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“Os campeões de hoje não são piores que os antigos”

Michel Nadan, director desportivo da Hyundai Motorsport

Rui Cardoso

D.R.

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Foi engenheiro-chefe na equipa Peugeot, passou pela Toyota e Suzuki e desde 2013 é director desportivo da Hyundai Motorsport. Michel Nandan, nascido no Mónaco em 1958, conhece todos os segredos do mundo dos ralis e esteve uma vez mais em Portugal, dirigindo a equipa coreana. Falou sexta-feira à noite ao Expresso e explicou que a competitividade deste campeonato do mundo de ralis e da prova portuguesa em particular é das maiores de sempre e que, sem prejuízo da evolução técnica, os ases do passado não se envergonhariam dos seus sucessores.

Está satisfeito com o desempenho da equipa da Hyundai na 51ª edição do Rali de Portugal?
Em termos gerais, sim. É certo que (Hayden) Paden teve um problema eléctrico grave, talvez um cabo seccionado, que o afastou da luta pelos primeiros lugares mas Dani (Sordo) e Thierry (Neuville) continuam bem posicionados. Alterámos os carros para as segundas passagens em Caminha e Ponte de Lima porque já havia algumas pedras e regos que poderiam dar problemas. Thierry perdeu tempo no pó de Latvala que ia muito devagar depois de ter capotado mas os comissários técnicos devolveram-nos 11 segundos, o que o recoloca a uma distância aceitável do líder.

E a etapa nas ruas de Braga? Foi um risco calculado?
Estas etapas são importantes porque funcionam muito bem na televisão e atraem muitíssimo público. Apenas me pareceu que nalguns pontos a pista era demasiado estreita e aqueles separadores em betão não eram lá grande ideia…

Concorda com os que dizem que os velhos ralis dos anos 70 é que eram provas a sério e que agora é tudo uma questão de electrónica?
As coisas são sempre relativas. Claro que antigamente havia grandes pilotos como Alen, Sainz ou Mikkola. Mas basta ver como neste rali de Portugal ao fim do primeiro dia na estrada havia apenas 11 segundos a separar os cinco primeiros e a liderança mudava de troço para troço. As máquinas de hoje são tecnologicamente mais evoluídas mas também se conduzem mais perto do limite. Antigamente era mais uma questão de fiabilidade e agora tudo se disputa ao sprint. Nos anos 70 as equipas podiam reconhecer os troços em carros parecidos com os da prova e fazê-lo duas dúzias de vezes. Agora há duas passagens, em carros de série e a 70 km/h. É preciso fazer extrapolações para tirar notas e nisso, de facto, o vídeo ajuda muito.

E com tanta tecnologia os ralis têm futuro?
Diria que, sim, ainda por muitos anos. Hoje há muito mais cuidado com o impacto das provas, seja no terreno, seja junto de quem mora lá ao pé. Claro que os carros vão continuar a evoluir. Já há híbridos e eléctricos nos circuitos e um dia chegarão aos ralis. Mas não vai ser já.

Uma marca que põe os seus carros a correr nos troços ao fim de semana e tem milhares de pessoas a vê-los espera vender mais uns exemplares na segunda ou na terça-feira?
Bom isso nunca foi assim tão simples mas é inegável que a parte desportiva e sobretudo o sucesso desportivo reforçam a imagem das marcas de automóveis e isso em última análise há-de se reflectir na aceitação junto do público. Repare como o i20 de série até tinha as dimensões ideais para ser a base de um carro de ralis…