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Rali com serra, mar e rio

O troço de Caminha do Rali de Portugal pode não ter tanta gente como Fafe nem ser tão rápido como Lousada, mas tem de longe a mais bonita das vistas

Rui Cardoso

Hyundai Motorsport prepara-se para lutar pelo pódio em Portugal

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Nos velhos tempos o Rali de Portugal já passava por estas serras e o troço chamava-se salvo erro Orbacém. Nestes últimos anos foi retomado com um trajecto predominantemente pela cumeada que proporciona vistas grandiosas e passou a chamar-se Caminha.

Da curva onde costuma ser montada a zona VIP vê-se tudo: as serras de Arga e Santa Luzia, Caminha e a embocadura do rio Coura, a foz do Minho e o monte de Santa Tecla já na Galiza.

Vê-se também que os incêndios do verão passado fizeram desaparecer boa parte dos pinheiros que por aqui havia, avistando-se no vale, para o lado de Freixieiro de Soutelo, algumas manchas de carvalhos e castanheiros mais resistentes às chamas.

Como acontece sempre nos troços de serra conseguem-se ver os concorrentes ao longe a dar a volta à encosta e a aproximarem-se, descendo para o fundo do vale, onde só se adivinha a passagem dos carros várias curvas de nível abaixo pelo ronco dos motores.

Sinal dos tempos, há drones a pairar sobre o gancho à esquerda onde se juntam centenas de espectadores. Quando era mais novo e (já) vinha aos ralis eram maiores e chamavam-se helicópteros.

O troço que este ano é feito ao contrário, isto é a descer nesta zona, apresentava-se com um piso magnífico na sexta-feira de manhã. Em terra mas seguramente com menos irregularidades que a A8 ao pé de Torres Vedras ou a Segunda Circular. E foi assim que os primeiros passaram que nem foguetes. Foi o caso de Sebastien Ogier da Ford, de Thierry Neuville da Hyundai ou de Kris Meeke da Citroen, vencedor do ano passado.

A olho é difícil de perceber quem está a fazer os melhores tempos. Fazendo batota, isto é, indo perguntar ao smartphone, ficámos a saber que na passagem da manhã ganhou neste troço Jari Latvala da Toyota. Como todos os pilotos da frente tem entusiastas e detractores. Um destes dizia à hora de almoço: “Pois, ele anda bem, mas o nome está mesmo a dizer lá-na-Vala, não tarda…”

A verdade é que os carros deste ano andam que se fartam e até, como referiu o histórico Markku Alen, cinco vezes vencedor do nosso rali, “voltaram a fazer barulho como deve ser”.

Um dos pontos de discussão entre a assistência é recorrente: será que os actuais pilotos se entenderiam com os carros dos anos 70 com direcções assistidas a bife e caixas de velocidades manuais? Ou serão os actuais carros, cheios de patilhas e botões, feitos para só serem guiados por pilotos que já nasceram com a playstation na mão? As opiniões dividem-se e tal como na fábula do ovo e da galinha o mais certo é ninguém ter razão…

Por volta das cinco da tarde há nova passagem neste troço e depois ala para essa coisa divertida que é um mini-troço nas ruas de Braga, que nada decide em termos de classificação mas é espectáculo garantido.

Quem disse que na prova organizada pelo ACP e que este ano tem a sua 51ª edição já estava tudo inventado?