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A casa às costas

Hugo Viana: “Estava no banco e o mister Oliveira disse-me: 'Ó miúdo, vai aquecer rápido para te estreares, que este jogo nem chega ao fim'”

Para a maioria dos portugueses, o Mundial de 2002, realizado na Coreia do Sul e no Japão, remete automaticamente para duas coisas: o murro que João Pinto deu num árbitro e os alhos que o selecionador António Oliveira supostamente espalhou pelo balneário. Hugo Viana, que esteve lá, evita ambos os assuntos e recusa falar sobre a sua vida de "casa às costas", mas deixa algumas pistas sobre o que se passou num Mundial de má memória para a geração de ouro

Alexandra Simões de Abreu

Hugo Viana, agora com 35 anos e o cabelo já mais curto do que nesta foto, retirou-se dos relvados em 2015/16

João Carlos Santos

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A sua estreia na seleção A aconteceu num jogo de preparação, com a Angola, para o Mundial 2002. Um jogo que não acabou, certo?
É verdade.

Recorde o que aconteceu e como se sentiu.
O jogo era muito esperado pela comunidade angolana em Portugal, que era e é enorme. Os adeptos angolanos encheram praticamente o estádio e lembro-me que, na altura, foi engraçado, dentro do mau que acabou por ser. Ou seja, o jogo não chegou ao fim porque os jogadores de Angola foram expulsos. Eu estava no banco e lembro-me deste episódio engraçado com o mister António Oliveira, que me disse: “Ó miúdo, vai aquecer rápido para te estreares porque isto nem chega a acabar” [risos]. Fui aquecer, entrei mas o jogo durou pouquíssimo tempo. Já havia dois ou três jogadores expulsos e da maneira como os angolanos estavam no jogo, o mister Oliveira previa que houvesse mais expulsões e de facto foi o que aconteceu.

Uma estreia estranha, não?
Sim, e devido à agressividade dos jogadores angolanos eu estava com um pouco de receio.

Tinha quantos anos?
Tinha 18 anos. Hoje em dia já é normal vermos jovens de 18 anos na seleção, mas na altura não. Na altura nem sequer estava a jogar na equipa sénior.

Rui Duarte Silva

Depois jogou com a Espanha, outro amigável.
Contra a Espanha o mister disse-me: “Miúdo, vais jogar a titular. Espero que não te tremam as pernas”.

Tremeram?
Não. O grupo era espetacular e bastante experiente. Era a chamada "geração de ouro" e puseram-me completamente à vontade e confiante.

Apesar de só ter sido chamado para jogos amigáveis, começou a crescer dentro de si a esperança de ir ao Mundial ou não lhe passava pela cabeça?
Não era crescer a esperança, mas falava-se que eu poderia ir ao Mundial, poderia ser uma opção. Eu não tinha essa exigência para comigo.

Mas acalentava ou não a esperança de ir?
Não. Por acaso na altura comecei a jogar no Sporting e fui chamado, mas jamais me via a ser convocado para o Mundial, porque não tinha feito nenhum jogo de qualificação, tinha feito só dois, três jogos de preparação.

Hugo Viana, à direita, num treino da seleção, com Luis Boa Morte e Simão Sabrosa

Hugo Viana, à direita, num treino da seleção, com Luis Boa Morte e Simão Sabrosa

João Carlos Santos

Entretanto é chamado porque há a suspensão do Kennedy, apanhado com doping. Lembra-se onde é que estava quando soube?
Estava no Europeu de sub-21, na Suíça. O professor Agostinho Oliveira chamou-me antes do último jogo, em que já não tínhamos qualquer possibilidade de qualificação para os quartos de final, e disse-me: “Há uma situação na seleção principal que ainda não se sabe o desfecho, mas caso o desfecho não seja favorável para esse jogador, poderás ser chamado para partir amanhã”.

Aí já lhe tremeram as pernas?
[risos] Não. É um sonho, obviamente, é um orgulho enorme. Já tinha jogado a época toda no Sporting, foi o último ano em que o Sporting foi campeão, havia muitos jogadores que estavam na seleção e que jogavam comigo no Sporting que me ajudaram muito na integração. Claro que há jogos em que estás mais nervoso, mais ansioso, mas tremer as pernas não.

Ana Baião

Fez a viagem de avião para Macau na companhia do Eusébio. O restante grupo já lá estava.
Sim.

Lembra-se de alguma conversa especial ou alguma coisa que ele tenha dito, algum conselho?
Não. Lembro-me só que o avião “borregou” na aterragem em Frankfurt e o Eusébio suava, suava. Eu também estava com medo porque tinha receio de andar de avião na altura [risos]. O avião apanhou um poço de ar, não conseguimos aterrar, levantávamos de novo e o Eusébio ficou bastante nervoso. De Frankfurt para Macau fomos sempre a dormir, já era uma viagem durante a noite.

O jogo de estreia é com os EUA e perdemos 3-2. O que correu mal?
Foi a junção de muitos fatores que atrapalharam e que não foram positivos para esse Mundial. Estar a preparar um Mundial num clima meteorológico completamente diferente não é a mesma coisa do que estar num clima exatamente igual ou no próprio local do Mundial. Isso prejudica muito.

Os EUA foram mais fortes do que estavam à espera?
Foi um jogo em que os EUA acabaram por marcar primeiro, fomos atrás do resultado. Foi um jogo atípico, eles tiveram a sorte de marcar o primeiro golo. Depois, em desvantagem, cometemos alguns erros e eles aproveitaram, não há uma explicação para isso.

Lembra-se como é que ficou o ambiente ou se o Oliveira disse alguma coisa ao intervalo ou no final do jogo?
Não, não me lembro de nada relevante.

CityFiles

Segue-se o jogo com a Polónia. Ganhamos 4-0 com um hat-trick do Pauleta. Até que depois vem aquele malfadado jogo com a Coreia. Excesso de confiança?
Não. A seleção da Correia vinha de um período de bons resultados e estava a jogar em casa. Lembro-me que nesse jogo tivemos oportunidades mas não conseguimos concretizar. Foi simplesmente isso, não quer dizer que a Coreia estivesse melhor do que nós no jogo, que não esteve. Nós tivemos oportunidades mas por uma razão ou por falta de sorte não conseguimos concretizar. A Coreia aproveitou as oportunidades e nós tivemos falta de sorte.

Falta de sorte e alguma cabeça perdida. A expulsão do João Pinto não ajudou.
Vou ser sincero, estava no banco e só soube, só consegui perceber aquela confusão, com imagens, a seguir ao jogo. Claro que o João foi expulso, mas o que realmente tinha acontecido não percebi na altura em que aconteceu.

Nesse jogo o António Oliveira surge de muletas. O que é que tinha acontecido?
O mister fez um entorse no hotel, acho que foi durante um almoço, numa escada, e era normal que tivesse de usar de muletas.

Mas ele foi acusado de ter prolongado o uso das muletas por uma questão de superstição.
Isso não sei, nunca falei com ele sobre isso. Só ele é que pode responder a isso.

No final do jogo qual era o estado de espírito?
Obviamente que era de uma tristeza enorme porque queríamos passar e, como disse há pouco, tivemos oportunidades para isso, mas não conseguimos. Quando não passas de fase no Mundial, quando tens oportunidade para fazê-lo e não consegues…

THOMAS LOHNES

Falou-se e escreveu-se muita coisa sobre esse Mundial, nomeadamente sobre as questões das superstições do selecionador, dos alhos no balneário e no campo...
A mim passou-me completamente ao lado. Como há pouco falou das muletas ser superstição ou não, eu não me apercebi de nada, não soube de nada e sinceramente a imprensa falou dos alhos mas eu nunca vi nada, nem me apercebi de nada.

Como foi o regresso a Portugal?
A viagem foi complicada porque era uma viagem longa, foi logo a seguir ao jogo, no dia a seguir, penso eu, e foi complicada, foi complicada.

Complicada em que aspecto?
Porque perdeste, caras em baixo, desiludidas, zangados connosco. Nada mais do que isso.

Não houve discussões, não houve acusações?
Não.

Em relação ao João Pinto, como estava o ambiente com ele?
Quando acontece um episódio desses, os grupos, pelo menos naqueles em que estive, nunca se dividem, nem deixam o jogador de parte. E esse grupo não foi diferente. O João Pinto sempre teve o apoio de toda a gente.

Nessa seleção quem eram os jogadores com quem o Hugo se dava mais?
Rui Jorge, Beto, Paulo Bento, são jogadores com quem partilhei o balneário no Sporting e era com esses jogadores que tinha mais confiança.

O momento em que o árbitro argentino Angel Sanchez mostra o cartão vermelho a João Pinto, no jogo de Portugal com a Coreia do Sul

O momento em que o árbitro argentino Angel Sanchez mostra o cartão vermelho a João Pinto, no jogo de Portugal com a Coreia do Sul

Andreas Rentz

O facto de nunca ter sido chamado a jogar deixou-lhe um gosto amargo?
Não, não deixa. São opções do treinador, na altura eu também não fazia parte direta do grupo, porque não tinha feito a qualificação.

Sentia-se um outsider, também por ser o mais novo?
Os meus colegas nunca me fizeram sentir isso. Sabia que não podia ficar mais ou menos triste por não jogar, tinha estado a treinar bem, se fosse chamado muito bem, se não fosse chamado muito bem também.

Visto de fora, mas estando lá, como foi o seu caso, ficou com a noção de que podíamos ter chegado mais longe, poderíamos ter feito melhor?
Sim, poderíamos ter feito mais e melhor, mas acredito que todos os jogadores deram o seu melhor - disso não duvido.

Sentiu-se frustrado por ser a sua estreia e ter acontecido o que aconteceu?
Frustrados sentíamo-nos todos, no final. A responsabilidade é de todos e a frustração é enorme, de toda a equipa técnica, do staff, da direção... Acho que internamente conseguiram resolver as coisas. A FPF também obviamente saberá o que se passou ou o que podiam ter feito melhor naquele Mundial. Mas acho que todos deram o seu melhor. Por um motivo ou outro, a seleção não conseguiu passar.

O 11 que disputou o jogo com os EUA

O 11 que disputou o jogo com os EUA

Henri Szwarc

Na sua opinião o que é que acha que falhou?
Eu posso ter a minha opinião, mas não a dou, porque vai ser igual dar ou não.

Discordo. Foi um jogador que esteve nesse Mundial, portanto a sua opinião conta muito.
Sim, mas há um princípio que eu respeito: o que se passa com a equipa no balneário, nos hotéis, nos autocarros e nos aviões não se deve tornar público. Há jogadores que não o têm, mas eu tenho esse princípio. Muito mais ainda quando pode ou não melindrar uma ou outra pessoa, ou uma ou outra equipa.

Como diz o ditado: “A bom entendedor meia palavra basta”. Já que não quer desenvolver mais o assunto, ficamos por aqui então...
Não acho que seja importante estar agora a dizer que a culpa foi deste ou daquele.

Não quero atribuir culpas a ninguém. Só queria perceber, e acho que os leitores também, o que é que se passou.
O que se passou é que no primeiro jogo, e o primeiro jogo nessas competições é sempre dos mais importantes, Portugal não conseguiu ganhar. Jogámos no último jogo contra uma Coreia motivadíssima, a jogar em casa com adeptos fabulosos, aconteceu o episódio da expulsão do João e não é fácil. Já não é fácil jogar 11 contra 11 contra uma Coreia motivadíssima. Podíamos ter ganho o jogo, porque tivemos oportunidades para isso. Eu também não sou a pessoa ideal para lhe dizer que a preparação ou que o autocarro não foi o melhor ou que o avião não foi o melhor ou que a preparação física não foi a melhor. Eu não entendo de autocarros, nem entendo de aviões e não entendo de preparação física.

Hugo Viana celebra com Ronaldo a vitoria sobre a Inglaterra, por 3-1, no jogo dos quartos de final do Mundial de 2006.

Hugo Viana celebra com Ronaldo a vitoria sobre a Inglaterra, por 3-1, no jogo dos quartos de final do Mundial de 2006.

ADRIAN DENNIS

Mas tem a sua opinião enquanto jogador profissional e pode dá-la.
A minha opinião pode ser má, pode não ser a mais correta, por isso...

Não deixa de ser a sua opinião.
Eu sei [risos], mas prefiro dá-la em casa e não publicamente. Porque aqui em casa são pessoas que percebem menos do que eu de autocarros, de aviões e de preparação física, por isso vão pensar que eu percebo alguma coisa. Agora se eu der publicamente haverá muitas pessoas que poderão julgar-me e dizer que eu não percebo mesmo nada, por isso prefiro ficar assim.

Foi azar, portanto.
Foi, poderíamos ter ganho à Coreia e neste momento o Mundial não teria sido uma má prestação.

Pois mas a questão é que já estava tudo muito nervoso no jogo com a Coreia…
Quando se está num Mundial ou num Europeu, está-se sempre muito nervoso.