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Oceano, parte I: “O meu nome era para ser Oceano Atlântico, porque o meu padrinho chama-se Oceano Pacífico”

O nome não podia assentar-lhe melhor. Oceano da Cruz foi grande na generosidade com que se entregou a esta entrevista, que de tão extensa teve de ser partida em duas. Hoje ficamos a conhecer e a saber das suas raízes, a paixão pela mãe, recíproca, a tristeza de não ter convivido mais com o pai, o início da carreira de futebolista, o primeiro amor com uma mulher quase 20 anos mais velha, os filhos, da amizade com Jordão e do Porsche preto que foi levantar a Estugarda, onde estavam 7 graus negativos, vestido de calções e chinelos

Alexandra Simões de Abreu

TIAGO MIRANDA

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Nasceu em Cabo Verde. Fale-me um pouco da sua família.
Nasci em São Vicente, filho de pais cabo-verdianos, Álvaro da Cruz e e Maria de Fátima Andrade Cruz, ambos já falecidos. Quando a minha mãe estava grávida de mim, o meu pai emigrou pela primeira vez, foi trabalhar para a Alemanha.

Foi fazer o quê?
Ele trabalhava nos barcos de mercadorias. Começou como marinheiro, depois passou a contramestre e mais tarde já era oficial. Começou uma carreira de emigrante como quase todo o povo cabo-verdiano. A primeira vez que o meu pai voltou de férias, eu já tinha 3 anos, não sei quantos meses e quantos dias. Eu até brincava com o meu pai e dizia-lhe: “Tu não és o meu pai, o meu pai está na Alemanha” (risos). As mulheres cabo-verdianas sofreram muito na pele, ser mulher de emigrante não é fácil. E ainda por cima emigrante naqueles tempos, em que só vinha a casa de dois em dois ou de três em três anos. Estava um mês em casa e lá ia ele outra vez.

A sua mãe era dona de casa?
Era, tomava conta de 6 filhos. Durante muitos anos fui o irmão mais novo. Tenho um irmão mais velho, o Rafael, que vive na Alemanha e tem a nacionalidade alemã. A seguir vem a minha irmã, Filomena, que vive em Almada. Aliás, quase toda a minha família vive em Almada. Tive uma irmã e um irmão que faleceram. Podíamos ser 8.

O que aconteceu?
Foi dessas doenças tipo paludismo. Nasceram e morreram em Cabo Verde, os dois com a mesma doença. Um deles morreu no último dia do ano, 31 de dezembro, uma data que a minha mãe nunca esqueceu.

Faleceram com que idade?
Com um ano e pouco. Na altura, em África, não tínhamos acesso aos medicamentos, mesmo na Europa aquelas doenças eram complicadas na altura.

Lembra-se deles?
Não, porque eles eram mais velhos. Eu nasci depois.

Tem uma grande diferença para os seus irmãos que estão vivos?
Não. Curiosamente, o meu irmão mais velho tem 60 e poucos anos e tenho dois anos de diferença para a minha irmã. Entretanto, passados muitos anos nasceram as duas mais novas, aqui em Lisboa, já a minha mãe tinha mais de 40 anos. Foi um risco. Mas ainda há o Maia. Tenho 6 meses de diferença para o Maia porque não somos filhos da mesma mãe (risos). O meu pai quando chegava de férias era a... sério (risos). O Maia viveu connosco desde pequenino, já em Cabo Verde vivia connosco. A minha mãe naquela de “tenho de proteger mais o Maia porque não sou a mãe biológica” acabou por criar uma paixão, uma adoração por ele... E o Maia pela minha mãe. Crescemos juntos, confidenciávamos muito um com o outro. Somos os irmãos mais próximos. Depois nasceram as duas miúdas, a Mirandolinda (risos). Nome complicado, não é? Eu disse à minha mãe que ela não gostava da filha (risos). Mas é uma homenagem. Em África tem muito disso, em homenagem aos padrinhos ou às madrinhas. Havia Miranda, mas não ficava bem, ficou Mirandolinda. Nós, os mais velhos que já tínhamos algum voto na matéria ainda dissemos: “Mãe, isto não é nome para chamar”. Tanto que para nós ela é a Mira. Depois da Mira nasceu a Rosa Paula, que é a mais nova, tem 40 anos.

Da parte do seu pai, só tem esse meio irmão, o Maia?
Que eu saiba (risos). O meu irmão que vive na Alemanha e que conviveu com o meu pai durante alguns anos lá diz que, provavelmente, há mais uns irmãos por aí, mas não sabemos.

Porque é que vieram para Portugal?
A minha mãe a determinada altura achou que aquilo não era vida e fez uma pressão muito grande junto do meu pai para virmos para Portugal, tinha eu uns 4, 5 anos.

Oceano com meses

Oceano com meses

D.R.

Do que é que se lembra de Cabo Verde?
Lembro-me de tudo, curiosamente, porque nunca perdi contacto com as raízes. Voltei sempre a Cabo Verde. Estou em Cabo Verde e sinto que é a minha casa. Para mim é muito difícil diferenciar Cabo Verde de Portugal, porque ambos são a mesma coisa. Ambos são a minha casa, o meu lar, os meus amigos. Mas tenho algumas lembranças de infância. Do cheiro da terra, das brincadeiras que se faziam na rua. Lembro-me da escola porque comecei muito cedo, nos Salesianos, uma escola de padres, onde tudo era muito restrito. Era obrigado a ir à missa e só podíamos jogar à bola a seguir. Tenho lembranças muito fortes. Tenho a lembrança do meu primeiro brinquedo, que a minha mãe me ofereceu.

Que brinquedo era?
Eram uns carros pequeninos, em miniatura, uns carros da tropa. Eu passava o tempo todo a brincar com aqueles carros. É o cheiro, a cor, as pessoas, o cabo-verdiano é um povo que pode ter os problemas todos do mundo, mas amanhã é outro dia. Hoje vamos viver a vida, amanhã é outro dia (risos).

De onde vem o nome Oceano?
(risos). É uma história curiosa também. O meu padrinho chama-se Oceano Pacífico Fortes. Por acaso já não o vejo há alguns anos e ele vive cá… Ele queria que eu fosse Oceano Atlântico da Cruz. Mas a minha mãe disse que não, apesar daquela tradição de ficarmos com os nomes dos padrinhos. Fiquei Oceano Andrade da Cruz, com os nomes da minha mãe e do meu pai. Mas poderia ter sido Oceano Atlântico (risos).

Estava contar, viajou para cá com 5 anos...
Sim. Como o barco em que o meu pai trabalhava fazia muito a carreira da Europa, da Alemanha, da França, de Portugal, a minha mãe conseguia estar muito mais em contacto com o meu pai, por isso ela quis vir.

Tinham cá família?
Não, essencialmente foi para estarmos juntos. A minha mãe disse que não ia viver a vida sozinha, com o marido a trabalhar na Alemanha que só vinha a casa a cada três anos para passar um mês. Não era vida para ninguém. Quando o barco dele ficava aqui em Lisboa, a minha mãe ia para o barco, fazia uma viagem e voltava com ele, estavam muito mais juntos.

Por que foram para Almada?
Penso que foi decisão da minha mãe. Havia uma comunidade de cabo-verdianos em Almada, ela já tinha pessoas conhecidas lá. E adorei Almada, consegui adaptar-me. Houve um ano em que fomos viver para o Barreiro, mas aí fizemos uma reunião de família, porque não dava para viver com aquelas fábricas, aquele fumo. “Mãe, não dá para viver aqui”. E voltamos outra vez a viver para Almada.

Quando vieram a sua mãe arranjou algum emprego?
Não, a minha mãe continuou sempre a tomar conta de nós. O meu pai dava dinheiro. A minha mãe era uma contabilista extraordinária. Porque o meu pai... Os cabo-verdianos são muito assim, amam a sua família mas são muito aéreos. Quando já aqui estávamos o meu pai continuou a ser emigrante. Quando ia, mandava dinheiro nos dois, três, quatro primeiros meses e depois esquecia-se (risos). Mas a minha mãe era tão boa a gerir o dinheiro que conseguia que durasse o tempo todo e ainda pagava a viagem de volta do meu pai para a Alemanha (risos). Ela seria uma contabilista extraordinária para qualquer empresa. Nunca vivemos na abundância, mas nunca nos faltou nada. Comemos sempre bem, vestimos sempre bem. E tudo isso foi capacidade da minha mãe, uma mulher extraordinária, que foi mãe e pai ao longo da nossa vida.

D.R.

Lembra-se de sentir a falta do seu pai?
Lembro-me de sentir falta do meu pai e de ficar revoltado em algumas circunstâncias, quando o meu pai vinha de férias. Porque, de repente, por exemplo, eu e o meu irmão Maia, já na adolescência, dizíamos: “Pai, vamos ao cinema”. Ele respondia: “Daqui de casa ninguém sai”. Eu achava que ele não tinha o direito, depois de estar dois anos fora de casa. Nós só respeitávamos o nosso pai por causa da educação que a nossa mãe nos dava. “O vosso pai é o vosso pai, vocês têm que respeitar sempre”. Mas nós não sentíamos essa obrigatoriedade, porque ele não estava presente. Quando chegava, tentava dar uma de pai, dar alguma disciplina. A minha mãe às vezes até tinha algumas chatices com ele, porque ela defendia-nos de morte. Nós achávamos que ela é que tinha legitimidade para fazer tudo, porque ela é que estava connosco todos os dias e tratava de tudo. O meu pai foi emigrante até aos meus últimos anos de carreira de jogador. A minha mãe viveu sozinha a vida inteira.

Nunca conseguiu aproximar-se do seu pai?
Ele reformou-se no meu último ano no Sporting, depois fui para o Toulouse. Nessa altura tentei conhecer o meu pai. Esteve comigo em Toulouse algum tempo. E realmente ele era um homem extraordinário e tive pena de não ter sido possível lidar com ele durante mais tempo da minha vida. A minha mãe lamentava-se imenso: “Já viste, a tua mãe a vida inteira sozinha”. Tenho umas histórias engraçadas, acho que posso contar uma, que ela já não está cá para se chatear comigo. Em termos de vida de marido e mulher, a minha mãe teve uma vida muito solitária, o marido nunca estava cá e faltava-lhe esse lado. Curiosamente, quando o meu pai se reformou e foi viver com ela, a coisa deixou de funcionar e ela comentou comigo: “Já viste filho, tantos anos sozinha, sem companhia e agora que o teu pai se reformou, deixou de funcionar. Tens que falar com ele, tens que o ajudar” (risos).

Ajudou-o?
Imagine agora eu ter que ir falar com o meu pai, nunca tinha tido nenhuma conversa nem para falar das minhas namoradas. Mas disse-lhe: “Pai tenho que te falar uma coisa. Sabe que até eu já houve altura em que tive uma certa dificuldade, mas hoje em dia, eu tenho dois ou três amigos que são médicos, se o pai quiser, eles ajudam a...” (risos)

E ele?
Ia-me batendo: “Tu achas que não sou capaz?”. Aquilo estava a mexer com a masculinidade dele. Nunca mais voltei a falar no assunto (risos).

O Oceano tinha uma ligação muito forte com a sua mãe.
Eu tinha uma paixão grande pela minha mãe e era recíproca. A minha mãe protegia-me muito, era uma pessoa de energias, acreditava nas energias e dizia para eu procurar estar com pessoas com energias positivas. Dizia-me: “Tu tens capacidade de captar as energias e se estiveres com pessoas negativas, isso vai-te sugar e vai-te por mal disposto. Tens que estar sempre rodeado de gente com energia positiva”. Devido à minha profissão, uma profissão mais mediática do que a dos meus irmãos, logicamente que a carga de inveja e de energia negativa em relação a mim era muito maior e a minha mãe sofria com isso. Por isso protegia-me tanto. Acho que isso a aproximou um bocadinho mais de mim e o meus irmãos tinham um bocadinho de ciúme daquela relação.

Maria de Fátima, mãe de Oceano

Maria de Fátima, mãe de Oceano

D.R.

A paixão pelo futebol começa na rua, certo?
Como com todas as crianças africanas. Na rua, com as bolas de trapos. Tenho também essa imagem de Cabo Verde. A imagem de ir à missa, nos Salesianos, para poder ir jogar à bola a seguir. Ainda por cima nessa escola eles equipavam-nos com as camisolas do Benfica, do FCP, do Sporting e nós crianças adorávamos aquilo, era um sonho. Esperávamos pelo domingo para poder fazer aqueles jogos nos Salesianos.

Torcia por qual dos clubes?
Pergunta difícil.... Para ser correto vou ter que dizer que era pelo Sporting, mas é só para ser correto (risos). Porque na altura a equipa de Cabo Verde era o Mindelense, que era como se fosse o Benfica lá do sítio. Torcia pelo Mindelense, depois quando cheguei aqui a Portugal, tinha muitas discussões com o meu pai, porque ele antes de ser emigrante tinha sido jogador, em Cabo Verde, do FC Derby, que era uma filial do FCP. Portanto, dentro da família havia de tudo, mas eram mais Benfica e FCP, embora já houvesse algumas pessoas do Sporting. Na altura, em Cabo Verde, já havia o Sporting de São Vicente, mas o Mindelense é que era a equipa mais forte e normalmente as crianças vão atrás da equipa que ganha mais. Eu era do Mindelense. Já em Portugal comecei a ser mais pelo Sporting, até para ser do contra (risos). O meu pai era o único que era do FCP, todos os meus irmãos são do Benfica e eu fiquei do Sporting só para contrabalançar um bocadinho (risos). Tudo começou com uma brincadeira da minha irmã, a última que nasceu, a Rosa Paula, que de repente diz “eu sou do Paços de Ferreira”, no meio de uma discussão entre irmãos, há muitos anos.

Do Paços de Ferreira?!
Não lembra a ninguém, não é? Nada contra o Paços de Ferreira, atenção. Mas se fosse do Almada, do Beira Mar de Almada, equipas que estão ao pé de ti...

Chegaram a perceber porquê o Paços de Ferreira?
Para ser do contra. Mas ela era do contra com substrato, ou seja, ela foi pesquisar tudo o que havia sobre o Paços de Ferreira, sabia a história toda do clube, dos jogadores (risos). E de repente o que começou por ser uma teimosia, porque quando disse Paços de Ferreira podia ter dito Leixões, já que não conhecia nenhuma dessas equipas, transformou-se numa paixão, ela é mesmo do Paços.

Estava a dizer que o futebol para si começou na rua, em Cabo Verde.
Sim, na escola, mas depois começa de uma forma mais séria com os meus 13 anos quando fui para os iniciados do Almada.

Como é que lá vai parar?
Através dos colegas da escola, que já jogavam juntos lá e disseram-me para ir fazer os treinos de captação. Fui e fiquei nos iniciados.

Quando era pequeno já dizia que queria ser jogador?
Engenheiro, queria ser engenheiro.

Engenheiro de quê?
Não sabia o que era, mas dizia que queria ser engenheiro. A minha mãe dizia que eu muitas vezes, à noite, estava sentado na cama a fazer contas num quadro imaginário e que as contas batiam certo (risos). A minha mãe incentivava: “Nós precisamos de engenheiros e de médicos na família”. Mas no meu ano de propedêutico, que antecedia a universidade, quando aparece a oportunidade de ir jogar para a Madeira, aí foi uma guerra com os meus pais para os tentar convencer. Eles deixaram sempre que eu jogasse, mas enquanto a escola não fosse prejudicada.

Era bom aluno?
Era, não precisava de estudar muito, como prestava muita atenção nas aulas, depois o resto acabava por ser fácil. Era aluno de 17, 18 valores.

Algum dos seus irmãos também jogava futebol?
Todos os meus irmãos jogaram futebol. O meu irmão mais velho foi júnior no Benfica, antes de emigrar, com 17 anos. Naquela altura nos juniores ninguém ganhava dinheiro e o meu irmão via os filhos dos emigrantes que tinham a idade dele, todos a irem trabalhar para a Alemanha e para a Holanda, alguns para os EUA e vinham todos com melhores roupas, mais dinheiro e ele sentiu essa necessidade. O meu pai, que continuava na Alemanha e já era contramestre, conseguiu que o meu irmão fosse trabalhar para lá.

Oceano, segundo em baixo à direita, na equipa do Almada

Oceano, segundo em baixo à direita, na equipa do Almada

D.R.

Fica no Almada até quando?
Até ao meu primeiro ano de sénior. Faço iniciado, juvenil, júnior e, no meu primeiro ano de sénior, o Almada apresenta-me uma proposta, ainda me lembro do valor: 17 contos e 500 por mês. Mas eu disse que não aceitava porque já havia jogadores no Almada a ganhar 25, 30 contos por mês. Disse-lhes que por 20 contos assinava. Como júnior já era titular da equipa, mas eles achavam que não me davam esse dinheiro. Entretanto apareceu uma proposta do Odivelas, que me oferecia 26 contos por mês e, no ato da assinatura, dava-me 50 contos. Ficava rico, multimilionário com aqueles 50 contos (risos).

Aceitou?
Avisei o Almada: “Têm dois dias, porque daqui a dois dias eu vou assinar por outro clube”. Passaram dois dias, o Almada não me disse nada, liguei para o Odivelas e disse que aceitava a proposta deles. Entretanto, depois, o Almada já me dava 35 contos por mês. Eu ainda não tinha assinado pelo Odivelas mas, lá está, por causa da educação que os meus pais me deram, disse: “Já dei a minha palavra ao Odivelas, por isso não há hipótese nenhuma”. E acabei por ir para o Odivelas. No Almada ficaram ofendidíssimos comigo.

Então e o que fez aos 50 contos?
Dei-os à minha mãe.

E com o primeiro ordenado, havia alguma coisa que quisesse muito comprar?
Havia. Um pacote de bolacha maria e um pacote de manteiga (risos). A sério. Eu adorava bolacha maria e manteiga e a minha mãe estava sempre a dizer-me que eu não podia comer tanta manteiga. Pensei: com o meu primeiro ordenado vou comprar um pacote de bolacha maria e um de manteiga e vou comê-los todo. E foi o que fiz (risos). Ao longo da minha vida fiz duas promessas. A primeira era ter um pacote de bolacha maria e manteiga. Depois, quando estava no futebol a sério, já no Sporting, o meu sonho era ter um Porsche, então prometi que no dia em que fosse buscar o Porsche, tinha que ir de calções e de chinelos.

E foi?
Fui e estavam sete graus negativos, porque foi quando estava no Toulouse (risos), isso é que é triste (risos).

Conte lá essa história.
Sempre tive o sonho de ter um Porsche, mas ao longo da minha vida fui tendo outras prioridades: uma pessoa casa-se, tem filhos, há a casa e coisas mais importantes do que ter um carro. Mas, depois, separei-me. E em Toulouse pensei: “Durante a vida inteira pensei na família e não pensei em mim, vou dar um brinquedo a mim mesmo”. Mas ao mesmo tempo lembrei-me: “Oceano não te esqueças da promessa que fizeste a ti mesmo”. Só que estava um frio desgraçado. Fui buscar o carro a Estugarda e estavam 6 ou 7 graus negativos.

Os senhores do stand devem ter ficado boquiabertos a olhar para si.
Ficou tudo a olhar para mim. Mas fui vestido como deve ser, só quando estou a chegar ao stand é que mudei de roupa. Calçãozinho e chinelos para ir buscar o carro (risos). Devem ter pensado: “Este gajo é maluco”.

De que cor era o Porsche?
Preto, os meus carros são todos pretos.

Voltando ao Odivelas. Acaba por não ir para a universidade, certo?
No Odivelas que era um clube semi-profissional, os treinos eram à noite, portanto tinha que sair de Almada para ir para Odivelas. Ia de barco até ao Cais do Sodré, depois vinha a pé até ao Rossio, no Rossio apanhava o Metro até Entrecampos, em Entrecampos apanhava o autocarro para Odivelas. E quando comecei a levar o futebol mais a sério, mesmo que não houvesse treino no Odivelas, treinava sozinho, treinava diariamente.

Ainda não tinha carro nessa altura?
Nada. L123 (risos). Passe. Fazia barco, autocarro, metro, era um sacrifício grande, chegava a casa tarde, mas era com prazer.

Os primeiros anos de Oceano no Sporting

Os primeiros anos de Oceano no Sporting

LUSA

Como é que vai para o Nacional da Madeira?
Faço um ano no Odivelas, na 2ª divisão, as coisas correram bem, e apareceu o convite do Nacional da Madeira que estava na 2ª divisão mas queria subir, com o treinador Pedro Gomes, antiga glória do Sporting. Ele convida-me e aí já vou ganhar 67 contos por mês. Quase tripliquei o ordenado (risos).

Foi difícil sair debaixo das saias da mãe e ir viver sozinho?
A minha mãe educou-nos bem e quem vive com 6 irmãos em casa, acaba por ter que se desenrascar. Por exemplo, eu e o Maia, quem se levantasse primeiro vestia a roupa que queria. “Amanhã vou vestir aquelas calças”, Enquanto acordava, se o Maia tinha acordado antes, já tinha as calças vestidas, ainda por cima nós tínhamos o mesmo corpo (risos). Portanto com os 6 irmãos e com os ensinamentos da minha mãe, todos nós sabemos cozinhar, todos sabemos passar a ferro, fazemos tudo. Ela ensinou os rapazes da mesma forma que as raparigas, nesse aspecto não havia distinção lá em casa. Por isso não custou.

Estava com quantos anos?
18 para 19 anos.

Namoradas já havia?
Não, nada. Eu era um sossegadinho. A minha primeira namorada foi na Madeira. Eu tinha 19 anos e ela tinha 37, a Elisa. Foi extraordinário a forma como a conheci.

Como foi?
Conhecemo-nos através de um jantar de amigos. Ela não achava graça nenhuma aos jogadores de futebol, aquelas coisas, não acha graça mas acha. Eu achei que ela era interessante. Tinha uma loja de antiguidades em Londres e vinha à Madeira passar férias. Estava há um mês de férias na Madeira e foi-se arrastando. Acabámos por nos conhecer bem e para mim aquilo era... Uma mulher mais madura... Eu tinha o vigor da juventude, mas ela tinha a universidade. Foi extraordinário (risos). Depois da Elisa conheci a mãe dos meus filhos, conheci-a também na Madeira.

Como se chama a mãe dos seus filhos?
Rosa. Fomos casados durante 11 anos. Mas estava a falar da Elisa, houve um dia em que fiquei muito triste comigo mesmo. Conhecia-a em 1983 e nunca mais vi, fomos perdendo o contato. Ao princípio, ela ainda mandava umas cassetes com música porque sabia que eu gostava, mas a partir do momento em que saiu da Madeira, perdemos esse contato. Já depois dos meus 40 anos, reencontrámo-nos e não a reconheci. Ela já estava com mais de 60 anos. Fiquei tão triste nesse dia porque ela chegou ao pé de mim e abraçou-me de uma forma, que eu pensei: “Este abraço é de alguém que me conhece muito bem”. Fiquei paralisado. E eu tenho uma coisa, não sei contar uma mentira. Não minto. Foi uma promessa que fiz à minha mãe há muitos anos, quando me divorciei. Quando a Elisa olha para mim: “Não me estás a conhecer?”. Fui honesto “Olha, eu senti neste abraço que te devia conhecer mas não estou a ver...”. É quando ela diz: “Sou a Elisa”, com as lágrimas nos olhos por eu não me ter lembrado dela… Fiquei tão triste e chateado comigo mesmo.

Passaram muitos anos.
O problema é que foram 20 anos sem ver essa pessoa. Até ela, se não me tivesse visto durante 20 anos, se calhar não me ia reconhecer também, mas tendo em conta que eu era uma figura pública, ela conseguiu ir acompanhando a minha evolução ou por causa da selecção ou do Sporting; agora, eu deixei completamente de a ver. Mas foi uma coisa triste.

Mas conheceu a Rosa, a sua mulher. Ela fazia o quê?
Era cabeleireira. Uns meses depois de a conhecer, começámos a viver juntos. A Rosa na altura já era mãe do Ricardo, o meu filho mais velho. Conheci o Ricardo com 7, 8 meses. E é uma paixão. O Ricardo é meu filho de coração, mas é como se fosse de sangue, é igual. O Ricardo é extraordinário. Conheci a Rosa e o Ricardo nessa altura. Entretanto, o Nacional, nesse ano, fica-me a dever os últimos 6 meses. Depois há aquela coisa de negociação. “Nós queremos renovar o contrato contigo”. “Se querem renovar, primeiro têm que pagar o que me devem”. A condição era: se eu renovasse, eles pagariam. Entretanto, o Pedro Gomes que tinha muitos contatos no Sporting, disse-me: “Atenção que vai haver eleições no Sporting e se o João Rocha ganhar, vai buscar o Toshack e, se assim for, eu vou para adjunto dele e gostava de te levar comigo”. Mas começam a chegar as férias, não tenho notícias nenhumas do Sporting e penso: “São 6 meses que o clube me está a dever, a 60 e tal contos/mês ainda são 400 e muitos contos. Se os receber de uma vez vou ter umas férias extraordinárias”. Falei com o Pedro Gomes: “Mister, vou ter que assinar com o Nacional”. Mas pus uma cláusula: se aparecesse um clube grande interessado em mim, o Nacional tinha que me deixar sair sem nenhuma contrapartida.

Oceano, no Sporting, em novembro de 1995

Oceano, no Sporting, em novembro de 1995

Tony Marshall - EMPICS

Tinha empresário?
Não, tratei de tudo sozinho. Nunca tive empresário. Assinei com o Nacional. Ninguém do Nacional acreditou que eu pudesse ir para um grande e aceitaram a cláusula. Entretanto começo a essa época no Nacional, que mudou de treinador porque o Pedro Gomes foi para o Sporting. E 15 dias depois de ter começado a época liga-me o Pedro Gomes. Já tinha falado com o Toshack e com a direção do Nacional - estavam de acordo. Mas disse-me que o Toshack gostava muito que fosse treinar no fim de semana ao Sporting. Eu disse: “Ó mister já não tenho idade para ir treinar à experiência, se o Sporting quiser que me venha contratar, agora ir treinar à experiência não vou”. Entretanto estivemos ali a argumentar... Porque eu tinha tido uma experiência, com 16 anos, no Sporting.

Conte lá isso.
Foi como jogador no Almada, quando o Sporting estava a fazer treinos de captação. Juntámo-nos 3 jogadores do Almada, sem o Almada saber, e fomos lá a treinos de experiência. Estavam para aí uns 1500 miúdos. Quando chegou a minha vez para jogar, tive para uns 10 segundos para jogar. Aquilo traumatizou-me de tal forma que, à experiência, nunca mais (risos). Acabei por dizer ao Pedro Gomes que não ia. Passou essa semana, o Toshack sempre a insistir para eu ir. Entretanto, tive uma conversa com a minha mãe: “Filho vai, não tens nada a perder. Tens contrato com o Nacional. Se ficares no Sporting, ótimo, se não ficares ao menos tentaste, agora o mal é ficares a vida inteira a pensares no que é que podia ter acontecido”.

Costumava falar com a sua mãe também sobre a sua carreira?
Tudo, até de namoradas falava com ela. Por isso a tal conversa sobre o meu pai, ela dizia que eu era o único filho com quem ela tinha à vontade para falar esse tipo de coisas, mais íntimas. E acabei por vir para o Sporting.

A Rosa veio consigo?
Não, fui sozinho e ainda o fim de semana não tinha acabado e já tinha assinado com o Sporting por 3 anos. Aí de 67 contos fiquei a ganhar 150 contos no primeiro ano, 200 no segundo e 250 no terceiro. Mais outra fortuna (risos). Mas eu ganhava 150 contos por mês e já havia gente no Sporting a ganhar 5.000 contos/mês. Ou seja, o que eles ganhavam por mês, eu ganhava em três anos. Mas tudo bem.

A sua mulher e filhos vieram viver consigo para o continente depois?
Assino, fico logo de estágio com o Sporting. Logicamente, não tenho tempo para nada. Quando acabámos o estágio, fui à Madeira buscar a Rosa. Ela não estava à espera. Viemos viver para Miraflores, num apartamento do Sporting. O meu vizinho era o Gabriel, jogador do Porto que veio para o Sporting. Como não tinha carro, nem carta, ia com o Gabriel todos os dias para o treino. Ele tinha um Citroën “dois cavalos”. Eu adorava esse carro.

Como é que foi o impacto no Sporting?
Extraordinário, porque cheguei com o à vontade de quem tem um contrato e não está ali para lutar pela vida. Logicamente que é o Sporting, mas ninguém acreditava que eu ia ficar no Sporting. Na Madeira eu era motivo de gozo: “Ah, vai treinar ao Sporting, vai apanhar bolas no Sporting”. Eu tinha 19 anos e ninguém acreditava que eu ia da 2ª divisão para o Sporting. Mas, no fundo, sempre tive confiança em mim e achava que quando trabalhamos bem e acreditamos, é possível.

Sente que é a prova disso?
Sinto. Não tinha a capacidade técnica dos jogadores do Sporting quando lá cheguei, mas o que é certo é que, nesse ano dos, 59 jogos, joguei 58, sempre os 90 minutos. Só não joguei um por causa de um cartão amarelo. Cheguei e a primeira jogada que vou dividir num treino é com quem? Com o senhor Jordão. O Jordão, que fazia parte dos Patrícios, que no campeonato em França tinham sido eliminados nas meias-finais. Apanho uma tripla de avançados, Jordão, Manuel Fernandes e Oliveira. Jogadores que eu estava habituado a ver na televisão. E na baliza o senhor Vítor Damas. Nunca tive ídolos no futebol, mas havia pessoas que eu admirava: o Jordão era um deles, tal como o Damas, o Manuel Fernandes, o Oliveira. Primeiro lance do treino, bola dividida entre mim e o Jordão, e entrei à “2ª divisão” (risos). O Jordão levantou vôo e ficou a olhar para mim. “Ó miúdo!?”. E eu: “Desculpe senhor Jordão, desculpe, foi sem querer” (risos). Andei o treino todo a pedir-lhe desculpa e ele: “Deixa lá miúdo, já passou, mas não tornes a fazer isso”. O que é certo é que ele “apadrinhou-me” desde esse primeiro dia. Tanto que fomos cimentando uma amizade muito grande. Disse-lhe na altura: “Senhor Jordão, ainda não sou pai, mas quando for pai você vai ser o padrinho do meu filho ou da minha filha”. E é o padrinho da minha filha mais velha.

Já jogava na posição de médio?
Sim, desde o Nacional da Madeira. Embora, bom, eu joguei praticamente em todos os lados: no Almada jogava a extremo esquerdo, depois fui para meio campo, mas como tinha muita capacidade defensiva, os treinadores aproveitaram-me para a defesa. Defesa central, defesa direito ou defesa esquerdo, até na baliza joguei contra o FCP numa final nas Antas.

É verdade, já lá vamos.
Portanto, joguei em todo o lado, mas a posição de que gostei sempre foi médio centro.

Oceano com a Super Taça conquistada pelo Sporting em 1987

Oceano com a Super Taça conquistada pelo Sporting em 1987

LUSA

Entretanto, que treinadores vai encontrando no seu caminho pelo Sporting, antes de ir para a Real Sociedad?
Ui, tantos. Depois do Toshack, foi o Manuel José, o Burkinshaw, o falecido António Morais, o Raul Águas, Marinho Peres. Foram sete épocas seguidas no Sporting e em 1991 fui para Espanha.

Mas nessas sete épocas, quando se fala do Sporting, qual é a primeira coisa que lhe vem à memória?
Instabilidade total, caos, caos. O melhor presidente que o Sporting teve foi o João Rocha e eu apanhei a saída do João Rocha. A partir daí o Sporting viveu num caos total e o foi “atropelado” pelo Benfica e pelo FCP em termos de poder no futebol português. Tínhamos equipas melhores do que as do Benfica e do FCP, mas não tínhamos hipóteses nenhumas.

Porquê?
Primeiro, porque internamente éramos completamente desorganizados, um caos total dentro do clube; e, segundo, porque exteriormente não tínhamos força nenhuma. Depois, muita mudança de treinadores, um treinador por dia, ao segundo jogo já estavam com a corda na garganta e portanto era muito complicado trabalhar assim.

Houve algum treinador nesse período que o tenha marcado mais?
Gostei muito do Toshack. Foi o treinador que mais me marcou ao longo da vida. Devido à forma como encarava o futebol e a confiança que depositava em mim. Foi o treinador que mais confiou em mim. Num jogo que fizemos com o Sevilha, em Espanha, ele falou para a equipa toda, mas falou só de 10 jogadores. No final, quando acabou a palestra: “Boa sorte, bom jogo, vamos ganhar”. Vira-se para mim: “Tu sabes o que tens que fazer” e entregou-me a camisola. Ganhamos 3-1, fiz dois golos nesse jogo e o Sevilha a jogar com o Maradona e o Simeone.

O Oceano tinha uma veia goleadora, para quem jogava lá atrás.
Sim, e isso tem tudo a ver com o Toshack. Começou com o meu primeiro jogo internacional, em que jogamos com o Auxerre para a Taça UEFA. Ganhámos aqui 2-0, eles lá estão a ganhar por 2-0 e vamos a prolongamento. Eu estava a jogar a defesa central e, no prolongamento, o Toshack vira-se para mim aos gritos no campo a dizer para eu subir. Quando chego à área já chego tarde, a bola vem para a entrada da área e faço o melhor golo da minha vida. O primeiro e o melhor golo. E esse golo foi o que eliminou o Auxerre. Depois, o Litos acabou por fazer o 2-2. Mas foi a confiança do Toshack. Eu tinha confiança em mim, mas acho que o Toshack tinha muito mais (risos).

Durante esses 7 anos, no Sporting, nasce a sua filha.
Nesses 7 anos caso-me, com 21 anos, e nasce a Carina, a mais velha.

Assistiu ao parto?
Assisti e filmei, mal disposto, mas filmei (risos). Ainda por cima o parto dela demorou muito tempo. Como na altura começava a falar-se muito na SIDA, a minha mulher tinha medo de levar algum tipo de transfusão e o médico, para não haver transfusões, ia cortando e ia laqueando, eram pinças para um lado, pinças para o outro, aquilo demorou... Foi cesariana e demorou duas horas e tal a abrir. E além de ser cesariana e ter demorado duas horas e tal para abrir, a miúda teve que ser tirada a ferros. Foi duríssimo. Foi numa clínica ao pé da maternidade Alfredo da Costa. Mas a Carina, quando nasceu, era o bebé mais lindo que eu já vi em toda a minha vida, era mesmo linda. Tenho lá essa imagem. Quando a agarram com o ferro e ela está a sair, é extraordinária a imagem dela. Ao contrário, a Fabiana já não era assim tão bonita (risos).

Mas agora é estrela de televisão.
Sim, a Fabiana foi melhorando muito ao longo do tempo, mas a Carina já nasceu uma miúda lindíssima.

Então nasceu a Carina, já tinha o Ricardo...
Sim, eles têm diferença de 6 anos entre cada um.

Oceano com as duas filhas Carina, à direita, e Fabiana

Oceano com as duas filhas Carina, à direita, e Fabiana

Paulo Jorge Figueiredo

Da primeira etapa no Sporting, quem são os maiores amigos?
Jordão, sem dúvida a primeira grande amizade. Depois fiz uma amizade muito boa com o Gabriel, até porque íamos e vínhamos todos os dias juntos ao treino, com o Sousa e o Jaime Pacheco, que eram do FCP. O Sousa era engraçado: íamos de férias, não dizíamos nada um ao outro, depois um aparecia no hotel do outro. Ligávamos para as agências de viagens para descobrirmos onde é que o outro estava e aparecíamos. “Não me disseste nada, mas eu estou aqui para passar uns dias de férias” (risos). Fazíamos muito o sul de Espanha, as Canárias, Ibiza, Maiorca e por aí. Foi a mulher do Sousa, a Isaura, que me ensinou a fazer um cabrito à moda do Porto. Faço um cabrito extraordinário.

Do que se recorda mais dessas sete épocas no Sporting? Estava a dizer que sai o João Rocha, entra o Jorge Gonçalves.
Curiosamente gostei muito do Jorge Gonçalves como presidente, se bem que ele apanhou o tal caos do Sporting. Ele saiu do Sporting mais pobre do que entrou, isso tenho a certeza, porque quando ele entrou no Sporting, tinha uma vida muito boa. Tinha acabado de fazer o negócio do Rijkaard e ganhou muito dinheiro com esse negócio. Esse dinheiro foi todo metido no Sporting e, na altura em que ele vai tratar do empréstimo final para pagar os nossos salários, é quando a direção lhe dá a facada nas costas e corre com ele. Acho que ele teve todas as condições para ser um bom presidente, mas não teve uma direção à altura que o ajudasse. Acabou por se prejudicar, ficar com uma má imagem, porque a verdade é que estivemos 7 meses sem receber ordenado, foi muito complicado, mas sabíamos que estava a fazer tudo para resolver o problema. E sabíamos que desgraçou a vida dele por causa do Sporting e ninguém reconheceu isso.

Viveu esses anos todos na casa de Miraflores?
Não, depois de Miraflores fui para a Quinta do Lambert. Já estava ao pé do estádio. Depois, comecei a fazer contas. O Sporting pagava-me a renda, acho que era 50 ou 60 contos de renda e fui negociar: “Vocês dão-me esse dinheiro e eu compro uma casa”. Comprei casa em Caneças.

Porquê em Caneças?
Por causa do Rosário, o “baixinho”, que é hoje adjunto do Fernando Santos na seleção nacional. Tinha uma amizade muito grande com ele, porque jogámos juntos no Nacional da Madeira. Quando vim para aqui, o único sítio onde eu tinha referências era em Almada, mas comecei a pensar na ponte e não dava para ir e vir para Alvalade todos os dias. Ia desgraçar-me. Andei à procura de uma zona - se soubesse o que sei hoje tinha comprado em Lisboa (risos) - e decidi ir para junto do Rosário. Gostei, é um sítio muito tranquilo, está-se quase no centro da cidade.

Depois do Jorge Gonçalves, veio o Sousa Cintra e vai para Espanha.
Sim, o Sousa Cintra é que me vende à Real Sociedad.