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Dakar 2017: Decisões diferentes que não deviam ter existido

Terminada a 38ª edição do “Dakar”, é hora de reconhecer o excelente trabalho feito pela KTM (motos) e pela Peugeot (automóveis), mas também de recordar que tudo podia ter sido diferente

Pedro Roriz

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Nas motos, sem a penalização de uma hora aplicada às Honda, por abastecimento fora do local regulamentado, a vitória teria sido do espanhol Joan Barreda Bort, com Paulo Gonçalves a terminar em segundo, o que interromperia o domínio que a KTM exerce desde 2001.

E a penalização é… estranha, porque o ano passado a Peugeot fez o mesmo e não foi penalizada, o que significa que há, como muitas vezes tem sucedido, dois pesos e duas medidas, com o colégio de comissários a tomar decisões diferentes para a mesma situação, quando a solução era simples: exclusão dos prevaricadores.

Claro que excluir a Peugeot e a Honda seria complicado mas teria feito crescer o respeito pela prova, que parece estar a ficar cada vez mais “presa” ao poder das grandes marcas.

De estranhar o facto de a Honda não ter recorrido da decisão, em defesa dos seus pilotos, que mereciam ter à frente da equipa alguém que os defendesse.

Como isso não sucedeu, o inglês Sam Sunderland, que acabou o “Dakar” pela primeira vez, sagrou-se vencedor, com o australiano Toby Price, o vencedor do ano passado, a terminar no hospital, em consequência de uma queda, o que o impediu de tentar repetir o triunfo do ano passado.

Entre os portugueses, Paulo Gonçalves foi o melhor e fez uma prova que merecia outro resultado, como o demonstra o facto de ter sido quatro vezes segundo nos SS, ao contrário do que sucedeu com Hélder Rodrigues (Yamaha) apontado, à partida, como o “ponta de lança” da marca dos três diapasões, que esteve longe daquilo que já mostrou valer.

O nono lugar final acaba por ser uma magra consolação, pois esperava-se que estivesse todos os dias na discussão das primeiras posições nos SS e foi batido pelo francês Adrien Van Beveren, seu colega de equipa, uma das surpresas da prova.

Excelente 10º lugar do estreante Joaquim Rodrigues (Hero Speedbrand), que só nos últimos dias deixou de ser o primeiro dos “rookies”, posição que foi alcançada pelo argentino Franco Caimi (Honda), mas a mostrar que nos próximos anos pode voltar para discutir as primeiras posições, sendo de realçar o facto de Portugal ser o único país a ter três pilotos nos 10 primeiros.

Mário Patrão (KTM) terminou em 20º, um excelente resultado para um piloto que passou o ano a recuperar de lesões, com Gonçalo Reis (KTM) a ser 26º na estreia, mostrando, também ele, que no futuro um lugar pelo menos nos 20 primeiros é possível.

Fernando Sousa (KTM), Fausto Mota (KTM), na primeira metade da tabela, Rui Oliveira (KTM) e Pedro Bianchi Prata (KTM) completaram o lote de “motards” portugueses a completar a prova, com o último a deixar 40 adversários atrás de si.

Pelo caminho ficaram David Megre (KTM) e Luís Portela de Morais (KTM).

Nos automóveis aconteceu o esperado duelo entre os franceses Stéphane Peterhansel (Peugeot 3008 DKR) e Sébastien Loeb (Peugeot 3008 DKR), uma vez que o qatari Nasser Al-Attiyah (Toyota Hilux), que, de entrada, pareceu ser o único capaz de colocar em causa o domínio da marca francesa, cedo ficou de fora e a partir daí os pilotos da Peugeot só tiverem de preocupar-se um com o outro.

Stéphane Peterhansel, tal como no ano passado, levou a melhor e venceu pela 13ª vez em 38 edições, mas Sébastien Loeb confirmou que, quando tiver uma melhor leitura do terreno, poderá chegar à vitória, o que poderá suceder no próximo ano.

Em termos de carros, a Peugeot está um passo à frente da concorrência e foi isso que permitiu a outro francês, Cyril Despres, que não tem a rapidez dos seus compatriotas, completar o pódio.

Portugal estava reduzido a dois navegadores, com Paulo Fiúza a levar o alemão Stefan Schott (Mini All4 Racing) ao 15º lugar, enquanto Filipe Palmeiro, que estava ao lado do chileno Boris Garafulic (Mini All4 Racing), viu o sétimo lugar “fugir” na penúltima etapa, depois de uma prova ao longo da qual a dupla foi subindo na classificação de forma sustentada.

Uma referência às vitórias do chileno Ignacio Casale (Yamaha), nos Quads, e dos russos Eduard Nikolaev/Evgeny Yakolev/Vladimir Rybakov (Kamaz) nos camiões, onde José Martins, ao lado do francês Thomas Robineau e do belga Dave Berghans (Iveco), foi 29º.

E a terminar fica a certeza que em janeiro de 2018 teremos aquela que seria a 40ª edição do “Dakar”, caso a edição de 2008, que tinha partida de Lisboa, não tivesse sido anulada, por causa das ameaças efetuadas e que colocavam em causa a segurança de todos os envolvidos.

Classificação geral

MOTOS: 1.º, Sam Sunderland (KTM), 32.06’22”; 2.º, Matthias Walkner (KTM), a 32’00”; 3.º, Gerard Farres Guell (KTM), a 35’40”; 4.º, Adrien Van Beveren (Yamaha), a 36’28”; 5.º, Joan Barreda Bort (Honda), a 43’08”; 6.º, Paulo Gonçalves (Honda), a 52’59”; 7.º, Pierre-Alexandre Renet (Husqvarna), a 57’35”; 8.º, Franco Caimi (Honda), a 1.42’18”; 9.º, Hélder Rodrigues (Yamaha), a 2.03’06”; 10.º, Joaquim Rodrigues (Hero Speedbrand), a 2.19’37”; …; 20.º, Mário Patrão (KTM), a 4.04’30”; …; 26.º, Gonçalo Reis (KTM), a 5.25’11”; …; 42.º, Fernando Sousa (KTM), a 8.57’02”; …; 49.º, Fausto Mota (Yamaha), a 10.38’41”; …; 53.º, Rui Oliveira (Yamaha), a 11.11’14”; …; 57.º, Pedro Bianchi Prata (Honda), a 12.31’59”. Classificaram-se mais 40 pilotos.

CARROS: 1.º, Stéphane Peterhansel/Jean-Paul Cottret (Peugeot 3008 DKR), 28.49’30”; 2.º, Sébastien Loeb/Daniel Elena (Peugeot 308 DKR), a 5’13”; 3.º, Cyril Despres/David Castera (Peugeot 3008 DKR), a 33’28”; 4.º, Nani Roma/Alex Haro (Toyota Hilux), a 1.16’43”; 5.º, Giniel de Villiers/Dirk von Zitzewitz (Toyota, Hilux), a 1.49’48”; 6.º, Orlando Terranova/Andreas Schulz (Mini JCW), a 1.52’31”; 7.º, Jakub Przygonski/Tom Colsoul (Toyota Hilux), a 4.14’47”; 8.º, Romain Dimas/Alain Guehennec (Peugeot 3008 DKR), a 4.24’01”; 9.º, Conrad Rautenbach/Robert Howie (Toyota Hilux), a 4.40’13”; 10.º, Mohammed Abu-Issa/Xavier Panseri (Mini All4 Racing), a 4.53’30”; …; 15.º, Stefan Schott/Paulo Fiuza (Mini All4 Racing), a 7.24’32”

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