Tribuna Expresso

Perfil

Automobilismo

Meio século de prego a fundo

A uma semana da edição deste ano do Rali de Portugal o ACP lançou um livro comemorativo dos 50 anos da prova com imagens e prosas que nos deixam cheios de saudades

Rui Cardoso

Ao longo destes 50 anos o rali passou por tudo e resistiu inclusivamente a um grave acidente no troço da Lagoa Azul em Sintra

d.r.

Partilhar

Quando César Torres lançou a prova em 1967 esta ainda não contava para o Mundial de Ralis mas não era menos dura por isso. Os troços eram intermináveis, guiava-se de dia e de noite e não bastava ter jeito para o volante: era preciso sorte, inspiração e resistência física.

Vencedor desta primeira edição, José Carpinteiro Albino, num lindíssimo Renault 8 Gordini azul claro que a família conserva impecavelmente cuidado e que ainda o ano passado foi vedeta no Rali da Guarda. Três anos depois veio a internacionalização e com esta os grandes duelos entre os ases do volante, o mais memorável dos quais opôs Hannu Mikkola a Markku Alen numa interminável e emocionante noite de Sintra onde Allen terminou um troço de marcha atrás por ter arrancado uma das rodas dianteiras e arredores (suspensão, braços, etc). Sem esquecer esse ano memorável de 1982 em que uma mulher de armas deu um bigode aos calmeirões: Michèle Mouton que, além de guiar primorosamente, beneficiou de um carro revolucionário, o Audi Quattro. Até 1975 a prova foi organizada pelo Grupo Desportival da TAP passando para o ACP daí em diante.

Ao longo destes 50 anos o rali passou por tudo e resistiu inclusivamente a um grave acidente no troço da Lagoa Azul em Sintra (1986) que já se adivinhava há anos e que levara em 1981 ao fim da “noite de Sintra” por razões de segurança. Com Sintra eliminada de vez do mapa da prova, mantiveram-se, apesar de tudo, os grandes troços: Lousã, Freita, Santa Luzia, Fafe, Carvalho de Rei, Viseu, Arganil, Figueiró, com o final dos finais nos estradões de Coruche, quando os caros mais potentes mal arrancavam da tomada de tempo, descreviam um longuíssimo e espectacular “power slide”.

A prova não resistiu muito tempo à morte do seu fundador, César Torres (1997) e numa conjunção de factores adversos que talvez Torres tivesse conseguido superar e que passaram por um ano de chuva diluviana, desvarios do público, decisões menos felizes da organização e cobiça doutros candidatos à organização da prova, em finais de 2001 o rali saiu de Portugal durante longos anos.

Quando finalmente regressou em 2006, a lógica organizativa apontou para as serras do Algarve o que, se resolvia económica e desportivamente, passava ao lado de um factor fundamental: o público, como só há no Norte, de Amarante a Fafe e de Caminha a Vieira do Minho.

Agora, como nos contos de fadas, tudo acabou em bem e desde 2013 o Rali regressou ao seu ambiente natural (Alto Minho e Marão), ainda que amputado dos inesquecíveis troços de Arganil.

De tudo isto nos fala “Rally de Portugal, 50 anos” hoje lançado em Lisboa. No dizer de Carlos Barbosa, presidente do ACP, é “um livro para a História que conta tudo sobre o melhor rali do mundo”. Não foi fácil fazê-lo porque “muito espólio fotográfico do próprio ACP desapareceu e foi preciso recorrer a fotógrafos e publicações, algumas das quais estrangeiras para completar as lacunas”.

Paulo Maria, fotógrafo bem conhecido das lides automobilísticas, coordenou a edição e diversos jornalistas escreveram sobre as várias épocas da prova, como foi o caso de Nuno Branco ou António Catarino.

Ao longo das 625 páginas do livro encontram-se múltiplas histórias contadas com todos os pormenores, a começar pela origem de tudo: como Carpinteiro Albino teve como certa a vitória na primeira edição do rali quando o dominador da prova, Jean-Pierre Nicolas, ficou sem caixa de velocidades em plena serra de Sintra. E agora? Cenas dos próximos capítulos já a partir de dia 18 com a 51ª edição do rali.