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Jorge Lorenzo e uma conversa sobre rock, Messi, Ronaldo e tubos de escape

Três vezes campeão do Mundo em MotoGP pela Yamaha, Jorge Lorenzo mudou-se esta temporada para a Ducati. A adaptação à temperamental Desmocedici não tem sido suave e o espanhol de 30 anos, metade deles a competir, não tem problemas em o admitir, numa conversa em que houve espaço para mais do que motos

Lídia Paralta Gomes

Dan Istitene/Getty

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Uma das coisas chatas de se conversar com uma das maiores estrelas do Mundial de MotoGP com um jornalista estrangeiro ao lado é que este pode querer puxar a brasa à sua sardinha. Neste caso, a sardinha do colega esloveno era uma conhecida marca de tubos de escape made in Eslovénia que Jorge Lorenzo usa na sua Ducati.

Ele há sardinhas e sardinhas.

O espanhol, cinco vezes campeão do Mundo (duas vezes nas antigas 250 cc. e três na categoria principal, o MotoGP), que não é conhecido por ser o mais afável dos pilotos, abriu um sorriso.

“Vocês fazem um belo tubo de escape! Também usava um num carro que tinha, um BMW. Agora conduzo um Audi, mas não mudei o tubo. Porque estou a ficar mais velho e não gosto de demasiado barulho”.

Aos 30 anos, não se pode dizer que o espanhol seja exatamente “velho”, mas a verdade é que já anda nesta roda viva que é o Mundial há metade, ou seja, 15 anos. Esta temporada tomou uma das mais importantes decisões da carreira: após uma ligação de nove anos à Yamaha, que rendeu três títulos mundiais, mudou-se para a Ducati, emulando o percurso que, no final da década passada, fez também o seu antigo colega de equipa (e pessoa que não adora) Valentino Rossi.

A Desmosedici é uma das mais míticas máquinas do Mundial, mas também uma das mais temperamentais. É italiana, lá está. E a verdade é que os primeiros tempos para Lorenzo na Ducati não têm sido um passeio na praia, como nos revela em Barcelona, onde este fim de semana se corre mais uma prova do Mundial de MotoGP.

“É uma moto muito especial e, face à Yamaha, necessito do oposto em termos de condução para ser competitivo. Ainda estou a tentar perceber o que é preciso para tirar o máximo da moto”, confessa com grande sinceridade, detalhando aquilo que ainda lhe vai moendo a cabeça cada vez que monta a sua Ducati. “Tens de mudar a forma como vês a curva. Ou melhor, com que velocidade podes fazer as curvas. Com a Yamaha, para ser rápido eu sacrificava a entrada, para depois preparar a saída. Com a Ducati tens de travar muito tarde, entrar na curva o mais rápido que conseguires e esquecer a saída da curva”, conta.

No fundo, o que Lorenzo nos quer dizer é que, nove anos volvidos, tem de aprender a ser um novo piloto e isso demora o seu tempo: “Tenho de mudar completamente - e para sempre - a forma de correr que tinha”. Para já, o melhor resultado da temporada do piloto nascido em Palma de Maiorca é um 3.º lugar. No Mundial de pilotos é 7.º, a 59 pontos do líder, Maverick Viñales, precisamente o piloto que o substituiu na Yamaha.

Após nove anos e três títulos na Yamaha, Lorenzo aceitou um exigente desafio chamado Duca

Após nove anos e três títulos na Yamaha, Lorenzo aceitou um exigente desafio chamado Duca

Dan Istitene/Getty

Com tudo isto - e por ‘isto’ leia-se começar de novo e gerir a frustração quando os resultados tardam em aparecer - é preciso relaxar. Perguntamos a Lorenzo o que faz nos poucos momentos em que não tem de pensar no próximo Grande Prémio. A primeira resposta que nos dá é um “dormir!”, com ponto de exclamação imaginário que se nota no entusiasmo da sua voz. Mas há mais. “Gosto de videojogos, de ouvir música e ler livros que me ensinem algo”, conta. Quanto a música, a preferência vai para o rock: “Coldplay, Red Hot Chili Peppers, Oasis. E Beatles, gosto muito dos Beatles!”.

Quanto à preparação, Lorenzo revela que deixou de praticar boxe, que em tempos tanto o ajudou a manter o foco, nomeadamente em 2015, quando foi um dos atores da luta entre Valentino Rossi e Marc Márquez. Numa batalha encarniçada pelo título com Lorenzo, Rossi acusou Márquez de ajudar o compatriota, prejudicando-o em vários grandes prémios. Lorenzo acabaria por vencer o título, mas a relação com Rossi enquanto colega de equipa ficou irremediavelmente arruinada. E sabendo que é impossível combater o mediatismo do transalpino, Lorenzo arrumou as coisas e seguiu o seu caminho.

“Deixei o boxe porque não quero magoar a cara”, justifica, meio a sério, meio a brincar. O motocrosse, que faz parte da preparação de boa parte dos seus colegas, também não é para si: “É muito arriscado por causa dos saltos”. Que o diga Valentino Rossi, que há duas semanas caiu durante um treino de motocrosse, acidente que lhe provocou lesões no tórax e abdomen. “Agora faço algo similar ao motocrosse, mas sem os saltos. E ando de bicicleta também, é muito bom para a saúde”.

Sobre a grande questão deste nosso tempo, Lorenzo também tem algo a dizer. Uma opinião sensata de quem nunca teve exatamente muitas papas na língua. “Messi ou Ronaldo? Aprendo com os dois. Gosto do Messi porque é talento puro e porque ele gosta da bola, adora a bola. É a obsessão dele. E do Ronaldo porque nunca está satisfeito consigo próprio. É um perfecionista e trabalha muito para ser o melhor”.

O melhor, aquilo que Lorenzo quer voltar a ser. Até lá, nesta nova vida na Ducati, há um caminho a fazer. Jorge espera que não seja muito longo e que ainda esta temporada possa saborear o champanhe no lugar mais alto do pódio. “Gostava de agradecer o apoio e a fé que a equipa tem em mim com uma vitória. O mais depressa possível”, diz. E não coloca de parte que aconteça já este fim de semana, em Montmeló.

“Estou a trabalhar para isso”, garante-nos, em jeito de promessa.

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