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Ganhou outra vez o francês que “não trocaria isto por dinheiro ou por amor”

Ele ia com o pai ver os ralis, em miúdo, no meio do campo, mas nunca mudou de ídolo e ainda hoje tem a imagem de um piloto de Fórmula 1 no fundo do telemóvel. Sébastien Ogier ganhou o Campeonato do Mundo de Ralis pela quarta vez seguida e há 13 anos que o título é de um francês. Loeb já fugiu para o Dakar, mas parece querer ficar: “Parece ser uma grande aventura, mas não gosto de não conseguir controlar todos os fatores”

Diogo Pombo

Os festejos de Sébastien Ogier e Julien Ingrassia

Massimo Bettiol

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Os ralis têm a mania de fazer isto: tentam colocar-nos dentro do carro, fazer-nos sentir como se estivéssemos lá, a olharmos por uma câmara que está no habitáculo. É a partir dela que ouvimos, vemos e nos assustamos com o quão rápido um ser humano ordena que um carro vá, num piso cheio de terra, gravilha, água, areia e tudo o que não aconselha a que demos peso ao pé que está no acelerador. Mas há tipos que insistem a, fora de estrada, andarem à velocidade que nem uma pessoa normal, com pressa, se atreve a ir em auto-estrada.

É quase preciso ter um parafuso a menos.

Porque eles, os pilotos de rali, vão rápido, aceleram o mais que podem, puxam até ao limite os carros que nós, mortais do dia-a-dia, desaceleramos ao máximo naqueles pisos de quem chega a uma praia mais desconhecida no Alentejo. E espanta ver alguém como Sébastien Ogier agarrado ao volante, imperturbável na cara, desprovido de expressões, a conduzir com o ar de quem está a passear no jardim, a um domingo ao tarde. Isto enquanto, ao lado, tem Julien Ingrassia, um co-piloto que sente e sabe a velocidade a que vai, mas não pode olhar em frente por ter que estar a ler as instruções num bloco de notas e a ditá-las a quem conduz.

O que Ogier faz com a ajuda de Ingrassia não é nada fácil (perguntem ao Neymar), nem novo. Há dezenas de homens que, todos os anos, dão voltas ao mundo à boleia do World Rally Championship (WRC), que os põe a conduzir carros parecidos aos que podemos comprar num stand - mas melhorados em tudo - em troços de estrada mais próprios para tratores. O que este francês, de 33 anos, fez de bom foi ter conquistado o Mundial de Ralis pela quarta vez consecutiva. Ou seja, ele é rápido.

Muito, mesmo. O piloto da Volkswagen, que conduz um Polo (com 315 cavalos e tração às quatro rodas), venceu no domingo o Rali da Catalunha, antepenúltima prova do mundial. Foi a quarta vitória da época para o francês que, em pequenino, ia de mãos dadas com o pai a Monte Carlo, para assistir às provas de rali. Mas tinham que usar a televisão para verem Ayrton Senna, ídolo de ambos. O génio do brasileiro no asfalto fê-lo gostar de carros, de velocidade e de ordenar através de um volante, embora fora de estrada. “Acho que o Senna é o ídolo de muita gente no automobilismo por ter sido uma inspiração para tantas pessoas, devido ao que era como piloto, mas também como pessoa”, explicou, há dois anos.

O pai pegou-lhe o gosto pela pessoa de quem, hoje, ainda mantém uma imagem no papel de parede do telemóvel - “Tenho uma fotografia dele com o velho McLaren” -- e um “s” estampado na parte de trás do capacete. Foi com ele posto que, no domingo, fechou “uma temporada perfeita” num “carro perfeito”, regozijado por ainda ter os ralis da Grã-Bretanha (28-30 de outubro) e da Austrália (18-20 de novembro) para puxar pelo carro.

Massimo Bettiol

Os resultados nada mudarão no classificação geral do WRC que, pelo 13º ano seguido, acaba a ser liderada por um piloto francês. Depois dos nove anos consecutivos em que Sébastien Loeb foi o rei dos ralis, até se fartar e resolver ir experimentar como é competir no Dakar, pelas américas, passou a ser Ogier a dominar o mundial. Com este triunfo, o gaulês iguala os quatro títulos de Juha Kannkunen e Tommi Mäkinen, ambos finlandeses e vindos da zona do planeta que mais homens costuma produzir com jeito para os ralis, até estes dois franceses aparecerem.

O primeiro, ávido por desafios novos, dedicou-se aos ralis de longo curso, de resistência. O segundo, contudo, não parece que lhe venha a seguir o exemplo. “Parece ser uma grande aventura, mas não gosto quando não consegues controlar todos os fatores. Gosto de andar à velocidade máxima, mas preparo-me de antemão, por isso é um risco calculado. Nunca se sabe, mas agora estou concentrado no WRC”, confessou, há tempos, o agora tetracampeão mundial.

Se, por acaso, Sébastien Ogier algum dia sair dos ralis, terá de ser por aborrecimento. Porque o homem, que antes de andar nesta vida era instrutor de esqui e cuja primeira vitória até nos diz muito, por ter sido em Portugal, em 2010, disse um dia que não trocava isto por nada: “Não trocaria o WRC por dinheiro ou por amor”. Não é de estranhar, sabendo que esta frase veio da boca do mesmo homem que disse que “com 250 dias por ano nos ralis, mal há tempo para ficar aborrecido”.