Tribuna Expresso

Perfil

Atualidade

Academia do Sporting foi avisada 14 minutos antes da invasão

Responsável de segurança da Academia revela que recebeu um telefonema às 16h55 do oficial de ligação do Sporting com os adeptos. Grupo de 50 elementos da Juve Leo entrou na Academia às 17h09

Hugo Franco, Pedro Candeias e Rui Gustavo

A Academia do Sporting, em Alcochete, foi invadida por 50 adeptos no dia 15 de maio de 2018

Mário Cruz/Lusa

Partilhar

Ricardo Gonçalves, diretor de operações da Academia de Alcochete, revelou à GNR do Montijo que recebeu um telefonema às 16h55 de Bruno Jacinto, oficial de ligação do Sporting com os adeptos. Nessa chamada, Bruno Jacinto revelou que elementos da Juventude Leonina iam a caminho do centro de estágio "para falar com a equipa".

Pouco tempo depois, Ricardo Gonçalves contactou o comandante do posto da GNR de Alcochete para o avisar da invasão. De acordo com os dados oficiais da GNR, os militares foram alertados às 17h06, chegando à Academia às 17h20. De acordo com os autos a que o Expresso teve acesso, os jogadores e o staff do Sporting foram surpreendidos com a entrada na Academia do grupo de encapuzados.

Mas voltemos um pouco atrás e a Ricardo Gonçalves. De acordo com o seu depoimento, este alto funcionário da Academia reconheceu alguns dos membros da claque (nomeadamente Alan, Valter, 'Bocas' e o 'Ucraniano'), que entraram 14 minutos após o telefonema de Bruno Jacinto: mais concretamente às 17h09. "Disseram para a testemunha sair da frente e a testemunha seguiu o grupo a tentar demovê-los da sua intenção."

O portão da entrada principal encontrava-se aberto às 17h09. Rui Falcão, o porteiro da entrada principal, não terá sido avisado por Ricardo Gonçalves. No relato dado à GNR, o porteiro garante ter sido alertado por funcionários de recolha do lixo que se encontravam no local que tinham visto "um grupo elevado de indivíduos de roupas escuras e alusivas ao Sporting" a deslocarem-se para a Academia.

Naquele local encontravam-se ainda jornalistas, que fugiram dos invasores. Rui Falcão garantiu que nada podia fazer para controlar a situação, uma vez que o grupo encontrava-se em "grande superioridade numérica" e deslocava-se em passo de corrida "com aspeto ameaçador e intimidatório", ordenando-lhe que ficasse sossegado.

O porteiro refugiou-se na cabina, sem nada poder fazer. Contactou ainda Ricardo Gonçalves a informá-lo da invasão mas este encontrava-se noutro local da Academia, juntamente com a equipa.

Jogadores e equipa técnica no balneário foram agredidos com murros, pontapés e cintos, ficando alguns deles feridos, como foi o caso de Bas Dost, Acuña, Battaglia, William Carvalho, Misic, Montero, mas também Jorge Jesus ou Mário Pinto. A GNR deteve 23 suspeitos, que ficaram em prisão preventiva. Mas uma parte do grupo continua a monte.

Os 23 detidos estão indiciados por crimes como sequestro, ameaça agravada, ofensa à integridade física agravada, incêndio florestal ou terrorismo.

O advogado de um dos detidos, Pedro Madureira, diz lamentar que algumas figuras públicas "se tenham apressado a vir publicamente classificar aquilo que sucedeu como um ato terrorista, pois será obrigação dessas pessoas saber que assim o não é, e essa classificação tornada pública pela comunicação social causou um alarme social que noutros casos que anteriormente sucederam assim não aconteceu". E acrescenta: "A opinião pública pode pensar que foram presos os culpados, mas com muita probabilidade assim o não será".

Ainda segundo Pedro Madureira, que rejeita a tese do MP do crime de terrorismo, a nenhum dos 23 arguidos foi imputado qualquer ato em concreto de onde resulte que qualquer um deles tenha sido responsável pelas agressões. "Resulta dos autos, como aliás é público, que a estes foram feitas imputações genéricas e que muitas outras pessoas (algumas identificadas e outras não) estiveram também presentes dentro da Academia, não se podendo com evidência dizer ter sido qualquer um destes a fazer as agressões ou qualquer um dos outros que não estão constituídos arguidos".