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A casa às costas

Marco Ferreira: “Há uma frase do Eurico que me ficou: ‘És um homenzinho. O futebol dá-te mulheres, mas as mulheres não te dão futebol’’

Aos 40 anos Marco Ferreira está num momento de reflexão sobre o futuro. Ainda não sabe o que vai fazer a seguir mas quer ficar ligado ao futebol. Com fama de bon vivant, reconhece que goza bem a vida mas garante que há muitas mentiras sobre si, que lhe prejudicaram a carreira. Amigo pessoal de Futre, com quem fala quase todos os dias, trouxe duas companheiras da Grécia e diz que gostava de voltar a ser pai

Alexandra Simões de Abreu

Nuno Botelho

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Nasceu no Vimioso, em Trás-os-Montes.
Sim, sou transmontano com orgulho. Sou da aldeia da Parada, da vila de Vimioso e da cidade de Bragança. Isto quer dizer que tenho uma aldeia, uma vila e uma cidade transmontana e com muito orgulho. A aldeia da Parada é a terra do meu pai e Vimioso é da minha mãe, ou parte, que ela até é mais de Vinhais, onde eu nasci e cresci. Bragança é a nossa capital e para onde fui estudar.

Os seus pais que ocupação tinham?
O meu pai era gerente bancário, já está reformado. A minha mãe era a chefe mais antiga do país, da C+S de Vimioso. Esteve lá 42 anos como chefe da secretaria. Os meus pais estavam bem e deram-nos uma boa educação.

São quantos irmãos?
Três. Sou o mais novo. A minha irmã é a mais velha que tem uma diferença de três anos para o meu irmão; dele para mim são dois anos.

Cresceu numa vila pequena.
Sim, no Vimioso, e como qualquer miúdo gostava de jogar à bola e tinha aquele sonho de ser jogador. O único que optou por esta vida fui eu, porque tive uns pais fantásticos. Os meus irmãos são formados. A minha irmã é administradora no Hospital da Amadora e o meu irmão é arquitecto, embora esteja na parte dos seguros, portanto o único filho “bandido”, sou eu (risos).

Marco Ferreira no seu batizado, ao colo dos pais Pedro e Irene Ferreira

Marco Ferreira no seu batizado, ao colo dos pais Pedro e Irene Ferreira

D.R.

Já havia alguém ligado ao futebol na família?
Mesmo sem ter um grande relacionamento com ele, o responsável por eu ser profissional de futebol chama-se Eurico Gomes, o único que foi campeão pelos três grandes clubes portugueses.

Explique lá isso.
A minha mãe foi-se apercebendo que eu não queria nada com a escola. Passava sempre, nunca ficava mal, mas só queria jogar futebol. Andava sempre com uma bola debaixo do braço. O pai do Eurico Gomes era primo carnal do meu avô paterno. Eles são de Santa Marta de Penaguião, aldeia de Lobrigos. Mas o meu avô veio muito cedo mais para norte, para Bragança, Parada. E o pai do Eurico veio também trabalhar com o primo. Só que, antes de nós nascermos, ele foi embora, voltou para a terra. Mais tarde o meu pai diz-me que o Eurico Gomes era meu primo, mas afastado. Entretanto, a minha mãe envia-lhe uma carta a informá-lo que tinha um primo, em Trás-os- Montes, que queria ser profissional de futebol e pergunta-lhe se eu posso ir lá treinar com ele. Ele estava no Tirsense na altura.

Tinha quantos anos nessa altura?
16 anos salvo erro.

Sabia que a sua mãe tinha enviado essa carta?
Sabia. O meu pai tinha estado uma única vez com o Eurico, quando foi ver um jogo do FCP ainda o Eurico jogava lá. Entretanto o Eurico responde, penso que já por via telefónica, e diz aos meus pais para me levarem a Santo Tirso. Disse que o pai dele falava muito da minha avó Maria e do meu avô, que tinha sido sempre tratado como um filho. O meu avô tinha muitas condições. Tinha serralharia, carpintaria, tirava pedra, construía vivendas, estava muito bem. O pai do Eurico trabalhava para ele nas minas a tirar pedra e falava muito dos meus avôs, os primos que o tinham ajudado muito. O Eurico disse então para eu lá ir treinar durante uma semana em Santo Tirso, mas ficou logo claro que se eu não tivesse condições, não ficava.

Como correu?
Fui lá treinar e a verdade é que depois do segundo treino, assinei logo contrato. É assim que nasce. Ele disse-me que eu tinha condições. Lembro-me de chegar a Santo Tirso, muito branquinho com o cabelo cortado “à malga” (risos). Um verdadeiro transmontano.

Marco, à direita, com os irmãos Alexandra e Rui

Marco, à direita, com os irmãos Alexandra e Rui

D.R.

Nunca tinha jogado num clube antes do Tirsense?
Eu comecei no Grupo Desportivo da Parada, que é a terra do meu pai, com 10 anos. Era infantil.

Por sua iniciativa, pediu ao seu pai?
Um tio, irmão do meu pai, montou uma equipa de miúdos lá na aldeia e fui jogar com eles. Um dia vamos jogar contra o Grupo Desportivo de Bragança (GDB), perdemos 9 ou 10-0, mas a mim correu-me bem o jogo. Eles pediram-me para ir jogar para o GDB e acabei por fazer os infantis, iniciados do 1º ano e juvenil no GDB, depois de passar por Parada. Quando cheguei a juvenil, optei por ir para o Vimioso. O Vimioso tinha uma equipa de futebol de 11. Fiz dois anos de sénior, já no futebol de 11, a jogar com os mais velhos. Eu, pequenino, muito branquinho, mas a verdade é que jogava sempre e a ponta de lança.

Ainda estava na escola?
SIm, sim. Estava em Bragança a estudar. Jogava ao sábado nos Pioneiros de Bragança que era uma equipa de futsal da 1ª divisão, e aos domingos jogava futebol de 11, pelo Vimioso.

Sempre quis ser jogador de futebol, nunca lhe passou outra coisa pela cabeça?
Não, dizia sempre que queria ser jogador de futebol e brincava muito com os meus irmãos, dizia-lhes que um dia ia passar à porta, de Porsche a dizer-lhes adeus (risos).

Quando assina pelo Tirsense fica a viver em Santo Tirso?
Fico. É uma experiência fantástica. Vou viver para um apartamento com o Cabral e o Pintinho. Tinha 17 anos. Foi o Eurico que quis que eu ficasse ao pé deles porque eram muito certinhos e alinhados. O Cabral é aquele jogador que foi para o Benfica e que jogou no Belenenses, a lateral esquerdo.

Lembra-se qual foi o valor desse primeiro contrato?
Ganhava 200 contos (1000 euros) por mês. Antigamente pagava-se mais dinheiro do que hoje.

O que é que fazia com esse dinheiro?
O meu dinheiro sempre teve um gerente, o meu pai. Ele é que era o gerente bancário, eu nunca liguei muito.

Não houve nada que fizesse questão de comprar?
Só queria jogar. Mais tarde, sim, tinha a paixão dos carros, sempre tive, mas naquela altura só queria jogar. O dinheiro ia para o banco; desde miúdo que tinha cartão porque o meu pai sempre me deu, estava habituado a gastar o dinheiro que precisava. Fazia a minha vida, nunca tive problemas.

É nessa altura que larga a escola?
Quando cheguei a Santo Tirso ainda me inscrevi na escola mas acabei por não ir. Fiquei no 11º ano. Acabei agora, há um ano, porque achei por bem terminar o 12º ano. Aproveitei este tempo em que estive em Bragança.

Marco Ferreira

Marco Ferreira

D.R.

Esteve essa época toda em Santo Tirso, na II Liga, e depois vai para o Atlético de Madrid. É um salto grande. Como é que isso acontece?
Entretanto, apareceu o Bartolomeu Dias, o presidente do U. Leiria, e tirou-nos o Eurico Gomes. Aí há um descalabro porque o Eurico era o nosso pai. Chega o mister Manuel Fernandes. As coisas acabaram por não correr tão bem, o Manuel Fernandes acaba por ir embora e vem o Garrido, que está agora na China se não me engano. No fim da época, o Eurico Gomes disse-me que eu devia ir ao Atlético de Madrid fazer os treinos. O Eurico Gomes foi comigo de carro. Saí do Porto, apanhou-me no Vimioso e fomos diretos a Madrid, onde ele tinha muitos conhecimentos.

Já lá estava o Futre.
Já, essa também é uma história gira. Já lá vou. O Eurico pede para me deixarem treinar, treinei com a equipa B e a verdade é que acabei por ficar em Los Angeles de San Rafael, onde estavam a fazer a pré-época. Acabei por assinar contrato. Treinava a maior parte das vezes com a equipa A e jogava com a equipa B, que estava na II Liga. Quando estava nesse primeiro treino o Futre manda-me chamar. “Quem é o português que está aqui?”. Ele era um ídolo para mim e eu ainda um miúdo, fiquei espantado. A verdade é que ele agarrou-me e nunca mais me largou. Temos uma amizade muito longa, uma amizade se quisermos de irmãos, uma amizade bonita. Falamos todos os dias, jantamos muitas vezes.

Fica quanto tempo no Atlético Madrid?
Uma época. Faço a estreia num jogo da 1ª equipa para a Taça, com o Majadahonda. O treinador Radomir Antic convocou-me. No aquecimento, o José Mari tem uma micro ruptura e ele vira-se para mim e diz: “És tu que vais jogar”. Quem jogou na frente fui eu, na direita, o Futre, na esquerda e o Vieiri a ponta de lança. Foi uma experiência única para mim, o jogo até não estava a correr bem para o Atlético, mas para mim estava. Acabamos por ganhar 4-3 e faço eu o último golo. É a partir daí que tenho noção do que era o futebol. Foi uma loucura. Só que nesse mesmo dia, os japoneses tinham ido ver o Paulo Futre e eu acabo também por ir para o Japão.

Antes de irmos ao Japão, quando chega a Madrid vai viver para onde e com quem?
Quando chego a Madrid põem-me num centro para miúdos, em Alcorcón. Estavam lá todos os miúdos do Atlético. Íamos para os treinos de metro ou comboio, conforme o sítio do treino.

Era o único português no centro?
Sim.

Adaptou-se logo?
Adaptei-me, nunca tive problemas de adaptação. Já falava espanhol, porque ali na minha zona a maior parte do tempo estamos em Espanha. Temos muitos amigos espanhóis com quem convivemos muito. Vamos lá aos pinches e eles vêm para cá comer os butelos. Não houve problema algum.

Marco Ferreira, o primeiro à direita em baixo, com a equipa do Tirsense

Marco Ferreira, o primeiro à direita em baixo, com a equipa do Tirsense

D.R.

Quando chegou ao Japão qual foi o impacto?
No Japão entrei numa realidade completamente diferente. Lembro-me de, no avião, o Futre dizer: “Marquinho já não tenho isto não sei há quantos anos, vou estar no paraíso. Não há pressão, não tenho ninguém atrás de mim. Isto para mim é o melhor que podia acontecer”. Sei do que estava a falar porque saía muitas vezes com ele. Ele perfilhou-me praticamente, ia-me buscar muitas vezes a Alcorcón para ir com ele.

Foi ele que o iniciou na “má-vida”?
(Risos). Eu via a pressão que ele tinha em Madrid. Era uma coisa inexplicável. Só se poderá comparar com o Cristiano e o Figo, com a pressão que eles sentiam. Ele não podia ir a lado algum. Era uma coisa impressionante. Bem, mas quando estamos a aterrar em Tóquio, saímos com as malas e diz ele: “Que maravilha, ninguém. Entrei no paraíso”. Fomos para o hotel. Ao chegar ao hotel, havia um mundo de gente à espera dele. Uma loucura e ele: “Não pode ser, não pode ser. Vou levar com pressão outra vez”. Com o passar do tempo acabou por não ser assim tanta pressão, embora tivesse sempre japoneses atrás dele. Mesmo lá, num país como o Japão, ele tinha um nome muito forte.

Ficou a viver com ele nessa altura?
Sim, ficámos sempre juntos. Estivemos num hotel primeiro. Há uma história gira em que nós estamos no hotel e um dia ele diz-me: “Marquinho estamos fechados neste hotel há tanto tempo, depois de comer vamos dar uma voltinha aqui à volta”. Passávamos a maior parte do tempo no hotel porque tínhamos lá tudo. O tradutor vinha buscar-nos para o treino e depois regressávamos logo ao hotel. Naquele dia ele quis sair um bocadinho. Saímos, começamos a andar, andar e chega uma altura em que ele diz: “Marquinho vamos embora, isto é gente a mais, ainda nos perdemos aqui e ninguém nos encontra” (risos). Só mais tarde é que acabamos por ter uma tradutora privada, que ele contratou. Aí já tínhamos carro e já íamos com ela para todo lado. A primeira coisa que ele quis fazer quando tivemos carro foi ir ao Hard Rock Café de Tóquio, comer um bife (risos).

Quanto tempo é que lá esteve?
Dois a três meses.

Marco com o equipamento do Tirsense

Marco com o equipamento do Tirsense

D.R.

Veio embora porquê?
Porque achei que com a minha idade, 18 para 19 anos, era muito cedo para estar ali. Hoje sei que foi o melhor que fiz mas na altura arrependi-me, não sei porquê. E fui para o Paços de Ferreira.

Como é que surge o Paços de Ferreira?
O Paços de Ferreira acontece porque há uma grande “guerra” entre mim e o Eurico Gomes. Gosto sempre de sublinhar que fui profissional de futebol porque ele me ajudou. É verdade que tudo o que conquistei mais tarde, Liga dos Campeões, Taça UEFA, jogar nos grandes clubes isso foi do meu trabalho, mas o grande responsável por eu ser jogador de futebol foi ele. E ele estava chateado comigo porque me tinha levado para o Atlético Madrid. O Eurico Gomes ficou muito magoado por eu ter rescindido sem lhe dizer nada. Quando lhe telefonei a dizer que queria vir embora do Japão, deu-me uma grande “dura”. Disse que eu nunca devia ter saído do Atlético de Madrid porque era muito novo, ainda não tinha idade para andar em países estrangeiros, principalmente onde não ia aprender nada. Podia aprender outras culturas é verdade, todas elas foram experiências fantásticas, mas em termos de futebol, que era o essencial na minha idade, não ia ter nada de novo, pelo contrário.

Teve essa percepção, de que ele tinha razão?
Tive, mas mais tarde. No momento nem nos apercebemos de certas coisas. Costumo dizer que muitas vezes só nos apercebemos quem somos ou quem fomos, depois de deixar jogar futebol, porque os holofotes desligam-se. Sentimos as dificuldades que as pessoas normais têm no dia a dia. Parece que vivemos noutro mundo, que não estamos cá. Dizemos que não nos devemos arrepender de nada, mas a verdade é que se a vida pudesse ser vivida ao contrário, se calhar muitas das coisas não as fazíamos. Porque somos todos iguais com profissões diferentes e só nos apercebemos disso quando deixamos de jogar, até lá vivemos numa bolha fechada, num mundo completamente diferente, onde tudo nos é dado, proporcionam-nos de tudo, e só mais tarde é que percebemos isso.

Então o Eurico Gomes deu-lhe uma dura.
Deu-me uma das grandes, e no coração, essas são as que doem mais. E disse: “Vens para o Paços de Ferreira”. E eu fui. Ele está lá pouco tempo, foi-se embora e eu tive que me agarrar. Estive lá um ano. Paços de Ferreira tem uma gente fantástica, com uma cultura diferente. É uma terra diferente das outras. Ali dizem-nos: “Quanto é que queres ganhar?” E uma pessoa começa a dizer um valor e eles: “Não. Quanto é que queres receber? É que o Paços de Ferreira não deve nada a ninguém”. E é verdade, o Paços era o único clube que na altura não devia nem ao Estado, nem à Segurança Social, a ninguém. Pagava pouco, mas pagava sempre certinho. E depois apareciam aqueles homens dos móveis que diziam que quem fizesse o primeiro golo tinha direito a não sei o quê (risos).

Em cima, Marco, à esquerda com Eurico Gomes, À direita, quanod chega ao Atlético de Madrid. Em baixo, Marco já com o equipamento do Atlético e, ao lado, agarrado a Futre depois de marcar um golo pela equipa principal

Em cima, Marco, à esquerda com Eurico Gomes, À direita, quanod chega ao Atlético de Madrid. Em baixo, Marco já com o equipamento do Atlético e, ao lado, agarrado a Futre depois de marcar um golo pela equipa principal

D.R.

É com 20 anos que chega ao Paços de Ferreira. É nessa altura que tira a carta e compra o seu primeiro carro?
A carta já tinha tirado quando estava no Tirsense. Tirei-a em dois dias.

Em dois dias?!
Sim, essa é gira mas não sei se posso dizer... Acho que estava no Atlético e vim para cá. Faço o código na terça-feira e a condução na quarta (risos). Comprei carro logo no Atlético de Madrid. Um Opel Tigra verde.

Verde? Já são influências do Futre?
(Risos). Não, foi a minha mãe. Um dia os meus pais foram visitar-me a Madrid, eu disse-lhes que tinha de comprar um carro. E fomos. Pedi ajuda ao Atlético que tem gente nas áreas todas e mandam-me ir a um stand da Opel. Ia com ideia de comprar um Opel Corsa, a diesel, era um carro bom para me transportar para o treino e não ter de andar de metro. Mas comecei a olhar, e a minha mãe também, para um carro verde mais desportivo, o Tigra. E foi ela que acabou por escolher o carro.

Como é que surge o Vitória de Setúbal?
Fui lá treinar também. Estava em Paços, pedi ao Eurico, pedia sempre ao Eurico para fazer um telefonema, para ver se conhecia lá alguém.

Porquê o Vitória?
Porque era um clube grande e eu queria ir para um clube grande onde pudesse ter uma boa montra. Tínhamos ido lá jogar para a Taça e eu tinha gostado muito de Setúbal. Era um ambiente como já tinha conhecido no Atlético de Madrid. Vivia-se um ambiente diferente, via-se muita gente. Era o Vitória do Chiquinho Conde, do Hélio, e por isso pedi. Mas acho que já estava tudo feito para eu ficar lá. Porque quando fui para treinar, praticamente não treinei e assinei logo contrato, por duas épocas.

É a sua estreia na I Liga.
É.

Notou muita diferença da II para a I Liga?
Se calhar não notei muito por causa das vivências das pessoas que conheci antes. Porque tive a sorte de no Atlético de Madrid ter alguns dos melhores jogadores do mundo.

Marco, à esquerda, com o amigo Futre

Marco, à esquerda, com o amigo Futre

D.R.

Ficou a viver sozinho em Setúbal?
Sim, estava mais do que habituado, já nem gostava de viver com alguém. E é aí que começa verdadeiramente a minha carreira. É aí que me sinto à vontade, que começo a ter mais confiança.

Quem era o treinador?
Carlos Cardoso. É ele que dá o aval para eu ficar. Tive também o Rui Águas e o Luís Campos.

Não apanhou o Jorge Jesus?
Sim, sim. Foi o que tive mais tempo. Fantástico. Um treinador que põe à vontade, com quem toda a gente fala, um treinador fantástico. É um homem que só vê futebol. Estive com ele dois anos e apanhei-o mais tarde no Belenenses.

Como foi o primeiro impacto com ele?
Não foi fácil. O primeiro treino que ele faz é completamente diferente, deu-nos cabo da cabeça a todos. Ele entra e começa logo a mandar vir com todos: “Isto não pode ser assim, isto é para trabalhar a sério, isto tem que ser como eu quero”. Abre ali uma nova era de trabalho. Até hoje foi dos treinadores mais impressionantes que conheci a trabalhar no campo.

Explique melhor.
O treino em si, a preparação do jogo, a parte tática é uma coisa do outro mundo. Um metro em campo é um metro, faz-lhe uma confusão terrível se o jogador não cumpre. As pessoas nem se apercebem, mas a maior parte das vezes, num jogo, ele não está a olhar para a bola. Está a olhar para o posicionamento de cada jogador em relação à bola, ele mal vê a bola. Ele só quer saber onde é que mais ou menos está a bola e situa todos os jogadores que estão no campo, que é uma coisa impressionante. Por exemplo a bola está no lateral da outra equipa e se o nosso lateral direito está um metro mais dentro ou mais fora, faz-lhe uma confusão terrível. Os treinos que ele faz com bola parada, com o posicionamento de bola, são fantásticos. Ele põe as bolas em vários sítios do campo e manda-nos posicionar em relação a uma bola, sem estar a haver jogo. Por exemplo há uma bola ao pé do banco da equipa adversária e temos que nos posicionar todos em relação à bola porque ele faz duas linhas defensivas. Faz uma de pressão na bola e depois faz uma defensiva a seguir. E hoje já deve ter evoluído mais, logicamente.

E no trato com os jogadores?
A imagem que passa dele não é verdadeira. Como é que posso dizer isto? Eu também sou suspeito porque gosto dele, mas...Ele perde a noção completamente quando está a treinar ou quando está a falar, ele tem ali qualquer coisa em que, na altura, perde completamente a noção. Ele é capaz de nos tratar mal, é capaz de dizer coisas do arco da velha, mas depois acaba o treino e está tudo bem. A seguir volta aos treinos, à tarde e já está tudo bem. Ele vive aquilo intensamente. Trata-nos mal mas sem querer ofender. Ou seja, as palavras que ele possa dizer não são sentidas, não é ofensa, é a maneira de ele ser. Nunca o vi tratar mal ninguém, vi-o tratar mal em termos de palavras, mas com sentimento não. É esta parte que é gira, passado um tempo vamo-nos apercebendo disto.

Mas é homem para falar com os jogadores individualmente?
É. E à frente do grupo também. É homem para dar uma “dura”, mas aí já não é com aquele calor como quando está a dar o treino. Aí já é diferente, já não está naquele calor das coisas e se houver alguém a prejudicar o grupo, não tem hipótese. Ele não perdoa, porque ele é 24 horas futebol, só futebol, só futebol.

Marco com Eurico Gomes, o responsavel pelo seu lançamento no futebol e ainda seu primo afastado

Marco com Eurico Gomes, o responsavel pelo seu lançamento no futebol e ainda seu primo afastado

D.R.

E o Rui Águas?
Uma jóia de pessoa. Foi uma boa surpresa. Foi talvez das pessoas melhores que conheci no futebol, no tratamento com os jogadores. O melhor relacionamento com as pessoas, muito atencioso, muito carinhoso se quisermos. Depois apanhei o Luís Campos, um homem fantástico também, que preparava as equipas à inglesa.

Como assim?
Equipas de ataque. Nem que por momentos perdêssemos muitas qualidades defensivas, ele era um treinador que queria golos. Preparava a equipa para golos, tanto que se vê pelos resultados e ele acabou por ser prejudicado por causa disso mesmo, porque sofriamos muitos golos e se não conseguiamos marcar era complicado. Mas também uma pessoa fantástica.

É em Setúbal que conhece a sua primeira mulher, Helena Coelho.
É.

Como é que a conhece?
Na altura eu já morava em Setúbal, já tinha nome, já era o Marco Ferreira, era se calhar o jogador que estava com mais moral em Setúbal logo ao fim do primeiro ano e há uma passagem de modelos nas escolas locais e os miúdos chamam sempre alguém para fazer de júri. Chamaram-me, fui fazer de júri. Ela também estava a começar como modelo e é aí que a conheço. Acabámos por trocar telefones e por ter um relacionamento, de quem tenho uma filha, a Mariana que já vai fazer 17 anos.

Chegaram a casar?
Sim, pelo civil.

Quando a vossa filha nasce ainda estava em Setúbal?
Sim, nasce em 2001.

Nunca sentiu ciúmes pelo facto de ela ser modelo e ser cobiçada por outros homens?
Não porque na altura ainda não era uma modelo muito conhecida. E eu estava muito concentrado no futebol, acho que é a parte da vida em que estava mais concentrado, porque queria mesmo ser jogador de futebol. E também nunca foi um relacionamento fácil. Passados poucos meses da minha filha nascer, saí de casa, o relacionamento deixou de existir. Estava preocupado só com a minha filha e mais nada. Não quero falar mais disso.

A Mariana ficou com a mãe?
Ficou com a mãe e eu depois acabei por ir para o Porto.

Marco com a filha Mariana

Marco com a filha Mariana

D.R.

Como é que surge o FCP?
Através do Pinto da Costa. O primeiro contacto que temos é do Pinto da Costa.

Quando diz “temos”, tinha empresário?
Não. Estávamos num estágio do Vitória, já não sei precisar com quem, e o Luís Campos chamou-me a uma sala, estava lá o Pinto da Costa. Só me perguntou se eu queria ser jogador do FCP.

Aceitou logo?
Disse que sim, que queria. Não falámos mais nada, ele foi ver o jogo, que já não sei se foi contra o FCP, acho que não. A partir dali não houve mais contacto. Passada uma semana ou duas, veio o Jorge Baidek tentar negociar o contrato, a mando do Pinto da Costa. Chegámos a valores, sem assinarmos, e passado cerca de um mês, sai na primeira página do jornal “A Bola” qualquer coisa com Luz e Marco Ferreira, do género: “Há Luz no caminho do Marco Ferreira”. Eles fazem uma montagem em que apareço com a camisola do Benfica. Nesse dia de manhã eu saí de casa, fui em direção ao treino e sou “raptado”, levam-me para o Porto. Nesse dia já não treinei.

Mas apanham-no onde?
Apanham-me no estádio para ir para cima.

Quem é que o apanha?
Gente do FCP e do V. Setúbal.

Na altura tinha efetivamente alguma coisa com o Benfica?
Na altura falava-se no Benfica, no FCP e no Sporting.

Já tinha sido contactado por todos?
Já.

Estava a negociar ir para a Luz?
Houve essa possibilidade. Eu não me tinha apercebido que aquilo tinha saído no jornal. Na viagem, recebi mensagens de pessoas do Benfica, não interessa quem, que me diziam para não ir. Numa estação de serviço peço para ir à casa de banho e ligo ao meu pai. Ao falar com o meu pai, que também tinha estado a falar com as outras pessoas, há uma altura em que ele me diz: “Marco tu não deste a palavra ao presidente?”. “Dei”. “Marco tu és transmontano, tu é que sabes, mas és transmontano” Foi aí que resolvi continuar a caminho do Porto e assino o contrato. É nesse dia, depois de assinar o contrato, que quando saímos do carro o Pinto da Costa sai com o jornal “A Bola” na mão. Estavam lá as televisões, estávamos em direto (risos).

Estava a ser disputado pelo Benfica e pelo FCP.
Estava. Eu vacilei porque desde a altura em que disse que sim, que queria jogar no FCP, eles demoraram muito a aparecer. Depois aquilo mexe connosco, ainda somos miúdos, queremos jogar num grande clube e o tempo que demorou desde que eu disse “sim” ao FCP até poder fazer a tal transferência, para quem está à espera, parece muito tempo. É aí que vacilamos. Mas pronto, acabei por assinar pelo FCP.

Marco Ferreira, à direita, como jogador do Vitória de Setúbal, clube onde esteve de 1999 a 2002

Marco Ferreira, à direita, como jogador do Vitória de Setúbal, clube onde esteve de 1999 a 2002

E está lá o José Mourinho, que já conhecia de Setúbal. Como é que o conheceu?
Conheci-o no Estádio do Bonfim porque ele ia ver os jogos. É na altura em que ele sai do Barcelona e andava muito por Setúbal, antes de ter ido para o Benfica. Numa altura de subida de divisão, encontro-me com ele antes do último jogo e ele diz-me: “Marco, ainda dá, vamos lá que ainda dá para subirmos”. Eu dava-me muito com o pai dele, o Félix Mourinho, a quem agradeço muito a ajuda. Foi um dos meus pilares no Setúbal, conseguia manter-me na linha. Dizia-me: “Marco, há coisas que não se devem fazer, tens que ir por aqui ou por ali”. O Félix Mourinho foi muito importante para mim nessa altura. Como o José Mourinho ia ver os jogos, se calhar foi por isso que quis que eu fosse para o FCP. Tanto que ele está no FCP e há uma conferência de imprensa em que diz: “Ou entra um ou não entra nenhum”. Eu entrei em dezembro, é nessa altura. Fiquei no Porto a partir de janeiro.

Como é que era o Mourinho treinador?
Depois de falarmos do Jesus, depois de falarmos deles todos, o Mourinho tem tudo, é a tal diferença. Quando dizemos que temos bons treinadores, pode ser numa área específica. Ou no campo, ou no tratamento, na relação humana. Eu acho que o Mourinho tem tudo. Ele consegue conciliar o treino com a imprensa, com a parte tática, tem o conjunto todo. E tem uma bolha em que tudo aquilo que ele é, deixa dentro do campo; quando vai para a imprensa, ou cá fora, dá uma imagem completamente diferente do que ele é. Mas acho que se não fosse assim, já o tinham “comido”.

Era exigente no treino?
No treino não se podia facilitar, era tudo ao milímetro, mesmo o tempo para beber água. Mas depois tinha aquelas brincadeiras também. Brincava connosco, metia-se connosco até nos estágios, nos jogos, mas quando passava cá para fora, tinha ali uma barreira. Ele cá fora parecia muito mais arrogante, muito mais “só ele”, foi essa imagem que ele quis sempre passar para nunca beliscarem o balneário dele.

Criou uma personagem?
Ele criou uma personagem diferente e acabou por tirar vantagens. Conseguiu “jogar” com a imprensa, conseguiu jogar connosco, com o público, conseguiu jogar com toda a gente.

As coisas no FCP não lhe podiam ter corrido melhor.
Ganhámos dois campeonatos, a Taça UEFA, a Liga dos Campeões, a Supertaça, ganhámos tudo. Cheguei a um FCP muito forte, com o melhor capitão que conheci em toda a minha vida. Quando cheguei ao FCP, alugei um apartamento, mas para estar mais perto da equipa acabo por ir viver para perto do Jorge Costa, para uma vivenda do Sérgio Conceição. Foi o Jorge Costa que falou com ele. Durante cerca de um ano eu e o Jorge Costa íamos todos os dias juntos para o treino.

Marco com Pinto da Costa, quando assina peloFCP

Marco com Pinto da Costa, quando assina peloFCP

D.R.

O que é que o Jorge Costa tem de tão especial?
Tem tudo. É um colega extraordinário, não pensa só nele, pensa sempre no grupo. É capaz de confrontar treinadores e presidentes para tomar conta do grupo, mas depois nós temos que dar tudo por ele. Ele conseguia fazer o equilíbrio com profissionalismo. O Jorge Costa é único mesmo. Com tanto sucesso, com tanta coisa, nós podíamos sair fora do caminho, mas ele foi o grande equilíbrio. Temos várias histórias em que ele confrontou mesmo o Mourinho e a direção para defender o grupo. Mas depois o grupo tinha que dar respostas positivas em relação a ele.

Já vários jogadores afirmaram que o espírito do FCP é único. Iam almoçar e jantar juntos.
Quem não fosse almoçar connosco não fazia parte do grupo. Éramos capazes de estar no restaurante do meio dia até às dez, onze da noite. Era impressionante, fazíamos tudo juntos. Aquele grupo era uma coisa fantástica e depois jogava um, jogava outro e não se notava. Tinha uma grande estrutura atrás. Com uma direção fantástica. E com figuras que ainda hoje têm peso. Estávamos a falar do Jorge Costa, podemos falar do Pinto da Costa. O melhor presidente de sempre do mundo. O mais titulado, um homem que estava avançado e depois quando fui para a Luz encontrei com uma realidade completamente diferente.

Em que aspecto?
É uma realidade diferente e onde aparece o Luís Filipe Vieira e o Veiga que fizeram um trabalho fantástico. O Luís Filipe Vieira hoje, pode dizer-se que recuperou o clube totalmente.

Marco Ferreira, à direita, olha para Deco, que beija a Taça UEFA acabada de conquistar pelo FCP, em Sevilha (2003)

Marco Ferreira, à direita, olha para Deco, que beija a Taça UEFA acabada de conquistar pelo FCP, em Sevilha (2003)

D.R.

Mas qual é a diferença entre o Benfica e o FCP?
O Benfica é uma marca muito forte e o FCP é o Pinto da Costa. São estilos completamente diferentes, mas com o mesmo sucesso. O Luís Filipe Vieira consegue recuperar um clube que estava completamente falido e sem crédito, tinha uma marca muito grande na sua mão, mas estava sem crédito e sem protagonismo. Ele conseguiu recuperar isso tudo, ele conseguiu recuperar o clube.

O que é que mais os separa e mais os une?
Unir não os une nada. Unir só na parte de querer vencer, mas a maneira de chegar lá são completamente diferentes. O FCP é um clube, a tal mística de que se fala, é o FCP, o verdadeiro Porto, morre-se pelo FCP. E o Benfica é uma marca feita. Ou seja, o Luís Filipe Vieira teve que voltar a dar vida à marca Benfica para poder trazer esta gente toda de volta outra vez, mas para isso tinha que dar condições estáveis ao clube. O Pinto da Costa não. O Pinto da Costa foi ele que criou uma marca e a marca dele é a organização. É o FCP organizado, estrutura.

Pode-se dizer que a marca FCP se confunde com Pinto da Costa?
Completamente.

Marco Ferreira com as cores do FCP e a filha ao colo

Marco Ferreira com as cores do FCP e a filha ao colo

D.R.

Para além do Mourinho apanhou mais quem como treinador no FCP?
Apanhei o Fernandez mas isso já foi no fim, no princípio dele, porque eu depois fui embora.

Porquê?
Fui embora para o V. Guimarães, porque chegou o Fernandez, que queria dispensar meia equipa, e eu fui um dos que acabei por ir. O Fernandez vem depois da pré-época que foi feita com o Delneri. O Delneri não fez um jogo oficial.

Porque é que ele foi despedido?
Essa história... despediu-se o homem sem culpa nenhuma. Tudo aquilo que se disse do Delneri não é verdade. Tudo o que saiu na imprensa é completa mentira. Delneri é uma pessoa séria, trabalhadora que estava a aplicar um estilo diferente à equipa, era um estilo mais italiano. Mais organização defensiva. Quem despede o treinador é a direção mesmo. Não houve nenhum jogador que estivesse contra ele.

Não?
Não, fiz a pré-época toda com eles e não notei que os jogadores estivessem contra ele. Aí há que defender o Jorge Costa, porque na altura falou-se que o Jorge Costa tinha culpa e isso é uma completa mentira. Mas não vamos falar dessas coisas. Vou para o V. Guimarães no último dia de mercado. Sou emprestado e acabo por fazer uma das melhores épocas da minha carreira.

Fica a viver no Porto ou vai viver para Guimarães?
No Porto.

Continuava sozinho?
Tinha um relacionamento, tive sempre relacionamentos, tive sempre namoradas. Chegava a um sítio e tinha que ter namoradas para estar bem (risos).

Não voltou a casar?
Não.

MarcoFerreira abraçado por José Mourinho e com Reinaldo Teles ao lado

MarcoFerreira abraçado por José Mourinho e com Reinaldo Teles ao lado

D.R.

Vai para o V. Guimarães e tem como treinador o Manuel Machado. Que tal?
Uma paz de alma, muita pressão dos sócios, mas nenhuma dele. Só que chego lá... Uma equipa só com feras. Nuno Assis, Romeu, Cléber, Paulo Turra, Silva, ele fez uma equipa em que foi buscar jogadores de Guimarães bons, foi ao Boavista buscar o Silva e o Turra, foi ao Porto buscar-me a mim e ao César Peixoto. Tínhamos ali um grupo que era fantástico. O Alex, que veio do Benfica. Tínhamos um grupo de jogadores experientes. É uma das minhas melhores épocas de sempre também. O Manuel Machado dava-nos liberdade com responsabilidade. Até na marcação dos treinos tínhamos liberdade. “O que é que achais? Como é que vós sentis?”. Na programação dos treinos também: “Havemos de treinar mais às 4 ou às 5 horas?”. Ele via que tínhamos experiência. Tanto que o Benfica é campeão mas na 2ª volta fazemos mais pontos que o Benfica e vamos à UEFA, passados 11 anos. Tinhamos um relacionamento fantástico. Perguntava se precisávamos de alguma coisa. No autocarro, ia connosco, jogava às cartas, um tipo bem disposto. Conseguiu ganhar os jogadores com experiência e com algum nome, e a maneira de ganhar o respeito destes jogadores, foi assim. Foi ser um como nós. Ele parecia mais um colega, do que um treinador e conseguiu os objetivos dele à conta disso. O presidente não estava muito contente, não gostava muito deste relacionamento. Só que nós mantivemos este relacionamento até ao fim. Há uma altura em que ele e o presidente estão menos bem, e agarrámo-nos ao treinador.

Faz uma boa época em Guimarães e regressa ao Porto.
Regresso ao Porto para a pré época com o Co Adriense, mas entretanto vou para o Penafiel.

Porquê?
Porque não era para ficar no Porto já. Eu queria sair e chegar a acordo com o FCP. Eles não quiseram. Já havia a possibilidade de eu ir para o Benfica, mesmo quando vou para o Penafiel já é com a possibilidade de ir para o Benfica. Tanto que no acordo que faço com o Penafiel, eu podia sair quando quisesse. Fui para Penafiel com esse intuito: de ir para o Benfica.

Marco Ferreira com a Taça da Liga dos Campeões, conquistada pelo FCP em 2004

Marco Ferreira com a Taça da Liga dos Campeões, conquistada pelo FCP em 2004

D.R.

Quem é que apanha no Penafiel?
O Luís Castro que também estava a começar no Penafiel. Ele hoje está diferente, hoje não conhecia este Luís Castro. Mas não quero entrar por aí.

Foi para o Benfica na época 2005/2006?
Sim, em dezembro.

É o Koeman que lá está?
Um grande treinador.

Como é que foi entrar no Benfica e vir para Lisboa?
Vir para Lisboa não foi difícil, visto que eu tinha vivido aqui muitos anos quando estive no Setúbal. Vinha aqui muitas vezes, os meus irmãos estavam aqui a viver, não foi um problema. No princípio fiquei no Hotel Marriott até arranjar casa, depois fui viver para a Expo. Apanho uma altura em que estavam a treinar no Estádio Nacional, porque estavam a acabar o Centro de Estágio. O Koeman era um homem muito assertivo nas suas decisões, mas penso que lhe faltava algo. Faltava-lhe se calhar mais jogadores em termos de plantel. Penso que o Koeman é vítima de ter apanhado o Benfica numa época menos boa, porque é um treinador de qualidade, sempre humilde, sempre correcto.

No plantel quem são as “estrelas” da altura?
O Miccoli e o Simão Sabrosa.

Não apanha o Rui Costa?
O Rui Costa só vem a seguir, passados 6 meses, só entra na época a seguir. Eu entro no dia em que entrou também o Moretto, o guarda-redes.

O Benfica era aquilo que estava à espera?
Em termos de marca, só quem passa lá por dentro é que vê que ainda é maior do que a gente pensa. Mas foi uma altura de transição. Por isso é que eu digo que o Luís Filipe Vieira tem um grande valor. Ele conseguiu devolver ao Benfica aquilo que é a marca Benfica, com a ajuda do Veiga, que fez um trabalho fantástico. E acho que o Kooman é vítima de ainda não estar cimentado, os tais pilares que hoje tem o Benfica. Estava tudo ainda muito fresco e faltava mais qualquer coisa para ele ter tido sucesso. Se fosse hoje, de certeza que teria sucesso. Hoje o clube já é um clube mais estável, já tem os tais alicerces.

Está a falar de que alicerces?
O ter a estrutura toda controlada e o poder ter melhores soluções também. Mesmo em termos de plantel.

Marco Ferreira, à esquerda, jogou também pelo V. Guimarães

Marco Ferreira, à esquerda, jogou também pelo V. Guimarães

D.R.

A seguir vem o Fernando Santos. Um estilo completamente.
Sim. Tem aquela cara que parece que está sempre zangado, mas a verdade é que em termos de relacionamento é fantástico. Ele consegue ser um relações públicas. Consegue unir massas, consegue juntar os jogadores, consegue uni-los. Ou seja por trás daquele casmurro, está uma pessoa muito inteligente, inteligentíssima.

Tem inteligência emocional, é isso?
É. Acho que ele consegue dar a volta às situações todas, é muito inteligente. Pensa muito. Era muito exigente.

Não era o estilo de treinador de ir com os jogadores para os copos.
Não. Tenho uma história no FCP, ainda ele estava no Sporting. A história da camisola do Rui Jorge, que é rasgada. Eu estava lá. Não vou contar a história toda porque acho que ainda não é tempo. Mas a verdade é que o Fernando Santos confrontou as pessoas. Peço desculpa mas só vou contar esta parte porque a outra é muito mais grave: ele sai com a camisola do balneário e eu estava ao pé da parte do controlo de doping e vejo-o a chegar com a camisola. Ele disse coisas às pessoas que estavam do outro lado, não interessa quem, ele disse coisas muito assertivas. Vê-se que é um homem que se rege pelos seus princípios. Só estava eu, ele e outra pessoa do FCP. Vi o que é um homem furioso mas muito assertivo e muito inteligente também. Vi o que é um homem, o que é proteger um grupo, o que é proteger os jogadores dele e ser sério.

E também passou pelo Penafiel

E também passou pelo Penafiel

D.R.

Pessoalmente, as duas épocas no Benfica correram bem?
Correram, embora sinto que podia ter jogado muito mais nessa altura.

E porque é que isso não aconteceu?
Sinto que foi mesmo por uma questão de opção do Fernando Santos. Penso que teria a ver com a imagem que eu teria na altura, que podia não ser muito positiva e julgo que as opções não foram corretas comigo, porque tive alturas em que podia mesmo ter jogado.

Mas qual era a sua imagem?
Quando falo em imagem... Se calhar o mister tinha falta de confiança por alguma coisa, por algo que nunca cheguei a descobrir, prefiro dizer que foi por opção dele mesmo. Não quero alongar-me muito sobre isso, tenho muito respeito por ele, gostei muito de ter trabalhado com ele, mas acho que podia ter jogado muito mais vezes.

É por isso que se foi embora?
Sim. Acabo por ir embora no fim da época e o Fernando Santos também só faz o primeiro jogo da época seguinte, vai embora. Embora eu tivesse contrato por mais dois anos não foi proposta a rescisão nessa altura, só é proposta um ano mais tarde depois de já ter ido para Inglaterra.

Marco Ferreira com a filha junto dele, no Benfica, onde foi treinado por Fernando Santosi

Marco Ferreira com a filha junto dele, no Benfica, onde foi treinado por Fernando Santosi

D.R.

Como surge o Leicester City de Inglaterra?
Eu queria ir embora.

Tinha empresário?
Não. O meu empresário toda a vida foi o meu pai. O contrato com o FCP, mesmo estando o Baidek metido, o meu pai esteve sempre presente comigo nas negociações todas. Só fora de Portugal é que não. Mas cá ele era o meu apoio, era ele que me ajudava.

Sobre Inglaterra.
Pedi ao empresário do Jorge Costa, o Amadeu Paixão. Um grande homem, foi ele que levou muitos jogadores portugueses para Inglaterra, um homem muito sério, até costumo dizer que foi a pessoa em termos de contratos mais séria que conheci até hoje, é um homem que está no futebol, mas com outros valores. E telefonei-lhe, porque o conhecia desde a altura do FCP. Ele tratou logo da minha vida. Eu queria ir para Inglaterra.

Porquê?
Qualquer jogador tem curiosidade e como não estava a jogar tanto na altura... Ele conseguiu o Leicester que mais tarde veio a ser campeão. Foi uma experiência em termos culturais boa, mas desportivamente não. Para mim foi uma desilusão, porque Inglaterra é um país onde as pessoas são como o tempo, frias. Não havia convívio, não havia aquele relacionamento que há cá entre os jogadores, de comermos todos juntos, telefonarmos, sair para jantar. Lá não acontecia nada disso. Cá nós chegamos ao treino cedo, tomamos um café, começamos a equipar devagarinho, tudo feito com tempo. Lá eu fazia o mesmo só que chegava antes de toda a gente, eles chegavam sempre em cima do treino. Eu ainda estava a equipar-me, eles vinham equipavam à pressa, entravam para o campo, treinavam, acabava o treino e ainda estava eu a tirar as meias e já eles estavam a tomar banho à pressa para ir embora. Uma coisa impressionante. Cada um no seu canto, no seu quarto nos estágios. Não havia aquele convívio que há cá.

Foi sozinho.
Fui. Nunca fui com ninguém para fora. A minha vida foi sempre sozinho, a não ser com o Futre para o Japão. Também era divorciado, tive namoradas mas nunca nada mais sério, como a relação que tenho hoje.

Não havia mais portugueses no Leicester?
Não. Às vezes eu ia para Londres, sozinho, de carro, ter com o Amadeu Paixão. Estive algumas vezes com o Ricardo Carvalho. Curiosamente o Paulo Ferreira, que era aquele jogador com quem tinha mais relacionamento devido à nossa amizade desde Setúbal até ao Porto, quando estive em Inglaterra cheguei a ligar-lhe, ele disse que vinha ter comigo mas depois teve que fazer. A partir daí acabamos por nunca estar juntos. Mas é boa gente, o Paulinho é uma pessoa de família, mais de casa.

Marco Ferreira esteve duas épocas e meia no Benfica, antes de irpara Inglaterra

Marco Ferreira esteve duas épocas e meia no Benfica, antes de irpara Inglaterra

D.R.

Fica quanto tempo em Inglaterra?
Só cerca de quatro meses e é quando surge a possibilidade de vir para Belém, para o Belenenses.

Surge como essa oportunidade?
Jorge Jesus. Era aquele treinador que me tinha marcado, numa fase da minha carreira de ascensão, em Setúbal. Aprendi muito com ele, aprendi como é que se andava dentro de campo, que não é só correr dentro de campo, que o jogo não é só a bola. E talvez nessa altura senti saudades de carinho, do treinador falar comigo e vim.

Encontrou o mesmo Jorge Jesus ou um treinador já diferente?
Há quem diga que ele mudou muito, mas eu acho que não. Encontrei o mesmo Jesus com mais experiência, com mais qualidade, mais aperfeiçoado. Por isso é que digo que ele hoje tem de ser muito melhor, porque encontrei-o com a mesma paixão, mas mais exigente ainda. Sempre com aquele jeito dele, a mandar vir com tudo e com todos, mas também já estava vacinado; já o conhecia e sabia que aquilo passava tudo.

Que outros jogadores estavam no Belenenses?
Joguei com o Silas, com o Zé Pedro, com o Ruben Amorim, com o Meyong que jogou comigo em Setúbal.

Ficou a viver onde?
Nessa altura fiquei a viver no hotel Marriott. Estive seis meses a viver lá.

Gosta de viver em hotéis?
Não. Mas costumo dizer que o Marriott tem a melhor cama do mundo. Parece que abraça uma pessoa. Vivi lá seis meses. Depois no fim dessa época morre o presidente do Belenenses, foi uma altura também complicada para o Jesus porque eles tinham uma relação muito próxima. Depois, íamos à UEFA e foi-nos tirada essa possibilidade por causa do caso Meyong. Mas foi uma época como as outras em relação a Jesus, sempre concentrados, sempre profissionais, sempre sérios e sempre perto dos grandes. E ele sempre à procura do sonho de um dia treinar um grande. Sentia-se nele que queria chegar a um grande. Uma vez numa conversa ele disse: “No dia em que eu treinar as feras sou campeão”.

Marco Ferreira com a filha Mariana

Marco Ferreira com a filha Mariana

D.R.

Como é que foi parar à Grécia?
Depois de várias conversas com o Folha, que me dizia que era um país único, que as pessoas eram boas, um tempo ótimo, aquilo ficou-me sempre na ideia. A verdade é que fomos jogar lá contra o Panathinaikos, na altura do FCP, tínhamos perdido cá 1-0 e o Mourinho foi ter com o treinador deles a meio do campo e disse-lhe que só era a 1ª parte, que íamos lá ganhar. E quando fomos lá o ambiente que se criou à volta do jogo, aquela gente sempre a cantar, mesmo a perder, ficou-me na ideia. Essas partes venho a recordá-las mais tarde quando chegou àquele ponto e disse que queria ir para a Grécia. Surgiu a oportunidade através de um presidente louco. Hoje digo que é louco, e sou amigo dele, é o Pirunhas, tinha negócios de petróleo, era um artista positivo como costumo dizer. Ele queria um jogador como eu e acabou por me contactar. Mas estava lá outro português também.

Quem?
Um Lima, dos irmãos Lima que jogaram em Guimarães, em que há uma altura em que o Pimenta Machado teve um problema com os miúdos que fugiram para o Salamanca. Eram dois irmãos e estava lá um deles. Não falava nada de grego, falava pouco inglês, mas apanhei o avião e fui. Às tantas vêm buscar-me e parecia que era o melhor jogador do mundo. Fui tratado de uma maneira fantástica. Levaram-me para um hotel em frente ao mar, em Glyfada. Uma suíte presidencial, uma coisa do outro mundo. No dia seguinte fizeram a minha apresentação, o presidente veio cheio de jornalistas atrás, usam o facto de ter sido campeão da Europa, de ter jogado no FCP e fizeram um show off imenso. Conclusão, a seguir o presidente levou-me de carro com ele para Volos, porque a equipa já estava em pré-época. E foi engraçado o relacionamento que se criou entre mim e o presidente, não era uma relação de jogador/treinador, eu para ele era um troféu. Fui para pré época e fui apresentado como um deus, coisa que nunca tinha acontecido. Para terem uma ideia, no hotel durante a pré época estavam dois em cada quarto e eu tinha uma suíte também para mim.

Marco já com as cores do Leicester City, de Inglaterra

Marco já com as cores do Leicester City, de Inglaterra

D.R.

Isso deu-lhe mais responsabilidade?
Sem dúvida. Quando começa o campeonato eu senti tanta, tanta responsabilidade que fui falar com o presidente. Disse-lhe para me desculpar mas tendo em conta os clubes por onde passei, sentia que ali faltava muita organização, alguma exigência mesmo nas horas de treino, os jogadores deviam chegar mais cedo para treinar em vez de aparecerem com os frapê de café e treinar por treinar. Tive uma conversa com ele muito séria. Passado um mês de lá estar eu era diretor desportivo, capitão de equipa e Nº10 (risos).

Como?
Ele era dono do clube. Ele é que mandava. Se eu já tinha responsabilidade, mais fiquei ainda. Eu só pensava em treinar e jogar para ganharmos, mas estava num mundo completamente diferente. Mesmo em termos de pagamento, quando chegava a hora de pagar, como lá paga-se em dinheiro, ele chamava-me à mesa para com outro funcionário contar dinheiro para pagar aos jogadores. Inacreditável. Ele dizia que ele é que mandava e que os gregos tinham de ser tratados assim, tinham de saber que o clube era dele. Ele quando fez de mim capitão eu disse no balneário, a todos, que não queria, mas ele disse que se não fosse capitão que podia ir embora, que aquilo era a casa dele. E queria que o ajudasse em termos organizativos e por isso queria que fosse diretor desportivo. Fiquei pasmado, nunca pensei que podia acontecer uma coisa dessas. Tenho várias histórias com ele.

Conte algumas.
Por exemplo, íamos jogar fora, eu ia no autocarro com os outros jogadores mas à vinda ele queria que eu viesse com ele no carro. Tentei explicar-lhe várias vezes que aquilo não era positivo, mas ele dizia que a mentalidade dos gregos era outra. "Sou eu que mando no clube, eles vêm no autocarro, tu vens comigo", dizia.

Marco Ferreira, o centro, com Amadeu Paixão, à esquerda, o homem que o levou para Inglaterra

Marco Ferreira, o centro, com Amadeu Paixão, à esquerda, o homem que o levou para Inglaterra

D.R.

Não sentia da parte dos colegas um mal-estar?
Mais tarde acabou por ser bom, porque aproveitei-me da situação. Ou seja, tudo o que os meus colegas queriam, eu tentava conseguir através da amizade que tinha com o presidente. E a verdade é que conseguimos ter banhos de imersão, ter sempre estágios, prémios de jogo. Consegui arranjar ali um estratagema de trazer os meus colegas para junto de mim. Quando acontecia alguma coisa vinham sempre falar comigo e eu tentava resolver. Sempre. Foi assim que consegui dar a volta à situação. Porque não era fácil um jogador ser diretor desportivo, Nº10, capitão. Era eu que tratava de tudo. Viagens de avião, também me chateei com ele, mas tive de voltar atrás. Eu vinha com ele em 1ª classe e o treinador e jogadores vinham lá atrás. Uma coisa inacreditável. E mais. Há uma altura, quando acabavam os jogos, toda a gente ia embora e ele telefonava-me: "Onde é que estás?". "Estou em casa". "Não, já passo aí". Chegava a minha casa metia-me no carro e íamos para o Bouzoukia. Eu tinha que o aturar à noite e ir àquelas festas gregas, com as flores. Depois dos jogos eu ia sempre com ele, digamos, para a noite (risos). Quase não bebia, porque ele era meu presidente, mas pronto. Depois há uma altura que ele quer despedir o treinador e fala comigo. Mas eu disse-lhe que nessa matéria não tocava, que por mim o treinador ficava e que jamais despedia um treinador. Ele acaba por despedir o treinador e vem perguntar-me se eu conhecia algum treinador. Aí sim, depois de ele ter despedido, disse que tinha um treinador que em minha opinião era um bom homem para lidar com aquele grupo.

Quem era?
O Eurico Gomes. A verdade é que passado um dia e meio o Eurico Gomes estava na Grécia. Não estava a treinar ninguém. Quando ele chega tudo muda. Fui falar com o presidente e disse-lhe que agora gostava de ficar um pouco mais afastado porque sabia que estava a chegar um treinador de quem eu era amigo mas que era diferente, era mais profissional. O Eurico começou a tomar rédeas e começou a meter outras regras.

Marco Ferreira só fez três jogos pela seleção

Marco Ferreira só fez três jogos pela seleção

Phil Cole

Como é que os jogadores gregos reagiram?
Ao princípio não foi fácil. Ele demorou algum tempo mas depois eles perceberam que só se podia melhorar com mais profissionalismo. E isso foi muito positivo. Mas mesmo assim na maior parte da época era confrontado pelo presidente por causa das mesmas coisas de sempre. Mas deixei de andar no avião à frente com o presidente. Disse-lhe que não ia mais ao pé dele, até por respeito ao treinador e começou o Eurico a ir junto dele. As viagens de carro, ainda tive de fazer três ou quatro com ele mas aí já vinha também o Eurico Gomes Foi uma experiência única. Foi o país onde gostei mais de viver. Deram-me tudo. Vivi três anos num apartamento em frente ao mar, com condições fantásticas. As pessoas sempre simpáticas, até porque os estrangeiros são tratados como deuses porque eles sabem que a economia deles depende dos turistas e dos estrangeiros. Não há quem fale mal dos turistas.

Aprendeu grego?
Aprendi algumas coisas, mas escrever não. Falo algumas coisas. A minha atual companheira, Athina, é grega, já estamos juntos há nove anos.

Marco também jogou no Belenenses, antes de partir para a Grécia

Marco também jogou no Belenenses, antes de partir para a Grécia

D.R.

Como é que conhece a sua atual companheira?
Num restaurante, com o meu presidente. Foi logo no princípio. Era ela que geria um dos maiores restaurantes, que só ao almoço de domingo servia mais de mil refeições. O meu presidente ia lá muitas vezes comer. Foi aí que a conheci. Ao início ela não dava muita confiança, mas eu ia lá comer todos os dias. É o relacionamento mais longo que tive até hoje. Este e o da minha cadela, que comprei mais ou menos na mesma altura.

A cadela é de raça?
É uma boxer, chama-se Linda. Foi a minha mãe que lhe deu o nome. Comprei-a na segunda pré-época. Eu faço uma rotura total dos ligamentos do joelho num treino e nesse dia liguei para o Sérgio Conceição, que estava em Salónica com o Fernando Santos. Fui ter com eles para ser visto pelo médico do Paok. Fez-me um teste e disse-me logo que devia ter feito uma ruptura total dos ligamentos. Regressei a Atenas, onde já estão os médicos à minha espera, para ser operado. A cadela surge na altura da recuperação. Passei por uma loja de cães e vejo lá um cachorrinho pequeno, um boxer, uma raça de que sempre gostei, e acabei por trazê-la comigo. É impressionante que a cadela deitava-se sempre junto do meu joelho. Criámos uma relação muito forte. Ainda hoje tem tendência a deitar-se junto ao meu joelho, não sei se pensa que é a minha parte mais frágil (risos), mas está sempre ao pé de mim.

Marco com a sua companheira Athina que conheceu na Grécia

Marco com a sua companheira Athina que conheceu na Grécia

D.R.

Como e quando decidiu colocar o ponto final na carreira?
Depois da Grécia ainda chego a ir à Arábia Saudita, para o Raed, porque estava lá o Eurico. Fui para a pré-época para Istambul, mas não chegámos a acordo e decidi terminar a carreira.

Por que saiu da Grécia?
Chegou uma altura em que houve uma confusão com clubes e presidentes, uns até foram presos. No clube onde eu estava a parte financeira começou a falhar e eu não podia estar num clube onde os jogadores vinham ter comigo para pedir dinheiro. Eles já não recebiam e há uma altura em que deixei de receber eu e fiquei com cheques do clube em vez do dinheiro para poder pagar aos jogadores. Preferi pagar-lhes do meu dinheiro porque a verdade é que eu tinha um salário muito elevado em relação a eles. Mas chegou a uma altura em que se tornou insustentável. Disse ao presidente: “Somos muito amigos mas eu não consigo estar no clube por causa dos outros jogadores. Não posso viver bem, porque tenho uma vida para trás que me permitiu isso, e eles não estarem a viver bem”. É aí que, depois de um treino, saio. Mas não sabia que era aí o fim da minha carreira. Depois fui para o Raed, não cheguei a acordo, regressei à Grécia e estava em casa quando decidi: já chega, não vou jogar mais.

Custou-lhe tomar essa decisão?
Ao princípio não. Acho que estava preparado para deixar. Agora, passado um ano senti a falta do balneário, da relva, dos jogos.

Marco com o equipamento do Ethnikos Piraeus, da Grécia

Marco com o equipamento do Ethnikos Piraeus, da Grécia

D.R.

Ficou a viver na Grécia nessa altura?
Vivi na Grécia durante algum tempo, ainda fui convidado para ir para outros clubes, mas não quis ir por respeito ao presidente do meu clube.

O que ficou a fazer?
Tinha lá a namorada. Fiquei lá alguns meses e depois regressei a Portugal.

Quando veio para Portugal?
Em 2012, passados seis ou sete meses depois da pré-época na Arábia.

A sua namorada veio logo consigo?
Sim. Viemos viver para Lisboa e Bragança. Estive um ano a viver em Lisboa, na altura do Futrebol, programa da TVI em que estava com o Paulo Futre. Depois fui para Bragança, porque sentia que depois de passar tantos anos fora da terra, queria estar algum tempo por lá. E foi o que fiz. Estive lá cerca de quatro anos. Montei um negócio para a minha companheira estar ocupada.

Que tipo de negócio?
Era um Spa, mas com estética também. Entretanto decidimos vir para Lisboa e passei o negócio.

A cadela boxer chamada Linda, vestida com algumas das camisolas que Marco Ferreira representou

A cadela boxer chamada Linda, vestida com algumas das camisolas que Marco Ferreira representou

D.R.

Porque decidi vir para Lisboa?
Acho que tudo tem um tempo. Cansei. Ainda sou muito novo para estar na terra. Achei que devia regressar a Lisboa, a minha companheira também fez pressão, porque não gosta de viver em sítios muito pequenos. E o facto de minha filha também estar em Setúbal... estou mais perto dela. Estou numa grande cidade. Eu não penso muito nas coisas, decido de um dia para o outro. Sempre foi assim.

Ao longo dos anos foi acompanhando à distância o crescimento da sua filha. Ela nunca lhe cobrou isso?
Acho que ela hoje já começa a perceber. Sinto que quando era mais pequena era complicado. Não é fácil uma filha crescer longe do pai. A verdade é que hoje que ela já percebe mais ou menos, começa a entender porque é que as coisas aconteceram assim, e que também se deve à minha profissão. Tentei sempre ser um pai presente, mesmo em termos de escola, como não estava com ela, meti-a no S. Peters School em Palmela, que é uma escola privada. Não que se seja melhor que as outras, mas porque eu sentia-me mais protegido, até porque tinha transporte para casa, uma carrinha que ia buscá-la e pô-la, e durante anos foi assim. Ia vê-la sempre que podia. Quando estava no Porto, ela ficou lá muitas vezes comigo. As férias sempre as passou comigo. Hoje não, porque já cresceu e já temos de dividir o tempo. Ela tem um relacionamento fantástico com os meus pais, tento sempre acompanhar mas não é fácil para um pai separado e ainda para mais com a minha profissão. Hoje estamos muito mais tempo juntos. Temos um relacionamento fantástico mas sinto que ela tem aquela mágoa de não termos vivido juntos mesmo, de não ter crescido comigo. Mas faz parte da vida.

Marco Ferreira, à direita, com os irmãos pais, numa foto de família recente

Marco Ferreira, à direita, com os irmãos pais, numa foto de família recente

D.R.

Além desse negócio, onde investiu o dinheiro?
Praticamente, tudo em imóveis. Tenho alguns imóveis, tenho em Espanha também imóveis, tenho uma vivenda lá, a casa de Setúbal onde está a minha filha e a mãe dela também foi uma casa que comprei na altura em que vivia em Setúbal. Tenho em Bragança. Tenho casas arrendadas e tenhos as minhas economias, para garantir um futuro também para a minha filha.

E extravagâncias?
Muitas (risos).

Mais em quê?
Carros. Tive Ferrari, tive o Mercedes SL 500, tive BMW's, tive muitos carros. Era doido por carros.

Qual foi o que mais lhe encheu as medidas?
O SL500, mais do que o Ferrari.

Motas?
A profissão nunca me deixou. Estava nos regulamentos internos dos clubes. Cheguei a ter uma moto 4 Bombardier, potente, uma 600. Mas acabei por não usufruir dela. Tive motas de água também.

Nunca foi de pagar viagens e jantaradas e amigos?
Quando acabou a carreira, disse que durante aquele tempo que estivesse na Grécia ia gastar o máximo possível (risos). Lembro-me que só em restaurantes, nos primeiros dois meses, gastei à volta de 30 mil euros. Era idas para as ilhas, jantares, discotecas, foi uma coisa doida. Foi uma altura que tirei para gastar pasta com os meus colegas lá. Foi algo que gostei de fazer na altura.

Marco com a tual companheira Athina e a filha Mariana, ao centro

Marco com a tual companheira Athina e a filha Mariana, ao centro

D.R.

Os seu pais foram ter consigo à Grécia?
Foram. Nós temos uma relação familiar muito forte. Somos muito amigos. Eu, os meus pais e os meus irmãos somos muito unidos, fazemos tudo juntos, telefonamos, jantamos, almoçamos, acho até que é demais.

Por que diz isso?
É demais. Somos muito agarrados. Estes cinco, o meu pai, a minha mãe e os três irmãos. Depois envolve os outros à volta, mas nós cinco estamos muito presos.

Vivem todos em Lisboa?
Sim, os meus irmãos também quiseram que os meus pais viessem para baixo, porque têm cá os netos. A minha irmã e o meu irmão têm ambos um casal de filhos.

Tem algum hóbi?
A caça. É uma paixão. São as minhas raízes, de ser transmontano. O meu pai era caçador, o meu avô materno era caçador, o meu irmão é caçador.

Quando é que se lembra de ter ido à caça pela primeira vez?
Muito cedo, 10, 11 anos talvez, com o meu avô. Tirei a carta de caçador mas nunca tinha tido a oportunidade devido à minha profissão: a caça é às quintas e ao domingo. Não tinha tempo. Agora, quando deixei de jogar, aí sim, este tempo que estive em Bragança, a maior parte do tempo aproveitei para caçar e para o tiro ao prato.

O que é que costuma caçar?
Depende da época. Há altura da caça menor, que é coelhos e lebres e perdizes, e há caça maior que são os javalis.

O que lhe dá gozo?
O que me dá mais gozo é a caça maior, pelo convívio. Mas a caça que mais me realiza é a caça ao coelho porque é ver os cães trabalhar. Na caça maior, como são montarias, junta-se o pessoal todo, tomamos o pequeno-almoço juntos, vamos juntos para a mancha e depois no fim temos o jantar todos juntos. Na caça o maior prazer que me dá é o convívio daquela gente toda. Sempre foi uma paixão.

A sua cadela vai?
(Risos) Não. A minha cadela é uma cadela de casa. Levei uma vez comigo só a passear mas sem arma sem nada e parecia uma tia, uma senhora, pisava como se nunca tivesse andado no monte. É um cão de casa, mesmo (risos). Foi treinada para defesa do seu espaço, é muito protetora, mas é só ali.

Marco Ferreira antes da entrevista à Tribuna

Marco Ferreira antes da entrevista à Tribuna

Nuno Botelho

Voltar a ser pai está nos seus planos?
Talvez. Acho que era a altura.

Gostava de ter um rapaz?
Gostava de ter outro filho. Não sei se vai acontecer, mas gostava de ter um filho saudável. Não nego que gostava de ter um rapaz mas depois de ter a filha que tenho, é-me indiferente.

Em termos profissionais o que faz ou está à procura de fazer?
Acabei o II nível de treinador. Mas ainda não sei o que quero fazer. Cheguei há dois meses a Lisboa e ainda estou numa altura de reflexão, não sei se irei acabar os cursos de treinador ou se faço outra coisa. Mas quero ficar ligado ao futebol. Estou na expectativa, depende das ofertas e da procura que eu faça.

Hoje em dia muitos ex-jogadores são convidados para comentar futebol nas televisões.
Já surgiu essa oportunidade também, não quer dizer que não venha a fazer, mas para já acho que não é essa a minha vocação. Estou em período de reflexão. Quero voltar a ter contatos com ex-colegas, ex-treinadores e voltar a estar dentro do nosso mundo, do nosso ambiente porque quando estive em Bragança afastei-me um bocadinho do futebol.

Alguma vez teve alguma discussão mais séria com algum treinador?
Tive, com o Jorge Jesus, em Setúbal. Houve uma altura, num treino, tivemos uma discussão muito forte e vim a pé do centro de treino da Várzea para o estádio do Bonfim. Era bi-diário o treino nesse dia. Pensei que ia ter problemas, mas a verdade é que à tarde quando ele entra diz, o que passou passou e vamos trabalhar.

Porque é que discutiram?
Por uma questão dos coletes. Ele estava a programar a equipa para o jogo e estava pôr vários cenários. Um dos cenários era se tivéssemos de mudar de sistema e se tivesse que sair algum jogador, tirou-me o colete a mim e na altura como eu jogava sempre, em vez de lhe entregar o colete atirei com ele para o chão. Foi qualquer coisa assim. Deu-me uma dura. Depois começamos a discutir e mandou-me abandonar o treino. Eu em vez de vir na carrinha vim a pé, a refletir. Arrependi-me não sei quantas vezes durante a aquele caminho, como é lógico.

A caça é o maior hobi de Marco Ferreira

A caça é o maior hobi de Marco Ferreira

D.R.

É muito explosivo?
Sou, muito. Mas também sei que passados 10, 15 minutos está tudo bem. Se não for nada grave, e é muito difícil ser grave, porque as coisas graves não são estas do dia a dia, são as doenças e outras coisas. Por isso, passado 10, 15 minutos está tudo bem. O problema é que expludo muito depressa. Depois arrependo-me logo a seguir.

Tem capacidade de pedir desculpa?
Tenho. Mas muitas vezes pode não ser aceite, não é? O facto de sermos explosivos não quer dizer que do outro lado tenhamos gente que nos compreenda. Mas hoje, a idade é outra.

Qual é a coisa de que mais se arrepende?
Acho que a minha carreira em termos pessoais não foi bem gerida. Porque, como transmontano, e digo isto com orgulho mas não com inteligência, penso que a minha carreira em termos de relações, mesmo com os treinadores, presidentes e toda a gente que envolvia o futebol… Nunca tive cuidado. Não cuidava da imagem. Ou seja, eu falava exatamente da mesma maneira com um treinador, um roupeiro, um massagista. E hoje percebo que isso não se pode fazer. Acho que saí prejudicado na minha carreira por causa disso. Como não via maldade, falava para toda a gente igual e sei que isso não se pode fazer, principalmente hoje que o futebol está muito evoluído. Eu não tinha esse cuidado, para mim estava tudo bem, eu dizia o que pensava, dentro do respeito, mas não fui capaz de cuidar da minha imagem como devia.

Com a atual companheira e os pais

Com a atual companheira e os pais

D.R.

Quem foram os jogadores que mais o marcaram e com quem fez maior amizade?
Foi por fases da minha vida. Sou uma pessoa que normalmente estou sempre muito presente no sítio onde estou a viver e desligo completamente do resto. Obviamente, houve pessoas que me marcaram muito. No princípio marcam-me o Eurico como treinador e logo a seguir o Futre como colega. Depois, chego a Setúbal e marca-me o Paulo Ferreira, estávamos quase sempre juntos. No Porto é mais difícil porque marcam-me quase todos. Éramos tão unidos que praticamente marcam-me todos. Se me perguntarem qual é a equipa o plantel que me marca, é o do FCP. Aqueles anos que passámos juntos, desde a equipa, até à equipa técnica, à direção. Claro que depois há os relacionamentos mais chegados: o Jorge Costa que era o capitão e porque íamos sempre juntos para o treino, o César Peixoto pela amizade que tinha com ele, O Vítor Baía por ser aquela pessoa que estava sempre tudo bem com ele, o Sérgio Conceição por ser a pessoa mais genuína que conheci até hoje no futebol, puro, verdadeiro e honesto.

Acha que ainda se mantem assim?
O Sérgio é aquilo que está ali. Não é hipócrita, não é falso, é verdadeiro. E tudo o que conseguiu foi ele. Ninguém lhe deu nada. O Sérgio é o verdadeiro exemplo de quem sai do nada e vence sozinho, sempre com os seus princípios, os seus valores, honesto, puro. E não vale a pena darem-lhe a volta. Não vale a pena dizer-lhe para fazer algo que ele não faz. Ele faz o que e quer e o que acha que está correto. E tem razão, porque venceu na vida assim. No Benfica marcaram-me o Petit, o Miccoli, o Nuno Gomes e o Rui Costa. Em Guimarães, marcou-me o Nuno Assi e o Romeu. Acho que não há ninguém no futebol que não goste do Romeu, toda a gente fala nele, que é adjunto do Rui Jorge. A verdade é que nós conhecemos tanta gente e conhecemos tantos campeões...

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Não quero dizer (risos). Não é importante. Mas nunca foi o dinheiro que me moveu. Nunca senti dificuldades. Sempre vivi bem.

Marco com a filha, quando era bebé

Marco com a filha, quando era bebé

D.R.

Era um bon vivant, gostava de sair à noite, de discotecas?
Era um bon vivant e tive alguns problemas por causa disso. Nunca fui castigado. Os problemas que fui tendo era por se falar disso. Nunca houve um problema direto. Ou seja: saíste durante esta semana e agora és castigado. Nunca. Havia qualquer coisa que se falava, que eu saía, mas a verdade é que quando saía, saía com os outros também. E nunca ninguém me castigou porque nunca houve aquela prova de que se saísse prejudicava o meu rendimento ou a equipa. Tudo o que se conta é completamente mentira. Agora, havia no ar essa ideia. Mas essa ideia prejudicou-me, assim como outras coisas. Há uma altura em que fui aconselhado a não me dar bem com os Super Dragões, porque podia prejudicar o FCP. Eu como tinha um relacionamento fantástico com os Super Dragões que ainda dura, disse que não. Sou amigos deles, tenho boas relações com essas pessoas e não vou deixar de falar com elas. Sei que fui prejudicado também numa história de que se falou em relação ao Mourinho e ao Pinto da Costa. Sei que há qualquer divergência do Pinto da Costa comigo e do Mourinho também comigo, não sei se pelo mesmo motivo. Fui-me apercebendo. Quando estava no Belenenses, houve um problema com o Antero Henriques, ele é indelicado comigo aqui num Belenenses-FCP. A partir daí comecei-me a aperceber que havia qualquer problema entre o presidente e eu sem saber o que é. Desconfio, sei que são mentiras. Tanto que na altura liguei para o Reinaldo Teles, tentei vérias vezes que ele falasse com o presidente e que me dissesse o que é que eu tinha feito de mal, porque o que diziam era mentira e nunca foi resolvido.

O que diziam na altura?
Não vou falar sobre isso porque vai-se trazer À tona coisas que eu não quero. Falava-se também do Mourinho, acho que ficou chateado porque pensou que eu teria falado alguma coisa sobre esse assunto, mas é mentira. Nunca falei nem acredito no que se dizia. Diretamente nunca me disseram nada ou mandaram dizer nada. O único que falou alguma coisa foi o Antero, tratou-me mal, mas sem explicar porquê. Ao longo da carreira fui prejudicado por algumas mentiras que foram ditas.

Nuno Botelho

Chegou a ser chamado à seleção A?
Fui, numa altura de transição. Na altura em que o Agostinho Oliveira toma conta da equipa. Fui chamado numa altura em que estou em Setúbal ainda.

Nunca foi chamado antes?
Não. Sou de Bragança (risos). Sou chamado à seleção A, pelo V. Setúbal, quando já há 11 anos que nenhum jogador de Setúbal era chamado; o último tinha sido o Hélio. Sou chamado numa altura em que Portugal tinha na mesma posição o Figo, que era o melhor jogador do mundo, o Sérgio Conceição, o Capucho, o Simão Sabrosa. Tinha um leque de jogadores para aquela posição, dos melhores da Europa. Quando vou para o Porto já não tinha grande protagonismo e deixei de ser chamado.

Que jogos fez?
Estreei-me substituindo o Figo, no Restelo contra a Tunísia. Faço a Escócia, em Braga e vou jogar à Suécia, onde sou titular. Representar a seleção é um orgulho imenso, quando toca o hino sentimo-nos mesmo portugueses. É um orgulho diferente, só o hino da Liga dos Campeões nos pode dar um sabor parecido.

De todas as suas conquistas qual a que mais o marcou?
Sevilha (final da Taça UEFA). Não sei se estou a dizer alguma asneira mas acho que foi a que nos marcou mais a todos.

E marca o golo decisivo.
Sim, o terceiro. Penso que foi Sevilha pelo ambiente criado à volta, pelo ambiente antes, durante e pós jogo. Claro que a Liga dos Campeões é a Liga dos Campeões em termos de valor de título, mas o ambiente e a conquista da Taça UEFA, acho mesmo que para todos nós, toda a estrutura do FCP, foi a final que mais nos marcou. E o Mourinho disse isso há dias, quando foi distinguido pela FPF. Foi uma final diferente.

Alguma coisa que lhe tenham dito que ainda hoje esteja retido na memória?
Quando fui para o Tirsense, a primeira coisa que o Eurico Gomes me disse foi: “Marco já és um homenzinho, e vou-te dizer uma coisa sobre este mundo que conheço muito bem. O futebol dá-te mulheres, mas as mulheres não te dão futebol”. Esta é uma daquelas frases que me marcou e hoje percebo-a muito mais do que na altura. Como ele tinha outra, muito típica, ele dizia que era como a abelha: “Vocês decidem ou querem o meu ferrão ou querem o mel”.

Alguma vez foram bater-lhe à porta a pedir dinheiro?
Muitas vezes. Até hoje. Acho que nos acontece a todos. Sei de muitas histórias. Praticamente todos ajudamos muita gente, mas não conseguimos ajudar todos. E há uma altura em que temos de parar mesmo porque começa a ser insustentável. Toda a gente nos bate à porta. E hoje mais pelas redes sociais. Custa muito mas às vezes temos de dizer que não, porque é praticamente todos os dias, todas as semanas.

Torce porque clube?
(Risos). Toda a gente me pergunta isso e nunca digo. Não vou dizer (risos). Agradeço a todos aqueles que me deram emprego e tenho uma paixão muito grande pelo Benfica e pelo FCP, ainda que as pessoas não compreendam isto.