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Concussões repetidas podem tornar alguém assassino? O caso de Aaron Hernandez

As lesões no cérebro do falecido ex-jogador da NFL são as mais graves jamais observadas numa pessoa com a sua idade

Luís M. Faria

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O problema do risco que as pancadas na cabeça têm para os atletas, particularmente em desportos como o boxe e o futebol americano, é discutido há muito tempo. Sabe-se que as concussões repetidas podem conduzir a uma série de doenças neurológicas, e existe mesmo uma condição chamada dementia pugilistica. Mas não é vulgar conseguir obter evidência clara, física, de uma relação entre a prática desses desportos e determinados efeitos no cérebro.
Os motivos não custam a entender. Por um lado, esses efeitos tendem a só se manifestar ao fim de bastante tempo, eventualmente décadas. Por outro, podem não ser verificáveis antes de o cérebro ser retirado, seccionado e examinado, ou seja, antes da morte da pessoa. E obviamente, a morte de jovens é uma relativa raridade.
No caso do futebol americano, o exame de cérebros de atletas que morrem jovens tem demonstrado uma incidência elevada de encefalopatia traumática crónica (ETC), uma doença neurodegenerativa associada a suicídios e outros comportamentos destrutivos – com frequência, violentos – bem como a sintomas como perdas de memória, tonturas e dores de cabeça. A causa exata ainda está por determinar, mas pensa-se que esteja relacionada, pelo menos em parte, com a acumulação anormal de uma proteína que se espalha e mata células no cérebro.
"O caso mais severo em alguém com a sua idade”
Um exemplo chocante surgiu há dias, com a divulgação pública do exame feito há meses ao cérebro de Aaron Hernandez, um ex-jogador de futebol americano de 27 anos que se suicidou em abril na prisão do Massachusetts onde cumpria uma pena de prisão perpétua por homicídio. A família dele, que processou a National Football League por não o ter protegido apesar de saber os riscos que ele corria (o processo é interposto em nome da filha de Hernandez, agora com 4 anos), disponibilizou o cérebro a médicos do Centro de ETC na universidade de Boston para ser analisado.
Os resultados não oferecem dúvidas. Ann McKee, neuropatologista e chefe do Centro de ETC, explicou que o cérebro de Hernandez tinha “atrofia prematura do cérebro” e “grandes perfurações” numa membrana central, o septum pellucidum. Além disso, nos lobos frontais havia concentrações de tau em torno de pequenos vasos sanguíneos. “É o caso mais severo que jamais se viu em alguém com a idade de Aaron”, disse um advogado da família. Médicos confirmaram que nunca tinham visto danos tão extensos em pessoas com menos de 46 anos.
O advogado acrescentou que, em retrospetiva, a família já tinha assistido a comportamentos de Hernandez que podiam indicar a existência de ETC, “mas não se sabe”. Esse é aliás a questão que os tribunais também têm de enfrentar cada vez mais hoje em dia. Em que medida é que determinados comportamentos agressivos, ou mesmo assassinos, podem ser atribuídos a uma doença neurológica, quando a gigantesca maioria das pessoas que sofrem dela nunca cometem atos semelhantes? E não será a agressividade prexistente da pessoa que (entre outras coisas) faz dela à partida um atleta bem sucedido em certos desportos?
Uma longa história de violência
Todos esses fatores confluem na história de Aaron Hernandez, um atleta cuja ascensão foi tão rápida como a sua queda. De origem modesta, nasceu em 1989 no Connecticut, de pais com origem porto-riquenha e italiana. Um evento decisivo na sua vida parece ter sido a morte do pai, quando ele tinha 16 anos. Aaron passou por uma série de empregos manuais até o seu grande talento ser finalmente reconhecido, com os benefícios adjacentes. Acabaria por jogar três temporadas com os New England Patriots, onde se destacou, entre 2010 e 2013. O seu último contrato andava pelos 20 milhões de dólares, e a casa que comprou em 2012 tinha 660 metros quadrados.
Mas o fantasma da violência nunca o deixou. Já em 2007 o seu comportamento violento num bar (recusou pagar duas bebidas e agrediu o empregado, rompendo-lhe o tímpano) podia tê-lo levado à cadeia. Nesse mesmo ano, disparos feitos sobre um carro por alguém parecido com ele terão sido indicação de algo muito mais perigoso. Aí só houve feridos. Mas em 2012, dois caboverdianos foram mortos a tiro dentro de um carro após uma discussão com Hernandez, também num bar.
Por esse crime, ele só seria julgado este ano. Mas em 2013 outra pessoa foi morta: Odin Lloyd, um amigo de Hernandez que saberia do seu papel nos crimes de 2013. Duas semanas após este assassinato, Hernandez foi preso e a sua carreira terminou. A sua equipa despediu-o instantaneamente, e os patrocinadores abandonaram-no. Havia outras histórias de violência, as provas eram abundantes, e ele foi condenado a prisão perpétua em 2015. Entretanto, já este ano, o seu julgamento pelos crimes de 2012 realizou-se finalmente, terminando em absolvição.
Cinco dias depois, quando aparentemente nada o fazia prever, Hernandez enforcou-se na cadeia. Ao que parece, deixou mensagens para os seus próximos. Nem ele nem mais ninguém sabia em que estado se encontrava o seu cérebro, e em que medida isso poderá ter contribuído para as tragédias a que o nome de um dos maiores talentos da NFL ficará para sempre ligado.