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A casa às costas

Alexandre Baptista: “O Morais levou uma cabeçada do Pelé e ficou com a cara adormecida. Depois perguntava-me 'Vê lá se tenho dentes' "

A primeira vez que Portugal conseguiu atingir a fase final de um Mundial de futebol foi em 1966. O sonho terminou num honroso 3º lugar alcançado por um grupo que ficou conhecido como os “Magriços” e do qual faziam parte, entre outros, Mário Coluna, Eusébio, António Simões, José Augusto e Alexandre Baptista, que recorda para a Tribuna como foi o seu percurso e os dias vividos em Inglaterra. Este é o primeiro "Casa às Costas" especial Mundial

Alexandra Simões de Abreu

António Pedro Ferreira

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Antes de falarmos da fase final do Mundial de 1966, vamos fazer um resumo da sua vida e carreira até lá. Nasceu no Barreiro, certo?
Sim. O meu pai trabalhou numa fábrica de cortiça no Barreiro, onde era escriturário. Do que tenho conhecimento, a fábrica de cortiça fechou ao fim de 28 anos e o meu pai teve de resolver a sua vida e veio para Lisboa, de maneira que a família mudou-se toda. Tenho uma irmã 5 anos mais velha. Saí do Barreiro com 9 anos. Fomos viver para para o largo Dona Estefânia.

Como é que vai parar ao Sporting?
No Barreiro jogava futebol descalço, porque as botas não se podiam sujar (risos), nos terrenos baldios. Em Lisboa jogava por cima da esquadra da polícia do matadouro, mas era proibido. Jogávamos na calçada, no passeio. Quando a bola ia parar frente à esquadra da polícia, quem é que lá ia buscar? (risos). Também jogava muito à bola na praia e um dia alguém olhou para nós e disse “Epá, vocês não querem experimentar jogar futebol?”. Fui experimentar, ao Sporting, e por lá fiquei.

Mas não jogava só futebol.
É verdade. Ganhei o campeonato de juniores de ténis de mesa dois anos seguidos. Em individual e pares. Tinha 16, 17 anos. Também joguei voleibol. Jogava tudo o que podia.

Alexandre Baptista, o 6º em pé a contar da esquerda, com a equipa do Sporting que foi campeã em 1965/66

Alexandre Baptista, o 6º em pé a contar da esquerda, com a equipa do Sporting que foi campeã em 1965/66

Divulgacao

Já era sportinguista quando foi para o Sporting?
Por vezes a família determina por quem os filhos torcem ou para onde vão jogar, mas não foi esse o caso. Para o meu pai era-lhe absolutamente irrelevante. Eu fui influenciado não pela família, mas talvez pela equipa que o Sporting teve quando eu era miúdo, a dos Cinco Violinos.

Quando é que se estreia oficialmente pela equipa principal do Sporting?
Levou muito tempo. Fiz um ano dos juniores, depois andei ali mais uns anos, a ambientar-me, joguei uma vez pela primeira categoria, acho que foi num jogo com o Atlético, em Alvalade, para a Taça de Portugal e depois só volto a jogar em 1963. Com tanta sorte que entrei e ganhamos a Taça das Taças. Ainda fiz um jogo com o Atalanta e joguei no meio campo, não joguei a defesa central. Mas entretanto o Lúcio, um brasileiro, excelente defesa central, saiu, e como não tinham mais ninguém, tiveram que pôr-me.

Conquistou os Campeonatos Nacionais de 1965/66, 69/70 e a Taça de Portugal de 70/71.
Não foi grande coisa, mas foi o que deu. Tive sorte que lá fui ganhando as coisas mais importantes.

Entretanto nunca deixou os estudos.
Era um aluno médio. Estudava metade dos outros (risos). Entrei como voluntário para Económicas e tinha aulas práticas das 8 às 10h. Saía de lá a correr para ir para o treino. Depois, quando comecei a ter mais responsabilidade no Sporting, apareceu o serviço militar pelo meio...

A primeira seleção portuguesa a participar numa fase final de um mundial de futebol, o de 1966, ficou conhecida como a seleção dos "Magriços". Alexandre Baptista é o 1º em pé à esquerda

A primeira seleção portuguesa a participar numa fase final de um mundial de futebol, o de 1966, ficou conhecida como a seleção dos "Magriços". Alexandre Baptista é o 1º em pé à esquerda

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Quanto tempo esteve na tropa?
Entrei em 1965, antes do Mundial. Fiz a recruta em Mafra, no curso dos oficiais milicianos. Como já andava no 2.º ano de Económicas, tinha que ir para oficial, não podia ir para soldado. Fiz 3 meses de recruta, depois fui colocado na polícia militar, na Ajuda.

Como é que conseguia conciliar tudo?
Não sei se foi uma atitude muito inteligente, mas o que resolvi fazer foi aproveitar os melhores anos do futebol, já que a tropa tinha de a fazer mesmo; por isso, “congelei” o curso. Pagava as propinas, mas não ia lá. Só voltei ao curso no fim da tropa.

E concluiu?
Sim, mas com alguma dificuldade. Pedi os apontamentos emprestados a colegas que iam mais à frente e fechei-me em casa a estudar. Nessa altura havia aquela lei militar que permitia fazer exames fora de época, desde que houvesse candidatos para isso. Aí bati alguns recordes que não lhe posso dizer (risos).

Recordes de quê?
De tempo de estudo de páginas de matemática (risos). Quando passei para o 2.º ano, tinha a matemática atrasada, que era aquela cadeira... como anatomia para medicina. Resolvi tirar matemática e consegui. Depois fui fazendo as cadeiras à medida que podia e acabei em 1969/70. Acabei o futebol na mesma altura. E fui para África. Com o curso acabado fui numa categoria melhor.

Esteve onde a fazer o quê?
Como já tinha o curso fiz um contrato com o Ministério do Ultramar e fui trabalhar para o Gabinete de importações e exportações, em Luanda. Cheguei a Luanda no dia 31 de dezembro de 1971 se não me engano e vim com a revolução.

Estava lá quando se deu o 25 de abril?
Estava. A minha mulher faz anos a 25, de maneira que estávamos na festa de anos e houve para lá um reboliço. Era a revolução que tinha começado.

Quando é que casou?
Casei em 1965. Já tenho uma pilha de anos de casado (risos).

Tem filhos?
Três filhas. A primeira nasceu em 1966, a segunda em 67 e a terceira em 72. Agora já tenho 6 netos.

Alexandre Baptista

Alexandre Baptista

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Vamos ao Mundial de 1966. Não fez a qualificação pois não?
Não. Não fui convocado.

Havia outros concorrentes para a mesma posição?
Era o Germano que jogava. O Zé Carlos do Sporting, que jogava ao meu lado e é meu compadre, é que jogou a eliminatória quase toda. Ele, o Germano e o Hilário. Depois não sei se foi por causa do sorteio, em que nos calhou o Brasil, o Manuel da Luz Afonso, que era o selecionador, começou a chamar o Vicente, do Belenenses, porque ele marcava muito bem o Pelé. E com essa chamada do Vicente começou também a chamar-me a mim. Nos encontros da Seleção, eu joguei contra a Bélgica B com o Vicente, e depois fomos dos dois para a primeira categoria.

O estágio foi em Vale do Lobo.
Sim. O Sporting tinha ganho o campeonato nesse ano e tanto o Sporting como o Benfica já estavam fora da Taça de Portugal, já tínhamos sido eliminados e o Benfica aproveitou aquele estágio para recuperar os jogadores que andavam a fazer um campeonato fraquinho e estavam um pouco despistados.

Estiveram quanto tempo no Algarve?
Não sei, talvez um mês. A organização era boa, à Gomes da Silva, o nosso coordenador, e as coisas correram bem. Sempre que saíamos para jogar, ganhávamos. Fomos jogar à Escócia e ganhámos, à Dinamarca e ganhámos, jogámos aqui com o Uruguai e ganhámos, esse eu joguei por acaso.

Como era o ambiente na seleção?
Era bom. Conhecíamo-nos uns aos outros, não havia atritos.

Nem havia guerras entre norte e sul?
Podia haver mas passava ao nosso lado na seleção. Nem norte e sul, nem Sporting, Benfica. Havia brincadeiras mas não havia problemas.

Alexandre Baptista, o 4º em pé a contar da esquerda, na seleção do Mundial de 1966

Alexandre Baptista, o 4º em pé a contar da esquerda, na seleção do Mundial de 1966

António Pedro Ferreira

Como é que era a liderança bicéfala Otto Glória e Manuel da Luz Afonso? Quem fazia o quê?
A mim nunca me disseram, mas penso que sei (risos). O Manuel da Luz Afonso era do Benfica, e o Otto Glória tinha sido treinador do Benfica quando veio para Portugal, depois foi para o Sporting e, na altura, ainda era treinador do Sporting, conhecia bem os jogadores do Sporting. O Manuel da Luz Afonso não abdicava de dizer “A equipa que joga é esta”. Ele é que dizia os nomes. Isso era uma coisa que era dele como selecionador, agora daí para baixo, como é que ele chegava a essa conclusão lá com o treinador e com os adjuntos do treinador...

Vocês não sabiam de nada?
Não sei de nada. Mas há uma coisa que sabíamos, não havia dúvidas. “Joga fulano, beltrano, etc., etc.”. E já está. Ninguém dizia nada.

Mas do ponto de vista da gestão do jogo era o Otto Glória que comandava?
Sim, mas só quando havia dúvidas. As pessoas não sabem, mas o jogo contra a Hungria, que foi o primeiro, foi muito difícil para nós, muito difícil, nem faz ideia. Aos 20, 25 minutos não estávamos a perder 3-0 por pouco.

Porquê?
Porque não nos entendíamos com a maneira como os outros jogavam. Foi de tal maneira que eu disse ao Eduardo, “Pergunta aí ao Otto o que é que a gente faz”. O tipo que eu marcava que era o Alberti era um jogador extraordinário, era um ponta de lança do género do Di Stefano que recuava. Muito difícil. Eles tinham um ponta esquerda que era o Rákosi… . Tivemos a felicidade de ter aquela equipa do Benfica que às vezes jogava pouco, mas fazia golos. Fomos lá uma vez, pontapé de canto. Foram todos atrás do Torres, que era alto e bom de cabeça, e o Zé Augusto saltou e fez golo. Se ele estivesse no Sporting éramos campeões todos os anos (risos). Foi assim, tivemos muita dificuldade.

A comitiva que foi ao Mundial de 1966. Alexandre Baptista é o 1º em pé à esquerda

A comitiva que foi ao Mundial de 1966. Alexandre Baptista é o 1º em pé à esquerda

António Pedro Ferreira

O Otto Glória não dava indicações para dentro do campo?
Quer dizer, como acontece hoje, não. Aliás, em alguns jogos ele estava do outro lado. Mas os treinadores para darem instruções para dentro do campo têm de arranjar uma via qualquer porque o falar não chega lá, não ouvíamos (risos).

Estava a dizer que essa estreia foi muito complicada, mas Portugal ganhou 3 -1.
Está bem, mas só quem lá esteve dentro é que sabe o que é que sofreu (risos).

A equipa não se entedia com o adversário ou entre ela?
Não, não era entre nós. O problema é que eles jogavam de uma maneira que aquilo não se encaixava. Eles tinham um rapaz que tinha sido campeão europeu, que veio do juniores, era o Farkas, que era uma espécie de meio ponta de lança, andava por ali e era rápido. E tinham esse Albert que recuava, de maneira que criava-nos ali um vazio que tínhamos de marcar. E depois pela direita era uma gentileza do diabos e eu só via as bolas a chegar, cruzavam em frente à baliza, se não fosse o Carvalho, podíamos ter levado dois ou três golos.

A propósito de Carvalho, ele depois nunca mais jogou. Porquê?
Posso dizer o que eu penso apenas, porque nunca ninguém disse nada. Eu penso que naquela altura os treinadores de futebol tinham mais ou menos uma consciência que não tinham nada a ensinar aos jogadores de futebol que estavam ali. Penso eu. Dizer a um Eusébio, a um Torres, a um Coluna, como é que se faz, deve ser um bocado complicado até para o próprio treinador. Pode dizer fecha mais para ali, não avances tanto... mas penso que não pode passar disso. Estávamos a ganhar 1-0 ou 2-0, já não me recordo bem, e aconteceu uma coisa... Há uma bola que é metida pelo lado do Hilário, o Hilário arrancou, a bola ia à frente dele e o Carvalho saiu. E depois agarras tu, agarro eu e a bola estava junto à linha da área, atrapalharam-se, veio o Bene meteu-se pelo meio, levou a bola e fez golo.

O único golo que eles marcaram foi...

...Uma oferta da casa. E eu penso que isso teria levado o Manuel da Luz Afonso a tirar o Carvalho e a meter o Zé Pereira. Penso que ele também teria gostado de meter logo o Zé Pereira, porque o Zé Pereira ajudou-nos a garantir a qualificação na Checoslováquia, quando defendeu um penalti. Isto é o que penso, não tenho certezas.

Alexandre Baptista protege a bola junto do guarda-redes Pereira, durante o jogo com Inglaterra, no Munidial de 1966

Alexandre Baptista protege a bola junto do guarda-redes Pereira, durante o jogo com Inglaterra, no Munidial de 1966

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Depois da vitória no primeiro jogo, a equipa sentia-se nas nuvens?
Vamos lá a ver, as coisas eram muito pacíficas. Estávamos num hotel excelente, um género de vivenda grande, num sítio ótimo, parecia que se estava no campo. Saiamos dali para os jogos. Não houve nenhuma euforia, ganhamos, parecia-nos normal. Hoje eu ainda não consigo perceber como é que a Hungria perdeu com a Rússia, porque os húngaros tinham uma equipa, cuidado com eles! Muito boa.

Quando vão para esta fase final do Mundial vão com algum objetivo traçado?
Que me lembre não, só se foi dito em alguma reunião onde não estive. Nós queremos sempre ganhar não é preciso dizer nada.

Falavam entre vocês sobre o que esperavam alcançar?
Não. Nós nem sabíamos quem ia jogar. A Adidas quis fazer um contrato comigo, mas eu nem sabia se ia jogar. Era para usar as botas da Adidas. Além de darem as botas, pagavam umas coisas.

Mas foi convocado.
Está bem mas podia não jogar. Houve jogadores que foram convocados e não jogaram um jogo sequer. O Sporting tinha lá 8 jogadores e o Benfica, 7.

Não fez o contrato?
Não. Eles depois pagaram porque quiseram. Mas não assinei nada. Ainda me pediram para arranjar mais alguns jogadores portugueses. Andei para lá a tentar convencê-los “Epá vocês não querem tentar ganhar qualquer coisa”, foi assim mais ou menos. O Eusébio tinha a Puma, o Hilário não sei, mas outros depois tiveram a Adidas. Era uma maneira de ter mais algum porque os prémios na altura não eram iguais aos de hoje (risos).

Como é que eram nessa altura os prémios?
Recebíamos prémio por jogo e por passar a eliminatória. Penso que acumulava. Quem fizesse os 6 jogos do Campeonato do Mundo, recebia 120 contos. Mas já não me lembro bem.

Alguns jogadores portugueses e brasileiros trocam cumprimentos após o jogo entre ambas as seleções no Mundial de 1966 e que Portugal venceu por 3-1. Alexandre Baptista está ao centro

Alguns jogadores portugueses e brasileiros trocam cumprimentos após o jogo entre ambas as seleções no Mundial de 1966 e que Portugal venceu por 3-1. Alexandre Baptista está ao centro

D.R.

O Alexandre não fez o jogo a seguir, com a Bulgária, porquê?
Isso teria que ter perguntado ao selecionador. Não fui eu que lhe disse para me pôr no primeiro jogo e também não fui eu quem disse para tirar-me e pôr o Germano. Pessoalmente penso que teria havido uma razão. O Benfica tinha jogado contra uma equipa búlgara para o Campeonato Europeu de Clubes e um avançado centro deles era um senhor chamado Asparuhov. O Benfica ganhou e acho que ele jogou, por isso era mais garantido ter o Germano a marcar um conhecido porque sabia que aquilo funcionava bem, do que pôr-me com alguma incerteza. Isto é o que eu penso.

Ficou muito desiludido de ter saído da equipa no segundo jogo?
Eu? Nada. Não fiquei desiludido e até penso que ninguém me disse nada porque não havia comunicações desse género. Ele mandava, estava mandado. Era a chamada ditadura perfeita, pelo menos no que a mim me diz respeito, e portanto foi assim. E até disse que achava ser uma boa decisão. Se ele tinha mais garantias de que íamos ter um bom resultado assim, ótimo. Eu estava ali para ver se Portugal ganhava mais alguma coisa, não para ver se eu passava.

Ganhamos 3-0 à Bulgária. Viu o jogo na bancada?
Sim, na altura não havia banco de suplentes, vi na bancada com os outros.

Sofre-se mais na bancada?
Não, começámos bem, ganhamos o jogo com facilidade. Os búlgaros não eram os húngaros.

Alexandre Baptista, o 2º em pé à esquerda, posa com a seleção nacional antes de mais um jogo do Mundial de 1966

Alexandre Baptista, o 2º em pé à esquerda, posa com a seleção nacional antes de mais um jogo do Mundial de 1966

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A seguir, veio o Brasil.
Aí é que foi pior.

Houve alguma preparação especial por ser o Brasil?
As coisas estavam programadas, pequeno-almoço, treino, almoço... fazíamos sempre a mesma coisa.

Mas treinavam todos os dias de manhã?
A seguir aos jogos acho que não. Mas penso que havia umas peladinhas, umas brincadeiras para manter a atividade, mas não houve nada mais puxado, já tinhamos os jogos e o desgaste deles.

Desse jogo com o Brasil do que é que se lembra? Como é que foi jogar contra o mítico Pelé?
Lembro-me de ter visto o Bulgária-Brasil, o jogo de abertura do Campeonato do Mundo. Também me lembro de ver que a Bulgária tinha uma defesa assim assim, mas dava muita pancada. Até disse “Estes gajos não sei se estão a jogar futebol ou se veem para aqui bater nas pessoas”. Os brasileiros foram um bocado castigados e o Pelé aleijou-se. Saiu a coxear. Só que há coisas que se passam e que não sabemos. Estou a tentar fazer a ligação com o que aconteceu depois, e isto é a minha opinião. No jogo seguinte o Brasil foi jogar com a Hungria. e perdeu 3-1.

O Pelé jogou?
Não. Nós ganhámos os dois jogos, estávamos bem. Fizemos as contas, podíamos perder mas a diferença não podia exceder 2 golos. O que é que eles fizeram, meteram o Pelé, coxo ou não coxo. Não jogou um jogo, para se preparar, mas a lesão que ele tinha estava lá. É a minha opinião e tenho razões para ter esta opinião.

Explique lá isso.
O que se passou com o Pelé, passou-se ao pé de mim. O Coluna teve um choque com ele e o Morais vinha de lado e fez-lhe uma daquelas tesouras que fazíamos muito quando jogávamos nas reservas, que era falta ou não era falta, mas nunca houve nada. Desta vez, o Morais apanhou-lhe os tornozelos e ele ficou aflito do joelho. Eu disse logo: “A lesão com que vinha apareceu de novo”. Como nessa altura não havia substituições, o Brasil ficou com 10 e o Pelé ficou em campo a ver se punha aquilo 10- 10. Sabe o que é que eu quero dizer?

Não, diga.
Não sei se devo dizê-lo, ele ainda é vivo. Numa bola pelo ar, ele saltou bem alto e vem o Morais, também saltou, mas o Pelé não apanhou a bola, apanhou-lhe a cara. O Morais apanhou uma cabeçada de lado. Aquilo não fez grande estrondo, mas amorteceu-lhe um lado da cara. O Morais dizia-me assim “Alexandre, vê lá se tenho dentes?” “Abre lá a boca. Epá, estás óptimo, não tens nada”, “Isto adormeceu tudo”. Ele não sentia nada. Há coisas que acontecem dentro do campo e cá fora que nunca se sabem.

Alexandre Baptista à esquerda e Pelé no centro, depois do encontro com a seleção brasileira

Alexandre Baptista à esquerda e Pelé no centro, depois do encontro com a seleção brasileira

António Pedro Ferreira

Ganhamos 3-1. É nessa altura que a seleção começa a acreditar que podia chegar muito longe? Essa vitória deu um entusiasmo extra?
Deu algum entusiasmo, que não devia ter dado. É evidente, embora estivéssemos um bocado longe dos jornais e das revistas. As notícias eram poucas e eu não tinha a perceção do que se estava a passar cá fora. Estávamos a ganhar o que é bom. Mas quando soubemos que íamos jogar com a Coreia, acho que houve um amolecimento, isso eu sei.

E não correu bem de início.
Não. O futebol não é uma ciência certa. Tem uma parte aleatória muito grande e não é proibido um jogador qualquer dar um pontapé fora da área de bico e a bola entrar no ângulo, não é proibido que aconteça, aconteceu-nos a nós, no primeiro golo.

Não estavam à espera que daqueles jogadores pequeninos e rápidos?
O que eu marcava era da minha altura, devia ser o único alto que eles tinham lá à frente (risos). O problema é que entramos a jogar da mesma maneira, mas com menos velocidade, mais calmos, sobretudo no meio campo. Eu cá atrás vejo tudo, eu sabia. Tanto que quando levamos o segundo golo disse “Mexam-se. Vamos ganhar este jogo. Agora, ou correm ou já não podemos ganhar”. O Eusébio olhava para trás com aquele ar “Lá estão aqueles a dar barraca” mas eu dizia: “Mexam-se que ainda vamos ganhar este jogo”. Porque eu cá atrás via que nós entrávamos com facilidade lá na área, agora a jogar aquele ritmo não dava, o ritmo tinha que ser outro. Não eram os defesas que iam ganhar o jogo. E tivemos uma infelicidade muito grande nos dois golos sofridos.

Sentiu que a defesa estava ser o alvo dos olhares de lado?
Não é normal que aquilo aconteça mesmo estando o jogo num ritmo lento. Há uma jogada pelo lado direito, nem foi pelo meu lado, vem um gajo dar um pontapé com o bico da bota na entrada da área do lado direito, o Zé Pereira nem se mexeu. Depois há um golo que sofremos de seguida, à entrada da área. Meti-me à frente do jogador que eu estava a marcar e ele chutou contra mim. A bola tabela-me nas pernas, passa entra as pernas, amortece e pára junto à marca de penalti, vem um coreano de lado e faz golo. Mais valia que não me tivesse batido nas pernas, tinha ido parar ao Zé Pereira. Essa é a parte do futebol que não se controla. E o terceiro também foi uma estupidez.

Alexandre Baptista, ao centro, conversa com colegas do curso de Economicas, entre eles Murteira Nabo, à direita com um cachimbo na boca

Alexandre Baptista, ao centro, conversa com colegas do curso de Economicas, entre eles Murteira Nabo, à direita com um cachimbo na boca

António Pedro Ferreira

Como é que foi o terceiro?
O terceiro foi um cruzamento do lado direito, a bola passa a área toda para o outro lado, depois há um coreano que apanha a bola já no lado esquerdo, cruza para dentro da área e aparece outro coreano sozinho...

A equipa estava toda adormecida.
Estava. Quando digo “Epá, mexam-se, vamos ganhar este jogo”, é antes do terceiro golo. Aquilo animou um bocadito de facto. Quando chegamos ao 3-2 já sabia que tínhamos ganho. Porque equipa que está a perder 2-0, chega aos 3-2 já não pode perder o jogo.

O Otto Glória disse-vos alguma coisa ao intervalo?
Isso é uma discussão que eu tenho com os meus colegas da altura. Porque eu não ouvi aquilo que eles ouviram. Ou por estar distraído ou porque achava que a conversa não era comigo, ou por outra coisa. Tenho ouvido outros jogadores que estavam lá comigo a dizer “O Otto chamou-nos tantos nomes, tantos nomes...”. Eu não tenho ideia disso. Lembro-me dele remoer mas não me lembro dele ter dito aquilo que eles reproduzem. Mas aceito que ele tenha dito, não posso dizer que é mentira porque não tenho a certeza. Parece que ele disse coisas para ver se espicaçava as pessoas. Eu penso que aquilo foi mais para os avançados e para o meio campo. Aquilo são 11, se um dos setores começa a parar ou a falhar, os outros não se aguentam de pé. Aquilo é um conjunto ou trabalham todos ou não dá. O meio campo tem que ajudar, se começa a ajudar menos, não há defesa que resista. Agora também é assim, não era só naquela altura.

Era toda uma equipa, desde a defesa aos avançados, adormecida?
Há certos falhanços que só dizem respeito a um jogador, isso pode acontecer. E pode acontecer também que seja de um setor. Mas a equipa para se manter com um bom resultado, os setores têm que trabalhar entre si, senão não dá. É por isso que isto é um jogo de equipa. A consequência foi um golo. O que eu acho é que houve um abrandamento do meio campo para a frente. Até percebo que tenha havido uma coisa do género “Isto é para jogar com calma e devagarinho”. Esqueceram-se que os coreanos estiveram um ano e meio a treinar para o Campeonato do Mundo, eliminaram a Itália. Quem elimina a Itália tem que ter algum valor, não é?

Alexandre Baptista, à esquerda, o colega Coluna e a cantora Simone

Alexandre Baptista, à esquerda, o colega Coluna e a cantora Simone

António Pedro Ferreira

Depois dos 5-3 à Coreia do Norte, vem a meia final com a Inglaterra. O facto de terem mudado o jogo para Londres mexeu com vocês?
O calendário estava feito e a meia final devia ser onde estávamos, em Liverpool. Acho que a Federação Inglesa pediu para ser em Londres.

Influenciou-vos?
Fiquei com a sensação de que é difícil jogar uma meia final em Inglaterra que não seja em Wembley, Londres, ainda para mais jogando os ingleses. É natural que os ingleses tivessem pedido à FPF e esta aceitou. Nós tivemos que ir de malas aviadas, fazer a mudança para o centro de Londres com carros e autocarros, para um hotel no meio da cidade, quando estávamos muito bem instalados e calmos. Isto poderia não ter tido grande significado, mas que houve uma alteração importante, houve. Foi o jogo mais triste da minha vida.

Porquê?
Perdemos mal. Sabíamos que tínhamos avançados que podiam sempre fazer golo de um momento para o outro, mesmo quando as coisas estivessem a correr mal. Sofremos um golo, mas um golo era recuperável. E sofremos o golo por outra asneira, daquelas coisas que nunca se devem fazer no campo, mas acontecem. Uma bola da qual tínhamos posse, fomos para o lado errado e acabamos por sofrer. Ainda fizemos um golo mas já não houve tempo. E depois não tivemos clarividência. Os ingleses tiveram medo da equipa portuguesa e puseram um jogador de meio campo a marcar um ponta de lança. O Bobby Moore não marcava ninguém, o Bobby Charlton que conhecia bem, tinha jogado contra mim no jogo contra o Manchester, era médio direito, marcava o Eusébio individualmente. De maneira que aquilo começou a… Não andava nem para lá, nem para cá, estava o jogo equilibrado mas em que não havia praticamente perigos. Nessa altura devíamos ter pensado “Eles estão fechados e nós fechamos também, e vamos ver quem ganha, sempre temos o Torres para marcar com um golo de cabeça”. Mas não tivemos essa clarividência, continuamos no jogo normalmente, eles com um central que não marcava ninguém. Devíamos ter pensado: “Nós não vamos lá eles não vêm cá, aguenta assim, deixa estar”. Mas houve ali um desentendimento qualquer, o Zé Pereira também teve azar de largar a bola e a bola bater-lhe nas pernas, saltou para o meio campo e o Bobby Charlton que é do meio campo atira para golo. Quem marca os homens do meio campo é o meio campo. Fiquei com a sensação de que era um jogo que podíamos ganhar e que não ganhamos.

Como é que estava o estado de espírito no final?
Estava mauzinho mas ao mesmo tempo... Apesar de tudo tínhamos feito uma coisa que ninguém tinha feito.

Ninguém culpou ninguém?
Não, isso não existia ali graças a Deus.

Alexandre Baptista está com 77 anos

Alexandre Baptista está com 77 anos

António Pedro Ferreira

Jogaram para o 3.º lugar com a União Soviética...
... E tivemos um jantar com o primeiro ministro britânico. Os ingleses ganharam e fizeram um jantar para as 4 equipas finalistas. Isso foi bom.

Como encararam o jogo com a União Soviética?
Da mesma maneira que os outros. Tivemos alguns problemas porque eles tinham uma equipa boazinha. E acabou por cair para nós porque os avançados do nosso lado eram mais perigosos. Foi bom termos ganho o terceiro lugar, apesar de tudo. Não ficamos em primeiro, mas estivemos perto.

Festejaram de alguma forma especial?
Não. Tenho ideia de que fomos a esse jantar e fomos ver a final ao estádio. Eu pensava que os avançados ingleses eram bons mas não eram fora de série. Um desses avançados, que eu marcava, contra a Alemanha fez 3 golos.

Como é que foi a recepção cá?
Penso que houve algum desencantamento por não termos feito melhor. Mas ficar em terceiro é melhor do que ficar em sétimo. Confesso que já não me lembro muito bem do que é que se passou depois.

Foram recebidos por Salazar. Recorda o que ele disse?
Não, não tenho ideia nenhuma, nem sei se falou. Mas ele falava baixinho, se calhar não deu para ouvir (risos).

A estreia numa fase final de um Mundial marca para sempre a história do futebol português. Sentiram-se sempre especiais ao longo dos anos?
É uma coisa que não se esquece. Ainda hoje me dizem: “Olha o magriço. O senhor é uma lenda!” (riso).

Alexandre Baptista, o 2º à direita, reecontrou-se em 2016, com alguns dos Magriços. António Simões, José Carlos, José Augusto, Fernando Peres e Fernando Cruz

Alexandre Baptista, o 2º à direita, reecontrou-se em 2016, com alguns dos Magriços. António Simões, José Carlos, José Augusto, Fernando Peres e Fernando Cruz

António Pedro Ferreira

Deixou de jogar em 1976.
Sim. Vim de Angola em julho de 1974. Tinha o curso de treinador que tinha tirado enquanto jogava. Houve um curso para jogadores dado pelo Mário Wilson. Fui eu mais o Lourenço, não me lembro se também foi o Torres, o Eusébio, o Simões. Éramos uns 5.

Porque é que não se tornou treinador de futebol?
Porque a vida não deu para aí. O meu problema era a família. Acabei o contrato que tinha feito com o Ultramar. Fiquei em casa dos meus pais que tinham um andar mas estava alugado, e eles não podiam pôr as pessoas na rua.

Esteve em casa dos seus pais com a mulher e as suas filhas?
Sim. Comecei à procura de emprego. Pensei que era fácil. Quando dei por mim, não arranjava emprego em lado nenhum. Passou o mês de férias, falei com uns colegas meus que trabalhavam na exportação mas queriam pagar-me uma verba que me descia de categoria. Eu já era técnico especialista, queriam passar-me para não sei o quê, disse-lhes: “Estão a brincar comigo”. Vou para treinador de futebol ou para motorista de táxi, eram duas alternativas boas, embora não fosse o que mais me agradasse. Até que um dia vou pela rua e encontrei um colega meu que me disse que na Arruda dos Vinhos estavam lá outros colegas nossos que andam à procura de uma pessoa.

Foi trabalhar para lá?
Eu tinha uma maneira mais fácil que era ir ali ao Terreiro do Paço, onde estava o MFA. Aquilo estava muito ligado ao Partido Comunista, eu não tinha partido político, nem tenho, mas havia sempre gente conhecida. Mas não chegou a ser preciso, fui para a Junta dos Vinhos na Rua Castilho em Lisboa. E foi assim. Podia ter ido para treinador mas não dava. Sabe o que é ser treinador de futebol? É hoje treinar um clube aqui, estar um ano ou dois, depender sempre dos resultados. E eu tinha família, tinha filhas e não queria andar com as filhas às costas de um lado para o outro. E ainda tinha mais uma razão. Se eu fosse para treinador provavelmente iria treinar quem tinha mais experiência do que eu. “Queimei as pestanas” estes anos todos, tinha que ter alguma vantagem do esforço que fiz. E andei por ali, depois mais tarde mudei para atividade privada, para uma empresa no Porto.

Alexandre Baptista exibe as suas faixas de campeão do Sporting

Alexandre Baptista exibe as suas faixas de campeão do Sporting

António Pedro Ferreira

E foi vice presidente do Sporting na altura do João Rocha.
Sim, em 1984. Mas não me dei bem com o sistema.

O que quer dizer com isso?
Não me dei bem com o sistema porque não era para fazer nada, e as coisas que eram para ser resolvidas, o João Rocha tinha já um grupo que tratava das coisas. Ele é que era o presidente e eu achei que aquilo não era para mim.

Esteve lá quanto tempo?
Um ano. Ao fim de um ano mandei uma carta ao presidente a dizer das minhas razões. Depois fui para o setor privado.

É verdade que gosta de jogar golfe e bridge?
É, e jogo. É um passatempo muito agradável. Golfe já jogo menos. O gosto pelo bridge foi no serviço militar. Havia lá uns oficiais que jogavam e faltava sempre um. Tinham que arranjar alguém. Eu não sabia, tinha jogado King, mas adaptei-me. O golfe já não me lembro, mas comecei já depois de vir de África, já com uns 30 anos. Era um passatempo, ia com pessoas amigas.

Sobre a atual seleção e o Mundial, que conselho é que dá à nossa seleção?
Não devemos pensar que vamos conseguir muito ou que vamos conseguir pouco, vamos chegar a onde for possível porque há coisas incontroláveis, pode aparecer um golo como foi o caso do Éder e pode não aparecer.

Olhando para o grupo de Portugal, que lhe parece?
Acho que temos hipóteses de passar. Também se não pensarmos que passamos a fase de grupos, não passamos nada.