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Dentro do Marão ganham os que lá estão

Um troço à antiga, o de Amarante, quase com 40 km, pode ter deixado o Rali de Portugal quase decidido

Rui Cardoso

Massimo Bettiol/Getty Images

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Antigamente, quando o rali era uma espécie de volta a Portugal, o troço mais temido era o de Arganil: quase meia centena de quilómetros pelo meio da Serra do Açor, muitas vezes de noite, onde um furo, uma avaria ou uma saída de pista podiam subverter completamente a classificação.

Foi um pouco o que o troço de Amarante fez na 51ª edição do Rali de Portugal ao fim da manhã de sábado, ao cavar uma diferença até então ainda não atingida (passando das décimas de segundo para minutos) entre o novo comandante (Sebastien Ogier em Ford Fiesta) e os seus perseguidores, com o anterior líder e seu companheiro de equipa Ott Tanak a ter um toque de traseira e a perder muito tempo nesta especial.

Este troço, todo disputado no Marão, é uma das novidades desta edição e atraiu muitos milhares de pessoas à serra. Vendo estas paisagens grandiosas é preciso algum auto-domínio para não começar a escrever piroseiras do género “isto desperta o Torga que há em nós”.

Mas que é grandioso, é, de facto. Até a escala dos incêndios florestais é outra e ainda assim há verde, casas, gado a pastar e, claro, como em qualquer dia de rali, gente a pé pelos carreiros acima e jipes carregados de entusiastas e grades de cervejas a infiltrarem-se no perímetro da prova, descendo íngremes corta-fogos até aos melhores miradouros sobre o estradão onde passam os concorrentes.

Por imperativos de segurança, muitas vezes aplicados com algum excesso de zelo, já não conseguimos ver a prova onde queremos como antigamente. Com a concentração do público nas chamadas zonas-espectáculo nem sempre a polícia nos deixa escolher sítios bonitos com boas linhas de observação, mesmo não representando qualquer tipo de perigo.

Mas se esta é a má notícia a boa é que passou a haver as chamadas zonas VIP onde, mediante bilhete ou convite das marcas, há todas as mordomias: estacionamento organizado, bancadas, bar e até ecrãs gigantes onde, como sexta-feira em Braga e sábado no Marão, podemos ter um olho na pista e outro na transmissão, o que nos permite subverter o velho provérbio chinês e vermos simultaneamente a árvore e a floresta.

Foi assim que ouvindo o meu amigo Fernando Petronilho na RTP fiquei a perceber que, afinal Ogier não tinha passado tão mal como me dera ideia do meu ponto de observação, ao ponto de ganhar o troço, e que Tanak que passara por mim a voar baixo, afinal dera cabo do carro no final do troço de Amarante.

Isto dos VIP é mais complicado do que parece. Distinguem-se dos entusiastas normais do rali por terem acessos e parque exclusivos mais as tais bancadas. Mas depois há sub-categorias, pois consoante a assinatura que tiraram, têm direito a um só dia ou a todos, a almoço e copos ou a governarem-se com o que levaram, a irem de vai-vem ou no seu carro e, verdadeiramente no topo da cadeia alimentar, a irem de helicóptero até ao troço.

Em todos os casos, mesmo com entradas rigorosamente controladas, há “overbooking” nas bancadas como foi patente nas ruas de Braga e em Amarante. Mas aqui não é como naquelas malfadadas companhias de aviação que, alem de venderem bilhetes a mais ainda maltratam os passageiros. Aqui, trocam-se lugares por cervejas e bonés e com boa vontade cabe sempre mais um. Isto é que é rali!