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A grelha de partida vista da liga dos últimos

As aventuras à chuva após a largada das 24 Horas TT de Fronteira

Rui Cardoso

O Patrol GR em mais uma curva apertada

Foto XTROD

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Acreditem em mim. Não há melhor lugar para ver a partida das AFN 24 Horas de Fronteira que das últimas filas da grelha. De repente começa tudo a andar a fundo, no meio de uma barulheira e de uma fumarada infernal mas é sol de pouca dura: logo se trava tudo a fundo para o funil constituído pelas duas primeiras curvas do circuito. É um pouco como a Av. da República em Lisboa desde que começaram as obras mas sem autocarros da Carris.

Com tanta lama e valas, sair da pista pode dar mau resultado: que o diga uma Nissan Terrano II que ficou completamente atascada logo à segunda curva. Depois, como uma cobra gigante a espreguiçar-se, a fila de carros começa a esticar-se e os primeiros desaparecem colina acima. Desaparecem mas não tardam a reaparecer: à segunda volta começo a ser dobrado pelos primeiros, num andamento verdadeiramente infernal.

É preciso inventar trajetórias inverosímeis para não dar cabo do carro, por exemplo passando por cima da terra solta e da lama para evitar buracões ou fazendo esses à saída das ribeiras para tentar fugir à “chapa ondulada”, digna das piores pistas africanas.

Só tenho dois olhos mas precisava pelo menos de três. Um para o ponteiro do termómetro para ver se desta vez o carro não começa a aquecer. Outro para o retrovisor para controlar a aproximação dos mais rápidos. E outro para avaliar o estado da pista, cheia de armadilhas, entre valas, pedras salientes e buracões.

Igual ou pior para as mãos: uma para o volante, outra para as mudanças, outra para o comando do esguicho e do limpa-vidros (que à evidência não foi desenhado por um perito em ergonomia) e, se possível, uma outra para limpar o vapor do para-brisas e a lama do espelho exterior.

Adivinharam! Se a engenharia genética desenhasse o piloto ideal para Fronteira, este teria olhos facetados de mosca e tentáculos de polvo.

Tudo isto se tornou ainda mais verdade quando, hora e meia depois da largada (que fora às 14 horas), começou a chover violentamente. Com o carro equipado com pneus próprios para pista seca, a condução fica resumida a um dilema insolúvel: guiando por dentro dos trilhos o carro começa a bater muito por baixo. Saindo destes não se anda um metro a direito e é susto atrás de susto.

Para compensar foi como na música sobre o céu de Paris cantada por Edith Piaf: para pedir perdão o São Pedro mandou dois belíssimos arco-íris. O problema é que, se enchiam o olho, não secavam a pista. Como faltavam duas voltas para acabar o turno, resolvi aguentar e não ir à box meter pneus de lama. A subir para a reta da meta, tirei uma mão do volante para tentar limpar o retrovisor e ia seguindo os trilhos de uma pick-up que duas voltas antes se enfiara até às portas numa vala muito funda.

Mas que seria uma corrida de TT sem sustos? Não tinha metade da graça.

À hora a que concluo a escrita desta crónica à cabeça da corrida vai a mesma equipa francesa que venceu o ano passado, capitaneada por Francis Lauille num protótipo Sadev Oryx, averbando nada menos de 14 voltas à terceira hora, ou seja mais seis do que nós.

Mas ainda há muito quilómetro para percorrer e a corrida só acaba domingo às duas da tarde.

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