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A casa às costas

Costinha: “No Porto, ia entrar numa discoteca quando o porteiro me pôs a mão no peito: 'Isto não são horas para beber, amanhã há treino'”

Hoje ri-se quando recorda que primeiro disse "não" ao Mónaco, enquanto comia um prato de caracóis. Felizmente os amigos abriram-lhe os olhos e lá foi o médio diretamente da II divisão B portuguesa para o campeonato francês. Conhecido por Costinha, ministro, príncipe ou Chico, Francisco da Costa ganhou tudo o que havia para ganhar com o FCP, jogou na Rússia e em Espanha e passeou por Itália antes de abraçar uma curta carreira de diretor desportivo. Hoje é treinador, mantém a elegância, o gosto por vestir fato e confessa que quando chegar aos 50 anos vai comprar um Aston Martin.

Alexandra Simões de Abreu

NUNO FOX

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Fale-me das suas origens.
Nasci em Lisboa, a minha mãe é minhota, de Arcos de Valdevez, o meu pai é de Angola. O meu pai era ajudante de um alto graduado do exército, e esse graduado, Chico Patrício, quis trazer o meu pai para Portugal. Encontraram-se os dois nessa casa senhorial. A minha mãe era cozinheira e fazia uma série de serviços. O meu pai era o chofer e o homem de confiança lá da casa e conheceram se ali, numa quinta do Prior Velho. Depois de mim tiveram mais duas filhas.

Passou a infância nessa quinta?
Sim, nós vivíamos numa casinha pequena, género casa dos caseiros. Mais tarde, o meu pai iniciou também a atividade num táxi para termos melhores condições, porque éramos três filhos. Eu passava também muito tempo na casa dos meus avós, no Minho, que eu adoro. Acabávamos a escola e no dia seguinte os meus pais iam deixar-nos a Arcos de Valdevez e ficávamos por ali os três meses de férias.

Onde é que iniciou a escola?
Comecei a estudar no Externato São Miguel Arcanjo, um colégio de freiras, privado. Aí, a minha madrinha teve um papel importante. A minha madrinha era governanta em casa de uma irmã desse Chico Patrício, em Campolide. Nunca casou, eu sou o único afilhado que ela tem. Foi ela quem também pagou as operações aos meus joelhos mais tarde.

As suas irmãs andaram nesse colégio?
Sim, também andaram. Os meus pais trabalhavam para que os filhos tivessem a melhor educação. Por isso digo sempre que o maior luxo que eles nos deram não foram os bens materiais, mas uma boa educação, boa alimentação, às vezes até com o sacrifício de eles não comerem para os filhos comerem. E passaram-me outros valores. Desde muito novo aprendi a fazer tudo porque a minha mãe ia trabalhar até tarde, o meu pai também e alguém tinha que cuidar das duas meninas.

Que diferença é que faz das suas irmãs?
Da mais velha tenho 1 ano de diferença e da mais nova 6. Para a mais nova fui quase, não vou dizer um pai, mas era eu que fazia muitas coisas com ela porque a minha mãe tinha que trabalhar. Mas isso deu-me uma certa bagagem, quando vais viver sozinho, vais buscar todas essas situações que passaste e que são importantes para te poderes organizar e orientar.

Entretanto vai viver para Chelas. Porquê?
Porque a casa era pequena. Tinha um quarto, uma cozinha e duas salas, eu e as minhas irmãs dormíamos na sala, elas num beliche e eu num divã. Tínhamos que iniciar uma nova etapa; o meu pai tinha o táxi e fomos para Chelas, para um prédio, os preços seguramente eram convidativos para que o meu pai pudesse alugar aquela casa. O meu pai continuou a fazer os mesmos serviços na quinta, a minha mãe também, quando era chamada. A minha mãe era uma grande cozinheira, e ainda hoje cozinha para muitas dessas famílias, que vêm deixar a caça a casa dela para a minha mãe fazer.

Com que idade é que vai para Chelas?
Com 10 anos. Estava na 4ª classe, ainda faço um ano no colégio das freiras, muitas vezes ia com a minha mãe, a pé, do Externato até Chelas. Tínhamos que economizar, havia outras prioridades. Depois mudo para a escola ali na zona. A primeira foi a Damião de Góis.

Notou muita diferença?
Notei. Vinha de um colégio de freiras onde era tudo muito organizado, muito certinho, raramente havia pancadaria ou roubos. Lembro-me de chegar à escola em Chelas de calcãozinho e meia até ao joelho, que era como ia vestido para o colégio de freiras (risos). Claro que é um choque de realidades. De um colégio privado para um público, numa zona difícil onde havia muita delinquência. Mas com o tempo fui crescendo e adaptando-me àquela realidade, tenho muitos amigos lá, o facto de jogar à bola ajudou bastante.

Costinha no dia em que foi batizado

Costinha no dia em que foi batizado

NUNO FOX

Nunca lhe passou outra coisa pela cabeça a não ser jogador de futebol?
Não. Jogador, sempre. No colégio de freiras tentaram mudar essa ideia. Que devia era tirar um curso superior, que só assim é que podia ganhar bom dinheiro. Mas a minha cabeça foi sempre destinada para ser jogador. Os meus pais também não queriam que eu fosse jogador, queriam que tirasse um curso e fosse senhor doutor, se calhar um bocadinho por influência das famílias para quem trabalhavam. O meu pai disse-me uma coisa que nunca mais me esqueci: “Depois, vais falar na televisão, vais dar uma entrevista e não sabes falar inglês, nem francês, é uma vergonha. Queres passar por essa vergonha?!”. Se calhar por isso é que eu sou tão bom a línguas, ele espicaçou esse meu lado. E não foi fácil ir jogar à bola, tive que fazer um pacto com o meu pai e fazer uma pequena maldade (risos). Ele acabou por aceitar que eu jogasse futebol porque nós vivíamos numa zona complicada e se não fosse para a escola ia para junto dos amigos... provavelmente ele teve medo que eu me envolvesse noutro tipo de coisas. Mas nunca experimentei qualquer tipo de drogas, nunca tive vontade. Tinha amigos que faziam a vida deles nesse sentido mas nunca me puxaram. Sabiam que eu queria ser jogador de futebol e deixaram-me sempre à parte dessas coisas. O meu pai então reconsiderou porque com os treinos ficava com o tempo todo ocupado. Deixou-me ir.

A sua mãe, no meio disso tudo, não interferia, não lhe dizia nada?
A minha mãe não me dizia nada porque eu era um miúdo que me levantava para ir para o colégio ou para o futebol, aos domingos, e não era preciso ela acordar-me. Ia e vinha e às vezes os meus pais nem davam por mim. Fazia o pequeno-almoço, fazia a minha cama, deixava tudo arrumado. O futebol era a minha meta e para jogar futebol tinha que cumprir com certas tarefas. Nem me lembro do meu pai me levar aos treinos alguma vez. Não é como hoje em dia, que os pais levam ao treino, falam com os treinadores, dão táticas… O meu pai nunca foi ver um treino meu. E acho que só foi uma vez ver um jogo meu, em miúdo, em que perdemos 16-0. Ele ficou tão desiludido que deixou de ir (risos). Mas não era porque não quisesse ir, era porque ele tinha que trabalhar, tinha que pôr comida em casa e as contas tinham que se pagar.

E a paixão clubística pelo Sporting como é que surge?
O meu pai e o meu tio eram sportinguistas e levavam-me ao futebol. Lembro-me daquelas duas chaminés, um de cada lado (risos), ainda por cima fumavam SG Ventil que tinha um cheiro fortíssimo. Mas a minha mãe e as minhas irmãs são benfiquistas, portanto, na família, temos um bocadinho de tudo. Há poucos portistas, mas benfiquistas são quase todos e sportinguistas há uns 4. Deve ter sido daí, de ir ao futebol com eles. Mas também recordo que muitas vezes quando iam à bola diziam-me: “Vai-te arranjar”. Eu ia ao quarto e quando voltava, já não estavam. Ou porque não tinham bilhete ou porque o bilhete era caro não me levavam. Quando passei a jogar futebol, tinha o cartão de jogador, já não precisava de ir com eles, já ia ver os jogos sozinho. Todos os jogos que havia em Lisboa, eu ia ver.

Costinha ainda bebé, na praia

Costinha ainda bebé, na praia

NUNO FOX

Como é que foi parar ao Oriental e com que idade?
Com 12 anos. Uns amigos meus de Chelas disseram-me que havia umas captações, eu pedi ao meu pai que me disse que tinha que ter boas notas a matemática. Matemática era aquela disciplina que, não era que não soubesse, mas para a qual não tinha paciência. O meu pai disse-me que se eu tivesse positiva deixava-me ir treinar. Estudei, estudei, estudei, estudei e não tive positiva. Foi aí que fiz a pequena maldade: tive que falsear o teste como é óbvio (risos). Aquelas que tinha errado, pus certo; aumentei o 30% para 80 e ele deixou-me ir treinar.

Recorda-se do primeiro treino?
Quando cheguei ao treino, a equipa de miúdos do Oriental já estava praticamente feita, faltava um defesa esquerdo e estavam uns 20 miúdos à experiência. O mister Zé Luís perguntou: “há aqui algum defesa esquerdo?”. Ninguém levantou o braço. Comecei a ver, era tudo para médio ou para avançado, e levantei eu o braço, “Defesa esquerdo mister”. “És defesa?!”. “Sou pé direito mas também gosto de jogar à esquerda”. Fui jogar à esquerda na captação, ele gostou e fiquei no clube. Se tivesse ido para médio, como havia tantos médios, se calhar não me tinha dado a oportunidade. E foi assim que começou a minha odisseia.

Esteve 6 épocas no Oriental.
Sim, fiz duas de iniciados, duas de juvenis e duas de sénior e é engraçado porque os jogadores que eram titulares nos iniciados, mais à frente deixaram de jogar e comecei a jogar eu. Às vezes pensamos que aqueles jogadores de 8, 9, 10 anos são muito bons e que vão ser sempre bons e não é assim que acontece. Há uma mudança de idade, um crescimento que por vezes não acompanha a qualidade técnica que demonstraram para trás. Eu era muito determinado, treinava todos os dias, treinava com os iniciados, treinava com os juvenis.

Acabou o 12ª ano?
Não. Acabei o 11.º. Chumbei um ano estupidamente por faltas, no 7.º ano, ficava a jogar à bola no recreio e chumbei. Depois senti aquela vergonha de ser apanhado pela irmã, ainda por cima ficamos na mesma turma, e não chumbei mais. Com 16 anos o mister Barão, que está agora na equipa B do Sporting, estava a treinar os seniores do Oriental e eu ainda era juvenil do segundo ano e ele já me puxava para os seniores. Os seniores treinavam a uma hora que não dava para conciliar com a escola. Na altura, acho que estava no 10.º ou no 11.º ano, acabei por sair da escola porque já era “profissional” e não dava para conciliar. Enquanto estudei, acho só tive uma namorada uma semana (risos). É verdade; elas queriam ir ao cinema, queriam ir aqui e acolá e eu queria jogar à bola. A bola era a minha namorada. Depois, quando estava no Machico, treinava de manhã e à noite tinha tempo para fazer as aulas, matriculei-me e fui acabar as cadeiras que tinha para acabar. Tinha prometido ao meu pai e fui acabar.

Costinha com dois anos

Costinha com dois anos

NUNO FOX

Era mesmo obcecado pelo futebol.
Completamente. Era a minha meta e como era muito determinado. Se eu tivesse nascido com o talento do Maradona, que era o meu ídolo de infância, as coisas se calhar tinham tido outro rumo. Portanto, tinha que fazer o meu caminho e para isso tinha que abdicar de muitas coisas.

Por exemplo?
Fins de semana não havia porque tinha jogos, noitadas não havia, copos, fumos, não havia. Tudo aquilo que é o normal fazeres na tua adolescência aos fins de semana, nada. E até quando fui para profissional. Depois ouvia aquela célebre frase que me irrita profundamente: “Quando acabares o futebol, tens tempo para fazer tudo”. Como, se já não tenho a mesma disposição, se já não tenho a mesma idade?

Sente que perdeu muita coisa da juventude?
Não foi perder, fiz uma escolha, ganhei outras coisas. Mas é preciso ter uma grande força de vontade para chegar às 10, 11 da noite, veres os teus amigos arrancarem todos para irem beber um copo, já com 18, 19 anos… Eu só saí de casa pela primeira vez aos 18 anos e com hora marcada, não é como agora, que saem aos 12, 13 ou 14 anos. O meu pai marcava-me aquela hora em casa e tinha que ser que a casa é dele, ele é que paga portanto não posso dizer nada. Às vezes era eu próprio que dizia: “Não, tenho que descansar porque amanhã tenho jogo” ou treino.

Os amigos de infância tratam-no por Chico. Tinha mais alguma alcunha?
Não posso dizer (risos).

Então?
Em casa as minhas irmãs tratavam-me por Bachi. Não sei dizer porquê. Foi uma delas que me pôs a alcunha. Os meus pais chamavam-me Francisco. O Costinha é já no Oriental porque eu era pequenino, magrinho e o mister Zé Luís, “Costa!? Tu és o Costinha, és fininho, és magrinho, tens que ser Costinha” e ficou.

Antes de irmos para Machico, conte lá para onde foi na sua primeira saída à noite?
Fiz anos e no dia de anos estava habituado a ir ao café, à noite, com os meus amigos. Jantava e depois ia beber um cafézinho no videoclube do sr. Pereira. Juntávamo-nos ali todos para jogar SEGA, aquilo fechava à meia noite. Mas naquele dia disse: “Hoje vamos beber um copo, vamos à 24”. Falava-se da 24 (de julho), mas eu sabia lá o que era a “24”, não tinha a mínima ideia, era um parolo dentro de Lisboa nesse sentido. Os meus amigos, que iam muitas vezes, “OK, vamos ali ao Porão de Santos” e lá fomos. E eu “Vou pagar um whisky a toda a gente”. Comecei a pedir um whisky, dois, três e o meu cunhado “Olha lá, isto não são os preços lá do café”. “Não? Então quanto é que é cada whisky?”. “Mil escudos”. “Ah?! (risos). Calma, vamos reformular se não fico sem o dinheiro que recebi nos anos” (risos).

Costinha, ao centro, numa das festas de aniversário

Costinha, ao centro, numa das festas de aniversário

NUNO FOX

O seu primeiro contrato assina com que idade?
Foi como júnior, sete contos e quinhentos (37 euros), tinha 17 anos.

Lembra-se do que é que fez com esse dinheiro?
Provavelmente devo ter dado à minha mãe.

Não havia assim nada que quisesse muito comprar?
Houve sempre. Camisolas de futebol comprava bastante. Mas às vezes era preciso ajudar em casa. Como ia e vinha muitas vezes a pé de Chelas para o Oriental, porque o meu pai dizia-me: “Quem corre por gosto, não cansa. Queres ir jogar e treinar, tens que escolher, ou há isto, ou há aquilo”. Então, comprei o passe e o resto dava à minha mãe e ficava com algum dinheiro para mim, para o meu café, para o meu jornal.

E o seu primeiro jogo como sénior?
Foi com o Sintrense, ganhamos.

Estava muito nervoso?
Estava ansioso para poder jogar. Perguntava “Tenho que ter experiência mas como é que eu vou ganhar experiência? Isso não se compra, tenho que jogar para ter experiência”. E na altura entrou o José Moniz que, mal chegou, pôs-me a jogar como titular. Nunca tinha sido convocado e fui para titular. Sei que os dirigentes do Oriental estavam em pânico. Um jogo que era decisivo para a nossa manutenção, faltavam 6 jornadas, mas aquilo era decisivo, “Vais pôr o miúdo?”. “Vai jogar”. E joguei, ganhámos e nunca mais saí da equipa. É engraçado porque o professor José Moniz depois não fica no Oriental, assume um compromisso com o Portosantense da 3ª divisão. E vem o Pedro Gomes para o Oriental. Faço a época toda e no final da época o José Moniz convida-me para ir para o Portosantense. Portanto, eu ia da 2ª para a 3ª, só por causa dele que tinha um projeto de subida de divisão. O meu pai foi comigo a Alverca falar com o professor, dar o ónus ao professor: “Se ele se portar mal, puxe-lhe as orelhas”, à antiga. Estava de férias, pensava que ia para o Portosantense, o professor liga-me e diz-me : “Olha já não vais para o Portosantense, vamos para o Machico, que acabou de subir de divisão. Não te preocupes que já arranjei o teu contrato e vais ganhar mais”. E lá fui para a Madeira.

Esse foi o seu primeiro contrato profissional?
Sim. Quer dizer, no Oriental era “profissional”, embora os contratos fossem amadores. O meu contrato profissional a sério foi no Mónaco, porque os outros contratos que tinha aqui eram todos contratos amadores.

Cositnha com os pais e o filho mais velho, recem-nascido, ao colo

Cositnha com os pais e o filho mais velho, recem-nascido, ao colo

NUNO FOX

A ida para o Mónaco foi um salto enorme não só a nível desportivo como de salário, imagino.
No primeiro ano do Oriental ganhava 50 contos (250€) e no segundo ano 100 contos (500€). Depois vou para o Machico e para a 2ª B. Além de um contrato muito bom, tinha casa, comida paga, bons prémios de jogo e eu raramente gastava. Onde gastei mais dinheiro em Machico foi num telemóvel, na altura um Ericsson, que custou duzentos contos (1000€). Só de pensar que gastei num telefone duzentos contos, há não sei quantos anos...E depois olhava para o telefone “Ninguém me liga?!” (risos). E eu tinha que pagar a conta (risos). Não gastei mais dinheiro nenhum. Foi com o dinheiro do Machico e do Nacional que comprei a minha primeira casa antes de ir para o Mónaco.

Quando sai do Oriental para a Madeira, sai também pela primeira vez da casa dos pais. Foi um choque grande?
Não. Nessas coisas eu sou muito... A minha esposa diz que eu dou bem para viver sozinho. Adapto-me muito rápido às situações. Fui bem recebido na Madeira, trataram-me sempre muito bem, como hoje ainda me tratam. As pessoas da Madeira são espetaculares, comigo sempre foram. Eu também queria ter a certeza e a noção do que é que podia fazer vivendo sozinho. Como é que vou pagar as minhas contas, como é que vou arranjar a minha casa, como é que vou pôr a comida na mesa não estando com os pais? Se falhasse alguma coisa os pais estavam ali para um amparo. Eu ajudava em casa mas quando não tinha salários no Oriental, e foram muitos meses em que não tive, o meu pai pagava a luz, o gás, a comida, pagava tudo. Portanto eu precisava de saber como é que eu era, que tipo de responsabilidade é que eu tinha a viver sozinho e ainda para mais a fazer aquilo que gostava que é jogar futebol. “Será que eu vou ter cabeça para isto?”.

Pelos vistos, teve. Voltando à história do telemóvel. Sei que comprou o telemóvel por um motivo especial. Não quer contar?
Comprei o telemóvel quando já andava atrás da Carla, a minha mulher, há um ano e ela sempre a dar para trás. A primeira vez que sai com ela à noite disse-lhe que ela ia ser a mãe dos meus filhos, ela riu-se. Hoje é a mãe dos meus filhos. Ela é prima do meu cunhado, que era meu vizinho. Ele casou com a minha irmã e eu casei com a prima dela. Foi um trato que fizemos: “Dou-te a minha irmã e tu dás-me a tua prima” (risos).

Conhecem-se desde miúdos então.
Sim, a Carla ia lá ao prédio aos domingos, olhava para ela mas ela não me dava bola. Ela trabalhava na Portugalia Airlines. Ela sabia que eu gostava dela, mas andei ali um ano. E então o que é que eu faço: na Madeira compro o telefone, mas antes de falar com ela falava sempre com a avó e com a mãe, mandava um cartão para a avó e um cartão para a mãe, umas flores para a avó, umas flores para a mãe, umas flores para ela. A mãe e a avó começaram a gostar muito de mim: “O Francisco é que era, é um rapaz atencioso e educado....”. Até que chegou uma altura em que eu vi que não havia avanços, deixei de telefonar. Ela chegava a casa e perguntava à mãe: “Ninguém ligou?” (risos). E a mãe: “Então mas tu dizias que...”. Lembro-me que já estava no Nacional e vou fazer um jogo a Montemor, ela tinha ido ver o jogo com a minha irmã e o meu cunhado, e quando vou cumprimentá-la, no final do jogo, ela dá-me um beijo na boca e foi ali que começámos a namorar. Até hoje.

Costinha com a mulher, Carla, grávida do segundo filho

Costinha com a mulher, Carla, grávida do segundo filho

Pedro Monteiro

Como se dá a passagem do Machico para o Nacional?
Acabei a época no Machico, ficámos em 2.º lugar, não subimos de divisão por 3 ou 4 pontos e é aí que aparece o Jorge Mendes, que já tinha conhecido quando estava no Oriental, porque ele era amigo de infância do meu treinador de juniores, Vasco Lourenço, e do Paulo Lourenço, um central dos seniores. Vou para o Leça da Palmeira que na altura estava na 1ª Liga. Assino um contrato de 3 anos, só que há os direitos de formação para pagar e ninguém se entendia. O Oriental pedia uma verba, o Machico outra. O presidente do Leça da altura teve medo de assumir essa verba, e o Jorge, já meu empresário disse: “Eu pago, mas o passe fica meu. Eu tenho confiança no atleta”. Na altura lembro-me que o Jorge disse: “Podes ir para o U. Leiria que também está interessado”. Mas eu não queria porque iam colocar os mesmos problemas porque estava na 1.ª Liga e tinha que passar de contrato amador para profissional. Entretanto, o professor Moniz ligou-me a dizer que estava a fazer uma equipa no Nacional para subir de divisão e gostava que eu fosse para a equipa dele. Assinei contrato com o Nacional e subimos de divisão esse ano. Foi uma descoberta diferente na ilha. Saí do Machico e fui viver para o para o Funchal, um sítio diferente, maior, simplesmente adorei.

De repente sai do Nacional para o Mónaco?
Mais uma vez foi o Jorge Mendes. Do Nacional levou-me para o Valência. Eu assino 5 anos com o Valência. Depois, o Valdano queria emprestar-me ao Vila Real. Falou comigo, explicou-me o porquê, que eu não estava pronto para jogar no Valência, e tinha razão, e queria emprestar-me ao Vila Real, que era da 2ª B. Portanto tinha saído da 2ª B de Portugal e ia para a 2ª B espanhola, com clubes interessados, em Portugal, da 1.ª divisão. O Jorge diz-me que o presidente já tinha dito ao Valdano que ele tinha que ficar com os jogadores que ele lhe ia dar. Ou seja, eu ia andar no meio do Valdano e do senhor Paco Roy. Disse ao Jorge que não queria e ele foi tratar da desvinculação.

E não havia o FCP pelo meio?
O FCP queria-me contratar para emprestar a uma equipa de 1ª liga, o Gil Vicente, ou outra que estivesse na 1ª divisão e que tivesse acordo com o FCP. E enquanto o FCP estava na Tailândia a fazer uma digressão, o Jorge diz-me: “Há um clube, o Mónaco, que quer um trinco defensivo, o Paulinho Santos não quer ir para o Mónaco e eu falei no teu nome. Queres ir?”. “Epá, estás maluco, eu vejo o Mónaco na televisão, não tem público, não tem nada, o que é que eu vou fazer para o Mónaco, não deves estar bom da cabeça, não quero ir para o Mónaco” (risos). Estava a comer caracóis com uns amigos meus em São Marcos. Desligo o telemóvel e dizem os meus amigos: “Estás parvo ou quê? Ouviste o que disseste, não queres ir para o Mónaco?! Liga já para ele a dizer que vais para o Mónaco. Já viste os jogadores que o Mónaco tem? É a liga francesa, é outra exposição e tu não queres ir para o Mónaco?!”. E eu: “Fogo, vocês têm razão”. Peguei no telefone “Jorge afinal vou” (risos). Vim para casa, fiz a mala e fui para o Mónaco.

Cositnha com os dois filhos, ainda pequenos, na Rússia

Cositnha com os dois filhos, ainda pequenos, na Rússia

NUNO FOX

Como foi a receção no Monaco?
Cheguei lá, estou no aeroporto e não vinha ninguém buscar-me, tinham-me dito que iria estar um senhor à minha espera. Passam 10, 20, 30, 40 minutos, ninguém. Liguei para ele: “Isto é uma partida que me fizeste?”. “Não pá, está aí o senhor, espera aí”. Ele liga e eu vejo um senhor a atender o telefone. E o senhor olhava para mim e falava para o telefone. O que é que dizia o senhor: “Jorge eu estou aqui há 40 minutos, não hay Costinha”. Era um senhor espanhol, o senhor Mullen, espetacular. “Está aqui un chico de fato, mas esse no és jogador, seguro, de fato” (risos). Não sei se ele estava à espera que eu fosse de chinelos… “Ah, és esse!?”. E pronto, pediu-me desculpa e disse-me que não era normal os jogadores virem de fato. Fomos para o clube. Fiz um período de treino, 5 dias, treinei dois dias no Mónaco e depois fomos para Clairefontaine, e no treino da manhã aleijo-me. Vinha da 2ª B e tínhamos tido competição até muito tarde e em França a pré-temporada começa muito cedo. Estou no quarto, cansado, cheio de dores numa perna e o escocês John Collins, que é um pai no futebol para mim, um dos meus melhores amigos no futebol, entra, mais o Ali Benarbia, outro grande craque e senhor do futebol mundial, que diz :“Olha, um turista, John. Costa, turista”. “Turista?!”. Eles saíram do quarto, levantei-me cheio de dores, fui à enfermaria, pedi ao massagista para me dar uma injecção, ligou-me a perna e fui treinar cheio de dores. No final desse treino o Jean Tigana pediu-me para assinar 4 anos. Estava cheio de dores na perna, não aguentava, mas disse: “Turista ninguém me chama, não vim para aqui para fazer turismo”. Treinei e ele disse-me: “Agora vou-te dar 4 dias para ires a Portugal porque vamos ter a Supertaça e eu quero que jogues”. E assim foi.

A sua mulher foi viver consigo para o Mónaco?
Quando disse à minha namorada que estava no Mónaco, desatou a chorar. Ela vivia só com a mãe, eram muito unidas, tinha o trabalho dela, super independente. Depender de um homem e do seu salário, ela que gostava de ter as coisas dela, não foi fácil e depois com os chefes... “Jogador da bola... hoje és tu, amanhã é outra”, é sempre difícil. Mas eu disse-lhe: “Eu com 21 anos no Monaco e tu em Lisboa, minha querida vai dar erro. Ou vens ou não vale a pena. Não é possível. As minhas hormonas estão a saltitar, sou vou aí no natal... Mais honesto que isto não posso ser”. E ela lá veio. E já lá vão 20 anos de casados.

As coisas não lhe podiam ter corrido melhor. Fez 4 épocas no Mónaco...
...Os primeiros 6 meses foram duros. Venho jogar a Alvalade para a Liga dos Campeões e lembro-me de chegar ao aeroporto. Quando saio tenho um batalhão de jornalistas ao pé de mim “Costinha, Costinha”. Não estava habituado e até me atrapalhei. Não sei se falei bem ou se falei mal, não me recordo. Jogo a Liga dos Campeões, 3-0 com o Sporting, uma exibição horrível, claramente sem nível para poder jogar a Liga dos Campeões naquela altura. e foram esses jogadores mais experientes no Mónaco, naquela altura o John Collins, o Benarbia, o Franck Dumas, o Barthez, foram eles o meu suporte.

O francês não foi problema?
Quando cheguei falava francês da escola, mas pensava: “Tenho que falar a língua”. Em dois meses aprendi a falar porque ia no avião e ia sempre a copiar textos dos jornais para aprender. A viagem era de uma hora e eu ia uma hora a fazer textos, para aprender a língua, para apanhar. Eu queria comunicar no balneário, eu gostava de saber o que é que as pessoas diziam e eles, os mais velhos, viram esse empenho da minha parte e acolheram-me bem, tanto que no 2.º ano fui para o grupo dos capitães de equipa. E vinha da 2.ª B de Portugal. Nos primeiros 6 meses fui muitas vezes convocado, mas não joguei senão 2 ou 3 jogos. Vamos para janeiro, venho a Portugal porque nesse ano a minha avó faleceu, e começo a jogar sempre. Jogo a meia-final contra o Manchester United, jogo nas meias-finais e faço um golo contra a Juventus, na altura o Dimas estava a jogar na Juventus. Num ano, saio da 2ª B, jogo o campeonato francês, jogo a Liga dos Campeões e vou à meia-final da Liga dos Campeões. No ano seguinte, em outubro/novembro, sou chamado para a seleção nacional.

Costinha ainda guarda o certificado da sua 1ª internacionalização

Costinha ainda guarda o certificado da sua 1ª internacionalização

NUNO FOX

Quando chega ao Mónaco vai viver para onde?
Escolhi uma casa em função da minha mulher. Tinha que ser um sítio onde ela se sentisse bem, onde não tivesse tempo para pensar nas saudades de Portugal. Então arranjei uma casa que ficava num condomínio com piscina, com ginásio, com café, saindo da porta para fora, nas traseiras tinha talho, supermercado, farmácia, tinha tudo ali. Ela não tinha carta, deslocava-se a pé, era perto da praia, dos campos de ténis onde fazem o Open de Monte Carlo. A casa não era uma casa para eu viver, era uma casa para a minha mulher se sentir cómoda.

E vieram os filhos?
O meu filho Hugo Miguel nasce em dezembro de 1999, no Mónaco. O mais novo é o Diogo, já nasce em Portugal.

Assistiu ao parto?
Assisti. Ela não queria, mas assisti aos dois. Ela conta sempre uma história. Estava lá a minha sogra, no Monaco, e quando vamos para o carro, ela vai para entrar e eu: “Só um bocado”. Fui buscar uns jornais. “Não vais sujar os estofos, podem rebentar-te as águas” (risos). Ela conta sempre isto. Mas eu fiz aquilo para brincar com ela. As pessoas acham que sou muito sisudo, mas estava no gozo. A minha sogra ria-se que nem uma perdida. Por acaso, os meus dois filhos nasceram em momentos engraçados. Com o Hugo aconteceu essa situação e com o Diogo, eu ia começar a comer um prato de moelas que ela tinha feito. Quando vou pôr a primeira moela à boca, ela dá um grito e eu: “Já fui”. Deixei as moelas, o meu primo e o meu cunhado que estavam lá comeram as moelas todas e eu arranquei com ela para o hospital.

Como é que foi lidar com aquele luxo todo à sua volta no Mónaco?
Foi fácil porque eu posso ter muitos gostos, mas tinha que perceber que só poderia gastar mediante aquilo que pudesse amealhar. Comecei a comprar a minha casa com o dinheiro do Machico e do Nacional. O meu primeiro carro comprei no Mónaco.

Costinha com a camisola do FCP, clube que representou de 2001 a 2005

Costinha com a camisola do FCP, clube que representou de 2001 a 2005

Jose Manuel Ribeiro

Qual foi o seu primeiro carro?
Foi um Z3 e porque não pago impostos no Mónaco. Um carro que aqui custava 6 ou 7 mil contos (30.000€) lá custava 3 mil contos (15.000€). Primeiro recebi os 4 primeiros meses, pus no banco a fazer ó-ó, como se costuma dizer, e só depois é que dei entrada para o carro. Fazia a minha vida de forma tranquila, normal. Comia sempre em casa, a minha mulher fazia a comida. Tive sorte com as mulheres da minha vida, a minha avó, a minha mãe, a minha sogra, ela, todas cozinham bem.

Quando é que compra o seu primeiro fato?
Quando começo a ganhar dinheiro para comprar a minha roupa. Foi sempre tudo bem planeado. Costumo dizer, toda a gente pensa no futuro, mas o futuro só acontece se nós tivermos um presente. Se não tivermos presente, meu amigo, o futuro não vai aparecer assim do nada. Sou muito cuidadoso com as minhas coisas. Ainda hoje tenho peças, que uso e que comprei no Mónaco, em 1998, 99. Porque tudo o que compro, custa, e não é o valor monetário, mas o valor que eu dou ao quanto que custou para ter aquilo.

A noção de moda surge quando e onde?
Quando cheguei ao Mónaco. Vi coisas... Dei comigo a jantar e quando olho para o lado estava um dos meus ídolos de miúdo, o Roger Moore, o ator que fez de 007. Comecei a olhar, vi que era simpático, bem vestido. Sou muito observador, costumo dizer à minha mulher: “Eu não estou a ver, estou a observar”. Ainda ontem estava a fazer uma limpeza no escritório e vi um recorte antigo de uma crítica aos meus fatos. “Os sapatos não se usam assim, a calça não se usa assim”. E eu pergunto, mas quem é que está a usar, é ela ou sou eu? Porque é que eu não vou usar aquilo que quero, como eu quero. Tinha um fato aos quadrados, hoje em dia toda a gente usa um fato aos quadrados. A crítica dizia: “quadrados a mais”. O meu gosto pessoal, não sei se é bom, se é mau, mas é meu. O Mónaco, não tinha nada a ver com o que se via aqui em Portugal, muito diferente, muito mais arrojado, portanto, acho que fui adquirindo algum gosto. Não gosto dos estereótipos do género se vai para ali, tem que ir assim. Acho que as pessoas têm que andar como se sentem bem e não podemos fazer juízos de valor e de carácter por aquilo que as pessoas usam, senão temos de andar todos da mesma maneira.

Fora do futebol o que vem logo à cabeça quando se fala no Mónaco?
Grande Prémio. Sou doido por Fórmula 1 e vi dois GP lá. Adoro.

Quem são os seus ídolos na F1?
Ayrton Senna e agora o Lewis Hamilton. Quando o Ayrton Senna saiu a F1 deixou de fazer sentido para mim. Via mas já não era aquela coisa, depois apareceu o Hamilton e voltei novamente. Não perco, até ponho o despertador para ver as corridas.

Costinha numa das primeiras chamadas à seleção, na altura ainda vestia a camisola 15

Costinha numa das primeiras chamadas à seleção, na altura ainda vestia a camisola 15

NUNO FOX

Quando está no Mónaco é chamado para à seleção pela primeira vez. Quem é que o chama?
O mister Humberto Coelho, em 1998. Chama-me para o duplo confronto, com a Roménia, que perdemos em casa 1-0, e com a Eslováquia que é quando me estreio e ganhamos 3-1.

Onde é que estava quando foi convocado e qual foi a sensação?
Ia ter jogo, estava no hotel onde a equipa faz o estágio e o meu treinador, o Tigana, vem com uma folha e diz : “Olha tens uma convocatória para ti. Vais à seleção portuguesa”. “Mister, obrigado”. Ele começou a rir: “Não jogues bem logo à noite não”. Joguei, fiz golo e fui à seleção. O mister Humberto Coelho chamou-me mais uma vez, para o jogo com a Dinamarca, em Leiria, e fui convocado para o Europeu 2000. Na altura também podia fazer de lateral direito, já tinha jogado como lateral direito no Mónaco.

Estava muito nervoso na estreia, quando substituiu o Rui Costa?
Não, jogar com a camisola da seleção portuguesa é, eu acho, o que todos os jogadores portugueses desejam. Há um nervoso miudinho, ainda para mais com aquela geração, eu cresci a vê-los. Lembro-me de ir ver os jogos do Campeonato do Mundo de sub 21 e muitos deles estavam ali, o Paulo Sousa, o Figo, o Rui Costa, o Fernando Couto, o João Pinto, o Jorge Costa, o Vítor Baía, o Pauleta que é meu vizinho, o Sérgio Conceição, foi muito bom.

O ambiente de seleção era o que estava à espera?
Era um bom ambiente. Como vinha do Mónaco, o Vítor Baía tratou-me logo por príncipe: “Prince como é que que é?”, deixaram-me à vontade. Meteram-se comigo e eu deixei. É muito importante os mais novos, quando chegam, saberem respeitar os mais velhos e saberem quando é que têm de entrar nas brincadeiras e que tipo de conversa têm que ter. Penso que fui bem recebido, porque acho que sempre soube estar. Nunca estive envolvido nas guerras que se falava dos jogadores do FCP, do Benfica, para a mim era a seleção nacional, eram os melhores. Não conseguiu nenhum feito, ou não conseguiu um título importante como conseguiu agora esta seleção de 2016, e com mérito, mas teve sempre grandes jogadores.

Costinha festeja um golo marcado pelo FCP, com Maniche ao lado

Costinha festeja um golo marcado pelo FCP, com Maniche ao lado

PAUL BARKER

Quando é que vai a primeira vez ao casino do Mónaco?
Só fui ao casino uma vez. Vá, duas. Vou explicar porquê. No casino nunca ninguém ganha. Tinha colegas que viviam lá enfiados e diziam que ganhavam sempre e eu dizia: “Aquele casino deve estar na falência, vocês só ganham”. Resolvi ir uma vez, o meu cunhado estava lá mais a minha irmã, e fui. Lembro-me que troquei 30 contos (150€). Dei metade ao meu cunhado, fiquei com a outra metade e fomos jogar. Joguei e triplicámos o valor e eu mal tripliquei: “Amigo, vamos embora”. Fomos embora e quando chegamos a casa a minha mulher: “Foram ao casino, podias ter dito, nós ficamos aqui em casa as duas à espera”. “Não tem problema, amanhã vamos ao casino”. Dividi outra vez o dinheiro, metade para elas, metade para nós. Em 10 minutos, perdi tudo. Mas do dinheiro que ganhei, não foi do dinheiro que investi. Os meus 30 contos (150€) estavam guardados, foi do prémio que fui buscar. Fomos para cima e elas ainda tinham dinheiro. “Minhas amigas isto aqui não é para ganhar dinheiro, é para nos divertirmos e para perdermos dinheiro. Vamos embora comer um gelado”. E nunca mais fui ao casino.

Teve um encontro com o príncipe Alberto também, não foi?
Foi uma das coisas que me deixou feliz. Mas conto porquê e como foi. Quando o meu filho nasceu, a minha sogra estava lá comigo. A minha mulher ficou 3 dias no hospital, ia visitá-la e depois vinha com a minha sogra para casa e um desses dias vou jantar com ela a um sítio que para mim é o sítio-referência, o Sass Café. A Carla não gostava que eu fosse lá porque era bem frequentado pelo sexo feminino (risos). Saímos do hospital e eu: “Sogrinha não quer comer nada? Nasceu o Hugo, vamos ali ao Sass Café”. Estamos sentados e está o príncipe Alberto a comer numa mesa com um amigo, mais 6 ou 7 mulheres e os seguranças de pé. Ele vê-me, levanta-se, vem à minha mesa cumprimentar-me. A minha sogra estava... não era vermelha, nem sei. “Costinha o que é que estás aqui a fazer?”. “Estou a jantar com a minha sogra. O meu filho nasceu e viemos aqui jantar.” “Não digas, temos que celebrar isso. Depois do próximo jogo tens que trazer o teu filho”. Pensei que ele só estivesse a dizer aquilo da boca para fora. A minha mulher veio para casa e não é que depois quando jogamos em casa e ganhamos, tenho um jantar preparado no Sass Café com os meus colegas e a minha mulher teve que levar o meu filho para tirar um fotografia com o bolo, o príncipe Alberto e os meus colegas todos?

Desilusões, não teve?
A única coisa, e não foi desilusão, mas desapontamento, foi a lesão no joelho. Fomos campeões nacionais em 1999/2000 e no ano em que vou jogar a Champions de forma efetiva, porque da primeira vez joguei aos poucos, tive uma lesão no joelho com a seleção, contra a Estónia, no tempo do António Oliveira. Tinha feito uma viagem da Estónia para Lisboa, de Lisboa para o Funchal e depois treino no dia seguinte, descansei muito pouco, dei cabo do joelho e só recuperei para o último jogo da Champions.

Fez o quê, rotura de ligamentos?
Do lateral, estive 4 meses parado. Joguei em dezembro o último jogo com o Glasgow Rangers, ainda fiz um golo. Empatámos 2-2, ainda com o joelho ligado e cheio de dores, mas tinha que jogar. Talvez fosse o momento mais difícil.

Costinha em ação pelo FCP

Costinha em ação pelo FCP

AI Project

Qual foi a maior amizade que fez no Mónaco?
Fiz várias, tenho facilidade em fazer amizade. Ainda hoje mantenho ligação com muitos deles, o Gallardo, o Trezeguet, o John Collins. Estou a fazer o meu 4º nível do curso de treinadores, na Escócia, e foi com ele que falei; o Barthez que é um gajo espectacular.

E treinador que o tenha marcado?
No Mónaco só tive dois treinadores, o Tigana, que tem que ficar no meu coração porque foi ele que me deu a oportunidade de assinar contrato com o Mónaco. Foi ele que me escolheu e às vezes ainda vou jogar os torneios de veteranos e ele é o treinador da equipa francesa e vamos jantar sempre. Acreditou muito em mim, passou-me a capitão da equipa do clube, eu era como se fosse a extensão dele dentro do campo. Portanto. os dois foram treinadores muito importantes e lembro que na altura, quando assino com o FCP, eles deixaram acabar o meu último ano de contrato, pensavam que eu ia renovar, o Puel dizia ao presidente: “Assine com o Costinha que ele vai-se embora”. “Não vai, é uma questão de amor, ele vai ficar”. Mas eu dei a minha palavra ao Jorge Nuno Pinto da Costa e eu quando dou a minha palavra, não há hipótese, podem vir com 40 camiões de ouro que a minha palavra é mais importante que todo o ouro do mundo. O meu avô sempre me ensinou: perdes a palavra, perdes tudo.

Ser capitão foi uma responsabilidade que aceitou sempre bem? Acha que tem carisma para o ser?
Senti-me bem. Dentro do balneário sempre fui e sempre serei uma pessoa mais “nós” do que “eu”. O “nós” é muito importante e para nos sentirmos bem e termos uma boa produção, temos que ter um grupo bom. Não temos que andar sempre a rir, há alturas em que temos que dizer as coisas na cara e não se pode ter receio. Nunca tive medo de dizer a quem quer que fosse que é assim ou que isto não pode ser. Mas nesse aspeto o Jorge Costa e o Vítor Baía são duas figuras lendárias, míticas, no FCP. O Jorge então, digo que foi o melhor capitão que tive até hoje, um grande capitão sem dúvida alguma, não desfazendo dos outros.

O que é que ele tem de especial?
O carisma dele era impressionante. Ele dava sempre qualquer coisa a mais, treinava sempre nos limites, era um exemplo. Aquela vontade dele, aquela paixão que tinha no jogo, a exigência que tinha para qualquer jogador, fosse uma estrela ou fosse um miúdo novo, era, para mim, uma coisa fenomenal.

Costinha abraçado a Reinaldo Teles, dirigente do FCP.

Costinha abraçado a Reinaldo Teles, dirigente do FCP.

AI Project

Como é que se dá a sua ida para o FCP? É através do Jorge Mendes?
A primeira abordagem que tive foi do Benfica. Do Vilarinho, salvo erro. O Jorge fala comigo e eu perguntei se não havia mais nenhum clube, se só havia o Benfica, e ele “O Benfica quer fazer uma proposta. Mas o FCP também quer”. O FCP tem um modus operandi muito mais letal, ou seja, eu reúno com o presidente Jorge Nuno Pinto da Costa e só saio junto dele quando disser que sim. Ao passo que nos outros clubes “Fica para amanhã, amanhã vemos, amanhã continuamos”, com ele não. Falamos, discutimos valores, o FCP andava atrás de reconquistar o campeonato, seguramente para os adeptos do FCP eu não era um jogador que eles quisessem, porque estava lá o Paredes, mas o presidente queria que eu fosse. E depois apareceu o Sporting.

Também o queriam?
Na altura era o Carlos Freitas que estava como diretor desportivo do Sporting. Perguntaram ao Jorge mas ele disse-lhes “O Costinha já deu a palavra ao Jorge Nuno Pinto da Costa, por isso acabou, nem vale a pena chegar perto”.

Como é que foi mudar de armas e bagagens para o Porto?
Tinha outros clubes interessados, o dilema era: vou para Portugal ou fico no Mónaco, que me oferecia um contrato de mais 6 anos com valores muito acima daquilo que o FCP me pagava? Só que eu estava há 4 anos no Mónaco e a minha mulher já tinha manifestado vontade de voltar às origens. Na altura, também tinha o interesse do Inter de Milão e do Valência que já me tinham deixado ir embora e queriam que voltasse. Ainda por cima tinha feito o Europeu, tinha sido campeão com o Mónaco. Mas voltar para o Porto não foi difícil.

Muitas diferenças entre FCP e Mónaco?
Sim. A nível de clubes o FCP é muito maior que o Mónaco, nem se compara. O FCP tem um historial que o Mónaco não tem, tem muito mais do que o Mónaco. A Liga pode não ser tão forte, tão famosa e tão conhecida como a Liga francesa, mas o FCP está muitos patamares acima do Mónaco. Fui campeão europeu no FCP. Mas, claro, ao princípio não foi fácil, eu sentia desconfiança por parte das pessoas, dos adeptos e disse: “Não se preocupem que eu vou dar luta. Vocês podem gostar mais do Paredes, não tem problema nenhum”. Lembro-me do Chainho dizer-me: “Então como vai ser esta época?”. “Vou ser titular”. “Titular? Estás maluco, está este e este...”. “E depois, isso é um problema deles, não é meu. Não vim para aqui para ser suplente”. “Fogo tu és ambicioso”. “Não sou ambicioso, amigo. Se eu quisesse estar cómodo ficava lá no Mónaco. Vim para aqui para jogar. Agora se vou jogar ou não, o treinador vai decidir”.

Começou logo a jogar com o Otávio Machado.
Sim. Depois houve um período em que me aleijei, saí e quando o Mourinho voltou, só não joguei o primeiro jogo, depois joguei sempre. Em 2002/2003 ganhamos o Campeonato, a Taça, a Supertaça e a UEFA. E no ano seguinte ganhamos a Taça da Liga, a Liga dos Campeões, o Campeonato e a Supertaça, só perdemos a Taça de Portugal para o Benfica. E o Mourinho chega e faz aquilo que tem a fazer. Prepara a equipa, no final da época escolhe aqueles que quer e acho que fizemos duas épocas brilhantes. Dificilmente se podem repetir.

José Mourinho e Costinha

José Mourinho e Costinha

João Carlos Santos

O embate com o Mourinho correu bem?
Sim, foi muito bom. Acho que fez evoluir todos os jogadores pela forma como treinava, era diferente, a abordagem que ele tinha aos jogos, a forma como preparava a equipa, era algo novo, diferente, fresco.

Diz-se que no Porto os dirigentes não precisam de ir às discotecas porque as próprias pessoas informam o clube de quem lá está? Teve problemas com isso?
Tive. Tínhamos um jogo com o Manchester United, um jogo em que estava castigado e não podia jogar. Jogámos em casa, penso que com o Boavista no fim de semana, e a meio da semana havia jogo. Os jogadores acabam o jogo e vão para o estágio, quem não fosse escalado ia para casa. O Mourinho chegou ao pé de mim e disse: “Não vais jogar agora com o Manchester United, não vais para o estágio, vai para o hotel, vai para casa, vai jantar fora com a tua mulher, vai beber um copo, vai fazer o que quiseres; só tens treino na 2ª feira”. Sábado foi tudo para estágio e eu fui jantar com a minha mulher mais dois casais amigos e depois fomos beber um copo. Aquilo passou-se e na 2ª feira estou no treino e o Mourinho chama-me e mostra-me o telefone. Tinha recebido uma mensagem às 5 da manhã que dizia assim: “Mister, o Costinha saltou a janela do hotel, está aqui na discoteca com uma senhora e há jogo na 4ª feira. Quer que faça alguma coisa?” (risos). Ali era assim. Felizmente ganhei muitas vezes no FCP, mas mal havia um empate, entrava em casa e dizia a minha mulher: “Esta semana só comemos em casa. Não vou a lado nenhum”. Se perdíamos, então muito menos. Eram exigentes, muito exigentes, é a forma de eles serem.

Foi chamado a atenção uma vez numa discoteca, não foi?
Isso ainda foi com o mister Octávio. Estava castigado, tinha uma série de amarelos, o mister deu-me dois dias de folga e eu vou entrar com um colega meu, que na altura jogava no Salgueiros, também não estava convocado e vamos beber um copo à noite. Já não estava há muito tempo com esse meu amigo que foi meu colega no Nacional da Madeira, o Carlos Ferreira, e quando chego à porta da discoteca, o porteiro mete-me a mão no peito, olha para o relógio: “Não são horas para estar a beber copos. Amanhã tem treino”. Olhei para ele: “Desculpe, não estou a perceber. Quem é que diz que não posso beber copos?! Ponto número um, quem é que lhe disse que vou beber copos, segundo quem é você para não deixar, ou não quer que eu entre?”. Vem um gerente: “O que é que se passa?”. “Este senhor está aqui a dizer que eu não posso entrar”. E diz o gerente, que sabia mais do que o porteiro, “Então tu não vês que ele está castigado! Se calhar até está dispensado”. E ele “Está bem, mas olhe às duas da manhã, vou chamá-lo” (risos). E não é que foi mesmo? Tocou-me nas costas. “Por amor de Deus, deixa-me em paz” (risos). Mas fiquei ali mais uma hora e depois “Vamos embora Carlos, que eu não quero problemas” e fui-me embora. Tirando isso, não tive mais situações problemáticas até porque depois os adeptos têm uma coisa boa, é que eles reconhecem quem se entrega de corpo e alma ao clube, à camisola, ao jogo e valorizam isso. Nesse aspecto, sinto-me privilegiado porque me sinto valorizado pelos adeptos do Porto.

Beto, Deco, Costinha e Maniche durante um treino da seleção

Beto, Deco, Costinha e Maniche durante um treino da seleção

João Carlos Santos

Chegou a ser praxado?
Fui, pelo Paulinho Santos. O sacana do Paulinho Santos e o Deco. Levei com o balde (risos) e ainda levei uma dura do mister Octávio por ter chegado atrasado, estava todo molhado, tive que mudar de roupa. Tive que me conter.

Não foi ao Mundial 2002 porquê?
Não vou porque o mister António Oliveira não me achava com capacidades para jogar na seleção. Não me convocou e lembro-me de que o Mourinho, quando chegou ao Porto nesse ano de 2002, me disse: “Costa não te preocupes, eu cheguei agora, sou o teu treinador e nunca mais vais sair da selecção. Não te preocupes, trabalha”. E assim foi, nunca mais saí.

Acabou por não ficar ligado provavelmente ao pior Mundial que Portugal fez.
Sim, mas é sempre a seleção, é um Mundial. Aquilo que me deixou mais entristecido é que eu faço um Europeu onde joguei e de repente deixo de fazer parte das escolhas, porque ele não percebe a minha forma de jogar.

Nunca o chamou?
Chamou. Joguei contra a Holanda, contra a Estónia… Chamou-me pouco jogos. Mas não é algo com que me preocupe muito. Preparei-me bem e com o mister Scolari nunca mais saí da seleção. Já antes tinha regressado com o mister Agostinho Oliveira, quando ele assumiu, voltei a ser chamado novamente.

Quando viu aquilo tudo a desabar no Mundial de 2002, o que é que pensou e sentiu?
Lembro-me de que fui passar férias ao Mónaco, no primeiro jogo que Portugal fez. Eu, o Domingos e o Secretário e mais outro amigo nosso, e as esposas. Quando entrei no avião pedi ao piloto para informar do resultado. O avião levantou, e de repente Estados Unidos 3, Portugal 0. “O piloto deve estar a meter-se connosco de certeza” e o Domingos “Só pode”. E a assistente de bordo, “Não, não, está mesmo a perder 3-0”. Acompanhei o Mundial, é óbvio que gosto sempre que Portugal ganhe, independentemente de ser chamado ou não.

Costinha em sua casa, com o último troféu que recebeu, o de treinador do ano da II Liga, atribuido pelo CNID

Costinha em sua casa, com o último troféu que recebeu, o de treinador do ano da II Liga, atribuido pelo CNID

NUNO FOX

Teve um pequeno problema com Mourinho, não foi?
Não chegou a ser problema. Estávamos numa fase da época adiantada, iamos jogar com o Real Madrid para a Liga dos Campeões, já estávamos apurados para a próxima fase e no campeonato estávamos muito bem também, Íamos jogar ao Marítimo, eu resolvi fazer uma festa de anos e convidei o plantel todo para ir jantar. No final do jantar disse_ “Já fiz a minha parte. Agora quem quiser ir para algum lado, tem que assumir a responsabilidade”. Tinha alguns amigos meus de infância que vieram de Lisboa para passar os anos comigo e saí com eles. Fomos jogar ao Marítimo, empatámos, vi logo pelas substituições que o mister fez que algo não estava bem. No fim do jogo, quando ia falar com ele, ele estava meio frio. O que é que ele fez, aproveitou aquele momento, é a minha leitura, e deu-me uma descasca dentro do balneário à frente de todos, porque sabia que podia “descascar-me” as vezes que quisesse, que eu ia treinar e jogar bem, ia dar sempre o melhor de mim. Não ia ser aquele jogador que, por ouvir uma descasca, ia pôr-me a chorar, ou dentro da casota de um cão com medo que me batessem. Isso teve consequências para o grupo, foi uma chamada de atenção: “Meus amigos, isto é para levar a sério. Atenção às saídas. Há o campeonato para ganhar, temos a Champions League”. Mas as coisas depois compuseram-se. Ele estava sempre a provocar-me. Tenho outra história dele.

Conte.
Fomos jogar ao Real Madrid e diz-me: “Vais jogar, vais levar amarelo, mas não me interessa que leves amarelo porque em janeiro vamos vender-te”. Acaba o jogo em Madrid, está à minha espera à porta do balneário, dá-me um abraço e diz: “Grande campeão”. Fogo há aqui qualquer coisa… Depois comecei a juntar os cacos e comecei a perceber. Para culminar isso tudo, num sorteio para a Liga dos Campeões, já contei esta história vezes sem conta, ele vem falar comigo e diz “Saiu-nos o Manchester United, porreiro, o primeiro jogo tu não vais poder jogar, mas jogamos em casa, ganhamos pela diferença mínima 1-0, 2-1, depois lá, no jogo em Manchester, já vais estar em campo, vais ser o melhor e vamos passar a eliminatória”. E é com um golo meu que ganhamos a eliminatória.

Saiu do FCP porquê?
Porque acabei o contrato e porque o FCP num ciclo de muitas vitórias faz sempre uma renovação.

Foi nessa altura que teve as melhores propostas?
Tive propostas do Real de Madrid, do Manchester United, do Inter de Milão e nunca pude ir para lado nenhum. O FCP aceitou a proposta do Dínamo de Moscovo, porque nunca foi um clube que gostasse de reforçar os seus rivais e escolhia sempre os clubes para os jogadores. Tinha um contrato com o FCP e não sou aquele tipo de jogador que vai andar a espalhar que quer ir para outro lado. Se eu assinei um contrato, tenho que o respeitar.

Nem o seu empresário, Jorge Mendes, conseguiu fazer nada?
Aparentemente não, mas lembro-me que na altura o Camacho foi treinar o Real de Madrid e ele queria o Costinha e o Ricardo Carvalho. Nesse ano, o Ricardo Carvalho sai para o Chelsea, porque se aleijam uma série de jogadores do Chelsea, e o Costinha ficou no FCP. Mas nunca fui bater à porta do presidente a dizer que queria ir para o Real de Madrid. Fui para o Dínamo de Moscovo.

Na seleção com Simão Sabrosa

Na seleção com Simão Sabrosa

Jose Manuel Ribeiro

Vai sozinho para a Rússia ou leva a família?
Foi o único sítio onde a família não esteve a viver mesmo. Estiveram lá bastante tempo comigo a passar férias. O ano escolar é igual ao ano em Portugal, mas o ano futebolístico era diferente, dava para passarmos muito tempo juntos.

O Diogo já tinha nascido?
Já, era muito pequenino. Nasceu em 2004, a 31 de outubro, no dia das bruxas. Ele nasceu no Porto e teve mais a minha presença do que o Hugo. O Hugo apanhou a fase do Mónaco, de jogar de 3 em 3 dias, depois vim para o Porto e tinha a Liga dos Campeões. Estava em casa e não estava. E apanhou a seleção.

Como é que foi o choque de chegar à Rússia, um país frio...
O meu presidente tinha a possibilidade de comprar o Parma e o meu sonho sempre foi jogar em Itália. Pensei, faço ali 2 anos na Rússia e se ele compra o Parma, posso ir para o Parma.

De onde vem o sonho de jogar em Itália?
O Maradona jogou no Nápoles e o campeonato italiano na década de 80 era dos melhores. Os melhores jogadores iam para o campeonato italiano e sempre fui muito vidrado no calcio. O meu sonho era jogar em Itália, tive a possibilidade de ir jogar para lá e acabei por não ir. Aliás fui uma vez e não correu tão bem. Mas há mais. Quando acabo o campeonato na Rússia, em novembro, recebo uma chamada do professor Carlos Queiroz a dizer que o Sir Alex Ferguson queria que eu fosse para o Manchester. Falo com o Jorge que diz: “Vamos negociar”. Primeiro era só até ao final do ano, mas o Jorge queria que fossem dois anos e meio, lá chegaram a um entendimento, só que o Dínamo disse “o jogador daqui não sai” e lá se foi o Manchester United por um cano. Ao longo da minha carreira houve clubes importantes que me quiseram contratar mas, repito, nunca forcei nenhum presidente a sair de lado nenhum.

Quando chega a Moscovo e se dá conta de que não vai ter consigo a mulher e os filhos, fez-lhe confusão?
Sinceramente não. Claro que se me perguntar “Prefere viver com eles?”, é óbvio que é muito melhor. Noutro dia estava a reler uma revista em que me perguntaram do que é que eu sentia falta. “Do cheiro da minha mulher”, porque estava habituado a viver com eles e de repente vou para fora, sozinho. No Mónaco estive com ela e nasceu o Hugo, no Porto nasce o Diogo e de repente vou para a Rússia com um contrato de 5 anos. É óbvio que com o tempo, ia chegar uma altura que mesmo com aquele calendário tinha que encontrar maneira deles ficarem comigo.

Costinha com a mulher

Costinha com a mulher

Nuno Miguel Sousa

Gostou de Moscovo?
Gostei muito porque é misteriosa. A maior parte das pessoas diz logo que é por causa das mulheres. São bonitas, são lindas é verdade, mas em Moscovo, num prédio que por fora tem uma fachada que parece que está a cair, que é feia, entra-se lá dentro, e é lindo. Eles estiveram tanto tempo privados de tanta coisa, que gostam de fazer as coisas bonitas, com qualidade, com alguma ostentação. Adorei. No meu contrato queriam dar-me um carro e eu disse-lhes que não queria, queria um motorista, o carro era-me indiferente.

Porquê?
Seis vias sempre entupidas de trânsito, não estava com paciência para conduzir em Moscovo, ainda por cima eles a conduzir são doidos, por isso com um motorista era muito mais fácil. Quando precisava de ir a algum lado, ligava, ele ia-me buscar, não tinha que pagar gasolina, seguro, nada. Foi a melhor coisa que fiz. Conheci Moscovo que é muito grande e bonita. Mas é perigosa, muito perigosa.

Em que aspeto?
Eles são muito nacionalistas e à noite, no trajeto de um restaurante para o carro às vezes gera-se ali algum conflito. Nunca tive nenhum problema, mas houve jogadores africanos que tiveram problemas e bem à frente do meu hotel. Éramos um bocado inconscientes. “Vamos jantar ali ou acolá”, caríssimo, o luxo lá paga-se. Quando a minha mulher passou lá um periodo mais longo, na altura da Páscoa, estava neve e fomos a um centro comercial, a um talho onde costumava fazer compras. A rapariga que servia, era linda, uma top model, e a minha mulher: “Ah, é aqui que vens comprar a carne?!” (risos).

Costinha junto do seu Lamborghini amarelo

Costinha junto do seu Lamborghini amarelo

Direitos Reservados

Foi lá que comprou o Lamborghini?
Foi, decidi oferecer uma prenda a mim próprio.

Mas porquê amarelo?
Porque na altura gostei do amarelo. O Lamborghini já é um carro suficientemente chamativo para as pessoas não olharem para ele, seja amarelo ou preto, ou qualquer cor.

Era o carro dos seus sonhos?
Não o carro dos meus sonhos vou comprar quando fizer 50 anos. Um Aston Martin, carro já de cinquentão (risos).

Andou com o Lamborghini na Rússia?
Nem pensar. Na Rússia tinha o motorista. Comprei no Mónaco e trouxe para Portugal. Um carro que em média custa 220 mil euros, dei quase menos de metade, portanto é um negócio de ocasião, mesmo que pagasse a legalização nunca ia dar o preço normal, por isso comprei e andei com ele até me fartar, depois mudei a cor e tudo, achei que já não era aquela cor que gostava.

Mudou para que cor?
Para pérola. Vendi-o recentemente.

Aprendeu russo?
Claro. Para onde fui, aprendi a falar as línguas todas, porque o saber não ocupa espaço. E tirando os portugueses, as pessoas gostam que o estrangeiro quando vai para o país delas, fale a língua delas. Nós é que vem um inglês e falamos a língua deles. Mas esses povos não têm a mesma cultura, a mesma forma de receber como nós.

Quando estava mais sozinho o que é que fazia nos tempos livres? Jogava PlayStation?
Dormia. Não nunca fui muito de Playstation, jogos de futebol então nem vê-los porque os meus filhos deram-me uma abada uma vez que nunca mais. Futebol não jogo. Só jogos de estratégia, de snipers, F1 (risos). Dormia, via filmes. Estávamos a 20, 30 minutos de carro do centro de Moscovo, uma vez ou outra ia jantar com os meus colegas a Moscovo.

Costinha com o equipamento alternativo do FCP

Costinha com o equipamento alternativo do FCP

Nigel French - EMPICS

Como é que vai para o Atlético?
Apesar de gostar muito de estar na Rússia, achei que não estava a ser tratado da forma mais adequada.

Porquê?
Porque sou uma pessoa muito coletiva e houve uma série de medidas que o novo treinador tomou quando chegou, que não gostei. A primeira foi pôr os russos num balneário e os estrangeiros noutro, não gostei. Aquilo era um bocadinho a guerra porque o Jorge Mendes pôs lá muitos jogadores e depois entrou outro empresário português com outros jogadores e começaram a correr com quase todos os jogadores do Jorge Mendes.

Que outros portugueses lá estavam na altura?
Maniche, Jorge Ribeiro, Espírito Santo, Derlei, que não é português mas jogou no FCP, o Frechaut, Custódio, Jorge Silva, Danny. Muitos.

Passava muito tempo com eles?
Sim. Mas o que aconteceu foi que provocaram-me e eu também fui um bocadinho ingénuo, provocaram-me ao máximo para forçar um mau comportamento da minha parte, para poderem ter alguma base.

Provocaram como?
Por exemplo, o dono do clube muitas vezes quando tinha de tomar uma decisão vinha falar comigo. Isto não ficava bem. Têm um presidente, têm um treinador, não é um jogador a ter uma relação muito forte com o dono do clube que vai dar opinião. Acho que eles não gostavam dessa influência que eu tinha nele. Uma vez fui receber um prémio de jogo e dei o dinheiro do prémio aos jogadores jovens. Eram 5 jogadores jovens da equipa B que foram convocados. Ganhavam uns 100 euros e eu dei-lhe o meu prémio do jogo. Na altura em dólares. Eles ficaram todo contentes. Mas algumas pessoas não gostavam daquilo, não gostavam da minha proximidade. Mas eu não andava atrás do proprietário do clube, ele é que dizia: “Vamos aqui, vamos ali e agora isto, e agora aquilo”. Eu dava a minha opinião quando achava que tinha que dar, outras vezes, dizia: “Não tenho nada a ver com isso”. Depois havia outros pormenores.

Que pormenores?
No FCP quando chegava tinha tudo preparado. Ali eles despejavam a roupa para o chão e depois vinha um, tirava umas calças, outro umas cuecas, outro umas meias. Depois, quando perdíamos era sempre culpa dos estrangeiros, os jogadores da casa nunca tinham culpa. Estas pequeninas coisas foram começando…. Tinha um contrato de 5 anos, ganhava muito bem, se fosse interesseiro colava-me ali. Mas há coisas com as quais não consigo pactuar e separar os jogadores foi a gota de água.

Costinha já com a camisola 6 da seleção

Costinha já com a camisola 6 da seleção

Rui Duarte Silva

O que aconteceu?
Aqui em Portugal escreveram que eu não treinava porque tinha que ter as botas limpas. A única coisa que disse foi: eu ia ter um jogo e essa pessoa, o roupeiro em questão, tinha bastante protagonismo e não fazia as coisas dele. Viajava connosco, era o primeiro a entrar no autocarro, o primeiro a almoçar, ele era o primeiro a fazer tudo. Nunca tinha visto isto em clube nenhum. Os roupeiros normalmente fazem o trabalho deles e depois vão comer. É a função deles. Ali não, o primeiro a entrar no avião, o roupeiro, o primeiro a comer, o roupeiro e a roupa ficava ali. Eu disse que não estava correto e ele desapareceu com as minhas botas. Eu não tinha botas para treinar. O treinador queria que eu treinasse: “Como, se não tenho botas!”, Desapareceram as botas do estágio, em Israel. Ele mandou-me embora do estágio, falei com o presidente que me disse “para não arranjar confusão vai para Moscovo e ficas lá à espera da equipa”. Fui para Moscovo e fiquei lá sozinho, à espera que a equipa viesse. Duas ou três semanas depois, quando vieram, meteram-me a treinar à parte. Arranjaram maneira de eu não treinar com a equipa, só que se esqueceram de um detalhe, não me pagavam os salários. Eram tão amadores que nem se lembraram que ao fim de três meses posso rescindir. Bateu o terceiro mês e eu já tinha tudo nas malas. O Nuno Espírito Santo e o secretário levaram a bagagem ao aeroporto, a senhora quando viu a bagagem perguntou quantas pessoas iam viajar (risos). Tinha para umas 12 ou 13 malas (risos). Pus tudo lá dentro, o advogado mandou o fax e só ali é que eles abriram os olhos. “Onde é que está o Costinha?!”. “Já foi. Rescisão”. A justiça deu-me razão.

Mas nessa altura já tinha algum clube?
Não. Vim para Portugal e tinha o Mundial de 2006 para fazer. O Scolari faz-me uma proposta: “Vais jogar para o Vasco da Gama que é uma boa equipa para estares em competição”. Saio da Rússia, vou para o Brasil. Comecei a pensar: “O que o mister Scolari decidir está decidido porque ele não tem culpa que eu não esteja a jogar. Fui eu que escolhi ir, agora tenho que arcar com as consequências da minha escolha, ninguém me obrigou”. Depois comecei a treinar no Belenenses, do José Couceiro que já tinha sido meu treinador no FCP. O grupo de trabalho tinha entre outros o Rui Jorge, o Aurélio, o Romeu, uma equipa de trabalho espetacular que me recebeu muito bem. Treinava com o Belenenses de manhã e à tarde levava umas cargas do preparador físico do Scolari e foi assim que fui mantendo a minha forma e só antes de ir para o estágio do Mundial, é que o Jorge Mendes me chamou: “Vem ter comigo ao FCP que amanhã vamos viajar”. E não me disse para onde é que íamos. No dia seguinte chego ao aeroporto, Madrid. Na altura o Fernando Torres tinha dito ao presidente do Atlético de Madrid que era necessário jogadores como eu, com carisma e com experiência. Contrataram-me para o Atletico de Madrid. Tinha um bom contrato, não estou a falar em termos financeiros mas em termos de estabilidade. Cheguei lá e os capitães eram eleitos por votos, pelos jogadores. O primeiro foi o Torres e o segundo fui eu. Tinha 3 anos de contrato, a minha mulher deu-se super bem em Madrid e o meu filho na escola também fantástico.

Até que...
...Estava num belíssimo clube, as pessoas queriam que ficasse, eu é que forcei a minha saída para Itália. No princípio a minha mulher ficou muito triste, porque gostava de viver ali. Mas também acabou por gostar de viver em Itália. Do lado pessoal foi espetacular, do lado profissional não foi tão bom. Mas para mim, Madrid foi uma passagem bonita, muito bonita.

Costinha com a mulher e os dois filhos

Costinha com a mulher e os dois filhos

NUNO FOX

Pelo meio temos o Euro 2004 e ainda por cima cá.
Sim, foi uma prova que só faltou mesmo ganharmos. Infelizmente não conseguimos, mas o apoio que os portugueses nos deram… Nunca tinha visto o povo português interagir de forma tão intensa com a seleção como nesse Europeu.

Foi uma experiência totalmente diferente de 2000.
Sim, embora no Euro 2000 sentíssemos muito apoio. Ninguém sabe o que é ser emigrante e ter a equipa portuguesa a jogar lá fora. É dura a vida dos emigrantes fora do país. As pessoas olham para os portugueses, é mulheres a dias, trolhas, e não é. O português não é só isso. Lá fora, quando me diziam alguma coisa eu respondia “Tu nunca descobriste nada, nós descobrimos o mundo. Entregámos tudo, mas descobrimos o mundo, meu amigo. Um país deste tamanhinho. Vocês um país tão grande andaram sempre atrás de nós, a reboque”. Quando foi o Euro em Portugal foi bom deixar de ver as bandeiras dos clubes.

O que é que Scolari tem de especial?
Eu acho que ele uniu os portugueses em torno da seleção. No capítulo da motivação é muito forte. Lembro-me que jogámos contra a Rússia e ganhamos 7-1 em casa. Antes ele fez uma palestra que se eu visse um russo ali à minha frente, era capaz de lhe pregar um safanão. Eu já ia focado no jogo para ganhar à Rússia. Tínhamos empatado com o Lichtenstein, marcou-nos um golo um polícia e um carteiro (risos), uma vergonha, 2-2. E a gente saí dali e a forma como ele nos fazia sentir….

Como o Vítor Baia não foi assim tão pacifico.
O Vítor Baía nunca esteve na seleção com o Scolari, por isso não podia ser ou deixar de ser pacífico, porque nunca esteve.

Houve história...
...Não sei. Não faço a mínima ideia.

Costinha à conversa com Scolari

Costinha à conversa com Scolari

Jose Manuel Ribeiro

Voltando ao Atlético de Madrid. A melhor e a pior recordação?
A pior recordação foi quando estava no meio do treino e tive de interromper o treino porque a minha sogra tinha sofrido um AVC, do qual nunca mais recuperou. Acabou por falecer oito anos depois. Essa foi a pior. A melhor...Foram muitas. Eu sinto-me um homem afortunado porque nunca tive más experiências nos clubes onde estive. Tive sempre boas experiências.

Alguma amizade mais especial?
Com o Torres. Ele fazia um anúncio para a chupa-chups e deixava sempre um balde de chupa-chupas para os meus filhos. Mas tinha ali um grupinho que fazia jantares uma a duas vezes por semana, em casa uns dos outros. Eu o Torres, o Maxi Rodriguez, o Pernja, o Leo, o Maniche.

As vossas mulheres também iam a esses jantares?
Sim. Mas havia o jantar das esposas. Eu, o Maniche, o Fabiano Eller, o Zé Castro para picar as esposas a meio do jantar começava eu: "Ainda é cedo, ainda dá tempo para ir beber um copo". E tanto andava, tanto andava, que um dia fomos beber um copo. Um dia fazem elas isto. Hoje vamos nós. E nós pensávamos que elas não iam a lado nenhum. Não é que foram mesmo? Ficámos nós em casa.

Costinha, à esquerda, durante um jogo ao serviço do Dinamo de Moscovo

Costinha, à esquerda, durante um jogo ao serviço do Dinamo de Moscovo

Pressphotos

Itália. Porquê Atalanta?
Eu tive uma proposta do Besiktas e o presidente disse: "Nem pensar. Tu não sais do Atlético de Madrid, és um esteio muito importante no balneário, és um dos capitães de equipa, eu até olho para ti e vejo-te mais à frente numa posição na estrutura do Atlético de Madrid, não sais". O Atalanta liga-me, é um clube do norte de Itália, tranquilo. Eu queria jogar em Itália. Era o meu sonho. Pensei, tenho 32 anos, não vou para novo, se eles agora me querem em Itália e não há problemas com a idade, tenho que ir já. Em Itália há jogadores que começam a época num clube e chega a dezembro e mudam se calhar do Atalanta para a Juventus.

Ia então com essa fisgada.
Ia. Começar no Atalanta e se as coisas corressem bem, como eles gostam de vender atletas, podia chegar a um com uma projeção maior. Vou para lá, o ordenado era muito elevado e eles começam a dizer que não podia ser aquele salário. Eu baixei o salário para ir para lá, perdi dinheiro, não fiz a minha escolha em função financeira e baixei um pouco. O presidente acaba por ter um AVC, tive uma lesão na coxa que não foi bem tratada e uma lesão muscular num jogador de 32 anos não é a mesma coisa do que num jogador de 20 anos. Um jogador como eu com aquele salário a não jogar...Depois, não fui a contratação de um dos dois diretores desportivo que lá estava, portanto.

O que aconteceu depois?
Depois do presidente ter o AVC quem toma conta do clube é essa direção financeira, com o filho do presidente que tinha 20 anos, ou seja, é comandado pelos outros. Começaram a pôr-me à parte. Chegou uma altura em que o Mourinho vai para treinar o Inter de Milão e diz-me "Diz ao Atalanta que se quiser tu vens para o Inter e nós damos o Dacourt em troca porque não conto com ele". E o Atalanta disse que não.

Porquê?
Porque andavam a vender a ideia a toda a gente que eu estava aleijado, que era um mercenário, que só fui lá para ganhar dinheiro. Então estive 3 anos em Itália, onde só joguei um jogo, sempre a treinar à parte e eles todos os meses pagavam-me. É a coisa mais absurda. Os treinadores pediam para eu ser reintegrado, incluindo o Antonio Conte, que agora está no Chelsea, e eles não deixavam. Até que a irmã do presidente toma conta do clube, chama-me, pede-me desculpa por tudo aquilo que se passou e disse para eu escolher: ou ficava no clube até junho ou ia para o Sporting.

Mark Thompson

É nessa altura que assume a direção desportiva do Sporting?
Sim, mas eu nem sabia que ia para a direção desportiva. Tive um convite do presidente na altura, Bettencourt, para almoçar com ele, e foi assim de repente.

Já lá vamos ao Sporting. Esses três anos, em Itália, foram bons para a família?
Ao início foi duro porque o meu filho mais velho sai de um colégio espanhol, para uma escola italiana, o mais novo tem que entrar numa escola italiana, mas adaptaram-se muito bem. A minha mulher também, adorou. Fez lá algumas amigas. Bergamo é uma cidade espetacular, depois está perto de Milão, e qual é a mulher que não gosta de Milão? Até eu gosto! Íamos muitas vezes a Milão, estávamos muitas vezes juntos, acho que foi a altura em que estivemos mais tempo em família, como não tinha jogos. Adoramos. O negativo foi não jogar e o positivo foi toda a experiência profissional que pude adquirir noutras áreas em Itália. Porque Italia em termos de direção desportiva está muito avançada, a forma como dirigem, como fazem o Calcio mercato, como trabalham na televisão.

Fez cursos?
Não fiz cursos, mas observei muito, tirava notas.

Nessa altura não lhe passava pela cabeça ser treinador?
Nunca quis ser treinador.

Quando pensava no futuro o que desejava?
Direção desportiva. Treinador não porque dizia que não tinha paciência. O Mourinho respondia "Tu és maluco, tens de ser treinador, tens capacidade para ser treinador". Mas à vezes ia ver os treinos do Inter e dizia-lhe "Já viste o que é ter de aturar um Balotelli. Aparece-me um Balotteli pela frente e o que é que eu faço?". E ele "Agora parece que é difícil, mas quando fores treinador tu vais saber resolver esse problema". Deixou-me a pensar. Quando fui treinar o Beira-Mar fui naquela expectativa de "Eu vou, se não gostar, vou dizer às pessoas, já fui e não gosto, não me chateiem mais com o ser treinador".

Sai de Itália para ser diretor desportivo do Sporting...
...Era o meu último ano de contrato e eu tinha de decidir ou vou jogar à bola, tinha a possibilidade de ir jogar para o Japão e para os EUA.

Não foi porquê?
Não fui porque não consigo mentir nesta profissão. Eu já estava naquela fase em que ia para o treino e pensava "Fogo, tenho de treinar". E isso é a pior coisa que existe. Tinha que ser honesto comigo, se não já tenho disposição para ir treinar, não vou para outro sítio só para ganhar dinheiro porque estava a enganar-me a mim próprio. Tenho muito respeito por esta profissão.

Costinha, à esquerda, e Derlei com a Taça dos Campeões Europeus, conquistada pelo FCP

Costinha, à esquerda, e Derlei com a Taça dos Campeões Europeus, conquistada pelo FCP

Mike Egerton - EMPICS

Veio diretamente para o Sporting. O treinador Paulo Sérgio foi escolha sua?
Foi.

Está arrependido?
Não. Continuo a achar que naquela altura era o treinador que podíamos ter e acho que era um treinador com competência.

Do que é que mais se arrepende desse período no Sporting?
Ser demasiado frontal. Ninguém está preparado em Portugal para a frontalidade. É como se fosse uma afronta. Mas fico feliz porque aquilo que tinha em mente implementar no Sporting passados uns anos começaram a fazer essas coisas.

O quê em concreto? Dê um exemplo.
Achava por exemplo que o Sporting tinha demasiada gente a trabalhar lá... Mas são coisas que ficam para mim. O Sporting é uma grande instituição e uma das coisas que critico são as pessoas vão falar dos clubes só para aparecerem e eu não preciso de aparecer. O Sporting, o Benfica ou FCP têm pessoas que sabem melhor daquilo que se passa lá, eu estive lá e guardo aquilo que sei e que fiz.

Foi mais complicado do que estava à espera?
Foi porque houve pessoas que me deram apoio, mas houve muita gente que se calhar encontrou em mim uma espécie de afronta. As pessoas não querem mudar as coisas, é melhor estar como está. Acabou por ser uma aprendizagem para mim, não me arrependo.

Costinha tem em casa as replicas das Taças UEFA, Liga dos Campeões e Intercontinental, conquistadas pelo FCP

Costinha tem em casa as replicas das Taças UEFA, Liga dos Campeões e Intercontinental, conquistadas pelo FCP

NUNO FOX

Os jogadores hoje são mais mimados do que no seu tempo?
O mundo está assim. O mundo evoluiu para outros patamares. Vejo pelos meus filhos, que passam muito tempo a olhar para o telemóvel, eu no meu tempo não tinha telemóvel mas se tivesse provavelmente faria o mesmo. O mundo mudou e temos de saber adaptarmo-nos a esse mundo.

Mas acha que a capacidade de sacrifício é a mesmo?
Está mais facilitado. Mas eles não têm culpa, porque o mundo está feito assim. Eu não posso culpar as pessoas do facilitismo. O mundo avançou, hoje é tudo fácil em todas as áreas. Quando ouço na televisão perguntarem aos jovens o que querem ser e eles responderem: "Famoso". A mim dá-me arrepios. Famoso? Isso é alguma profissão? O que é que é ser famoso? Eu posso ter o reconhecimento de algo que fiz, famoso não sou. Mas eu entendo-os, porque nós ligamos a televisão e tudo o que se promove é a fama, aparecer, quanto mais likes aqui e acoli melhor.

A sua saída do Sporting dá-se com a entrada do José Couceiro para diretor geral.
A minha saída? Eu forcei a minha saída, muito sinceramente. Foram demasiadas coisas.

Começou a sentir-se em segundo plano?
Não é por ser segundo plano, porque os segundos planos são muito importantes e as equipas não podem ter só primeiros planos. Como treinador, o senhor que trata da relva para mim está no primeiro plano porque eu jogo na relva e tem que estar boa. Ele pode ter um cargo baixo e ninguém lhe dar valor, mas eu dou. Isso é muito relativo. O que comecei a ver foi que podia querer fazer alguma coisa que ninguém ia dar seguimento. Eu não estava no Sporting só para ter um cartãozinho a dizer "Diretor do Sporting". Não preciso.

Havia falta de exigência no Sporting?
Tudo o que acontecia de mau era culpa minha. Tudo. No Sporting não se pode trabalhar de calças de ganga, culpa do Costinha porque gosta de usar fato. Apareceu uma fotografia de um carro num lugar para deficientes, era o carro do Costinha, quando aquele carro nem sequer era meu. Era tudo culpa minha. Misturou-se tanta coisa, que não fazia sentido.

Cositnha foi diretor desportivo do Sporting de 2010 a 2011

Cositnha foi diretor desportivo do Sporting de 2010 a 2011

Jose Manuel Durao

Saiu com mágoa?
Saí e disse aos meus amigos mais próximos que hoje sei porque é que o Sporting ganha menos títulos do que os outros. Eles perguntaram-me o que é que se passou, e eu dei-lhes essa resposta.

E porquê?
Isso agora... quem lá está que resolva os seus problemas. As coisas têm consequências. As pessoas pensam que não, mas eu tenho filhos, tenho esposa. Os meus filhos vão à escola. Eu bem sei que quem está nisto tipo de cargos está sempre exposto a este tipo de coisas, mas uma coisa é eu ser exposto a uma verdade e se eu achar que tenho de dizer eu digo. Agora os meus filhos irem à escola e estarem a ser enxovalhados pelos colegas ou pelos pais dos colegas, porque há sempre aqueles que têm a mania que sabem tudo e mais alguma coisa do desporto e falam mal, cansa.

Eles queixaram-se?
Muitas vezes.

Surpreenderam-no os acontecimentos recentes do Sporting?
Não vou comentar. Não quero nem devo.

Ainda é sócio do Sporting?
Sou.

Vai votar nas eleições?
Provavelmente.

É possível o Costinha voltar ao Sporting?
Não sei o dia de amanhã. Neste momento estou bastante satisfeito com o projeto que tenho. Muito feliz, mesmo. Era difícil tirarem-me do projeto onde estou.

Costinha, à direita, com Cristiano Ronaldo num treino da seleção

Costinha, à direita, com Cristiano Ronaldo num treino da seleção

Lehtikuva Lehtikuva

Depois do Sporting vai para o Servette. Como surge?
Vou a convite do Nuno Patrão que era um empresário de Coimbra. Na altura o Servette subiu de divisão, era treinador o João Alves. Queriam dar uma vertente mais profissional de acompanhamento numa 1ª liga e eu tinha saído do Sporting. Não foi fácil. Mal cheguei a primeira coisa que o presidente me disse foi que ia despedir o treinador. Eu disse que não. O treinador subiu de divisão, não fazia sentido nenhum. O treinador manteve-se até determinada altura em que o presidente decide que ele tem de sair, numa época difícil, com salários em atraso. Depois o presidente entregou as chaves do clube porque já não queria pôr mais dinheiro no clube. Entrou uma comissão de junta para gerir o clube. Mas foi uma experiência boa porque vi o lado suíço a trabalhar, extremamente profissionais, cumpridores de horários, foi outra realidade. Ver os clubes da suíça alemã ou ver os clubes da suíça francesa ou italiano é ver a noite para o dia.

Como assim?
Na suíça alemã são todos organizados, muito direitinho, a suíça francesa e italiana mais balbúrdia. Por isso se vê quem ganha os títulos na Suíça. Raramente se vê uma equipa, como se via nos anos 80, como o Servette a ganhar.

Porque não fica mais tempo?
O presidente entregou as chaves veio outro, mudou a estratégia do clube e sai. Vim para Portugal.

Veio fazer o quê?
Venho para a televisão, para a RTP como comentador e para a Antena 1.

Gostou de ser comentador?
Gostei porque comentava aquilo que via, não o que ouvia. Se vou para a televisão falar, vou influenciar opiniões. As pessoas às vezes esquecem-se que formatam opiniões. Mas experiência mais positiva que tive e que não estava à espera de gostar tanto, foi na rádio. Fui convidado para fazer um jogo na rádio, para a Antena 1, adorei.

O que o fascinou?
Não sei, gostei de estar ali a ouvir o relato. Durante um tempo em que o meu pai ia à bola e eu estava em casa dos meus avós, ficava no carro com a minha mãe a ouvir o relato enquanto ele ia ver o jogo com o meu tio, por exemplo. A rádio sempre foi uma coisa que me fascinou e estou sempre a ouvir. Gosto de ouvir música, gosto de ouvir rádio, gosto das vozes das pessoas, quando vou na estrada. Mas agora estava aqui a pensar...Quando saio do Servette vou treinar o Beira-Mar, assim é que é.

Já tinha os cursos de treinador?
Não. Fiz os cursos depois de ter saído do Paços de Ferreira.

Costinha à direita, durante um jogo do Atlético de Madrid

Costinha à direita, durante um jogo do Atlético de Madrid

Bagu Blanco

Como vai parar ao Beira-Mar como treinador?
Através também do Nuno Patrão e do presidente do clube que era o iraniano que estava no Servette. “Tens que ser tu”. “Mas eu não quero, não quero”. “Tens que ir”.

Quando foi treinar o Beira Mar a sua família ficou a onde?
Em Lisboa. Às vezes vinha de Aveiro para jantar a casa, e ia para cima depois. Gostei da experiência apesar de termos descido de divisão.

O que é que não correu bem?
Não correu bem porque nos momentos certos não tivemos uma pontinha de sorte. Todos os meus jogos tiveram casos, o clube também não estava estável, depois o presidente também era um iraniano, não se percebia muito bem como é que aquilo funcionava. Mas hoje sou treinador porque o grupo reagiu bem, assimilou bem aquilo que eu pretendia. Não tive um grupo conflituoso. Também sou disciplinado. Gostei de ensinar.

É nessa altura que resolve tirar os cursos?
Os cursos não estavam abertos em Portugal. Acabo a época no Beira Mar e o presidente do Paços de Ferreira telefona-me. Tinha gostado da minha forma de jogar no Beira Mar-Paços de Ferreira, era um clube que apostava em treinadores desconhecidos e convida-me. Como é um clube que costuma dar condições aos treinadores, que saem dali com uma carreira sustentada, como o Rui Vitória ou o Paulo Sérgio, aceitei. Depois saio porque quando vejo o Sérgio Oliveira a discutir para me defender em vez de estar concentrado no jogo, penso “Calma, já não posso fazer aqui nada”. É aí que entro na televisão e na rádio com mais assiduidade e aproveito e vou fazer os cursos de treinador. Liguei ao John Collins e fui para a Escócia. Houve muitos treinadores portugueses que ganharam títulos e que foram tirar o curso lá. O Mourinho, o Villas Boas, o Nuno Espírito Santo, entre outros.

O que tem de especial o curso na Escócia?
Há muito trabalho de campo, muito pouco trabalho teórico. Há sempre alguém que vai falar no final do dia, o treinador da Escócia, o selecionador inglês, o treinador do Manchester, do Chelsea, vai um médico do Liverpool, etc. Já estou inscrito para tirar o 4º nível.

Costinha tornou-se treinador em 2012

Costinha tornou-se treinador em 2012

Gualter Fatia

Como surge a Académica?
Foi novamente o Nuno Patrão que me telefonou. Eu estava a fazer o Euro 2016 para a RTP. A Académica tinha descido de divisão e le diz-me “Acho que podia ser bom para relançares a tua carreira. A Académica é um grande clube, uma grande instituição, era bom vires para cá”. Eu já tinha o 3º nível, aceitei. Fui para Coimbra., Ficamos em 6º lugar, fizemos um ponto a menos do que a Académica fez este ano, fez 63 tinha feito 62. Nunca é fácil quando se desce de divisão, havia muitos problemas porque tinha saído uma direção e tinha entrado outra, mas conseguimos levar o barco até ao final. É óbvio que queríamos subir de divisão, mas o objetivo era aproximarmo-nos o máximo possível dos lugares da frente. As críticas que tive, são as críticas normais.

Qual foi a crítica que mais lhe custou a ouvir?
Achei uma muito engraçada quando estava no Paços de Ferreira. Até comecei a rir no banco. Quando vamos jogar com o Olhanense, de um lado está o Abel Xavier, que não tinha o curso de treinador, e do outro lado o Costinha, que não tinha curso. Os adeptos do Olhanense estavam atrás de mim a dizer: “Costinha és uma vergonha, nem curso de treinador tens”. E eu: “What?! Será que ele sabem que o Abel também não tem curso?!”. As pessoas já falavam porque era moda bater no Costinha. Agora na Madeira houve um médico que me disse: “Você tem um problema, é educado, não cospe para o chão, gosta de falar bem, gosta de se vestir bem… isso é um problema para a sociedade, tem que viver com isso”.

Por que não ficou na Académica?
Porque as pessoas entenderam que não devia ficar.

FRANCISCO LEONG

Surge logo o Nacional?
O meu desejo na altura era continuar na 2ª Liga, tive uma abordagem de um clube da 1.ª Liga.

Qual?
Não quero dizer. Queria ficar na 2ª Liga e queria ir para o Nacional. Eu tinha subido de divisão com o Nacional há 21 anos enquanto jogador. Sempre gostei do clube, o presidente é o mesmo. Estou em Coimbra a arrumar as minhas coisas, a despedir-me das pessoas, já tinha acabado a competição, não tinha nada definido, quando o diretor desportivo do Nacional me telefona. Conversamos, ele fez muitas perguntas, a forma como eu gostava de trabalhar, qual era o meu método de treino, que tática é que gostava de usar, montes de perguntas. Não me disse nem que ficava, nem que não ficava. Passados dois ou três dias “Mister quando é que vem à Madeira? Tem que vir para começarmos a planear a época”. E pronto, foi assim que iniciámos.

Voltou 21 anos atrás nas emoções.
Subi de divisão mas não fui campeão. Este ano consegui subir e ser campeão. Foi bom, mas lá está, o contexto do clube era bom. Mas isto é o futebol, agora é tudo muito bonito, mas não quer dizer que seja assim para o ano que já tem outro contexto. Temos que nos reinventar novamente. Temos que melhorar o presente, para termos um futuro.

Qual foi o segredo do seu sucesso?
A paixão que eu tenho pelo jogo, pelo treino…

Mas isso todos os treinadores têm…
E tenho que ter o conhecimento. Uma vez os meus jogadores vieram aqui a esta sala onde estamos, não para lhes exibir os meus troféus mas para lhes dizer que há 21 anos eu tinha a idade de muitos deles e tinha o sonho de ganhar aquelas três taças que estão ali e jogava no Nacional, na 2ª B, não jogava nem no Benfica, nem no Sporting, nem no FCP e consegui ganhá-las. Como é que consegui? Com muita dedicação, com muita paixão, com muita ambição. Costumo dizer, que as pessoas invejam aquilo que o Ronaldo tem, não o que o Ronaldo trabalhou para ter o que tem, que é muito diferente. Isso as pessoas não invejam. Ele está num patamar em que já não precisa de fazer mais, mas ele quer ser melhor ali e melhor acolá, ele quer mais. É dessa dedicação que falo ao meus jogadores.

NICOLAS ASFOURI

Disse numa entrevista que era uma bofetada de luva branca. A quem?
Não da minha parte, a bofetada de luva branca foi no sentido de que ninguém acreditava que o Nacional ia subir de divisão.

O que é que quis dizer quando disse que não olharam se era amigo do Jorge Mendes?
Contrataram-me pela minha competência, mas eu gosto de ser amigo do Jorge Mendes, as pessoas não confundam as coisas. Ele é meu padrinho de casamento, é uma pessoa que adoro e a quem estarei grato até ao final da minha vida. Agora muitas pessoas disseram “Só entrou naquele clube porque é do Jorge Mendes”, como se a maior parte das pessoas não quisesse que o Jorge Mendes as ajudasse. Entrei porque o presidente me ligou. Se o Jorge me ajudar, ótimo, fico feliz da vida, ele só ajuda os melhores por isso é sinal que me considera o melhor.

Vamos falar das coisas que gosta, nomeadamente de música. Há 8 anos disse que tinha para cima de 5 mil cd’s. Já aumentou esse espólio?
Já. E tenho tudo separado (abre várias estantes no escritório de casa) hard rock, pop rock masculino, pop rock feminino… Adoro música. E gosto de ler, sobretudo coisas épicas, sobre Roma, os centuriões e as guerras dos romanos.

De onde vem essa paixão?
Adoro história e sempre que estou em casa sou eu que dou as explicações de história aos filhos. Sempre gostei da parte sobre Roma, os persas, os gregos, dos trácios, dos hunos, gosto muito dessa parte da história.

Com o equipamento do Atlético de Madrid

Com o equipamento do Atlético de Madrid

Adam Davy - EMPICS

Alguma vez sentiu curiosidade de ir às raízes paternas? Já foi a Angola?
Não, nunca fui. E a minha mulher também é angolana, mas nunca fui. Não tive ainda a possibilidade, mas quero ir. Gostava de ir à terra onde o meu pai nasceu.

Os seus pais ainda são vivos.
São. E vivem no mesmo sítio, nunca quiseram sair dali. Depois de tantos anos, já é a casa deles, já é o seu habitat. A minha mãe queixa-se, porque sou avesso a telefones. Quando telefono e ela atende com um “Tou”, já sei que ela está zangada porque já não ligo há um mês (risos). Qualquer dia as camas são telefones, as pessoas não vivem sem o telefone. Às vezes vou ao restaurante e faz-me uma confusão, estão as 4 pessoas no telefone em vez de falarem umas com as outras. Em minha casa chega-se à mesa e não há telefone, vamos a um restaurante, não há telefone. Só depois do jantar.

Que idade têm os seus filhos agora?
O mais velho tem 18, vai fazer 19. Está a estudar. Queria ser jogador de futebol mas já percebeu que entre querer ser e ser vai uma distância grande. E depois filhos de jogadores têm sempre aquele estigma, as pessoas olham para eles e lá vêm com aquela piada estúpida “Ah não és nada parecido com o teu pai. Será que vais ser melhor que o teu pai?”.

Ele joga em algum clube?
Estava a jogar no Olivais Encarnação. Neste momento está na escola do desporto aqui, na Portela, diz que vai ficar no desporto, mas noutras áreas. O mais novo também joga à bola e se calhar, não digo que seja mais dedicado, mas na cabeça dele ser jogador de futebol já é diferente. Não sei se vai ser, tem 13 anos. Quero é que sejam felizes.

Jose Manuel Ribeiro

Gosta de cozinhar. Tem alguma especialidade?
Toda a gente diz que faço uma massa de caranguejo muito boa. Quando estava na Rússia, aqueles “tempos de exílio” de não poder jogar, de não poder treinar, cozinhar era um dos meus refúgios. Cozinhava para mim. A minha mulher dizia “Gabo-te a paciência”. Mas não gosto de cozinhar por sistema. Gosto de receber. Gosto de convívio, gosto de brincar, de estar na galhofa.

Também sei que é apreciador de um bom vinho e que tem uma boa garrafeira.
Sim, tenho umas 800 garrafas.

Tem alguma preferência?
Não, gosto de um bom vinho. Quem me ensinou a beber vinho, disse-me que um bom vinho é aquele que te sabe bem.

Quem é que o ensinou?
António Nora, um senhor do Porto. Uma vez ia jantar a casa do Domingos Paciência e não queria fazer má figura e fui comprar um vinho. Não percebia de vinhos e quis levar um Esporão, passo aqui a publicidade, e ele disse-me assim: “Isso é para quê, Costinha?”. “Vou a casa de um amigo jantar, não sei o que é que hei-de levar”. “Então vais levar este vinho que está aqui e se não gostares, eu ofereço-te uma caixa”. A diferença era tipo de 10 para 40 euros, não era este o preço mas era mais ou menos assim. O que é certo é que eu fui lá comprar 3 caixas para mim (risos).

Não foi enganado.
Não. Aquilo que me seduziu nele foi ele nunca tentar impingir-me as coisas caras. Acabei por comprar coisas caras porque depois de conhecer, quis comprá-las, agora ele nunca me impingiu.

Cositnha, em casa, mostra o quadro que os colegas do FCP lhe ofereceram, com as suas assinaturas, antes de ele ir para a Rússia

Cositnha, em casa, mostra o quadro que os colegas do FCP lhe ofereceram, com as suas assinaturas, antes de ele ir para a Rússia

NUNO FOX

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Rússia.

Onde é que investiu o dinheiro? Em imobiliário ou teve negócios?
Em imobiliário. Nunca tive negócios, a minha área é o futebol. Estive para abrir uma casa de vinhos, mas não abri. A minha mulher perguntou: “Tu gostas de vinhos ou gostas de beber vinhos?”. “Gosto de beber vinhos”. “Então, bebe vinhos”.

Treinador que mais o marcou pela positiva e o que mais o marcou pela negativa?
Pela positiva José Mourinho.

E a pior experiência?
Não tive. Joguei com todos os treinadores e com os que não joguei, os três de Itália, não foi porque eles não quisessem, foi porque a direção não quis.

Qual é a sua maior frustração na carreira?
Não sei se é uma frustração, não ter sido campeão da Europa de seleções.

Lembra-se assim de alguma situação caricata que tenha vivido no futebol, uma coisa assim completamente de gargalhada que não lembra o diabo?
Já me aconteceu por exemplo ser confundido com o Bosingwa (risos). Estava uma pessoa a olhar para mim e a chamar “Bosingwa, Bosingwa”. Eu nada. Quando viro a cara para o lado e começo a falar, essa pessoa vira-se : “Vocês jogadores da bola são mesmo antipáticos, se não queres falar, não fales pá” (risos). E eu: “Eu não sou o Bosingwa!”. Lá lhe foram dizer que eu não era mesmo o Bosingwa e o senhor ficou todo atrapalhado.

Alguma vez viveu alguma situação em que sentisse medo?
Não vou dizer medo, mas em Bergamo na altura em que algumas pessoas da direção nos puseram contra os adeptos, os adeptos deslocaram-se em massa para os treinos. Para ir para o campo tinha que atravessar alguns desses adeptos. Fui insultado o treino todo e os meus colegas a quererem responder e eu: “Meu amigo o que é que nós estamos aqui a fazer? A treinar. Deixa-os falar. Eu não estou afetado, não vais agora tu discutir com ele e criar um problema para ti”. O líder da claque, apreciou a minha forma de continuar a trabalhar e puxar os meus colegas para o lado. Acabou o treino, e ele deu duas chapadonas nessa pessoa que estava a gritar. Fui embora, mas quando passei pelo meio deles ainda pensei: “Agora pode ser que algum atrevido...”, mas não.

E perder a cabeça, aconteceu?
Não vou dizer que nunca perdi a cabeça, seguramente já. Ainda hoje de manhã fui jogar à bola com ex-colegas de profissão, estava com um deles, o Simão Sabrosa, e estava a dizer: “Fogo Simãozinho aquelas chapadas que eu te dei, num Benfica-FCP, foram desnecessárias. Nem sequer me revejo naquilo”. ...”. Mas ele: “Estavas de cabeça quente, o Jorge tinha sido expulso. Costa, isso faz parte do futebol”.

Nunca fez uma falta e ao mesmo tempo pensou: “Isto vai correr mal, vou magoá-lo”?
Isso não. Nunca fiz uma entrada a um jogador para aleijar porque o meu adversário precisa do futebol como eu. É o ganha-pão dele, portanto entrar para aleijar declaradamente, jamais. Tenho um respeito máximo. Aliás sou católico e às vezes nas minhas orações peço sempre que não haja lesões. A lesão é a maior inimiga do atleta, estar lesionado é horrível.

Esse lado católico teve a ver com o colégio?
Tem a ver com a educação recebida dos meus pais, cristãos, de ir à missa. Às vezes gosto de entrar numa igreja e de me sentar, estar no meu espaço, a falar com Deus.

É supersticioso?
Não. Não sou muito agarrado a coisas da sorte.