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Chaves, o campo de todos os sonhos do sírio Anas Alaji

Sem saber inglês ou português, Anas não hesitou em deixar a família para correr atrás de um futuro. Conheça a história do jogador sírio do Chaves

Isabel Paulo

Anas Alaji, da Síria para Chaves

LUCILIA MONTEIRO

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Anas Alaji ainda andava de calções quando o desconhecido Portugal entrou no seu mapa-múndi. Era verão, decorria o Euro-2004, e a equipa de Deco, Figo, Cristiano Ronaldo e companhia enchia o ecrã em casa da numerosa família, em Damasco. Anas, o filho mais novo, dava os primeiros pontapés na bola no clube da capital da Síria Al--Hadha, onde jogavam os dois irmãos mais velhos. Tinha 6 anos e nunca mais deixou de torcer pela seleção lusa, colecionando cromos de Quaresma, Nuno Gomes, CR7, Nani, Postiga, conta ele no seu português arrevesado.

Descobriu o FC Porto, o Benfica do seu ídolo maior, o argentino Di María, a quem cobiça a velocidade e outros talentos que o seu vocabulário curto de autodidata, apanhado de ouvido e empinado no Google Translate, não o habilitam a descrever. Em Chaves, numa manhã com temperaturas abaixo de zero, contempla o estádio onde não perde um jogo da equipa principal que desfeiteou o Sporting - sorri, repetindo "muito bom" - e recorda a sua ideia fixa de sempre: ser um dia jogador profissional de futebol, algures na Europa. Se o campo de sonhos tivesse lugar na pátria dos seus super-heróis, tanto melhor.

Num daqueles golpes de sorte em que o destino é fértil, aos 17 anos, o sírio Anas cruzou-se com o ex-jogador e agente de jogadores André Portulez, durante o Campeonato do Mundo de Sub-17 de 2015, no Chile. A seleção síria não passou da fase de grupos, mas o franzino Anas deu nas vistas ao marcar o único golo da sua equipa contra o Paraguai. Portulez, antigo jogador da Naval e da Académica, admirou-lhe a "determinação, a velocidade, a fome de bola e a vontade de arriscar". Numa busca rápida, convenceu o então administrador do Desportivo das Aves, Roman Leobovets, a trazer o primeiro futebolista sírio para Portugal, que assinou contrato como profissional, em janeiro último, com o clube da II Liga, onde jogou nos juniores e fez dois ou três jogos pelos 'grandes'. "Com o país em guerra sem fim, quis ajudar, dar--lhe esperança, um futuro", diz André Portulez, sem quebrar a confidencialidade dos custos da transferência.

Um ano à espera do dia D

A cruzada para fazer chegar a Portugal o rapaz, na altura ainda menor, acabou por ser mais simples do que o previsto. Informaram Portulez que podia arranjar-lhe visto através da embaixada grega em Damasco. "Estava fechada por causa da guerra." Tentou depois a do Chipre, onde ficou a saber que os sírios não precisavam, na altura, de visto para entrar na Turquia.

Anas emigrou então para Istambul e treinou no Besiktas ao lado de Quaresma, tendo sido pressionado pela família a ficar lá. Mas nada o demoveu de seguir a quimera original. "Queria mesmo era chegar a Portugal", lembra.

Uns dias depois de completar 18 anos, a 7 de janeiro de 2016, Anas conseguiu o visto de turista na embaixada de Portugal em Ancara, que lhe tem sido prolongado provisoriamente.

Ontem, sexta-feira, 27 de janeiro, era para ser o dia D para este persistente sírio que, sem falar uma palavra de inglês ou português, não hesitou em deixar o país natal e a família para correr atrás do seu sonho de menino: finalmente, após um ano de incerteza, viajaria para Vila Real para ir a uma definitiva reunião com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras que lhe permitiria ficar na posse de um visto de residência permanente. Na véspera, por questões burocráticas, a diligência derrapou outra semana.

André Portulez lamenta a demora, uma vez que Anas Alaji tem contrato de trabalho e sobretudo porque o jogador, emprestado pelo Aves ao Desportivo de Chaves, já falhou uma convocatória, em novembro, para jogar pela seleção principal do seu país. "É um ativo que podia valorizar-se mais e projetar-se internacionalmente", refere Portulez. Ao extremo, que também joga a nº 10 na equipa que se encontra a disputar o playoff de permanência no Campeonato Nacional de Juniores, custou-lhe recusar o chamamento da seleção natal, mas receou que lhe fosse barrado o retorno ao país onde sempre sonhou jogar.

LUCILIA MONTEIRO

Poupar para reunir a família

Na conversa com o Expresso, Anas colocou uma única condição: não falaria da Síria nem da guerra, que afiança não ter vivido em Damasco. Porquê? "Família na Síria", diz sem mais. Após um silêncio, revela que passou por alguns problemas, como falta de água e de luz, mas que a família, com quem fala amiúde por WhatsApp, está bem.

"Alepo, pior." Novo silêncio. Um dos irmãos é um dos muitos refugiados a viver na Alemanha, os outros - um irmão e duas irmãs - estão em Damasco.

A mãe é doméstica e o pai proprietário de uma loja de roupa masculina - e aponta para o casaco de Carlos Guerra, o seu treinador nos juniores do clube flaviense, que após meia época de convívio diário lhe descodifica as mensagens equívocas. "Já treinei muitos estrangeiros e nenhum aprendeu tão rápido o português. Ele toma nota das palavras num caderninho e decora-as", refere o técnico, que gaba a vontade e o desembaraço de Anas. "Quando nos treinos lhe digo para fazer uma coisa, diz sempre que sim, mesmo que não tenha percebido nada. Fora de campo é o mesmo", conta Carlos Guerra, que não lhe regateia o talento, "em potência", e diz que "ainda tem muito para aprender".

"Mas parece-me que chegará lá. Trabalha e é inteligente em campo." Na Vila das Aves, Anas partilhou casa com outros estrangeiros; em Chaves, reside na academia do clube, com uma dúzia de miúdos, junto ao Estádio Municipal, palco da equipa surpresa da época, regressada à I Divisão após 17 anos de aflições nos escalões secundários.

O jogador não quis mostrar o quarto, nem houve autorização para visitar a residência em desalinho, que só é arrumada à tarde com a ajuda de uma funcionária, após o regresso das aulas, obrigatórias para os atletas menores.

Durante o dia - os treinos são ao fim da tarde ou à noite -, Anas vive agarrado ao computador, aos jogos e a filmes de comédia ou aventura, sobretudo de Jackie Chan. Guloso, não resiste à pastelaria nacional, gosta de bacalhau, de massas, de tudo, "menos porco". Muçulmano praticante, não falha as cinco orações diárias, a primeira às 4h30 da manhã, recolhimento respeitado pelos colegas. Afirma que nunca se sentiu olhado com preconceito em Portugal. "Gente boa comigo." Namorada ainda não tem, nem em Damasco. "Só amigas. Agora mais fácil, que já falo", adianta, tímido, não ao ponto de não reparar que "as meninas portuguesas são bonitas".

Carlos Guerra incentiva-o a sair, a ir à discoteca com os colegas, depois dos jogos. "É muito caseiro, vai dos treinos para a Academia", onde almoça e janta.

"Às vezes, ia ao restaurante com o Hamdou [internacional líbio emprestado pelo Benfica], mas ele lesionou-se e agora está em Lisboa", justifica. O que quer fazer a seguir? Atuar no plantel principal do Chaves, quem sabe um dia jogar no Benfica ou no Porto, e ganhar dinheiro para trazer "a família toda para Portugal". "Quando possível...

É difícil", mas acredita. Afinal, a vida já lhe ensinou que nem todos os sonhos são impossíveis.

Reportagem publicada na edição de 28 de janeiro de 2017 do Expresso

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