. Precisamente no dia em que ele é despedido.

Ele é despedido na sequência da discussão?
Não. Por causa dos resultados. Depois eu já não me estava a sentir muito bem na Suíça, pedi ao Costinha para sair. Ele disse que não, que a segunda parte da época ia correr-me melhor. O que é certo é que as coisas também não correram melhor. Os adeptos gostavam muito desse treinador e já não era uma situação nova para mim, mas ali com mais ênfase. porque era um clube maior, com mais adeptos. Depois dele ser despedido, associaram a saída dele a mim e ao Costinha, e eu sem perceber muito bem onde é que estava. A partir desse momento, cada vez que tocava na bola tinha 20, 30 mil pessoas a assobiarem-me.

Carlos Saleiro com o equipamento do V. Setúbal

Carlos Saleiro com o equipamento do V. Setúbal

Jamie McDonald

O mau ambiente que vivia com ele vinha a público? Os jornais suíços falavam disso?
Houve situações que vieram a público, mas nunca situações graves que comprometessem a minha imagem.

Qual era a mensagem que os jornais passavam?
Houve uma altura em que percebi que havia uma guerra, entre aspas, entre o Costinha e o treinador, e como foi o Costinha que me foi buscar, eles associavam-me a essa guerra. Nada a ver. Claramente que não. Eu estava ali a querer o melhor para o clube e para mim, eu queria jogar. Com o desenrolar da época voltei a lesionar-me e vim para Portugal. E quando vim para cá, estava uma guerra entre o presidente que estava lá, que foi um presidente que faliu aqui mais tarde o Beira-Mar e já tinha falido um clube na Áustria e estava prestes a falir o Servette. Entretanto, esse iraniano vende o clube a um suíço que assume a presidência. E o Costinha sai. O treinador que estava lá também sai e entra outro. E quando voltou para a Suíça, quem era o "novo" treinador? O mesmo que tinha saído e com quem eu tinha tido problemas (risos). Já cheguei em final de época, não treinei nem nada. Como tinha mais um ano de contrato, tinha que me apresentar na pré-época. Só que apresentar-me era mesmo isso, apresentar-me só. Tinha que ir lá, enquanto não me rescindiam o contrato. Então, andei durante 15 dias a tentar que me rescindissem o contrato, a marcar presença no treino e o treinador a dizer que eu não me treinava, para me ir embora.

E do país, a Suíça, gostou ou não?
Eu sinto-me bem quando as coisas desportivamente correm bem. Mas muitas das vezes fechava-me em casa e nem sequer passeava muito. Conheci vários sítios com a minha mulher, mas tinha de sair de Genebra para a cabeça arejar. Só não gostava era do frio: apanhámos temperaturas de -10, -12, houve treinos que foram cancelados.

E a língua? Saiu de lá a falar francês?
(risos). Perceber, percebia tudo, mas falar... Lá está, por ser um país onde há muitos portugueses, ia um restaurante e havia sempre um português com quem acabava por falar, em português. Era de tal maneira que quando ia almoçar fora, ou mesmo lá no centro de estágio, eu só pedia uma coisa, a única coisa que sabia pedir em francês: arroz com frango e salada. Andei a comer arroz e frango durante muito tempo (risos).

Conseguiu rescindir?
Sim, entretanto o meu empresário chegou à Suiça e conseguiu rescindir. Já tinha uma série de clubes em Portugal para onde podia voltar. Como eu já tinha estado na Académica e era aquele sítio mágico, decidi voltar. A Académica nesse ano também estava na Liga Europa e assim podia relançar novamente a carreira. E ainda tinha colegas do meu ano lá, que podiam ajudar-me. Só que as coisas não correram bem. E, a partir daí, as coisas começam a ir por água abaixo.

Não correu bem porquê?
Única e exclusivamente por causa das lesões. Começou a doer-me o tendão de Aquiles, fui operado no final da época. Fiquei a época toda a tentar recuperar, fiz meia dúzia de jogos, o meu único golo foi ao Benfica.

Carlos Saleiro, esta semana, na agência de jogadores onde trabalha atualmente

Carlos Saleiro, esta semana, na agência de jogadores onde trabalha atualmente

TIAGO MIRANDA

A sua mulher estava viver consigo em Coimbra?
Não. Na Suíça. como eu ia rescindir e queria voltar a Portugal, ela decidiu voltar a trabalhar e teve o privilégio de conseguir regressar à mesma empresa.

Depois daquele ano a viver com ela na Suíça custou-lhe voltar a viver sozinho em Coimbra?
Não. Ela ia ter comigo às sextas e regressava na segunda.

Era homem para fazer a sua própria comida em casa ou nem sequer estrela um ovo?
Eu nessa altura não cozinhava nada, nada, não sabia nada, nem fazer arroz, nem massa, nem um ovo. Almoçava e jantava todos os dias fora. Mas ganhei esse hábito de cozinhar alguma coisa agora neste período em que terminei a minha carreira e estou a viver com ela. Já sei fazer um arroz, sei fazer algumas coisas, principalmente pratos que vão ao forno. Misturo tudo e vai ao forno com queijo por cima (risos). Mas naquela altura não me safava.

Estava a contar que a época na Académica não corre tão bem como esperava.
Não corre. Lesiono-me, estou um ano parado, sou operado no final da época e estou novamente parado um ano.

Carlos Saleiro n Suíça, onde jogou em 2011-12

Carlos Saleiro n Suíça, onde jogou em 2011-12

D.R.

O que fazia nessa altura?
Tinha fisioterapia de manhã e à tarde. E ficava em casa a jogar Playstation. Sabe que a PlayStation é uma das melhores amigas dos jogadores de futebol. Nós temos um grupo enorme, já desde a altura do Sporting, para jogar online.

Quem faz parte desse grupo, dê-nos alguns nomes.
O Miguel Veloso, o Moutinho, o Mauro Bastos, tantos. É uma situação gira, porque depois acabamos por criar ligações com outras pessoas e quando damos por ela, organizamos um jantar, que era o que fazíamos na altura do Sporting principalmente, conhecíamos pessoas de 60 anos que nós pensavamos que eram jovens como nós.

Jogam o quê?
Call of Duty, Fifa, etc. Dá para jogar seis contra seis e comunicamos pelo micro. É muito giro. E foi isso que fiz nessa altura.

Depois recomeçou a treinar no Oriental.
Sim vou para lá para ganhar forma e ritmo, só que entretanto o clube sobe à II Liga e o treinador, João Barbosa, convidou-me para ficar. Naquela altura confesso que sentia que era um passo atrás na minha carreira, porque antes de sair de Portugal já jogado a Liga dos Campeões, no Sporting. Aliás, o meu primeiro jogo oficial pelo Sporting é na Liga dos Campeões, contra a Fiorentina. Mas ele convidou-me e eu pensei: “vou recuperar, faço aqui seis meses a jogar e depois saio para fora novamente”.

No dia em que fez 30 anos Carlos Saleiro esteve com a mãe e o médico responsável pelo seu nascimento, Dr. Pereira Coelho, à esquerda, na Assembleia da República

No dia em que fez 30 anos Carlos Saleiro esteve com a mãe e o médico responsável pelo seu nascimento, Dr. Pereira Coelho, à esquerda, na Assembleia da República

D.R.

Quer sair porque achava que em Portugal já nenhum grande ia olhar para si?
Porque, a certa altura da carreira, ganhamos um valor monetário que nos faz pensar que vamos andar sempre ali. E no Oriental estamos a falar de valores que não são tão baixos como 500 euros, mas andam à volta daquilo. E naturalmente em termos de carreira desportiva, com 27 ou 28 anos que tinha na altura, não era ali que queria terminar, queria dar novamente o salto. Só que as coisas mais uma vez não correram bem em termos de lesões e fui tendo recaídas. No final da época, novamente operado, mas a um joelho, cartilagem e menisco. Voltámos a ficar na II Liga, o treinador contava comigo na II Liga, eu não tinha outras opções e queria tentar devolver a confiança que estavam a dar-me. Só que, mais uma vez, não foi possível porque tive muitas recaídas durante a outra época. Para ter uma ideia, na primeira época de Oriental, faço 21 jogos, na outra faço 15, mas uma época na II Liga tem cerca de 50 jogos. Eu fazia dois jogos seguidos e tinha que estar parado três, quatro semanas. Em termos psicológicos começou a pesar-me muito.

O que é que pesava mais?
Eu sempre fui um bom profissional. Era preciso fazer isto ou aquilo e eu fazia. E eu chegava a casa e fazia gelo em três, quatro partes do corpo. Tomava um Voltaren. Tomava dois Voltaren para jogar e já não rendia aquilo que rendia anteriormente e em termos psicológicos começou a pesar. No final desta época tenho uma oportunidade de ir para Inglaterra, através de um treinador português que tinha jogado comigo no V. Setúbal, o Bruno Ribeiro. Ele leva-me para a League One, para o Port Vale.

Gostou?
Gostei. Sinceramente, um estilo de vida completamente diferente, mesmo os treinos, os ingleses, um bocado mais frios. Aqui entramos no balneário e toda a gente diz bom dia e cumprimenta-se. Em Inglaterra, estávamos lá dois, três portugueses, éramos os primeiros a chegar, estávamos a equipar, mais um francês e um holandês, e começavam a chegar os ingleses e nem uma nem duas diziam. Disseram-me que era normal, mas para mim aquilo não era muito normal. Enquanto na Suíça muitos deles chegavam e davam dois beijinhos, o que também não era muito normal para mim (risos), mas, pronto, cumprimentavam ou diziam "bonjour.

A sua mulher foi consigo?
Não, fui sozinho e numa fase mais complicada por ter saído junto dela e da minha filha que tinha acabado de nascer. Nasceu em Abril de 2016.

Como se chama?
Clara. Foi uma despedida que ainda recordo hoje e de que me arrependo muito sinceramente.

Porquê?
Arrependo-me de ter partido porque não consegui despedir-me da minha filha, que estava a dormir, e vi a minha mulher em lágrimas. Foi muito difícil. Pensei 100 vezes em voltar para trás e não entrar no avião. Mas tinha-me comprometido com o mister Bruno Ribeiro, que me tinha dado a oportunidade de ir para Inglaterra para se calhar voltar a um patamar a que estava habituado antes. Fiz a pré-época, correu tudo bem, sem nenhuma lesão, fiz um jogo oficial, mas depois tive novamente uma recaída num dos tendões de Aquiles. Entretanto, neste período de pré-época, eu estava a fazer tudo para que a minha mulher e filha ficassem a viver comigo em Inglaterra enquanto durasse a licença de maternidade. Só que o clube estava numa indefinição. Éramos 12 estrangeiros num hotel e o presidente era o dono desse hotel. Por isso estava um pouco relaxado, sem fazer muito para arranjar apartamento. Chegou uma altura em que me disseram que podia trazê-las, mas para um quarto de hotel. Mas a minha filha precisava de outros cuidados que não um quarto de hotel, e comecei a fartar-me um pouco por causa disso, comecei a ficar chateado com a situação. Depois do primeiro jogo, comecei a sentir as dores e disse: “Chega, não vale a pena mais". Tenho a minha filha, a minha mulher, pais, irmãos, amigos em Portugal. Chegou a uma certa altura em que já não tinha cabeça para fazer mais gelo. Eu chegava a perder duas a três horas a fazer gelo. Comecei a pensar na minha saúde, já ia com cinco cirurgias. Decidi que vinha para Portugal tentar novamente uma recuperação de forma a poder continuar a jogar, mas desta vez a recuperação não foi total e terminei a minha carreira em agosto do ano passado.

Carlos Saleiro tem 32 anos e é pai de uma menina, quase com dois anos

Carlos Saleiro tem 32 anos e é pai de uma menina, quase com dois anos

TIAGO MIRANDA

Custou pendurar as botas?
Para ser sincero, por tudo aquilo que estava a passar, já não estava a desfrutar. Eu chegava aos treinos uma hora e meia antes e tinha de ir para o departamento médico para me prepararem para treinar. Acabava o treino e tinha de fazer gelo logo lá, depois ia para casa fazer gelo à tarde, à noite. Já não desfrutava do que era o essencial, que era uma hora e meia de treino, mais meia hora de ginásio, libertar um pouco a cabeça para depois focar-me novamente. Estava cansado. O nível em que me encontrava também já não me ajudava a pensar mais à frente.

Como é que foi quando se confronta com o futuro? Já sabia o que ia fazer?
Precisamente por causa disso, porque não tinha o meu futuro definido, não meti um ponto final de um dia para o outro. Fui tentando recuperar e, em agosto de 2017 comecei a ajudar alguns amigos, a tentar colocá-los aqui e ali, através dos meus conhecimentos. Consegui fazer duas transferências. Ganhei algum gosto. Entretanto, fui almoçar com um amigo de longa data, que é um dos sócios da Oxy Sports, o Rui Pedro, que foi meu primeiro diretor desportivo no Olivais e Moscavide. Já não falávamos há algum tempo e expliquei-lhe o que estava fazer. Passada uma semana, 15 dias. recebo um telefonema dele a perguntar se eu estaria interessado em entrar para a empresa. E foi um balão de ar fresco para mim, para aquilo que estava a pensar fazer. Hoje em dia estou aqui na empresa. Entretanto, também nesse verão, tenho um convite do Pedro Silva, um brasileiro que foi meu colega no Sporting, para abrir uma escola Sporting, em Florianópolis, no Brasil. Ajudei no processo todo para abrir a escola e sou um dos sócios da escola. Tenho estes dois projetos.

Nunca lhe passou pela cabeça ser treinador?
Não. Até porque se o jogador tem muita responsabilidade, o treinador então... gerir 25/30 jogadores, não será uma tarefa nada fácil. Mas quem sabe daqui a 5,10 anos. Estou a tirar o curso na mesma, o nível I, mas não é um objetivo que tenha a curto prazo.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Suíça.

Investiu onde?
Em imobiliário. Hoje não me falta nada, mas também já não tenho nada para investir.

Está a pensar ter mais filhos?
Sim. Gostava de ter 3 ou 4 filhos. E a minha esposa também, pelo menos 3. Mas tem que ser com calma e com cabeça.

Ao longo da carreira profissional qual foi o treinador que mais o marcou?
Rui Vitória, Paulo Bento e Carlos Carvalhal. Foram sempre os três muito sinceros comigo, três excelentes pessoas, três excelentes treinadores.

Algum dia alguém do futebol disse-lhe alguma coisa que nunca tenha esquecido?
O Paulo Bento. Era meu treinador na equipa de juniores e disse-me uma coisa que, anos mais tarde, fez todo o sentido e bateu certo. “Olha, quando estiveres lá em cima toda a gente te vai bater à porta, mas quando estiveres lá em baixo ou quando voltares à tua base, aí é que vais perceber quem é que bate à tua porta”. E as coisas fizeram sentido.

Desiludiu-se com muita gente?
(Hesita) Não. Sempre mantive uma boa distância, até por causa dos conselhos dos meus pais. Sempre consegui manter a distância de algumas pessoas. Mas, claro, sendo uma figura pública e sendo um jogador profissional de futebol, a jogar no Sporting, não posso estar a negar uma aproximação das pessoas. Pelo menos ouvir, eu tenho de ouvir. Às vezes temos algumas desilusões com pessoas que se faziam passar por grandes amigos e que depois desaparecem de um momento para o outro. Não tenho muitos amigos no futebol, a palavra amigo é um bocado forte, mas se calhar tenho muitos conhecidos.

Qual é a coisa que mais se arrepende de ter feito ou de não ter feito?
Vendo hoje as coisas como aconteceram, obviamente sair do Sporting passados 17 anos foi uma coisa que me custou imenso. Apesar de a decisão ter sido minha, apesar de ter dito que já chegava. Mas, vendo hoje as coisas, não ter continuado naquela altura ligado ao Sporting foi o meu pior erro. É aquilo que se calhar mais me marcou na carreira. Mas também penso que a direção que entrou naquela altura, se tem feito as coisas de maneira diferente, se calhar eu teria continuado. Depois veio-se a comprovar com vários acontecimentos dessa direção que as coisas não funcionavam muito bem. Tenho a certeza que com a direção atual do Sporting, eu nunca teria saído a custo zero. Certamente ia exigir alguma coisa a outro clube ou mantinha-me lá, mas trabalhando de forma correta e não querendo despachar.

Saleiro, à direita, com Paulinho, roupeiro do Sporting

Saleiro, à direita, com Paulinho, roupeiro do Sporting

D.R.

Gosta da direção de Bruno de Carvalho?
Gosto. Gosto porque muito possivelmente os jogadores sentem-se mais confiantes dentro do campo. Quando se fala em estrutura que funciona bem, vejo, apesar dele dizer o que diz e ter algumas atitudes, mas vejo o Sporting 1000% melhor do que no meu tempo. Claramente muito mais forte, muito mais eficaz no que fazem dentro e fora do campo.

Mas alguma coisa não está a funcionar porque neste momento arrisca nem sequer conseguir um lugar que garanta a Liga dos Campeões.
Eu acredito que consiga. Mas não é por aí. Se formos a ver os últimos anos do Sporting, o clube nunca se aproximou assim tanto da luta pelo título até ao fim. E o Sporting hoje luta por todas as competições. O Sporting está na Taça de Portugal, está na liga Europa [a entrevista foi realizada antes do jogo com o Atético de Madrid, que o Sporting perdeu por 2-0], ganhou a Taça da Liga. Está a seis pontos do Benfica, difícil, mas nunca se sabe.

E o Benfica estar à frente é mérito do treinador?
É mérito de todos. Mas o Sporting tem tido deslizes, o FCP tem tido deslizes e o Benfica está a aproveitar agora esta fase. O Benfica tem uma pessoa que não deixa ir abaixo ninguém. 99,9% do plantel do Benfica certamente anda motivado e isso num grupo é muito importante. E eu sei que o Rui Vitória muito possivelmente faz isso com todos, toda a gente anda motivada. Tem o Jiménez que entra e, ou faz um golo, ou faz uma assistência. Isso quer dizer muito. O Jiménez não é um jogador titular do Benfica, entra, entra muitas vezes, chega a uma altura que o jogador sempre a entrar como suplente, psicologicamente, vai-se muito abaixo. É preciso saber fazer esse trabalho psicológico com o jogador e motivá-lo para aquilo que é a sua tarefa.

Não acha que a equipa leonina está demasiado apoiada no Bas Dost?
Acho. Mas isso também é porque ele faz mais de 40 golos por época, é normal (risos). O Sporting tinha o Doumbia que começou muito bem a época e depois caiu um pouco. Mas claramente estou de acordo, o Sporting depende muito do que é a sua referência ofensiva que é o Bas Dost.

Tem algum hobi alem da Playstation.
Não. Até porque agora não tenho tempo para nada. A minha filha dá cabo de mim (risos). O meu serão era deitado no sofá e agora não consigo fazer nada, nem olhar para o telemóvel. Ela vai fazer dois anos este mês e não pára 5 segundos, sobe sofá, desce sofá, é terrível (risos). Sou eu que vou buscá-la ao colégio. Exercício físico não tenho feito nada e o meu corpo diz que já estou a precisar.

E o Porsche Panamera que comprou na Suíça, ainda o tem?
Não. É uma historia gira.

Conte.
Comprei o carro lá e poupei cerca de 40, 50 mil euros, mas teria de estar dois anos na Suíça para o poder trazer sem pagar o imposto em Portugal. E como não estive lá os dois anos, tive que vender muito mais barato do que comprei. Ou seja, não compensou (risos).

Qual foi a maior extravagância que fez, só porque podia?
Relógios. Comprava muitos relógios. E agora quase não uso porque vejo as horas pelo telemóvel (risos). Tenho para aí uns 40 relógios. No dia-a-dia nem uso, só às vezes.

Teve pessoas a bater-lhe à porta a pedir-lhe dinheiro por ser jogador de futebol?
Desconhecidos, não. Agora amigos sim. Já tive amigos que necessitaram e ajudei, claro. Amigos e família ajudei sempre que pude.

O que faz em concreto na agência de jogadores?
Dentro da empresa a minha situação é mais técnica, mas também participo nas negociações e tento arranjar parceiros, jogadores novos. Tudo aquilo que passei como jogador permite-me agora olhar para um jogador e perceber o que pode estar ali ou não.

Significa que passa os fins de semana a ver jogos?
Sim (risos).

Procura jovens jogadores?
A nossa empresa trabalha com jogadores a partir dos 18, 19 anos.

E se o jogador já tiver empresário, roubam-se uns aos outros?
Não, de maneira nenhuma. É por isso é que entrei para esta empresa, porque conheço os sócios e sei a forma de estar no mercado e na vida. Se o jogador nos interessar e já tiver empresário, o que costumamos fazer é propor uma parceria com esse empresário. Temos vários parceiros em vários pontos do mundo. E estamos no mercado em paz e sem querer problemas.

E histórias? Não tem histórias que possa contar dos seus tempos no Sporting? Sei que jogou nos infantis com Cristiano Ronaldo. Ele já era especial nessa altura?
Eu fui para o Sporting em 1994 e ele chegou em 1997. Surgiu muito acanhado. Tinhamos mais ou menos a mesma idade. Mas via-se que tinha um dom, fazia coisas com a bola que mais nenhum fazia e nos torneios ganhava sempre o título de melhor jogador. Joguei com ele nos infantis e iniciados, mas depois ele começou a subir de escalão muito rápido, começou a jogar com os mais velhos. Histórias... Lembro-me de uma, ou melhor, duas com o Paulinho, o roupeiro do Sporting.

Chute.
O Paulinho tinha uma forma de receber os novos jogadores no plantel sénior, digamos, um pouco agressiva. A certa altura da pré-época, no meu primeiro ano como futebolista profissional do Sporting, em 2009/10, um dia, faço o treino, tomo banho, visto-me, vou para o carro e passados cinco minutos começo a sentir um ardor muito grande na zona das virilhas. Aquilo estava aumentar de tal forma, que tive de voltar para trás. Quando chego ao centro de estágios estava tudo a rir.

O que é que ele fez?
Ele tinha a mania de colocar pomada de aquecimento dos fisioterapeutas nas cuecas dos novatos. Aquilo é uma pomada que os fisiterapeutas só usam um bocadinho nos músculos das pernas. É muito potente. Em contacto com a pele, naquela zona íntima, provoca um ardor horrível (risos). Nem com água sai. Fui tomar banho e foi pior, aquele efeito custa a passar (risos). Mas tive a desforra.

Revele.
A certa altura, durante a época, estava nos balneários e ele tinha a mania de fazer a barba na sauna. Eu estava lá, sabia que ele gostava de apostas e fiz uma aposta. Disse-lhe que ele não era capaz de sair da sauna, mergulhar logo de seguida no jacuzzi do banho gelado, onde a água está a uma temperatura de 3,4 graus, e ficar lá dois minutos com a água até ao pescoço. Se o fizesse eu dava-lhe uma prenda. Ele fez e ficou dois dias sem falar. Apanhou uma gripe tal que ficou rouco. Mas ganhou a prenda. Já não me lembro o que era, devia ser um jantar (risos).