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Turim a preto e branco: da incerteza à nostalgia que está por vir

Os últimos dias em Turim foram diferentes. A chegada de Cristiano Ronaldo estava iminente, mas teimava em manter-se no campo dos rumores, por isso os tiffosi da Juve iam sossegando o entusiasmo. A espera acabou: Ronaldo vai mesmo jogar de preto e branco

Hugo Tavares da Silva

ISABELLA BONOTTO

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Fabio era o juventino mais agitado. Talvez o único em quem tropeçámos naqueles dias em Turim, na semana passada. O rececionista mole e com ar carrancudo do hotel onde a Tribuna Expresso ficou só ganhava vida quando Ronaldo ameaçava aterrar na primeira capital italiana. “É hoje!?”, ia perguntando. Sempre.

Cristiano Ronaldo foi anunciado esta terça-feira como reforço da Juventus. Quase dá para ouvir a voz de Fabio a ecoar naquele hall a celebrar a chegada do capitão da seleção portuguesa, esquecendo as suas hesitações iniciais: “Bom, já tem 33 anos… Faz mais um, dois anos a bom nível, não? É por isso que as pessoas estão divididas”.

A equipa que perdeu cinco finais da Liga dos Campeões desde 1996 contratou o rapaz que venceu essa prova cinco vezes, tantas quanto Alfredo di Stéfano, a lenda maior do Real. Os dois monstros ficam apenas atrás de Francisco Gento (6). Cristiano ganhou cinco bolas de ouro, quatro delas em Madrid. É o quarto bola de ouro a atuar na Serie A no século XXI, depois de Nedved (2003), Shevchenko (2004) e Kaká (2007).

Assim que foi anunciada a contratação de Cristiano, enviámos uma mensagem a Mauro, o filho do dono de um restaurante que visitámos e aonde os jogadores e treinadores da vecchia signora iam nos anos 90.

- Ronaldo confermato.
- (emoji com polegar para cima)
- Felice, no?
- Molto.

Mauro ama futebol, é encantado por Diego Maradona, que também pisou o chão daquele restaurante vizinho do Rio Pó. Viu a Itália ser campeã do mundo em 1982 quando tinha 11 anos e, graças à restauração, ficou amigo de um dos grandes nomes da história. Zidane ia ali quase todos dias. Zizou jogou na Juve durante cinco anos e depois saltou para o Real Madrid. Cristiano faz o sentido inverso: depois de nove anos na capital espanhola, muda-se para Itália.

A desconfiança pautou os dias prévios ao anúncio que anuncia muito mais do que uma transferência brutal. Cristiano sai como um dos grandes nomes da história do Real Madrid, tido como o maior clube de sempre. Cristiano deixa uma vaga e uma cratera enormes atrás dele. Florentino Peréz vai perder a cabeça, isso sabemos de cor e salteado. Neymar? Kylian Mbappé? Eden Hazard? É uma questão de tempo. E depois vem o tradicional efeito dominó.

Depois de elogiar de cima abaixo a personalidade de Zidane, Mauro perguntou tudo e mais alguma coisa sobre Cristiano. Se se cuidava, o que comia, se ia para festas. Mais importante: “Será que vem mesmo?”. Era este o clima por todo o lado. Era mais ou menos como aquele rapaz que queria muito convidar uma menina para o baile de finalistas e não tinha coragem de perguntar com medo de ouvir um não. Os adeptos da Juventus, campeões há sete anos consecutivos, davam ares de não quererem colocar-se a jeito de uma desilusão.

"Não há dinheiro para os trabalhadores da Fiat, mas para Ronaldo já há"

Quando esbarrámos em taxistas do Torino, o clube rival da cidade, o humor era completamente diferente. Havia sorrisos descontraídos e um respeito enorme. Mas também houve um caso em que a indignação ganhou ao desporto: “Não há dinheiro para os trabalhadores da Fiat, mas para Ronaldo já há”. A família Agnelli, proprietária da Juve, é também dona daquela marca de automóveis, que na teoria estaria por trás da transferência, fechada por €120 milhões.

No estádio parecia sempre tudo calmo. No centro da cidade, idem. Uma vez ou outra lá se ouvia a palavra Ronaldo. Sergio, um taxista com uma figura colossal e olhos azuis, ganhou esperança quando soube que um jornalista português andava por ali a cobrir a história. Afinal, legitimava o sonho. “Na rádio dizem que o Ronaldo já cá está!”, contava. Mas não estava. O português estava na Grécia, onde está a passar alguns dias de férias, a descansar os ossos e a preparar a mente de aço e os músculos para a Serie A.

Com o passar do tempo, o peso de Cristiano na imprensa parecia ir diminuindo. Seria uma crush de verão? Seria um braço-de-ferro ou uma luta interna no Real que nos escapava? Mas o United e o PSG meteram-se ao barulho… Era uma incógnita. Os diretos das televisões multiplicavam-se e tinham tão pouco para dizer de novo.

Moreno Torricelli, um dos históricos da Juve que venceu a final de 1996, em Roma, disse à Tribuna Expresso que Ronaldo terá de se adaptar ao novo campeonato, por ser mais defensivo. Este homem que diz ter sido “um espetáculo” jogar com Del Piero, Roberto Baggio, Zidane e Vialli garante que Ronaldo só tem de ser Ronaldo. “Não tem de imitar ninguém. Tem de fazer simplesmente o que faz todos os anos.”

Esta terça-feira, as más energias, os rumores mais ou menos robustos, as desconfianças e as notícias que se contrariavam têm um ponto final. Cristiano Ronaldo vai assinar contrato com a Juventus nos próximos dias, experimentando assim o quarto campeonato da sua carreira.

Angelino e Mauro, pai e filho, já esfregam as mãos e suspiram. A camisola do Real Madrid com “Cristiano Ronaldo 7” que mora na parede do restaurante, ao lado da maglia de Zidane, estará desatualizada brevemente. Cristiano vai vestir de preto e branco, será bianconeri, como a cor do sangue que lhes corre nas veias. Como a nostalgia que será fabricada naquele relvado do Allianz Stadium.