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A casa às costas

José Semedo: “Com 10 anos tentei roubar um carro porque era o que via os mais velhos fazer lá no bairro da Bela Vista”

Nasceu em Setúbal, cresceu no bairro da Bela Vista com mais nove irmãos e tinha todas as condições para seguir a via do crime, mas o futebol e o grande amigo Cristiano Ronaldo atravessaram-se no seu caminho. Depois da aprendizagem no Sporting, atuou em Itália e Inglaterra, onde viveu os últimos dez anos. Pai de gémeos, aos 33 anos, José Semedo está de regresso à terra e ao clube de coração o V. Setúbal e revela como Ronaldo é maior do que pensamos

Alexandra Simões de Abreu

Nuno Botelho

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Nasce em Setúbal, mas a sua ascendência é caboverdiana.
Exatamente.

Como é que os seus pais se conheceram e o que faziam?
Os meus pais chamam-se Vitorino e Vitorina (risos). É verdade. Na escola quando me perguntavam o nome dos pais pensavam que eu estava a brincar (risos). Por isso uma vez perguntei ao meu pai como é que era possível ter encontrado uma Vitorina, não é como João e Joana, que são nomes mais comuns. Ele disse-me que quando morava em Cabo Verde e andava nos bailes com os amigos, ouviu dizer que havia uma rapariga que se chamava Vitorina, numa outra zona. “Fui à outra zona para ver quem era ela. E gostei dela”. Ficaram juntos até hoje.

Ainda estão vivos?
O meu pai faleceu há dois anos e a minha mãe está bem de saúde, graças a Deus. O meu pai tinha uma grande diferença de idade da minha mãe. Quando conheceu a minha mãe, ela devia ter 12, 13 anos e ele já tinha mais de 20 anos. Foi uma confusão com o meu avô materno (risos).

O que aconteceu?
O meu avô queria matar o meu pai (risos). Na altura andavam no campo e nas obras, tinham machados e outras ferramentas, só que a minha avó materna gostava do meu pai porque era uma pessoa muito correta e sabia que a minha mãe ficando com ele, ia estar bem. O meu avô não queria porque a minha mãe era menor de idade e o meu pai já era um homem feito e já trabalhava com o meu avô nas obras. Então o meu avô saía do trabalho e fazia esperas ao meu pai, mas a minha avó ia por trás e dizia-lhe: “Hoje não vás por ali que o Benvido está à tua espera para te dar com um machado” (risos). E o meu pai ia por outro lado.

Foi a sua avó que os safou.
Exatamente. Eu sempre brinquei com o meu pai sobre isso. Dizia-lhe a brincar: “Ó pai se fosse hoje estavas preso” (risos). E ele respondia a brincar: “Eu tive 11 filhos”. Ou seja, contava com a minha mãe também como filha (risos).

Semedo com 8 anos

Semedo com 8 anos

D.R.

Quando é que os seus pais vieram para Portugal?
A minha irmã mais velha, que tem 48 anos, chegou a Portugal com 3 anos, por isso os meus pais já estão em Portugal há 45 anos. Somos 10 irmãos, 6 raparigas e 4 rapazes, e só as duas primeiras é que nasceram em Cabo Verde.

Quando chegaram foram logo viver para a Bela Vista, em Setúbal?
Não, vieram para os Brejos de Azeitão e depois é que foram para Setúbal.

Na hierarquia dos irmãos o Semedo vem em que lugar?
Sou o oitavo. Primeiro foram 6 raparigas seguidas, tudo com um ano e meio de diferença, e depois é que vieram os 4 rapazes, de seguida também. Sou o segundo rapaz.

Quando nasceu os seus pais já estavam a viver na Bela Vista?
Sim.

Cresceu numa família numerosa. Havia muita confusão entre os irmãos?
Muita mesmo (risos). As minhas irmãs mais velhas é que nos criavam, porque o meu pai saía para trabalhar nas obras, a minha mãe saía para fazer alguma coisa e as minhas irmãs é que tomavam conta de nós. E, estando sem os reis em casa, é confusão por todo o lado (risos).

Semedo, em pé ao centro, na equipa de verão do São Domingos

Semedo, em pé ao centro, na equipa de verão do São Domingos

D.R.

Havia quartos para todos?
Dormíamos 4 rapazes no mesmo quarto e as raparigas todas noutro quarto. Quando as duas irmãs mais velhas casaram e saíram, já ficaram 4 raparigas num quarto e os 4 rapazes no outro, com beliches, cada um com a sua cama. Há uma coisa engraçada, desde pequeno que, quando janto ou almoço, não bebo.

Porquê?
Porque na altura cada um tinha direito só a um copo de sumo à refeição. Nós queríamos sumo até fartar, mas não dava. Havia irmãos meus que comiam pouco, não bebiam e no final ficavam a brincar com o sumo. Davam um golinho, mais um golinho, e faziam-te ciúmes se já tivesses bebido o teu todo. Por isso habituámo-nos a não beber, a comer tudo e depois no fim brincávamos com o nosso sumo. Assim ninguém gozava com ninguém. Ainda hoje eu como, mas não bebo. Só depois de acabar de comer é que me dá para beber, pelo hábito que tive.

Calculo que a bola tenha começado como com todos os miúdos, na rua.
Sim, no bairro o nosso passatempo era jogar à bola.

E da escola, gostava?
Eu queria era jogar futebol. Queria o intervalo para estar com os amigos e jogar futebol. Era só futebol, futebol. Mas nunca faltava às aulas porque se faltasse e o meu pai soubesse... era complicado. Mas era vir da escola, pôr a mala em casa e ir jogar à bola. Às vezes nem íamos a casa, púnhamos as malas a fazer de baliza e toca de jogar à bola. Foi assim que nasceu o desejo. Na altura já se ouvia falar do Barcelona, do Ronaldo brasileiro, do Luís Figo.

Eram esses os seus ídolos?
Eram. E o Marcel Desailly, que era francês. Era neles que me inspirava. Eu tinha esses ídolos, mas primeiro tive a noção dos jogadores aqui do Vitória de Setúbal. O Yekini, o Chiquinho Conde, eram eles os nossos ídolos. Quando passava pelo estádio era um desejo, porque o Vitória era como se fosse um FCP ou Benfica para nós, que nascemos aqui. Com o passar dos anos acabámos por ter um jogador nosso, lá do bairro, a jogar no Vitória, o Sandro, que veio a ser capitão. O Sandro, para mim, que queria tanto jogar futebol, inspirou-me, por isso queria jogar no Vitória também. Só que na altura não se proporcionou.

Os pais de Semedo e os seus dez filhos

Os pais de Semedo e os seus dez filhos

D.R.

Como é que se proporciona a ida para um clube?
No bairro havia aqueles torneios de verão. Vinham o São Domingos, a Liberdade, Águias de São Gabriel, e eles iam aos bairros buscar miudinhos para jogar no Verão e foi assim que comecei a jogar.

E os “Pelezinhos”?
Houve um olheiro que nos viu jogar nesses torneios de verão e que me perguntou se eu queria ir jogar para os "Pelezinhos".

Tinha quantos anos?
Devia ter uns 7, 8 anos. Falei com a minha mãe e ela disse-me para fazer o que eu gostava de fazer. Fui para os "Pelezinhos".

Ficou feliz de passar a jogar num clube em vez de ser só na rua e nos torneios de verão?
Claro. Sentias-te um jogador mesmo. As pessoas a acarinham-te, depois quando ia jogar, estavam lá os pais dos meus colegas a torcer por nós. Os meus pais não, porque saíam para trabalhar e por isso nunca tive ninguém que me fosse ver sempre a jogar.

Tinha pena?
Não, nem ligava porque eu queria era jogar futebol e sentia os pais dos meus colegas como se fossem meus pais porque nos dávamos todos bem. Quando íamos jogar fora alguns perguntavam se eu queria ir com eles no carro, e eu aceitava; assim, chegava mais cedo a casa. Levavam-me e davam-me lanche.

E depois dos "Pelezinhos"?
Joguei lá uma época e depois fui aos torneios da Costa da Caparica. Nesse torneio já se apanham equipas como o Sporting, às vezes o FCP, mas naquela altura era o Costa da Caparica, o Sporting, o Benfica e nós "Pelezinhos"; acho que também estava o Belenenses. Ganhámos ao Sporting nas meias finais e ao Benfica na final. Era 7 para 7 e, desses, 5 de nós éramos para ir para o Benfica. Mas tínhamos aqui em Setúbal um olheiro do Sporting, o senhor Coutinho, que quando soube que íamos para o Benfica, foi logo ter connosco aos "Pelezinhos". Disse “Não. Vocês vão para o Sporting”.

Nessa altura não tinha preferência?
Não, não me dizia nada, estava tão contente por termos ganho o Torneio da Costa e saber que tinha suscitado interesse nesses dois clubes. Nunca tive preferência. E o senhor Coutinho foi mais rápido a agir, pegou em nós e levou-nos ao Sporting direto. Enquanto que pelo Benfica tínhamos de esperar que nos contactassem para lá ir.

O cartão do Sporting de Semedo, quando estava nos infantis

O cartão do Sporting de Semedo, quando estava nos infantis

D.R.

Então chega ao Sporting com 8 anos?
8, 9 anos no máximo. Às escolinhas.

Ia e vinha todos os dias da Bela Vista para o treinos?
Sim, íamos com o senhor Coutinho. Ele levava e trazia. Nas escolinhas não havia treinos todos os dias, eram duas ou três vezes por semana. Quando passámos a infantis, devíamos ter uns 11 anos, já íamos sozinhos de autocarro. Apanhávamos autocarro aqui nos Belos até à Praça de Espanha, lá apanhávamos metro. E vínhamos sozinhos, chegava a casa às dez da noite.

Fala sempre no plural, quem eram os outros miúdos do bairro que foram consigo?
Eram o João Monteiro, que acabou por vir para o Vitória, era lateral esquerdo. Depois tinha o Valdemiro, que hoje joga mas não a nível profissional. Depois tinha o João Candeias que era guarda redes e nunca mais ouvi falar dele. O Américo, que é de etnia cigana, vi-o há uns dois anos, estava a tomar o pequeno- almoço e ele veio ter comigo para me vender uns óculos. Quando olhei para ele, não o reconheci logo, tinha chapéu e uma barba muito grande. Mas pensei “esta cara não me é estranha”. Ele também ficou a olhar para mim, já não nos víamos há 15 ou 20 anos. Quando disse “Américo?”, ele “Fogo, Semedo, és tu?”. Foi uma coisa, uma emoção de estar ali com ele. Fomos os 5 sempre juntos para as escolinhas e depois para os infantis. A partir daí alguns foram dispensados. Fiquei eu, o Valdemir e o Américo.

Semedo com o amigo Cristiano Ronaldo

Semedo com o amigo Cristiano Ronaldo

D.R.

Era cansativo fazer essas viagens todos os dias.
Era. Nós levávamos o dinheiro sempre à conta e, uma vez, acabámos o treino, estávamos com uma fome, mas uma fome... Aquela fome que ou comes ou apanhas o autocarro para vir embora (risos). No metro tinham aqueles croissants quentes e nós a passar, um cheirinho... Fomos comer. Tínhamos dinheiro para o metro, apanhámos o metro. Quando chegámos ao autocarro, já não tínhamos dinheiro e nós a pensar: “como é que vamos para Setúbal”. Estava frio, pegámos na t-shirt, pusemos os braços por dentro, só ficavam as mãos de fora, e ficámos sentados ali, na paragem. O motorista veio ter connosco: “Então, hoje não vão?”. “Não podemos, não temos dinheiro porque comemos, estávamos cheios de fome”. “Agora como é que vão para Setúbal? Vá, sentem-se lá atrás, mas vão caladinhos, não fazem barulho nenhum, porque depois vai entrar o “pica” e se ele vos apanhar, vocês vão levar multa e vão presos”. (risos). Hoje percebo o que ele nos disse, porque nós geralmente íamos lá atrás a falar mais alto e a rir, incomodávamos um bocadinho as pessoas. Éramos crianças, não tínhamos noção. E viemos caladinhos. Conseguimos comer e conseguimos vir para casa. Mas era complicado ir e vir todos os dias. Depois de algum tempo, o Américo começou a faltar aos treinos e deixou de ir. O Valdemiro também.

É nessa altura que o Cristiano Ronaldo chega ao Sporting?
Sim, e como éramos os dois de fora da zona de Lisboa, pegámos logo um no outro.

Nessa altura não estava a viver no centro de estágio?
Só aos 13, 14 anos é que fui viver para o centro de estágio, porque começaram a ter receio de que me acontecesse o mesmo que aos outros e deixasse de aparecer. Eu nunca iria fazer isso. Eu só não queria ficar no centro de estágio porque depois dos treinos estava habituado a ir ter com os meus amigos, os meus pais, a minha família e para a rotina que tinha no bairro. Mas, na altura, o bairro começou a ser um bocadinho problemático, com roubo de carros e essas coisas.

Semedo com a camisola da seleção nacional

Semedo com a camisola da seleção nacional

John Walton - EMPICS

Quando é que tem a percepção de que vivia num bairro problemático?
Não temos essa noção, porque a nossa realidade é aquela. Era como se estivéssemos fechados. Lembro-me que, só com 13 anos, quando fui viver para o Sporting, é que tive a capacidade de ver em que realidade estava. Porque ali no bairro, nós queremos é estar ali. Vamos à escola, mas na escola todos os miúdos gostariam de ser do nosso bairro, porque toda a gente falava no bairro. Roubavam carros e os nossos ídolos são aqueles mais velhos que roubavam os carros.

Não viam maldade, era coisa normal.
Exatamente. Era eles a aparecerem com carros no bairro e nós a fazer festa. Sentávamo-nos em cima do carro e fazíamos uma grande festa. “Fogo, aquele trouxe um carro novo para o bairro”. Recordo que, na noite anterior ao dia em que era para ir para o Sporting, houve o roubo de um carro, um Honda S2000, que na altura era uma máquina. Aquele carro chegou ao bairro e foi uma loucura. Dois dias depois, ia para o centro de estágio do Sporting e pensava: “Eu não quero ir para o Sporting. Vou ficar aqui, vou e venho todos os dias. Quero ficar aqui”. Mas depois pensei melhor: “Não, deixa-me ver como é que é. Se não me adaptar, volto”.

Pelos vistos, adaptou-se.
Mas há uma coisa engraçada. Aquilo do carro tinha acontecido no sábado e na segunda-feira cheguei ao centro de estágio. Não conhecia muita gente, só o Ronaldo, porque os outros eram maiores, eram já sub-14, sub-15, sub-16. Fui ver o treino da 1ª equipa. Fui sozinho. Sabia que havia treino e fui a pé lá para cima para ver o treino. Era a equipa do Schmeichel, André Cruz, Beto, e fiquei até ao final do treino. Eles treinaram, foram tomar banho e eu fiquei na porta à espera para os ver sair. Tiravam a chave do carro, entravam no carro deles, Mercedes, BMW’s, todos tranquilos e naquela altura veio na minha cabeça assim: “O que é que tu queres para a tua vida? Queres aquele cenário do roubo e a polícia e as sirenes a aparecerem e todo o mundo a fugir? Ou queres esse cenário, de acabar o trabalho, tomares o teu banho, teres a chave para abrir o teu carrinho, não haver polícia, e ires para a tua família?”. A partir daí não olhei mais para trás. Lembro-me disso como se fosse hoje.

Semedo Festeja com Miguel Veloso um golo que este acabou de marcar pela seleção de sub-21

Semedo Festeja com Miguel Veloso um golo que este acabou de marcar pela seleção de sub-21

John Walton - EMPICS

Até aos 13 anos viveu alguma situação mais perigosa ou foi aliciado para alguma coisa lá no bairro?
Sim. Tu tens os teus amigos do bairro, vês os mais velhos irem roubar e já começas a pensar em roubar também. Eu tinha 10 anos e com os meus amigos tentámos abrir um carro porque era o que víamos os mais velhos fazer no bairro. Íamos seguindo as coisas que nos ensinavam. Hoje eu vejo os meus sobrinhos e digo: “Vocês vivem num luxo”. Hoje em dia já ninguém rouba, não há polícias, nem nada.

Eles vivem no bairro da Bela Vista?
Sim. A estrada agora já está toda arranjada. Antigamente estava toda partida, não havia luz porque partíamos as luzes por causa da polícia, para podermos fugir com tudo escuro. O bairro era complicado. Tinha colegas meus que vinham da escola comigo, eu vinha a casa, mas eles não entravam no bairro, ficavam na paragem. Eu ia a casa e voltava mas eles não entravam, tinham medo.

O Semedo nunca teve medo? Nem mesmo quando a policia entrava no bairro?
Não, porque como tu cresces com aquilo, habituas-te. Torna-se natural. Depois, a sobrevivência no bairro passava por andares muito à porrada. Para teres algum respeito tens que lutar. Lembro-me de uma vez chegar a casa a chorar e o meu pai se virar para mim: “Tu estás a chorar? Ai é? Então agora chora”. Tirou o cinto e disse: “Homem não chora aqui”. A partir daí qualquer coisa que me faziam no bairro já andava à porrada. Sempre. Era a sobrevivência.

Nenhum dos seus irmãos jogou futebol?
O meu irmão mais velho também andou no futebol, jogava nos "Pelezinhos" e o Belenenses estava interessado nele mas na altura havia aquela limitação de jogadores estrangeiros e acho que foi isso que complicou. Naquela altura éramos considerados estrangeiros. A minha sorte foi estar a jogar no Sporting. Havia duas equipas, a sub 15 A e a sub 15 B, eu jogava na sub 15 B porque era o meu primeiro ano de sub 15. Fomos jogar no pelado e estava lá o selecionador que foi ver de um jogador para levar à seleção nacional. Nesse jogo joguei bem, ele gostou de mim e perguntou: “Então esse jogador?”. Disseram que eu era estrangeiro, mas lá me ajudaram e consegui ter a papelada rápido. Como consequência, os meus irmãos também acabaram por ter. Mas, na altura em que isso aconteceu, o meu outro irmão já tinha deixado o futebol.

Semedo e Soraia no dia do casamento

Semedo e Soraia no dia do casamento

D.R.

Estava a contar que quando lhe deu o “clique” decidiu ficar no centro de estágio. Ficou numa camarata com quem?
O Ronaldo, o Maruca e o Zézinando

Nessa altura muda de escola, para Lisboa?
Sim, fui para a escola de Telheiras. Tinha passado sempre de ano. Mas quando cheguei ao Sporting, já não, porque só pensava no futebol. Ia para a escola, não faltava, mas depois com os colegas, também com o Ronaldo, às vezes ele tentava que eu faltasse. Tínhamos muito sono de manhã porque à noite íamos para o ginásio e jogar um contra o outro no pavilhão.

Iam às escondidas.
Pois. Era para ficarmos fortes, porque diziam que éramos magrinhos (risos). Até era mais ele. Ele é que queria estar forte e queria ser o melhor em todos os pontos, o mais rápido, mais tecnicista. Íamos jogar um para um e treinar até à meia noite. Deitávamo-nos à meia noite e meia, uma da manhã. Como é alguém se ia levantar para ir para a escola? (risos). Ele dormia, mas eu, para não ouvir de ninguém, ia. Porque ele era craque e sabia que a ele pouco ou nada lhe podiam fazer, penalizavam-no com algumas coisas.

O quê?
Ir despejar um caixote do lixo grande, que ninguém queria fazer. Pusemos o nome de Ferrari ao caixote do lixo (risos). Como o Ronaldo faltava às aulas, era ele que ia despejar o lixo. Quando passava no corredor, e o pessoal estava sentado a ver televisão, começava tudo: “Vruuum, vrumm, lá vai o Ferrari”. O Ronaldo ficava sério e dizia: “Pode ser que um dia tenha um de verdade e depois quero ver vocês a fazer ‘vrumm, vrumm’” (risos).

Semedo e o seu grande amigo de infância Cristiano Ronaldo

Semedo e o seu grande amigo de infância Cristiano Ronaldo

D.R.

Como é que faziam para ir para o ginásio à noite?
Às onze horas o segurança vinha fazer a ronda. Fechava as portas em baixo para ninguém sair e, enquanto ia dar outras voltas da ronda, íamos para o ginásio. Só que depois tínhamos outro problema que era o pessoal dos juniores com 16, 17 anos. Eram como se fossem os nossos irmãos mais velhos. Se nos acontecesse alguma coisa, o professor Naré, que era o coordenador do centro de estágios, ia ter com eles perguntar: “Como é que é?”. Lembro-me que, quando íamos tomar duche, havia um espelho e nós sem camisola víamos o peito e os braços a crescer e ficávamos todos satisfeitos, ainda fazíamos umas flexõezinhas extra (risos).

Mas houve altura em que o Ronaldo pregou-lhe a partida, não foi?
Houve uma altura em que o pessoal começou a dizer: “Tu estás a ficar com músculo Semedo. E tu fininho, não está a aparecer nada” (risos). O gajo ficou doido. Começámos a levantar peso e eu levantava mais peso do que ele. Depois, ele pregou-me a partida porque tínhamos combinado que íamos sempre juntos, às onze. Houve um tempo em que chegava aquela hora e ele não aparecia. Eu andava a perguntar a toda a gente: “Onde é que está o Ronaldo?”. E o Ronaldo nada. Achei estranho. Um dia enquanto andava à procura dele ouvi o barulho de uma máquina no ginásio. Saltei para o ginásio e vi-o: “Mano, então? Vieste aqui e não me chamaste?”. E ele: “Ah, eu também estava à tua procura, mas não te encontrei. Já que estás aqui, eu já fiz umas séries, mas vou fazer contigo outra vez” (risos). Ele queria dobrar os exercícios, a noção dele era que ganhava vantagem com a sobrecarga de treino.

Semedo com o equipamento do Cagliari, de Itália

Semedo com o equipamento do Cagliari, de Itália

D.R.

Não sentiu saudades da família nos primeiros tempos no centro de estágio?
Sim, da minha mãe. Custou. Às vezes chorava, mas como tinha os outros mais velhos que já tinham passado essa fase, viravam-se para ti: “Então, ó bebé, estás a chorar?”. Limpavas as lágrimas e não deixavas que ninguém te visse chorar. Passado um mês, entras na rotina e já nem te lembras das saudades. O que custava era voltar depois das férias. Isso era o mais difícil. Quando acabava a época, voltavas a casa, ficavas com a família, com os teus amigos, já jogavas no Sporting e era aquela alegria, trazias um equipamento do Sporting para o teu irmão, estavas em família. Depois, quando acabava as férias, para voltar, quebrava e era o choro. Eu sempre chorei, mesmo mais recentemente quando vinha de Inglaterra para casa e passava aqui 6, 7 semanas, quando tinha de voltar chorava sempre.

Levou o Ronaldo para conhecer o seu bairro?
Sim. E quando as irmãs e a mãe dele iam a Lisboa, estávamos sempre juntos, íamos passear, eu ia com eles também.

Semedo durante um treino do Charlton, em 2007

Semedo durante um treino do Charlton, em 2007

Adam Davy - EMPICS

Houve uma altura em que esteve para desistir, não foi?
Houve uma altura em que não tive uma boa época no Sporting, nos sub-15 salvo erro, dois anos depois de lá estar. As coisas não me correram tão bem, acho que também foi um bocado mental: “Já estás aqui, és jogador, já não precisas...”

Desleixou-se?
Exatamente. E eles queriam que eu continuasse lá, mas não vivendo lá. Queriam que eu voltasse para casa. Disse ao Ronaldo: “Para o ano vou continuar a treinar mas não vou estar aqui. Vão trazer outros jogadores e precisam de espaço” E ele: “Não, se tu voltas lá para o bairro, já não te vou ver mais. Não vais consegui ser jogador, vais-te perder porque a vida no bairro é muito difícil”. Disse-lhe que não, queria continuar a treinar, mas ele insistiu. “Não. Eu vou falar com eles, tu sabes que eles aqui vão fazer o que eu lhes pedir porque senão vou querer ir embora também. Nem que ponham mais uma cama no quarto”. Ele foi falar com eles, puseram mais uma cama no quarto dele e fiquei. Deu-me mais um “clique”. Disse para mim “Essa oportunidade não vou perder”.

Depois do centro de estágio ainda vai viver com o Ronaldo para uma residencial em Lisboa.
Sim, aos 16 anos fomos para uma residencial no Marquês de Pombal, porque a academia de Alcochete estava ser feita. Éramos uns 20, 25. Eram duas residenciais, uma ficava no Marquês de Pombal e a outra no Saldanha, salvo erro.

Na idade de querer sair à noite, ainda por cima estão no centro de Lisboa...
Não deu muito para essas aventuras porque passados uns meses fomos logo para a Academia, em Alcochete. Nessa altura o Ronaldo já estava a treinar com a primeira equipa; o Ronaldo nem chegou a ir viver para a Academia, tornou-se independente.

Semedo em ação pelo Charlton

Semedo em ação pelo Charlton

PA Images

É nessa altura que larga a escola?
Quando vamos para a Academia, éramos muitos, uns 40 ou 50 jogadores. Agora imaginem chegarem a uma escola normal jogadores do Sporting, miúdos de 12, 14, 15 anos. As miúdas ficaram malucas com aqueles miúdos novos, com sotaques diferentes, uns do norte, outros do sul, foi uma loucura, era confusão todos os dias, era guerra todos os dias.

Porquê?
Porque os miúdos de Alcochete ficaram fartos e com ciúmes dos miúdos do Sporting (risos). Havia sempre confusão. De manhã tinha que ir defender este, à tarde aquele, chegou a um ponto que era insuportável estar ali na escola. Foi quando na Academia formaram um curso que dava equivalência ao 9º ano e foi quando eu, o Yannick e o Miguel Paixão, fizemos o 9º ano, já estávamos na equipa B.

Então, mas quando é que sai a primeira vez à noite?
Tinha uns 17 anos, foi em Lisboa. Foi a primeira vez e por acaso estava com o Yannick. Já estávamos em Alcochete, mas tínhamos ido a casa dos pais do Yannick e dali fomos sair. Foi a um daqueles bares em Alcântara, nas docas. Foi a primeira vez na vida, sempre tinha ouvido falar de discoteca e aquilo foi uma loucura, não queríamos que acabasse.

Foram reconhecidos?
Na altura ainda não. Mas foi uma alegria, cumprimentávamos toda a gente como se conhecêssemos toda a gente.

Nessa altura o que é que ambicionava enquanto jogador?
Queria chegar à primeira equipa. Eu comecei a jogar a extremo direito, depois passei para defesa direito, depois a central e de central a médio defensivo. Corri várias posições.

Qual a posição em que se sente mais confortável?
Na de número 6, médio defensivo. Mas fui formado mais a jogar a central e quando fui para Inglaterra, já na fase sénior, é que me torno médio defensivo.

Semedo agradece o apoio dos adeptos do Charlton

Semedo agradece o apoio dos adeptos do Charlton

Matthew Impey - EMPICS

Quando se torna sénior, ainda no Sporting, é emprestado ao Casa Pia. Porquê?
No meu primeiro ano de sénior já não havia equipa B. A equipa satélite do Sporting era o Casa Pia. Também havia muito boas relações com o Olivais e Moscavide. Acabei por ir para o Casa Pia, eu e o [Silvestre] Varela que éramos da mesma geração.

Foi uma grande desilusão para si?
Foi difícil porque na altura havia aquele problema grande com a Casa Pia, sobre a pedofilia, e mexe um bocadinho com a tua cabeça porque estás a jogar no Sporting e de repente estás no Casa Pia. Íamos jogar fora e chamavam-nos “Bibis” e era sempre muito difícil para nós. Por outro lado, é difícil porque cresces num ambiente de “luxo”, de ambição, de Taças de Portugal, de campeonatos, e no teu primeiro ano de sénior é o ano em que perdes mais jogos. Começas a ficar frustrado porque na tua formação não estás habituado a perder. Com qualquer equipa que tu jogues, na tua mente o objetivo é ganhar. Habituas-te a isso. É proibido perder, tens de ganhar, tens de ganhar.

Nessa altura ainda vivia na Academia?
Sim.

Já tinha carro?
Já. Tirei a carta logo aos 18 anos.

Qual é o seu primeiro carro?
Andava com o carro da minha irmã, um Peugeot 506. Depois comprei um BMW 320, na época a seguir ao Casa Pia.

Lembra-se do primeiro contrato que assinou e que dinheiro ganhou?
Foi no Sporting, um contrato profissional quando subi a sénior. Mas já antes tinha o contrato de formação em que ganhava algum. Hoje em dia seriam cento e tal euros. Dei logo à minha mãe. Nunca fui de comprar alguma coisa para mim.

E o valor do primeiro contrato sénior, recorda-se?
Mil e tal euros. Aí dava à minha mãe e tirava uma parte para mim. Mas só tirava para mim o que precisava: uns duzentos, trezentos euros. Já chegava. Era para comprar alguma roupa, um perfume, para a carta de condução, para a gasolina.

Semedo ganhou por duas vezes o troféu de jogador do ano enquanto esteve no Charlton de Inglaterra

Semedo ganhou por duas vezes o troféu de jogador do ano enquanto esteve no Charlton de Inglaterra

Steve Wake - EMPICS

Quem eram os seus concorrentes diretos na equipa principal do Sporting?
Era o Beto. Eu fiz parte da equipa principal como terceiro central. Primeiro era o Beto e o Hugo. Em janeiro desse ano, o Peseiro sai, entra o Paulo Bento e emprestam-me ao Feirense. No final da época havia o Europeu e eu ia à seleção de sub21.

Vestir a camisola da seleção foi um momento especial?
Porra, foi um momento... eu nasci em Portugal, nunca fui a Cabo Verde. Quando nasci e quando soube quem eu era, os meus irmãos e os meus avós estavam aqui. Ou seja toda a minha família de primeiro grau estava em Portugal. Nunca tive conexão com Cabo Verde. Conseguir ir à seleção, anda por cima fui com o Ronaldo. Ele ia sempre ia à seleção. Quando fui a primeira vez, senti uma força. O Ronaldo era o maior, era a estrela e apresentou-me logo a toda a gente.

Então também foi uma emoção grande ouvir pela primeira vez o hino nacional.
Possa… Só vestir a camisola da seleção, eu não acreditava! Estar com o símbolo de Portugal ao peito, um gajo ficava maluco (até me estou a arrepiar, olha aqui). Aquela coisa toda, o hino… O meu primeiro jogo foi contra a Holanda e ganhámos, salvo erro, 2-0. Fui para o Feirense nessa época que não joguei na primeira equipa do Sporting. Foi quando o mister Agostinho Oliveira me disse: “O Campeonato da Europa está à porta, é importante que jogues”. E fui para o Feirense que estava na 2ª Liga.

Semedo com outro troféu de jogador do ano em Inglaterra

Semedo com outro troféu de jogador do ano em Inglaterra

PA Images

Foi viver para Santa Maria da Feira. Custou-lhe sair daqui?
Sobretudo por causa do frio.

Foi sozinho?
Sim. Estava a viver com um colega de equipa num apartamento.

Como correu a época no Feirense?
Foi um espetáculo. Estávamos para descer de divisão mas fizemos uma recuperação tremenda, uma série de vitórias e empates. Acabámos por nos salvar da descida nas duas últimas jornadas.

E depois foi para Itália.
Depois fui ao Europeu de sub 21, em 2006. E a seguir fui para o Cagliari, em Itália.

Tinha empresário?
Tinha, era o Carlos Gonçalves.

Como é que surge o empresário?
O Carlos era meu empresário desde os 16 anos, desde que fui para a seleção. Surgiu através de uma jornalista que tínhamos no Sporting que conhecia o Carlos Gonçalves. Disse-me que havia uma pessoa interessada em olhar por mim e ajudar-me na carreira. Apresentou-me a ele.

Quando ele lhe faz a proposta de ir para ao Cagliari qual foi a sua reação?
Foi pensar em jogar na série A. E Itália é dos países que se diz ser mais disciplinado defensivamente e onde se aprende bastante.

Portanto não hesitou.
Não, ia jogar na série A, contra o Ronaldo brasileiro, contra o Kaká, contra o Pilro, contra o Milan dessas grandes estrelas. Eu pensava: “Fogo, vou jogar contra eles, que só vejo na televisão. Cresci a vê-los na televisão e agora vou estar ali com eles”.

Foi sozinho?
Vou.

Chris Powell, treinador do Charlton e Semedo

Chris Powell, treinador do Charlton e Semedo

Matthew Impey - EMPICS

Como é que foi ver-se pela primeira vez sozinho e fora do país?
Sair de Portugal foi ainda mais difícil do que ir para o centro de estágio. Sair de Portugal foi muito difícil mesmo. Não estava a aguentar com saudades e às vezes queria voltar para aqui, ligava à minha namorada e dizia que tinha saudades.

Essa namorada é a sua atual mulher?
É, é a Soraia.

Quando e como é que a conhece?
Quando fui para o Casa Pia. Ela vivia no mesmo prédio da minha irmã, em Lisboa. Eu tinha as minhas namoradas em Lisboa e chegava à minha irmã, levava o carro e o meu cunhado dizia: “Tu tens manias, só queres namoradas, mas há uma rapariga que tu não pegas”. Perguntei logo “Quem é?”. “É a sobrinha dos irmãos grandes”, porque os tios dela são todos bem altos e nós chamamos de irmãos grandes. “Então dá-me o número dela e vais ver se eu não pego”. Eu, naquela de miúdo, confiança e tal (risos). Liguei-lhe, combinei encontro, lembro que foi em 2005, no dia em que o Benfica foi campeão.

Ela é benfiquista?
É. Fui encontrar-me com ela nessa noite. Até estava cansado e ainda pensei: “Não, não vou”. Mas depois, como ela estava à minha espera, fui. Gostei dela logo ali naquela altura (risos).

Pelos vistos também gostou de si ou ela foi difícil?
Foi um bocadinho difícil. Difícil para chegar aos finalmentes (risos), isso aí deu-me trabalho, já estava a começar a ficar maluco.

O que ela fazia na altura?
Estudava. E estava a tirar o curso de esteticista. Quando fui para o Feirense, ela ficou em Lisboa. Ia e vinha aos fins de semana. Quando fui para Itália já seguimos a tradição caboverdiana, apesar de eu não viver muito as tradições de Cabo Verde. Mas a tradição diz que se o homem vai tirar uma rapariga de casa, já não a pode devolver a casa. Fui para Itália e disse ao meu pai que ia levá-la. O meu pai só me disse: “Se vais tirar a filha dos teus futuros sogros de casa, depois não vais levá-la lá outra vez. Pensa bem se é o que tu queres”. Como gostava dela... Ela foi lá um mês e meio depois. E estamos juntos até hoje.

Semedo com Cristiano Ronaldo e uma das cinco bolas de ouro que este ganhou

Semedo com Cristiano Ronaldo e uma das cinco bolas de ouro que este ganhou

D.R.

Quando chegou a Itália, comunicava em inglês?
Não, nessa altura não falava inglês. Foi mesmo ter que aprender, também se percebia muita coisa. Quando lá cheguei, depois do hotel, fui para o centro de estágio, vivia sozinho na ala da equipa principal, onde havia alguns jogadores do Uruguai e do Paraguai que falavam em espanhol. Depois de uns três meses apanhas tudo.

Notou muitas diferenças nos métodos de treino?
Sim, muitas. O setor defensivo mais os dois médios defensivos... treinávamos sempre uma hora a mais do que os outros. Começávamos uma hora mais cedo. Às vezes treinávamos com cordas que é para as distâncias estarem certas. Tens o lateral direito, o central e o lateral esquerdo. Se o central sai e puxa a corda faz com que os outros dois se juntem. Faz um triângulo.

Gostou, adaptou-se?
Sim, vi porque é que eles são os melhores. Os italianos quando marcam um golo, depois é complicado sofrerem porque são treinados assim desde pequenos para defender bem.

Sentiu que cresceu como jogador?
Senti. Não joguei muito nesse ano, acabei por fazer a minha estreia em San Siro, contra o Milan. Na altura jogava o Ronaldo, o brasileiro, e eu dentro do campo pensava: “Fogo como é que é possível, estou aqui com o Ronaldo brasileiro, o fenómeno que eu vi no Barcelona a rebentar com tudo e hoje está aqui no AC Milan”.

Sentia que os seus sonhos estavam a concretizar-se.
Exatamente. E havia o sonho de jogar em Inglaterra. Eu e o Ronaldo costumávamos ver a Liga inglesa, o David Beckham, o Dwight Yorke. O Ronaldo dizia: “Semi o nosso campeonato é o inglês. Nós temos que ir para Inglaterra”. E ele foi. Depois, nesse ano, voltou a haver o Campeonato Europeu de sub21 e eu tinha um ano de empréstimo, mas 4 de opção por parte do Cagliari. Entretanto, surgiu o Charlton, de Inglaterra. Era uma equipa que tinha descido para a II liga, mas a ambição deles era subir. Quis ir para Inglaterra. Não assinámos os 4 de opção com o Cagliari e assinámos com o Charlton.

Semedo com a mulher e os filhos

Semedo com a mulher e os filhos

D.R.

Já vamos a Inglaterra. Estava a dizer que a sua namorada foi ter consigo a Itália. Aproveitou para conhecer Itália, deu para isso?
A Sardenha, a zona onde eu estava, sim. Sempre que querias ir a Milão, tinhas que viajar e como não falava muito bem e não era o meu país, não saí muito. Estava mais na Sardenha e era um paraíso, havia sempre bom tempo, não chovia.

O que é que faziam nos tempos livres?
Passeávamos, íamos à praia, comer pizza ao centro comercial. Acontecia uma coisa engraçada. Todas as pessoas de cor que víamos ali estavam nos semáforos a vender qualquer coisa. Era muito raro ver uma pessoa de cor a trabalhar numa loja, não sei porquê. Eu e a minha mulher, quando íamos ao centro comercial, as pessoas mais velhas ficavam a olhar para nós e diziam: "Picolla, que ragazza bella”. Verem-nos a fazer compras no centro comercial para eles era estranho. Uma vez perguntei ao David Suazo porque é que aquilo acontecia. Ele é que me explicou que naquela zona as pessoas de cor eram refugiados e por isso viam os negros mais como alguém que não tem sucesso.

Sentiu racismo?
Em Itália, sim. Se eu estava na rua e quisesse uma informação, abordava uma pessoa e ela dizia logo que não sabia, eu sentia que estava com receio. Itália foi o único país onde senti isso.

Em Inglaterra não?
Não.

O Ronaldo incentivou-o a ir para Inglaterra?
Ele não sabia; eu estava em Itália e ele também dizia que Itália era um país bom para mim, que era defesa. Depois quando surgiu a hipótese de ir para Inglaterra, para o Charlton, ele ficou contente. “Quando for jogar a Londres vamos estar juntos e vens aqui a minha casa, a Manchester”.

É em Inglaterra que retomam maior proximidade um com o outro?
Sim, quando estava no Manchester ainda veio uma ou duas vezes ter comigo à Academia do Sporting, mas depois ficámos 3, 4 anos sem nos ver, só falávamos por mensagem ou por telefone.

Semedo a dar um autógrafo, em Inglaterra

Semedo a dar um autógrafo, em Inglaterra

EMPICS Sport - EMPICS

Londres, uma cidade diferente, um país diferente, uma cultura diferente. Como é que foi a adaptação?
Quando cheguei o problema foi a lingua, eu só pensava: “Eu nunca vou falar esta língua” (risos). Em Portugal os filmes são todos em inglês, está habituado a ouvir, mas é o inglês americano. Em Inglaterra eu não percebia nada. Falavam tão rápido, tão rápido que não percebia e achava que não ia conseguir falar a língua.

Adaptou-se à vida de Londres e aos ingleses?
Sim. O conduzir com o volante ao contrário é que... Bati com o carro. Perdes a noção do espaço no lado contrário, é diferente, e a jante raspava sempre nos passeios (risos).

Que carro é que tinha na altura?
O clube deu me um Mercedes. Foi difícil adaptar-me a conduzir. Falei com o Hugo Viana que me disse que o mais difícil eram as rotundas, para ter cuidado, para não entrar ao contrário. Nunca me esqueci. Depois habituas-te às rotinas em que andas e já não te enganas. A comida também é muito diferente da nossa. Quando ainda estava no hotel às vezes sentia-me muito mal e tinha que ir comprar um pão e fazer a minha sandes. Mas mesmo o pão era diferente ao que estava habituado aqui. Tudo era diferente, o tempero era diferente. Até ter a minha casa onde era a minha mulher que cozinhava.

O que é que o impressionou mais em Londres?
O centro de Londres, a quantidade e variedade de gente. Chineses, japoneses, italianos, espanhóis...E Camden Town, onde vês tudo o que queres e o que não queres. É a beleza que tem Londres, ninguém fica a reparar. Cada um expressa-se da sua maneira. Outra coisa que me agradou em Inglaterra é que não ligam muito aos carros. Saem para a noite e vão de táxi. Em Portugal liga-se muito a essas coisas, aos carros, à roupa de marca, a isto e aquilo. Lá o status é zero. Isso agradou-me muito.

Semedo já com o equipamento do Sheffield

Semedo já com o equipamento do Sheffield

Barrington Coombs - EMPICS

Entretanto vai para o Sheffield. Como e porquê?
Acabou o meu contrato com o Charlton e eles queriam renovar, mas havia algumas reticências. Foi quando o treinador do Sheffield, Gary Megson, veio ter comigo e disse que estava a construir uma equipa para subir para a Championship, 2ª Liga. O Charlton também estava na 2ª B, ou seja League One. Disse-lhe: “Estou há 4 anos no Charlton, já estou em casa e nos dois últimos anos fui jogador do ano. Sinto que é a minha família, foi o meu primeiro clube aqui, sou muito acarinhado e acho que o mais certo é renovar com eles”. Mas ele apresentou-me o projeto, disse que eu iria ser um dos capitães da equipa, que iria construir a equipa para subir. Fui bater à porta do Chalrton para saber qual era a minha situação, senti um bocadinho de hesitação e decidi ir para o Shelffield.

Foi para o norte de Inglaterra, muito diferente de Londres. O que é que lhe custou mais?
Os tempos livres porque em Londres tens sempre alguma coisa para fazer. Podes ir a um teatro, podes ir ao centro de Londres ver sempre coisas diferentes. E Sheffield é uma cidade universitária, com muitos estudantes e só tens um pequeno centro comercial. Não fazes muito mais coisas. Mas fiquei encantado com as pessoas. São mais amorosas, são mais dóceis. Em Londres, só depois de dois anos de lá estar é que comecei a falar com o meu vizinho. Eles não falam contigo. Em Sheffield, logo no primeiro dia que cheguei à minha casa, os vizinhos vieram bater à porta para se apresentar. “Sou o Mark que vive aqui na porta 78, bem vindo e qualquer coisa que precises, estamos aqui ao lado”.

Nessa altura já dominava o inglês.
Sim. Ao fim de 1 ano já me tinha adaptado à lingua.

Semedo em ação pelo Sheffield, onde esteve 6 épocas

Semedo em ação pelo Sheffield, onde esteve 6 épocas

Matthew Ashton - AMA

Já tinha filhos?
Sim, os gémeos. O Jason e o Denzel, nascem na 2ª época em que estou no Charlton. Em janeiro de 2009. A Soraia tem muitos gémeos na família dela, é normal. Na minha família também há mas já têm 50 anos. Tenho 10 irmãos e só dois é que não têm filhos, nos outros 8 nunca ninguém teve gémeos por isso nunca pensei em gémeos.

Quando recebe a notícia de que vai ser pai de gémeos, como é que reage?
Quando a minha mulher fez a ecografia eu estava em estágio. Liguei-lhe à noite, ela diz-me que está tudo bem e eu perguntei “Então é rapaz ou rapariga?”. “Quando chegares a casa eu digo-te”. Fiquei a pensar que era uma rapariga, porque eu queria rapaz. Para ela não me querer dizer... Quando cheguei a casa ela deu-me duas chuchas. “Então mas porque é que me estás a dar duas chuchas?”. Estava longe. Só passado um bocado é que comecei a perceber. Fiquei maluco de contente. Depois lembrei-me: “São rapaz e rapariga?”. Quando ela me diz que são dois rapazes…Ai Jesus.

Porque é que queria rapazes?
Para sermos amigos, irmos jogar à bola, para serem meus camaradas. Não disse nada aos meus pais para lhes fazer surpresa. Só passados 4 meses, quando os meus pais foram a Inglaterra ao casamento da minha irmã, que tinha ido viver para lá, é que viram a barriga. Foi uma festa.

Assistiu ao parto?
Não assisti porque não deixaram. Foi cesariana, nasceram prematuros, um estava a comer mais do que o outro e acabaram por ter que nascer com 5 meses e tal, seis meses.

Apanharam um susto.
Sim, o mais pequeno, nasceu com um quilo e o outro com um quilo e pouco. Ficaram 3 meses na incubadora. Foi muito difícil, mas hoje já têm 9 aninhos e estão aí a correr, graças a Deus. Mas naquela altura custou; a Soraia também estava em risco por causa da gravidez e os médicos disseram: “Ou é agora, ou perdes um filho, porque o oxigénio está baixo". Decidimos que era o momento. Graças a Deus correu tudo bem, mas foi um susto terrível.

Os gémeos de Semedo

Os gémeos de Semedo

D.R.

Esteve mais seis épocas em Sheffeild. Já é quase mais inglês do que português.
Sim (risos).

Em que é que se sente que se tornou mais inglês?
Na paixão pelo futebol. A paixão que eles têm pelo futebol é uma coisa.

Em que é difere da nossa?
Na honestidade. São adeptos honestos independemente de perderem ou ganharem, eles vão lá sempre, exigem que tu ganhes mas apoiam-te sempre. Não é: “Estás a ganhar, vou. Estás a perder, não vou”.

Não têm o clubismo exacerbado como existe em Portugal?
Têm. Mas, enquanto aqui em Setúbal temos muitas pessoas que são do Sporting, do FCP e do Benfica, lá, não. Lá és de Sheffield és do Sheffield. Por isso é que vais ao estádio e tens 30 mil adeptos independentemente da divisão em que estejas. Há alturas em que no aquecimento nem dá para ouvir o treinador a falar. E estamos a falar de equipas de 2ª B. Em Portugal isso é impossível. O Sporting, o FCP e o Benfica são tão grandes e fortes a nível nacional que esmagam os outros. Depois, em Inglaterra, os programas televisivos dão destaque igual a todos. É destaque igual para o Manchester City, o Manchester United, o Southampton, Newcastle; ou seja, toda a gente vê e sabe das coisas dos clubes todos. Aqui ligas a televisão e não ouves falar do Vitória, só se formos jogar com um dos três grandes. É essa a diferença. Em Inglaterra todas as equipas são grandes.

Semedo, segundo à direita, durante o Tour CR7 pela China.

Semedo, segundo à direita, durante o Tour CR7 pela China.

D.R.

Foram 10 anos em Inglaterra: qual a melhor e pior recordação que tem de lá?
A pior coisa que posso dizer sobre Inglaterra é mesmo só o clima. Lembro-me de ouvir as pessoas dizer que o povo inglês é frio, mas não acho nada disso. Acho os italianos mais frios, pelo menos na Sardenha. Os ingleses são muito respeitadores, muito educados, pedem sempre por favor, dizem obrigado, sempre com muita educação e carinho. Aqui em Portugal há vida na rua até pelo menos às 11 da noite e quando cá cheguei fazia-me confusão, porque vinha de Sheffeild onde tudo fechava as oito da noite. Agora já me habituei, mas quando cheguei a minha mãe às vezes não me via, perguntava à minha mulher por mim, ela dizia que eu estava em casa. “Mas ele está sempre em casa?” (risos).

O que faz em casa?
Sentes a casa. Leio livros. Sentes o conforto e a harmonia da tua casa e sentes-te bem. Não há nada que tu precises fora, tens tudo em casa. Em Inglaterra habituas-te a ter tudo em casa e não precisas de nada lá fora.

Que livros gosta de ler?
Livros de psicologia, de mindfulness. Mais virados para isso, ajuda-me bastante. Hoje vejo que, na vida, é muito importante teres um equilíbrio mental, uma grande paz interior para te debateres com as dificuldades que encontras no dia a dia. Principalmente, no futebol, é preciso muito esse equilíbrio, porque há um mau jogo e és logo criticado, vais na estrada, no carro, e és criticado também. E tens que ter capacidade de entender o outro lado e tentar sempre ser o mais correto possível.

Uma vez que estava a gostar tanto de Inglaterra porque veio embora?
O que me fez sair de lá foi nunca ter jogado na I Liga. Quando o meu contrato acabou eu tinha propostas de outras equipas inglesas, mas como desde pequeno sempre tive o sonho de jogar no V. Setúbal, porque cresci aqui, queria jogar cá. É a minha equipa de coração e sempre tive esse sonho.

Semedo esta época, no V. Setúbal

Semedo esta época, no V. Setúbal

Gualter Fatia

Como surgiu a oportunidade do V. Setúbal?
Vim aqui treinar porque conhecia o mister José Couceiro dos Sub21. Perguntei-lhe se podia treinar no V. Setúbal só para manter a forma porque as pré-épocas já tinham começado e eu ainda estava a decidir para onde ia ao certo. Ele disse-me que não havia problema. Passado um mês de estar aqui a treinar ele pergunta-me se já tinha resolvido a minha vida e disse-me que se houvesse oportunidade metia-se ao barulho para lutar por mim. Disse-lhe logo: "Então vamos falar". Sabia que se não jogasse aqui e agora muito dificilmente na minha carreira iria cumprir o sonho de jogar na I Liga e de vestir a camisola do V. Setúbal. Quando ele mostrou interesse não hesitei duas vezes.

A mulher e filhos queriam ficar cá?
Sim. A minha mulher porque ficava mais perto da mãe dela e os meus filhos ficaram malucos, claro, porque eles só vinham aqui de férias e por isso associavam estar aqui a estar sempre a brincar. O tempo é bom, quase sempre calor, e eles queriam isso.

Eles falam mais inglês do que português.
Sim. Estão agora na escola a aprender o português. Em Inglaterra, falávamos português com eles mas não era suficiente porque na escola falavam sempre em inglês e em casa falavam inglês um com o outro, brincavam em inglês. Mesmo connosco tentavam falar em inglês.

E continuam contentes, agora que as aulas já começaram?
Sim, muito. Às vezes brinco com eles, digo que vou para Inglaterra outra vez e eles respondem: “Sim, sim pai, tu vai, que nós ficamos aqui a tomar conta da mãe e depois tu vens aqui ver a gente” (risos). Eles adoram Portugal.

Nunca lhe passou pela cabeça viver em Lisboa?
Não, não. Eu vivo bem em qualquer lado. Sei que posso ir a todo o lado se precisar de alguma coisa, é tudo perto. Já tinha aqui o apartamento em Setúbal, por isso...

Semedo, segundo à direita, com Miguel Paixão, Ricardo Regufe, Cristiano e Miguel Marques

Semedo, segundo à direita, com Miguel Paixão, Ricardo Regufe, Cristiano e Miguel Marques

D.R.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida, porque tinha dinheiro para o fazer?
Nunca fui disso. Como sempre fui criado com tão poucas coisas de valor, nunca me disse vais comprar isto ou aquilo.

Nem um carro? Qual foi o melhor carro que teve?
O melhor carro que tive foi o que o meu amigo (Ronaldo) me emprestou (risos). Mas o meu carro de sonho era o Audi Q7, saiu quando eu estava em Itália e acabei por comprar um Q7 na Alemanha, mas recebi-o em Inglaterra.

Que carro é que o Ronaldo lhe emprestou?
Emprestou-me um Chevrolet Camaro enquanto o meu não chegava.

A sua mãe continua a viver na Bela Vista?
Sim, na mesma casa onde crescemos.

Ao longo da vida teve de ajudar financeiramente os seus nove irmãos?
Nem por isso. Ajudei os que tinha de ajudar mas sempre fomos muito de entreajuda uns aos outros. Sempre.

Onde investiu o dinheiro que foi ganhando?
Em imobiliário. É para no futuro ter rendimentos.

Isso saiu da sua cabeça ou foi aconselhado, ajudado por alguém?
Eu ainda estava no Sportin e via o Sá Pinto com grandes carros, assim como todo o pessoal da primeira equipa. Eu ia lá e dizia: “Puxa, grande carroça, posso sentar-me lá dentro?”. O Sá deixava-me entrar e lembro-me de ele me dizer: “Quando fores profissional senior e ganhares dinheiro, olha que os carros não são nada, o melhor que tens de fazer é comprar casas, porque casa nunca perde valor, agora carros perdem sempre valor”. Lembro-me que estava eu o Yanick, o Nani, e ele dizia-nos sempre isso.

Os seus filhos têm tendência em pedir-lhes coisas uma vez que já têm a noção de que é jogador de futebol, que ganha um bom dinheiro?
Não, têm tendência mais em fazer comparações. Quando fomos à casa do Ronaldo, eles perguntaram: “Ó pai mas porque é que a gente não tem uma casa como a do Ronaldo, assim uma casa grande, com piscina e com tantos carros?” (risos). Mas de resto, claro que pedem uns ténis novos, como todas as crianças.

Os filhos do jogador

Os filhos do jogador

D.R.

Alguma vez teve desconhecidos a bater à porta para pedir ajuda?
Isso acontece muito. Mas de amigos também. A minha mulher é que dá mais equilíbrio e avisa-me que não posso acreditar em tudo, que tenho de ter mais cuidado e não posso abraçar toda a gente. Nunca penso que podem fazer algum mal. Mas já houve casos de conhecidos, não é bem amigos, mas de conhecidos, que me disseram que estavam quase a perder a casa porque tinham dificuldade em pagar a renda e ajudei. ;as depois descobri que era mentira. Isso já aconteceu.

Mas já houve casos em que tenha ajudado e sentiu que fez realmente a diferença?
Já. E aí o dinheiro vale zero. Só de ver a alegria da pessoa, o dinheiro deixa de ter valor. E acho que essa é que é a essência da vida, ajudar-nos uns aos outros, sempre. Não quer dizer que seja só com dinheiro, pode ser com um abraço, um conselho.

Esta cidade de Setúbal que encontrou é muito diferente daquela que deixou?
Muito. Existe o bairro, mas já não é bairro. Agora vais ao bairro e está tudo pintado, os grafittis já são com desenhos bonitos, as estradas estão todas alcatroadas. Fui há pouco tempo à escola onde andei e está um luxo. Grandes auditórios, grandes bibliotecas, portas automáticas. Disse para mim: se tivesse hoje o que estes miúdos têm eu conseguia ser jogador e ser doutor. Porque dava para fazer as duas coisas com as condições que há hoje. É uma alegria.

Arrepende-se de ter deixado de estudar?
Sim. Arrependo-me porque se calhar era possível conciliar, e era mais bem formado, sabia mais. Só me fazia bem ter mais estudos. Hoje vejo exemplos de jogadores que conseguiram formar-se. O Chiellini, por exmeplo, que conseguiu formar-se em administração de empresas.

Ainda lhe passa pela cabeça voltar a estudar?
Sim, sim. É uma coisa que penso fazer, acabar o futebol e estudar.

Quando pensa no futuro o que se vê a fazer?
Ser treinador. Vou começar já a tirar o curso. É um desafio. Conduzir 30 homens deve ser fascinante.

Tem algum clube que gostasse particularmente de treinar?
Aqui o V. Setúbal. O clube da minha terra.

Em casa tinha alcunha?
Tinha, era o “Fofo”. Foi a minha tia que me pôs porque eu era pequenino e gordinho. A maioria dos meus irmãos trata-me assim ainda.

Semedo há uma semana, no estádio do Bonfim, em Setúbal

Semedo há uma semana, no estádio do Bonfim, em Setúbal

Nuno Botelho

Como é que o Semedo trata o Ronaldo?
Rei.

Já foi passar férias com Ronaldo várias vezes...
...Sim, em Ibiza, Monaco, Saint-Tropez...

Vai sozinho ou com a família?
O ano passado foi a primeira vez que fomos em família, porque agora ele tem família também. Das outras vezes ele estava solteiro e éramos só nós, rapazes. Ia eu, ele, o Miguel Paixão, o Ricardo Regufe e levava o segurança dele, íamos os cinco. Mas o ano passado já fomos todos em familia.

Calculo que seja ele a pagar tudo. E vocês, nunca lhe pagam nada?
Não, ele não gosta disso. Se vais querer pagar alguma coisa ele fica logo chateado, ele não gosta disso.

A imagem que as pessoas têm do Ronaldo corresponde à verdade ou acha que o Ronaldo é muito melhor do que aquilo que as pessoas pensam?
Muito melhor, de longe. Mas muito mesmo. É um ser humano diferente. É fascinante estar com ele. Somos amigos, posso ser suspeito, mas estar com ele é realmente fascinante porque ele pensa que tudo é possível. A forma dele pensar...para ele tudo é possível. É muito positivo. E sempre foi assim, não é de agora. As pessoas às vezes olham para ele e acham que é arrogante, que tem a mania, mas é tudo mentira. Ele não é nada disso. É brincalhão. a própria namorada diz que é uma criança, que ele é infantil, só quer brincadeira, não leva nada a sério, está sempre a rir, é muito alegre. Ele vive muito do coração. Só que é muito mediático, tem uma áurea diferente, as pessoas não conseguem ver bem quem é o Ronaldo porque ele é muito mediático.

Já consegui estar em algum lugar sem ele ser reconhecido?
É impossível. É um aparato de pessoas, é famoso mesmo.

Para uma pessoa como Semedo que não está tão habituado a esses holofotes...
...Assusta, assusta mesmo. O melhor é quando estamos dentro da casa dele. Aí é que um gajo está à vontade, como se estivéssemos no centro de estágio. Fora da casa dele, assusta. É pessoas a correr, a bater no carro, é um aparato impressionante. Tem de andar sempre com segurança senão não come, não bebe, é impossível. Tem uma fama que parece de Hollywood. E o mais estranho é que é nosso, é português. É da nossa terra.

Ele não mudou nada, nada?
Não. É impressionante ver a dimensão que ele tem e estar igual a como quando tínhamos 11 anos. Às vezes digo-lhe isso. E aos irmãos dele. Digo-lhes: “Vocês têm um irmão que não dá para entender. Esse é grande”. Em Portugal é o maior de todos e é uma pessoa tão humilde, tão bom coração, tão simples.

Semedo beija a bandeira do V. Setúbal, o seu clube de coração

Semedo beija a bandeira do V. Setúbal, o seu clube de coração

Nuno Botelho

Vinha preparado para o que veio encontrar no V. Setúbal? Houve alguma coisa a que custou mais adaptar-se?
O meu primeiro impacto foi mesmo o ambiente no estádio. Há muito menos adeptos, estás no banco e ouves a bola a bater. Em Inglaterra, não, não ouves a bola estejas dentro de campo ou no banco, porque o barulho da moldura humana é sempre ensurdecedor. Lá é como se jogássemos com o Benfica, o Sporting ou o FC Porto todas as semanas.

E a nível do treino e da preparação física?
Aqui acho que aprendi mais. Porque sinto mais dificuldades, encontro melhores adversários, jogadores mais técnicos, mais espertos, com mais formas de ganhar faltas, formas de jogar nas tuas costas, mais fortes no um contra um, fintam mais. O jogador português é mais brinca na areia e encontras isso em todas as equipas enquanto em Inglaterra só há um jogador assim, o resto é tudo jogador de trabalho. Aqui são todos bons jogadores, todos fintam bem. Lá o que é mais difícil do que aqui é a pré-temporada, é mais dura, mas o resto é igual. Acho até que o treino aqui é um bocadinho mais longo, lá treina-se menos e joga-se mais.

Vê-se a jogar futebol até quando?
Sinto-me tão bem. Tenho 33 anos, mas sinto como se tivesse 27.

Semedo com a mulher e os gémeos

Semedo com a mulher e os gémeos

D.R.

No final desta época vai continuar a jogar?
Sim. Tenho mais uma época de contrato.

Depois disso a sua ideia é ficar por Portugal ou gostava de voltar a ir para fora?
Gostava de ficar aqui no V. Setúbal, gostava de acabar aqui a carreira.

Acha que lhe vai ser difícil tomar a decisão de pendurar as chuteiras?
Vai. Vai ser muito difícil. Porque o futebol é tudo para ti, aquela essência do competir, do ganhar, do perder, das críticas, etc. Acho que todos os jogadores sofrem com isso quando já não podem competir, não podem lutar. Por mais que corras no ginásio ou faças alguma coisa, não transpiras porque a adrenalina não sai como sai dentro de campo.

E lesões?
A primeira vez foi agora quando cheguei aqui. No início desta época fiz uma pequena rotura no ligamento interno do joelho. Foi a única lesão que tive e foi complicado. Tanto que só fiz dois jogos da primeira volta. Sentes-te mal e, mesmo em casa, a tua mulher fica maluca contigo.

Porquê?
Ficas implicativo. Em Inglaterra há uma estatística que diz que uma percentagem muito grande de jogadores, cinco anos após terminarem a carreira, separam-se. Acho que tem a ver com não haver uma preparação. Tanto que a federação inglesa tem um grande suporte aos jogadores que estão para treinar. Aqui esse suporte ainda não existe. Preocupa-me porque tu não te vês a fazer outra coisa senão futebol e o hoje o futebol está tão exigente... E quando acaba tudo aí tu pensas, agora o que vou fazer, não sei fazer nada. Levas uma vida inteira nisto e não sabes fazer mais nada.

O treinador que mais o marcou?
Não é por causa dele estar aqui e ser o nosso treinador, mas sempre admirei o mister Couceiro. Trabalhei com ele nos sub-21 e hoje vendo a forma como gere todos os problemas, posso dizer que ele sem dúvida é o treinador a nível profissional que mais me marcou. Depois nas camadas jovens do Sporting e no Sporting em geral o que mais me marcou foi o mister Leonel Pontes.

Há alguma frase, algum ensinamento que lhe tenham dito e que ainda hoje ressoa na sua cabeça?
O mister Couceiro diz uma coisa muito boa. Na vida uma pessoa ou é seria ou não é séria e no futebol o princípio tem de ser o mesmo. Ou és sério e profissional ou não és. Ficou-me sempre na cabeça, o ser serio ou não ser sério.

Já sabe quando é que o Cristiano vem ver um jogo seu a Setúbal?
Não. Vai depender dos compromissos dele. Mas ele disse que vinha. Só não sei ainda quando.