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A casa às costas

Bruno Pereirinha: “Quando fui viver sozinho tinha uma cábula para saber quanto tempo é que o arroz e a massa ficam a ferver”

Aos 30 anos, Bruno já experimentou o campeonato grego, italiano e brasileiro, além do português. De regresso ao Belenenses onde se iniciou para o mundo do futebol, com 7 anos, confessa estar agora mais focado numa nova missão, a de pai. No futuro gostava de terminar o curso de fisioterapia cuja matrícula na faculdade ficou congelada, mas não se vê já a pendurar as chuteiras. Fique cá ou vá novamente para fora, o fiel amigo Bolt vai consigo para colecionar mais milhas

Alexandra Simões de Abreu

António Pedro Ferreira

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Nasceu na Amadora?
Não, nasci em Faro porque o meu pai, Joaquim Pereirinha, jogava no Farense, mas uma semana depois viemos para a Amadora, por isso o registo do meu nascimento é da Amadora. Eles fizeram assim para que um dia mais tarde, caso eu vivesse em Lisboa e fosse chamado à tropa, não tivesse que apresentar-me em Faro. Por isso é que nasci lá em baixo e fui registado aqui.

É filho único?
Não, tenho uma irmã mais velha.Tem 36, é mais velha 6 anos e meio.

Quando é que veio definitivamente do Algarve para Lisboa?
Vivi lá até aos 4 anos.

Tem alguma recordação de Faro?
Muito poucas, tenho mais até o trauma das aulas de natação.

Porquê?
Porque eu não me dava bem com a água, tenho assim uns flashes. Hoje em dia já tenho outro à vontade apesar de não ser um nadador exímio, mas tenho uns flashes daquela altura das aulas de natação. Também já não sei se é tanto fruto do trauma ou das recordações que os meus pais me foram passando, porque também se vão criando imagens.

Bruno, em baixo à direita, com os pais e irmã

Bruno, em baixo à direita, com os pais e irmã

D.R.

Tem ideia de ver o seu pai jogar?
Não, disso não guardo recordações. Eu só tive perceção de que ele foi jogador mais tarde, porque o meu pai parou de jogar quando eu tinha 5 anos. Depois de virmos de Faro, ele ainda jogou um ano no União de Montemor.

E porque é que foram viver para a Amadora?
Os meus pais tinham vivido a vida toda na Amadora. Era onde tinham apartamento e onde estava toda a família.

Depois de deixar de jogar futebol, o seu pai fez o quê profissionalmente?
Abriu um escritório de contabilidade com uma sócia. Trabalhava lá até às 4 da tarde e depois ia para o Belenenses onde era treinador de juniores e onde ficou 10 anos.

É por isso que o Bruno começa por jogar no Belenenses?
Sim, por uma questão de conveniência, dava jeito.

Quando é que começa a ir para o Belenenses?
Com 6 anos. Havia uns treinos dados pelo Vicente Lucas e de vez em quando eu ia. Gostei, eles também acharam que eu tinha jeito e no ano a seguir já fui para o futebol de competição. Sempre fui puto de jogar à bola, mesmo em casa, sempre gostei de jogar à bola, talvez influenciado pelo meu pai, apesar de não ter recordações dele a jogar.

Bruno Pereirinha começou a jogar no Belenenses com 7 anos

Bruno Pereirinha começou a jogar no Belenenses com 7 anos

D.R.

Torcia por que clube?
Acho que torcia por todos. O meu pai diz que uma altura torcia pelo Estrela da Amadora, outra pelo Farense, outra pelo FCP, outra pelo Sporting. Mas do que me me lembro, depois de começar a torcer pelo Sporting nunca mais torci por outro, a não ser pelo Belenenses. Fiquei lá tantos anos que também ganhei um carinho pelo Belenenses. Felizmente tenho sido bem tratado em todos os clubes, principalmente pelos adeptos.

Mas aquela coisa do clube do coração, nunca sentiu por nenhum?
Sinto mais pelo Sporting. E pelo Belenenses também.

O seu pai era sportinguista?
Não, o meu pai era benfiquista. Fez a formação no Benfica, chegou a fazer 3 anos de profissional também no Benfica, depois é que andou pelo resto do país.

Estava a dizer que começou a jogar no Belenenses, com 7 anos. Nessa altura já tinha uma posição definida?
Não, ao início metiam-me a jogar a extremo porque eu era mais novo e conseguia fazer a diferença porque era mais pequenino e mais rápido com a bola. Era na frente que conseguia desequilibrar. Depois quando chegou o ano em que era eu o mais velho do escalão, passei a ir para o meio campo, que era por onde o jogo passava mais e onde eu podia ter mais influência.

Onde é que gostava mais de jogar?
No meio campo, precisamente porque era o ano em que eu estava a jogar com miúdos da minha idade, onde conseguia desenvolver mais o meu jogo, participava mais também.

Bruno com a bola, num jogo do Belenenses com o Estrela da Amadora

Bruno com a bola, num jogo do Belenenses com o Estrela da Amadora

D.R.

Entretanto como é que vai para o Sporting? Pede ao seu pai?
Vou para o Sporting na altura em que é comunicado ao meu pai, que estava há 10 anos no Belenenses, que não vai continuar. Foi uma situação chata para o meu pai e acabou por ficar acordado que eu sairia juntamente com ele. Como eu já há uns anos que tinha convites do Sporting e do Benfica, acabei por optar pelo Sporting. Fui para lá com 16 anos.

Porque optou pelo Sporting?
Eram os dois melhores clubes da região, o meu pai falou comigo e na altura tinham acabado de fazer a Academia, era a escola por excelência em Portugal. Um dia acabei por ir lá dar uma volta, apresentaram-me o projecto, a maneira como se trabalhava e acabei por nem pensar no Benfica, até porque na altura o Benfica estava a passar por aquela fase da construção do estádio novo, os campos de treino que havia à volta foram todos destruídos, os escalões andavam a treinar por campos espalhados por várias zonas de Lisboa. Acabei por nem sequer pensar muito.

Como era na escola?
Sempre gostei. Interessava-me por tudo. Gostava menos das disciplinas de trabalhos manuais e de filosofia. De resto tinha interesse por tudo.

Bruno Pereirinha com a braçadeira de capitão do Belenenses, ainda nos escalões de formação

Bruno Pereirinha com a braçadeira de capitão do Belenenses, ainda nos escalões de formação

D.R.

Quando vai para o Sporting assina o seu primeiro contrato?
Não, também não fiz contrato nenhum. No primeiro ano fui para a equipa de sub 16 e não tinha contrato, só no ano seguinte. Assinei o contrato no segundo ano de juvenil.

Ia e vinha todos os dias da Amadora para a Academia?
Sim e por sorte consegui que a escola da Amadora me arranjasse um horário compatível com os treinos.

Só começa a ganhar dinheiro quando assina contrato?
Já pagavam alguma coisa nos iniciados do Sporting. Pagavam o passe social e davam um subsídio. Nem me lembro de quanto é que era, mas acho que era à volta de 50 euros por mês. No primeiro ano dos sub 17 , assinei dois anos de formação e dois anos de profissional. Acho que o valor do primeiro ordenado eram 300 euros.

Lembra-se se quis comprar alguma coisa com o seu primeiros ordenado?
Não comprei nada de especial para mim, mas lembro-me que no primeiro natal em que já tinha ordenado fui comprar prendas para a família toda. Foi aquela independência. Na altura o meu pensamento era poupar para tirar a carta e comprar um carrinho e foi isso que fiz.

Fez isso no ano a seguir?
Sim, com 18 anos.

Qual foi o seu primeiro carro?
Foi um Opel Corsa cinza, em segunda mão, já com uns 6 anos. Para aprender precisava de um carro que se tivesse que bater, não me ia doer tanto no coração (risos).

Bruno Pererinha já como jogador do Sporting

Bruno Pererinha já como jogador do Sporting

MIGUEL RIOPA

Quando é chamado à seleção?
A primeira vez foi nos sub17. Fui chamado numa convocatória do Edgar Borges. Eram dois jogos particulares, acabou por não me correr muito bem.

Porquê?
Tive a oportunidade de jogar, mas foi pouco tempo e não me consegui mostrar muito. Nesse ano não voltei a ser chamado. Só no outro, para os sub18. Fui chamado logo no início da época. Fiz um torneio muito bom.

Onde?
Em Portalegre ou em Santarém, já não me lembro bem. O torneio correu-me muito bem e uns meses depois acabei por ser chamado aos sub19, ainda com idade de sub18.

Quando é que faz a sua estreia na equipa principal do Sporting?
Fui convocado uma vez quando ainda era júnior de primeiro ano. O treinador era o Paulo Bento. Fui para o banco, em Braga, não entrei, só fiquei no banco. Depois não voltei a ser chamado e acabou esse ano. No ano seguinte, vou para o Olivais e Moscavide 6 meses.

Bruno Pereirinha, o terciero à esquerda, conquistou duas Taças de Portugal pelo Sporting

Bruno Pereirinha, o terciero à esquerda, conquistou duas Taças de Portugal pelo Sporting

D.R.

Quando lhe dizem para ir para o Olivais e Moscavide ficou frustrado?
Não, senti que era uma boa oportunidade, até porque eu ainda tinha idade de júnior. E todos os meus colegas, até aqueles que iam comigo à seleção e tinham mais preponderância na equipa, estavam na equipa de juniores. Quando me propuseram aquilo senti que era uma oportunidade para jogar num nível acima do campeonato de juniores. Por isso, fui todo contente da vida. Quando lá cheguei encontrei um grupo muito bom que me ajudou bastante e onde senti que cresci bastante.

Continuava na escola?
Sim. Eu entrei na faculdade.

Em que curso ?
Fisioterapia, na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Lisboa, na zona da Expo. Só que entrei para a faculdade quando já estava na equipa sénior do Sporting e nessa altura os treinos eram praticamente sempre de manhã e as aulas da faculdade ocupavam a manhã toda. Durante um mês, um mês e meio, ainda frequentei as aulas que pude mas assim que chegou a altura das primeiras frequências vi que estava tão atrasado em relação aos outros, que ia ter que compensar tanto em casa sozinho, que decidi congelar a matrícula. Ainda lá está, congelada, à espera que um dia tenha tempo para voltar.

E quer voltar?
Quero. É uma área de que gosto bastante, acho que é muito importante na vida de um jogador.

Bruno Pereirinha disputa a bola com Cristiano Zanetti da Fiorentina, durante um jogo da Liga dos Campeões, em 2009

Bruno Pereirinha disputa a bola com Cristiano Zanetti da Fiorentina, durante um jogo da Liga dos Campeões, em 2009

Claudio Villa

Depois da época no Olivais e Moscavide volta logo para a equipa principal do Sporting?
Chamam-me para a equipa principal do Sporting e eu achei que ia ter pouco tempo de jogo por ainda ser júnior; mas, não, tive a sorte de ganhar a confiança do treinador e de ter bastantes oportunidades. O jogo de estreia, foi contra o Belenenses no estádio do Restelo (risos).

Fica 4 épocas na equipa principal do Sporting. Além do Paulo Bento foi treinado por mais quem?
O Paulo Bento esteve 3 épocas. Depois foi aquele meio ano atribulado, em que apanhei o Carvalhal. Entretanto, acabou a época e fui um ano emprestado, estive em Guimarães e na Grécia, e quando voltei apanhei o Domingos, o Vercauteren…

Já lá vamos. Do tempo de formação no Sporting, com quem é que faz maior amizade?
Logo que cheguei, dei-me muito bem com o Custódio, o Miguel Veloso, o Yannick, Rui Patrício, foi principalmente com essa malta.

Da experiência com o Paulo Bento nos primeiros anos de sénior no Sporting, o que é que pode dizer?
Gostei, senti que aprendi bastante, melhorei muito, até porque era uma fase inicial da minha carreira, onde é preciso muita orientação e sentia que estava a melhorar dia para dia. Acho que o Paulo Bento era um treinador bastante participativo e com quem aprendi muito.

Bruno Pereirinha durante um jogo de qualificaçãoda seleção de Sub-21

Bruno Pereirinha durante um jogo de qualificaçãoda seleção de Sub-21

Nigel French - EMPICS

Entretanto é emprestado ao Vitória de Guimarães.
Estive lá 6 meses. Fui viver para um apartamento mesmo no centro de Guimarães que era do Custódio.

Foi sozinho?
Sim.

É a primeira vez que sai debaixo das saias da mãe. Como é que foi essa mudança?
O mais complicado foi a alimentação. Ia comer bastantes vezes fora, tinha alguns colegas que, pelo menos ao almoço, também me acompanhavam. Ao jantar não tanto e acabava por ter que me safar em casa, tive que aprender a cozinhar.

Como é que fazia, comprava livros?
Não, telefonava para a minha mãe e quando fui viver sozinho tinha tipo uma cábula, do género quanto tempo é que o arroz fica a ferver, a massa, assim para o básico tinha que ter uma cábula (risos), porque em casa dos meus pais ajudava com a mesa, ajudava com a casa, mas nunca na cozinha.

Em Guimarães faz alguma amizade mais profunda com algum jogador?
Dava-me muito com o Custódio, só que entretanto o Custódio fez a pré-época connosco e acabou por ir para o Sp. Braga. Depois acabei por estar muito próximo do João Alves, com quem eu tinha jogado também durante 6 meses no Sporting. Sempre fui um jogador que se deu bem com toda a gente, mas amizades profundas... foram poucas as que fiz.

O que é que fazia nos seus tempos livres?
Jogava bastante PlayStation. “Call of Duty” online Acho que foi nessa altura que saiu a PlayStation 3, era a loucura, era um vício muito grande.

Bruno Pereirinha sofreu uma luxação no ombro durante um jogo com o Machester City, que terminou com a vitória do clube inglês. O resultado total da eliminatória ditou a qualificação do Sporting para os quartos de final da Liga Europ, em 2012

Bruno Pereirinha sofreu uma luxação no ombro durante um jogo com o Machester City, que terminou com a vitória do clube inglês. O resultado total da eliminatória ditou a qualificação do Sporting para os quartos de final da Liga Europ, em 2012

D.R.

Como é que entretanto vai parar à Grécia?
Estava em Guimarães, mas não estava contente, porque quando saí do Sporting achei que ia para Guimarães porque iria ter um tempo de jogo muito maior do que aquele que estava a ter no Sporting. Quando lá cheguei, senti que era um jogador importante na equipa, que acabava por jogar quase sempre, mas não era sempre titular e tinha ido com esse objetivo. Senti-me um bocado frustrado e acabei por falar com o meu empresário da altura.

Quem era?
O Pini Zahavi.

Como é que chega até ele ou ele até si?
Foi através do João Moutinho, no Sporting, que assina contrato com ele. Ele começou a entrar em contacto com alguns jogadores do Sporting; na altura era uma pessoa que tinha fama de ter muita influência no mundo do futebol e acabei por ficar a trabalhar com ele. Foi ele que me apresentou a solução da Grécia.

O que achou dessa opção?
Falou-me de um clube que eu nem sequer tinha alguma vez ouvido falar, só que como estava descontente achei que devia tentar, que mal não me faria.

Esteve quanto tempo na Grécia?
De janeiro até meados de abril.

Sozinho?
Sim.

Bruno Pereirinha, esta semana, no Estádio do Restelo

Bruno Pereirinha, esta semana, no Estádio do Restelo

António Pedro Ferreira

Como foi a primeira experiência num país estrangeiro, ainda por cima com uma língua tão diferente?
Tinha que me safar só com o inglês. Estive lá só 4 meses por isso do grego pouco aprendi. Aprendi o básico, os bons dias e as boas tardes.

Ficou num hotel ou num apartamento?
Na altura, o clube alugou uma espécie de turismo rural e cada casinha era um quarto. Os jogadores que tinham vindo de longe e não tinham família ficavam ali, para poderem ter um melhor acompanhamento. A alimentação estava a cargo deles.

Lembra-se de algum jogador com quem se desse mais?
Acabei por ter uma boa relação com o Marius Niculae, que jogou no Sporting também. Como tínhamos essa ligação do Sporting, acabámos por ficar bastante próximos até ao final da época.

Bruno Pereirinha com o equipamento alternativo do Sporting, em 2012, num lane com Gorka Iraizoz, guarda redes do Atlático de Bilbao

Bruno Pereirinha com o equipamento alternativo do Sporting, em 2012, num lane com Gorka Iraizoz, guarda redes do Atlático de Bilbao

RAFA RIVAS

Regressa ao Sporting. É o clube que o chama?
Acaba essa temporada e ainda tinha dois anos de contrato com o Sporting. Vou de férias e é-me comunicado que o Sporting não contaria comigo para aquela época e que eu tinha que arranjar uma solução.

Quem era o treinador?
Era o Domingos Paciência. Foi-me apresentado o Olhanense que na altura estava na I Liga e por onde já tinham passado muitos colegas meus, que se tinham dado bem, tanto com a cidade, como com o clube. Aceitei, cheguei a assinar o contrato de empréstimo e tudo. Fui para baixo e quando estava a fazer a pré-temporada, ao fim de 3, 4 dias, já tinha casa alugada e tudo, o Sporting chamou-me porque o João Gonçalves, o meu colega com quem eles estavam a contar para a minha posição e a quem iam dar a oportunidade, se tinha lesionado no joelho. Precisavam que eu voltasse pelo menos para fazer a pré-temporada. Na altura fui um bocado contrariado porque foi dito que ia só para treinar e senti que, se calhar, estava a perder o tempo e espaço para me afirmar no Olhanense. A minha permanência no Sporting dependia só da recuperação do João Gonçalves. Acabei por ficar, contrariado.

Não podia dizer que não?
Não, eu era jogador do Sporting tinha que cumprir aquilo que me mandavam. Se me mandassem emprestado, até podia recusar ir para aqui ou para ali, sob pena de ficar a jogar na equipa B ou ficar a treinar separado do plantel. Tentei aproveitar, tentei mostrar-me ao treinador e felizmente a pré-temporada correu bem e acabaram por optar por ficar comigo.

Voltou para casa dos pais?
Nessa altura já tinha comprado um apartamento. Já morava sozinho.

Foi então para o Sporting ainda com o Domingos como treinador.
Fico praticamente como a terceira opção para a posição de lateral direito. Estava o João Pereira, tinham contratado o Santiago Arias, um colombiano, e estava eu. Só que como eu era polivalente, podia jogar em vários lugares, nessa época com o Domingos acabei por fazer bastantes jogos. Mais tarde, quando veio o Sá Pinto, acabei por jogar ainda mais. Acabou por ser uma boa época para mim.

O que achou do Sá Pinto enquanto treinador?
Na altura foi exactamente aquilo que precisávamos. Aquela injeção de adrenalina e de ímpeto que ele nos deu. Acabámos por fazer um excelente final de época. Acabámos por perder na semi-final da Liga Europa, mas fizemos uma campanha muito boa. No ano seguinte as coisas já não lhe correram assim tão bem.

É quando vai para a equipa B?
Não, nesse ano acabei por despertar o interesse da Lazio para sair e como estava no meu último ano de contrato…

Mas tenho indicação de que foi para a equipa B...
Porque entretanto fui operado ao joelho. Foi nesse ano que eles criaram a equipa B, e como eu estava a fazer a recuperação da cirurgia.

Bruno Pereirinha já com equipamento da Lazio para onde foi jogar em 2012/2013

Bruno Pereirinha já com equipamento da Lazio para onde foi jogar em 2012/2013

Paolo Bruno

Foi a sua primeira grande lesão?
Foi a minha primeira lesão a precisar de operação. Deu-me dois meses de paragem, foi o máximo que estive parado até hoje.

Foi rotura de ligamentos?
Não, eu tinha uma má formação de nascimento. A rotula não estava centrada com o resto do joelho e então comecei a desgastar bastante a cartilagem num ponto que não devia. Chegou uma altura em que já não aguentava de dores e tive que fazer uma cirurgia de correção da rotula. Foi em 2012. Nesse ano foi o Sá Pinto que começou a temporada. Depois, as coisas não lhe correram bem, saiu e em setembro ou outubro entrou um belga, o Vercauteren, que acabou por ficar dois meses no Sporting. Depois chegou o professor Jesualdo Ferreira.

Ainda apanha o Jesualdo Ferreira, antes de ir para a Lazio?
Apanhei na fase em que estava a recuperar do joelho, estava a voltar e ele chega, já não me lembro se foi logo a seguir ao Natal. Fico três semanas a trabalhar com ele e depois vou para a Lazio.

Quando surge o interesse da Lazio?
Eles tinham tido interesse no início do ano, eu estava em final de contrato, e foi-me comunicado que contavam comigo e tinham interesse inclusivé em renovar-me o contrato. Eu queria sair porque a Lazio parecia-me uma boa oportunidade fora de portas. Mas tendo o interesse do Sporting em renovar, fiquei contente de poder continuar a minha carreira em Alvalade. Entretanto, com o decorrer da pré temporada começo a ter alguns problemas com o joelho. E na mesma altura é-me comunicado que afinal já não iam renovar contrato comigo, para eu tentar novamente ver se a Lazio ainda estaria interessada em mim, porque eles iam dar oportunidade ao Cédric - ao mesmo tempo tinha surgido também a oportunidade de chegar um jogador mais experiente e internacional. Na altura supostamente era mais interessante ter um jogador mais experiente e um mais novo, do que ter dois mais novos.

Quem chegou?
Acabou por ser o Miguel Lopes. E quando me disseram isso, acabei por ficar ainda 6 meses no Sporting, porque na altura a Lazio não quis fazer o negócio. Já não lhes interessava, já tinham dado oportunidade a outro jogador da formação, optei por tratar o meu joelho. Sabia que se não o tratasse provavelmente o problema nunca iria passar. Preferi tratar enquanto estava no Sporting, para não chegar o próximo mercado e eu ainda estar com dores. Queria poder chegar a uma equipa, qualquer que ela fosse, em boas condições físicas.

Ainda tinha o mesmo empresário nesta altura?
Não, nessa altura já não tinha empresário.

Bruno Pereirinha cabeceia a bola durante um jogo do campeonato italiano entre a Lazio e o Genova

Bruno Pereirinha cabeceia a bola durante um jogo do campeonato italiano entre a Lazio e o Genova

ANDREAS SOLARO/AFP/Getty Images)

Então como é que surge outra vez o interesse da Lazio?
Nessa altura quem me apresentou o interesse da Lazio, em junho, foi um outro empresário, israelita também. Não se concretizou, mas continuei em contato com ele e voltei a perguntar-lhe se ainda era possível fazer alguma coisa. Disse-me que não, que às vezes há oportunidades que só surgem uma vez e que aquela tinha passado. Uns dias depois liga-me o Carlos Gonçalves com quem eu também tinha contato, a dizer que afinal a Lazio ainda tinha interesse. Como sentia que não tinha espaço no Sporting e já estava bem fisicamente, acabei por ir para Itália, com a ajuda dele.

Como é que foi a experiência em Roma?
Muito boa. É uma maneira diferente de encarar o futebol, as próprias pessoas na rua vivem muito mais o futebol, são muito mais efusivas no trato com toda a agente. O calor humano é muito forte lá.

Foi sozinho?
Nessa altura fui com a minha namorada da altura. Ela ficava, vinha, ficava, vinha. Estava na faculdade.

Está na Lazio duas épocas e meia. Como é que as coisas correm?
Quando lá cheguei, apanhei o Petkovic, que agora treina a seleção da Suíça. A grande estrela era o Miroslav Klose.

Notou muita diferença no futebol e nos treinos?
Sim, bastante.

Em que aspetos?
Primeiro, no Sporting não podia queixar-me porque tinha quase sempre estádios cheios, mas lá era diferente. Em qualquer estádio havia sempre muita gente a apoiar, principalmente a equipa local. Os jogos eram muito bons de jogar porque tinham sempre um grande ambiente. Depois, o próprio jogo era muito diferente do jogo jogado aqui. Talvez numas situações fosse mais fácil, mas noutras com certeza muito mais difícil, porque lá há uma preocupação tática muito grande.

Os métodos de treino, muito diferentes?
Se calhar davam um bocado mais de ênfase ao treino de força no ginásio do que aqui, que era praticamente facultativo. Lá todas as semanas havia pelo menos um treino de força no ginásio.

Bruno conquistou uma taça de Itália pela Lazio

Bruno conquistou uma taça de Itália pela Lazio

D.R.

E da cidade, gostou?
Gostei muito de Roma. A única coisa insuportável é o trânsito. De resto gostei muito de lá viver. É uma cidade com muita vida. Aprendi italiano muito rapidamente, é uma língua fácil de aprender. Gostei muito de lá estar.

Hoje, quando se fala de Roma e da Lazio, qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça?
O estádio cheio. Os adeptos são doidos, criam um ambiente muito bom. Sentíamos um grande afeto e grande apoio por parte do público.

Nos tempos livres o que é que fazia? Continuava a jogar PlayStation?
Sim, mas por estar num país diferente e numa cidade como aquela, acabava por passear bastante. Acabei por fazer alguns passeios nas folgas. É uma cidade boa para sair para jantar, tem boa comida, bom ambiente. Era uma cidade segura onde podias andar à vontade.

Como é que se dá a sua saída?
Saí no meu último ano de contrato porque no ano anterior, não fui aposta do treinador e acabei por jogar pouco.

Quem era o treinador?
Era o Stefano Pioli, que agora está no Florentina. Como não tinha sido aposta dele e ele ia continuar no clube, senti que o melhor seria sair, senão podia correr o risco de passar outra época com muito pouco tempo de jogo.

O que é que fez?
Meti-me em contacto com várias pessoas, o próprio clube estava a tentar encontrar um projecto que fosse bom tão para mim como para eles. Acabou por surgir o Atlético Paranaense. Tratei de tudo com o Carlos Gonçalves e fui para o Brasil.

Sozinho?
Sim.

Bruno Pereirinha com a mulher, Ana, numa viagem em que passaram por Machu Picchu

Bruno Pereirinha com a mulher, Ana, numa viagem em que passaram por Machu Picchu

D.R.

Como foi o impacto quando chegou a Curitiba?
Cheguei sem expectativa nenhuma, sem saber o que esperar em termos de cidade, de clube. As informações que me tinham passado eram muito boas em relação ao clube, à estrutura, à cidade também. Só que... era um país onde nunca tinha ido e quer queiramos, quer não, a imagem que temos do Brasil é aquela que vemos do Rio de Janeiro, do perigo e da loucura do carnaval e fim de ano. Isso são coisas que são reais, mas apenas no Rio de Janeiro. Curitiba é uma cidade completamente diferente.

Explique melhor.
Curitiba é considerada a cidade mais europeia do Brasil. É uma cidade recente, muito bem planeada. É uma cidade modelo para todo o Brasil, em termos de planeamento, de transportes públicos, de uma série de questões. Acabei por me sentir bem.

Mas quais foram as maiores diferenças? A que é que custou mais a adaptar-se?
Não me custou a adaptar. Mas uma das maiores diferenças que senti, foi chegar e ter um contato forte com pessoas que tinham condições de vida miseráveis. A pobreza e a falta de condições que muita gente tem, está em contacto direto contigo. Impressionou-me ver tanta gente, tantas crianças principalmente, na rua.

Viveu alguma situação mais perigosa?
Não. Pedirem dinheiro era muito comum. Eu vivia num quarteirão que tinha um supermercado grande e à porta do supermercado havia sempre crianças, velhinhos que viviam na rua, alguém a pedir ajuda de alguma maneira. Por isso tinha contato direto, ainda para mais porque fui para lá com o meu cão e todos os dias tinha que sair duas, três vezes à rua para passeá-lo.

Bruno Pereirinha com a camisola do Atlético Paranaense

Bruno Pereirinha com a camisola do Atlético Paranaense

MB Media

De onde veio o cão?
O meu cão acompanhou-me para Roma e depois também para o Brasil. E agora está cá. Chama-se Bolt e é um labrador castanho chocolate. Foi comprado aqui, quando estava no Sporting ainda. Sempre gostei de cães mas os meus pais nunca quiseram animais em casa.

Então tem viajado sempre consigo.
Sim, o Bolt tem seis anos e já tem mais milhas que muita gente (risos).

Com que opinião ficou dos brasileiros?
Não era nada o que estava à espera. Porque aqui o contacto que eu tinha com brasileiros, eram todos colegas e normalmente eles acabavam por ficar no grupo deles, o que é normal porque têm mais coisas em comum. Por isso acabei por nunca ter uma proximidade tão grande de nenhum colega brasileiro. Quando lá cheguei, eu é que era o “brasileiro”, eu é que era o outsider. Mas fui muito bem acolhido, fiz muitos amigos tanto no futebol, como fora e mudou completamente a minha ideia dos brasileiros.

Como assim?
A ideia que tinha é a que passa na cabeça de muitos portugueses, principalmente naquela altura antes da crise. Uma altura em que houve muitos actos de crime associados a brasileiros aqui em Portugal. Tinha a ideia de que era um povo perigoso. Mas a verdade é que estive lá dois anos,andei por todo o lado e nunca me senti em perigo, nunca tive nenhum episódio mau. Claro que se ligas a televisão à noite...Aconteceu eu estar com a minha esposa, que conheci lá, a ver televisão e passaram a notícia de que tinha havido um homicídio na esplanada de um restaurante que frequentava bastante. Tinha sido uma bala perdida, tinha havido um desentendimento entre duas pessoas, tinham andado aos tiros e uma pessoa que estava descansada num sítio onde nós passavamos a vida a almoçar, tinha apanhado com uma bala perdida. Ficas a pensar: podíamos ter sido nós. Mas lá está, só tinhamos conhecimento disso por causa da televisão.

Isso fez com que quisesse voltar?
Não, voltei por outra questão. As coisas com o clube não estavam a correr bem. Ao fim de algum tempo, o clube estava descontente com o meu desempenho e queriam arranjar uma desculpa para me mandar embora e começaram a portar-se mal comigo. Começaram a inventar situações, até que me afastaram mesmo da equipa...

Bruno Pereirinha e a esposa fizeram uma viagem de mochila às costas pelo Perú

Bruno Pereirinha e a esposa fizeram uma viagem de mochila às costas pelo Perú

D.R.

Que tipo de situações?
Foi numa altura em que o clube estava em eleições. O clube ia a eleições uma semana depois do final da época. E no último jogo da temporada, umas semanas antes eu já tinha tido uma conversa com o treinador em que lhe disse que sentia-me melhor a jogar como extremo, do que como lateral, apesar de ter sido como lateral que eles me tinham contratado. No último jogo, começo a titular contra o Santos, a extremo. O jogo estava a correr bem, estava a jogar bem e entretanto o nosso lateral lesiona-se e eu vou para o lugar dele, para lateral. Passados 10 minutos tenho uma infelicidade: lesiono-me também e peço para sair. É feita a substituição e no final da primeira parte já íamos com duas substituições feitas. Entretanto o Santos virou o jogo, acabámos por perder de uma maneira pesada. Uma semana depois, e com as eleições à porta, aquilo acabou por cair mal à massa associativa que já tinha alguns problemas com aquela presidência. Aquele jogo foi só mais uma acha para a fogueira. O presidente ganhou as eleições por uma margem mínima e na altura quiseram acusar-me de falta de comprometimento com a equipa e com o clube. Disseram que tinha fingido uma lesão porque me tinham colocado a jogar numa posição que eu dizia que não queria jogar. Quando na realidade eu sabia, e mais tarde vieram a confirmar-me, que eles tinham ficado lixados comigo porque eu tinha saído num jogo importante e não me podia ter lesionado. Como se as pessoas se lesionassem porque querem. A partir daí comecei a ser encostado e acabei por ficar no meu último ano de contrato a treinar separado do plantel. A treinar sozinho, só com mais 4 ou 5 colegas que estavam na mesma situação - também tinham contrato mas o clube não contava com eles. Então deixavam-nos a treinar num canto, num campo separado da equipa.

Custa estar encostado.
Custa bastante. Quando jogas à bola, jogas porque queres jogar, não é para treinar. Às vezes éramos 4, 5 a treinar num campo que nem campo era, ficava atrás do campo, num espaço mínimo, acabávamos por fazer só trabalho físico, uma rabiazita e íamos para casa. Ou seja, era uma situação que o clube criava para ver se havia descomprometimento da nossa parte, para ver se alguém deixava de aparecer e aí o clube poderia entrar com um processo disciplinar e um processo de rescisão por justa causa. Mas continuei com o meu profissionalismo apesar da situação ser má e até ilegal. Acabei por rescindir o meu contrato por falta de pagamento, acabaram por ser eles a entrar no incumprimento, o que me deu motivo para rescindir o contrato.

E a mudança do futebol italiano para o futebol brasileiro?
Radical. O futebol italiano é um futebol muito trabalhado, muito pensado, muito tático, no Brasil quando lá cheguei ia com a ideia desatualizada do futebol brasileiro. Pensava que ia encontrar um futebol mais técnico, mais jogado para o espetáculo, quando o futebol brasileiro hoje em dia, apesar de ter muita qualidade, porque há jogadores com muita qualidade técnica, está com uma intensidade muito forte, muito ataque e contra-ataque.

Custou-lhe a adaptar?
Custou-me um bocado até porque fui para lá depois do nosso período de férias aqui, ou seja, estava com os meus níveis físicos acabados de sair de férias e cheguei exatamente a meio do campeonato, com tudo a andar, com um ritmo muito grande. Por isso custou-me bastante no início.

Bruno Pereirinha festeja um golo com os colegas do Atlético Paranaense

Bruno Pereirinha festeja um golo com os colegas do Atlético Paranaense

D.R.

Disse que conheceu lá a sua esposa. Como é que a conheceu?
Conheci a Ana numa altura em que já estava a treinar separado. Fui jantar a um restaurante com uns amigos portugueses, que chamaram outros amigos brasileiros para juntarem a nós. Entretanto esses amigos brasileiros já tinham combinado sair com outras pessoas. Acabou por se juntar tudo e no meio dessa gente toda, estava a Ana.

O que é que ela fazia profissionalmente?
Ela era analista judicial no Brasil. É formada em Direito, trabalhava num tribunal. Tem mais seis anos do que eu.

Foi amor à primeira vista?
Praticamente (risos).

Falou em amigos portugueses. Já os conhecia?
Não, quando cheguei eu era o único português na equipa e o único europeu do campeonato. Quando fui para o Brasil não levei o meu cão porque não sabia como tratar das coisas. Quando cheguei lembrei-me de pesquisar no Facebook, porque já em Roma havia um grupo de portugueses em Roma. E o pessoal que chegava pedia dicas aos que já lá estavam. Encontrei um grupo de portugueses em Curitiba, fiz-me membro do grupo, introduzi o tema do cão e, por sorte, conheci uma portuguesa que já lá estava há dois ou três anos no Brasil e tinha um labrador também que já tinha feito várias viagens. Foi ela até que, numa viagem de trabalho, acabou por levar o Bolt para lá. Foi assim que conheci os portugueses.

Entretanto, quando resolveu a sua vida com o Atlético, pensou logo no regresso a Portugal?
Aquilo deixou-me triste. Outros colegas, de outros clubes, avisaram-me que era uma prática bastante recorrente no Brasil. Se houver algum problema, descartam-te; não há respeito por nada. Não há respeito por contratos, não há respeito pelo jogador, não há respeito pela pessoa, não há respeito por nada. Fiquei um bocado desanimado com aquilo e a minha ideia foi voltar.

Quando disse à Ana que queria voltar a Portugal o que é que ela achou?
Começámos a avaliar a questão e achamos que o melhor para a minha carreira seria voltar para a Europa. E que o melhor para nós seria continuarmos juntos (risos).

Ela aceitou bem deixar o trabalho dela?
Ela teve a possibilidade de tirar um período sabático. Entretanto vamos ser pais [entretanto a bebé, Lara, já nasceu]. E não pretendo parar por aqui, espero que tudo corra bem e que tenha a possibilidade de ter mais filhos. Gostava de pelo menos ter um casal.

Bruno, a mulher e os dois cães, Bolt, à direita, e a pequena Katy ao colo de Ana

Bruno, a mulher e os dois cães, Bolt, à direita, e a pequena Katy ao colo de Ana

D.R.

Quando regressou a Portugal, já sabia que vinha para o Belenenses?
Não. Quando vim, foi para passar férias com ela para estar mais perto do mercado, se alguma coisa surgisse seria melhor estar aqui e poder resolvê daqui, do que estar a vir do Brasil, porque nestas questões às vezes por horas podem perder-se oportunidades.

Então como surgiu o Belenenses?
Por intermédio do empresário Carlos Gonçalves. Em conversa com o Hugo Viana acharam que podia ser bom para mim e para o Belenenses. Ainda por cima estava lá o Domingos Paciência que era um treinador com quem já tinha trabalhado, que me conhecia. Achámos que era uma boa solução para todos. Só que na altura eu tinha entrado com o meu processo em tribunal contra o Atlético; por precaução e por ainda não estar bem definido a situação do Atlético, decidiu-se esperar para assinar o contrato depois da data em que terminava o meu contrato com o Atlético para não haver nenhum tipo de confusões em termos legais.

Volta ao futebol português praticamente cinco anos depois de ter saído. Notou muita diferença?
Alguma. É um contexto completamente diferente. Tinha saído daqui de uma equipa que tinha muita qualidade e que jogava sempre para ganhar: o Sporting. O Belenenses, apesar de ter muita qualidade e de tentar ganhar todos os jogos, muitas vezes não é possível. Acho que a minha perceção também muda bastante por causa disso.

Sente que é outro patamar?
Claramente. O Sporting fez o campeonato que fez e está na classificação em que está e nós estamos a lutar por objetivos diferentes. O Sporting já ganhou um título, está na final de outra competição e no Belenenses, infelizmente, não conseguimos chegar perto de ganhar nenhuma dessas competições.

Muito diferentes o Domingos e o Silas?
Sim. O Silas, apesar de ser um treinador que está a começar, passa bastante confiança aos jogadores, é muito participativo nos treinos, muito exigente, acho que pode vir a tornar-se um grande treinador.

António Pedro Ferreira

Qual é a sua maior ambição?
Para ser sincero, nesta altura quero acabar bem a época, a jogar, e quero desfrutar do nascimento da minha filha. Ainda por cima o campeonato já está a acabar. Mas o meu objetivo é continuar a jogar.

No Brasil tornou-se brasileiro em alguma coisa?
Os meus colegas agora dizem que eu sou brasileiro (risos). Talvez seja pela experiência que tive, certamente também por causa da minha mulher. Comecei a identificar-me muito mais. Antigamente quase não falava com os brasileiros, eles tinham o grupo deles e era normal por tinham interesses em comum. Hoje, com a experiência que tive, acabo por partilhar algumas coisas, quanto mais não seja falo do futebol brasileiro, porque, depois de dois anos a acompanhar o futebol, já tenho mais conhecimento de causa e consigo participar numa conversa de uma maneira ativa.

E nas coisas do dia a dia?
Quando cheguei cá trocava frigorífico por geladeira, por exemplo (risos). Porque lá no Brasil, se eu falasse como falava aqui, havia gente que tinha alguma dificuldade em perceber-me. Tive que adaptar um bocado a minha maneira de falar e quando cheguei cá ainda estava um bocado abrasileirado. Mas depois com o tempo foi passando. Só com a minha esposa é que às vezes, na brincadeira, ainda falo 'brasileiro'.

Ela aportuguesou-se em alguma coisa?
Infelizmente, não. Ela quando tenta falar português rio bastante, porque é muito pouco natural.

Alguma coisa que, no Brasil, tenha aprendido a gostar muito?
O churrasco. Lá o convívio de fim de semana é feito de volta do churrasco. Um churrasco que começa às três da tarde e acaba às dez da noite. Vai-se assando uma carne de vez em quando para petiscar, enquanto se bebe cerveja ou outra coisa.

Bruno, a mulher e os dois cães do casal, junto da Torre de Belém, em Lisboa

Bruno, a mulher e os dois cães do casal, junto da Torre de Belém, em Lisboa

D.R.

É um orgulho diferente vestir a camisola de Portugal?
É, ser dos primeiros da minha geração a ter oportunidade de ser internacional era um motivo de orgulho muito grande. Mesmo mais tarde nos sub21

Na seleção de sub-21 foi suspenso por causa de um penálti. O que aconteceu?
Estávamos a disputar um torneio na Madeira e num jogo contra Cabo Verde. Naquela altura não estavam bem definidas as questões das bolas paradas. O Rui Pedro quando sofre o penálti agarrou na bola, mas como eu era o capitão, disse que ia eu bater. Ele ficou meio chateado, estávamos os dois sozinhos e perguntei-lhe se ele queria fazer o penálti que já tinhamos treinado. Ele disse que sim, tentámos. Em vez de bater diretamente para a baliza eu tocava a bola para o colega que vinha de trás marcar. Só que ele acabou por se deixar antecipar por um adversário e acabou por não correr bem. Mais tarde, na flash interview o treinador, Rui Caçador, acabou por se distanciar e responsabilizar-nos pelo ato. Para mim estava certo porque não precisava que ninguém assumisse a responsabilidade por mim, apesar de não me parecer que fosse motivo para tanto barulho. Mas, na altura estávamos, a viver um período complicado em termos de seleção principal e acabou por se pegar naquilo com muito alarido. Julgo que até foi mais por causa da má fase que a seleção principal estava a passar. Inclusivé, houve uma altura em que a seleção principal e a de sub21 se cruzaram e o próprio Carlos Queiroz veio ter um palavra connosco, para dizer que não podíamos facilitar quando representamos a seleção. Ou seja, acabou por ser encarado dessa maneira quando isso não nos passou sequer pela cabeça. Era um jogo particular, que estávamos a ganhar 2-0, faltavam cinco minutos, portanto, talvez se fosse noutro contexto não tentávamos. Mas passou muito a imagem de que estávamos a fazer aquilo para faltar ao respeito aos adversários quando isso nem sequer passou pela nossa cabeça. Tentámos apenas fazer uma coisa diferente.

Nas seleções jovens, e não só, há por vezes tentativas de fugas para a diversão. Viveu algum episódio do género?
Tive uma situação dessas no torneio Lopes da Silva de sub15, pela seleção de Lisboa. Nós ficávamos uma semana fechados nas instalações do Inatel, em Oeiras. As regras eram claras: não era permitido irmos para a praia, apesar do torneio se realizar em final de época, por volta de junho. Lembro-me que, na quinta-feira, eu já estava farto de ouvir todos os dias os outros a dizer: fomos dar uma volta aqui, fomos dar uma volta à praia, fomos comprar gomas, etc. Ao fim de um dia, dois dias a ouvir aquilo, eu ali, o certinho o totó sem fazer nada, resolvi ir com eles. Anjinhos, saímos e passámos à frente do refeitório, só que não vimos quem estava lá dentro. Estavam os treinadores e todo o staff da seleção de Lisboa a ver-nos sair. Não disseram nada. Saímos, demos uma volta pela praia de Santo Amaro de Oeiras, a meio do passeio olhámos para trás e está a comissão técnica atrás de nós, mas como se estivessem também a passear. Pensámos logo: "Estamos lixados". Fomos para a areia, ficamos sentados um bocado a tentar passar despercebidos. Eles pararam no calçadão, à espera. Quando saímos da areia cruzamo-nos com eles e um colega meu diz: "Olha quem está aqui, também vieram dar um passeio?" (risos). O treinador Luis Dias: "Todos para os vossos quartos, façam as vossas malas".

Foram expulsos?
Aquilo era o melhor torneio que havia para a nossa geração, ainda não havia seleção nacional, portanto, aquilo era uma "facada" para nós. Fomos para os quartos, todos nervosos, fizemos as malas e ficámos à espera. Convocam uma reunião com todos os jogadores. Estávamos a meio da competição. O treinador pergunta aos capitães o que tem a dizer sobre o assunto. Fala o Carriço: "Realmente eles infligiram as regras, mas se calhar acharam que não estavam a fazer nada de mal e que não ia ser tão grave". Na altura, pediram a opinião também ao Fábio Paim, que era o maior "bandido" de todos (risos). Nós à espera, no seguimento do Carriço, de uma palavra amiga, e ele: "Ah mister, as regras são claras, quem rompe as regras tem que pagar". Nós sem acreditar que ele tinha dito aquilo (risos). Os treinadores, porque o torneio já estava a mais de meio e por ser mau também para o grupo, acabaram por nos perdoar. Mas no jogo seguinte, nenhum de nós jogou. Acabámos por nos safar de boa.

Bruno e Ana, na foto ainda grávida, foram recentemente pais de uma menina

Bruno e Ana, na foto ainda grávida, foram recentemente pais de uma menina

D.R.

No futuro o que se vê a fazer?
Gostava de acabar a minha formação na fisioterapia, porque é uma área de que gosto e que está em constante desenvolvimento.

O contrato com o Belenenses é até final desta época?
Sim. Ainda não houve conversas com a direção, por isso o meu futuro está em aberto. É um clube com o qual tenho uma relação muito forte, mas o contrato chega ao fim.

Já lhe passou pela cabeça "pendurar as botas"?
Isso não.

Está disposto a ir jogar para uma II Liga?
Neste momento não me passa isso pela cabeça. Mas não sabemos o que o futuro nos reserva. Gostava de vir a ter outra experiência internacional, noutro campeonato que ainda não tenha experimentado.

Algum em específico?
Há vários de que gosto. Gostava de ter contacto com uma realidade diferente e de lutar para me adaptar a essas diferenças.

Se pudesse escolher, qual escolhia?
Gostava muito de jogar em Espanha, porque é um tipo de futebol que acompanho desde miúdo. É o tipo de futebol de que mais gosto.

Ao longo dos anos onde ganhou mais dinheiro?
Em Itália.

Onde investiu?
Mais em imobiliário. Tentei um negócio este ano quando cheguei. Um negócio com um amigo para abrir uma franquia de supermercados da Sonae, mas não deu em nada, o projeto não foi para a frente porque o espaço que tínhamos escolhido não tinha as condições necessárias. Mas agora nem me passa pela cabeça porque estou noutra fase da minha vida, mais preocupado em ser pai.

Tem mais algum hóbi sem ser a PlayStation?
Gosto bastante de passear com a minha esposa e com os nossos cães. A minha esposa tem uma cadela rafeira, a Katy, que também foi adotada. Ela tem dois anos e meio e manda no Bolt, apesar de ter um quarto do tamanho dele (risos).

A sua mulher já pensou no que vai fazer profissionalmente em Portugal?
A ideia é seguir no ramo do direito que é a formação dela, seja cá ou no Brasil, ainda não decidimos nada.

Os seus pais ainda estão vivos?
Sim. O meu pai continua como assistente de contabilista e a minha mãe dá apoio domiciliário a idosos.

Gosta de viajar nas férias?
Gosto. No Brasil quando tive aquele período em que estava a treinar separado, chegou uma altura em que o clube deu-nos férias mais cedo porque estava a organizar um torneio do centro de estágio e não tinha um sítio para nos colocar a treinar. A minha esposa também conseguiu tirar férias mais cedo e em dois dias organizámos uma viagem ao Peru. Fomos só com os três primeiros dias planeados e a partir daí iamos definindo conforme queríamos. Foi uma viagem muito boa, de mochila às costas, sem programação.

E do Brasil o que conheceu para além de Curitiba?
Conheci do Rio de Janeiro para baixo. Tive oportunidade de ir ao Carnaval do Rio e de fazer passagem de ano lá também. Depois conheci o Paraná, Santa Catarina e parte do Rio Grande do Sul também.

Qual a sua maior frustração?
Não ter ganho o campeonato nacional logo na época de estreia no Sporting. Acabámos por perder o campeonato no último jogo. Vamos para a última jornada com um ponto de atraso do FCP, chegámos ao intervalo a ganhar e o FCP a perder. Entretanto, o FCP dá a volta ao jogo; fomos campeões até aos 70 minutos e acabámos por perder. E também nunca ter conseguido chegar à seleção nacional A.