Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

Oceano, parte II: “No Caso Paula, avisei os jogadores que controlava e disse-lhes: ‘Saiam à minha frente, que esta noite vai dar merda’”

De visão e faro apurados, Oceano fala-nos nesta segunda parte da sua experiência na seleção entre gerações, de como Toshack o impediu de ir jogar para o Barcelona de Cruijff, dos anos áureos na Real Sociedad, o regresso ao Sporting, da marcação a Maradona e Simeone, da mulher da sua vida, Marina Mota, do sonho de voltar a treinador principal e de como viver sozinho se tornou num vírus

Alexandra Simões de Abreu

TIAGO MIRANDA

Partilhar

Quando é chamado a primeira vez à seleção?
Um mês depois de ter chegado ao Sporting fui chamado à seleção A, para um jogo com a Roménia. Perdemos 3-2 em Alvalade e eu entrei nos últimos 25, 30 minutos. Foi a minha estreia na seleção. Acabou por ser uma coisa natural. O que eu não estava à espera era de afirmar-me tão rapidamente no Sporting. A partir do momento em que era titular, o resto acabou por ser natural. O que é certo é que venho da 2ª divisão e dois meses depois estou a estrear-me na seleção.

Como era o ambiente da seleção?
Completamente dividida. Nessa altura não era seleção nacional, era norte contra sul. Tenho histórias curiosas. Por exemplo desde chegar o homem do dinheiro na seleção para nos pagar as diárias e alguém do FCP, normalmente o Gomes, dizer: “O primeiro a receber sou eu”. O Jordão picava-se e dizia também: “O primeiro a receber sou eu”. Montava-se logo ali um clima de hostilidade (risos) e acabavam por receber os dois ao mesmo tempo. Mas aquilo notava-se até nas mesas. Os jogadores do FCP sentavam-se numa mesa, os do Sporting e do Benfica noutra. Este clima só foi diluindo com a emigração dos jogadores. Ao irem lá para fora perderam um pouco aquela raíz clubística, mas já foi na tal Geração de Ouro, com o Figo e essa malta toda. Eu conheço bem, porque na seleção fui sempre entre gerações, nunca fui de uma geração. Quando me estreei na seleção, a maior parte eram jogadores mais velhos, o Jordão, o Gomes, o Manuel Fernandes. E quando esta geração de ouro aparece, eu sou o mais velho. Fui sempre apanhado entre águas, nunca foi a minha geração na seleção nacional. Acho que talvez eu seja mesmo o único jogador que fez essa ligação entre a seleção do Gomes, do Jordão e do Manuel Fernandes e do Figo, João Pinto, etc.

Muito diferentes essas seleções?
Muito. Com a Geração de Ouro havia mais personalidade, um querer jogar mais à bola, já não sofríamos tanto. Antigamente íamos jogar à Suécia e à Noruega e eles eram altos e fortes e quando havia bola lá por cima, a gente sofria muito. Depois, chegou esta geração que durante a sua formação jogou muitas vezes contra Alemanhas, Itálias. Estavam habituados a ter a bola, foi essa a grande diferença. Portugal começou a ter bola, antes não tinha. Antes tínhamos o Futre que agarrava na bola e podíamos respirar um bocadinho (risos), porque ele era extraordinário. Mas depois começa a aparecer muita gente: o Figo, o João Pinto, a segurar a bola e a equipa já respirava muito melhor.

Notou essa evolução só a nível de jogadores ou também a nível de comando técnico?
Também notei em termos de comando técnico, se bem que eu gostei muito de ter trabalhado com o Artur Jorge na seleção. O Artur Jorge era um treinador extraordinário.

Acha que foi mal compreendido em certas alturas?
Sim, acho que ele teve uns problemas de saúde e depois, quando foi para o Benfica, as coisas já não lhe correram tão bem. Mas na seleção adorei. Para explicar o Artur Jorge conto um episódio. Temos um jogo com a Holanda, que tinha acabado de ser campeã da Europa, com o Gullit, o Van Basten, uma equipa extraordinária, no estádio das Antas. Chovia torrencialmente e antes do jogo, ele fez-nos o filme do que ia acontecer. É uma visão de treinador extraordinária: “Vamos sofrer que estes gajos são fortes, são os campeões da Europa e podem ser campeões do mundo porque esta equipa é a melhor do mundo”. E inventou. Eu joguei a central com o Veloso, dois pequeninos a marcar o Van Basten, que tinha mais uns 25 centímetros do que eu, e o Gullit, que era outra viga. O Artur Jorge disse: “Vamos sofrer, vamos ter uma ou duas oportunidades e as oportunidades vão ser criadas aqui por este lado, com o Rui Águas a aparecer e a cabecear. Se fizermos golos nessas oportunidades, ganhamos o jogo”. E ganhámos 1-0 com um golo em que o Cadete cruza e o Rui Águas marca de cabeça. Ele sabia. Sabia como tínhamos que sofrer e como é que podíamos ganhar.

Depois de três anos na Real Sociedad, Oceano volta ao Sporting, na época 1994/95

Depois de três anos na Real Sociedad, Oceano volta ao Sporting, na época 1994/95

D.R.

Mais algum selecionador que gostasse de salientar?
O Carlos Queiroz em termos tácticos é dos treinadores mais fortes que conheci, senão o mais forte. Taticamente é muito forte a treinar as equipas. A Geração de Ouro sabia que se tivesse a bola, tinha mais possibilidade de ganhar o jogo. O Figo jogasse na direita, na esquerda ou no meio sabia o que tinha de fazer. Nós não tínhamos essa cultura tática de ir mudando de posição e saber como é que se encarava isso. Foi com o Queiroz.

Como é que se dá a sua ida para a Real Sociedad?
O Toshack é treinador da Real Sociedad e fala com o Sousa Cintra. É ele que faz o negócio. Sinceramente eu não queria ir.

Porquê?
Por duas razões. Primeiro porque, financeiramente, não compensava, na altura já estava com um bom contrato no Sporting, tinha 28 anos - e a Real Sociedad não era aquilo que eu queria. Já que vou para fora, pelo menos vou para um clube mais nomeado. Tive uma conversa com o Sousa Cintra e disse-lhe: “Eu não vou sair”. Eu tinha mais dois anos de contrato com o Sporting. Andámos ali um bocado, mas acabei por sair mais pelo dinheiro que o Sporting ganhou na minha venda, do que aquilo que eu fui ganhar.

Foi sozinho?
Fui com o Carlos Xavier. Costumo dizer que eu já vivi mais anos com o Carlos Xavier do que ele com a mulher, e eles estão juntos desde que o conheci (risos).

A sua mulher e os seus filhos não foram consigo?
Foram no primeiro ano, os meus filhos inscreveram-se lá no colégio, o meu filho já falava basco, que é muito difícil, mas no final desse primeiro ano já estava com muitas dúvidas do meu casamento, já não sabia aquilo que queria - e entretanto nasceu a Fabiana. A Rosa ficou cá e lá.

Também assistiu ao parto?
Sim e filmei. A Fábia, como a gente lhe chama, também foi cesariana, porque a minha mulher aproveitou e fez laqueação de trompas, mas nasceu em dois minutos.

Quando ela nasce a sua mulher já não volta para Espanha?
Volta. Até me chateei com ela porque a Fábia tinha 7 ou 8 dias quando ela voltou para Espanha e achei que era uma inconsciência fazer uma viagem de avião com um bebé tão pequeno. Mas ao mesmo tempo adorei porque passei mais tempo com a Fábia do que passei com os meus outros dois filhos. A Fábia, com um ano, ainda não sabia falar como deve ser e já sabia cantar. Aproveitava e divertia-me com ela, mas, na altura, o divórcio já se estava a formar na minha cabeça.

Oceano com as cores da seleção nacional

Oceano com as cores da seleção nacional

AI Project

Quando foi para Real Sociedad compra casa ou vai para uma casa do clube?
Primeiro fiquei num hotel. Depois de conhecer San Sebastian, decidi viver numa casa, o meu contrato previa isso. Depois tinha pensado que se renovasse com o Real Sociedad compraria casa, mas depois tive uma chatice com o Toshack, no último ano de contrato. Assinei com o Barcelona e ele não me deixou ir.

Como assim?
Na altura o treinador do Barcelona era o Cruijff e eles falaram comigo no meu segundo ano de contrato. Eu falava muito com o Bakero, que era basco e um dos capitães do Barcelona, e ele dizia-me que o Cruijff estava muito interessado em mim. Quando acabou a época o Barcelona convidou-me para a festa de campeão. Fui ao hotel Maria Cristina, tinham reservado um quarto para mim lá em cima. Falei com eles e cheguei a acordo em dois minutos. Eu estava a pensar num número para pedir ao Barcelona, entretanto o presidente diz-me: “Isto é o que podemos dar-te”. Deram-me o dobro daquilo que eu tinha pensado (risos). Disse OK. Mas disse-lhes: “Vocês têm mais um problema, é que tenho mais um ano de contrato com a Real Sociedad”. Eles disseram para não me preocupar, que tinham lá muitos jogadores bascos que tinham vindo da Real Sociedad. Havia boas relações entre os dois clubes. Assinei o contrato, com a cláusula de confidencialidade, ou seja, não se podia falar enquanto não estivesse tudo resolvido com o clube. No outro dia, mandaram um emissário para a Real Sociedad e eles pediram um balúrdio por mim. Eu já com quase 31 anos.

O que aconteceu?
Entretanto ligou-me o Cruijff. “Sabes o quanto gosto de ti e quanto te quero na minha equipa, mas o Barcelona não pode pagar este dinheiro por ti, um jogador com 31 anos. Assinas um contrato de quatro anos e não há hipótese, é o último contrato que vais assinar, em termos teóricos. Portanto ou os gajos da Real Sociedad baixam o valor ou..."

Tem ideia de quanto pediram por si?
Já me esqueci, mas foi uma barbaridade. Entretanto, eu que já estava de férias, fui para a Real Sociedad ter uma reunião com o Toshack. Quem decidia era o Toshack, isto é que é duro, quem decidia era ele não era a direção do clube. Perguntei-lhe porque me estava a cortar as pernas. “Desculpa lá, mas tu não vais sair. Estamos a pedir este dinheiro porque sabemos que eles não vão pagar". Nesse ano, a Real Sociedad transformava-se em S.A. e eu era o melhor jogador do clube. Ele dizia: “Para te vendermos tem de ser por um valor que nenhum sócio possa questionar. Porque se vendermos por um valor pelo qual já vendemos outros jogadores para o Barcelona, os gajos vão dizer que temos de ir buscar um melhor e ninguém faz este trabalho”. Eu ainda lhe disse que aquela era a última oportunidade que tinha de jogar num grande como o Barcelona. Mas ele não quis saber. Foi de tal maneira que andamos agarrados na camisa um do outro, e o Toshack era grande, tinha 1,90m (risos). Chamei-lhe tudo, disse-lhe tudo, mas nada. Até lhe disse: “Para o ano tu não tens jogador, eu vou ter uma lesão no início da época e não jogo a época inteira”. Ele sabia que isso nunca me ia acontecer (risos). Às tantas disse-lhe: “Mas há uma coisa que te vou prometer, não fico na Real Sociedad depois de acabar o meu contrato. Podem oferecer-me todo o dinheiro do mundo que não fico”. E não fiquei. Mas fiquei aquele ano.

Custou-lhe muito ficar mais esse ano?
Foi o meu ano mais difícil. Custou-me a motivação para começar a época e em termos de rendimento foi o meu pior ano na Real Sociedad. Estava de rastos em termos psicológicos. Só pensava que nunca mais ia ter oportunidade de jogar numa grande equipa como o Barcelona. E o mais difícil estava feito que era o treinador querer-me, o presidente querer-me e eu chegar a acordo com eles. Pensei eu que o mais difícil era isso.

Ainda por cima estava com problemas no casamento...
Foi tudo complicado.

Foi nesse ano que se separou?
Não, separei-me quando voltei para o Sporting. Mas o último ano passei quase todo o tempo sozinho em Espanha. E só não me separei nessa altura porque estava em Espanha, se já estivesse em Lisboa tinha-me separado logo.

Oceano com a mãe, a sua grande paixão

Oceano com a mãe, a sua grande paixão

D.R.

Como é que se dá o regresso ao Sporting?
Infelizmente dá-se por causa de uma tragédia, o acidente do Cherbakov. Apesar de… O Bobby Robson já tinha ido a Espanha falar comigo. Pouca gente sabia disso. Ele falava comigo com um entusiasmo extraordinário. Ele dizia: “Imagine this kids (que eram os Figos e aquela malta toda) with your experience, we gonna have a great team” (risos). E o entusiasmo dele fez-me querer voltar. Entretanto acontece aquilo, o Robson é despedido a meio da época, dá-se o acidente do Cherbakov, mas já tinha mais ou menos as coisas encaminhadas. Depois, vim jogar aqui o jogo de homenagem que fizemos e acertei tudo com o Sporting. O Carlos Queiroz diz que fica muito feliz com o meu regresso, que o podia ajudar. Foi bom porque senti aceitação.

É aí que nasce uma maior amizade com Queiroz?
Já o conhecia antes, mas logicamente que a trabalhar juntos no clube, ficou mais fácil. Eu sei que muitos sócios gostavam de mim, mas, quando volto, volto por uma porta diferente, por uma porta maior. E o respeito que tiveram por mim nessa altura foi diferente. Os melhores anos da minha carreira são esses anos no Sporting, tirando os meus primeiros dois anos na Real Sociedad, que foram extraordinários.

No Sporting apanhou aquela geração de Figo...
...Capucho, Balakov, Nelson, Marinho, Marco Aurélio, Valckx, Juskowiak - tínhamos uma equipa extraordinária, a melhor equipa de sempre que o Sporting teve e curiosamente só ganhámos uma Taça de Portugal. Aí é que o sistema funciona. Há coisas que marcam. Uma das coisas que me marcaram foram as afirmações do árbitro Jorge Coroado. Eu nem gosto de falar de árbitros, acho que todos erram, embora às vezes errem mais para um lado do que deviam (risos). Mas um árbitro ter o desplante de ir para a televisão ver o jogo que nós fizemos em Chaves, que empatámos 2-2, em que há três penáltis escandalosos, e ele ter o desplante de ir à televisão, olhar para os lances e dizer: “Realmente, depois de olhar para isto fico com uma certa azia”. É o gozo. É das coisas que, não valia a pena. Ok, enganaste-te, já nos prejudicaste, ainda por cima não foi uma nem duas, mas três, para não falar de outros lances que aconteceram durante o jogo, Mas o penálti é o lance mais claro do futebol e houve três. Em 100 pessoas, se perguntassem, os 100 diziam que era penálti, até as próprias pessoas do Chaves. E ele teve aquele desplante. Para mim foi das coisas que mais me doeram na carreira. Se calhar não tem maldade nenhuma, mas vir dizer aquilo com aquele ar meio de gozo... Marcou-me.

Que outras memórias tem dessas últimas épocas no Sporting?
Nunca me senti tão bem. Ainda por cima estava a sair daquela fase do divórcio (risos). No ano em que se consuma o divórcio, foi o ano em que já estava o belga Waseige e o Otávio Machado.

Oceano, o terceiro à direita em cima, na seleção que fez o apuramento para o Europeu de 1996

Oceano, o terceiro à direita em cima, na seleção que fez o apuramento para o Europeu de 1996

Manuel Moura

Apanha também o caso do very-light.
Eu estava lá. Estava com jogadores do Benfica que também não iam jogar, atrás da baliza. Esse foi o único jogo que não joguei na época por estar lesionado. Tenho essa imagem perfeitamente guardada na cabeça. Estava atrás da baliza e lembro-me do very-light ter saído da outra bancada do fundo, lembro-me do barulho, um foguete autêntico, e nós todos quando viramos a cabeça para trás, abriu-se uma clareira na bancada e só estava a vítima no meio, ainda com o fumo a sair do peito. É uma imagem duríssima.

E relações menos boas no futebol?
No Sporting tive uma relação muito conturbada com o Carlos Manuel. Eu dou-me bem com toda a gente, há uma pessoa com quem me dou menos bem chamada Carlos Manuel (risos).

Porque é que as coisas não correram bem entre vocês?
Porque, como é que eu hei-de pôr isto...Na altura, eu era capitão de equipa, e senti que quando o Carlos Manuel chegou, a equipa toda estava com ele, porque ele estava a fazer um trabalho extraordinário no Salgueiros. O primeiro erro que ele cometeu: chegou e contratou mais sete ou nove jogadores. O Sporting que já tinha um plantel vastíssimo. Ou seja, fazíamos treino com 30 e muitos jogadores, o que nenhum treinador do mundo consegue fazer. Começaram-se a criar muitos conflitos na equipa. E o Carlos Manuel começou a desligar-se desses conflitos e achei que não devia ter feito aquilo, tanto que acabo por ter uma discussão com ele, dentro do balneário, perante toda a gente.

Quando?
Empatámos um jogo em casa, ele diz que não tínhamos jogado nada, que foi uma vergonha. Pedi para falar e disse que ele não tinha legitimidade em dizer aquilo. Tinha acontecido uma coisa ao longo da semana entre mim e ele. Havia um jogador francês, o Didier Lang, e 90% dos golos eram feitos com o Didier porque nós combinávamos muito bem. Houve uma altura em que o Didier se pôs de cócoras num treino e diz: “Moi j'arrête, pour moi c'est fini”. Não treino mais, acabou. Eu disse, Didier não podes fazer isso, estamos no meio do treino. Ele sentou-se no meio do relvado. Acho que o Sporting devia-lhe umas “luvas”, não lhe tinha pago ainda, e ele diz: “Estes gajos não me pagam e eu já não faço mais nada”. Tentei convencê-lo e não consegui. Fui ter com o Carlos Manuel, que era o treinador, disse-lhe que tinha tentado demover o Didier mas não tinha conseguido. E ele responde: “Estou-me a cagar”. E deixou que a situação acontecesse. Aquela situação despoletou outras situações dentro do treino. Um chateou-se com o outro, o outro com o outro. O treino começou a ficar muito agressivo e aquilo correu mal até ao fim de semana. No final, ainda fui bater à porta do balneário dele e disse-lhe que o que o que tinha feito acabou com o treino, porque os jogadores sentiram que podiam fazer o que que queriam, não viram a autoridade como treinador. Ele diz que não quer saber, que estava a fazer o relatório para mandar para o presidente e ele que resolvesse. Ora, quando o jogo corre mal, e só podia correr mal, e ele trata-nos daquela maneira, disse-lhe que não tinha legitimidade nenhuma porque quando não queres saber das coisas que se passam nos treinos também não vais ter legitimidade nenhuma no jogo para dizer que eu joguei bem ou joguei mal. O caldo ficou entornado. Foi o primeiro treinador a pôr-me no banco. Mas depois, quando as coisas estavam mal, eu entrava e resovia. Em Braga entrei, fiz golos, e houve outros jogos em que entrei e fiz golos. Mas pronto, foram dos momentos menos bons. Ainda por cima, segundo alguns jornalistas - atenção que não sei até que ponto é que isto é verdade - o Carlos dizia nos almoços com os jornalistas amigos dele que havia dois jogadores que ele ia lixar no Sporting: um era o Oceano o outro era o Pedro Barbosa. Só que ele esquecia-se que os jornalistas também nos conheciam e alguns deles eram nossos amigos e vinham contar. Não sei até que ponto é verdade ou não, mas a verdade é que eu e o Pedro Barbosa íamos para o banco (risos). Não há coincidências.

Na seleção

Na seleção

Shaun Botterill

E na seleção fez o europeu de Inglaterra, em 1996, com António Oliveira selecionador. Deve ter muitas histórias que não pode contar.
O “Caso Paula”, por exemplo (risos).

Exatamente.
Nessa altura era eu o capitão da seleção.

Foi complicado?
Foi complicado mas o mais grave é que eu já sabia que aquilo ia acontecer.

Como assim?
Porque pressentia. Eu via as movimentações que estavam a acontecer. Não vale a pena estar a dizer nomes. Entretanto houve 5, 6 ou 7 meninos a quem eu disse: “Eu vou jantar em casa, mas vocês vão sair à minha frente”. E saíram todos à minha frente. Aqueles que eu achava que deviam sair. Ainda hoje dão-me beijinhos e dizem: “Ainda bem que nos tiraste de lá, porque mesmo que não fizéssemos nada, estávamos lá” (risos). Eu avisei-os, disse-lhes: “Esta noite vai haver merda”. E todos aqueles que eu podia “controlar”, porque havia jogadores que por muita amizade que tivesse eu não podia controlar, mandei-os sair à minha frente.

Sobretudo jogadores do Sporting, cálculo.
E alguns do Benfica também, não foi só com os do Sporting. Mas foi complicado. Ainda me lembro, uns meses depois estava em casa e aparece na televisão, na SIC: “Sexo, drogas e álcool na seleção nacional”. Jesus! Mas drogas, não houve nada. Sexo não sei se houve (risos), um bocadinho de álcool, talvez (risos). Houve muitas inverdades que se disseram no meio disso tudo. Havia até umas histórias que eu tinha ido não sei aonde pagar às raparigas (risos). Eu nem sei quem eram, inventaram tantas histórias, mas enfim.

Oceano num jogo pelo Sporting, contra o Mónaco onde jogava Costinha

Oceano num jogo pelo Sporting, contra o Mónaco onde jogava Costinha

D.R.

Porque é que vai para Toulouse?
Vou para Toulouse e talvez tenha sido um erro.

Porquê?
Os meus últimos contratos no Sporting, assinei-os todos ano a ano. Falava com o presidente e dizia-lhe: “No final da época tenho de fazer um balanço e há uma coisa em que tenho de ser verdadeiro: este é o clube do meu coração, é o clube que eu amo e se sempre fui verdadeiro com todos os clubes com este aqui mais se justifica. Se sentir que tenho capacidade para jogar mais um ano e se vocês estiverem interessados, chegamos a acordo”. Nesse ano, declarações de todos os dirigentes do Sporting: “Este ano, o Oceano vai fazer aquilo que fez estes anos, chega aqui e em dois minutos renovamos o contrato”. Entretanto há aquela confusão de que falei entre mim e o Carlos Manuel, o Carlos depois é despedido e o Sporting fica com um plantel de quase 40 jogadores e realmente tem de reduzir, tem de dispensar jogadores. Mas eles precisavam de um treinador para essa lista de dispensas. É quando o Sporting me faz aquela proposta que foi a melhor proposta da minha vida, mas que nunca poderia aceitar.

Explique melhor.
A direção do Sporting reuniu-se comigo e disse-me: “Tu vais ser o treinador do Sporting, mas ficas como adjunto do próximo treinador que vier, um treinador estrangeiro”. Isto porque eu não tinha formação nem curso nenhum de treinador. “Vamos pagar-te toda a especialização, todos os cursos que tenhas de fazer”. Em termos salariais eu ia ganhar mais do que ganhava como jogador e era um contrato para cinco anos. Primeiro, não aceitei, porque só pensava: “Quero é jogar, quero é jogar”. Mas depois comecei a pensar, jogo mais um ano e acaba a minha carreira, se calhar a melhor altura é agora. Entretanto liguei para alguns jornalistas meus amigos e eles foram alertando: “Atenção que há uma lista de dispensas para assinar e, provavelmente, como vais ser o único treinador que o Sporting vai ter até irem de férias, vais ter de assinar essa lista”. Perguntei à direção do Sporting, e era assim mesmo. Disse que não aceitava porque havia nomes naquela lista de jogadores que tinham sido meus colegas ao longo dos últimos 3,4 anos e a minha primeira ação como treinador seria dispensá-los. Achei que não devia fazer isso. Mas foi um erro da minha parte.

Porquê?
Primeiro, porque esses jogadores, muitos deles nem souberam e os que souberam nem sequer me disseram nada. Ao menos podiam ter dito: “Obrigado pela solidariedade”. Segundo, porque de uma forma inteligente podia ter mudado essa decisão. Assinaria contrato com o Sporting e depois dizia que precisava de olhar para esta lista e era eu quem fazia a avaliação da lista. Mas aquela coisa “Vocês querem que eu fique no Sporting só para assinar esta lista de dispensa”, a minha tendência foi logo dizer que não. Devia ter pensado um bocadinho mais e provavelmente teria dado a volta a essa decisão e teria ficado no Sporting.

Fabiana, Carina e Ricardo, os filhos de Oceano.

Fabiana, Carina e Ricardo, os filhos de Oceano.

D.R.

Como surge a oferta do Toulouse?
Aí há um empresário que entra no meio e que me diz que tem uma oferta do Toulouse.

Quem foi?
O Jorge Manuel Mendes e o Luís Vicente. Entretanto, fui de férias e, depois de tantas coisas que saíram no jornal sobre a minha saída do Sporting, tive de dar uma entrevista a explicar que simplesmente acabava contrato e que o Sporting não estava interessado na minha continuidade enquanto jogador. E fui para França jogar mais um ano.

Foi sozinho?
Sim, sozinho. Já estava separado há mais de um ano. Fui sozinho, a Marina Mota começou a ir lá passar uns fins de semana.

Como conhece a Marina Mota e como surge o vosso relacionamento?
A Marina conheço desde sempre. Conheci-a e ao Carlos Cunha, na altura ainda eles eram casados. Eu ia muito ao teatro, sempre gostei muito de teatro. Chego a ir de fim de semana a Londres só para ver peças de teatro. Adoro. Gosto de tudo. Gosto de ver bons espetáculos, bons atores. Prefiro um bom teatro ou um bom espetáculo musical a cinema

Então começa a frequentar o Parque Mayer, é isso?
Todos os jogadores do Sporting frequentavam o Parque Mayer há muitos anos e, sempre que estreava uma revista, nós íamos. O Carlos Cunha e a Marina são do Sporting, o Fernando Mendes também. E aquilo era engraçado, nós queríamos era estar com eles. Já na altura havia uma amizade muito grande. Depois cada um foi à sua vida. Entretanto a Mariana separou-se do Carlos, esteve uns anos separada dele, passados uns anos separei-me eu. Íamo-nos encontrando de vez em quando, por coincidência, acabámos por ir jantar algumas vezes e fomo-nos aproximando. Quando demos por ela, o cupido já estava em ação (risos).

Foi para Toulouse.
Estou lá um ano, não acabei essa época. A um mês e meio do fim do contrato decidi rescindir.

Porquê?
Já me estava a custar ir treinar. Outra das promessas que eu tinha feito era a de que quando não tivesse motivação para ir treinar era altura de acabar a carreira.

Estava a custar-lhe ir treinar porquê?
Primeiro, pelo frio. Estamos a falar de 13, 14º negativos. No sul de França aquilo quando toca a frio é frio a sério. Depois, com o primeiro treinador, o Lacombe, era uma relação muito profissional, mas com o segundo treinador, o Giresse, já não era só uma relação profissional, era também de amizade. Ele dizia-me: “Tu és o meu melhor jogador e eu não preciso que venhas cá treinar, não te apetece treinar, liga para mim, não tenhas problema, eu quero é que estejas bom para jogar”. Abusei dessa regalia, durante 1, 2 semanas e depois não estava a sentir-me bem. Sempre gostei de treinar, ainda hoje adoro treinar. Como estava a abusar daquela regalia, percebi: “Isto não és tu Oceano”. Falei com o Giresse, disse-lhe que já estava a custar-me levantar para ir treinar, não estava a ser honesto essencialmente comigo próprio, nem com o clube, por isso era melhor ficarmos por ali. Lá forcei um bocadinho mais a barra e pronto.

Custou-lhe arrumar as botas?
Não. Custou-me sair do Sporting. A partir do momento em que saí do Sporting, acho que na minha cabeça já estava... Só aguentei mais tempo em Toulouse para demonstrar às pessoas que ainda tinha capacidade. Mesmo vindo embora mais cedo, fui o jogador que fez mais minutos e fui o melhor marcador do Toulouse (risos).

Oceano depois de assinar pelo Toulouse, entre o presidente do clube, Andre Labatut e o treinador Guy Lacombe

Oceano depois de assinar pelo Toulouse, entre o presidente do clube, Andre Labatut e o treinador Guy Lacombe

AFP Contributor

Qual foi o momento da sua carreira mais importante para si?
Espanha. No final do meu primeiro ano lá, quando recebo o prémio do Don Balón, como um dos melhores jogadores do ano. Essa votação era feita pelos treinadores. Era uma votação muito importante. Depois, havia um jogo que fazíamos que era os melhores jogadores do campeonato espanhol contra o Real Madrid ou Barcelona. Se fosse em Madrid, era com o Real e os jogadores do Barcelona entravam na equipa dos melhores jogadores de Espanha; se fosse em Barcelona, jogávamos contra o Barcelona e os do Real entrava na nossa seleção. Era uma festa no final da época em que a receita revertia para a luta contra a droga. Ia o Rei de Espanha, atores e atrizes espanholas, era o dia inteiro com jogos e acabava com o jogo das estrelas. Aí senti: agora sim, estou no auge.

Em relação à seleção nacional, tem alguma frustração?
A minha primeira frustração começa logo em 1986, no Mundial do México e a partir daí fiquei vacinado em termos de seleção.

Não foi.
Pois não. Já me tinha estreado na seleção. Faço a minha estreia pela seleção em 1984, entretanto há o golo do Carlos Manuel em Estugarda que nos dá o apuramento. Nessa semana tenho um convite do selecionador José Torres para irmos almoçar. Em que me disse que tinha sido cometida comigo uma grande injustiça. No fundo, era um pedido de desculpas do selecionador. Ele dizia que eu era jogador que merecia ter estado mais vezes na seleção, até porque era titularíssimo no Sporting e estive poucas vezes. O meu suplente do Sporting é que ia à seleção nacional. Não fazia sentido. Eu disse-lhe que não compreendia as opções dele. Sempre respeitei as opções dos treinadores, apesar de nesta situação não o compreender. Como é que eu é que jogo e o outro é que vai à seleção? E ele fez-me uma promessa, nos meus olhos: “Há uma coisa que eu te prometo, se tu continuares a ser titular do Sporting, daqui até ao final da época (ainda faltavam uns meses para acabar a época, até ao Mundial de 1986), não és tu e mais 22, és tu e mais 10, no México”. Ok. Não só continuei a titular do Sporting, como joguei os 90 minutos de todos os jogos, desde esse dia em que falou comigo. Fomos à Luz ganhar 2-0, demos o título de campeão ao FCP nesse ano, e quando chegou a convocatória final ele não me levou. Essa foi a minha grande desilusão.

Nunca soube porquê?
Nunca. E aconteceu outra coisa mais grave. O Venâncio teve que ser operado ao joelho e diz-me: "Há males que vêm por bem. O gajo cometeu uma injustiça ao não te chamar, mas agora como não posso ir, só te pode chamar a ti". A verdade é que ele chamou um jogador do Belenenses, que não interessa o nome, só para não me chamar. Nunca percebi porquê.

Nunca houve nada, uma discussão?
Nada. Ele quando foi selecionador, nunca me chamou, portanto nunca houve nada com ele. E isso ficou-me atravessado, porque era mais do que merecida a minha convocatória.

Nem ouviu nada?
Uma vez, depois de Saltillo, apanhei-o no Estrela da Amadora, acho eu, num jogo que fomos lá ganhar, e fui eu que fiz o golo. Fui à conferência de imprensa, porque fui considerado o melhor jogador em campo, e mal entrei, ele disse: “Este jogador é um craque do caraças”. Explodi, mas em privado, só com ele. Disse-lhe o que tinha a dizer. Ficou a olhar para mim e terminei “Agradeço que nunca mais me dirija a palavra e nem olhe mais para mim”.

Oceano já como treinador do Sporting

Oceano já como treinador do Sporting

YORICK JANSENS

Quando veio de Toulouse, já sabia o que ia fazer da sua vida?
Sabia que queria viajar. Foi outra promessa. É só promessas, pensava que eram só duas, mas afinal foram uma data delas (risos). Ao longo da minha carreira viajei para todo o mundo, mas só conhecia aeroportos, hotéis e estádios. E prometi a mim mesmo que ia viajar a sério no mundo. Quando vim de Toulouse, estive três anos a viajar. Ainda por cima, na altura, juntou-se a fome com a vontade de comer, porque a Marina adora viajar. Portanto estivemos três anos a viajar.

Andaram por onde?
Ui, tantos sítios. Vou dar um exemplo. Fomos para o Brasil, com a passagem só de ida. Chegamos ao Rio, fomos 4 dias para Angra, voltámos ao Rio, ficámos mais uns dias, fomos mais 4 dias para Búzios. Depois íamos para a Foz de Iguaçu, para as Cataratas, mais 4, 5 dias. Depois Manaus - estivemos na Amazônia também no único hotel 5 estrelas construído em cima de árvores, o Ariaú. O chefe da tribo da Amazónia engraçou com a Marina. Tínhamos direito a um jantar lá com o chefe da tribo e fomos a seis ou sete jantares (risos). Há uma história engraçada.

Conte.
Fomos jantar com o chefe da tribo, num sítio que parecia um anfiteatro, mas tudo em terra, tipo um ringue de futebol de salão em terra. Era os chefes de um lado e os convidados do hotel do outro e no meio tinha um crocodilo, que estava todo cozido por dentro. Logicamente já tínhamos jantado no hotel. Chegamos lá, fingimos que comíamos qualquer coisa. Entretanto, a meio do jantar, o chefe da tribo levanta-se, começa aos gritos, agarra na Marina, aperta-lhe o braço e começa andar na diagonal pelo anfiteatro com ela pelo braço. Chegava a uma ponta gritava, voltava a correr para o outro lado, depois para o outro (risos), nunca mais acabava aquilo. As mulheres da tribo, depois, vieram buscar-me e aos outros convidados e estávamos ali a correr, já suávamos em bica (risos). Eu ainda estava em forma, agora a Marina, que ainda por cima fumava, só dizia: “Eu vou morrer!” (risos). Não sei quanto tempo estivemos a correr de um lado para o outro. Depois sentámo-nos e o chefe veio com um charuto muito grande, feito com as folhas de lá. De repente, ele dá uma passa e passava-me o charuto. Eu dizia: “Eu não fumo”. E eles "Tem que fumar" (risos). Lá fingi que fumava, queimei a minha mão e tudo só para não tocar no charuto; tirei um bafo, fiquei tonto até dizer chega. Enquanto estivemos no hotel o chefe convidava-nos para ir lá jantar todos os dias (risos).

A Marina sobreviveu às corridas?
Ela chegou junto dele e mostrou-lhe uma cicatriz que tem no joelho e disse-lhe: “Está a ver, eu não posso correr” (risos), para evitar aquela correria todos os dias. Uma viagem que era para ser de 10 dias, ficou em 48. As nossas viagens eram assim.

Mas foi só no Brasil?
Não, também fomos para a Malásia. Conhecemos praticamente todas as ilhas da Malásia. Ficávamos 3,4 dias numa ilha, voltávamos para Kuala Lumpur, depois íamos para outra ilha.

Oceano, à direita, com Rui Patrício

Oceano, à direita, com Rui Patrício

YORICK JANSENS

Qual foi o sítio que mais lhe encheu as medidas?
Eu adoro o Brasil, mas um destino turístico de eleição é a Tailândia. Conheço tudo da Tailândia. Já fui para o Brasil umas 100 vezes e não conheço nem metade. Mas na Tailândia conheci as ilhas todas. Também tenho lá histórias divertidas com a Marina. Uma vez entrámos numa loja, estava a dar música e começámos os dois a dançar. Os turistas começaram a aplaudir e os tipos da loja já queriam contratar-nos para lá irmos dançar todos os dias (risos).

Quando começa a pensar mais a sério sobre a vida em termos profissionais?
Quando acabei esse período, depois comecei a trabalhar com uma empresa inglesa que representava muitos jogadores e onde era consultor executivo, ou seja dava opinião sobre os jogadores. Era bem pago.

Como arranjou esse emprego?
Através do Luis Vicente e do Amadeu Paixão. Depois tornei-me amigo do presidente da empresa, Jerome Anderson. Ele dizia-me: “É obrigatório estares em Londres no fim de semana. Tens hotel, está tudo pago, podes estar a semana toda em Londres. No fim de semana tens de reunir comigo”. Eu ia ao fim de semana para Londres, tinha uma reunião de uma hora com ele e depois, como eu que gosto pouco de ir ver espetáculos em Londres (risos), comecei a dizer que queria bilhetes para os espetáculos. Era uma maravilha. Foi o melhor emprego que tive (risos). Depois acabei por decidir que queria ser treinador.

O que o levou a tomar essa decisão?
Já tinha isso na cabeça. Sabia que não servia para ser agente desportivo, tinha o bicho do futebol, achava que percebia um pouco de futebol e resolvi tirar os cursos. Mas também meti na cabeça que só ia começar a treinar quando tivesse feito todos os cursos para ser treinador. Normalmente, em Portugal, os treinadores começam sem curso e depois vão tirando os cursos. Eu quis fazer ao contrário. Quando acabei o 4º nível foi quando o Queiroz convidou-me para ser selecionador dos sub-21, em 2010.

D.R.

Enquanto está a tirar os cursos continua a viver com a Marina Mota?
Sim, durante esse período vivi com a Marina Mota na casa dela. Estivemos juntos 11 anos. Curiosamente, comecei a viver com a Marina e tive uma experiência muito engraçada com a minha filha Carina, que na altura tinha 12 anos. Virou-se para mim e disse: “Pai já resolvi tudo, a partir de agora vou viver contigo”. E eu: “Já resolveste tudo?”. “Sim, já falei com o advogado, já falei com a minha mãe, está tudo tratado”. Ela perguntou ao advogado o que acontecia se não quisesse voltar para a Madeira depois de férias e ele explicou-lhe que a mãe, se quisesse que ela voltasse, tinha que meter um processo em tribunal e nesse processo ela ia ser ouvida, a opinião dela não era decisiva para o juiz, mas contava. Ela ouviu o advogado e foi ter uma conversa com a mãe (risos), disse-lhe aquilo tudo e concluiu: “Se quiseres ir por aí…” (risos). Depois aproveitei, pedi a mudança do poder paternal e consegui. Entretanto, antes disso tive uma conversa com a Marina porque logicamente era mais uma pessoa lá em casa. Ela adorava a Carina, que desde pequena era muito amiga da Erica, a filha da Marina. Disse logo que sim. Ela começou a viver connosco desde essa idade. A Fábia ficou na Madeira. Isso marcou um bocadinho, porque a Fabiana ficou alguns anos sem a irmã e não foi fácil. A Carina,mais tarde, quando me disse que queria ir para Direito, comecei a rir-me, depois daquilo eu já sabia.

Onde investiu o seu dinheiro?
Mais em imobiliário do que noutra coisa. Meti-me em alguns negócios mas nunca ganhei dinheiro (risos). Com a minha primeira mulher meti-me em lojas de roupa. Depois, também era para ter um cabeleireiro porque ela era cabeleireira, mas foi sempre a perder dinheiro. Com a Marina. houve uma altura em que num centro comercial em Cascais, um grupo de artistas, o João Baião, a Marina e outros, ficaram entusiasmados e compraram umas lojas. A Marina tinha uma loja de antiguidades, foi a Hong Kong buscar peças com 200 anos, pôs na loja, tinha um restaurante com o Carlos Cunha chamado “Tás aqui tás a comer”. Eu tinha uma loja que era o "Quarto Oceano" que vendia roupa, o João Baião também tinha duas lojas. Depois montámos o bar, que também foi para perder dinheiro, mas foi uma experiência gira (risos). Depois percebi que não tinha jeito nenhum para lojas, restaurantes, bares e decidi apostar onde devia apostar: na formação dos meus filhos. Hoje em dia, se eu desaparecer sei que os meus filhos estão bem. Portanto, agora tenho imobiliário e sei que se parar de trabalhar consigo comer bem até morrer.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Logicamente foi no Sporting, porque foram mais anos. Mas por época foi na Real Sociedad. Toulouse no último ano também não foi mau.

Oceano encostado à estátua de Nelson Mandela

Oceano encostado à estátua de Nelson Mandela

D.R.

Entretanto começa a treinar a seleção de sub-21. Sentia-se preparado?
Sim, mais que preparado, já tinha acabado todos os níveis.

Gostou da experiência de treinar a seleção?
Como primeira experiência de treinador para mim foi ótimo. Trabalhei com jogadores que ainda tinham em mim a imagem de jogador, ou seja, havia o respeito do meu passado como futebolista. As coisas são mais fáceis para um treinador quando entra num balneário e já há um respeito adquirido. Facilita o trabalho. E apanhei um conjunto de excelentes jogadores. Além disso, não estava só nos sub-21, também estava na equipa nacional com o Carlos Queiroz, apesar de não ser o adjunto principal dele, em muitas decisões estava lá.

Depois vai para adjunto do José Couceiro no Sporting. Porquê?
Saio dos sub-21 essencialmente porque o Queiroz sai da equipa principal depois do Mundial da África do Sul. Ainda por cima saiu com os problemas que saiu, com tentativa de rescisão de justa causa por parte da FPF; senti que aquilo que estavam a fazer com o Carlos não era o mais correto. O Couceiro aparece pela amizade que já tínhamos antes. Ele liga-me, eu estava sem fazer nada: "Preciso que me venhas ajudar aqui no Sporting". Essa foi a razão. Fui sem hesitar.

Mas não fica muito tempo porque saí para a União de Leiria como adjunto do Dominguez.
Não foi bem adjunto. Fizemos uma joint-venture. Foi a primeira vez que estiveram dois treinadores em igualdade de circunstâncias. E é engraçado porque eu estava no Brasil de férias. Estava lá com o Romário e adiei a minha viagem 10 vezes.

Então?
Porque o Romário estava sempre a dizer: “Portuga fica aqui mais uns dias” (risos). E eu lá ia ficando. Entretanto, aparece a hipótese da U. Leiria. O Domínguez fala comigo, para assumirmos os dois, até porque era a primeira experiência para ambos como treinador principal. Falei com o Bartomeu, presidente da U. Leiria, porque eu já sabia que os jogadores tinham um problema de ordenados em atraso. Disse-lhe que só ia para Leiria com a condição de, antes de pisar o campo para o primeiro treino, os jogadores terem os ordenados em dia. Ele prometeu-me que sim. Voltei do Brasil diretamente para Leiria.

Porque é que estava no Brasil com o Romário?
Fui lá para ser padrinho da equipa de futvolei. Entretanto, acabou o torneio, a Marina Mota estava lá, na rede Globo - foi um ano em que ela esteve a fazer uma novela. Vivia na Barra da Tijuca, numa casa extraordinária, e disse-me para ficar uns dias com ela. Já estávamos separados na altura, mas sempre tivemos uma amizade muito grande, ainda hoje fazemos férias juntos se for preciso. Temos mesmo uma amizade muito grande. Fiquei lá com ela. Entretanto, passava o dia na praia com o Romário a jogar futevolei. Depois ele dizia: “Vai uma rodinha de samba?”. Ligava para a Rocinha e com dois telefonemas vinham algumas pessoas da escola de samba da Rocinha para a praia ao final do dia para fazer uma roda de samba. Claro que eu dizia, vou ficar aqui mais uns diazinhos (risos). E fui adiando.

Oceano com o brasileiro Romário

Oceano com o brasileiro Romário

D.R.

E chega a Leiria.
O presidente mostra-me os cheques em como já tinha pago aos jogadores, mas no dia seguinte os cheques bateram na trave, só que eu já tinha assinado o contrato. Começamos logo mal. Depois, ele foi assistir ao primeiro treino, e cá de fora começou a fazer sinal, a chamar-me mas eu fingi que não o vi. Depois do treino, veio ter comigo. “Não viu que eu o estava a chamar?”. “Não viu que eu estava dar treino?” E ainda acrescentei: “Da próxima vez que vier aqui convém trazer dinheiro que os jogadores não aguentam mais”. Depois foi aquela coisa traumática de acabarmos a época com uma equipa de 7, 8 jogadores. Começámos um jogo com 8 jogadores. É histórico. Não havia mais ninguém. Jogámos contra o Benfica a três jornadas do fim com 6 ou 7 juniores. O pessoal foi-se todo embora. Eu paguei para treinar a U. Leiria. Havia jogadores que não tinham dinheiro nem para pôr gasolina no carro e logicamente a nossa tendência é ajudar.

O Oceano chegou a receber?
Não me lembro, acho que não. Mas aquilo que ia receber na U. Leiria também era irrisório (risos). Fiquei com pena dos jogadores. Entretanto, entrou o Sindicato, o [Joaquim] Evangelista [presidente do Sindicato] resolveu alguns problemas, mas o problema maior é que o clube acabou e os jogadores não podiam ir pedir o dinheiro a lado nenhum. O Sindicato tem um fundo, mas esse fundo deveria ser reforçado porque ainda há muitos problemas destes por aí.

Volta ao Sporting.
Sim, para fazer a equipa B do Sporting. Esse foi o melhor projeto que fiz até agora, o mais aliciante, porque foi para começar uma coisa do zero. Logicamente, tinha uma base boa que eram os juniores do ano anterior. Depois acabei por não conseguir finalizar a época para ter de assumir a equipa principal do Sporting. Mas não devia ter aceite. Foi um erro grande em termos de carreira.

Porquê?
Porque eu não acreditava naquela equipa. A pior coisa para um treinador é trabalhar com jogadores nos quais não acredita. Como aliás deve ser mau também para os jogadores. Também fiquei com a sensação de que os jogadores da B sentiram que eu os abandonei. Nunca devia ter aceite ser interino. Aliás, a minha conversa para os jornalistas sempre foi: "Não há treinadores interinos. Ou sou treinador ou não sou treinador". Nunca devia ter aceite terem colocado o rótulo de interino.

Estreou-se nas Antas.
Sim, com o FCP. Depois, fiz um jogo com o Moreirense. E por saberem que era só por dois jogos não fiz aquilo que deveria ter feito que era agarrar em 7 jogadores da equipa B e pô-los na primeira equipa logo na primeira semana. Agarro a equipa numa quinta-feira à noite e sábado ou domingo jogamos contra o FCP, portanto, também não dá para fazer nada. Mas o pior foi ficar com a sensação de que os jogadores da B pensaram que eu os abandonei. Entretanto, chegou o Vercauteren.

Porque é que aceitou então?
Essencialmente, porque o presidente encostou-me à parede. Disse-me: “Neste momento não temos treinador na equipa A, o Sá Pinto foi despedido, e temos um treinador na equipa B que está a fazer um trabalho extraordinário. Estamos a pedir encarecidamente a esse treinador da B que nos ajude nesta fase de transição aqui no Sporting. E não compreendemos porque é que esse treinador pode pensar em dizer que não” (risos). Foi bem feito.

Oceano aceitou o convite de Carlos Queiroz para ser seu adjunto na seleção do Irão

Oceano aceitou o convite de Carlos Queiroz para ser seu adjunto na seleção do Irão

D.R.

Depois veio o Jesualdo.
Sim, com quem já tinha uma amizade muito grande. Aí fiquei mesmo por achar que tinha muito a aprender com ele.

Essa amizade surge como?
Do futebol apesar dele nunca ter sido meu treinador, mas já nos conhecíamos, e havia aquela química que às vezes não conseguimos explicar. E senti que tinha tudo a aprender com ele, porque é um mestre e gosta de ensinar. O Jesualdo é mesmo professor. E aquilo que o Jesualdo queria fazer no Sporting era o que eu queria. Ele subia na estrutura e eu ficava no campo com liberdade para tomar as minha opções enquanto treinador. Ele quando organizou o departamento de futebol do Sporting foi com essa ideia, mas depois foi atropelado.

Porque entretanto surge o Bruno de Carvalho.
Exato. E o Jesualdo entra em choque com o Bruno de Carvalho e acaba por ir embora ainda antes do fim da época. Quem leva a equipa para o Brasil para a inauguração do estádio do cruzeiro sou eu, porque o Jesualdo foi embora nessa semana.

O Oceano não fica porquê?
Não fico porque em primeiro lugar no Sporting ninguém falou comigo. E o mais engraçado é que eu devia ter sido a primeira pessoa com quem deviam ter falado porque tinha mais um ano e meio de contrato com o Sporting. Comecei a achar muito estranho aquilo e depois comecei a ver muitas manobras de bastidores, nomeadamente a quererem rescindir com o Manuel Fernandes por extinção do posto de trabalho. De repente o Sporting já tinha contratado o Leonardo Jardim e o Inácio estava como diretor desportivo. Vou ter uma reunião com o Inácio e ele diz me: “Nós estávamos convencidos de que ias para Braga com o professor Jesualdo Ferreira”. “Acho muito estranho que possam dizer isso quando eu tenho mais um ano e tal de contrato com o Sporting. Teria sido uma burrice da minha parte se assinasse com o SC Braga sem dar cavaco ao clube”. Ele contou-me duas ou três mentiras seguidas, eu percebi tudo e disse agora vão ter de resolver as coisas com o meu advogado. A partir daí, desliguei-me. E o meu advogado resolveu, rescindi depois.

Foi logo convidado pelo Queiroz para ir para o Irão?
Não. Ainda fiquei algum tempo sem fazer nada. Porque no Irão na altura estava o senhor António Simões com o Carlos Queiroz. Quando o Irão se apura para o Campeonato do mundo do Brasil em 2014 e o Simões rescinde, o Carlos liga-me.

Oceano, à direita, com mais dois elementos da equipa técnica da seleção do irão

Oceano, à direita, com mais dois elementos da equipa técnica da seleção do irão

D.R.

Que tal está a ser a experiência no Irão?
Um país complicado. Mas mais complicado para as mulheres do que para os homens. É um país que tem as suas limitações e temos de saber viver com essas limitações.

O que é que lhe fez mais confusão?
Faz-me confusão algumas normas que para mim não fazem sentido nenhum. Num país onde há uma seleção de sub-19, sub-20 e seleção A feminina~s, as mulheres não podem ir ao futebol. Faz-me uma confusão tremenda. Quer dizer: as mulheres podem estar no relvado mas não podem estar na bancada? E depois aquela coisa de estarem sempre muito tapadas e de ser um país onde tudo é proibido mas onde se faz tudo. É um país de extremos.

Mas não vive lá em permanência.
É a vantagem de estar na seleção. Vivo num hotel, porque é mais cómodo para mim, uma vez que estou sozinho.

Agora vive onde?
Em Lisboa. Aluguei. Tinha pensado em comprar mas já desisti dessa ideia. Estou à espera que saia o Euromilhões para poder comprar em Lisboa. Já decidi comprar casa do outro lado. Volto às minhas raízes, só que agora ao pé da praia. São João, Santo António, por aí.

Ainda tem as filhas em casa consigo?
Tenho a Fabiana. Essa não sai de casa tão cedo (risos). Ela tirou jornalismo, começou a estagiar na Rádio Cidade, depois do estágio assinou contrato, mas entretanto foi para a Bola Tv e agora apareceu um convite da SIC. Já tem algum percurso. A Carina casou, é inspetora da PJ, não tem filhos ainda.

Em termos pessoais, depois da Marina, teve outros namoros públicos, nomeadamente com uma jornalista da TVI...
...Mas já acabou. Estou solteiro. A Conceição é uma pessoa extraordinária, mas foi numa altura complicada da minha vida, uma altura em que se instala o bem estar de querer viver sozinho e isso é um vírus terrível. E depois não nos conseguimos adaptar a dividir a nossa vida com alguém.

Já estava sozinho há muito tempo?
Há uns 11 anos.

Qual é a sua maior ambição agora?
Continuar a minha carreira de treinador. Tenho que voltar a ser treinador principal. Todos os anos recebo convites, só que acho que este projeto do Irão vale a pena levá-lo até ao fim. Porque levar uma seleção como esta a dois mundiais consecutivos é muito bom.

Oceano tem contrato com a seleção do Irão até ao final do Mundial da Rússia

Oceano tem contrato com a seleção do Irão até ao final do Mundial da Rússia

D.R.

Calhou ao Irão um pote muito forte, onde está Portugal e Espanha.
Por isso fazer com que o Irão passe à 2ª fase é um grande e aliciante desafio. Num mundial tudo é possível. Logicamente olhando para todos os grupos, em todos há uma equipa favorita e neste há duas. Os outros dois estão à espreita.

Acha que é possível o Irão chegar aos oitavos de final?
Sim. Conheço todas as seleções do grupo. Conheço bem a Espanha, logicamente Portugal, e também Marrocos porque dediquei-me nos últimos tempos só a Marrocos. A nossa grande final é com Marrocos, porque uma vitória abre-nos portas para sonhar com mais coisas.

E Portugal vai chegar longe?
Nas fases finais dos Campeonatos do Mundo passa tudo por passar à fase seguinte, passo o pleonasmo. A seleção nacional se passar à fase seguinte pode querer tudo.

É possível sermos campeões do Mundo?
Então não é? Perfeitamente possível.

De todas as seleções que já tivemos esta é a que pode chegar lá?
Não, curiosamente acho que já tivemos seleções mais fortes, mas considero que nesta estão criadas as condições para que chegue lá. Em termos individuais já tivemos seleções muito mais fortes, mas em termos de grupo este pode ser muito forte e o Fernando Santos aqui fez um belíssimo trabalho. Tem um grupo de jogadores que sonham em chegar lá e que trabalham para isso.

Quando diz que já tivemos uma seleção mais forte, está a referir-se a qual?
À seleção do Euro 2004. Era uma seleção fortíssima, essa para mim talvez tenha sido a melhor seleção de sempre. Éramos fortíssimos em todos os setores e neste momento, há zonas que precisam de ser reforçadas, vamos ver como é que o Fernando vai trabalhar isso.

Oceano abraçado às suas duas filhas e a Erika, a filha de Marina Mota

Oceano abraçado às suas duas filhas e a Erika, a filha de Marina Mota

Carlos Ferreira Marques

Tem uma página oficial do Facebook. É o Oceano que trata dessa página?
Não, eu sou muito mau com essas coisas. É a minha filha Fabiana. Até do meu Instagram é ela que trata. E há dias cometi um erro: respondi a um iraniano e depois fui ofendido por tudo e mais alguma coisa.

Levou nas orelhas das suas filhas?
Sim, por ter respondido. Por isso é que neste momento são elas que estão a gerir. “Pai, não mexe mais nisto” (risos).

Para terminar conte mais uma história do futebol.
Tenho uma gira que posso contar. Houve um jogador brasileiro que veio à experiência ao Sporting e sentimos que esse jogador estava dopado. Pela forma como ele respirava, com a boca cheia de sede logo no princípio do treino da manhã. Nós, os jogadores mais velhos, combinámos só passar a bola a esse gajo. E passamos meia hora só a meter-lhe a bola. Ele não parou de correr. Às tantas, ia morrendo (risos). Mas tivemos sorte que não aconteceu nada, mas ele caiu para o lado mesmo (risos). Tenho outra, no Almada, de um jogador que não tomava banho. Acabava o treino e ia embora sem tomar banho. Durante uma semana, agarrávamos nele e metíamos o gajo debaixo do chuveiro, mas ele era o mais forte de todos, dava-nos tanto trabalho (risos).

Noitadas enquanto jogador, fez muitas?
Muito poucas.

Sabia fazê-las?
Não, fazia na véspera da minha folga. Normalmente era assim, saía uma vez por semana na véspera da folga.

Mas apanhou um grupinho que ganhou a fama de fazer muitas noitadas, Sá Pinto, Dominguez, Porfírio, Dani...
O problema do Dani, às vezes, não eram as noitadas dele. Ele era influenciado pelos amigos. Havia muitos amigos que gostavam de levá-lo para ficar nas sobras do Dani, é mais isso. Porque o Dani era um gajo que se portava bem e nem era de beber muito, nem nada. Foi pena porque ele passou ao lado de uma grande carreira. Mas eu juntei gerações e apanhei esta malta nova. Logicamente, quando aparecem esses jogadores, o Sá Pinto, o Dominguez, o Dani... eu já sou um trintão portanto já não me posso misturar com esses “miúdos”, não vou estar a sair com miúdos de 19 anos. Se tivéssemos a mesma idade era diferente.

Dava-lhes na cabeça?
Sim, muitas vezes. Há um, não vou dizer o nome, mas ele sabe quem é que... Na altura eu vivia em Caneças e nesse fim de semana tinha apanhado o 4º amarelo e não jogava. Havia um barzinho giro ali em Caneças e fui até lá uma vez que não jogava. Vou até lá, eram duas da manhã, e quando chego, está lá esse jogador. E ele “Capitas!” (risos).

Capitas?!
Os jogadores chamam-me todos esse nome, “Capitas” ou “Velhote”. O Vidigal, o Figo, o Rui Costa. Uns chamam-me “Capitão” ou “Velhote”, são as duas alcunhas que tenho. Cheguei ao bar e: “Capitas, quero fazer um brinde contigo”. “Brinde comigo? Mas tu achas que eu vou beber com maus profissionais? Vou dizer-te uma coisa, amanhã quando eu chegar a Alvalade a primeira coisa que vou fazer é ter uma reunião com o treinador e vou dizer-lhe onde é que tu estava hoje à noite”. “Não faças isso, não faças isso”. Entretanto estive a noite toda a pensar naquilo. Ele estava a começar a carreira no Sporting, já era titular, e resolvi não lhe estragar a vida. Mas disse-lhe: “Vamos fazer uma coisa, isto fica em suspenso até ao jogo de domingo”. Jogávamos em casa com o Salgueiros. “Se a coisa corre bem, isto fica em suspenso, mas não fica esquecido, se a coisa correr mal eu vou falar com o treinador, juro-te pela saúde dos meus filhos. E entretanto nos próximos três meses, és o meu ‘escravo’. Vais-me buscar o cesto, quando eu tirar a roupa e atirar para o chão vais agarrar e por no cestinho e vais entregar” (risos). Nesse fim de semana ganhámos por 4 e esse jogador fez golo e tudo, foi o melhor jogador em campo (risos). Mas durante aqueles meses, eu chegava a Alvalade e já tinha a roupa toda preparada e quando vinha do treino fazia de propósito, tirava a camisola para um lado, os calções para o outro e lá ia ele buscar. Ainda hoje ele fala disso.

TIAGO MIRANDA

Já me estava a esquecer do jogo com o FCP em que foi para a baliza. Como acontece?
Foi num jogo da Supertaça. Empatámos em Alvalade, 1-1 e depois fomos jogar às Antas. Na altura não havia os golos fora, estávamos empatados 2-2 nas Antas, e a 20 minutos do fim, o guarda-redes é expulso, acho que era o Costinha, e já não havia mais substituições. Quem podia ir para a baliza ou era eu ou o Xavier.

Porquê?
Dentro de uma equipa de futebol há sempre aqueles que têm mais jeito para ir para a baliza. O Carlos Xavier tem jeito para tudo, para jogar basquetebol, andebol, nunca vi ninguém assim, ele nasceu para ser desportista, faz tudo bem, até na baliza. Mas senti que, para aquele jogo, naquela altura, era eu que tinha que assumir a baliza como capitão da equipa. Começaram todos a discutir “eu vou”, “eu vou”, e eu disse: “Acabou, não há mais discussão, vou eu”. Na altura, o FCP tinha Jardel e companhia. Mas aquilo foi fácil, era só ir direito aos avançados, dar um grito e cair que os árbitros protegem sempre os guarda redes (risos). Depois os jogadores do FCP também achavam que podiam rematar do meio campo que podiam fazer golo, o que facilita o trabalho. Ficou 2-2, fizemos o terceiro jogo em Paris e ganhamos 3-1.

Pinto da Costa, que opinião tem?
É engraçado, eu tenho uma relação muito boa com o Pinto da Costa, e ele também gosta muito da Marina. Ele e o Reinaldo Teles, quando vinham a Lisboa, queriam sempre que eu levasse a Marina para jantar com eles. O Pinto da Costa, a brincar, diz que eu sou o único guarda-redes que nunca sofreu um golo nas Antas (risos). Digam o que disserem, eu gosto muito do Pinto da Costa, acho que foi e é um presidente extraordinário para o FCP. E há outra coisa que a maior parte das pessoas não sabe, é que em termos de seleção, os jogos que eram com aquelas equipas teoricamente mais fáceis, como Luxemburgo, nunca ia ninguém dos outros clubes, mas ele ia sempre. Eu aproveitava sempre depois do jantar para me sentar um bocadinho com ele a conversar. Gosto muito de falar com ele, é uma pessoa extremamente inteligente, sabe falar de tudo. Depois, quando chegávamos àquela fase de apuramento ou quase apuramento em que já iam os presidentes todos, ele ria-se comigo e dizia: “Agora para a fotografia vêm todos”.

Tem algum hóbi, coleciona alguma coisa?
Não. Sou o mais anti objetos que há na vida. As minhas filhas chateiam-se tanto comigo porque eu não guardo nada da minha profissão. Tenho uma história gira para contar.

Força.
Jogo Real Sociedad vs Sevilha. O jogo em que o Toshack entrega-me a camisola e diz “Toma lá e vai para dentro que sabes o que tens de fazer”. Tínhamos ido jogar na seleção na semana antes, à Suécia, ganhamos 1-0 com golo do Gomes, acho eu, o Futre faz um jogo extraordinário. No final desse jogo, comi a correr e fui logo dormir. Ainda me desafiaram. “Vamos só até aqui ao barzinho do hotel”. “Não posso tenho que ir descansar porque este fim de semana temos um jogo”. A Real Sociedad naquela altura tinha 5 jogos, 1 ponto, zero golos marcados e era o último classificado e eu pensava “Não vim para Espanha para isto”. Às tantas no jogo com o Sevilha, dou por mim a marcar o Maradona. As coisas estavam-me a sair tão bem que o treinador do Sevilha pôs o Simeone a marcar-me. Durante o jogo quando estava a marcar o Maradona, eu picava-o, dizia-lhe: “Porra, estás velho!” (risos). O jogo acabou, ganhamos 3-1, faço dois golos, faço uma exibição extraordinária e, no final do jogo, já tinha combinado com o Simeone trocar de camisola. Mas quando acaba o jogo o Maradona veio direito a mim, saca da camisola, entrega-me a camisola. “Tenho de trocar de camisola contigo” disse. E eu tirei a minha. Quando estou a tirar a minha camisola está o Simeone a olhar para mim (risos). E eu “Diego, és Maradona!” (risos). Cheguei ao balneário e pedi outra camisola para ir trocar com o Simeone e, quando entro no balneário, está lá o filho do presidente que tinha uma paixão pelo Maradona. Olhou para mim: “Eh, que linda”. Eu agarrei na camisola e entreguei-lhe. Para verem como sou. Era uma camisola gira para guardar porque tinha uma história. Nada, eu não guardo nada, não guardo nada. Tenho algumas camisolas que troquei porque a minha mãe uma vez chegou a minha casa, meteu tudo numa mala e levou para a casa dela “Vou levar isto porque senão tu vais desaparecer com isto tudo” (risos).

Ficou com uma relação de amizade muito forte com a Marina Mota e o próprio Carlos Cunha.
A Mariana é a mulher da minha vida. Sem dúvida. Não vamos ter nenhum relacionamento os dois, não vamos viver juntos outra vez, não há hipótese de isso voltar a acontecer, mas uma coisa é verdade, vamos estar sempre juntos, nem é preciso algum sentir que o outro precisa, vamos estar sempre juntos, de uma forma ou de outra. Isso vai acontecer sempre, não só com a Marina, com a Erica a filha da Marina, com a Alexi, com o Gabriel, eu sou o avô bombom.

Avô bombom?
Sim. A Marina chama-me bombom e, desde que os netos nasceram, ouviram a Marina a chamar-me bombom, como o Cunha é o avô, eu sou o avô bombom (risos).

Não tem netos das suas filhas e do Ricardo?
Não. Estou à espera.

Disse que nunca perdeu a ligação a Cabo Verde. Costuma lá ir? Tem lá família ainda?
Costumo lá ir. Ainda este verão fui de férias com a Marina, fomos para o Sal. Mas o pessoal de São Vicente quando sabe que vou para o Sal e não vou para São Vicente, ui. As minhas filhas adoram São Vicente. Depois do Mundial da Rússia vou a Cabo Verde de certeza. Ainda tenho lá primos.

A sua mãe ficou sempre a viver cá?
Sim, sempre viveu em Almada. Entretanto o meu pai continuou a vida de emigrante até ao fim e depois quando se reformou logicamente foi para Almada.

Quando é que o seu pai faleceu?
O meu pai faleceu poucos anos depois de se ter reformado. Apareceu-lhe um tumor no cérebro, entretanto foi operado e correu tudo bem. Mas passado dois ou três meses sentiu-se mal, foi para o hospital e quando foram ver, aquele tumor que tinha no cérebro já eram metástases de um que tinha no estômago, aquilo já estava... E o médico disse: “De zero a cinco, zero é o menos grave, cinco é o mais grave, o seu pai tinha um seis”. Portanto está tudo dito. Tinha 60 e tal anos.

A sua mãe foi há menos tempo?
Há dois anos. Fez os 70 anos e faleceu a seguir. Mas a minha mãe nunca teve uma doença, nunca foi para o hospital. Às vezes dizia que estava aborrecida de estar aqui e ia para a Holanda, ter com o irmão. Era muito despachada, sempre a viajar, adorava. Foi um choque grande porque não estávamos à espera, foi de repente. Teve um AVC. Foi morte imediata e estava em casa.

O Oceano estava em Portugal?
Não e isso é a parte triste. Ligou-me para o Irão: “Filho, amanhã vou encomendar o cabrito, e este ano vais ser tu a fazer. Já são muitos anos sem fazer o cabrito. Este ano no natal és tu a fazer”. “O.K mãe, eu faço o cabrito”. Passadas umas horas, ligou-me a minha irmã a dizer que ela tinha falecido. E eu fiz o cabrito. Nem imagina, era só chorar. Mas fiz questão de fazer o cabrito. Sou uma pessoa que levo o lado sentimental para a brincadeira, quanto mais emoção eu tenho, mais eu brinco. Sou a pior pessoa para alguém levar para um velório. Tenho até uma história com o Carlos Cunha.

Conte.
O pai do Cunha faleceu e eu estava no velório. Toda a gente triste e eu começo para o Cunha: “Tu és uma figura pública estou a negociar com as televisões o funeral ao vivo do teu pai” (risos). Ele já não sabia se me batia ou se chorava. “Mas tu és parvo ou quê?”. E eu: “Olha que algumas estações estão a oferecer dinheiro. Tenho uma que está a oferecer um balurdio pelo funeral do teu pai. É aquele canal, o 18. Eles só têm uma condição, o teu pai tem que ser enterrado todo nu” (risos). Ele já não sabia se me batia ou se ria. Eu levo sempre para a brincadeira e há quem compreenda e há outras pessoas que não compreendem. Realmente, sentido de humor em horas de tristeza nem toda a gente tem e eu compreendo. Por isso agora quando alguém me diz “vamos ao velório”, digo logo “não, eu não posso ir”. Dá confusão. E se ainda por cima for alguém que eu gosto, dá uma grande confusão mesmo (risos).

  • Oceano, parte I: “O meu nome era para ser Oceano Atlântico, porque o meu padrinho chama-se Oceano Pacífico”

    A casa às costas

    O nome não podia assentar-lhe melhor. Oceano da Cruz foi grande na generosidade com que se entregou a esta entrevista, que de tão extensa teve de ser partida em duas. Hoje ficamos a conhecer e a saber das suas raízes, a paixão pela mãe, recíproca, a tristeza de não ter convivido mais com o pai, o início da carreira de futebolista, o primeiro amor com uma mulher quase 20 anos mais velha, os filhos, da amizade com Jordão e do Porsche preto que foi levantar a Estugarda, onde estavam 7 graus negativos, vestido de calções e chinelos