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Destes é que o povo gosta...

15 UMM disputaram parte do traçado da Baja de Portalegre e foram tão ou mais aplaudidos que os primeiros classificados

Rui Cardoso

Pedro Villas-Boas, Rui Cardoso e o UMM do Dakar de 1987, no pódio da pré-partida da Baja de Portalegre.

Foto Paulo Maria/ACP

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Os UMM não são fabricados desde 1996, mas não é por isso que os amantes do todo-o-terreno os esqueceram, sobretudo quando se trata das corridas. 15 destes jipes de fabrico nacional apresentaram-se na Baja de Portalegre ao abrigo de um estatuto especial para comemorarem a 30ª edição da prova.

Do ponto de vista técnico e desportivo estão completamente ultrapassados, mas quem se rala com isso? Tive a perceção de que assim era na 5ª feira à noite, na pré-partida da prova realizada no Rossio de Portalegre. Quando o primeiro destes carros subiu ao pódio, foi uma tempestade de aplausos.

De resto, houve homenagens a todos os que ao longo dos anos se notabilizaram ou tornaram possível esta prova, como Luís Marcão, Manuel Mota e Rui Conchinha, três elementos da organização desde o primeiro ano. Paulo Marques e Marcos de Carvalho, que foram os primeiros vencedores de moto, e António Bayona/José Costa, dupla que ganhou nos automóveis em 1987. Também homenageados foram Pedro Villas Boas, fundador daquela que se tornou na mais importante prova de TT nacional, e Belo Costa, atual comandante distrital dos bombeiros e que começou a colaborar com a Baja Portalegre 500 na sua primeira edição enquanto caminheiro. Sem esquecer o único piloto que disputou todas as edições da Bajs: Fernando Branco, advogado de Ponte de Sor que já anda por aqui desde 1987.

Como referi em crónica anterior, fiz esta corrida ao lado de Pedro Villas-Boas no carro em que disputou o Paris-Dakar de 1987, ano em que se realizou também a primeira edição da corrida de Portalegre. Era, por assim dizer, o “pai” dos UMM Alter Turbo.

Não se pode pedir a um carrinho de tão provecta idade, apesar de meticulosamente restaurado (até com as pinturas originais), que seja o mais rápido do prólogo. Mas até nem se portou mal, superiormente conduzido pelo Pedro, exceto quando impurezas provenientes do depósito de gasóleo nos obrigaram a parar antes da ribeira e a purgar o filtro, operação que levou minuto e meio e nos valeu fenomenal ovação.

O pior é que o problema era crónico e foi-se agravando no resto da corrida, obrigando a operações de purga cada vez mais frequentes. No fundo, era o forro interior de espuma do depósito (à prova de fogo) que se estava a começar a desfazer.

Isso fez com que entrássemos no último troço, o de sábado de manhã, já fora de tempo e sem possibilidades de nos classificarmos. Mas quem ia perder a oportunidade de fazer o gosto ao dedo? Entrei a fundo na primeira curva larga, já muito trilhada, e o bom do UMM atravessou-se completamente, o que levou o Pedro, com a sua fleuma britânica, a dizer: “Não seria pior ligares a tração...”.

Depois, mais sangradela menos sangradela, lá fomos andando ao longo de um troço lindíssimo paralelo à Ribeira da Seda. Até que foi preciso atravessar a dita numa zona com muita água, areia quase movediça e imenso público.

Soubemos depois que já lá tinha ficado muita gente que só saíra à força de trator. Pensei: “Não é à frente deste povo todo que me vais deixar ficar mal”. Entrei com fé, de segunda a meio gás, mas depressa o carro começou a prender no fundo da ribeira e a afundar. Passei para a primeira, carreguei a fundo e o velho CQ-69-90 mostrou o que valia: sacudiu-se, saltou e entrou que nem um canguru saltitante num gancho a subir à esquerda cheio de lama, para delírio dos espetadores que deviam julgar que já não passava mais nenhum carro, muito menos aquele.

O gasóleo voltou a faltar, felizmente só 500 metros depois. Abre capô, dá à bomba manual, afrouxa o bocal de purga com uma chave 8 pela décima vez e lá voltou a pegar. A tempo de voltarmos a cruzar a Ribeira da Seda num dos pontos mais famosos da corrida, com a ponte de pedra ao lado, e subirmos para a aldeia. À vista de um controlo de cruzamento, disse então ao meu parceiro: “Desistimos aqui e telefonamos à assistência”? Não é pergunta que se faça a um homem que fundou o Clube Aventura, foi várias vezes ao Dakar e atravessou o deserto do Sahara em todos os sentidos. “Mais um bocado, saímos para o asfalto ao km 30 para ser conta certa”, respondeu ele.

Já com o Pedro ao volante, o engasgar do filtro do gasóleo tornou-se cada vez pior, até o motor se calar de vez e já nem com feitiços no filtro de gasóleo se conseguir repor a trabalhar. Não tardou que aparecessem alguns moços de mota para ajudar. Logo depois veio um Toyota da organização com gente simpática e competente que nos rebocou até ao asfalto, a tempo de desimpedir a pista para a passagem das primeiras motos.

Assim acabava, ao km 22 do road-book, a nossa corrida, onde ambos fizemos o gosto ao dedo e mostrámos ao pessoal mais novo como se luta contra a adversidade. Dos 15 UMM à partida, dois terços chegaram ao fim, incluindo Carlos Tucha Barbosa, que aqui ganhou com um carro semelhante em 1988.

Haveria melhor forma de comemorar os 30 anos desta corrida?