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A casa às costas

Paulo Machado: “Sonhava ser mecânico. A primeira tatuagem que fiz foi no bairro, no Cerco, com uma agulha. Tinha 14 anos”

Aos 32 anos, Paulo Machado é um dos casos raros de sucesso do Bairro do Cerco, no Porto. Após 10 anos a jogar no estrangeiro, mantém o cerrado sotaque do norte e a paixão pelas raízes. mas confessa que só voltou ao futebol português por causa dos filhos. Tinha como sonho "ser mecânico", mas hoje disputa pelo Desportivo das Aves a final da Taça de Portugal, contra o Sporting (17h15, RTP1), e espera que a sua equipa consiga aproveitar a crise que o clube de Alvalade atravessa. Amante de carros e de sapatilhas, diz que nunca perdeu a cabeça (apesar de ter visto amigos a cair na droga), mercê de uma educação rígida de uma família que "só sabe fazer meninos"

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Nasceu no Porto, tem dois irmãos, o mais velho também foi jogador de futebol. E mais? Fale-nos um pouco da sua família.
Os meus pais chamam-se Armindo e Maria Machado, moram no bairro do Cerco, que fica perto do estádio do Dragão. O meu pai trabalhava com alumínio e a minha mãe fazia sacas. O meu irmão mais velho, Jorge Machado, jogou no Leça, no Tondela e agora está desempregado. O mais novo, Bruno Machado, jogou futsal e trabalha na Sonae.

Como foi crescer no Cerco, um bairro considerado problemático?
Para mim foi bom, aprendi a dar valor à vida. Toda a gente sabe que viver num bairro daqueles não é fácil. Dificilmente saem de lá jogadores ou pessoas que conseguem ter sucesso. No meu caso sou um sortudo por ter chegado a este patamar e conseguir jogar ao mais alto nível. Sou um caso de sucesso para a minha família e para os meus amigos.

Sempre torceu pelo FC Porto?
Desde criança. O logotipo do Futebol Clube do Cerco do Porto é igual ao do FCP, por isso a gente sempre aprendeu a gostar do FCP. A minha família é toda do FCP.

O futebol começou no bairro...
...Claro! A jogar na rua com amigos. Até jogávamos com laranjas e maçãs, era o que havia. Com sete anos comecei a jogar nas camadas jovens do Cerco.

Paulo Machado foi jogar para o FCP com 10 anos

Paulo Machado foi jogar para o FCP com 10 anos

D.R.

Quem o leva para o FCP?
Foi o sr. Craveiro, que veio ver-me ao Cerco e foi falar com o meu pai. Com 10 anos fui para o FCP. Quem me levava eram o sr. Figueiredo e o sr. Alcino Palmeira, que foi um pugilista do FCP. Eram eles que me levavam diariamente ao treino. Mas houve uma certa altura em que deixei de ir.

Porquê?
Porque eu jogava na equipa B dos infantis e quando me passaram para a equipa A cheguei ao balneário vi que eram miúdos novos, peguei na mochila e fui para casa. Eu já mal conhecia os jogadores da B. A equipa A era uma equipa melhor, só que não sabia como funcionava e quando vi jogadores novos, fui para casa. Disse ao meu pai que não queria ir mais para o FCP, que estavam sempre a mudar de equipa e voltei ao Cerco.

O seu pai não se chateou?
Não. Como ainda era novo, disse-me logo: "Não vais para o futebol, vais trabalhar".

Mas nessa altura ainda estava na escola.
Estava. Mas eu nem ia à escola, eu só fugia [risos]. Era um traquina. Até ao 5º ano ainda foi mais ou menos, mas depois ia para a escola e só fazia asneiras. Partia vidros com as bolas e com o pião, era só asneiras [risos]. Passava o tempo de castigo e quando chegava a casa o meu pai dava-me uma "sapada".

Quanto tempo esteve no Cerco antes de regressar ao FCP?
Um ano, depois o meu pai obrigou-me a ir para o FCP. O sr. Craveiro veio falar diretamente com ele outra vez. Eu, claro, como tinha respeito e o meu pai era severo..."Vais ter de ir todos os dias a partir de agora". E fui sempre.

Fez toda a formação no FCP. Lembra-se quando ganhou o primeiro dinheiro?
Tinha 14 anos. Naquela altura davam-nos 2 contos e 500 [12.5€], era a ajuda para o autocarro.

O que fazia a esse dinheiro?
Dava ao meu pai, nem sabia o que valia esse dinheiro.

Não havia nada que quisesse comprar?
Havia. Naquela altura era o tempo das texanas, aquelas botas bicudas, era o que toda a gente usava e eu queria, mas o meu pai "Está bem, eu dou-te", mas nunca dava [risos]. Eram caras.

João Machado foi lançado na equipa principal do FCP por José Mourinho

João Machado foi lançado na equipa principal do FCP por José Mourinho

D.R.

Na formação, quem foi o treinador que mais o marcou?
Tive muitos, tive o Rolando nos iniciados, nos juvenis tive o José Guilherme, que se calhar foi o homem que fez de mim jogador taticamente. E nos juniores tive o homem que me meteu a raça toda que tenho até hoje, o João Pinto. Em termos de técnica e colocação em campo foi com o Zé Guilherme, agora vontade e raça foi com o João Pinto.

Lembra-se de alguma coisa que o João Pinto costumava dizer?
Ele entrava muito nas peladinhas connosco e às vezes dava-nos uma "fruta", uma paulada e ainda dizia "Ganha-me nervo, miúdo. Se não nunca mais chegas lá em cima".

Quando assina o primeiro contrato?
Aos 16 anos, os meus pais tiveram de assinar também porque era menor.

Aí começou a ganhar um ordenado. Continuou a entregar o dinheiro ao pai ou foi comprar as botas?
Era tudo para os meus pais. O meu pai sempre me controlou as contas. Gostava de comprar, claro, mas ele controlava e chegou a dizer-me "Ainda vai chegar uma altura em que vais ter um telemóvel da 5ª geração". Disse-me isso quando eu tinha 14 anos.

Paulo Machado começou a fazer tatuagens com 14 anos.

Paulo Machado começou a fazer tatuagens com 14 anos.

D.R.

Sentia-se vaidoso e orgulhoso quando passeava pelo bairro?
Orgulhoso sentia-me, porque sempre fui uma pessoa orgulhosa, o meu pai deu-me boa educação, mostrou-me o que era a vida e por isso notava que lá no bairro as pessoas olhavam para mim e pensavam: "Se ele teve sorte, a gente também pode ter".

Nunca teve tentações de se meter em más vidas?
Eu vivia dentro das tentações. Tudo o que era ruim eu via no dia-a-dia, mas nunca me puxou para meter nessas coisas. Eu vi amigos meus perderem-se na vida, a cair nas drogas, a ficarem mal de saúde e eu pensava para mim: "Não quero ser como ele. Vou seguir outro caminho". E se calhar isso é que fez de mim o que sou.

Como chega à equipa principal do FCP? Quem o chama?
Quem me chama é o José Mourinho. Eu cheguei a estar ao mesmo tempo nos juvenis, nos juniores, na equipa B e na equipa A. Treinava na equipa A a semana toda, havia vezes que jogava a sábado pelos juniores, ao domingo pela equipa B. E cheguei a jogar ao sábado pelos juniores, ao domingo pelos juvenis. Com 16 anos.

Quando é que deixa a escola?
A bem dizer deixei a escola com 13 anos. Eu estava lá mas não estava [risos]. Mas oficialmente foi com 15 anos, fiquei com o 9º ano, não cheguei a acabar o 10º.

Paulo Machado foi emprestado pleo FCP ao E. Amadora na época 2005/06

Paulo Machado foi emprestado pleo FCP ao E. Amadora na época 2005/06

D.R.

Quando era pequeno já dizia que queria ser jogador de futebol?
Não, o que eu gostava mesmo era de ser mecânico. Como nasci num bairro social nunca pensei ser jogador profissional. Tanto é que quando fui para o FCP, com 10 anos, vim embora. O meu sonho era ser mecânico. Gostava de montar e desmontar bicicletas, às vezes sobrava peças mas [risos]... Depois a partir do momento em que senti que podia ser jogador, aos 16 anos, disse ao meu pai: "Pronto, já assinei contrato, está a correr bem".

Nessa altura o seu irmão mais velho já era jogador?
Sim, já jogava. Uma vez, num sábado, estava mesmo cansado porque tinha jogado pelos juniores contra o Benfica e no domingo jogava o FCP B contra a equipa do meu irmão. Mal acabei o jogo, no sábado, fui logo pedir à direção do FCP para me deixar jogar no dia seguinte. "Deixem-me jogar por favor, o meu irmão vai jogar, era o meu sonho jogar contra ele". E joguei. Já que não podia jogar com ele ao menos cumpri o sonho de jogar ainda contra ele. Ganhámos o jogo.

Começou a jogar em que posição?
Quando cheguei ao FCP joguei nas posições todas. O que eu tinha demais era raça e vontade, como vinha de um bairro, o meu pai dizia: "Tens que comer terra, tens que comer tudo". Jogava a extremo direito, extremo esquerdo, lateral, até na defesa. Eles gostavam por causa da raça que eu tinha, que superava a técnica que não tinha.

Paulo Machado, a jogar pelo Leixões, numa disputa de bola com Rui Costa do Benfica

Paulo Machado, a jogar pelo Leixões, numa disputa de bola com Rui Costa do Benfica

D.R.

Foi chamado pelo Mourinho aos 16 anos para treinar com a equipa principal. Fez algum jogo ainda com ele?
Sim. O meu primeiro jogo foi no Estádio das Antas, contra o Vilafranquense para a Taça de Portugal. Quando entrei em campo, para jogar 30 minutos, quem saiu foi o Sérgio Conceição.

Correu bem a estreia?
Correu, quase fiz um golo e tudo.

Mas não fez muitos jogos.
Não, treinava todos os dias com a equipa principal, o Mourinho estava comigo, falava comigo. Só que no ano a seguir em que era suposto eu jogar mais, porque ele disse-me "para o ano vou lançar-te mais vezes, vais jogar mais vezes no campeonato", ele foi embora do FCP. É o destino.

Há alguma coisa que o Mourinho tenha dito ou feito e que lhe tenha ficado na memória?
Lembro-me desse jogo para a Taça que tínhamos de ir de fato. Fui de fato só que levei meias brancas. Toda a gente se riu, fizeram-me desfilar no balneário e tudo por causa das meias [risos]. E o Mourinho às tantas disse: "Já chega. Anda cá..." e deu-me umas meias pretas, que ainda hoje as tenho. Eu costumava chegar muito cedo e ele dizia-me "Continua assim, eu gosto da tua vontade, da tua entrega, és um miúdo que pode ir muito longe, tens é de continuar assim, bom miúdo, que a tua vida vai-te sorrir".

Foi praxado no FCP? Levou com o famosos caixote cheio de porcarias?
Levei foi com almofadas, cotoveladas, calduços, tudo, da equipa principal. Quando chegámos ao hotel disseram-me vai ali aquele quarto que querem falar contigo. Quando cheguei lá, Deus me livre...Levei com tudo [risos].

Com o Victor Fernández jogou para o campeonato?
Joguei. Só que o FCP abanou ali um bocado com a saída do Mourinho. Mas joguei contra a Académica, a titular, tanto é que ainda hoje estou na história do FCP como o 4º jogador mais jovem de sempre a jogar no FCP.

Paulo com o pai, Armindo Machado, que entretanto se tornou seu empresário

Paulo com o pai, Armindo Machado, que entretanto se tornou seu empresário

D.R.

No final da época 2004/05 é emprestado ao E. Amadora. Porquê?
Fui falar com os dirigentes, disse que ainda era jovem, que gostava de jogar mais, o FCP também entendeu que eu devia rodar e foi uma época em grande. Saí, joguei quase os jogos todos da I Liga. Era jovem e sabia que se não desse ao chinelo, ia ficar para trás. Acho que correu como eu esperava. Adaptei-me bem.

Quando vai para o E. Amadora, sai de casa dos pais e muda de cidade. Como foi?
Fui para Lisboa com a minha mãe e namorada.

Já tinha namorada?
Sim, nunca casámos mas para mim é a minha mulher. Chama-se Bebiana [soletra o nome], é portuguesa e estamos juntos desde os 16 anos. Conheci-a num café, ela é mais velha três anos, e já trabalhava no hipermercado Modelo. Trabalhava sexta, sábado e domingo, depois de segunda a quinta ia para a minha beira. Ajudou-me bastante.

Gostou de Lisboa?
Não. Não é como no Porto em que se moramos um ano num prédio conhecemos o prédio todo, em Lisboa morei um ano num prédio, não conheci nem um vizinho, nem sequer o bom dia davam. São mal encarados. Mas gostei de estar no E. Amadora.

Quem era o treinador?
António Oliveira [Toni Conceição]. Era uma equipa boa, tinha o Jordão e mais alguns jogadores que eram experientes, o que me ajudou bastante. Ir para lá jogar com o Bruno Vale também foi bom porque joguei com ele no FCP. Foi um bom apoio.

Quem foram as grandes amizades que fez no FCP?
Dava-me bem com o Quaresma e o Bosingwa. Eles iam-me buscar a casa, ao bairro. O Quaresma era divertido, porque como ele é cigano, quando ia lá e apareciam os chefes ciganos ele era obrigado a parar. Quando se é cigano tem que se respeitar os mais velhos e se o mandavam parar... Ele teve de ir passear na Feira do Cerco e tudo, esteve lá para aí uma hora [risos].

Como é que foi lidar de perto com o "bicho" Jorge Costa?
Foi fantástico. Ele é que fazia a mística do FCP. Hoje em dia olho para o FCP e não tem a mesma mística daquela altura. É a realidade. Quando entrávamos no balneário sentíamos mesmo o respeito. Quando ele dizia "amanhã há almoço", íamos todos, e quem não aparecia... ele fazia esse jogador pagar. Só por aí se vê. Qualquer coisa que ele dizia era como se fosse uma lei.

Paulo Machado, em primeiro plano, jogou uma época pelo Saint-Étienne, França

Paulo Machado, em primeiro plano, jogou uma época pelo Saint-Étienne, França

Icon Sport

E saídas, quando começa a fazer noitadas?
Nunca gostei de saídas à noite. Eu preferia fazer jantar com amigos e ficar a noite toda a comer e a beber do que ir para a noite, para bares ou discotecas. A noite dá sempre problemas. Quando bebem álcool veem as coisas a triplicar. Enquanto em casa ninguém vê coisas a triplicar... Estás em casa [risos].

Quando vai para o E. Amadora já tinha carro?
O FCP já me dava carro nessa altura. Um Opel Vectra.

Ouvi dizer que gosta de carros?
Sim, sou um amante de carros, mas sou mais amante de sapatilhas. Sou fanático. Nem sei quantas tenho. Sou daquele tipo que se vir 10 pares que gosto, compro os 10. Gosto mesmo de sapatilhas, mas em formato bota, tipo as de basquete. Tudo o que seja bota, acho piada. Se puder todos os dias mudo. Gasto muito dinheiro em sapatilhas.

Quando veio para Lisboa já ficava com o dinheiro ou ainda entregava ao seu pai?
Tinha conta em conjunta com o meu pai. Ele controlava os gastos e eu deixava porque sabia que ao menos não fazia gastos extra ou que não devia ter feito [risos].

Depois do E. Amadora passa para a U. Leiria.
Sim estive lá uma época e depois estive outra época emprestado ao Leixões. Em Leiria joguei quase todos os jogos, lutamos para não descer e a equipa ficou sempre na I Liga que era o objetivo.

Porque rodou por três clubes em vez de ficar mais tempo num deles?
O FCP é que tratava de tudo, nem dava tempo de dizer nada. Nem perguntavam aos jogadores se queriam ir ou não. Eu soube pelo jornal que ia para o Leixões. Ninguém ainda tinha falado comigo. Mas pronto, o meu objetivo era jogar para poder ir para fora. Comecei a ir para fora e foi o melhor que me aconteceu no futebol.

Paulo com a mãe, Maria Machado

Paulo com a mãe, Maria Machado

D.R.

Como surge o Saint-Étienne?
Através do Isidoro Gimenez, empresário argentino. Acabei por ir para lá emprestado com opção de compra.

Como foi a adaptação num país diferente, com uma língua diferente?
Eu não falava nada. Nem inglês falava. Claro que foi difícil. Nos primeiros 3 meses em Saint-Étienne perdi 10 kgs. Era comida sem sal, sem azeite, comida que não era temperada. Depois o trabalho físico era incrível. Dificilmente vejo um país que trabalhe o físico como em França. Estive três meses fechado no centro de estágio, parecia que estava na cadeia [risos]. Só ia para o treino, comia, quarto, não fazia mais nada. Fui sozinho, como era para o estrangeiro já não era tão fácil a família acompanhar-me. Foi mesmo difícil, cheguei a querer vir embora. Mas depois pensava que fui lá para vingar e não podia abandonar.

Do que se recorda mais do Saint-Étienne?
Das pessoas, ajudaram-me bastante. Eu não falava a língua e deram-me logo uma professora para eu aprender. Tanto é que em cinco meses já falava francês. Tive direito a diploma e tudo.

Viveu sempre sozinho lá?
Depois do centro de estágio fui para um apartamento e passados uns tempos os meus pais foram ter comigo. A primeira coisa que a minha mãe fez foi uma feijoada [risos]. Tinha menos 10 kgs, estava seco e pálido.

É a sua comida preferida?
Não, a minha comida preferida é arroz de cabidela. A minha mãe nisso é craque, é excelente cozinheira.

Os seus pais adaptaram-se bem ou também foi complicado por causa da língua?
Eles foram para estar comigo e como eu já sabia francês... Eles foram para estarmos todos juntos. Os meus irmãos e a mulher também iam lá às vezes passar uns tempos connosco.

Paulo Machado foi campeão europeu de sub-17

Paulo Machado foi campeão europeu de sub-17

Phil Cole

Essa época correu-lhe bem, fez muitos jogos?
Sim, tinha uma cláusula no contrato que dizia que se fizesse 15 jogos a titular o Saint-Étienne tinha que me comprar automaticamente. Fiz 48 jogos a titular. Não me chegaram a comprar porque quando fui o Isidoro mandou um ajudante dele, mas ele em vez de ajudar a mim, ajudou-se foi a ele.

Como assim?
Fez um contrato marado. Se jogasse aqueles jogos renovavam automaticamente mas ficava com três anos de contrato com o mesmo salário. E não foi isso que acordámos. Mas ele para receber dinheiro fez uns cambalachos, recebeu ele o dinheiro na mão.

Como resolveu o problema?
Quem resolveu foi o FCP. O FCP meteu-se ao barulho porque o Toulouse mostrou-se interessado em mim. O Toulouse comprou-me e lá resolveram.

No final dessa época em Saint-Étienne foi considerado o melhor jogador jovem do campeonato francês, não foi?
Sim, mas não foi só por isso que o Toulouse me quis. Foi também porque os dois jogos que fiz contra o Toulouse, marquei-lhes golo, de livre.

A mulher e os dois filhos de Paulo Machado

A mulher e os dois filhos de Paulo Machado

D.R.

Fica três anos em Toulouse. Com a familia?
Sim, aí como já falava francês, a adaptação já não era tão difícil.

Os seus pais também já sabiam francês?
Não, não. Os meus pais nunca falaram francês, nem precisavam, o objetivo era estarem comigo.

Eles deixaram de trabalhar para ficar consigo?
Ao início trabalhavam e quando tinham tempo livre ficavam comigo, com o tempo tirei a minha mãe de trabalhar e comecei eu dar-lhe um "salário", lá no trabalho dela também não recebia muito, ao menos da minha parte... O meu pai continuou a gerir as coisas, a casa que eu tenho na Maia, a água, a luz, etc., sempre foi o meu pai que geriu as minhas coisas em Portugal quando eu estava fora.

Das três épocas no Toulouse do que gostou mais e menos?
Do que gostei mais foi das pessoas, também já era conhecido daquela época que tinha jogado no Saint-Étienne e toda a gente me dava valor. O ruim... Se calhar podia ter saído melhor do clube do que saí. Saí bem, mas com o treinador não saí tão bem.

Quem era treinador?
Era o Alain Casanova. Ele tinha uma personalidade forte, era meio francês meio espanhol, e toda a gente sabe que os espanhóis não gostam dos portugueses, julgam sempre que são mais do que nós. O homem achava-se mais do que eu e eu não gostava, não aceitava e chocávamos um bocado.

Paulo Machado,à esquerda, jogou três épocas no Toulouse

Paulo Machado,à esquerda, jogou três épocas no Toulouse

Manuel Blondeau

A seguir vai para o Olympiacos, da Grécia. Foi pela mão do Leonardo Jardim?
Não, na primeira época que joguei em Toulouse o Olympiacos já me queria. Andaram, andaram e não estavam a conseguir, depois quando fiz o forcing contrataram-me, o Leonardo Jardim foi depois.

Como foi na Grécia?
Adorei. Levei a família, que foi sempre o meu grande apoio. Sentia-me em casa na Grécia. O país em si, as pessoas que vibram com o futebol, eram malucos pelo futebol. Íamos a um restaurante e às vezes nem pagava porque havia pessoas que pagavam a refeição, a mim e à minha família, e eu nem sabia porquê. Ia perguntar e diziam-me: "Sou adepto do Olympiacos, gosto de ti, paguei-te um jantar". E parece que não há leis, estacionam onde querem, no lado de dentro das rotundas e eu achava piada porque nasci num bairro onde também não há leis [risos].

Foi pai quando?
Estava em França, tinha 25 anos. Foi no último ano do Toulouse. O meu filho Santiago nasceu no dia 13 de maio de 2011, numa sexta-feira, uma sexta-feira santa. Mas ele nasceu em Portugal. Eu jogava fora mas nunca quis que os meus filhos nascessem fora do meu país. A 25 de janeiro de 2014 nasceu o Salvador. Já jogam futebol e tudo, no Dragon Force de Ermesinde.

Esteve pouco tempo com Leonardo Jardim. Ele acabou por sair depois de um blogue humorístico ter feito constar que teria tido um affair com a mulher do presidente do Olympiacos, não foi?
Eles inventaram histórias para mandá-lo embora, para poderem rescindir, porque ele nunca esteve com a mulher do presidente. Só vimos a mulher do presidente uma vez, foi num jogo contra o Arsenal e ela andava com 10 seguranças. Estive com ele quatro ou cinco meses, já não me lembro. Sei que íamos 10 pontos à frente e tínhamos tudo para sermos campeões. Só que os adeptos não gostavam do futebol que ele praticava. E ganhávamos aos 4 e 5-0, imagine se não ganhássemos. Não percebo.

Quem vem a seguir é o espanhol Michel, com quem não se deu muito bem.
Ui, personalidade forte. Jogou no Real Madrid e tudo. Chegou e pensava que era o José Mourinho. Nem sempre o melhor jogador do mundo é o melhor treinador. Chegou ali com um pensar diferente, o que é até bom para a equipa, mas é preciso ver que era o Olympiacos, não era o Real Madrid.

Mas ganharam o campeonato.
Sim, mas ali até podem meter um roupeiro que é campeão. É a realidade. Os jogadores eram todos bons, estavam acima de todos os outros clubes. O Michel começou a trazer muitos espanhóis e comecei a ver que se calhar no ano a seguir não ia jogar e optei por ir para o Dínamo.

Paulo Machado comprou 300 bilhetes para os familiares e amigos do Bairro do Cerco verem um Portugal-Dinamamrca, nas Antas, e acabou com eles nas bancadas porque não foi convocado

Paulo Machado comprou 300 bilhetes para os familiares e amigos do Bairro do Cerco verem um Portugal-Dinamamrca, nas Antas, e acabou com eles nas bancadas porque não foi convocado

D.R.

Com surgiu o Dínamo, através do empresário?
Não, quando fui para o Olympiacos, a partir daí o meu empresário passou a ser o meu pai. Ligaram para saber se gostava de ir à Croácia, ao Dínamo de Zagreb. Viajei, gostei daquilo e assinei um pré-acordo.

Mais uma aventura fora. Que tal a Croácia?
Fantástico. Um país que ainda há poucos anos esteve em guerra e está a desenvolver-se cada vez mais. Foi ótimo. Ganhamos e entramos na Champions. Foram os anos em que estiveram lá os portugueses, eu, o Gonçalo Santos, o Eduardo e o Ivo Pinto. E foram três anos na Champions.

Mas chegou a ir para a equipa B do Dínamo. Porquê?
Fui eu que pedi, no último ano. Trocámos de treinador, foi para lá o búlgaro Petev, não sei o que é que lhe passou pela cabeça, mas quis fazer uma equipa diferente e como estava em final de contrato, cheguei ao presidente e pedi-lhe para ir para a equipa B já que não jogava na A. Mas só lá estive um mês porque o treinador depois veio pedir desculpa e voltei para a equipa principal. Mas adorei a Croácia. Dia 21 vou à Croácia ver a final da taça entre o Dínamo e o Hajduk.

No geral, fazendo o balanço entre os três países por onde passou, a qual gostaria de voltar?
À Grécia. Mas não me importava de voltar também para França ou para a Croácia, porque vivi lá momentos fantásticos.

Paulo Machado, o segundo à direita, diz que foi em França que trabalhou mais o físico

Paulo Machado, o segundo à direita, diz que foi em França que trabalhou mais o físico

D.R.

Sai do Dinamo para o Desportivo das Aves porquê?
Porque o meu filho tinha feito seis anos, ia começar a escola e na Croácia não tinha escola de inglês. Optei por voltar para Portugal para meter o meu filho na escola portuguesa, pelo menos o primeiro ano. Pensei mais nos meus filhos do que em mim.

Vive onde agora?
No Porto, num apartamento.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
No Olympiacos ganhei bem, na Croácia também. Na França ganhei bem mas só em impostos... Deus me livre.

E onde investiu?
Comprei apartamento e casa. Investi no imobiliário. E vou guardando o resto que não sabemos o dia de amanhã.

Ajudou a família também?
Claro, esse é o objetivo. Ajudar a família sempre foi como uma lei. Quem vingasse na família tinha sempre que ajudar os outros.

Isso significa o quê? Que comprou casa ou ajudou a comprar casa para os seus irmãos?
Os meus irmãos sempre tiveram casa, o meu pai também. Se calhar ajudei a fazer obras e terem outro tipo de conforto. Ninguém quer sair das origens. Já quis dar uma casa aos meus pais, mas ninguém quer sair do Cerco. Ninguém quer sair do bairro. Os meus pais e irmão mais novo vivem lá e o mais velho vive lá perto, com a mulher e filhos.

Tem quantos sobrinhos?
Tenho três sobrinhos, todos rapazes. O meu pai tem três meninos, o meu irmão tem três rapazes e eu tenho dois. A minha família é só rapazes.

Gostava de ter uma filha?
Claro, na família toda a gente queria, mas não sai. Só sai meninos, é máquina de fazer meninos. Já está destinado, não há como mudar isso [risos].

Paulo Machado jogou duas épocas no Olympiacos da Grécia e adorou o país

Paulo Machado jogou duas épocas no Olympiacos da Grécia e adorou o país

D.R.

Gostou de regressar ao campeonato português?
Gostei de voltar ao meu país, mas ao campeonato se calhar não foi aquilo que eu esperava. O campeonato português já não é aquilo que era. É só polémicas. O pessoal já não liga se o jogador teve formação no clube, qualquer coisa agora dizem que os jogadores estão vendidos, estão comprados. O campeonato está feio. Por um lado assinei aqui porque queria estar perto do meu filho, mas por outro lado se calhar arrependo-me, porque nunca pensei que houvesse tantas polémicas. Joguei 10 anos lá fora, nunca vi nada como vejo aqui em Portugal.

Perante isso o que pensa fazer? Ainda tem contrato com o Aves?
Só assinei um ano. Agora vamos ver. Prefiro estar ao lado dos meus filhos, mas se tiver que ir lá para fora e fazer um esforço, vou fazer.

Já está a negociar com algum clube ou com o próprio Aves?
Não, ainda nada.

Dos três treinadores que apanhou esta época no Aves, Ricardo Soares, Lito Vidigal e José Mota, com qual se entendeu melhor?
Eu entendo-me bem com toda a gente, sou uma pessoa feliz, não me dou mal com ninguém.

Tendo em conta Portugal, França, Grécia e a Croácia a qual dos tipos de futebol se adaptou melhor?
O melhor foi em França. O futebol era top, nunca se sabia quem é que ia ganhar. Era competitivo.

Em relação à posição em campo qual é aquela em que se sente mais confortável?
Sinto-me bem no meio campo, se calhar a que gosto mais é a de número 8. Aquela coisa do ir e vir, distribuir jogo.

Paulo Machado co a mulher e os dois filhos

Paulo Machado co a mulher e os dois filhos

D.R.

Quanto à final da Taça e a tudo o que se está a passar com o Sporting, qual é o seu sentimento?
Fico desiludido e triste por ver estas coisas no futebol. Acho que as pessoas excederam o limite. Há comportamentos que já não são normais. Queremos ganhar a Taça, é um momento histórico para o clube, e vamos tentar aproveitar esta fase deles. Os jogadores do Sporting vão estar frustrados para a Taça, há alguns que nem devem querer ir e vão jogar contrariados. Temos que aproveitar, é normal. O azar de uns é a felicidade de outros.

Que carro tem agora?
Tenho um Cadillac Escalade, já tive um Porsche Panamera Turbo...

Tem quantos carros neste momento?
Um e chega, a gente só conduz um, para quê ter mais? [risos].

Qual foi a maior loucura que fez porque podia?
Não fiz nenhuma. Como vim de um bairro sempre soube que não dava para loucuras.

Paulo Machado e Nani, jogaram juntos na seleção

Paulo Machado e Nani, jogaram juntos na seleção

D.R.

Vamos à seleção. Quando é chamado pela primeira vez?
Quando joguei no Toulouse, tinha já 23. O meu primeiro jogo foi no estádio da Luz, contra a Espanha, ganhamos 4-0.

Isso foi para a seleção A. Referia-me à primeira vez que foi chamado a uma seleção.
Foi para o Torneio das Associações que era em Lisboa, depois foi nos sub-15 e por aí fora. Nas camadas jovens tenho mais de 100 internacionalizações. Fui campeão europeu em sub-17.

É verdade que uma das vezes em que foi convocado para a seleção A, foi comprar bilhetes para as pessoas do bairro do Cerco?
Isso foi no Portugal-Dinamarca, no estádio do Dragão. Comprei 300 bilhetes e toda a gente no bairro foi ao estádio. Toda a gente sabia que tinha comprado os bilhetes e fiquei de fora. O treinador, a saber que tinha lá a família toda, deixou-me de fora. Mas fui para a beira deles, fiquei lá a cantar com eles.

Quem era o selecionador?
Paulo Bento. Fui sempre chamado por ele. É engraçado fiz sempre os apuramentos, quando chegava a hora “h” iam os outros.

Por que não levava a si, tem ideia?
Isso já não sei, já são pormenores muito à frente. Toda a gente sabe que os empresários se mexem e os clubes e não sei o quê. Havia jogadores que não faziam um jogo no apuramento e depois chegava a hora de convocar, convocavam-nos a eles.

Mas está a referir-se a quem em concreto?
Não me lembro, mas havia. Se calhar agora começa a ser um bocado mais coerente, mas mesmo assim às vezes levam jogadores que não jogam, acho que isso não é normal, mas pronto, quem sou eu para dizer o contrário.

Paulo Machado esteve três épocas no Dinamo de Zagreb, da Croácia.

Paulo Machado esteve três épocas no Dinamo de Zagreb, da Croácia.

Lars Ronbog

É verdade que todos os anos dá uma festa no bairro do Cerco?
Sim, faço lá um churrasco para o pessoal estar reunido, para comer, beber, conviver. Por acaso este último ano não fiz, porque não sabia ainda para onde é que ia, tanto é que só assinei quando fechou o mercado. Sem saber para onde ia não podia andar em festas. Mas foi o único ano que não fiz, desde que comecei a jogar em França.

No Natal também distribui prendas no bairro.
É o normal, já é o prato da casa entregar bolos às pessoas mais necessitadas e a algumas da família.

Neste momento deve ser uma espécie de herói no Cerco.
O pessoal não me vê como herói. Vê-me como uma pessoa que teve sucesso e uma pessoa humilde. Eu nunca fugi do bairro. Há muita gente que quando ganha dinheiro foge logo das zonas onde viviam. O meu lema foi sempre manter-me ali, porque o futebol um dia acaba, as pessoas ficam sem dinheiro e querem voltar para lá e se calhar não são bem recebidas. Eu ao menos fiquei sempre no meu canto, no meu sítio, vou lá viver a vida toda.

O que é que gosta mais no bairro?
Das pessoas, o pessoal é simples. Gosto de estar ali, de jogar às cartas com eles, à sueca, à bisca. Estou lá todos os dias. Acaba o treino e vou para lá, é onde me sinto bem.

Apesar de não viver lá?
Posso não dormir lá mas eu vivo lá, estou lá todos os dias, chegando à tarde ou à noite vou sempre para lá.

Paulo Machado tatuou no braço a mão do filho Santiago

Paulo Machado tatuou no braço a mão do filho Santiago

D.R.

Confirma que o seu pai foi presidente do Clube de Pesca?
Foi, foi presidente do Clube de Pesca do Bairro do Cerco do Porto. Quando acaba a época, a gente vai sempre num sábado, à pesca. Vamos umas 30 pessoas, pesca-se de manhã, ao meio-dia fazemos churrasco e depois quem quiser volta a pescar ou vai dormir uma sesta.

Gosta de pescar?
Acho piada, mas vou mais pelo convívio. Quando estamos a comer e a beber ninguém nos chateia.

Tem o corpo todo tatuado. Quando é que faz a primeira tatuagem e porquê?
A primeira tinha 14 anos. Fizemos com agulhas e tinta lá no bairro. Cada um fazia a letra do seu nome, eu fiz da minha alcunha, Camone. Comecei por fazer um “C” no braço.

Camone! Porquê?
Por causa do meu avô, chamavam-lhe Camone nunca percebi porquê. Com o meu pai não pegou, a mim começaram a chamar também e pegou.

Que outras tatuagens tem?
Essa foi a primeira, mas o meu pai não me deixava fazer tatuagens. Escondi. A partir dos 16 anos fazia a tatuagem, chegava a casa e mostrava. Pensava “vou mostrar a tatuagem, se ele me bater, bate-me de uma vez e pronto, a tatuagem já está feita”.

Ele alguma vez lhe bateu por causa das tatuagens?
Não. Depois de estar feito não há nada a fazer [risos]. Não sei quantas tatuagens tenho, tenho no corpo todo. Tenho a cara dos meus pais, tenho a cara dos meus filhos, o nome dos meus irmãos. Tem tudo a ver com a família.

Paulo Machado, à direita, já como jogador do Desportivo das Aves, numa disputa de bola com Battaglia, do Sporting, esta época

Paulo Machado, à direita, já como jogador do Desportivo das Aves, numa disputa de bola com Battaglia, do Sporting, esta época

Gualter Fatia

Alguma vez fez parte da claque do Porto?
Quando era jovem e já quando jogava no FCP. Quando não era convocado ia para a claque, nunca fui para os camarotes.

Qual a sua maior frustração a nível futebolístico?
Não ter jogado como titular no FCP. Não ter jogado a época toda. Essa é a maior frustração, era o meu clube, o meu clube do coração.

Mais do que não ter jogado mais pela seleção?
A seleção é um objetivo. Isto é como ir à tropa. Vamos representar o país. Mas só vais à seleção se estiveres a jogar bem no clube por isso a maior frustração é não ter jogado no FCP. Jogava no FCP, jogava a titular na seleção.

Paulo Machado foi chamado pela últia vez à seleção A, em 2013

Paulo Machado foi chamado pela últia vez à seleção A, em 2013

Gonzalo Arroyo Moreno

Acredita que Portugal pode ser campeão do mundo?
Temos de acreditar. O país tem de acreditar. Também ninguém acreditava que íamos ser campeões da Europa e fomos. Sabemos que é difícil, não são as mesmas equipas da Europa, mas acredito que Portugal pode chegar longe. Basta só o Cristiano Ronaldo acordar bem disposto [risos], toda a gente sabe. A própria equipa joga em função dele, por isso ele estando bem disposto leva a equipa às costas.

Qual é agora a sua maior ambição?
Poder jogar ainda mais uns anos e depois fazer o curso de treinador. A minha ambição é ser treinador de futebol.

De todos os treinadores que teve, qual foi o que mais o marcou e porquê?
O que mais me marcou foi o Mourinho. Foi o treinador que apostou em mim, que me deu a oportunidade de estar na equipa principal do FCP que era o meu sonho desde pequeno, por isso é especial para mim.

Qual foi a maior amizade que fez no futebol?
Foi com o Ivanildo, para mim é um irmão. Foi a maior amizade que tive no futebol e ainda hoje tenho. Foi a pessoa com quem mais me identifiquei. A gente ria-se e brincava. Posso dizer que não é um amigo, é um irmão para a vida.

Paulo Machado e os dois filhos, Salvador e Santiago

Paulo Machado e os dois filhos, Salvador e Santiago

D.R.