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Rali de Portugal: faça-se justiça a Fafe 

Foi com o mais bonito e emocionante troço da prova que terminou a 51ª edição do Rali de Portugal. Ogier iguala Markku Alen

Rui Cardoso

Rodi Mitsoura

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A peça coral Lacrimosa da 3ª secção do requiem de Mozart, sendo sublime, é-o ainda mais ouvida no Royal Albert Hall num Concerto Promenade. Acreditem porque eu estive lá.

O mesmo se passa com o troço de Fafe: quem nunca assistiu aos carros a serpentearem pela descida do Confurco ou a voarem no Salto do Pereira não pode dizer que viu o Rali de Portugal.

Michele Mouton, vencedora da edição de 1983 sabe melhor que ninguém o que isto é: comoveu-se em 2012 quando voltou a Fafe e viu os milhares de pessoas que esperavam a passagem dos carros serra acima. E ainda não era rali a sério, era só um simulacro…

A 51ª edição do Rali de Portugal, uma vez mais organizada pelo ACP, não podia terminar senão ali: duas passagens, uma logo às nove da manhã e outra ao meio-dia, com o aliciante de ser o “power stage”, ou seja de uma vitória neste troço poder ter ainda mais peso na classificação do campeonato.

É uma verdadeira sinfonia de rali. Primeiro uma zona rápida serpenteando entre eólicas pela curva de nível. Depois o alucinante salto do Pereira onde os mais rápidos voam literalmente durante dezenas de metros, não se percebendo como é que as torres dos amortecedores não saem pelas cavas das rodas ao aterrar.

Mais uma centenas de metros pelo planalto e começa a sinuosa e escorregadia descida que vai levar a uma entrada acrobática no asfalto da estrada Moreira de Rei-Cabeceiras de Basto seguida de um slide a subir para novo estradão e a serpentear a toda a velocidade vertente acima. Finalmente o topo, novo salto, o da Pedra Sentada, e a tomada de tempo. É de cortar a respiração, esteja-se em que local se estiver.

Até no sofá! O surrealista sofá vermelho que aparece no anúncio da Vodafone filmado no troço de Fafe com José Pedro Fontes e Inês Ponte (votos de pronto restabelecimento para ambos após o acidente de sexta-feira) não é um delírio do guião.

Existe mesmo – não daquela cor e muito menos no meio da pista – por obra e graça de um grupo de maduros que faz questão em ficar bem sentado a ver passar os carros. E outros (ou os mesmos?) fazem igual na etapa da Volta a Portugal em Bicicleta na Senhora da Graça…

No Confurco, no tal sítio onde se entra e sai do asfalto, há um anfiteatro natural dividido a meio pelo troço. Os milhares de fãs que para ali vão, muitas vezes de véspera com armas e bagagens, têm que se entreter com alguma coisa, tanto mais que como dizia D. Francisco Manuel de Melo a propósito de um escudeiro da corte, “é ele(s) a entrar(em) no vinho e o vinho a entrar nele(s)”.

Resultado: gritos e cânticos ao desafio de um lado para o outro da encosta – ou não estivéssemos no Minho, a capital das desgarradas – e esta extraordinária inovação dos últimos anos que é um dueto de motosserras, cada uma de seu lado da serra.

No começo do troço onde me encontrava na bancada especial e com ecrã gigante à frente pude ver o sprint final do estónio Ott Tanak (Ford) que fez o melhor tempo no troço e o magnífico exercício de gestão de Sebastien Ogier (Ford) que o levou à 5ª vitória no Rali de Portugal (primeira a norte), o que iguala o recorde de Markku Alen.

E ainda deu para ver no ecrã, no salto da Pedra Sentada, depois de alguns ameaços dos melhores carros, Ogier incluído, um monumental capotanço de um Skoda do WRC 2, felizmente sem consequências, alem de atrasar o resto da prova.

É claro que os melhores carros têm 380 cv, tracção integral e diferencial central inteligente mas a voar 30 m (é verdade, havia lá marcas como no triplo salto) a aterragem, mesmo pela mão de ases do volante, pode ser de arrepiar…

Ralis há muitos mas como canta um hino que eu cá sei, Fafe “nunca encontrou rival, neste nosso Portugal…”

O duelo entre Sebastien Ogier (Ford)

Thierry Neuville (Hyundai) voltou a repetir-se na última passagem pelo troço de Amarante que encerrou, este sábado, a segunda e penúltima etapa do Vodafone Rally de Portugal. Como sucedeu ao longo da maior parte do dia, foram eles os principais protagonistas de uma jornada que continuou animada e permitiu acentuar as diferenças entre os primeiros. Ogier e Neuville vão partir este domingo para a última etapa, com quatro classificativas (e um total de 42,93 km) na região de Fafe separados por 16,8 segundos. À priori, tudo indica que o tetracampeão mundial Ogier, que comanda destacado o campeonato, dificilmente deixará escapar a vitória na prova organizada pelo Automóvel Clube de Portugal, o que lhe permitiria igualar o recorde (5 vitórias) do finlandês Markku Alen.